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Tempo Social

Print version ISSN 0103-2070On-line version ISSN 1809-4554

Tempo soc. vol.31 no.2 São Paulo May/Aug. 2019  Epub Aug 29, 2019

http://dx.doi.org/10.11606/0103-2070.ts.2019.157668 

DOSSIÊ – GRAMSCI HOJE: NOVAS AGENDAS DE PESQUISA

A questão política dos intelectuais Balzac nos Quaderni

The political question of the intellectuals: Balzac in Quaderni

*Universidade Estadual de Campinas, Campinas, São Paulo, Brasil.

Resumo

A proposta deste artigo é discutir a análise de Antonio Gramsci (1891-1937) sobre Honoré de Balzac (1799-1850). A figura e a obra de Balzac emergiram, sobretudo no Q 3, escrito entre maio e outubro de 1930, como capazes de articular dois elementos centrais da reflexão de Gramsci: a noção de intelectual, em sua relação direta com a ideia de hegemonia; e a problematização acerca da literatura nacional-popular. A hipótese é que o tratamento de Balzac como intelectual permite que se explorem as relações entre autor e obra, literatura e política, vinculadas à construção da noção de nacional-popular em Gramsci.

Palavras-Chave: Antonio Gramsci; Honoré de Balzac; História do pensamento político; Literatura e política; Nacional-popular

Abstract

The proposal of this article is to discuss the analysis of Antonio Gramsci (1891-1937) about Honoré de Balzac (1799-1850). The figure and the work of Balzac emerged, especially in Q 3, written between May and October 1930, as capable of articulating two central elements of Gramsci’s thought: the notion of intellectual, in your direct relation with the idea of hegemony; and the problematization of national-popular literature. The hypothesis is that Balzac’s treatment as an intellectual allows to explore the relations between author and work, literature and politics, linked to the construction of the notion of national-popular in Gramsci’s thought.

Key words: Antonio Gramsci; Honoré de Balzac; History of political thought; Literature and politics; National-popular

Introdução

A obra de Honoré de Balzac (1799-1850) recebeu nos cadernos gramscianos, escritos em prisões fascistas entre 1929 e 1935, uma abordagem singular. Ainda que as anotações sejam esparsas, existe nos escritos carcerários uma interpretação coerente da obra balzaquiana, além de atualizada em relação aos debates literários que lhe eram contemporâneos. No entanto, nos estudos sobre a obra de Balzac, como também nos trabalhos dedicados à abordagem literária em Gramsci, são escassas as conexões traçadas entre o grande autor do século XIX e o renovador do marxismo, reconhecido por sua atenção aos temas culturais e à literatura.

Esse fato torna-se particularmente interessante se pensarmos na atenção delegada à obra de Balzac por Karl Marx1 e Friedrich Engels, passando por György Lukács e depois pela importante obra do crítico literário de orientação marxista Pierre Barbéris2. É indiscutível a atenção de marxistas à literatura balzaquiana, o que está também presente em Gramsci apesar da restrita – e por isso injusta – atenção dos críticos.

Sinteticamente, as abordagens marxistas identificaram o realismo como o fundamento da produção balzaquiana. O realismo é tratado como um aspecto positivo e capaz de dialogar com o marxismo na medida que ele permitiu ao literato perceber e registrar o mundo social sob a dominação da classe burguesa. Foi Engels que inicialmente formulou tal aproximação. Em carta escrita em 1888 para Miss Harkness, apontou que em La Comédie humaine3 de Balzac a aproximação e a exposição minuciosa dos personagens no contexto da Restauração (1814-1830) e da Monarquia de Junho (1830-1848) eram conduzidas com a demonstração da decadência dos grupos sociais aos quais Balzac, legitimista, ligava-se por afinidade política4. Sua simpatia de classe não o privava de mostrar como a “sociedade dos nobres” sucumbia, e a crítica aos remanescentes da velha ordem aparecia nos textos a despeito do próprio autor (Engels, 2001, pp. 166-168). A apresentação da sociedade francesa não era exaustiva e sim estruturada a partir de “personagens típicos” e “situações típicas”, afirma ainda Engels. Essa tipicidade era não uma construção abstrata, mas elaborada com base na leitura cuidadosa da França e de seus costumes, então em franco movimento em direção à consolidação do “arrivismo vulgar monetarizado” (Engels, 2001, pp. 166-168).

Balzac captou as idiossincrasias da sociedade francesa e as expôs tecendo as relações de suas tramas privadas (os negócios financeiros, as interações sociais de diferentes ordens – fraternais, românticas, familiares etc.) com a consolidação do capitalismo na França, mas fazendo-o de tal modo que a tipicidade sobre a qual tratou Engels comportava certa plasticidade. Em Balzac et le réalisme français (1951), Lukács partiu das considerações de Engels e indicou na obra do escritor francês a origem do realismo. Capaz de apreender as mudanças advindas da Revolução e os mecanismos históricos que atuam na sociedade francesa a partir de então, Balzac teria antecipado aspectos do marxismo. Para isso, recorreu à linguagem artística e, sem a intenção de fazê-lo, acabou por explicitar as consequências do desenvolvimento capitalista na França5.

As relações entre o Balzac monarquista e católico e o Balzac realista foram apresentadas como contingenciais e, em certa medida, seu realismo dependeria do isolamento do autor e de suas posições políticas. Tanto Lukács como Engels consideraram que aquilo que o autor realmente pensava era uma questão de segunda ordem. Tal cisão foi operada mesmo entre seus contemporâneos: Victor Hugo havia afirmado que o escritor era um republicano, mesmo sem o querer. A oposição entre o autor e sua obra, separando os aspectos ideológicos expressos pelo francês da crítica de seu romance, era assim um substrato importante da leitura de Balzac a partir de 1850, perpassando uma parte do século XX (Lyon-Caen, Thérenty, 2007, pp. 7-8)6.

A separação entre a política e o realismo foi matizada por Pierre Barbéris. Tratava-se, primeiro, de entender as escolhas conservadoras de Balzac. Para o crítico, o legitimismo do autor poderia ser visto como a defesa da monarquia que unificaria e organizaria o caos da sociedade autonomizada pela proeminência do dinheiro e dos interesses privados. Balzac estaria entre o reformismo e o conservadorismo, e suas posições políticas deveriam ser compreendidas à luz das escolhas políticas disponíveis no contexto. Por sua vez, as relações entre o romance e a política podem ser explicitadas pela fissura encontrada por Barbéris na produção do literato. O fim da Restauração produziu o que o crítico chamou de “desilusão de 1830”, quando o realismo ganhou maior nitidez porque fundamentado em uma recusa explícita e crítica do liberalismo (Lyon-Caen, Thérenty, 2007, p. 10; Mozet, 1976, pp. 98-117).

A moderna crítica balzaquiana, portanto, orienta-se por uma perspectiva que procura compreender Balzac como um homem de posições políticas não estáveis e articuladas com as mudanças profundas em curso naquele contexto. Seu legitimismo poderia ser visto como uma opção política coerente com o homem da ordem que era, orientado ainda pela percepção de que esse movimento político tinha maior densidade histórica do que o republicanismo, visto por ele como frágil, sem unidade e escassamente difundido nas províncias (Baudouin, 2007, p. 26). As posições políticas do autor e contradições entre este e sua obra seriam produtos de uma sociedade politicamente instável, suscetível às rupturas e fissuras que perpassaram a primeira metade do século XIX.

O realismo, para Barbéris, poderia ser visto como a síntese entre a pesquisa e a descrição da sociedade francesa do período, como também uma profecia: “descrevendo um mecanismo, ele indica um porvir”, e seu retrato dessa sociedade foi estimulado pela inquietação gerada por suas escolhas ideológicas (Mozet, 1976, p. 100). A obra balzaquiana poderia, portanto, ser adequadamente tratada se retomada a relação entre o autor e a obra, entre a política e o realismo.

Para Gramsci, o realismo de Balzac não pode ser tratado como elemento estético ou forma narrativa do romance. O marxista italiano partia de uma definição mais geral de realismo, que se referia àquela vertente de pensamento capaz de apreender a “verdade efetiva das coisas” e alcançava um nível mais particularmente ligado à política e à capacidade de se amalgamar às massas e às subjetividades. Fazer-se “história” ou parte da história e da cultura atestaria, para Gramsci, o realismo de uma corrente do pensamento ou de manifestações individuais do pensar.

O escritor, sua relação com seu tempo histórico e com as correntes intelectuais e políticas com as quais se ligava, ou seja, o mundo do autor, e a busca pelas marcas que o francês deixou na literatura, na filosofia e mesmo no senso comum orientaram a abordagem de Gramsci. Como um intelectual, Balzac recebeu um tratamento que articulou autor e obra, política e literatura, e vinculado à discussão acerca do nacional-popular. Com a inovação semântica que propõe, o nacional-popular corresponderia à existência de uma estrutura estatal portadora de um projeto que insere a massa da população e a cultura que exprima a unidade entre governantes e governados (Frosini, 2014, p. 58).

O objetivo do artigo, assim, é discutir como o tratamento da literatura balzaquiana orienta-se, por um lado, pela elaboração da noção de nacional-popular e, por outro, pelo desenvolvimento de uma reflexão acerca dos intelectuais tradicionais e suas funções de coesão entre diferentes estratos e classes sociais.

I

A reflexão de Gramsci acerca dos intelectuais nos Quaderni tem como um dos elementos mais importantes a expansão da definição desse grupo ou estrato social. Tal definição é mais vasta do que a noção corrente de intelligentsia ou de hommes des lettres, tradicionalmente dirigida aos que exercem atividades culturais ou do pensamento como nas profissões artísticas e liberais. Em Gramsci, o limite desse tipo de definição reside em identificar o grupo com base nas atividades por ele exercidas. Assim, procurou defini-los considerando o conjunto de relações em que estão implicados e a atuação na construção da hegemonia e, portanto, a partir de sua função organizativa e conectiva naquele conjunto de relações. Sem deixar de notar, ainda, a diferença de grau entre os “divulgadores” e os “criadores” (Q 4, § 49, p. 474).

É possível pensar em um conjunto de sujeitos (individuais e coletivos) implicados em diferentes funções e atividades, tanto na sociedade política como na civil, servindo inclusive para “ligar” as duas dimensões. Essa forma de compreender levaria a um delineamento mais realista dos intelectuais, passível de ser alcançado através de cuidadosa elaboração de extratos da história da cultura ou dos intelectuais. Assim, em seu projeto inacabado de estudos, amparou-se na atenção às atividades concretas executadas por aqueles que, historicamente, contribuíram para a conformação da hegemonia em diferentes Estados-nação. Embora desde sua proposta na primeira página do Q 1 (escrita em 8 de fevereiro de 1929)7 de tratar, entre outros temas, da questão dos intelectuais e da formação do espírito público italiano, o tema dos intelectuais conectou-se com a observação das diferentes formas de constituições do povo-nação (Thomas, 2009, p. 75)8.

Emerge nos Quaderni um conjunto de sujeitos – literatos, filósofos, partidos e movimentos políticos, teóricos de diferentes áreas do saber etc. – cujas atividades são analisadas com diferentes níveis de sistematização. Trata-se, ainda para Thomas (2009, p. 76), de uma investigação daquilo que podemos chamar de “práticas intelectuais”, para o que o interesse de Gramsci vai aumentando no decorrer de sua reflexão carcerária.

O Japão, a Inglaterra, a Índia, a Alemanha, entre outros países, foram perfilados e analisados em um esforço comparativo. O caso específico da França com seu processo de construção e a participação dos intelectuais, no entanto, iluminava o processo que ocorreu na Itália servindo como contraponto essencial. O espírito jacobino e sua radicalidade foram ausentes no Risorgimento italiano. Em razão do longo e radical processo de formação do Estado moderno na França, no qual estratos populares foram “protagonista[s] de um fato histórico radical” (Frosini, 2014, p. 78), havia se consolidado naquele país um espírito nacional-popular. Como consequência, pode-se falar do republicanismo e da laicidade como elementos mais amplamente compartilhados, de maneira que o nacional converge com o popular e com a noção de soberania (Q 3, § 63, p. 343). Na Itália, por sua vez, predominavam as iniciativas individuais e desagregadas, conduzidas por intelectuais que tinham formação sobretudo francesa: “na ausência de um caráter nacional, os pequenos grupos se consolidavam olhando sobretudo para os países estrangeiros de referência” (Gervasoni, 1998, p. 11).

A unidade e a capacidade de organização dos intelectuais na França explicitavam a correspondência entre duas esferas: a política e a cultura. A política dos jacobinos expressou as necessidades, de maneira realista, da classe em ascensão e a superação do Antigo Regime. As artes e a cultura são permeadas pelos valores e necessidades daquela classe. Percebeu Gramsci que “[n]a literatura política francesa [a] necessidade de ligação entre cidade e campo era vivíssima: lembra os Mistérios de Paris de Eugène Sue [...]. Sue é o romancista da tradição jacobina e um antepassado de Herriot e de Daladier em vários pontos de vista” (Q 1, § 44, p. 43).

Gramsci notou que o tratamento que desenvolvia acerca do tema dos intelectuais e seu papel na formação dos Estados era uma novidade: ausente nos estudos italianos, articulava-se com uma compreensão de Estado radicalmente nova que, como indicou Christine Buci-Glucksmann (1990), pode ser sintetizada na fórmula de Estado ampliado. Nessa fórmula, a questão dos intelectuais pode ser tratada como um tema articulador, e a história da cultura e dos intelectuais é vista como parte da história da formação de uma determinada unidade estatal.

Ao tratar Balzac como intelectual, esse foi deslocado de uma abordagem restrita à história da arte ou da literatura e considerado como componente da história da cultura e da política francesa. As referências à obra e a personagens de Balzac foram feitas em diversas notas de cadernos miscelâneos (como Q 3, § 153; Q 6, §§ 5 e 111, entre outros), sob a denominação de Letteratura popular. Tal denominação indica que o interesse pela obra de Balzac se apoiava no fato de que sua literatura era popular9. Seus personagens heroicos, típicos dos romances de aventura e de folhetim, são vistos como parte do conjunto de produções artísticas derivadas de histórias policiais, compostas por esquemas de intrigas. Se a ideologia burguesa celebra a ordem, a defesa da lei e o Estado como fundamento dessa legalidade, os aventurosos personagens de Balzac, como Vautrin, citado por Gramsci, desafiam tais valores e figuram ao lado daqueles de comportamento orientado por uma moral flexível ou mesmo amoral. Não é relevante, para Gramsci, se essa literatura reproduz o esquematismo dos romances de aventura ou policiais. O mais relevante é que dialogam com o “húmus da cultura popular, seus gostos e tendências”. Para Gramsci, “a premissa de uma nova literatura” deve ser o aprofundar-se e orientar-se pelos interesses populares, “de forma polêmica ou não, pouco importa”; ligar-se com seu “mundo moral e intelectual, mesmo se atrasado ou convencional” (Q 15, § 58, p. 1822; Areco, 2018, pp. 19-20).

Como notou Gervasoni (1998, p. 121), a reflexão sobre Balzac e a literatura popular francesa permitiu-lhe realizar uma “radiografia” das representações culturais do mundo moderno. As fórmulas policiais, os personagens que são protótipos do super-homem nietzschiano, as tentativas de evasão do “mundo real” propiciadas pelos romances de aventura: esses esquemas, presentes na literatura balzaquiana, assinalam a difusão da razão de Estado e das noções de ordem legal baseada na lei escrita entre o público leitor.

Essa observação aproxima-se da indicação de Boelhower (1981), para quem a literatura em Gramsci aparece antes através de elementos exteriores à obra do que em uma investigação e análise do texto em si. E, conforme notou Francioni (1983, p. 68), tal orientação se manifesta tanto na abordagem de A. Loria como produto da fragilidade da organização da cultura italiana, impossibilitando o funcionamento da crítica científica como filtro da produção científica; como nas rubricas sobre o que chamou de brescianismo, nas quais discute as relações entre a produção literária italiana e o público.

II

A França do século XIX se caracterizaria pela capilaridade e densidade dos grupos intelectuais acenados. A produção artística teria como caráter distintivo sua relação com o espírito nacional-popular e, justamente em razão disso, possuía ligação com os interesses e paixões do público-leitor e era capaz de atraí-los10. As primeiras notas (§§ 1, 2) do Q 3, que iniciam a reorientação de Gramsci vis à vis à valorização da questão dos intelectuais (Francioni, 1983, p. 73), referem-se aos intelectuais franceses como grupo e discutem as relações entre a literatura e o espírito nacional-popular.

No § 1, intitulado “Gli intellettuali francesi” [Os intelectuais franceses], Gramsci aborda um artigo do escritor Pierre Mille (1864-1941)11. Publicado na primeira página do periódico Les Nouvelles12 em 12 de outubro de 1929, o texto intitulado “Deux époques littéraires et d’angoisse: 1815-1830 et 1918-1930” [Duas épocas literárias e de angústia: 1815-1830 et 1918-1930] tece uma comparação entre os anos da Restauração bourbônica (1815-1830) e o período entre guerras (1918-1930), enfatizando o comportamento diverso dos intelectuais nos dois períodos.

Para Mille, o século XIX impunha aos intelectuais a percepção de um mundo em mudança acelerada e o Romantismo surgiu como uma produção ligada ao novo espírito popular. Entre as razões para a profusão literária dos anos da Restauração, Mille destaca:

A Revolução e o Império fizeram surgir uma nova sociedade, enquanto a antiga subsistia ou queria ressuscitar (isto era bastante impressionante em Balzac). Esta antiga sociedade não estava morta: somente foi despojada de seu antigo poder político, não exercia mais sobre os negócios do Estado […]. Essas espécies experimentavam a necessidade de conhecer esse mundo novo (Mille, 1929, p. 1).

No tempo coevo de Mille – e também de Gramsci – haveria uma novidade acelerada pelas mudanças no capitalismo e na configuração de classes, deixando os intelectuais aturdidos. São dois períodos transitórios, identifica Mille, mas enquanto no século XIX houve um movimento literário como forma de expressão orgânica do espírito do tempo, no segundo período a nova geração encontrava-se sem emitir uma voz lírica ou artística própria, apesar de sua inquietação. Não seria a Primeira Guerra (1914-1918) o motivo de tal mutismo, mas as mudanças na direção “administrativa e política” da burguesia, assim como “o capitalismo da imprensa”, que fazem com que os intelectuais não formulem respostas para as questões do presente (Mille, 1929, p. 1).

A questão dos intelectuais, tal como tratada por Mille, traz pontos justos ao considerar as relações entre esse estrato e as classes sociais – observou o autor dos Quaderni. Mille não usa a expressão crise dos intelectuais, mas Gramsci sintetiza a questão colocada pelo jornalista francês nesses termos. A crise é, para o marxista, associada com uma mudança ocorrida nos estratos econômicos intermediários (pequena e média burguesia)13, que os afasta do povo.

E o povo insurgente do século XIX tampouco permanecia o mesmo: aquele povo que se havia manifestado não existia mais (Q 3, § 4, p. 289). O alto capitalismo, a taylorização do operário e as mudanças nos estratos médios, com a distinção mais acentuada da pequena burguesia e das camadas populares, alteraram-na de maneira que a “literatura se transformou em fenômeno de casta”. A diferenciação entre o povo e os intelectuais do estrato médio, ou entre o nacional-popular e o intelectual tradicional, provocou uma cisão no ambiente cultural e político francês (Q 3, § 1, pp. 283-284).

Esse movimento de encastelamento dos intelectuais franceses reflete ainda, considera Gramsci, a superação de um fenômeno cultural restrito à boêmia literária do período entre 1848 e 1870, orientada pela noção de fraternidade e justiça típicas das correntes universalistas. O cenário modificou-se com a guerra e com a Revolução russa, de forma que a literatura não representa mais a “autocrítica da classe dominante” (Q 5, § 105, p. 634).

Na Itália a distância entre intelectuais e povo para Gramsci remontaria ao Risorgimento e seus limites na construção de uma unidade cultural, fundamento para a constituição de uma história nacional. Percebendo também tal separação, a defesa da criação de uma literatura nacional veio, na década de 1930, de parte dos intelectuais fascistas, e sua proposta consistiria no enquadramento dos camponeses na esfera estatal. Os camponeses, no entanto, seriam a “Itália que não se vê”, uma “hidra de numerosas cabeças” temida por esses mesmos intelectuais. Para Gramsci, a criação da literatura nacional na Itália não poderia ser resolvida com uma aproximação que restaria abstrata, na medida em que desconsideraria que

[…] o protagonista da história francesa se tornou o elemento permanente desta variação política, o povo-nação; portanto um tipo de nacionalismo político e cultural que escapa aos limites dos partidos propriamente nacionalistas e que impregna toda a cultura, portanto há uma dependência e estreita conexão entre povo-nação e intelectuais. Nada parecido com a Itália, onde no passado é necessário procurar o sentimento nacional com a lanterna, fazendo distinções, interpretando, mantendo silêncio, etc. (Q 3, § 82, pp. 361-362).

A comparação entre a cultura francesa e a italiana, neste parágrafo, tem como elemento elíptico um confronto entre o nacionalismo fascista e o nacionalismo francês da Action Française dirigido por Charles Maurras. A ausência de uma literatura nacional na Itália era acompanhada de uma forte influência do romance francês. No início dos anos de 1930, as obras dos romancistas franceses do passado, como Balzac e Zola, eram bastante traduzidas e publicadas na Itália. O influxo literário do século XIX no país vizinho refletia uma nova forma de se pensar também sobre a França: não eram as obras do presente, mas a produção romântica consolidada um século antes. O país não era mais visto como um guia no âmbito intelectual francês e marcado pela noção de modernidade que caracterizava a fase anterior (Gervasoni, 1998, p. 107).

Essa discussão foi retomada no § 2 do Q 3. Novamente o debate foi extraído das páginas da Les Nouvelles. O tema são os intelectuais e a relação destes com o nacional em artigo escrito por Julien Benda (1867-1956), autor de uma obra de influência sobre o assunto – La Trahison des Clercs (1927)14. Publicado em 2 de novembro de 1929, no artigo “Comment un écrivain sert-il l’universel?” [Como um escritor serve ao universal?] Benda afirma que os intelectuais só podem manifestar-se artisticamente através do particularismo da criação, da polêmica e da inovação que se propõe em relação a um dado espírito nacional. Quer dizer, só se produzem grandes obras quando há imprevisibilidade, o que é possível “quando se particulariza entre os seus nacionais” (Benda, 1929, p. 1).

Contrapondo-se ao nacionalismo (“talvez sendo nacional pode-se servir à paz, mas sendo nacionalista certamente não”), Benda (Idem, ibidem) defendia uma posição universalista, fundamentada na razão, como fundamento para o surgimento da cultura europeia. A questão, para Gramsci, é que o nacionalismo de seu tempo se apoia não em um erro dos intelectuais, mas

[…] esses eram e são ligados a um determinado período histórico no qual apenas a união de todos os elementos nacionais pode ter uma condição de vitória. A luta intelectual, se conduzida sem uma luta real que tenda a reverter esta situação, é estéril. É verdade que o espírito europeu está nascendo e não somente o europeu, mas justamente isso exacerba o caráter nacional dos intelectuais, especialmente do estrato mais elevado (Q 3, § 2, p. 286).

Interessante notar a posição antinacionalista do periódico e de Benda, e a discussão também acena para o fato de que a questão política dos intelectuais era animada, naquele contexto, pela exploração de sua relação com o que chamaram de caráter nacional dos intelectuais. Para Benda, o nacionalismo era um erro a ser enfrentado com as armas da lógica, enquanto vislumbra uma positividade no fortalecimento da cultura europeia. A concepção abstrata do romancista francês é refutada por Gramsci com a percepção de que a formação da cultura europeia não elimina o surgimento do nacionalismo mas, ao contrário, pode fortalecê-lo (Gervasoni, 1998, p. 109).

O nacional, assim, é encarado sob o quadrante França-Itália – Rússia-Itália. Enquanto o confronto entre França e Itália orientava em especial o Q 1, colocando em tela as diferenças entre os jacobinos e a Revolução francesa com o processo de formação da Itália moderna, no Q 3 o tema nacional é observado sob a dupla direção da Rússia do narodnyi e do que poderia ser na Itália mas não foi (Frosini, 2014, p. 79). O tema ligava-se, portanto, à experiência dos soviéticos nas primeiras décadas do século XX (Schirru, 2009, p. 247); por outro lado, polemizava com os fascistas acerca da ausência de uma literatura popular na Itália (Frosini, 2014, pp. 59-60).

Voltando ao argumento de Benda: para Gramsci seria necessário acrescentar que a efusão literária do século anterior, com o surgimento de Victor Hugo e do romance social de tendência democrática, retomado mais tarde por Émile Zola, havia sido acompanhada de movimentos sociais e políticos – como as Revoluções liberais e a Primavera dos Povos (1848). São, portanto, manifestações intelectuais e artísticas ligadas às irrupções populares de 1848. Considerando a Primavera dos Povos a partir da referência central da Sagrada família de Marx e Engels, Gramsci tratou dos eventos como orientados por um estrato intelectual que dirigiu um processo revolucionário, um tipo de revolução dos intelectuais que acelerou a politização do campo e das províncias (Gervasoni, 1998, p. 108).

Balzac também teve sua trajetória marcada pelas revoluções de 1830 e 1848. Escreveu a maioria de suas obras após 1830, em 1842 reorganizou suas publicações agrupando-as em La Comédie humaine, quando, receoso da “uniformização burguesa que ameaça o mundo”, passou a assumir a posição de colecionador, distinguindo-se da arqueologia que caracterizava sua produção anterior (Mozet, 2001). Para Balzac, a derrota da Restauração atestava o poder irreversível da burguesia. E, como colecionador, o presente seria o terreno a partir do qual ele recolhe e reúne fragmentos.

III

A partir da leitura articulada dos dois parágrafos do Q 3 (§§ 1, 2) podemos definir as chaves utilizadas para a análise de Balzac como intelectual:

  • é possível tratá-lo como produtor de uma literatura que expressa o espírito nacional-popular, como Gramsci desenvolveu mais tarde nos Q, que não pode ser confundido com um movimento de afirmação do nacional, mas antes como produzido pelo processo revolucionário francês e pela atuação política do povo nesse processo: mesmo em sua posição conservadora, não deixou de ter sua trajetória marcada pelas irrupções populares e pela continuidade da longa Revolução francesa – 1830, 1848 e mesmo 1871 seriam episódios do processo que irrompeu em 178915;

  • sua literatura foi produzida em um momento de mudanças, de crise próxima daquela que se identificava então no período entre guerras, o que ele esteve apto a identificar e registrar artisticamente, isto é, colecionar;

  • por isso sua literatura serve para entender a filosofia de um tempo histórico: ela é, ao mesmo tempo, obra de arte e elemento de uma civilização.

Nos anos em que esteve no cárcere em Turi (de 1928 a 1933), Gramsci teve limitado seu acesso a revistas e jornais. Foi permitido apenas que recebesse revistas culturais, com exceção de Corriere della Sera, cuja leitura foi autorizada até 1932. Dentre as publicações, lia as italianas La Nuova Antologia, L’Italia Literaria, Educazione Fascista, entre outras. A Les Nouvelles era a única revista francesa que lia com regularidade (Gervasoni, 1998, p. 101)16.

Em carta de 15 de dezembro de 1930, Gramsci indicou que estava recebendo a revista, que essa lhe interessava e que pretendia continuar lendo-a no cárcere:

As revistas Pégaso e Les Nouvelles Littéraires tenho recebido regularmente e de fato me interessam: pode confirmar a assinatura na livraria, mas acho que você já havia genericamente confirmado todas as assinaturas em curso e portanto não é necessário a confirmação específica, não acha? (L. 210, p. 373).

Os dois parágrafos que introduzem o Q 3 debatem o conteúdo publicado na Les Nouvelles Littéraires, Artistiques et Scientifiques. E, ao acompanhar o periódico, também acessou a crítica balzaquiana contemporânea produzida no país vizinho17. Uma parte importante do debate sobre literatura, ao menos aquele conduzido na Les Nouvelles, voltava-se à figura do autor/escritor, com um movimento que passava a dar atenção às posições políticas de Balzac. A questão é particularmente instigante por se tratar de um conservador monarquista e católico valorizado pela crítica marxista. Mais do que isso: fundador do romance moderno, não podia ser definido apenas como escritor ou literato. Atuou como jornalista, abriu uma editora e uma gráfica, escreveu textos e romances históricos e pretendeu investir no teatro. Pode-se falar de um agitador ou organizador da cultura e também alguém que pretendia intervir no seu tempo histórico através da política stricto sensu: foi candidato malfadado em duas eleições legislativas (1831 e 1832) (Baudouin, 2007).

Paul Bourget18, em artigo na Les Nouvelles – “Les idées politiques et sociales de Balzac” [As ideias políticas e sociais de Balzac], publicado em 8 de agosto de 1931 –, considerou como naquele período começava a se dar atenção ao que chamou de filosofia política de Balzac. Conservador católico e monarquista como Balzac, Bourget entende que a contribuição política do autor de La Comédie humaine não havia sido valorizada à altura de sua importância por seus contemporâneos. Ele lamenta o desprezo por suas posições políticas, que não acompanham a celebração de sua obra. A oposição autor e obra parece insustentável para Bourget, para quem o romance de Balzac seria animado por uma filosofia. Influenciada pelo positivismo, essa filosofia possibilitaria que ele captasse o real, “com todo seu bem e todo o seu mal”, através de uma concepção de mundo que perpassa as situações e os personagens descritos (Bourget, 1931, p. 1).

Esse mesmo positivismo seria o fundamento da adesão de Balzac à monarquia. A estabilidade e a existência de um órgão hereditário levariam ao desenvolvimento econômico e à “administração das forças vitais” de forma pacífica e em passos contínuos e evolutivos, enquanto as rupturas são necessariamente destrutivas. O catolicismo servia ao mesmo princípio de estabilidade. Catolicismo e monarquismo formam “a doutrina que anima do começo ao fim La Comédie humaine” (Bourget, 1931, p. 1).

O texto de Bourget foi citado por Gramsci no Q 12, § 41 (p. 1697). O marxista vê, nas proposições de Bourget, uma “disputa” por Balzac e sua literatura: intelectuais conservadores buscavam trazê-lo para o seu âmbito político. E, ao fazê-lo, tentavam valorizar o positivismo de Balzac. Gramsci e Bourget referem-se ao Prefácio de 1842 de La Comédie para afirmar o positivismo do autor.

Mostrando todo seu entusiasmo com a ciência da época, em especial pela zoologia, nesse prefácio Balzac afirma que o projeto de composição de sua coleção era orientado pela comparação entre a Humanidade e a Animalidade. A zoologia teria demonstrado que há um princípio animal que ganha “sua forma exterior, ou para falar mais exatamente, suas diferentes formas, no meio em que ele se desenvolve”. Isso permite que exista uma diversidade de espécies e, ao mesmo tempo, um princípio compartilhado entre as espécies. A sociedade se assemelha à natureza, afirma Balzac. Os homens se diferenciam em função dos espaços e condições em que sua vida se desenrola, o que gera tipos humanos que são em número finito e passível de se precisar (Balzac, 1845, p. 10)19.

A ideia de coleção sobre a qual tratou Mozet (2001, pp. 83-94) apresenta-se aqui com toda a força. Balzac fala de “unidade de composição”: tipos diversos reunidos formam uma unidade, cada unidade não pode ser entendida isolada do conjunto e a lógica do colecionador é agrupar as espécies depois de identificar os elementos que compartilham entre si. Balzac pretendia identificar os diferentes tipos humanos – “um soldado, um operário, um administrador, um advogado, um desocupado, um sábio, um homem de Estado” [etc.], além das diferentes figuras femininas (Balzac, 1845, pp. 10-11) – e produzir um

[…] inventário dos vícios e das virtudes, reunindo as principais paixões ao retratar os caracteres, escolhendo os eventos principais da Sociedade, compondo tipos homogêneos através da reunião dos traços mais característicos; talvez poderia chegar a escrever a história esquecida por tantos historiadores, aquela dos costumes. (Balzac, 1845, pp. 15-16).

Sua obra mais importante, composta por muitos volumes e não concluída, seria um catálogo que registraria toda a fauna humana, passível de catalogação já que ele seria limitado tal como as espécies animais. Próximo o autor do naturalismo, seduzido especialmente pela medicina e fisiologia, noções como “patologia social” e as metáforas dos grupos e da sociedade como organismo estão presentes em diversas páginas dos romances. Balzac utiliza a ideia, própria da medicina de seu tempo, de que há uma correspondência entre o físico e a moral; a “forma do crânio” e o comportamento (Perrot, 2001, p. 31). Não é, no entanto, um observador no sentido científico: atribui sua descrição à segunda visão, àquela da imaginação (Idem, p. 36).

Como Gramsci observou, Balzac dialogou com o positivismo científico típico do século XIX. A aproximação do realismo balzaquiano e o positivismo não resolve completamente, no entanto, a relação das posições políticas de Balzac com sua obra. Sua obra não é conservadora como pretendeu Bourget, pois:

[…] seu “realismo” que, apesar de ter origens ideológicas reacionárias, de restauração, monárquica, etc., não é, no entanto, menos realismo em ato. E se se compreende a admiração que nutriram por Balzac os fundadores da filosofia da práxis: que o homem seja todo o complexo das condições sociais em que ele se desenvolveu e vive, que para “mudar” o homem é preciso mudar este complexo de condições é claramente intuído por Balzac (Q 12, § 41, p. 1699).

A coleção de tipos, em sua execução, aproxima-se de um quadro denso, formado por personagens ligados por redes e com os desdobramentos das ações não podendo ser explicados através da causalidade (Lyon-Caen, Thérenty, 2007, p. 15). Embora pareça indicar para uma separação autor e obra, Gramsci estipula outra dimensão para a análise da questão: elementos artísticos e extra-artísticos. A obra de um escritor é um conjunto de produções, como “prefácio, divagações”, não necessariamente articuladas com a criação artística (Q 12, § 41, p. 1699). Alguns desses elementos não se encontram na obra. Portanto, o conservadorismo de Balzac não pode ser automaticamente aplicado a sua literatura. Por certo tal formulação torna mais complexo o exercício da crítica, visto que depende de uma abordagem matizada que categorize as diferentes partes da produção de um autor, sem deixar de considerar as ideias políticas do mesmo.

A questão colocada por Paul Bourget e discutida por Gramsci remete ao conjunto de problemas até aqui explorado: a questão política do intelectual, sua relação com os demais estratos sociais e a dupla função de direção e conexão com uma determinada formação social; e ainda, o tema mais próximo do exercício de crítica e que aborda a relação entre autor e texto, ou, mais particularmente, como a visão de mundo permeia o mundo poético de um autor. A produção balzaquiana parece por vezes antagônica às ideias políticas do escritor; e o conjunto da obra contém antinomias, como no caso do prefácio da Comédie e os volumes que a compõem. Perceber tais antinomias e antagonismos não leva à recusa da importância das ideias políticas de Balzac, nem a utilizá-las como referencial para a análise da obra.

Conclusão

A análise de Balzac feita por Gramsci traz pontos importantes para se pensar sobre a sua elaboração acerca dos intelectuais, apresentando-se como um caso concreto de investigação acerca das formas de construção e exercício da hegemonia. Tratando de sua obra, procura argumentar que ela foi capaz de influenciar e deixar marcas no ambiente literário, filosófico e também no senso comum, prática que se liga com a função do intelectual tal como formulada pelo marxista italiano. Essa forma de abordagem reforça a distinção entre crítica artística e a crítica cultural, elaborada com maior cuidado a partir do Q 5.

De forma complementar, ao se voltar à questão das relações entre as ideias políticas e a literatura, Gramsci assinala um lugar particular na crítica balzaquiana: não considera suas posições políticas como contingenciais, ainda que sejam exteriores à obra. Por outro lado, também valoriza o realismo como elemento central do autor, o que explica a aproximação deste com alguns fundamentos da filosofia da práxis. O realismo não é, portanto, pensado como forma ou técnica narrativa do romance. Ao se tratar das relações entre La Comédie e as posições políticas do escritor, é preciso considerar que 1830 foi um marco que abriu ao autor “a exploração melancólica da ‘comédia humana’ e a lucidez do realismo crítico” (Mozet e Petitier, 2001, p. 11).

Tal abordagem foi estimulada por um conjunto de debates e interlocuções que Gramsci estabeleceu a partir da prisão, com a problematização acerca do nacionalismo defendido pelas correntes literárias próximas do fascismo. De forma complementar, o marxista acessava a crítica balzaquiana produzida no âmbito francês e publicada no periódico Les Nouvelles e que reavaliava a separação entre realismo e conservadorismo, política e obra.

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1. O interesse de Marx por Balzac foi acenado por P. Lafargue em Reminiscences of Marx (1890).

2. Entre o conjunto de obras dedicadas a Balzac, destacam-se Balzac et le mal du siècle, contribution à une physiologie du monde moderne (1970) e Mythes balzaciens (1971). Sobre a importância de Barbéris, ver Mozet (1976).

3. A obra é formada por um conjunto de livros, articulados entre si, e que correspondem a mais de noventa volumes finalizados. Em 1842, Balzac escreveu um prefácio para a coleção e explicitou o método que utilizava. Sobre a estrutura da Comédie humaine, ver Rónai (2012).

4. Com a Monarquia de Julho (1830-1848) instaura-se um regime constitucional fundamentado na noção de soberania popular em oposição ao absolutismo da Restauração bourbônica. Os legitimistas defendiam o retorno da casa dos Bourbons.

5. Mais do que isso: com Balzac, a descrição foi colocada como recurso narrativo por excelência da obra moderna (Lukács, 1975, p. 136).

6. Há obras que podem ser lidas como mais imediatamente políticas e vinculadas ao realismo – como Les paysans, analisada por Lukács –, ou que tratam de disputas eleitorais, e outras que são abertamente ficcionais. Em Le Médecin de campagne e Le Député d’Arcis, ele critica as eleições, autorizadas a partir do regime constitucional e representativo criado pela Revolução liberal de 1830. Apesar de considerar os mecanismos de representação imperfeitos, ele mesmo acabou se candidatando para eleições legislativas, como veremos adiante (Baudouin, 2007, pp. 21-36).

7. Os temas elencados para estudo foram: (1) Teoria da história e historiografia; (2) Desenvolvimento da burguesia italiana até 1870; (3) Formação de grupos intelectuais italianos: desenvolvimento, atitudes; (4) A literatura popular dos “romances de folhetim” e as razões de sua fortuna persistente; (5) Cavalcante Cavalcanti: sua posição na estrutura da Divina Comédia; (6) Origem e desenvolvimento da Ação Católica na Itália e na Europa; (7) O conceito de folclore; (8) Experiência da vida na prisão; (9) A “questão meridional” e a questão das ilhas; (10) Observações sobre a população italiana: sua composição, função da emigração; (11) Americanismo e fordismo; (12) A questão da linguagem na Itália: Manzoni e G. I. Ascoli; (13) O “senso comum”; (14) Revistas tipo: teórica, crítico-histórica, cultura geral (divulgação); (15) Neogramáticos e neolinguistas (“esta mesa redonda é quadrada”); e (16) Os sobrinhos do padre Bresciani.

8. Desde os primeiros parágrafos a questão dos intelectuais recebeu atenção de Gramsci. O tema parece estar relacionado a uma reorientação de seu projeto de investigação, anotado na primeira página de seus cadernos, escrito em 8 de fevereiro de 1929. No Q 3 começa a ser aprofundada a discussão sobre a figura do intelectual, sua definição e relação com os grupos sociais, encaminhando-se assim para explorar a questão política dos intelectuais (Francioni, 1984, pp. 72-73). O Q 5 pode ser lido como o laboratório dos intelectuais (Francioni, 1984, p. 75), e no Q 8 foi explicitada a nova orientação do projeto carcerário, no qual os temas de cultura têm um espaço bastante importante.

9. De acordo com o Aparato crítico organizado por V. Gerratana, os livros de Balzac citados nos Quaderni são: Le père Goriot (1834) e La Rabouilleuse (Un ménage de garçon) (1842). As referências ao escritor francês estão nos chamados “cadernos miscelâneos”: Quaderno 3 (redigido em 1930), § 153; Quaderno 6 (1930-1932), §§ 5 e 111; Quaderno 14 (1932-1935), §§ 4, 27 e 41. E ainda: no Quaderno 8 (1931-1932), [Miscellanea e Appunti di filosofia III], §§ 209, 228 e 230; Quaderno 9 (1932), [Miscellanea e Note sul Risorgimento italiano], § 120; Quaderno 16 (1933-1934), [Argomenti di cultura. 1°], §§ 1 e 13 e, por fim, Quaderno 21 (1934-1935), [Problemi della cultura nazionale italiana. I° Letteratura popolare], § 1.

10. A literatura popular não é aquela produzida pelo povo, e Gramsci também não reforça a ideia de que é “preciso ir ao povo” como no romance proletário. Essa literatura é aquela que tem capacidade de “satisfazer as aspirações” das camadas populares, mesmo aquelas “mais instintivas ou elementares” (Musitelli, 2009, p. 466), portanto não necessariamente progressistas ou democráticas.

11. Pierre Mille foi um jornalista e autor de romances. Escreveu para o Journal des Débats e a Revue des Deux Mondes, foi correspondente em Madagascar, visitou Senegal e Congo. Seu gênero literário era a ficção colonial, que buscava capturar a realidade da vida nas colônias, ainda que orientado por uma perspectiva que reforçava o apoio à dominação francesa.

12. Criada em 1922 e publicada pela Larousse até 1958, a revista foi importante para a divulgação e discussão literária nas primeiras décadas do século XX. Impressa como um jornal com a finalidade de facilitar a circulação, apresentava em suas edições semanais recenseamento dos livros publicados, resenhas e críticas teatrais, entrevistas com escritores e estampava retrato de autores, uma novidade na imprensa e nas publicações especializadas da época. Esses elementos indicam a direção de seu projeto editorial: combinava a tentativa de renovar as publicações voltadas ao debate intelectual e produção artística. Criaram um tipo específico de conteúdo jornalístico: as atualidades literárias, reportagens que acompanhavam os escritores e descreviam sua vida, influências e cotidiano, próximas da ideia de um perfil biográfico, porém com incursão em aspectos mais triviais da rotina do autor (Houssais, 2012). A intenção era aproximar o leitor do periódico do intelectual. Isso haveria contribuído com o “desenvolvimento de uma nova imagem, menos circunscrita, mais móvel e viva […] do escritor. Este não é mais somente considerado como autor de uma obra, mas também como um ator da vida pública” (Boucharenc, 2012). A ideia do intelectual como ator da vida pública, no periódico, ligava-se também com o pressuposto de que era sua função contribuir com a expansão de uma forma de civilização e de pensar. Polemizando com o nacionalismo, buscava uma linha europeia entendida então como em construção, manifesta na tentativa de cobrir a produção literária de outros países e de diferentes tendências, buscando imparcialidade como uma forma de resposta à tomada de posições característica da imprensa na Primeira Guerra (Boucharenc, 2012).

13. Os artigos da Les Nouvelles Littéraires, Artistiques et Scientifiques: Hebdomadaire D’information, de Critique et de Bibliographie foram consultados no site da Bibliothèque Nationale de France (BnF). Estão disponíveis no site, em formato digital, as publicações do ano de 1922 até 1936. É possível consultar o conteúdo dos jornais com a busca de termos ou expressões. Os documentos em formato impresso podem ser acessados na Bibliothèque Nationale de France, Département Droit, Économie, Politique (Paris-França). Ver: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/cb328268096/date.

14. Romancista bastante celebrado, Benda destacou na obra que os intelectuais haviam abandonado a defesa da razão e do intelecto ao assumirem posições reacionárias e doutrinárias. Foi crítico constante e feroz do conservadorismo católico de Charles Maurras, este opositor da República e da democracia.

15. Como demarcar o fim da Revolução? Uma parte dos historiadores do começo do século XX acenou para a dificuldade em precisar quando a revolução tinha sido concluída. Gramsci retomou essa ideia nos Quaderni ao tratar da Revolução francesa. É preciso também considerar o conceito de revolução em Gramsci: “mais do que a conquista do poder, trata-se da instauração de um novo mundo produtivo, […] de uma nova hegemonia, e uma radical e profunda reforma intelectual e moral, ou seja, a fundação de uma nova civilização” (Mena, 1996, p. 10).

16. A Les Nouvelles foi citada, além do Q 3 (§ 1, § 2), nos Q 5 (§ 37, § 131, § 155); Q 6 (§ 32, § 33, § 137, § 168, § 197), Q 7 (§ 49, § 76), Q 8 (§ 173), Q 9 (§ 78, § 120), Q 10 (§ 47), Q 11 (§ 13), Q 12 (§ 41), Q 14 (§ 41), Q 17 (§ 219) e Q 21 (§ 2). A revista aparece sobretudo articulada ao tema da literatura popular, nas comparações entre França e Itália (J. Benda, frequente nas páginas da revista, em certo momento foi comparado com B. Croce), e também são feitas referências a entrevistas com personagens do mundo da literatura publicadas neste veículo.

17. Balzac aparecia com muita frequência nas páginas da Les Nouvelles. A título de ilustração: em 1930 foram publicados 52 números da revista e é possível computar, no mesmo ano, 45 referências ao autor.

18. Crítico do naturalismo na literatura, Bourget produziu romances experimentais, com influência da psicologia, e romances moralistas, orientados pelos valores católicos e a tentativa de conciliação entre ciência e fé.

19. Balzac é citado a partir da edição crítica de 1845 organizada por Groupe International de Recherches Balzaciennes, Groupe ARTFL (Université de Chicago), Maison de Balzac (Paris) e disponível em: http://www.paris.fr/musees/balzac/furne/presentation.htm.

Recebido: 2 de Maio de 2019; Aceito: 6 de Maio de 2019

SABRINA ARECO é doutora em ciência política pela Unicamp. É membro da IGS-Brasil e da ABCP-Centro Norte e professora na UEMS. E-mail: sabrinaareco@gmail.com.

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