SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.20 issue3Adherence to an early rehabilitation program among women who underwent mastectomyThe impact of a Down Syndrome diagnosis on the family dynamic: mother's perspective author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Acta Paulista de Enfermagem

Print version ISSN 0103-2100On-line version ISSN 1982-0194

Acta paul. enferm. vol.20 no.3 São Paulo July/Sept. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-21002007000300003 

ARTIGO ORIGINAL

 

A abordagem do processo do morrer e da morte feita por docentes em um curso de graduação em enfermagem*

 

The process of dying and the death's approach made by teachers in a nursing graduation course

 

El abordaje del proceso de morir y de la muerte realizado por docentes del pregrado de enfermería

 

 

Roseney BellatoI; Andrea Paulino de AraújoII; Humberto Francisco FerreiraIII; Patrícia Ferreira RodriguesIV

IDoutora em Enfermagem. Professor Adjunto da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Mato Grosso- UFMT- Cuiabá (MT) – Brasil
IIFisioterapeuta, Enfermeira do Programa de Saúde da Família da Prefeitura Municipal de Porto Velho - Porto Velho (RO) – Brasil
IIIEnfermeiro pela Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Mato Grosso UFMT- Cuiabá (MT) – Brasil
IVEnfermeira pela Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Mato Grosso. UFMT- Cuiabá (MT) – Brasil

Autor Correspondente

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar a existência de uma possível correlação entre o perfil profissional de docentes e o seu preparo para a abordagem da temática do processo do morrer e da morte nas disciplinas que ministram em um curso de graduação em enfermagem.
MÉTODOS: Estudo descritivo, com aplicação de questionário a 34 docentes enfermeiros, sendo os dados obtidos analisados quanti-qualitativamente.
RESULTADO: O pressuposto de que a maturidade dos docentes e sua larga experiência profissional na enfermagem pudessem oferecer-lhes melhor preparo para o ensino do cuidado a pessoas que vivenciam esse processo não foi confirmado pelo estudo, visto que estes ainda abordam a temática de maneira pontual e superficial em suas disciplinas.
CONCLUSÃO: Precisamos oferecer-nos oportunidades de discussão sobre o nosso despreparo, como profissionais de saúde e docentes, para o cuidado àquele que morre, de maneira que possamos tornar mais humano e efetivo esse cuidado.

DESCRITORES: Enfermagem; Ansiedade; Morte; Atitude frente a morte; Educação em enfermagem


ABSTRACT

OBJECTIVE: To analyze the relationship between nursing faculty professional profile and their preparation to teach the topic "death and dying" in undergraduate nursing program.
METHODS: A descriptive study was used to collect and analyze data from 34 undergraduate nursing faculty members who answered a questionnaire.
RESULTS: The findings did not support the presupposition that faculty maturity and professional experience had better preparation to teach "death and dying" for undergraduate nursing students. Faculty teaching of the topic was theoretical and superficial.
CONCLUSION: There is a need for discussion and acceptance that undergraduate faculty members are not well prepared to teach "death and dying" in nursing undergraduate programs as well as to provide human and effective nursing care to those in the process of dying.

Keywords: Nursing; Anxiety; Death; Attitude to death; Education, nursing


RESUMEN

OBJETIVO: Analizar la existencia de una posible correlación entre el perfil profesional de docentes y su preparación para el abordaje de la temática del proceso de morir y de la muerte en las disciplinas que lo imparten en el pregrado en enfermería.
MÉTODOS: Estudio descriptivo, con aplicación de un cuestionario a 34 docentes enfermeros, cuyos datos obtenidos fueron analizados cuanti-cualitativamente.
RESULTADOS: La premisa de que la madurez de los docentes y su larga experiencia profesional en la enfermería puedan ofrecerles mejor preparación para la enseñanza del cuidado a personas en el proceso de morir y de la muerte no fue confirmada por el estudio, pues éstos aun abordan la temática de manera puntual y superficial en sus disciplinas.
CONCLUSIÓN: Precisamos ofrecernos oportunidades de discusión sobre nuestra falta de preparación, como profesionales de salud y docentes, para el cuidado de aquel que muere, de manera que podamos volver más humano y efectivo ese cuidado.

Descriptores: Enfermería; Ansiedad; Muerte; Actitud frente a la muerte; Educación en enfermería.


 

 

INTRODUÇÃO

Os profissionais da área de saúde são freqüentemente expostos a situações de enfrentamento da morte de pessoas sob seus cuidados, sobretudo aqueles que atuam em serviços hospitalares. Apesar desse confronto com a morte no seu cotidiano de trabalho, esses profissionais encontram dificuldade em encará-la como parte integrante da vida, considerando-a, com freqüência, como resultado do fracasso terapêutico e do esforço pela cura.

Os enfermeiros, profissionais cuja presença se faz de maneira ainda mais constante no cuidado junto a pessoas que vivenciam a sua finitude, experimentam de maneira potencializada esses sentimentos conflitantes, sendo esse um tema recorrente de estudo, enfocando a situação de morte nas diversas fases do ciclo vital. No entanto, entendemos que a análise de como está sendo efetuado o preparo desses profissionais para o enfrentamento de situações que envolvam o cuidado a essas pessoas durante a formação, ainda mereça ser aprofundada, visto que é nesse período que a discussão deve ser iniciada.

A experiência profissional nos mostra que a abordagem dessa temática tem sido feita de maneira muito rápida e superficial durante a formação do enfermeiro, não havendo momentos formalmente estipulados no currículo para que a discussão sobre o morrer e a morte aconteça. Contraditoriamente, percebemos ainda que a morte é abordada de maneira negativa através do seu oposto, ou seja, a manutenção do corpo vivo pelo emprego de todos os esforços profissionais e tecnológicos possíveis. Essa situação gera um paradoxo para os profissionais enfermeiros que cuidam de pessoas que estão enfrentando o processo do morrer e da morte, pois oscilam entre necessidades igualmente prementes de manter a pessoa viva, a todo custo, e ao mesmo tempo, ajudá-la a morrer da maneira mais tranqüila e digna possível.

Consideramos que tal fato tem contribuído para que haja, não apenas uma lacuna na formação, como também uma negação da morte como parte integrante da vida, gerando como conseqüência, profissionais pouco aptos a prestar cuidados de maneira mais abrangente a pessoas que vivenciam sua finitude, bem como a suas famílias. Esse despreparo para o cuidado a essas pessoas é sentido pelos enfermeiros e pode favorecer a fuga de uma situação de confronto com seus próprios medos e angústias, levando-os a limitarem-se, na maioria das vezes, a cuidar do corpo que "falece", e não do ser humano que morre. Essa atitude traz resultados negativos, tanto para quem está vivenciando o morrer e para sua família, fazendo com que se sintam solitários e desassistidos nesse processo, como para os próprios enfermeiros que se sentem angustiados no enfrentamento dessas situações.

Se considerarmos que os profissionais de saúde e, dentre eles, os enfermeiros, têm sua formação acadêmica centrada na preservação da vida, particularmente na cura das doenças, tirando daí sua maior fonte de gratificação, quando em seu cotidiano de trabalho necessitam lidar com situações que envolvam o morrer e a morte, é compreensível que se sintam despreparados e tendam a se afastar delas(1). Realidade semelhante tem sido observada em nosso Curso de Graduação em Enfermagem, no qual há uma grande ênfase em disciplinas que instrumentalizam o profissional no cuidado para a preservação da saúde e cura das doenças, mas pouco ou nenhum respaldo oferecem para que o profissional enfermeiro possa cuidar da pessoa que vivencia o morrer e a morte.

Fundamentados em dados de nossa observação, podemos considerar que, de um modo geral, não esteja havendo um preparo adequado dos profissionais enfermeiros para o cuidado a pessoas que findam sua vida física, torna-se necessário refletir também sobre as condições que os docentes, responsáveis por essa formação, têm para estarem abordando esse tema com os alunos. Estarão eles preparados para esse enfrentamento e, de maneira concomitante, para o ensino desse enfrentamento no seu desempenho profissional como enfermeiros e docentes?

Por estarmos tratando de um grupo de docentes dos quais conhecemos algumas características pessoais e profissionais que apontam para um perfil de maturidade profissional, com uma atuação longa na enfermagem e com experiência no cuidado a pessoas com comprometimentos sérios em seu estado de saúde, pressupúnhamos que haveria um preparo suficiente para o enfrentamento de maneira mais tranqüila das questões ligadas ao processo do morrer e da morte por parte dos mesmos. No entanto, carecíamos de um estudo que analisasse o perfil dos docentes de enfermagem e a maneira como esses profissionais têm feito a abordagem de tal temática nas disciplinas em que ministram no Curso de Graduação em questão.

Assim, o objetivo deste estudo foi conhecer alguns aspectos do perfil de um grupo de docentes do Curso de Graduação em Enfermagem de uma universidade pública da região Centro-Oeste do País, bem como a maneira como esses profissionais vêm abordando a temática nas disciplinas que ministram, analisando a existência de uma possível correlação entre o perfil profissional do docente e o seu preparo para a abordagem dessa temática junto aos alunos.

Embora se trate de um estudo em uma realidade específica, esperamos contribuir para a discussão acerca da necessidade de preparo formal do enfermeiro para o desempenho do cuidado de enfermagem prestado a pessoas que estejam morrendo, como também do preparo do docente para possibilitar e propiciar condições para que essa discussão possa ocorrer nas disciplinas em que atua, visto que ambas as dimensões estão estreitamente imbricadas.

 

MÉTODOS

Estudo de caráter descritivo e exploratório que teve os dados colhidos no período de dezembro de 2004 a março de 2005, através da aplicação de um questionário a 34 docentes de um Curso de Graduação em Enfermagem de uma universidade pública da região Centro-Oeste. A seleção dos entrevistados se pautou no critério único de ser docente enfermeiro e ministrar disciplina a partir do quarto semestre do referido Curso, momento em que se inicia o contato mais direto e intenso do aluno com a prática da enfermagem.

O instrumento de coleta de dados foi dividido em duas partes, as questões iniciais buscaram obter informações acerca do perfil dos docentes quanto à idade, sexo, religião, tempo e área de atuação na assistência e no ensino de Enfermagem, bem como a disciplina que ministra e em qual semestre ela acontece dentro do Curso. Seguiu-se uma indagação com resposta de múltipla escolha acerca de quais sentimentos são gerados ao pensar na própria morte ou na morte de alguém próximo. A segunda parte do questionário, composta de questões de respostas fechadas e abertas, abordou aspectos que tratam mais diretamente dos conteúdos e estratégias de ensino empregadas pelo entrevistado para tratar da temática do processo do morrer e da morte na disciplina em que atua, bem como sua percepção acerca de como e quando essa temática deveria ser abordada no currículo do Curso de Graduação em Enfermagem.

Os dados obtidos a partir da aplicação do questionário foram agrupados e submetidos a tratamento estatístico simples, com posterior interpretação qualitativa, com a finalidade de compreendermos, em seus aspectos gerais, como está sendo abordada a temática do processo do morrer e da morte no currículo do Curso de Graduação em Enfermagem estudado com base nas informações fornecidas pelos docentes.

No que se refere aos aspectos éticos, esclarecemos que houve previamente a aprovação do projeto de pesquisa por um Comitê de Ética em Pesquisa, e houve observância de todos os aspectos éticos previstos na Resolução n.º 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, no que se refere a pesquisas com seres humanos.

 

RESULTADOS

Iniciamos a apresentação dos dados relativos a idade, sexo, religião, área e tempo de atuação na enfermagem e na docência, de maneira a conhecermos o perfil dos docentes do Curso de Graduação em Enfermagem em estudo. Com relação à idade, os dados apontam que 67,6% dos docentes pesquisados encontram-se na faixa etária entre 41 e 50 anos, 14,7% têm idade igual ou superior a 51 anos e apenas 17,7% apresentam idade inferior a 40 anos. No que se refere ao sexo, constatamos que 91,2% dos pesquisados, quase a totalidade, portanto, são do sexo feminino, sendo apenas 8,8% do sexo masculino. Ao abordar a religião professada pelos docentes entrevistados constatamos que 52,9% são da religião católica, 20,6% alegam ser espíritas, 5,9% adeptos de credos evangélicos, 5,9% referem ser protestante, 5,9% não especificaramou a religião professada e 8,8% declararam não possuir religião, mostrando, portanto, que a grande maioria dos pesquisados têm vinculação a alguma crença religiosa.

Em relação ao tempo que os entrevistados têm no exercício da Enfermagem, pudemos constatar que 67,6% atuam há mais de 20 anos como enfermeiros, 20,6% têm entre 16 e 20 anos e apenas 11,8% menos de 16 anos nesse exercício. Ao serem questionados quanto ao seu campo de atuação profissional, 100,0% dos docentes afirmaram ter experiência, atual ou anterior, no cuidado de enfermagem desenvolvido em unidade hospitalar. O tempo de atuação dos entrevistados como docentes de Enfermagem foi outro dado pesquisado, sendo que 70,6% deles desenvolvem a docência há mais de dezesseis anos, 14,7% estão entre 16 e 10 anos, e apenas 14,7% dos entrevistados têm tempo de atuação na docência inferior a 10 anos.

No que se refere às questões mais diretamente ligadas à abordagem do processo de morrer e da morte feita pelos docentes nas disciplinas que ministram no Curso de Graduação em estudo, foram os mesmos questionados inicialmente quanto aos sentimentos gerados ao pensar na morte própria ou de alguma pessoa próxima, sendo que estes apontam para a existência de sentimentos diversos, preponderando o sentimento de tristeza para 41,5% dos entrevistados, sendo que o medo, assim como a angústia, são sentimentos referidos igualmente por 15,1%. O sentimento de conformação é relatado por 5,6% dos entrevistados e depressão e raiva aparecem, respectivamente, em 3,8% e 1,9% das respostas. Merece destaque o fato de 17,0% dos pesquisados relatarem sentimentos outros, tais como tranqüilidade, aceitação, paz por estar perto de Deus, vazio, curiosidade, introspecção, impotência humana, ou ainda como sendo um processo natural ou a transição de uma vida para outra.

Ao serem questionados se a disciplina que ministram no Curso de Graduação oferece oportunidade para abordar com os alunos a temática da morte e do morrer, 76,5% dos docentes responderam afirmativamente e apenas 20,6% referiram não ter tal oportunidade, sendo que 2,9% alega ainda que, devido a características próprias da disciplina que ministra, a oportunidade de tal abordagem é muito pequena. Este fato, porém, contrasta flagrantemente com os dados obtidos ao serem interrogados se a abordagem desse conteúdo está prevista no plano de ensino da disciplina em que atuam, cuja resposta negativa foi dada por 73,5% dos entrevistados, sendo que apenas 26,5% afirmaram haver essa formalização.

Ao aprofundarmos o questionamento quanto à maneira como vem sendo abordada a temática aqui em estudo, 79,4% dos docentes responderam que ela acontece durante a atividade prática e/ou estágio da disciplina em que atua, 17,7% afirmaram que ocorre, tanto no momento da teoria quanto da prática de sua disciplina e 2,9% assinalaram que essa questão não se aplicava à sua disciplina. Nenhuma resposta apontou para a abordagem da temática estudada apenas na teoria durante o desenvolvimento da disciplina.

Quanto às estratégias didáticas que utilizam para abordar a temática do processo do morrer e da morte 1,9% dos docentes referiram o trabalho em grupo, 7,7% apontaram o uso da aula expositiva como recurso, 19,2% desenvolvem estudos de caso, 21,2% têm na leitura de textos a estratégia de escolha, 25,0% referem utilizar o momento do cuidado de enfermagem à pessoa que vivencia sua finitude como oportunidade de discussão, 23,1% assinalaram outro recurso sem, no entanto, nomeá-lo e 1,9% responderam que a questão não se aplica a sua situação de docente.

Ao ser feito o questionamento mais específico se, em sua atividade docente, aproveita a ocorrência dessas situações durante a atividade prática da disciplina para suscitar discussões junto aos alunos 97,1% respondeu que o faz e somente 2,9% negam fazê-lo. No entanto, ao serem questionados quanto aos aspectos desse evento que abordam nessas discussões, 19,4% dos docentes referem tratar dos aspectos relacionados ao cuidado com o corpo após a morte, 20,4% centram a discussão na patologia que ocasionou a morte, 4,9% alegam que as condutas administrativas frente ao óbito são o objeto de suas discussões e 19,4% assinala outras abordagens sem especificá-las. Apenas 19,4% dos entrevistados referiram que o foco de suas discussões centra-se nos sentimentos dos alunos e/ou da equipe de saúde e enfermagem frente à situação de morte da pessoa sob seus cuidados e 16,5% têm os cuidados prestados ao paciente em processo do morrer e da morte e a seus familiares como tema para a discussão.

Ao investigarmos acerca de oportunidades oferecidas pelos docentes para que os alunos possam expressar seus sentimentos frente ao processo do morrer e da morte das pessoas sob seus cuidados, 88,2% dos entrevistados afirmaram oferecer tal oportunidade e 11,8% não responderam. Essa questão deve ser compreendida de maneira complementar à resposta dada por 79,4% dos docentes que afirmam que a discussão dessa temática acontece, prioritariamente, durante a prática e/ou estágio, 17,6% que consideram a discussão pode acontecer tanto na teoria quanto na prática e 2,9% que apontam que a questão não se aplica ao seu caso. É necessário considerar a possibilidade dessa discussão não acontecer, se não houver a ocorrência de evento dessa natureza durante a permanência dos alunos em campo de prática, o que impediria a expressão dos sentimentos gerados pela morte, por parte dos alunos.

Ao explorar a importância que os entrevistados atribuem à abordagem do tema da morte no currículo de graduação em enfermagem e em que fase da formação deveria ser iniciada essa discussão, 44,1% dos respondentes consideram que desde o primeiro semestre do Curso deveria haver essa abordagem e 55,9% apontam o quarto semestre como momento ideal para o início dessa discussão, visto que é a partir desse momento que as disciplinas têm o desenvolvimento da atividade prática de maneira mais intensa.

Mas, o que os números aqui apresentados significam quando compreendidos na sua importância para a formação do profissional enfermeiro? É o que passaremos a discorrer, a seguir, com o apoio de literatura pertinente.

 

DISCUSSÃO

Se inicialmente pressupúnhamos uma possível correlação entre o perfil dos docentes, particularmente no que se refere a sexo, idade, religião, tempo de atuação na enfermagem e na docência, e um melhor preparo para a abordagem do tema do processo do morrer e da morte nas disciplinas em que atuam, tal correlação não se mostrou verdadeira. Ao desenharmos o perfil dos docentes entrevistados constatamos que são, em sua maioria, mulheres, com idade superior a 40 anos, que professam alguma religião e com tempo de atuação profissional na enfermagem e na docência acima de 15 anos.

A confluência dessas características aponta, portanto, para um corpo docente composto, predominantemente, por pessoas maduras, com vasta experiência profissional na enfermagem e na docência, o que, possivelmente, tenha lhes oferecido inúmeras oportunidades de enfrentamento de situações que envolvam o cuidado a pessoas em processo do morrer e da morte, bem como a possibilidade de abordar tal problemática com os alunos. Corrobora com essa perspectiva o fato de todos os docentes entrevistados já terem atuado ou continuar atuando profissionalmente em serviço hospitalar, cenário privilegiado para o atendimento a essas pessoas. Dessa forma, seria de se esperar que esse melhor preparo refletisse em formas mais eficientes e efetivas de ensinar o cuidado de enfermagem frente ao morrer e a morte.

Embora a pressuposição de que uma maior maturidade associada à longa experiência profissional no cuidado em enfermagem pudesse proporcionar melhor preparo para o enfrentamento de situações voltadas ao cuidado de pessoas em processo de finitude, bem como ao ensino desse cuidado, nos parecesse legítima, a mesma não foi corroborada pelo estudo realizado, sendo que também não encontramos respaldo para a mesma em literatura pertinente ao tema. Contrariamente, no entanto, é possível compreender que o cuidado a essas pessoas exige que o cuidador se reconheça também como um ser cuja finitude lhe é inerente, dentro de um processo de autocompreensão e de aceitação do fato de que os padrões diversificados de expressão dessa temporalidade e transitoriedade se dão através de sentimentos, valores e significados pessoais e auto-referenciados. Assim, cada ser humano vivencia esse processo de uma forma única e original(2).

Elisabeth Kübler-Ross, estudiosa pioneira do tema da morte e do morrer, tem mostrado em seus estudos que o enfrentamento da morte é, não raro, mais difícil para os profissionais da saúde que cuidam da pessoa que morre do que para esta. Ao longo de vários anos realizou seminários nos quais pessoas em fase terminal eram convidadas a falar de suas vivências para uma platéia de alunos e profissionais da saúde, encontrando resistências maiores entre estes últimos para falar abertamente sobre a morte e o morrer. Nesse sentido, "o trabalho com o paciente moribundo requer, uma certa maturidade que só vem com a experiência. Temos que examinar detalhadamente nossa posição diante da morte e do morrer, antes de nos sentarmos tranqüilos e sem ansiedade ao lado de um paciente em fase terminal"(3).

Indagamos, porém, se os docentes por nós entrevistados estariam caminhando em direção a uma autocompreensão quanto a sua finitude, pois ao serem questionados, os mesmos expressaram ser acometidos por sentimentos de tristeza, medo e angústia ao pensar na morte própria ou de alguém próximo. E, embora esses sentimentos sejam próprios do ser humano frente à constatação da sua temporalidade e transitoriedade, é lícito esperar que profissionais que lidam cotidianamente com a morte do outro compreendam mais amplamente o que esse processo significa em relação a sua própria humanidade, possibilitando-lhe cuidar de maneira mais humana daquele que esteja vivenciando o seu morrer(4).

No entanto, cabe também a pergunta: estarão os seus sentimentos influenciando na maneira como os docentes entrevistados enfrentam as situações de cuidado à pessoas em processo de morrer ou na forma como abordam essa temática junto aos alunos do Curso de Graduação em Enfermagem? Os dados que encontramos neste estudo, no seu conjunto, parecem nos apontar para uma resposta afirmativa a essa questão.

Percebemos que o currículo do Curso de Graduação em Enfermagem ao qual os docentes entrevistados estão ligados não privilegia, de maneira formal, a abordagem dessa temática, ficando a mesma vinculada ao caráter ocasional do enfrentamento, por parte de docentes e alunos, de situações que a contemplem durante a atividade prática das disciplinas. Mesmo nesses momentos, a estratégia didática empregada e o foco da discussão privilegiado pelos docentes não possibilitam, de maneira ampla, a expressão da dimensão humana do morrer e da morte, tratando-se do seu entorno e não da sua essência.

Essas estratégias de aparente escamoteamento por parte do conjunto dos docentes entrevistados no enfrentamento do morrer e da morte como inerente à condição do ser vivo, e do humano, por conseqüência, tem se expressado, de maneira geral, no privilegiamento da formação profissional pautada na dimensão biológica. No entanto, o fenômeno da morte não se dá como mera falência físico-biológica de um corpo, visto que ela institui um vazio interacional, não só àqueles que estão próximos ou ligados à pessoa que morre, mas a sociedade como um todo. Nesse sentido, é a compreensão da morte e do morrer e não sua explicação que se coloca como de suma relevância para o profissional de saúde(5).

Entretanto, a formação marcada pelo modelo médico-biológico, ainda hegemônico, confere aos profissionais de saúde algum poder explicativo sobre os fenômenos da saúde e doença, vida e morte, mas não facilita a sua compreensão(4). Mas, seria possível 'ensinar sobre a morte e o morrer'? Consideramos que sim. Elisabeth Kübler-Ross já demonstrava isso na década de sessenta, ao propor os seminários de discussão sobre o morrer e a morte para profissionais de saúde conforme já explicitado anteriormente(3).

Entretanto, parece-nos que o que vem sendo abordado até o momento por aqueles que são responsáveis pela formação dos enfermeiros tem sido insuficiente para oferecer aos futuros profissionais elementos que lhes possibilitem ir além do cuidado ao corpo que está morrendo, procurando alcançar a compreensão do ser humano que se despede de sua existência terrena. Dessa forma, a dimensão humana do cuidado, compreendendo que dela fazem parte a pessoa cuidada e o seu cuidador, precisa ser parte integrante desse ensino que, longe de ser pontual e casual, necessita acompanhar toda a formação e ser abordada sob diferentes aspectos por todos os docentes envolvidos.

Em nosso estudo, percebemos que embora os docentes entrevistados afirmassem ser importante iniciar a discussão e o preparo dos alunos para o cuidado a pessoas que vivenciam o morrer e a morte desde o início de sua formação, contraditoriamente essa discussão e preparo têm sido feitos de maneira superficial e tardiamente, deixando-os para o casuísmo do acontecimento de situações que envolvam a morte em campo de prática. Essa realidade, porém, foi relatada por outros pesquisadores em estudos que abordam temática análoga, sendo exemplo a seguinte afirmação: "trabalhando com a docência de enfermagem, podemos constatar como a temática da morte ocupa, no currículo, lugar de mero acessório, apenas com um conteúdo mínimo, denominado 'cuidado com o corpo após a morte' ou denominação similar. Não se destina a ela nem carga-horária nem abordagem teórica significantes. [...] Na prática profissional, a atenção àquele que está morrendo e a sua família restringe-se aos cuidados técnico-burocráticos necessários. Os cuidados técnicos, em geral higiênicos, de posicionamento no leito e de conforto, ocupam o profissional de saúde na assistência ao moribundo"(5).

Mas, que reflexo essa atitude de negação da morte por parte dos profissionais da saúde, e do enfermeiro em particular, tem para aquele que morre? Se considerarmos que a morte, hoje, acontece predominantemente no espaço hospitalar, e neste a presença da família é pouco estimulada, senão dificultada, podemos supor a solidão que a pessoa que vivencia o seu morrer sente, na ausência dos familiares e na presença quase omissa dos profissionais de saúde. Essa omissão se manifesta porque aqueles que estão próximos dos moribundos, muitas vezes, não têm capacidade ou preparo para apoiá-los e confortá-los com a prova de afeição e ternura necessárias. Acham difícil apertar a mão de um moribundo ou acariciá-lo, proporcionando-lhe uma sensação de proteção e de pertencimento, ainda, dentre os vivos. No entanto, para aquele que se vai, um gesto de afeição seria, talvez a maior ajuda, ao lado do alívio da dor física, que os que ficam poderiam proporcionar(6).

Entendemos que a angústia, a ansiedade e o medo são sentimentos que podem desencadear reações impactantes ou de fuga no ser humano, e que tais sentimentos, quando gerados pelo enfrentamento de situações que envolvam o morrer e a morte, são potencializados pelo interdito que a morte traz. E o profissional de enfermagem, ainda que na condição de quem ensina o cuidado voltado para aquele que morre, não está isento de tais sentimentos, como pudemos aqui demonstrar.

Na nossa compreensão não se trata de lutar contra esses sentimentos e suas reações, gerando ainda mais estresse quando do enfrentamento dessas situações junto aos alunos, mas de possibilitar sua expressão e a necessária discussão do que os mesmos representam para o profissional, para a pessoa que vivencia a morte e o morrer e para a sua família, assim como para a qualidade do cuidado a elas dispensado. Consideramos que esse seria um aprendizado válido e verdadeiro, momento do qual também aquele que morre e sua família poderiam se beneficiar, visto que lhes abre uma possibilidade de interlocução para também poder falar de seus medos e angústias tão intensamente silenciados.

Estamos também cientes que a situação de morte é um desafio para os profissionais da saúde em geral, assim como da enfermagem, e que esse desafio extrapola os limites do trabalho e do preparo técnico para seu enfrentamento que ele possa comportar, baseando-se muito mais na compreensão humana do outro e de si mesmo como seres que, embora caminhem inexoravelmente para morte, dela procuram se afastar a todo custo, pagando, muitas vezes, um alto preço por essa fuga infrutífera visto que, metaforicamente, seria como caminhar no interior de um barco, andando em sentido contrário ao seu movimento, tentando adiar, assim, o momento da chegada ao porto(7).

Entendemos que há necessidade, portanto, de instaurar momentos formais de discussão dentro do currículo e das disciplinas que o compõem desde o início do Curso de Graduação em Enfermagem, trazendo estratégias metodológicas apropriadas para que essa discussão aconteça de maneira efetiva e eficiente, aproveitando também os momentos que a prática do cuidado em enfermagem oportuniza para essa discussão.

 

CONCLUSÃO

Se nenhum outro evento vital é capaz de suscitar nos seres humanos mais pensamentos dirigidos pela emoção e reações emocionais do que a morte, seja na pessoa que está morrendo, seja naqueles que estão à sua volta(8), os dados que aqui procuramos apresentar, embora circunscritos à realidade de um Curso de Graduação em Enfermagem específico, nos mostram que a dificuldade do enfrentamento da finitude, ainda que seja a do outro, é dos sentimentos, o mais humano. E ao tratar desse medo antropológico da morte percebemos que resgatar o humano dentro do processo de finitude, embora essencial na perspectiva do cuidado à pessoa e não apenas ao corpo biológico, não se apresenta como tarefa fácil. Nossa humanidade de 'profissionais de saúde' e, portanto, da vida, ressente-se desse enfrentamento, temendo olhar-se no espelho da própria finitude(4).

Mas, se assim é, retomamos aqui a indagação feita ao longo da discussão dos dados sobre os sentimentos, absolutamente humanos, que os docentes expressam ao enfrentar situações de cuidado a pessoas que vivenciam seu processo do morrer e da morte e a influência que tais sentimentos trariam para o preparo dos alunos, futuros profissionais. Consideramos que, se não for encarada de maneira positiva e pró-ativa a dificuldade e, não raro, impossibilidade desse enfrentamento de situações que envolvam o processo do morrer e da morte por parte de enfermeiros, docentes e, conseqüentemente, alunos de enfermagem, corremos o sério risco de nos mantermos em um círculo vicioso quando, devido ao pouco preparo dos docentes para esse enfrentamento, os mesmos oferecem possibilidades limitadas ao aluno de enfermagem e futuro profissional de também se preparem para enfrentar e discutir a vivência de tais situações.

Inúmeros estudos, alguns deles aqui apresentados(1,3-8), têm apontado a solidão sofrida por pessoas que estão morrendo, particularmente dentro de serviços hospitalares, mostrando que essa solidão é fruto, entre outros, da dificuldade dos profissionais de saúde em lidarem com os seus próprios sentimentos, bem como com os sentimentos, muitas vezes conflitantes, daqueles de quem cuidam, acarretando o abandono sentido tão dolorosamente por estes devido ao isolamento e silêncio instaurados, principalmente, por parte dos profissionais da saúde.

Para não cairmos no niilismo da impossibilidade, necessário se faz compreendermos que as discussões aqui apresentadas, assim como em outros estudos que tratam do tema, podem ser um ponto de apoio inicial para a reflexão a ser empreendida no coletivo dos profissionais da enfermagem, nele incluindo-se os alunos, para buscarmos a mudança paulatina de tal situação. Entendemos que reconhecer a nossa própria fragilidade frente o enfrentamento da morte já seja um grande passo inicial, pois se desvela o pano de fundo que a sustenta: somos profissionais preparados para lidar com aquele que vive e não com aquele que morre, embora, de maneira paradoxal, sendo vivente ele é, inexoravelmente, mortal. Diferente, talvez, seria a realidade se fôssemos profissionais preparados para cuidar da vida, pois aí teríamos o morrer e a morte como parte intrínseca e inseparável dela e não como seu contrário.

Dar voz aos nossos próprios medos e angústias parece ser um segundo passo necessário. Precisamos oferecer-nos a oportunidade de compartilhar nossos sentimentos em relação ao morrer e à morte, discutir sobre aquilo que parece ser individual, mas que é coletivamente vivenciado pelos profissionais da área da saúde: não sabemos cuidar do ser humano que morre; quando muito sabemos cuidar do corpo que deixa de funcionar! É importante compreendermos também que o fato de nos mantermos afastados da pessoa que vivencia o processo do morrer e da morte ameniza, temporariamente, a frustração por nós sentida diante da circunstância de não poder "salvá-la" de sua finitude, porém, torna menos aguda a angústia de sabermos que estamos deixando o ser humano desamparado e desassistido no seu momento derradeiro, mesmo que o seu corpo esteja limpo e medicado e que suas funções vitais estejam sendo devidamente monitoradas.

Assim, "ensinar sobre a morte" seria, entre outros aspectos, discutir como a temos omitido de nossa formação profissional, negando-a como ponto máximo no tempo da vida. Embora essa não seja uma tarefa fácil, entendemos que esse ensino deva privilegiar a compreensão da limitação temporal da vida, é valorizar e objetivar a existência, é reduzir a angústia existencial, é ensinar a perder, a separar-se do outro. É, também, refletir a necessidade de concentração nos projetos de vida, pois sabemos que a mesma é um período determinado(9). E se o morrer e a morte são experiências que todos os seres humanos terão, indiscriminadamente, compreendê-la em seu significado para a nossa vida abre campo para compreendê-la na vivência do outro. A partir do desnudamento dos nossos medos, podemos buscar, se não remissão dos mesmos, pelo menos a sua superação obsedante. Ou, dito de outra maneira, a única forma de superar a morte é integrá-la à vida(5).

 

REFERÊNCIAS

1. Boemer MR, Veiga EV, Mendes MMR, Valle ERM. O tema da morte: uma proposta de educação. Rev Gaúch Enferm. 1991;12(1):26-32.         [ Links ]

2. Silva AL. Morte-renascimento: foco essencial do cuidado transdimensional. Texto & Contexto Enfermagem. 2001;10(3):11-23.         [ Links ]

3. Kübler-Ross E. Sobre a morte e o morrer: o que os doentes terminais têm para ensinar a médicos, enfermeiras, religiosos e aos seus próprios parentes. 7a ed. São Paulo: Martins Fontes; 2000.         [ Links ]

4. Bellato R, Carvalho EC. O jogo existencial e a ritualização da morte. Rev Latinoam Enfermagem. 2005;13(1):99-104.         [ Links ]

5. Rezende ALM, Santos GF dos, Caldeira VP, Magalhães ZR. Ritos de morte na lembrança de velhos. Florianópolis: Editora da UFSC; 1996.         [ Links ]

6. Elias N. A solidão dos moribundos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar; 2001.         [ Links ]

7. Bellato R. A vivência da hospitalização pela pessoa doente. [tese]. Ribeirão Preto: Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo; 2001.         [ Links ]

8. Lunardi Filho WD, Sulzbach RC, Nunes AC, Lunardi VL. Percepções e condutas dos profissionais de enfermagem frente ao processo de morrer e morte. Texto & Contexto Enfermagem. 2001;10(3):60-79.         [ Links ]

9. Pinheiro LMG, Dias JAA, Araújo RT, Oliveira Z. Percepções de enfermeiras(os) docentes acerca da morte. Enfermagem Atual. 2001;4(2):23-26.        [ Links ]

 

 

Autor Correspondente:
Roseney Bellato
Av. Anita Garibaldi, rua B, 85 - Jd. Universitário
Cuiabá - MT
CEP. 78075-190
E-mail: roseney@terra.com.br

Artigo recebido em 05/03/2006 e aprovado em 23/03/2007

 

 

* Trabalho realizado na Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Mato Grasso (MT).

 

 

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License