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Acta Paulista de Enfermagem

Print version ISSN 0103-2100On-line version ISSN 1982-0194

Acta paul. enferm. vol.18 no.3 São Paulo July/Sept. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-21002005000300008 

ARTIGO ORIGINAL

 

O cuidado de enfermagem e o cateter de Hickman: a busca de evidências*

 

Nursing care and Hickman’s catheter: the search for evidence

 

El cuidado de enfermeria y el catéter Hickman: la búquela de evidencias

 

 

Renata Cristina de Campos Pereira SilveiraI; Cristina Maria GalvãoII

IEnfermeira do Departamento de Enfermagem Geral e Especializada da Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo - USP - Ribeirão Preto (SP), Brasil. Centro Colaborador da OMS para o desenvolvimento da pesquisa em enfermagem. Mestre em Enfermagem Fundamental
IIProfessor Associado. Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo - USP - Ribeirão Preto (SP), Brasil, Centro Colaborador da OMS para o desenvolvimento da pesquisa em enfermagem

Autor correspondente

 

 


RESUMO

INTRODUÇÃO: Os pacientes submetidos ao transplante de medula óssea (TMO) necessitam de um acesso venoso seguro para a infusão da medula óssea. A implantação de um cateter venoso central é parte da terapêutica, sendo o de Hickman o mais utilizado atualmente; entretanto, sua presença impõe riscos, sendo a infecção, o mais preocupante.
OBJETIVO: Revisão integrativa da literatura, que teve como objetivo buscar e avaliar as evidências sobre os cuidados de enfermagem relacionados ao cateter de Hickman.
MÉTODO: Para a seleção dos artigos utilizamos as bases de dados Lilacs, Medline, Cinahl e o periódico Bone Marrow Transplantation, e a amostra constituiu-se de 18 artigos.
RESULTADOS: O curativo recomendado é o de poliuretano trocado a cada 7 dias. O método de coleta de sangue observado foi o de descarte, sendo que a dosagem de ciclosporina não deve ser coletada da mesma via onde foi infundida. A redução do número de manipulações do cateter é considerada uma medida eficaz na prevenção e no controle de infecção.
CONSIDERAÇÕES FINAIS: As evidências extraídas dos estudos analisados podem auxiliar a implementação de cuidados de enfermagem eficazes relacionados ao cateter de Hickman.

Descritores: Transplante de medula óssea; Cateterismo venoso central; Cuidados de enfermagem


ABSTRACT

BACKGROUND: Patients submitted to Bone Marrow Transplantation (BMT) need a safe venous access for the infusion of bone marrow. The implantation of a central venous catheter is a part of therapy, with Hickman’s catheter as the most commonly used type; however, its presence entails risks, the most preoccupying of which is infection.
OBJECTIVE: Integrative literature review aimed to look for and evaluate evidence on nursing care related to Hickman’s catheter.
METHOD: Articles were selected from the Lilacs, Medline and Cinahl databases and from the journal Bone Marrow Transplantation. The sample consisted of 18 articles.
RESULTS: Polyurethane dressings are recommended, to be changed every 7 days. The observed blood collection method was through discarding, in which the cyclosporine dose should not be collected from the same pathway it was infused in. Reducing the number of catheter manipulations is considered an efficient measure for infection prevention and control.
CONCLUSION: The evidence taken from the studies that were analyzed can be of help in the implementation of efficient nursing care related to Hickman’s catheter.

Keywords: Bone marrow transplantation; Catheterization, central venous; Nursing care


RESUMEN

INTRODUCIÓN: Los pacientes sometidos al trasplante de médula ósea (TMO) necesitan de un acceso venoso seguro para la infusión de la médula ósea. La implantación de un catéter venoso central hace parte de la terapéutica siendo el de Hickman el más utilizado actualmente; sin embargo, su presencia impone riesgos a los pacientes, el más preocupante de los cuales es la infección.
OBJETIVO: La finalidad de esta revisión integradora de la literatura fue buscar y evaluar las evidencias sobre los cuidados de enfermería relacionados al catéter Hickman.
MÉTODO: Para seleccionar los artículos utilizamos las bases de datos Lilacs, Medline, Cinahl y la publicación Bone Marrow Transplantation, y la muestra consistió en 18 artículos.
RESULTADOS: El vendaje recomendado es el de poliuretano cambiado cada 7 días. El método de colecta de sangre observado fue el de desecho, en el que el dosaje de ciclosporina no debe ser colectado de la misma vía donde fue infundido. La reducción del número de manipulaciones del catéter es considerada una medida eficaz en la prevención y en el control de infección. Las evidencias extraídas de los estudios analizados pueden auxiliar la implementación de cuidados de enfermería eficaces relacionados al catéter Hickman.

Descriptores: Trasplante de médula ósea; Cateterismo venoso central; Cuidados de enfermería


 

 

INTRODUÇÃO

O transplante de medula óssea (TMO) é um procedimento médico, relativamente novo, que está sendo usado no tratamento de doenças que se acreditava serem incuráveis. O objetivo é corrigir um defeito quantitativo ou qualitativo da medula óssea. É utilizado no tratamento de doenças hematológicas malignas e não-malignas, imunodeficiências, erros inatos de metabolismo e de tumores sólidos (1) .

Atualmente, o TMO também tem se destacado como alternativa no tratamento de doença auto-imune, cujo êxito foi atribuído a observações de alguns casos de pacientes portadores de doença maligna, com doença auto-imune associada e que, após a realização do TMO, apresentaram remissão da patologia auto-imune(1).

O TMO é considerado um procedimento de risco devido às complicações, cuja freqüência depende do tipo de transplante efetuado, bem como da idade e da condição clínica subjacente do indivíduo.

A indicação do uso de cateter de Hickman em pacientes submetidos ao TMO ocorre, principalmente, por dispensar a punção percutânea, monitorização da pressão venosa central, e por ser adequado à infusão de grandes quantidades de fluidos, simultaneamente, e de soluções por tempo prolongado, como por exemplo, a nutrição parenteral, além de garantir a infusão da medula óssea sem comprometer o enxerto.

A literatura aponta que a incidência de complicações que levam à necessidade de retirada do cateter de Hickman é de aproximadamente 30%, sendo que as mais freqüentes são: infecção e migração do cateter e trombose(2).

Microrganismos podem colonizar o cateter induzidos pela quebra na integridade cutânea. A realização de curativo sobre o óstio de saída, onde a integridade da pele está interrompida, auxilia na prevenção das complicações infecciosas. As infecções relacionadas ao cateter podem ser classificadas em três tipos: infecção do óstio de saída, infecção do túnel subcutâneo (tunelite) e septicemia relacionada ao cateter(3).

Por outro lado, a patogenia da infecção em cateteres tunelizados está mais comumente associada à contaminação do "hub" e conseqüente infecção intraluminal, confirmando que o número de manipulações do cateter é um importante fator de risco. Assim, um treinamento adequado dos profissionais de saúde para a realização dos procedimentos de manipulação pode ser uma das medidas para prevenir as bacteremias relacionadas ao cateter venoso central(4).

Diariamente, o cateter de Hickman é intensamente manipulado, na maioria das vezes, pela equipe de enfermagem e a infecção é uma das complicações mais freqüentes que levam a retirada do cateter. Dessa forma, evidencia-se a necessidade de que os membros da equipe de enfermagem sejam capacitados, a fim de prestarem cuidados que minimizem os riscos inerentes à utilização deste cateter.

Frente ao exposto, buscamos na literatura um referencial teórico que pudesse fundamentar o presente estudo, selecionamos a prática baseada em evidências (PBE) que é uma abordagem que incorpora as evidências oriundas de pesquisas, a competência clínica do profissional e as preferências do cliente para a tomada da decisão sobre a assistência à saúde. Consiste em um processo de busca, avaliação e aplicação de evidências científicas para o tratamento e gerenciamento da saúde. O cuidado é guiado por meio de resultados de pesquisas, consenso de especialistas ou pela combinação de ambos(5).

No presente estudo, utiliza-se como método a revisão integrativa da literatura, a qual tem como finalidade reunir e sintetizar o conhecimento científico já produzido sobre o tema investigado, ou seja, permite buscar, avaliar e sintetizar as evidências disponíveis para a sua incorporação na prática. Para a construção da revisão integrativa utilizamos como referência estudos que detalham este método de pesquisa(6-7).

O objetivo do estudo consiste em buscar e avaliar as evidências disponíveis na literatura sobre os cuidados de enfermagem relacionados ao cateter de Hickman, após a implantação no paciente submetido ao TMO.

 

MÉTODOS

Para a elaboração da revisão integrativa as seguintes fases foram percorridas: identificação do tema, amostragem ou busca na literatura, categorização dos estudos, avaliação dos estudos, interpretação dos resultados e a síntese do conhecimento evidenciado nos artigos analisados ou apresentação da revisão integrativa.

A pergunta norteadora da presente revisão integrativa consistiu em: quais são os cuidados de enfermagem relacionados ao cateter de Hickman após a sua implantação, no paciente submetido ao TMO?

A seleção dos artigos foi por meio das bases de dados Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL) e Medical Literature Analysis and Retrieval Sistem on-line (MEDLINE) e do periódico Bone Marrow Transplantation (BMT), sendo que as palavras-chave foram: transplante de medula óssea, cateter venoso central, cuidado de enfermagem e intervenção de enfermagem.

Os critérios de inclusão dos artigos da presente revisão integrativa foram: artigos que abordem os cuidados de enfermagem relacionados ao cateter de Hickman após a sua implantação no paciente submetido ao TMO e artigos publicados em inglês, espanhol e português.

Assim, selecionamos e analisamos dezoito artigos conforme os critérios de inclusão previamente estabelecidos. Na base de dados LILACS encontramos quatro artigos, no MEDLINE dez, no CINAHL cinco, sendo que três artigos já haviam sido encontrados na base de dados MEDLINE e dois artigos no periódico BMT.

Para a extração de dados dos artigos incluídos na revisão integrativa, utilizou-se um instrumento previamente validado com autorização do autor (8) , o qual contempla os itens: identificação do artigo original, características metodológicas do estudo, avaliação do rigor metodológico, intervenções estudadas e resultados encontrados.

A análise dos dados extraídos foi realizada na forma descritiva, possibilitando ao enfermeiro avaliar a qualidade das evidências (nível de evidência disponível na literatura sobre o tema investigado, fornecer subsídios para a tomada de decisão no cotidiano da enfermagem, bem como a identificação de lacunas do conhecimento para o desenvolvimento de futuras pesquisas).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os temas dos artigos foram: curativos (7), coleta de sangue (3), heparinização (1), manutenção, manuseio, prevenção e controle de infecção (7). Quanto à autoria dos artigos constatou-se que 9 (50%) são de enfermeiros; 1 (6%) foi escrito por médicos; 2 (11%) foram feitos por enfermeiros e médicos; 2 (11%) tinham como autores enfermeiros, médicos e outros profissionais da área da saúde; e em 4(22%) não foi possível identificar a formação dos autores.

Em relação à instituição sede onde os estudos foram desenvolvidos, obteve-se 8 hospitais universitários, 5 hospitais, 2 universidades, 1 multicêntrico, 1 hospital em conjunto a um centro de pesquisa e 1 não possui identificação.

Quanto ao tipo de revista científica 7 eram publicações médicas, 6 de enfermagem oncológica, 3 de enfermagem geral, 1 de outras áreas de saúde e 1 dissertação de mestrado.

Ao analisar os delineamentos de pesquisa dos artigos incluídos, constatou-se 4 (22,2%) ensaios clínicos randomizados, ou seja, delineamento de pesquisa experimental; 1 (5,5%) pesquisa com delineamento quase-experimental (estudo comparativo retrospectivo) e 13 (72,2%) estudos com delineamento não-experimental, sendo 6 (46,1%) tipo descritivo-exploratório, 1 (7,6%) revisão da literatura/ survey, 1 (7,6%) estudo de caso, 2 (15,3%) survey e 3 (23%) relatos de experiência.

Em relação à força das evidências constatou-se quatro artigos com nível de evidência 2, um artigo com nível de evidência 3, nove com nível de evidência 4 e quatro com nível de evidência 5 (9) .

Nas tabelas 1, 2, 3 e 4 apresenta-se a síntese dos artigos incluídos na presente revisão integrativa.

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando comparado os diferentes tipos de cobertura para o curativo de cateter de Hickman, não foi encontrada, nos estudos, diferença estatisticamente significante na incidência de infecção relacionada ao cateter.

A vantagem demonstrada pelo curativo de poliuretano é a sua maior permanência, diminuindo a necessidade de trocas freqüentes e manipulação excessiva do óstio de saída do cateter. Além disso, também foi relatado maior satisfação e conforto do paciente, redução dos custos com material e menor necessidade da equipe de enfermagem.

Em pacientes submetidos ao TMO, a preocupação relacionada ao aparecimento de lesões causadas pela troca freqüente de curativos, justifica-se pela proliferação da microbiota local, que devido a falta da proteção inata da pele, torna difícil a sua remoção durante a anti-sepsia, aumentando o risco de complicações infecciosas. Dessa forma, seria favorável a implementação das evidências sobre o curativo de poliuretano que pode ser substituído a cada sete dias.

O Centers for Disease Control and Prevention (CDC) utiliza a seguinte classificação para os níveis de evidência: IA, fortemente recomendadas para implementação e fundamentadas em bons estudos experimentais, clínicos ou epidemiológicos; IB, fortemente recomendadas para implementação e fundamentadas em alguns estudos experimentais, clínicos ou epidemiológicos e em fortes modelos teóricos; IC, regras ou padronizações das regulamentações federais dos Estados Unidos da América (EUA); II, sugeridos para implementação e fundamentados em estudos clínicos ou epidemiológicos sugestivos ou em modelos teóricos; Problema sem desfecho, o CDC não encontra evidências que responderiam ao problema(17).

As diretrizes do CDC para o curativo de cateteres tunelizados preconizam que o curativo de óstio pode ser, tanto com gaze estéril e esparadrapo, quanto com películas de poliuretano (evidência IA), sendo preferível o curativo com gaze estéril em pacientes com perspiração abundante, sangramento ou exsudação local (evidência II), refazer o curativo quando estiver úmido, solto, sujo ou na inspeção do local (evidência IA), nos cateteres tunelizados ou totalmente implantados a troca do curativo deve ser realizada uma vez na semana até que esteja cicatrizado (evidência IB) (17).

Na anti-sepsia da pele há preferência pela solução clorexidina a 2%, embora o PVPI alcoólico e aquoso ou o álcool a 70% também possam ser utilizados (evidência IA), o óstio de cateteres tunelizados, quando bem cicatrizados, não necessitam de curativo (problema sem desfecho), não submergir o cateter em água, porém, banho de chuveiro é permitido se o cateter e suas conexões forem protegidos (evidência II), utilizar luvas limpas ou estéreis durante a troca do curativo (IC), sendo que o uso de luvas não substitui a higienização das mãos (evidência IA), não aplicar pomadas ou cremes antimicrobianos no sítio de inserção do cateter (exceto em cateter para hemodiálise), porque potencializa infecções fungicas e resistência microbiana (evidência IA), nenhuma recomendação pode ser feita para a utilização de suturas como dispositivo de segurança (problema sem desfecho), assegurar que o material utilizado para o curativo seja compatível com o material do cateter (evidência IB) (17).

As soluções iodadas possuem agentes microbicidas de ação imediata após o contato de dois a cinco minutos e amplo espectro de microrganismos. O seu efeito residual varia de 30 minutos a uma hora dependendo da absorção de iodo pela pele, sem contudo atingir níveis sistêmicos (18) .

Outro agente microbicida importante é a clorexidina, sua ação em baixas concentrações é bacteriostática, mas em concentrações elevadas tem uma rápida ação bactericida. As vantagens da clorexidina são sua imediata ação bactericida, após quinze segundos, e um efeito residual prolongado podendo chegar a seis horas(18).

Apesar destas recomendações, os aspectos relacionados ao tipo de cobertura e a freqüência da troca do curativo do cateter venoso central apresentam controvérsias, na literatura há artigos com diferentes conclusões.

Em uma pesquisa com delineamento quase-experimental, os autores testaram quatro tipos de curativos, a saber: PVPI e tegaderm, PVPI e gaze estéril, clorexidina e tegaderm, clorexidina e gaze estéril, as trocas dos curativos estavam programadas para as segundas-feiras, quartas-feiras e sextas-feiras. A amostra foi reduzida, participaram 60 crianças advindas das unidades de oncologia e de TMO. Não houve diferença estatisticamente significante entre os grupos quanto ao crescimento bacteriano, os resultados apontaram um aumento na freqüência de hiperemia e edema local quando a solução anti-séptica utilizada era o PVPI sugerindo um aumento da irritação da pele(19).

Por outro lado, um estudo também com delineamento quase-experimental foi realizado com 32 pacientes com doenças hematológicas malignas e não-malignas, com cateter venoso central de única via, comparando a troca do curativo de Tegaderm semanal versus duas vezes na semana, na incidência de infecção em pacientes. O grupo que tinha a troca semanal do curativo apresentou um número maior de culturas da ponta do cateter positivas e uma tendência para a troca extra do curativo, cultura da pele com um maior número de colônias, período menor para ocorrência de infecção do óstio de cateter e septicemias por gram-positivos quando comparado ao grupo que trocava o curativo duas vezes na semana(20).

Na literatura constatamos uma revisão sistemática sobre curativos de cateter venoso central, avaliando oito estudos, dentre eles, o número 2 anteriormente descrito; os autores ao final, concluíram que tal assunto desperta um alto nível de incerteza sobre o risco de infecção e que a escolha do curativo baseia-se na preferência do paciente e da equipe. Embora o estudo não tenha avaliado pacientes exclusivos de TMO e sim, pacientes submetidos a implante de cateter venoso central de qualquer tipo(21).

Frente a análise dos artigos incluídos nesta revisão integrativa, recomenda-se a utilização de curativos com poliuretano, trocados a cada sete dias, com o uso de clorexidina, como agente anti-séptico para os pacientes submetidos ao TMO.

O método de coleta de sangue por meio do CVC mais observado é o de descarte, tanto para crianças quanto para adultos. O volume de sangue preconizado para descarte da via fechada ou da que se encontra com infusão de medicamentos é variável. Este cuidado deve-se a preocupação com a contaminação da amostra de sangue por eletrólitos ou outros elementos presentes na solução previamente infundida.

Em um estudo comparativo prospectivo não randomizado para determinar o volume de sangue que deve ser descartado antes de se obter a amostra para os exames de tempo de protombina (TP) e tempo de tromboplastina parcialmente ativada (TTPA), todas as amostras foram obtidas de uma via fechada com solução com heparina, sendo que somente após o descarte do volume de 25 ml o exame mostrou-se 95% confiável, podendo ser utilizado clinicamente(26).

Quanto à coleta de sangue para mensurar o nível sérico de ciclosporina (CSA), a recomendação de um padrão de via exclusiva para CSA deverá ser estabelecida para assegurar a acurácia do resultado e não comprometer o tratamento.

Considerando os estudos incluídos na revisão integrativa, refletimos que dependendo do tipo de exame, o volume que deve ser descartado tem variações para reduzir ou evitar a ocorrência de interações medicamentosas no interior da via do cateter.

Em relação ao protocolo de heparinização um estudo de coorte avaliou a incidência de trombose relacionada aos cateteres tunelizados em pacientes que receberam a infusão de 5 ml da solução salina com heparina 10 U/ml (50U) e de 10 ml da solução salina com heparina 100 U/ml (1000U). Os resultados demonstraram que não houve diferença estatisticamente significante entre os dois protocolos de heparinização, sendo a menor concentração de heparina tão efetiva quanto a maior na prevenção de trombose(27).

Considerando que a terapia endovenosa intermitente é amplamente utilizada e que, para tal, é necessária a manutenção de um cateter permeável; entendemos que um protocolo de heparinização oferece vantagens, como permitir a coleta de sangue eliminando múltiplas punções e propiciar acesso para a administração de medicamentos de emergência.

Apesar das variações nos protocolos de heparinização quanto ao volume, concentração e freqüência; uma revisão integrativa da literatura que avaliou seis estudos de heparinização dos cateteres tunelizados recomendou a infusão rápida de 5 ml da solução salina com heparina, na concentração de 10 U/ml, ou seja, 50 U de heparina infundida em cada via, sendo que a freqüência variou de uma a duas vezes na semana(28).

Semelhante ao que ocorre mundialmente, a infecção relacionada ao cateter, é uma das principais complicações do TMO, é de se esperar esforços da equipe de saúde para a sua prevenção. A elaboração da presente revisão integrativa, auxilia na reflexão sobre as condutas adotadas atualmente, obrigando, muitas vezes, a adequação de intervenções para a melhoria da assistência prestada ao paciente.

Mantendo tal objetivo, a busca de evidências na literatura para guiar esta empreitada, frente aos estudos incluídos nesta revisão, principalmente sobre manipulação, manuseio, prevenção e controle de infecção, notou-se que as evidências encontradas são fracas, para a elaboração de recomendações para a prática clínica.

Sendo assim, concluiu-se que, por enquanto, o protocolo que se mostra embasado em fortes evidências, no contexto de prevenção e controle de infecções relacionadas a cateter venoso central são as diretrizes do CDC(17), atualmente preconizadas em todo território norte-americano. Ressalta-se, que não são direcionadas apenas aos pacientes submetidos ao TMO, sendo essa, uma clientela diferenciada, ou seja, são mais expostos aos riscos de infecção, pois suas defesas inatas estão abolidas.

As diretrizes aplicáveis nos cuidados com o cateter tunelizado do protocolo de prevenção e controle de infecção, preconizadas pelo CDC são: acompanhar as taxas de infecção de corrente sangüínea relacionadas ao cateter venoso central e identificar as falhas nas práticas de controle de infecção (evidência IA), utilizar um cateter com o mínimo de vias necessárias para atender as necessidades do tratamento proposto (evidência IB), designar uma via do cateter para infusão exclusiva de NPP em cateteres de múltiplas vias (evidência II), não injetar profilaticamente soluções contendo antibiótico nas vias do cateter, excetuando para o tratamento de pacientes que possuem cateteres de longa permanência tunelizados totalmente implantados ou semi-implantados com história de múltiplas infecções, apesar da utilização de medidas assépticas adequadas (evidência II) (17).

A troca das conexões deve ser feita a cada 72 horas, incluindo os dispositivos do sistema fechado (evidência IA), se a solução infundida for de dextrose e aminoácidos, os dispositivos para infusão devem ser trocados, também, a cada 72 horas (evidência II), a troca dos equipos para administração de sangue, seus derivados e soluções lipídicas deve ser dentro de 24 horas (evidência IB), realizar a desinfecção dos injetores com álcool a 70% ou PVPI antes de perfurá-los (evidência IA), realizar a higienização das mãos com sabão anti-séptico ou álcool-gel antes e depois de manusear o acesso venoso (evidência IA). Apesar, dessas recomendações estarem disponíveis e serem de fácil utilização, ainda percebemos inconsistência nas práticas relacionadas aos acessos vasculares(17).

Em um survey sobre as práticas relacionadas aos cateteres venosos centrais em unidades de terapia intensiva; os autores ao compararem os dados evidenciados no estudo com as diretrizes do CDC, detectaram que os profissionais não incorporam as evidências na sua prática clínica e concluíram que uma melhor adesão ao protocolo poderia ajudar a padronização da melhor prática e facilitar o cuidado baseado em evidências(36).

Dentre as condições comumente associadas ao risco para o desenvolvimento de infecção relacionada ao cateter tunelizado o número de manipulações é o fator predisponente de maior risco para o desenvolvimento de infecção(4).

Os estudiosos sobre infecção de cateter afirmam que o treinamento adequado no procedimento de manipulação do cateter é a medida mais eficaz na prevenção de bacteremias associadas, tendo em vista que sua manipulação e a habilidade de quem o faz são os fatores de risco mais importantes para o desenvolvimento dessas complicações, justificando a importância de uma padronização.

 

CONCLUSÕES

Em relação ao procedimento curativo, o paciente submetido ao TMO seria beneficiado pela utilização do curativo de poliuretano, pois a troca com intervalos maiores previne a toxicidade cutânea, aumentando a satisfação e o conforto do paciente e reduzindo o tempo de enfermagem.

O método de descarte para a coleta de sangue por meio do CVC cessa a influência dos elementos presentes na via garantindo a acurácia do exame. O principal risco deste método é um possível prejuízo na hematimetria do paciente. No entanto, a coleta de sangue para a dosagem de CSA da via pela qual foi infundida, resultará num valor falsamente elevado, mesmo utilizando o método de descarte.

O protocolo de heparinização para a manutenção da permeabilidade consiste na infusão rápida de 5 ml da solução salina com heparina, na concentração de 10 U/ml em cada via, sendo que a freqüência pode ser de uma a duas vezes na semana.

Em relação a manipulação, manuseio, prevenção e controle de infecção relacionados ao cateter, o objetivo é reduzir o número de manipulações ou aberturas das vias para o meio externo. O treinamento da equipe de saúde para a manipulação do cateter é considerado uma medida eficaz na prevenção de infecção.

As diretrizes do CDC estão alicerçadas em fortes evidências e a sua utilização é a melhor escolha para a padronização dos cuidados de enfermagem, até que novos estudos que retratem evidências fortes sejam desenvolvidos, exclusivamente em pacientes submetidos ao TMO.

 

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Autor correspondente:
Cristina Maria Galvão
Av. Bandeirantes, 3900 - Campus da USP - EERP
14040-902
Ribeirão Preto - SP
E-mail: crisgalv@eerp.usp.br/

Artigo recebido em 04/04/05 e aprovado em 14/07/05

 

 

* Trabalho extraído da dissertação de mestrado Silveira RCCP. O cuidado de enfermagem e o cateter de Hickman: a busca de evidências. Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo - USP - Ribeirão Preto (SP), Brasil.

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