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versão impressa ISSN 0103-2070versão On-line ISSN 1809-4554

Tempo soc. vol.28 no.2 São Paulo mai./ago. 2016

https://doi.org/10.11606/0103-2070.ts.2016.104212 

Artigos

Um paraíso selvagem: A Amazônia e os romances regionalistas de Raimundo Moraes

A savage paradise: the Amazon and the regionalist novels of Raimundo Moraes

Marco Aurélio Coelho de Paiva1 

1Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Brasil. E-mail: marco_paiva36@hotmail.com.


Resumo

O artigo objetiva analisar os três romances de Raimundo Moraes publicados entre os anos finais da década de 1930 e início dos anos de 1940: Os igaraúnas, O mirante do Baixo Amazonas e Ressuscitados. Ao abordar tanto os entrechos de cada uma das narrativas romanescas quanto a produção ensaística do autor, viabiliza-se uma articulação entre os elementos textuais e o contexto político e cultural. Tal articulação, por seu turno, permite que se vislumbrem não só os aspectos pitorescos da região amazônica deliberadamente visados pelo autor em seus romances, mas também faz ressaltar os embates intelectuais nos quais ele se encontrava inserido. As tramas e as personagens dos romances, dessa forma, deixam entrever tanto como tais embates foram percebidos pelo autor quanto a sua concepção do papel a ser assumido pelo intelectual nesse contexto.

Palavras-chave: Pensamento social; Literatura; Região; Amazônia

Abstract

The aim of this paper is analyze the novels of Raimundo Moraes: Os igaraúnas, O mirante do Baixo Amazonas and Ressuscitados, all of them published at the end of the 1930s and the beginning of the 1940s. From the textual aspects of those narratives and from some of the author's essays, the article intends to link those issues with the cultural trend and the politics aspects. That relation makes possible identify not only the picturesque of the region, but also the conflicts among different intellectuals. The plot of the novels and its characters are reflections of the author about intellectual work and the new conditions of the intellectual field.

Keywords: Social thought; Literature; Region; Amazon

Introdução

Ao comentar o livro de Alberto Rangel, Inferno verde, Raimundo Moraes salientou em seu ensaio Na planície amazônica, de 1926, o talento e os acertos do autor ao "pintar" a região em todas as suas imagens, nuanças e colorido. No entanto, não se constrangeu em acusar o contista de sofrer de certo "daltonismo" ao atribuir à Amazônia o epíteto de "inferno verde". Segundo Raimundo Moraes, o alegado "inferno" existente na Amazônia era fruto mais da imaginação literária de Alberto Rangel, de uma leitura da Divina comédia, do que uma constatação da realidade regional (R. Moraes, 1987, p. 151). O autor paraense insurgiu-se contra uma visão tradicional, então predominante, e que tomava a Amazônia como "terra de ninguém" ou como um meio natural avesso aos avanços de uma civilização; uma visão disseminada principalmente a partir dos escritos de Euclides da Cunha (1999).

Mas a separação entre realidade e imaginação literária reclamada por Raimundo Moraes, a despeito dos esforços em conferir aos seus variados ensaios um caráter científico para uma abordagem dos problemas amazônicos, efetivamente não se consumou na sua própria obra. Os termos da crítica dirigida a Alberto Rangel, de alguma forma, já indicam o papel de paisagista desempenhado por Raimundo Moraes quando, em suas análises, mesclou uma abordagem pretensamente científica com uma estilização literária rebuscada (Tocantins, 1987, p. 21). Raimundo Moraes escreveu a sua copiosa obra tomando como referência uma visada científica em prol de um empreendimento intelectual destinado a desvelar a realidade regional amazônica, embora sua apreensão e compreensão de ciência fossem tributárias de parâmetros literários ainda vigentes no meio intelectual brasileiro nos anos de 1920 e 1930. Tanto sua obra tardia de ficção quanto seus variados ensaios acerca da fauna, da flora, da formação geológica da Amazônia e dos costumes da população regional são passíveis de uma análise literária precisamente em função da configuração do campo intelectual no Brasil em inícios do século xx e, por conseguinte, dos embates então travados em torno do eixo natureza/sociedade como referência para a definição de uma peculiaridade nacional (Tavolaro, 2008; 2011).

Entre o velho e o novo

Os escritos amazônicos de Euclides da Cunha, a despeito das discordâncias quanto às possibilidades maiores ou menores de emergir uma civilização singular e diferenciada da civilização europeia nos sertões brasileiros, foram decisivos não só para um posicionamento de Raimundo Moraes dentro desse debate, mas também influenciou, como já salientado, uma gama de autores, até mesmo autores regionais, com o seu estilo rebuscado a mesclar ciência e arte (Paiva, 2010; Nascimento, 2011). Embora a linguagem e o estilo de Raimundo Moraes em seus ensaios possam ser diretamente associados aos modos de formulação literária predominantes nos anos de 1900 e 1910, a década de 1920 propiciou ao autor paraense, no entanto, certa oscilação em seus primeiros textos jornalísticos quando da mescla entre uma linguagem passadista e a adoção das novidades trazidas pelo modernismo literário. Em Notas dum jornalista, de 1924, há artigos que indicam a preocupação do autor em compreender a singularidade da natureza amazônica ("Ilha que migra"), mas também há textos que saúdam os avanços da modernidade e o papel benéfico da civilização moderna para a humanidade ("A trajetória do jornal"), além de referências a autores vinculados ao movimento modernista ("Ronald de Carvalho") e do uso da blague como recurso retórico (R. Moraes, 2001).

Mas em seus ensaios, Raimundo Moraes sobrecarregou seus textos com terminologias científicas destinadas a demarcar o tipo de abordagem pretendida. A manutenção de uma tal linguagem no âmbito da criação romanesca, por seu turno, em muito prejudicou e limitou o aspecto propriamente artístico das suas obras ficcionais tardias. Mesmo considerando-se o fato de tais obras terem como principal papel uma divulgação pretensamente mais abalizada da natureza e da cultura específicas da região, o estilo exercitado por Raimundo Moraes em seus ensaios migrou para os seus romances. Juntamente com essa linguagem rebuscada, termos e expressões regionais também abundam nos escritos do autor como forma de realçar o pitoresco da região. Pitoresco que, no decorrer dos anos de 1930, converteu-se em temática central em função não só do processo de centralização política então deflagrado, mas também por conta do novo equacionamento entre natureza e sociedade como parâmetros de uma peculiaridade nacional. As obras de Gilberto Freyre Casa-grande & senzala e Nordeste, nesse sentido, podem ser elencadas como referências que possibilitaram a Raimundo Moraes manter a sua posição de contestação a Euclides da Cunha e ao "infernismo" amazônico de Alberto Rangel, assim como alardear a viabilidade de uma civilização na Amazônia a partir das singularidades de uma natureza destinada a formar um determinado padrão racial e cultural. Os romances regionais de Raimundo Moraes de finais dos anos de 1930 buscaram delinear, de uma forma ou de outra, os contornos próprios da Amazônia dentro do quadro de diversidade cultural do Brasil1.

A Amazônia como região

Desde a sua repentina notoriedade alcançada com a divulgação do ensaio Na planície amazônica, ainda em meados dos anos de 1920, Raimundo Moraes empenhou-se em compreender as especificidades da Amazônia em suas diversas dimensões e, ao mesmo tempo, em desfazer eventuais distorções promovidas por parte daqueles que, segundo ele, no afã de desvendar algum enigma da região, forneciam explicações simplistas para uma realidade complexa. Embora a vivência e o contato direto com a natureza regional fossem alegados como fatores a sinalizar certa autoridade e legitimidade para falar sobre a região, seus inúmeros ensaios e seus romances não abrem mão das referências a cientistas que percorreram a Amazônia com o objetivo de investigar sua fauna e flora, como se a análise científica estivesse imune às ingerências da imaginação.

Mas as obras e as abordagens empreendidas por Raimundo Moraes não podem ser dissociadas do embate travado entre ele e outros autores regionais desse período, anos de 1920 e 1930, todos empenhados em assumir o papel de intérpretes legítimos da realidade amazônica. É precisamente nesse sentido que as diferentes obras e os modos como o estilo de Raimundo Moraes se constituem no decorrer do tempo devem ser avaliados, até mesmo a sua decisão de investir em um gênero literário como o romance. Desde um alinhamento superficial ao modernismo do primeiro momento (ainda com a figura de Graça Aranha como referência e liderança) até um redirecionamento para o romance social e de costumes em fins dos anos de 1930, a trajetória do autor paraense só pode ser plenamente compreendida caso ele seja inserido no contexto mais amplo de redefinições no campo intelectual e literário do Brasil e da Amazônia.

Raimundo Moraes nasceu em Belém em setembro de 1872 e, desde cedo, acompanhava seu pai na atividade de "prático" de navios e embarcações a trafegarem pelos rios amazônicos. Já aos 18 anos de idade conseguiu a sua própria carta, que o habilitava para o desempenho desse ofício e que veio a exercer até os 30 anos. Um contato estreito e precoce com os rios e com a natureza regional, por sua vez, associado ao fato de lhe restar uma formação intelectual autodidata, lendo e estudando variadas obras de autores que percorreram a região ao longo dos anos, parecem ter contribuído para o delineamento da sua personalidade ensimesmada e taciturna, assim como para a formulação do seu projeto criador. A dedicação à atividade jornalística em Belém como colaborador do jornal A Província do Pará, de Antônio Lemos, prefeito de Belém e responsável pela urbanização e embelezamento da cidade, além de figura de proa da política regional, fez com que um engajamento político mais efetivo por parte do autor se consumasse, tal como ocorria de maneira corriqueira nesse período para o conjunto dos intelectuais da região e do Brasil. E foi sua atuação política, ainda em Belém, que o levou a ocupar alguns cargos públicos, como o de inspetor de ensino médio. As disputas políticas acirradas na capital do Pará, no entanto, o obrigaram a migrar para Manaus, onde continuou sua atividade jornalística e, por conta disso, veio a ocupar o cargo de diretor da Imprensa Oficial (Lins, 1966, p. 41; Bittencourt, 1973, p. 424).

No artigo "Os intérpretes da Amazônia", de Péricles Moraes, publicado em 1935 como capítulo de abertura do livro Legendas e águas-fortes, o crítico literário amazonense pretendeu fazer um balanço da produção literária e ensaística acerca da Amazônia até então (P. Moraes, 1935). A análise buscou cobrir um vasto conjunto de obras e autores que teriam deslindado a realidade regional com maior ou menor sucesso. Vale notar, no entanto, que o critério de avaliação adotado pelo crítico estava assentado em princípios especificamente literários e arraigados em uma tradição passadista. As obras poderiam, eventualmente, apresentar os contornos da singularidade regional de maneira mais ou menos expressiva, a depender do maior e menor talento dos autores. Adepto de uma crítica literária impressionista, Péricles Moraes havia se alinhado à escola de Coelho Neto desde os anos de 1910 e, precisamente a partir deste ensaio de 1935 (um ano após a morte de Coelho Neto), elegeu a escrita de Euclides da Cunha como referência maior a combinar a temática regional com a linguagem adequada a expressar a realidade amazônica. No entanto, do vasto conjunto de autores e obras considerados e avaliados pelo crítico, existe uma ausência que se faz notória: a obra de Raimundo Moraes. Tal ausência justifica-se, precisamente, pelo embate travado entre ambos desde os anos de 1910 para legislar sobre os critérios de definição da região amazônica e, por conta disso, os dois autores se alinharam a diferentes correntes literárias quando da eclosão do modernismo e de suas respectivas querelas. Se Péricles Moraes filiou-se a Coelho Neto como figura maior da literatura brasileira nos anos de 1920, Raimundo Moraes, por sua vez, tomou partido de Graça Aranha quando do seu discurso na Academia Brasileira de Letras a contrastar "os velhos e os novos"2.

Uma ausência, a princípio, injustificável, se não pelo volume da obra de Raimundo Moraes, praticamente toda voltada para a Amazônia como temática prioritária, mas justamente pelo estilo e pela linguagem utilizados em suas abordagens, e que, de alguma forma, cumpririam aqueles critérios definidos por Péricles Moraes como imprescindíveis para serem classificados como expressivos da realidade amazônica. A ausência de Raimundo Moraes no rol de autores considerados pelo crítico como mais ou menos representativos de uma interpretação da Amazônia, portanto, explicita o embate entre ambos quanto aos eventuais critérios para se falar acerca da região e, no limite, fazer a região existir como uma entidade simbólica. Mesmo considerando-se que as disputas intelectuais e literárias ao longo das décadas de 1920 e 1930 não estavam dissociadas dos embates políticos mais gerais, até mesmo em função de a atividade intelectual encontrar-se alojada de maneira dependente dentro do sistema oligárquico em decadência (Miceli, 2002), não se deve reduzir as discordâncias entre os dois autores em função somente de eventuais disputas políticas. Embora as questões de ordem estética possam ser identificadas como o alvo prioritário da disputa e o motivo explícito da cisma, acrescente-se a tais fatores, no entanto, a busca não confessada de ambos por uma posição mais vantajosa e legítima como porta-vozes de uma regionalidade3.

A inserção dos intelectuais no sistema oligárquico regional em decadência ao longo dos anos de 1920 e 1930, por sua vez, tende a revelar tanto a condição de dependência material dos próprios intelectuais quanto as novas possibilidades então abertas com o debate em torno do modernismo e de uma redefinição da nacionalidade. O redirecionamento de Raimundo Moraes para o romance regional em finais dos anos de 1930, portanto, deve ser compreendido como uma estratégia adotada pelo autor no sentido não só de buscar novas formas expressivas para a sua produção intelectual, e que antes estavam exclusivamente voltadas para o ensaio, mas também no sentido de refazer eventuais alianças no âmbito do campo intelectual regional e nacional em prol de uma posição mais destacada para definir a Amazônia em termos mais afirmativos, contra a tradição "infernista". Vale lembrar que a década de 1930 deu ensejo à proliferação dos romances regionais muito em função dos desdobramentos do próprio movimento modernista deflagrado na década de 1920 e da mudança de perspectiva então imposta pela centralização política desencadeada com a Revolução de 1930. Um entendimento da realidade brasileira desde então passou a ser perseguido a partir da conjunção entre a inovação estética já promovida nos anos de 1920 e um aprofundamento da pesquisa acerca das peculiaridades e dos costumes de cada região, redefinindo-se, como já destacado, a relação entre sociedade e natureza.

Amazônia no plural

Embora não seja possível precisar os anos de publicação de cada um dos três romances de Raimundo Moraes, com exceção de Os igaraúnas, que é de 1938, sabe-se que O mirante do Baixo Amazonas e Ressuscitados apareceram depois e em sequência ainda em fins dos anos de 1930 e início da década seguinte. O fato de somente o primeiro romance ter merecido uma segunda edição em 1985 explica a ausência de informações acerca dos anos de aparecimento das outras duas obras. Tal sequência, por sua vez, ganha importância analítica em função do modo como diferentes áreas da região se tornaram cenários das tramas, cada romance abordando microrregiões distintas do ponto de vista da paisagem natural.

A despeito dos romances voltarem-se, prioritariamente, para o pitoresco da paisagem regional e dos costumes da população local, com destaque para a questão da mestiçagem racial, o que se configura como marca comum nas obras, no entanto, é a busca por parte do autor em promover uma mescla entre conhecimento científico, devidamente travestido de erudição pomposa, com um conhecimento popular acerca da fauna e da flora amazônicas. Vale salientar, por outro lado, que as tramas dos romances acabam por revelar certa visão negativa por parte do autor em relação às intrigas do jogo político e, o que é mais relevante, explicitam a sua própria percepção do caráter do trabalho intelectual a partir de um ponto de vista de um autor provinciano e, em função disso, estigmatizado por essa condição.

A capa da primeira edição de Na planície amazônica, de 1926, livro de ensaios de Raimundo Moraes destinado a deslindar a região em seus diversos aspectos, é ilustrada com uma enorme lira fincada sobre as copas das árvores que formam a vasta floresta amazônica e ladeada por duas enormes palmeiras regionais, dois açaizeiros. Essa resolução encontrada pelo ilustrador segue os argumentos do autor do livro já em sua abertura no primeiro parágrafo; parágrafo este que vem parcialmente reproduzido na própria ilustração, na grande base que constitui a lira agigantada. A abertura do ensaio, portanto, tem a pretensão de fornecer ao leitor uma visão geral da região e de seus contornos geográficos e, ao mesmo tempo, identificar os esforços analíticos do autor em articular ciência e estética.

O vale do Amazonas, na transformação constante por que vem passando, tem hoje a forma de uma lira, como se algum deus pagão e autóctone, através da harmonia e da beleza, tentasse amenizar as arestas cortantes dessa natureza rude. Lira deitada e ligeiramente inclinada do poente para o nascente guarda, ao fundo, a Cordilheira dos Andes; ao sul, o planalto do Sistema Brasileiro; ao norte, as montanhas do Sistema Guianense; na embocadura, os lençóis azuis do Atlântico [...] (R. Moraes, 1987, p. 37).

Essa imagem da lira a insinuar harmonia e beleza seria, como diz o autor, uma maneira de combater, por contraste, as representações corriqueiras e equivocadas da Amazônia como uma região dominada por uma natureza selvagem e inóspita, uma visão até então predominante no imaginário nacional acerca da região. Uma empreitada intelectual, portanto, a ser levada a cabo por alguém que se arvorava a conhecedor da região em função de haver trafegado pelos numerosos rios desse vasto mundo verde no decorrer de alguns anos. Somente em finais dos anos de 1930 é que o autor teve a oportunidade de visualizar a Amazônia a partir de uma nova perspectiva, de uma visão perpendicular, aérea. Visão que, segundo ele em seu ensaio de abertura do livro Cosmorama, de 1940, teria alterado completamente a percepção da região até então. Agora tornava-se viável uma visão mais abrangente, diferentemente de antes, quando esse todo amazônico só se deixava perceber em pedaços, como afirmou Euclides da Cunha no prefácio ao livro de contos de Alberto Rangel (Rangel, 2001). Mas essa perspectiva aérea da Amazônia, diz Raimundo Moraes em um tom quase de lamentação, fez desaparecer a variedade dos acidentes geográficos e geológicos e os intrincados rios da região, além de suplantar a importância da variedade da rica vegetação ali existente. Tudo foi rebaixado e reduzido a uma planície (R. Moraes, 1940, pp. 7-10). A visão aérea parece simplificar não só uma realidade natural bastante complexa, mas também induz a uma percepção homogênea de um ambiente marcado pela diversidade. Os romances sociais de Raimundo Moraes objetivavam justamente ressaltar tais peculiaridades de uma diversidade natural e racial existente na Amazônia, além de buscar demonstrar como tais dimensões se articulavam no sentido de se constituir uma civilização.

Os dois primeiros romances retratam ambientes naturais distintos do Baixo Amazonas. O romance Os igaraúnas retrata a região do rio Tocantins e os arredores da pequena cidade de Cametá, com uma paisagem marcada pela presença de uma densa floresta com fauna e flora variadas. Já o romance O mirante do Baixo Amazonas é ambientado em boa parte do seu enredo em outro cenário, com uma paisagem caracterizada por uma vegetação menos densa, com a presença de pastagens e dos elevados montanhosos dos altiplanos guianenses. Em Ressuscitados, como o próprio subtítulo do romance salienta, passa-se na região do rio Purus, Acre, espécie de "terra de ninguém" na época da exploração dos seringais ali existentes. Embora a trama de Os igaraúnas, em seu desfecho, faça referência à migração de um casal de caboclos nativos da região do rio Tocantins para o Acre, pode-se dizer que, na medida em que os romances foram concebidos e escritos por Raimundo Moraes, faz-se notar uma preocupação do autor em retratar a Amazônia a partir de um contraste entre zonas em que um determinado padrão de civilização já havia razoavelmente se estabelecido até áreas onde a natureza e os conflitos raciais impediam a consumação efetiva de uma civilização. Um gradiente civilizacional em escala decrescente desde a embocadura do rio Amazonas até os confins do Acre.

Os modos de vida adotados pela população cabocla nativa e a relação mais harmoniosa mantida com a natureza no Baixo Amazonas são destacados nas tramas dos romances quando comparados com a região dos seringais do Acre, onde a natureza parece insurgir-se contra a presença humana. A própria relação conflituosa na região do rio Purus entre índios e nordestinos migrados para explorar os seringais parece confirmar esse descompasso. Não em função de uma eventual selvageria que seria própria da natureza e dos rincões acreanos, mas em função do desconhecimento específico da natureza amazônica por parte daqueles que por lá resolveram aventurar-se em busca de riqueza. É nesse sentido que a prosperidade só começa a vicejar no seringal Remanso, em Os igaraúnas, propriedade do "coronel" Rapa Coco, um cearense que se tornou seringalista naqueles rincões, quando da chegada do casal João Cabeludo e Merandolina, então moradores e agregados da fazenda Redentor de Anastácio Igaraúna.

Embora os três romances tenham como eixo comum a presença da paisagem regional em suas diferentes facetas, os modos de vida e os costumes da população local, como salientado, convertem-se em alvo das narrativas, na medida em que a relação entre a natureza e os caráteres dos personagens é, de alguma forma, problematizada pelo autor. Se, de um lado, a natureza amazônica mostra-se inóspita e traiçoeira para os aventureiros que a desconhecem, de outro, revela-se acolhedora e generosa para aqueles que, detentores de algum conhecimento sobre sua fauna e flora, logram uma sobrevivência mais confortável. Mas é possível perceber que o esquema narrativo centrado na natureza ganha novos vieses quando se consideram outros aspectos da realidade regional, particularmente quanto ao jogo político e às relações raciais, tornando as tramas mais intrincadas na sequência das obras.

Se o enredo de Os igaraúnas pode ser resumido como a derrocada da família de Anastácio Igaraúna por conta dos conchavos políticos tramados em Belém (e a oposição entre o urbano e o rural configura-se como uma contraposição entre os artificialismos do mundo moderno e a autenticidade do campo), os outros dois romances, embora mantenham uma representação da natureza como fonte ou lócus da autenticidade, tendem a tornar seus enredos mais emaranhados, na medida em que o tema da mestiçagem racial ganha relevância.

Nos dois primeiros romances, destacadamente no primeiro, nota-se a presença de cientistas/naturalistas, personagens, a princípio, destinados a explicar didaticamente algum aspecto pitoresco e específico ou da geologia, da flora ou mesmo da fauna regionais. Raimundo Moraes parece mobilizar para seus romances a leitura dos muitos autores que percorreram a região ao longo do tempo com o intuito de desvelá-la de um ponto de vista da história natural. Mas à medida que os romances aparecem, o papel a ser cumprido por tais personagens diminui significativamente em importância dentro das tramas, insinuando um gradativo distanciamento do autor daquela preocupação didática inicial de explicar a Amazônia só em função da natureza. Em Ressuscitados, seu derradeiro romance, a figura do cientista/naturalista inexiste, embora seja sintomaticamente substituído por outro personagem a encarnar esse mundo erudito, um historiador da região. Em Os igaraúnas, a cientista alemã Emilia Snethlage é transformada em personagem e cumpre o papel de discorrer sobre a fauna e a flora amazônicas nas vezes em que mantém contato com o próprio Anastácio Igaraúna no navio que os conduzem de Belém para a pequena cidade de Cametá e, principalmente, quando ela se torna hóspede do líder Igaraúna em sua fazenda. É justamente nesse ambiente hospitaleiro da fazenda, quando das conversas entabuladas entre a ornitologista e os moradores, que ocorre o que parece ser o plano inicial do autor a justificar o próprio romance, ou seja, uma justaposição e complementação entre um conhecimento erudito, proferido por alguém investido de autoridade, e um conhecimento popular acerca da natureza regional. E é precisamente por meio da erudição da cientista que o próprio autor parece dar as suas estocadas contra aqueles que, segundo ele, se arvoravam em conhecedores da região quando, na verdade, se limitavam a um manejo de palavreado enganador. Quando da presença da ornitologista na propriedade de Anastácio Igaraúna e questionada por uma moradora já idosa que duvidava dos conhecimentos da visitante, assim a cientista responde:

Então a senhora pensa que eu me envergonharia de não saber definir isto ou aquilo? Puro engano. A humanidade aprende até na hora da morte. Só os néscios e os bobos se julgam enciclopédicos. Esse tom catedrático de sábio somente se encontra nos desfrutáveis indivíduos que nada sabem. Não há ridículo, chufa, pilhéria que lhes detenha a mania de querer ensinar o que ignoram (R. Moraes, 1985, p. 129).

A cientista é, portanto, não só uma personagem central do romance por conta dos seus ensinamentos e didatismo acerca da fauna e da flora, mas também desempenha certo papel de protagonista da trama, uma vez que é ela, em uma de suas expedições de exploração pela Amazônia, que encontra a ex-mulher de Alberto - filho mais novo de Anastácio Igaraúna -, a inglesa Diana, então aprisionada pelos índios Apiacás e tornada mulher do chefe, o índio Gavião. Como tal descoberta só ocorre algum tempo depois do desaparecimento da família Igaraúna, a inglesa já havia tido cinco filhos com o indígena. Assim como há uma variedade de vida animal e vegetal na natureza amazônica, também haveria margem na região para uma miscigenação racial. Tal variedade e diversidade de vida na Amazônia é formulada de modo alegórico no romance quando a cientista percebeu uma distinção na maneira como os cabelos das mulheres daquele povo indígena eram arranjados, umas com os longos cabelos soltos, as mais moças, e as mais velhas com os cabelos presos e bem amarrados. A justificativa dada por um dos índios para tal distinção insinua a concepção da Amazônia por parte do próprio autor do romance, um vasto mundo a abrigar uma variedade de vida: "São bichinhos que elas criam nas cabeleiras: morganhos (ratos), cobrinhas, periquitinhos, sapinhos, tartaruguinhas [...]" (R. Moraes, 1985, p. 202).

O tema da mestiçagem racial, de par com a questão da natureza, já se esboça, portanto, em Os igaraúnas em seu desfecho e está estreitamente ligado ao modo como uma adaptação ao meio ambiente amazônico é compreendida pelo autor, ancorada não na definição de um dado padrão racial, mas como decorrente de uma miscigenação a facilitar uma vivência diante das barreiras impostas pela natureza. A cientista Emilia Snethlage constata, a despeito da origem de Diana, uma perfeita adaptação da inglesa ao ritmo de vida levado pelos índios, então integrados à natureza. A recorrente referência à selvageria do ambiente amazônico, portanto, não se confirma do ponto de vista da própria natureza, mas nas relações sempre conflituosas estabelecidas entre os homens.

Uma visão intermediária

Em O mirante do Baixo Amazonas, por sua vez, a presença de cientistas já não possui o mesmo princípio pedagógico como em Os igaraúnas. É possível afirmar que, mesmo havendo passagens no romance destinadas a esclarecer e explicar ao leitor a topografia e a geologia da região por parte do norte-americano Smith Roosevelt, um geólogo fictício, quem se destaca no entrecho da trama é seu auxiliar, o austríaco Strauss, quando, no desfecho do romance, assassina a cabocla Angélica por tê-lo rejeitado duas vezes em seus pedidos de afeto, tanto antes de ela se casar com Florêncio Timbira quanto depois, já viúva. O comportamento tresloucado de um personagem que, pela sua origem racial (assim parece insinuar o narrador), deveria controlar seus impulsos e desejos sexuais contrasta com o de outros personagens que, mesmo mais próximos da natureza, têm plena consciência dos limites de seus instintos. Angélica, a heroína da trama, é uma mestiça famosa nos arredores da cidade de Monte Alegre por sua beleza e encantos e mantém-se casta em função das previsões do seu futuro feitas por Nhá Pulquéria, um misto de feiticeira e xamã. Ela estaria destinada a casar-se com alguém de um nível social mais elevado (raça branca) e detentor de riqueza e poder. O futuro concretiza-se quando Angélica conhece o engenheiro Florêncio Timbira, proprietário de terras na região e liderança política naqueles arredores.

Assim como o destino trágico da família de Anastácio Igaraúna em Os igaraúnas deu-se em função dos conchavos e das tramoias políticas arquitetados em Belém, e com os quais ele não compactuou, em O mirante do Baixo Amazonas a morte de Florêncio Timbira e a derrocada de seus negócios, além da tragédia que se abateu sobre Angélica, ocorreram não em função de seu casamento com a jovem cabocla (e que configuraria um suposto descenso social), mas em função das intrigas dos moradores da cidade de Monte Alegre ao atribuírem o envolvimento amoroso do engenheiro com a jovem mestiça aos sortilégios então urdidos pela velha xamã para "fisgar" alguém de uma raça e condição social superior.

A temática racial ganha nesse segundo romance de Raimundo Moraes maior centralidade em relação ao primeiro, além de ser um assunto abordado de modo a preservar os vínculos com a questão da natureza amazônica. Nesse sentido, somente após o casamento entre Florêncio Timbira e Angélica, a fazenda Vento Fresco, uma das propriedades do engenheiro, localizada nas terras mais altas e, portanto, livres dos efeitos perversos das cheias do rio, progride e se torna produtiva. Antes, essa propriedade encontrava-se em relativo abandono por conta da crença disseminada na região acerca da pobreza do solo da terra firme, fosse para o cultivo de plantações, fosse para a pastagem de gado. Quando da visita de Florêncio Timbira a uma comunidade quilombola próxima dessa fazenda, aquele veredito de uma terra empobrecida para plantio parecia se confirmar, dada a situação de penúria e abandono em que se encontravam os negros do povoado. Mas o progresso alcançado na fazenda do engenheiro, com as devidas providências tomadas para a plantação e a criação de gado, descartava as eventuais restrições que a natureza amazônica poderia impor para o desenvolvimento de atividades econômicas produtivas na área. O contraste entre a opulência da fazenda Vento Fresco e a miséria e o abandono da comunidade quilombola parece insinuar que o fator decisivo para vicejar uma civilização na região seja a mestiçagem racial. O isolamento e a segregação da comunidade quilombola justificam a situação de miséria ali instalada, e, por sua vez, a mestiçagem de raças promove o alargamento de horizontes da vida na região. A presença de um cientista na trama romanesca (o geólogo norte-americano) justifica-se aqui menos para fornecer explicações didáticas do pitoresco da natureza regional e mais para constatar, surpreso, como a mestiçagem entre raças e modos de vida podem ser benéficos. Assim diz o narrador:

O Dr. Smith passou o dia e a noite no Vento Fresco. Na manhã seguinte despediu-se e foi-se. Ia meditando no que vira: na afinidade, em suma, entre a mulher nativa daquelas plagas e o homem imbuído de outros costumes, outros preconceitos, outra civilização. Unira-os o amor. Entretanto, se não fora o sentido conjugado na mesma ideia de ambos, voltados exclusivamente para a terra, não manteriam tantas energias criadoras. Tivesse o engenheiro se casado com alguma donzela da cidade, acostumada a bailes, flirts, namoros, não conseguiria de certo a felicidade que obtivera, ou, talvez, já estivesse desquitado, tais são as diferenças entre os hábitos da gente do interior e o das gentes das capitais [...] (R. Moraes, [s. d.]a, pp. 129-30).

A política como um fator decisivo a deflagrar a derrocada dos heróis e heroínas tanto em Os igaraúnas quanto em O mirante do Baixo Amazonas revela-se como uma forte referência à própria trajetória de Raimundo Moraes. Como já salientado, sua atuação jornalística e intelectual logo converteu-se em atividade política e, por conta disso, o autor sofreu as agruras próprias de um ambiente caracterizado por intrigas e conchavos, alijando-o, de alguma forma. Sua formação intelectual autodidata, associada a uma personalidade então forjada pelo estreito contato com a natureza amazônica (por conta do seu ofício de "prático" de embarcações a trafegar pelos rios da região), parece ter incapacitado Raimundo Moraes da habilidade necessária para contornar os diferentes meandros que a vida política impunha.

O empenho e a dedicação do autor aos temas regionais, no entanto, não estão dissociados da questão política em seu sentido mais amplo. Na medida em que tais estudos possam ser convertidos em uma estratégia em prol de uma legitimação do próprio autor como alguém autorizado a pronunciar-se com autoridade acerca da região, sua vivência e contato prolongados com a natureza amazônica desde muito jovem foram mobilizados como uma espécie de trunfo na arena intelectual e literária. Seria ele, então, uma voz nativa supostamente mais autêntica a falar acerca da região, mas sem eventuais distorções e artificialismos a deturpar a natureza amazônica e que eram difundidos por autores alheios à realidade regional ou por autores locais. Não que o próprio Raimundo Moraes viesse a negar ou diminuir a importância da erudição como meio para uma compreensão adequada das peculiaridades da região, mas tal conhecimento por si só, girando em torno de si mesmo, em nada contribuiria para um adequado desvelamento da complexidade da Amazônia.

Em Ressuscitados, terceiro e último romance de Raimundo Moraes, a questão racial ainda é o tema central, mas a resolução encontrada pelo autor tendeu a reforçar e radicalizar a importância de uma visão nativista da região, sintetizando, dessa forma, o empreendimento intelectual do próprio autor. O entrecho do romance está centrado em dois personagens a organizar a trama: o cearense José Alves, proprietário do seringal Santa Clara na região do rio Iaco, Acre, e Corina, índia ipurinã sequestrada pelos índios canamari e negociada com José Alves quando ainda recém-nascida. Embora a tradição literária regional sempre tenha caracterizado os seringalistas daquela área do Acre como aventureiros desprovidos de qualquer escrúpulo e ávidos por amealhar alguma riqueza (Vasconcelos, 1922; Castro, 1967; Galvão, 2002), nos domínios de José Alves em Ressuscitados tal caracterização não ocorre. Migrado para a região amazônica ainda criança e analfabeto, sua personalidade é descrita pelo narrador do romance como alguém portador de um caráter firme e sempre correto em relação a seus negócios e subordinados. Sua compleição física parece expressar a firmeza de sua conduta moral. Corina, por sua vez, teve sua personalidade formada e refinada pela educação em um internato de freiras em Belém, e em conformidade com os padrões morais e religiosos da civilização ocidental (branca).

A riqueza material de José Alves e a formação educacional e cultural de Corina definem, portanto, duas posições a um só tempo antagônicas e complementares dentro de um espaço social onde a trama é construída. A questão de gênero e o aspecto racial, por sua vez, articulam-se com aqueles dois fatores, na medida em que a beleza de Corina consegue romper a carapaça moral a envolver a personalidade rígida do cearense. A riqueza acumulada pelo seringalista ao longo dos anos nos rincões amazônicos só foi possível em função da sua tenacidade em manter-se solteiro e casto. Ao reencontrar Corina já adulta, após alguns anos, em Belém, o cearense José Alves rendeu-se aos encantos de um ser socialmente híbrido: uma indígena do ponto de vista racial, mas devidamente travestida pelos modos e formação cultural próprios de uma civilização urbana.

O encontro entre José Alves e Corina em Belém e o subsequente encantamento do cearense pela jovem indígena desencadearam o início da derrocada econômica do seringalista, esboçando-se, portanto, um caminho inverso do que ocorrera com Florêncio Timbira quando se casou com a mestiça Angélica no romance anterior. Se as intrigas foram diretamente responsáveis pela tragédia do casal de O mirante do Baixo Amazonas, em Ressuscitados, por sua vez, foi a confluência de dois fatores que determinou a derrocada do cearense: as trapaças e os engodos de que foi vítima quando da sua passagem por Belém e, principalmente, o desejo incontido de Corina de retornar ao ambiente da natureza do seringal Santa Clara, contrariando os planos iniciais de José Alves de usufruir da sua fortuna em algum lugar distante da selva. Se Corina havia sido educada conforme os padrões e cacoetes da civilização ocidental, dotando-a, além disso, de alguma erudição e refinamento intelectual, o iletrado cearense lhe causava vergonha e desconforto, a despeito de ter aceito o inusitado pedido de casamento. Mas junto com esse sentimento envergonhado e, principalmente, ao perceber que o ambiente urbano não condizia com a personalidade um tanto quanto animalizada do seringalista cearense, Corina também estava desejosa e ansiava por retornar ao seringal, como se uma força interior e atávica a impulsionasse rumo à natureza.

O desfecho do romance explicita e sintetiza os anseios do próprio Raimundo Moraes quanto a uma compreensão da Amazônia dentro de um contexto histórico e político marcado por mudanças substantivas nas esferas nacional e regional. Uma compreensão acerca da realidade regional a mesclar a apreensão de um conhecimento erudito com uma vivência enraizada na natureza. Quando Corina retorna ao seringal Santa Clara com os laços matrimoniais devidamente estabelecidos com o cearense José Alves, sua identificação com a natureza é instintiva. É um retorno, portanto, marcado pelo sentimento de integração com o ambiente natural em função de suas origens raciais, insinua o narrador. Mas esse aspecto instintivo, por sua vez, não está desatrelado dos efeitos advindos de uma formação cultural imposta pelos moldes da civilização. Corina, portanto, encarna em si mesma, e de maneira complementar, a intuição de um nativo regional no sentido mais extremo, a população indígena, e o acúmulo de cultura necessário para esquadrinhar a natureza peculiar da Amazônia. A "reintegração" de Corina à natureza foi figurada no entrecho do romance quando de seu envolvimento amoroso com Cauré, o chefe dos índios ipurinãs, portanto, um retorno ao seu próprio povo. A despeito de uma formação cultural própria de uma civilização branca, Corina sucumbiu, por assim dizer, aos chamados mais íntimos de sua raça que, segundo nos faz crer o narrador, se confundem com a própria natureza.

A guerra conflagrada entre o exército de seringueiros arregimentados por José Alves e os índios ipurinãs ao final do romance, uma guerra deflagrada pelo cearense como reação desesperada para recuperar Corina dos domínios indígenas, embora seja um momento de tensão e de conflito entre duas raças, a condição ambígua de Corina não a fez ocupar uma posição neutra. No desfecho da trama, quando a heroína presencia a morte de Cauré por José Alves, é a própria Corina quem mata o cearense com uma flecha envenenada e, assim, marca sua posição naquele embate racial ensanguentado. Se os migrantes nordestinos mantêm uma relação mais distanciada em relação à natureza amazônica, caracterizada como uma natureza dadivosa a facilitar um extrativismo predatório, tal fato se dá, assim insinua o narrador, em função da própria formação racial dos nordestinos e por serem oriundos de um meio árido e seco. Já a integração total entre os índios e a natureza amazônica, por seu turno, inviabiliza um distanciamento necessário para que uma estabilidade civilizacional seja atingida. Conforme os entendimentos do autor, uma natureza maleável tal como se configura a natureza amazônica tenderia a formar uma raça flexível.

O conflito entre raças distintas representadas pelos nordestinos e pelos índios no desfecho do romance parece indicar a necessidade de se forjar um meio termo, uma saída intermediária entre duas posições a princípio antagônicas em relação à natureza. Corina, nesse sentido, traz em si mesma uma síntese. Uma síntese que, por sua vez, remete ao próprio autor do romance, Raimundo Moraes, interessado em firmar uma posição no âmbito do campo intelectual como voz nativa da Amazônia e, ao mesmo tempo, atrelado aos ganhos culturais já acumulados pela civilização.

Conclusão

Somente um entendimento acerca das redefinições das posições em disputa então ocorridas no âmbito do campo intelectual no Brasil ao longo dos anos de 1920 e 1930 pode desvelar os rumos e as apostas de Raimundo Moraes ao longo da sua trajetória, a despeito de suas pretensões e limitações. Embora condenado, desde seu nascedouro político e intelectual, a abraçar o pitoresco amazônico como única alavanca possível para fazer um nome no acanhado mundo intelectual regional, os baralhamentos deflagrados no plano literário e intelectual a partir da ruína da política oligárquica lhe permitiram entrever os ganhos possíveis alojados em uma temática mais localista. A redefinição dos parâmetros da nacionalidade brasileira promovida pelo rearranjo de forças políticas no decorrer desse período fez com que diferentes aspectos regionais fossem valorizados e ganhassem maior visibilidade para, assim, passarem a ser merecedores de um desvelamento pormenorizado por parte dos agentes sociais encarregados da produção cultural, agora menos devotados a abordagens literárias genéricas desprovidas de alguma fundamentação factual e documental e mais com dados e elementos expressivos das realidades locais.

Raimundo Moraes, dessa forma, se viu premido entre uma tradição ensaística e literária, que se caracterizava em mesclar ciência e literatura em suas abordagens acerca da realidade brasileira, e a proliferação dos romances sociais e de costumes ao longo dos anos de 1930, uma literatura documental preocupada em retratar as diferentes realidades regionais com o intuito de lhes conferir uma existência no plano simbólico. Foi precisamente a centralização política e administrativa do Estado nacional que propiciou, ao fim e ao cabo, a necessidade do realce de aspectos pitorescos das distintas regiões do país. As temáticas relativas à raça e ao meio que tanto marcaram autores e obras de finais do século xix quando da busca por uma peculiaridade nacional - e que migraram para os anos iniciais do século xx - foram desdobradas pelo autor paraense em seus ensaios e retomados em chave própria em seus romances de costumes. Embora tenha flertado com o modernismo ainda nos anos de 1920, tal aproximação se deu mais em função dos embates intelectuais regionais nos quais se encontrava entranhado e menos por convicções de ordem estética acerca do significado do movimento. Mas foi em função de novas posições vislumbradas no campo intelectual que Raimundo Moraes pôde construir seu projeto criador.

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1. Para um entendimento acerca dos romances regionais, ver Williams (2014, pp. 299-231).

2. Sobre a relação entre Coelho Neto e os modernistas, ver M. Moraes (2004).

3. Acerca do conceito de região, ver Bourdieu (1989).

Recebido: 18 de Setembro de 2015; Aceito: 16 de Dezembro de 2015

Marco Aurélio Coelho de Paiva é doutor em sociologia e professor associado do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). E-mail: marco_paiva36@hotmail.com

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