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Tempo Social

versão impressa ISSN 0103-2070versão On-line ISSN 1809-4554

Tempo soc. vol.31 no.1 São Paulo jan./abr. 2019  Epub 25-Abr-2019

http://dx.doi.org/10.11606/0103-2070.ts.2019.143282 

Resenhas

Victor M. Rios. Human targets: schools, police, and the criminalization of Latino youth

1 Universidade de São Paulo , São Paulo , Brasil .

Rios, Victor M.. Human targets: schools, police, and the criminalization of Latino youth. Chicago: University of Chicago Press, 2017. 211p.

Ao estilo de Pierre Bourdieu, em Esboço de auto-análise (2005), Victor Rios inicia os primeiros parágrafos do livro Human targets: schools, police, and the criminalization of Latino youth (2017) [“Alvos humanos: escolas, polícia e a criminalização de jovens latinos”, em tradução livre] recuperando da memória traços biográficos para tratar do entrecruzamento de configurações institucionais pelas quais passou durante a adolescência nas ruas de Oakland, uma das cidades mais violentas da Califórnia.

Uma das principais semelhanças entre o trabalho de Bourdieu e o livro de Rios reside nas inquietações de vidas sociologicamente inviáveis: o primeiro, filho de funcionário do serviço de correio de um vilarejo camponês da França, decidiu estudar filosofia para ser professor de ensino médio e chegou ao Collège de France; o segundo, filho de imigrantes mexicanos, não conheceu o pai, envolveu-se com o tráfico de drogas, com gangues de rua, acessou o sistema acadêmico numa das mais prestigiadas universidades dos Estados Unidos e se tornou professor titular de sociologia na Universidade da Califórnia, Santa Barbara. Em suas obras, ambos tratam, pari passu , dos constrangimentos estruturais enfrentados, dos deslocamentos institucionais sofridos, dos vários cenários sociais em que se viram inseridos e das múltiplas identidades adquiridas ao longo de suas respectivas trajetórias pessoais e profissionais.

Em Human targets , Victor Rios se questiona acerca de quais são as condições materiais e simbólicas necessárias para os deslocamentos nos espaços sociais. Como uma vida destinada a cumprir seu papel na camada menos favorecida da sociedade rompe com os constrangimentos estruturais e ocupa lugares impensáveis? Que papéis as autoridades e as instituições deveriam exercer no sentido de providenciar os recursos necessários para tais mudanças? Ou, de fato, não há nada a ser feito: só existe reprodução e a responsabilidade está nas mãos dos indivíduos? São esses os questionamentos que aproximam as reflexões de Rios às de Bourdieu.

Aos 15 anos de idade, a violência não era algo estranho na vida de Victor Rios: já havia traficado maconha e heroína, roubado bicicletas e carros para vender as peças, como forma de obter dinheiro rápido, havia passado pelo sistema de justiça juvenil e estava vivendo sob o regime de liberdade condicional por haver cometido crimes considerados graves.

Na passagem da adolescência para a vida adulta, Rios teve contato com diversas instituições: escola, gangue, trabalho, sistema de justiça. E em cada lugar desempenhou comportamentos distintos. Na escola, era o menino de rua que buscava se tornar correto; na rua, era o homie1 que procurava andar na linha para não correr o risco de violar a lei e voltar à prisão; e, no trabalho, o jovem empenhado, que aprendia rápido, lutava por promoções e sonhava em ir para a faculdade. Ainda assim, sem oportunidades aos 15 anos de idade, precisando de dinheiro e vivendo em um contexto social desfavorável, não restavam muitas alternativas além do destino de muitos de seus pares: exercer atividades ilegais e se tornar um alvo humano.

Expressão central para o seu argumento e título do livro, “alvo humano” é, para Victor Rios, o indivíduo simultaneamente vitimizado e considerado um perigo para a sociedade; é ser visto como uma ameaça pelos responsáveis pela aplicação da lei e ser tratado pela escola e por outras instituições de forma estigmatizada, com descrédito e de modo punitivo. Segundo Rios, esse processo de estigmatização cria um círculo negativo que envolve brutalidade física e simbólica. Em essência, os jovens se tornam alvos da polícia, da escola e de outros mecanismos de controle social, cujo objetivo não é outro senão a punição.

O livro demonstra como as autoridades públicas, sobretudo a polícia e os professores, ultrapassam seus limites e suas obrigações e contribuem negativamente para rotular e criminalizar os jovens latinos. O livro também evidencia a complexidade das identidades que os jovens associados às gangues desenvolvem, na medida em que atravessam o tortuoso labirinto social erigido pelo preconceito racial e pela pobreza persistente. Já há muito tempo, o estereótipo permanece: as gangues são compostas por pessoas más que fazem coisas prejudiciais para a sociedade e precisam ser combatidas e eliminadas.

Em seu livro, Rios não ignora que existem coisas ruins nas atividades das gangues, bem como no comportamento de seus membros, mas também frisa que é possível retirar desses grupos energia para realizar coisas criativas, especialmente nas escolas, se houver vontade e recursos. Para Rios, existe uma desconexão entre um sistema de ensino que faça sentido e as oportunidades disponíveis no mercado de trabalho. Para deixar as ruas, é necessário algo mais atraente e significativo, relevante culturalmente e que atenda aos gostos, desejos e aspirações dos jovens. Caso contrário, o quadro desfavorável não se altera.

Rios afirma que os Estados Unidos têm uma cultura obsessiva de controle. Em outro trabalho, o autor utilizou o termo “complexo de controle dos jovens” (Rios, 2011) para dizer que o encarceramento em massa e o controle social da punição contribuem para a generalização de jovens marginalizados como criminosos perenes que precisam de controle e de contenção antes mesmo de cometer qualquer ato ilícito.

A cultura do controle social é caracterizada por um medo profundo do crime e da população marginalizada (principalmente dos pobres), pela expansão das sanções legais, pelo foco obsessivo nas vítimas e pela manipulação do crime para a obtenção de dividendos políticos (Garland, 2001). A cultura do controle torna-se uma poderosa máquina de produção da marginalização social por meio de mecanismos punitivos e disciplinares (Wacquant, 2003). Em Human targets , Victor Rios está interessado em entender como essa cultura do controle afeta a vida real das pessoas, em especial na formação dos jovens como alvos humanos, ao ficarem presos nas amarras do Estado punitivo.

Para Victor Rios, a maioria dos trabalhos acadêmicos sobre gangues foca nas histórias de vida, nos processos de formação dos grupos, nos comportamentos de risco e nas estratégias de resistência. A obra Human targets opera um deslocamento em termos de abordagem: o foco está nos resultados das interações entre os jovens associados às gangues e os atores institucionais, especialmente a escola, a polícia e a justiça. Nesse sentido, o livro é uma importante contribuição teórica, que qualifica a análise das relações entre os jovens e as figuras de autoridade e de como essas interações impactam no engajamento desses jovens em atos infracionais.

Outro aspecto importante apresentado por Rios é a ênfase nas nuances das identidades dos jovens. Para o autor, alguns trabalhos sobre juventude reforçam ideias normativas de certo e errado, de limpo e sujo, de moral e imoral. Para o autor, as identidades não são binárias, mas repletas de camadas. As dicotomias geralmente emergem de narrativas de pesquisadores brancos de classe média sobre pessoas negras e/ou latinas, pobres e vulneráveis. Alguns cientistas sociais tendem a aceitar certas taxonomias como modo de ordenar a sociedade a partir de suas próprias concepções morais (Rios, 2015). Isso significa que não há tipos fixos de identidade, mas dinâmicas que variam de acordo com o tempo, o lugar e o tipo de interação.

No fundo, o autor está mais interessado nas múltiplas dimensões dos jovens associados às gangues do que no processo de adesão aos grupos em si. Para tanto, Rios define seu trabalho etnográfico como uma câmera de vídeo capaz de captar os múltiplos ângulos pelos quais os jovens transitam, e não apenas o enquadramento fixo ao estilo de uma câmera fotográfica. Desse modo, a narrativa de Rios emerge de entrevistas, grupos focais e de observações participantes. O autor utiliza o chamado “método triangulado”2, consagrado por autores como James Vigil (2007), que estuda gangues há mais de duas décadas, e principalmente por Norman Denzin (1970), responsável por introduzir a ideia de triangulação como ferramenta metodológica de pesquisa qualitativa em ciências sociais.

Ao apresentar o cenário de pesquisa, Victor Rios recupera os casos recentes de mal-entendidos, de desumanização e de brutalidade policial que ocorreram nos EUA nos últimos anos, com apelo nacional nos meios de comunicação. O autor afirma que a falta de compreensão dos corpos, da cultura e das ações de negros e latinos por parte dos policiais os levam a tomar decisões imprudentes e ao tratamento injusto e violento, com consequências graves e até letais.

A mensagem do livro de Victor Rios é clara: se quisermos que traficantes, ladrões de carro e delinquentes juvenis passem a ter uma vida produtiva, as instituições, especialmente as escolas e o sistema de justiça (e a polícia é parte importante desse sistema), devem encontrar maneiras de melhorar a qualidade da interação com esses jovens e oferecer-lhes recursos significativos que promovam mudanças verdadeiras. O tratamento punitivo que supostamente busca regular e controlar os jovens em conflito com a lei acaba criando uma crise de controle ainda maior, resultando em insucesso escolar e em brutalidade policial.

Ao todo, foram cinco anos de pesquisa, entre 2007 e 2012. Os participantes do estudo são jovens que se associaram às atividades de gangues numa cidade no sul da Califórnia, que o autor denominou de Riverland3. As entrevistas e as observações foram realizadas em diversos espaços: nas ruas, em parques, em centros comunitários, em audiências judiciais, em escolas probatórias ( probation schools ), em escolas convencionais e nos trajetos que realizou no carro da polícia. Foram observados e entrevistados 57 rapazes latinos associados a gangues entre 15 e 21 anos; e foram entrevistadas dezoito meninas. Houve ainda 42 grupos focais com meninos e quatorze com meninas.

Rios descreve as dificuldades de um pesquisador homem em obter confiança das meninas e reconhece as limitações de seu estudo. Por essa razão, o autor sugere a leitura do livro de Jerry Flores (2016), que preenche satisfatoriamente essa lacuna. O livro Caught up: girls, surveillance, and wraparound incarceration é uma etnografia fascinante que proporciona aos leitores um olhar raro sobre as experiências das jovens no sistema de justiça juvenil. Flores demonstra como as escolas e as instituições carcerárias se tornaram inextricavelmente conectadas para formar um sistema ubíquo de controle punitivo, levando a resultados sombrios na vida de meninas marginalizadas.

Outra instigante etnografia consta do livro Gang’s all queer , de Vanessa Panfil (2017). A obra reúne cinquenta entrevistas com jovens envolvidos com gangues na cidade de Columbus, Ohio. O trabalho etnográfico observou homens negros homossexuais com cerca de 20 anos de idade. Muitas pessoas acreditam que as gangues são formadas por pessoas violentas, hipermasculinizadas e heterossexuais. No livro, a autora apresenta um mundo diferente. Em detalhes, Vanessa Panfil fornece uma compreensão aprofundada de como os jovens entrevistados constroem e negociam as identidades sexuais através do crime e da adesão às gangues.

Em Human targets, Victor Rios afirma que ser membro de gangue é ter um tipo de poder simbólico capaz de causar reação nas outras pessoas. Para muitos adolescentes, a escola não passa de um lugar de humilhação, reprimenda e desrespeito, nada tendo a ver com um espaço de aprendizado e de experiência civilizatória. Como resultado, os jovens membros de gangues desenvolvem atitudes de antagonismo em relação às instituições e encontram oportunidades para a expressão da subjetividade em espaços alternativos, onde são aceitos. O principal dentre tais espaços é a rua, âmbito em que se desenvolve o estilo de vida de gangue. Uma vez envolvidos nesse mundo, os jovens passam a enfrentar maiores dificuldades em ter sucesso escolar, de arrumar trabalho e acabam caindo nas garras da justiça.

Victor Rios trabalha com uma definição operacional de gangue: processo grupal que ocorre quando jovens marginalizados tentam fornecer mutuamente uma identidade digna e uma oportunidade de se sentirem individual e coletivamente empoderados, desafiadores e, de certo modo, possuidores de uma voz. Trata-se de um refúgio do estresse e das tensões da pobreza, um fator protetivo que, de maneira funcional e perceptiva, substitui o papel que as instituições de socialização e de apoio (como a família, a escola e outras instituições do sistema de bem-estar) falham em oferecer. Com isso, Rios afirma que as gangues e os membros de gangues não são coisas ou pessoas, mas processos.

Por ser a gangue algo socialmente construído, a definição precisa ser suficientemente abrangente para dar conta dos contextos locais e das nuances dos processos grupais. O autor pensa então na ideia de indivíduos “associados à gangue” ( gang-associated ). Desse modo, o termo “associado” se refere ao processo cognitivo e institucional pelo qual os membros se conectam entre si. E para dar sentido e força teórica a esta definição, Rios trabalha com a ideia de “enquadramento cultural”, como um sistema de significados à laGeertz (2008).

Definido por Geertz e recuperado por Rios, o enquadramento cultural oferece uma ferramenta analítica importante para compreender o papel que as instituições desempenham na formação da visão de mundo e das ações dos indivíduos. O enquadramento cultural é um sistema de criação de significados, de formação de identidades, que influencia a percepção de mundo das pessoas, bem como suas escolhas de ação e de comportamento.

Victor Rios organizou o livro em seis capítulos, além da introdução e da conclusão. O trabalho possui ainda um apêndice metodológico. Os capítulos contêm relatos etnográficos do pesquisador e descrevem as interações dos sujeitos de pesquisa.

No primeiro capítulo (“The probation school”4), Rios apresenta a escola Punta Vista (nome fictício), para onde são mandados os alunos expulsos da escola convencional e que estão cumprindo algum tipo de regime disciplinar. Lá, Rios observou e entrevistou vários jovens latinos. O autor não poupa críticas à estrutura da escola (com presença de contaminação tóxica no solo), mas também aos professores e aos funcionários (seguranças, assistentes e a diretora). A etnografia apresenta uma brilhante crítica acerca das estratégias de alguns profissionais da escola em querer se aproximar dos jovens utilizando a mesma linguagem e maneirismo das ruas.

As figuras de autoridade (professores ou policiais) falham ao tentar se aproximar do universo simbólico dos alunos utilizando gírias fora do contexto, fazendo comentários sobre o estilo de roupa ou o corte de cabelo ou, pior ainda, querendo agir como se fossem iguais aos estudantes. Segundo as observações de Rios, os alunos simplesmente acham esse comportamento ridículo. O autor alerta que esse tipo de postura, supostamente bem-intencionado, tende a reproduzir os estereótipos do estilo de vida que se pretende corrigir. Além disso, as figuras de autoridade acabam sustentando os enquadramentos culturais negativos que levam os jovens a criminalização.

O segundo capítulo (“The liquor store and the police”5) trata de um espaço importante de sociabilidade para os jovens: a loja de bebidas. Os primeiros parágrafos contêm uma excelente descrição do lugar observado. O texto é tão rico em imagens que poderia figurar como parte de uma obra literária ou de um roteiro cinematográfico. Logo na abertura, Rios fala sobre o proprietário da loja de bebidas: um imigrante capaz de compreender os jovens de uma maneira que as autoridades não conseguem. O autor enfatiza especialmente o modo afetivo como o dono da loja trata os jovens, como seres multidimensionais, e não como membros de gangues e criminosos. Essa figura foi capaz de perceber que esses jovens precisavam somente de um lugar para conversar e se encontrar. Já os responsáveis pela lei (a polícia) não veem a loja de bebida como um espaço de afirmação, recreação e apoio mútuo. Para eles, aquela esquina é um espaço de atividades criminosas que precisa ser policiado de forma intensa e ostensiva.

O terceiro capítulo (“Cultural misframing”) trata especificamente dos desenquadramentos culturais que os jovens sofrem por conta do estilo de vida adotado. O estilo de jovens latinos associados às gangues no sul da Califórnia, conhecido como cholo , consiste em ter o cabelo raspado, usar roupas largas e ter tatuagens à mostra.

Para Rios, cholo é meramente uma maneira de ser e de agir desses grupos marginalizados. Não se trata de um tipo fixo, mas de engajamentos temporários que as pessoas se associam por algum tempo por meio de determinadas interações sociais. O autor afirma que cholo é uma subcultura juvenil como qualquer outra – punk, roqueiro, rapper, surfista, skatista, hipster –, mas quando passa a ser criminalizada pelas forças da lei, as autoridades recebem carta branca para distribuir punição e disciplina. Rios entende esse fenômeno como desenquadramento cultural, que é o processo pelo qual as instituições constroem, definem e impõem, de maneira simplista, as identidades fixas e negativas sobre os indivíduos baseadas em interpretações equivocadas dos símbolos, expressões, linguagens e ações.

Um jovem que adota o estilo cholo o faz porque recebe em troca apoio de seus pares. Para eles, a cultura convencional (baseada no estilo e no gosto da classe média branca) é associada às experiências negativas com as figuras de autoridade. As interações positivas com os pares, que compreendem suas subjetividades, fortalecem um tipo de subcultura que tende a rejeitar as normas convencionais.

Victor Rios aponta como causa do engajamento às atividades das gangues três elementos: mercado de trabalho pouco atrativo e inconstante, ausência de modelos positivos de autoridade e o desenquadramento da cultura jovem pela escola e pela polícia. Portanto, empregos viáveis, interações positivas com as autoridades e atividades culturalmente relevantes facilitariam o processo de mudança. Para Rios, tais recursos são simples de ser obtidos. Mas o que se observa na realidade é o contrário: essa parcela da população continua desamparada, convivendo cotidianamente com interações negativas, além de ser policiada e tratada como risco e ameaça.

O quarto capítulo (“Multiple manhoods”) inicia-se com a apresentação de cenas etnográficas de rapazes explicando como obter respeito nas ruas sendo uma pessoa durona e destaca um jovem de 20 anos de idade que costuma levar o filho de quatro anos para “aprender a ser homem” na rua em contato com outros rapazes. Na opinião de Rios, esse processo de socialização traz consequências negativas para a criança. Mesmo que o pai diga que o objetivo é mostrar ao filho o que não deve ser feito, crescer no ambiente de naturalização da violência pode encorajar a criança a ingressar em uma gangue futuramente.

O quinto capítulo (“The mano suave and mano dura of stop and frisk”) mostra a experiência da pesquisa vista do carro da polícia. Victor Rios fez 32 trajetos com os policiais ao longo de quatro anos e pôde observar 46 abordagens de jovens latinos associados a gangues.

Rios presenciou dois tipos de ações: a chamada “ mano suave ” e a “ mano dura ”. A primeira consiste em cumprimentos positivos, linguagem corporal dócil, aproximação educada e respeitosa, além do uso de expressões como “por favor” e “obrigado”. A segunda consiste em xingamentos, tom de voz alta e contatos físicos desrespeitosos. Os rapazes com aparência e estilo cholo foram os mais visados e revistados nessas abordagens. O estilo indicava, na visão dos policiais, que eram suspeitos de cometer crimes ou possíveis traficantes e usuários de drogas.

Ao categorizar dois tipos de ações antagônicas presentes nas abordagens policiais, Rios está em diálogo com os estudos de justiça procedimental e de legitimidade da polícia. Tais estudos estão concentrados, majoritariamente, nos departamentos de criminologia e de psicologia social, e dão ênfase a modelos estatísticos para observar o comportamento dos indivíduos e das autoridades (Tyler, 1988).

Victor Rios realiza análise similar a partir de outro olhar: o de um sociólogo por meio de observação direta e de dados etnográficos. Após descrever uma cena observada durante o trabalho de campo (a de um encontro desastroso entre um jovem latino e um policial com estilo mano dura ), Rios conclui que o incidente, além de não representar nenhum ganho na redução de crimes, reforça o capcioso perfil racializado das abordagens policiais.

Rios recolheu junto aos policiais justificativas para as constantes abordagens de jovens latinos. Em primeiro lugar, de acordo com os policiais entrevistados, trata-se de uma questão de prevenção. Os policiais acreditam que abordar os jovens com o objetivo de encontrar alguma arma é um modo de evitar futuros crimes. Em segundo lugar, por paternalismo. Alguns policiais entendem que seu papel é parecido com os dos pais no sentido de mantê-los “afastados de problemas”.

Em terceiro lugar, trata-se, segundo os entrevistados, de um dever. Muitos policiais entendem que executam uma espécie de serviço social e que podem ajudar esses rapazes. Victor Rios, todavia, pensa exatamente o contrário: como agentes armados e autorizados pelo Estado para usar a violência, os policiais representam um poder institucional específico. E essa relação fica ainda mais prejudicada quando transita inconsistentemente entre as abordagens mano suave e mano dura .

De um lado, a mano suave tende a fortalecer a legitimidade da polícia. O autor afirma que os policiais que operam com mano suave nunca deixaram de cumprir o dever de abordar ou prender ninguém. Por outro lado, as atitudes erráticas, por vezes violentas, dos policiais geram nos indivíduos, ipso facto , uma visão negativa da instituição, minando a legitimidade e, consequentemente, diminuindo a eficácia das ações policiais. Com isso, os jovens dificilmente estarão dispostos a colaborar com os agentes da lei.

Nos primeiros parágrafos do sexto capítulo (“Immigrant targets”), Rios apresenta a impressionante história de vida de um jovem imigrante mexicano que foi levado aos Estados Unidos com 7 anos de idade. Após descrever cenas e episódios de violência vividos em Los Angeles, Rios demonstra que, para o sistema de justiça, esse jovem já estava rotulado como membro de gangue mesmo antes de ser iniciado pelos seus pares.

Nesse capítulo, Rios trabalha com a ideia de “camadas de ilegalidade”: famílias disfuncionais, dificuldades para conseguir emprego pela falta de documentos e pela ficha criminal, dificuldades para concluir o ensino médio e a pressão dos pares para se associar às atividades das gangues. Segundo o autor, ao sair da escola convencional para ingressar numa escola probatória, os jovens ampliam o estado de vulnerabilidade, aumentam as chances de cometer crimes e o risco de vitimização. Assim, o próprio sistema escolar os transforma em alvos humanos.

Victor Rios inicia a conclusão novamente com o exemplo de uma história de vida de um jovem que decide sair da gangue, mas que ainda encontra problema para estabelecer uma vida convencional. Mais uma vez, Rios pretende demonstrar a importância das figuras de autoridade exemplares, das oportunidades de emprego e dos programas sociais e educacionais relevantes.

O autor enfatiza que a qualidade da interação tem um papel importante na maneira como os jovens percebem as figuras de autoridade. Os jovens que tiveram experiências negativas têm maiores taxas de evasão escolar e de encarceramento. Os que tiveram interações positivas enxergam o sistema educacional como uma possibilidade de superar as adversidades.

O livro também inclui uma série de recomendações e sugestões programáticas, com impactos em políticas públicas, visando solucionar os equívocos, pré-julgamentos e maus tratos que perpetuam o estado de miséria social dos jovens.

A primeira sugestão é o treinamento das autoridades voltado ao reconhecimento dos enquadramentos culturais. A segunda recomendação é incentivar os negócios locais a contratar jovens da comunidade como oportunidade de primeiro emprego. Além de auxiliar na transformação dos jovens, essa iniciativa também empodera os proprietários dos negócios locais. A terceira sugestão é a contratação de ex-integrantes de gangues para trabalhar nas escolas e nos espaços de atendimento aos jovens associados a gangues. Isso construiria uma importante ponte entre a escola e a comunidade e ainda fortaleceria o exemplo positivo de autoridade.

A quarta sugestão é a criação de oportunidades de emprego com engajamento civil na comunidade local. Ter um trabalho fortalece o senso de pertencimento, de esperança, de autoconfiança e de transformação. A quinta recomendação é o investimento em educação e o acesso à justiça. Quando o policial trata as pessoas de maneira justa, a instituição passa a ser vista como legítima. O mesmo ocorre na escola: ao ser tratados de maneira digna, os jovens teriam maiores chances de ter sucesso escolar. Então, Rios sugere um investimento no fortalecimento do tratamento justo pelo sistema de justiça e pelas escolas.

Mas obter legitimidade não deve ser o único objetivo das instituições. Esse é só o começo. Após obter confiança, o trabalho se inicia no sentido de promover bem-estar nos diversos enquadramentos institucionais. Rios acredita, e afirma mais de uma vez, que as interações positivas com figuras de autoridade e os bons modelos na comunidade podem dissuadir os jovens do cometimento de crimes e favorecer o engajamento em atividades produtivas.

Por fim, o livro ainda traz um apêndice metodológico que visa deixar os capítulos mais fluidos e sem excesso de citações. O leitor pode começar pelo apêndice, caso deseje iniciar a leitura munido de referências bibliográficas, de explicações sobre os procedimentos de pesquisa e, inclusive, das lacunas teóricas e de pesquisas sobre o estudo de gangues. No apêndice, Rios deixa claro que não pretende investigar por que os rapazes entram nas gangues e o tipo de crime que cometem. O autor pretende estudar as interações com os pares e as figuras de autoridade e o resultado dessas interações no processo de criminalização dos membros das gangues.

Victor Rios não está interessado em disponibilizar mais um livro sensacionalista – ou celebrativo – sobre as gangues e a delinquência juvenil, mas em oferecer uma análise aprofundada apontando onde as figuras de autoridade falham no relacionamento com os jovens. Para Rios, reconhecer o problema a partir de dimensões múltiplas favorece a visualização das falhas de um sistema que resiste a mudanças.

Um debate recorrente sobre pesquisas etnográficas nas ciências sociais é se o pesquisador nativo, por ter uma perspectiva de dentro, fornece um relato mais completo e preciso acerca de determinado grupo social. Em contraste, a pessoa de fora seria capaz de manter certa distância objetiva e adequada para evitar vieses éticos e políticos. O que torna o trabalho de Victor Rios contundente e interessante é o fato de ser bem-sucedido nesses dois aspectos. Human targets é simultaneamente uma etnografia de dentro e de perto e de fora e de longe, carregada de autenticidade sobre o processo de criminalização dos jovens nos EUA. Trata-se de uma contribuição original na seara da tradição sociológica de etnografias urbanas consagradas pela Escola de Chicago.

Com esse livro, somos levados a entender que parte da solução para os problemas que a juventude marginalizada enfrenta está no desenvolvimento de estudos que contribuam para iluminar as complexas situações que os jovens vivem, os enquadramentos culturais que acionam, a formação das visões de mundo e a maneira beligerante como seus comportamentos são regulados e punidos.

O autor é otimista ao dizer que embora os jovens latinos associados às gangues sejam alvos de rotulação, do encarceramento em massa e da hipercriminalização (Alexander, 2010; Fader, 2013; Goffman, 2014), as soluções para esses problemas não são impossíveis. As figuras de autoridade (professores e policiais) têm papel importante no processo de transformação. Aos jovens devem ser oferecidos recursos, oportunidades e, recorrentemente, novas chances capazes de mudar as trajetórias de mobilidade social. Mas poucos encontram empatia e recursos suficientes para superar as situações adversas. Muitos não concluem sequer o ensino médio e não encontram oportunidades de trabalho para desenvolver suas habilidades.

Desafortunadamente, em contextos sociais como os apresentados no livro, as façanhas de deslocamentos institucionais logrados por Victor Rios tendem a ser uma exceção. Por isso, o próprio autor reconhece que, a fim de se evitar o provável destino social trágico de jovens marginalizados, a cultura de controle deveria se fazer substituir por uma cultura de cuidados. Sua obra não deixa de representar um importante passo adiante nessa direção.

Referências Bibliográficas

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1.Gíria utilizada para se referir ao colega ou amigo. Pode ser traduzida como “mano” ou “parceiro”.

2.O método triangulado é um procedimento qualitativo de pesquisa que consiste em examinar o fenômeno a partir de diferentes pontos no tempo e no espaço para compreender os deslocamentos dos sujeitos em diferentes espaços institucionais e as mudanças que ocorrem no confronto com diferentes arranjos sociais. No precioso apêndice metodológico, Rios exibe mais detalhes dos procedimentos utilizados.

3.Pela descrição, deve se tratar de Los Angeles, ou de alguma cidade próxima, por causa da grande concentração de riqueza e também pela imensa população de latinos. O autor também utilizou pseudônimos para as pessoas e demais lugares a fim de lhes garantir o anonimato.

4.No Brasil não há esse tipo de instituição. Do ponto de vista disciplinar, a mais próxima seria a Fundação Casa de São Paulo, para onde são enviados os menores infratores. Porém, na probation school não há internação.

5.Nos Estados Unidos, há várias regulações e restrições sobre venda de bebida alcóolica e um controle cerrado de idade mínima. Por isso, não há equivalente no Brasil ao liquor store . Aqui, a bebida alcóolica é vendida praticamente em todos lugares.

Recebido: 7 de Fevereiro de 2018; : 12 de Março de 2018

HERBERT RODRIGUES é doutor em sociologia e mestre em antropologia social pela Universidade de São Paulo (USP). Foi visiting scholar da University of Massachusetts (UMass Amherst) e é pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP). E-mail: herb@usp.br.

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