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Tempo Social

versão impressa ISSN 0103-2070versão On-line ISSN 1809-4554

Tempo soc. vol.28 no.2 São Paulo mai./ago. 2016

https://doi.org/10.11606/0103-2070.ts.2016.110857 

Dossiê - Classes sociais e desigualdades: sociabilidade, cultura e política

Apresentação

Edison Ricardo Bertoncelo1 

Virgílio Borges Pereira2 

1Universidade de São Paulo, Brasil. E-mail: edison_ricardo@uol.com.br.

2Universidade do Porto, Portugal. E-mail: jpereira@letras.up.pt.


O tema deste Dossiê tem um inegável traço clássico. Nos escritos de Marx e Engels, as classes sociais, entendidas como posições dentro das relações de produção, figuravam como os principais agentes de transformação social. A famosa passagem d'O manifesto comunista (Marx e Engels, 1998, p. 8), em que se lê que "[a] história de todas as sociedades até agora tem sido a história da luta de classes", é bastante elucidativa da importância das relações de classe, da perspectiva marxiana, para a compreensão da dinâmica dos conflitos políticos e da mudança social.

Max Weber também conferiu centralidade à análise de classe para a compreensão da distribuição de poder e das relações de dominação na sociedade. Em Economia e sociedade, o autor apresenta uma perspectiva multidimensional da estratificação social, em que a classe (mais especificamente, a "situação de classe") é entendida, ao lado de status e partido, como um determinante causal das oportunidades típicas dos indivíduos de se apropriar dos bens materiais e imateriais escassos e valorizados, sobretudo no contexto de sociedades capitalistas com economia de mercado. Em seus estudos empíricos e escritos políticos, Weber nos oferece análises primorosas das conexões empiricamente observáveis entre essas diferentes formas de distribuição de poder e das relações de dominação que as sustentam.

O tema das classes sociais, portanto, está firmemente ancorado na tradição clássica da sociologia. E mais: esse tema está profundamente imbricado à gênese de estilos de investigação que marcaram a origem de diferentes tradições sociológicas nacionais. No Brasil, a análise de classe surgiu como um "estilo de fazer sociologia", dominante entre as décadas de 1960 e 1970, que consistia em "interpretar e explicar os fenômenos sociais a partir do comportamento e das atitudes de atores coletivos, referidos, direta ou indiretamente, às classes sociais [...] (Guimarães, 2012, pp. 14-15). Uma dinâmica similar marcou a gênese da sociologia britânica, conforme se poderá ler no artigo de Mike Savage publicado neste Dossiê. A sociologia portuguesa, não obstante as dificuldades a que a plena integração do conceito esteve sujeita no período da sua gênese anterior à Revolução de Abril de 1974, terá também no trabalho em torno das classes sociais, e uma vez institucionalizada a disciplina na universidade, um dos seus domínios fundadores (Machado, 2009).

As perspectivas analíticas que estruturam o campo de estudos de classe atualmente apropriam-se de elementos diversos dessa tradição clássica (Bertoncelo, 2009). Por isso, é muito frequente que tais perspectivas sejam designadas por termos que remetem a uma filiação primordial, qualificados pelo prefixo "neo" (neoweberiana, neomarxista e neodurkheimiana). Estas, ao lado da perspectiva de análise influenciada pelos estudos de Pierre Bourdieu, dão corpo às principais linhas de investigação empíricas nesse campo de pesquisa. Apesar desse solo comum, que potencialmente cria muitas oportunidades para interlocução, o fato é que tais perspectivas têm se desenvolvido em direções muito diferentes. Por isso, o conceito de classe (e os processos e as relações que se buscam apreender por meio dele) passou a significar coisas muito diferentes, dependendo da perspectiva empregada (Crompton, 2003).

Impõe-se, nessa perspectiva, dar continuidade a essa leitura atenta dos caminhos que a sociologia das classes sociais tem prosseguido no país e fora deste, com objetivos de sistematização teórica e de estabilização de procedimentos metodológicos, mas também de comparação de resultados de pesquisa empírica e de clarificação dos debates científicos que atravessam a disciplina, não perdendo de vista a importância social investida no tema. O conjunto de trabalhos que compõem este Dossiê pode ser entendido como um contributo, necessariamente preliminar, para esse esforço de continuidade - combinando reflexões e estudos recentes, com múltiplas perspectivas, sobre o Brasil e sobre outras realidades nacionais - e, ao mesmo tempo, como uma demonstração do valor heurístico e da vitalidade dos percursos analíticos assim percorridos.

O artigo de Edison Ricardo Bertoncelo, "O espaço das classes sociais no Brasil", explora um argumento central à perspectiva bourdieusiana, que é a ideia de que a sociologia se apresenta, num primeiro momento, como uma espécie de "topologia social". Isso significa que a sociedade é representada sob a forma de um espaço, construído com base nos princípios de diferenciação constituídos pelo conjunto de propriedades atuantes em um universo social e que conferem poder a seus detentores. Essas propriedades correspondem às diferentes formas de capital (econômico, cultural, social e simbólico). O espaço social afigura-se como multidimensional, em que as posições são relacionalmente definidas conforme se distribuem os diferentes capitais possuídos pelos agentes, em termos de volume, composição e modalidade de apropriação. Classes sociais são, nesse primeiro momento da análise, conjuntos de agentes que ocupam posições relativas vizinhas no espaço social. São, portanto, "classes no papel" (constructos analíticos), mas também classes prováveis. As classes sociais assim construídas não existem como grupos reais, embora possam constituir-se como grupos práticos (Bourdieu, 1987). Em seu artigo, Bertoncelo faz uma tentativa de reconstrução do espaço das classes sociais no Brasil, entendido como estrutura de relações objetivas que está na origem dos esquemas de percepção, classificação e ação que orientam a prática e também como um conjunto de lugares estratégicos a partir dos quais os agentes lutam em torno da apropriação (e valorização) do capital e da imposição dos princípios de classificação e de (di)visão do mundo. Os dados utilizados são extraídos da pesquisa Dimensões Sociais da Desigualdade. Embora seja uma fonte secundária (portanto, não construída conforme a problemática que orienta o estudo), a pesquisa possibilita a construção de indicadores que permitirão reconstruir as posições ocupadas pelos agentes de um ponto de vista relacional. O método de análise combina análise de correspondências múltiplas (acm) e análise hierárquica de cluster, combinação que permite ao estudo delimitar indutivamente as prováveis fronteiras que separam conjuntos de agentes no espaço social.

Em "Gosto musical e pertencimento social: o caso do samba e do choro no Rio de Janeiro e em São Paulo", Dmitri Fernandes e Carolina Pulici submetem à prova empírica argumentos centrais aos estudos de classe de Pierre Bourdieu, que dão conta da existência de homologias entre o espaço social e o espaço simbólico e do gosto como uma espécie de retradução simbólica de diferenças objetivamente inscritas nas condições de existência dos agentes (Bourdieu, 1979). Além disso, o artigo faz uso de outro conceito central à obra de Pierre Bourdieu, que é o conceito de campo (Bourdieu, 2005). Um campo refere-se a um microcosmo relativamente autônomo da prática social (campo da política, da economia, da arte etc., por exemplo), estruturado por regras (tácitas) que regulam a acumulação e a alocação dos recursos (capitais) entre os agentes, regras que expressam, em um dado momento, as relações de força que se estabelecem em torno do valor dos capitais e da taxa de conversão entre eles. No artigo em questão, os autores empregam esse conceito para reconstruir o espaço da produção do samba e de seus diversos subgêneros, chamando atenção para as disputas (entre produtores e consumidores, com mais ou menos poder dentro do campo) em torno da legitimidade dessas diferentes manifestações do samba e para a hierarquia cultural entre esses subgêneros resultante dessas disputas. Conforme a hipótese dos autores, construída em diálogo crítico com a ainda recente mas já vasta literatura sobre onivorismo cultural, o espaço de produção do samba estaria em relação de homologia com o espaço das classes sociais, o que significa que as manifestações (tidas como) mais legítimas do samba, o choro e o samba tradicional, tenderiam a ser apropriadas por agentes dotados de capitais escassos no espaço social. Em contrapartida, os subgêneros desqualificados como menos legítimos pelas autoridades simbólicas do campo (como o pagode) tenderiam a recrutar como consumidores preferenciais os agentes mais destituídos dos capitais relevantes nesse espaço. Os dados utilizados no estudo foram produzidos pela aplicação de questionários estruturados a uma amostra não representativa (mas teoricamente pertinente) dos públicos frequentadores de casas de espetáculo nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, voltadas à difusão dos diferentes subgêneros do samba.

Carlos Antonio Costa Ribeiro e Vinicius Pinheiro Israel atualizam, em seu artigo "Voto assimétrico, classes e mobilidade social no Brasil", uma problemática clássica das ciências sociais, que tem a ver com "a relação entre formação e ação de classe, de um lado, e a extensão da mobilidade entre posições sociais, de outro" (Goldthorpe et al., 1987, p. 5). Essa problemática foi inicialmente abordada por Marx ([1852] 1978), como mencionam os próprios autores no artigo, quando ele trata das consequências que a fluidez das fronteiras de classe nos Estados Unidos de seu tempo teriam para a organização e consciência de classe do proletariado. Tal problemática está igualmente presente em Weber, sobretudo quando ele incorpora a questão da mobilidade social à definição de classe social, como sendo "a totalidade daquelas situações de classe entre as quais uma mudança pessoal [ou] na sucessão das gerações é facilmente possível e costuma ocorrer tipicamente" (Weber, 2012, p. 199). E mais: dialogando com Marx, Weber sugeria que a unidade de classe do proletariado seria "facilitada" pelo menor trânsito da condição de trabalhador assalariado para a condição de pequeno-burguês. Retomando as discussões em torno dessa problemática que se desdobraram em estudos mais recentes, Ribeiro e Israel investigam a importância das experiências de mobilidade e imobilidade social para o voto no segundo turno da eleição presidencial de 2006 (disputado por Lula e Alckmin). O artigo constrói um rico diálogo com teorias recentes sobre o voto, buscando responder a questões que surgem do confronto entre essa literatura e aquela sobre mobilidade social - o que é mais determinante para o voto de um indivíduo que experimentou mobilidade social: sua posição de origem ou de destino? Faz diferença o sentido da mobilidade, para cima ou para baixo, na formação do voto? As respostas a essas e a outras questões são criteriosamente submetidas à prova empírica, por meio de uma análise quantitativa inovadora de dados extraídos da pesquisa Dimensões Sociais da Desigualdade.

Por fim, a seção nacional deste Dossiê inclui um artigo do sociólogo Antonio Sérgio Alfredo Guimarães, "Formações nacionais de classe e raça", que trata das interseccionalidades entre classe social e raça. O artigo inscreve-se em um conjunto crescente (embora relativamente recente) de estudos que investigam as conexões empiricamente observáveis entre princípios de diferenciação social. Essa problemática, como a descrita no parágrafo anterior, também nos remete, de algum modo, à tradição clássica da sociologia, como o próprio autor reconhece quando afirma que, seguindo a trilha aberta por Weber, "fica claro [...] que a formação dos grupos sociais constitui processo histórico complexo [...] que, no mundo contemporâneo, em cada sociedade nacional tem seus pressupostos". Ou seja, para o autor, se quisermos dar conta dos "processos sociais reais", devemos considerar que a formação de grupos sociais se dá num contexto de múltiplas determinações e interações. Então, caberia à pesquisa empírica investigar como os princípios de diferenciação social (gênero, raça, etnia, classe, geração) concorrem ou convergem na delimitação de fronteiras sociais e simbólicas e como tais princípios são mobilizados nas disputas políticas em torno das classificações sociais e da divisão do mundo social. De fato, quando o autor distingue os processos de racialização e de formação racial, ele está chamando atenção, entre outras coisas, para as disputas classificatórias, que são eminentemente lutas políticas. E para pensar esses processos de formação de grupos sociais (com base nas interseccionalidades de classe, raça etc.), o autor defende que sejam considerados os pertencimentos nacionais. A controvérsia em torno da unidade de análise dos estudos de classe (e também de estratificação social) tem só aumentado nos últimos anos. Para o autor, "ainda que para o desenvolvimento de uma teoria analítica mais abrangente seja necessário pensar transnacionalmente, as análises históricas precisam ser demarcadas por contextos nacionais". Então, os processos de formação de grupos sociais devem atentar para as especificidades nacionais. Ao mesmo tempo, essa escolha não descuida da natureza processual e dinâmica da formação dos grupos sociais. De fato, este é um dos principais argumentos que o artigo discute: as mudanças nos significados simbólicos das categorias de raça/cor na sociedade brasileira são produto de uma construção política que tende a privilegiar a formação racial em confronto com outros tipos de pertencimento ou de laços de solidariedade.

Em "The fall and rise of class analysis in British sociology, 1950-2016", Mike Savage, um dos mais profícuos sociólogos britânicos da atualidade e, ao mesmo tempo e nessa qualidade, um dos mais persistentes estudiosos de classes sociais que a sociologia conheceu nas últimas décadas, apresenta e discute uma leitura sobre a trajetória que a análise de classes sociais seguiu na ciência social e, em particular, na sociologia britânica desde o pós-Segunda Guerra Mundial. Salvaguardando a relevância da relação entre a construção acadêmica e a percepção pública - ambivalente e com inevitáveis implicações políticas - do conceito de classe, ao analisar as modalidades da respectiva construção em três gerações de cientistas sociais britânicos, Mike Savage demonstra a gama diferenciada de prioridades analíticas que esteve subjacente à dinamização do conceito. Para a geração "heroica" de cientistas sociais britânicos que desenvolve os seus trabalhos entre o final da guerra e meados dos anos de 1970 (com os quais e em cuja tradição Savage fará sua formação inicial, sendo provavelmente um dos últimos a protagonizar tal processo), o conceito de classe está fortemente vinculado a uma leitura da classe operária como agente de transformação social. A tradição de estudos fundada nessa perspectiva será, entre meados dos anos de 1970 e o final dos anos de 1990, progressivamente, substituída por uma outra linha de análise que, sensível às recomposições na estrutura social britânica e às mudanças profundas na cultura de classe operária, reorienta suas prioridades de pesquisa, definindo e construindo o conceito de classe como variável discreta, afastada das relações de exploração e dominação, a partir de operações de grande complexidade técnica que, entre outros efeitos, e ainda que garantindo ganhos em matéria de comparação internacional, fará diminuir parte da capacidade analítica do conceito no estudo da desigualdade econômica, por exemplo, e o próprio interesse e a atenção pública de que as divisões de classe são alvo. Coincidindo, entre outros aspetos, com o reconhecimento científico e público do crescimento das desigualdades econômicas e de sua vinculação com processos de crise de reprodução de identidades de classe, a recepção mais intensa e sistemática dos trabalhos de Pierre Bourdieu sobre classe e cultura (Bourdieu, 1979) na sociologia britânica, no início dos anos 2000, será contemporânea de uma alteração significativa no tratamento do conceito de classe, abrindo-se à pesquisa, nomeadamente, na sequência dos trabalhos que conduzirão à produção de Culture, class, distinction (Bennett et al., 2009), de que Mike Savage é um dos coautores, não só a uma análise intensa dos aspectos culturais e simbólicos de formação das classes, mas também aumentando e renovando o interesse de audiências mais vastas pelos debates decorrentes do uso do conceito, como o Great British Class Survey e o recém-publicado Social class in the 21st century (Savage et al., 2015) demonstram.

O artigo de Frédéric Lebaron e Phillippe Bonnet, "L'espace des pratiques culturelles: de la construction de l'espace social à l'étude de sous-groupes par l'analyse spécifique de classes", retoma o debate sobre as relações entre classe e cultura e examina a atualidade das proposições teóricas decorrentes das teses apresentadas e discutidas em La distinction (Bourdieu, 1979) a partir da análise dos dados de um grande inquérito oficial francês sobre práticas culturais realizado em 2003. Construído com base na dinamização da mesma técnica de análise de dados utilizada por Bourdieu, a técnica de análise de correspondências múltiplas, Lebaron e Bonnet implementam a sua análise explorando as potencialidades contidas na técnica e em seus desenvolvimentos sob a forma de análise geométrica de dados, em que são especialistas reconhecidos (Lebaron e Le Roux, 2015). De fato, o artigo propõe a construção de um espaço de práticas culturais com base na referida técnica e examina, com detalhe, suas lógicas constitutivas revelando, entre outros aspectos, divisões relevantes entre práticas culturais "intensas" e "frágeis", entre culturas "jovens" e "tradicionais" e entre culturas de orientação para o espaço "doméstico" e outras de orientação para o "exterior". Em articulação com esse procedimento, a investigação analisa as relações com a cultura a partir do espaço dos indivíduos e discute, em seguida, as relações entre cultura e pertença de classe, relevando a importância de que se revestem os diferentes esquemas de análise de classes para o perfil de conclusões produzido. O encadeamento argumentativo abre o estudo a uma variante da análise geométrica de dados, a análise específica de classe, aplicada, neste caso, a operários e quadros, que permite verificar variações finas no interior de cada uma das classes assim perspectivadas. Mais que conclusões, os referenciais construídos são encarados como pontos de partida para novas explorações analíticas que apelam ao trabalho qualitativo suplementar.

É também a partir do legado sociológico de Pierre Bourdieu que Virgílio Borges Pereira, em "Classes sociais e simbolização na cidade do Porto: elementos teóricos e resultados de pesquisa empírica", desenvolve a sua análise, procurando salientar, neste caso, a importância de que se pode revestir o trabalho do autor francês para o conhecimento dos processos de estruturação de classe e da respectiva relação com a cultura na cidade contemporânea. Para além de revisitar alguns dos referenciais heurísticos que, para este efeito, se podem encontrar na obra em questão, o artigo demonstra o potencial de pesquisa associado à sua mobilização no desenvolvimento de um trabalho sociológico sobre a cidade do Porto, no Norte de Portugal, realizado no início dos anos 2000. Conjugando o referido legado com a tradição de análise sociológica das classes sociais desenvolvida em Portugal (Pinto, 1985; Almeida, 1986; Costa, 1999), o artigo apresenta uma síntese de resultados sobre a lógica constitutiva do espaço social, definido em termos de volume e de composição de capitais, e do espaço dos estilos de vida da cidade, definido em termos homólogos, a que acrescenta uma análise mais pormenorizada sobre a configuração do espaço social de um dos bairros citadinos inquirido em 2009. O recurso ao inquérito e à análise de correspondências múltiplas revela-se aqui também produtivo, demonstrando-se a pertinência dos pontos de vista relacionais para conhecer as relações entre divisões sociais e simbólicas e os seus "efeitos de lugar" na cidade (Bourdieu, 1993).

Para finalizar o conjunto de artigos do Dossiê, Gérard Mauger, em "'Jeunes de cités': délinquance, émeutes et radicalisation islamite", retira, precisamente, consequências do patrimônio de análise sociológica disponível sobre os "efeitos de lugar" e propõe uma leitura que, partindo dos mais recentes desenvolvimentos sobre a sociologia das classes populares francesas (Siblot et al., 2015), estuda os encontros entre as divisões sociais e simbólicas inscritos nas vidas dos jovens que habitam as zonas periféricas da França contemporânea. Não escamoteando o caráter controverso que está investido no tema dentro da sociedade francesa e europeia da atualidade, Mauger circunscreve as condições sociais e simbólicas que estão subjacentes à emergência da violência física e da radicalização entre segmentos muito precisos dos jovens, que são estudados com base em extenso, e muitíssimo exigente, trabalho de campo (Mauger, 2006). Alia, para esse efeito, o conhecimento sobre as principais propriedades da crise de reprodução das classes populares na França contemporânea - definidas em torno das transformações no mercado de trabalho, no sistema escolar, no espaço residencial e no próprio espaço dos enquadramentos sociais quotidianos dos jovens que residem nos contextos em análise - ao estudo da sociogênese da "cultura de rua" e ao lugar da "inempregabilidade" nela. Com detalhe suplementar, aferem-se as condições, bem mais práticas do que da ordem da doxa, que tornam possível a delinquência, os motins e a radicalização islamita entre esses grupos minoritários de jovens.

Por fim, o Dossiê traz uma entrevista com John Scott, um sociólogo inglês que tem feito contribuições muito pertinentes para diversas áreas nas ciências sociais (teoria sociológica, teoria das classes sociais e da estratificação social, análise de redes). Scott é autor de um dos livros mais importantes na área de estratificação social, Stratification and power: structures of class, status and command (1996). O autor já produziu diversos estudos sobre a formação das classes proprietárias e elites britânicas (Scott, 1997; Murray e Scott, 2012). Na entrevista, ele fala, entre outras coisas, sobre a perspectiva multidimensional que informa seus estudos de classe, perspectiva cuja gênese reside em uma leitura muito criativa e inspiradora da obra weberiana.

Referências Bibliográficas

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Recebido: 04 de Fevereiro de 2016; Aceito: 04 de Fevereiro de 2016

Edison Ricardo Bertoncelo é professor de sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. E-mail: edison_ricardo@uol.com.br

Virgílio Borges Pereira é professor do Departamento de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. E-mail: jpereira@letras.up.pt

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