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Acta Paulista de Enfermagem

Print version ISSN 0103-2100On-line version ISSN 1982-0194

Acta paul. enferm. vol.20 no.4 São Paulo Oct./Dec. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-21002007000400014 

ARTIGO ORIGINAL

 

O processo de trabalho da enfermeira na central de material e esterilização*

 

El proceso de trabajo de la enfermera en el centro de material y esterilización

 

 

Samanta Andrine Marschall TaubeI; Marineli Joaquim MeierII

IMestre, Membro do Grupo de Estudos Multiprofissional em Saúde do Adulto (GEMSA) do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Paraná UFPR Curitiba (PR), Brasil
IIDoutora, Professora do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Paraná UFPR Curitiba (PR), Brasil

Autor Correspondente

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Descrever a percepção grupal de enfermeiras acerca dos elementos do seu processo de trabalho na Central de Material e Esterilização (CME).
MÉTODOS: Pesquisa qualitativa, descritiva com quinze enfermeiras de CME de instituições de saúde e ensino de Curitiba Paraná. Os dados foram coletados por meio de grupo focal e submetidos a analise de conteúdo temática.
RESULTADOS: Foram definidos os elementos do processo de trabalho na percepção do grupo focal: os objetos são a equipe e o processamento de materiais; os instrumentos foram planejamento, comunicação/ relacionamento interpessoal e conhecimento; as finalidades são garantir a qualidade do serviço e da equipe, cuidado indireto, e busca, aprimoramento e aplicação de tecnologias.
CONCLUSÃO: Perceber e refletir os elementos do seu processo de trabalho permite a enfermeira da CME compreender a sua prática, desenvolver ações condizentes às suas necessidades e qualificar o seu saber-fazer.

Descritores: Trabalho; Equipe de enfermagem; Esterilização/instrumentação; Administração de Materiais no hospital/ organização e administração.


RESUMEN

OBJETIVO: Describir la percepción grupal de enfermeras respecto a los elementos de su proceso de trabajo en el Centro de Material y Esterilización (CME).
MÉTODOS: Se trata de una investigación cualitativa, descriptiva realizada con quince enfermeras del CME de instituciones de salud y enseñanza de Curitiba Paraná. Los datos fueron recolectados por medio de grupo focal y sometidos al análisis de contenido temático.
RESULTADOS: Fueron definidos los elementos del proceso de trabajo em la percepción del grupo focal: los objetos fueron el equipo y el procesamiento de materiales; los instrumentos la planificación, comunicación/ relación interpersonal y conocimiento; las finalidades son garantizar la calidad del servicio y del equipo, cuidado indirecto, y búsqueda, perfeccionamiento y aplicación de tecnologías.
CONCLUSIÓN:
Percibir y reflexionar sobre los elementos de su proceso de trabajo permite a la enfermera del CME comprender su práctica, desarrollar acciones acorde a sus necesidades y calificar su saber-hacer.

Descriptores: Trabajo; Grupo de enfermería; Esterilización/ instrumentación; Administración de materiales de hospital/ organización & administración.


 

 

INTRODUÇÃO

O processo de trabalho da enfermeira é teórico-prático, interdependente e complementar ao trabalho da saúde, caracterizado por um conjunto de elementos (objeto, instrumentos e finalidade) adaptado às especificidades da profissão e, por isso, se apresenta de modo próprio e peculiar(1-2).

Os elementos se articulam à medida que as ações desenvolvidas atuam sobre um objeto por meio de instrumentos, que trarão resultados a uma finalidade, o que depende de pessoas e das relações que estabelecem entre si e seu ambiente de trabalho(3-4).

Em seu processo de trabalho, a enfermeira tem a possibilidade de atuar em diferentes dimensões práticas que envolvem "cuidar", "educar", "gerenciar" e "pesquisar". Essas dimensões permitem-lhe atuar em organizações de saúde, de ensino e pesquisa, que são compostas por diversos setores dentre os quais está a Central de Material e Esterilização (CME)(5-6).

A CME pode estar inserida ou não em uma organização de saúde devido à possibilidade de existir como uma empresa independente, prestadora de serviços de esterilização. É um ambiente de alta concentração de equipamentos e materiais, com um trabalho específico que contribui para a qualidade dos serviços prestados pelas unidades que consomem seus produtos(7-8). Os produtos produzidos no setor são artigos odonto-médico-hospitalares processados por meio da recepção, preparo e esterilização para, na seqüência, serem distribuídos ao seu destino final(9).

Na Central de Material e Esterilização os elementos do processo de trabalho da enfermeira são diferentes, pois se articulam para atender as especificidades do trabalho desenvolvido(10). O setor se caracteriza como uma área de atuação peculiar da enfermeira que, em seu cotidiano, utiliza uma gama de conhecimentos empíricos, científicos e tecnológicos para a coordenação do trabalho desenvolvido.

A partir do exposto, destaca-se a importância de conhecer a prática da enfermeira na CME, em seu processo de trabalho e elementos que o compõem, a fim de compreender o quê, para quem, como e por que as ações são realizadas. A abordagem do tema é fundamental, devido a sua complexidade e a peculiaridade do trabalho da profissional no setor(11-12).

Além disso, enfatiza-se a importância da discussão existente em torno da permanência e visibilidade do trabalho da enfermeira na CME, e a necessidade de produção de conhecimentos na área, no que diz respeito ao processo de trabalho(11-12).

Frente ao apresentado, a questão norteadora da pesquisa foi: Qual a percepção das enfermeiras acerca dos elementos de seu processo de trabalho na Central de Material e Esterilização?. Para respondê-la, objetivou-se descrever a percepção grupal das enfermeiras acerca dos elementos de seu processo de trabalho na Central de Material e Esterilização.

 

MÉTODOS

Esta pesquisa é de abordagem qualitativa, do tipo descritiva. A pesquisa qualitativa trata da intuição, da subjetividade, pois se aprofunda no estudo das relações e ações humanas(13). A pesquisa do tipo descritiva tem por objetivo expor características de um fenômeno, sem a necessidade de explicá-las(14).

O campo de pesquisa envolveu a área de Central de Material e Esterilização da cidade de Curitiba – PR, sendo que os sujeitos foram enfermeiras de CME de instituições de saúde — hospitais, clínicas, empresas de esterilização — e de ensino superior (docentes de disciplinas referentes ao conteúdo de centro cirúrgico e CME). Inicialmente, foram selecionadas 18 instituições de saúde de acordo com o nível de assistência à saúde: primário, secundário e terciário(15-16). Na seqüência, efetuou-se contato telefônico com as instituições, certificando-se a respeito da presença de enfermeiras na CME, sendo agendado um encontro para convidá-las a participar da pesquisa e verificar se estavam de acordo com os critérios de seleção: ser enfermeira, atuar na área de CME (no setor ou como docente) e ter experiência superior a um ano no mesmo. A partir disso, 15 enfermeiras aceitaram e estavam de acordo com os critérios de seleção definidos.

Na coleta de dados utilizou-se a técnica de grupo focal, que permite o encontro de um grupo de pessoas em sessões para a discussão focada em um tema específico. A técnica possibilita momentos de "pensar coletivamente", a expressão de percepções e valores a respeito de um assunto, além da produção de conhecimento e mudanças de pensamentos (17-18).

A sessão em grupo ocorreu nas dependências de uma universidade pública e teve duração de duas horas, na qual dos quinze sujeitos selecionados sete compareceram. O número de seis a quinze integrantes é recomendável, pela possibilidade de aprofundar discussões do grupo(19). A composição do grupo focal foi pautada na literatura(19-20): um moderador que conduziu as discussões o próprio pesquisador tendo em vista seu envolvimento com a temática, e por dois observadores uma profissional e uma docente-pesquisadora da área, ambas com experiência em grupo focal que registraram por escrito o tempo, as falas e reações dos participantes em pranchetas individuais. O registro da sessão de grupo focal também foi efetuado por meio da gravação de áudio e vídeo.

Para a condução do grupo focal, elaborou-se um guia de temas roteiro à condução da sessão composto por momentos-chave e por uma lista de perguntas direcionadas ao objetivo proposto, e um material de estímulo. Os momentos-chave foram: abertura (apresentações e informações), estabelecimento do setting (destaque aos aspectos éticos da pesquisa e contrato de horário), debate, síntese e encerramento. No que se refere ao material de estímulo, englobou conceitos da literatura a respeito do processo de trabalho e seus elementos, servindo como material desencadeador do debate(20).

No tratamento dos dados utilizou-se a análise de conteúdo temática de Bardin(21), sendo seguidas as fases propostas pelo autor: pré-análise, exploração do material, tratamento dos resultados e inferência e interpretação. No primeiro momento foi constituído o corpus reunião, leitura e escolha de unidades de registro dos documentos a serem analisados; no segundo momento ocorreu a exploração e operações de codificação agrupamento de unidades de registro comuns a partir da escolha de recortes de "temas" para o encontro dos núcleos de sentido das falas. O terceiro momento envolveu o tratamento dos resultados, sua inferência e interpretação, que possibilitou a condensação e lapidação dos dados e o encontro da categoria.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Setor de Ciências da Saúde da UFPR, registrada sob o número: CEP/SD: 222 SM 097.05.11. Atendeu-se a Resolução n.º 196/96 do Ministério da Saúde(22), ao garantir os direitos dos sujeitos quanto à orientação, o anonimato, a participação voluntária e a ausência de prejuízos. Os sujeitos assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

 

RESULTADOS

As discussões do grupo foram produtivas e permitiram o encontro da categoria intitulada "o processo de trabalho da enfermeira na Central de Material e Esterilização no grupo focal", construída a partir da analise dos dados do grupo focal. O grupo possibilitou momentos de reflexão em torno dos elementos do processo de trabalho na CME, o que pode ser percebido na fala a seguir.

[...] aí, eu estou bem confusa tá? Se o teu serviço é de esterilizar material, é mandar tudo; o teu objeto é o material, se o teu serviço é de também treinar o funcionário, entra como objeto [...] (EGF4).

A dúvida circundou os discursos das enfermeiras que, em meio a questionamentos aos colegas, demonstraram tentativas de compreender os elementos de seu processo de trabalho. Nesse sentido, a utilização do material de estímulo promoveu o encontro de respostas aos questionamentos e aprofundou a discussão, pois os sujeitos adotaram distintos referenciais de conceituação dos elementos do processo de trabalho e escolheram aquele com o qual mais se identificaram, como se evidencia nas falam que seguem.

[...] olha, vamos pegar esta terminologia, definição da Egry: tudo o que se oferece à vista, o que se oferece a nossa vista? Sobre o que incide uma ação [...] (EGF 6).

[...] eu me confundo quando eu leio a definição de objeto, sabia [...]. É complexo [...] não sei, tenho que pensar melhor, vou ler em voz alta. A segunda parte aqui: "tudo aquilo que poderá ser transformado com intervenção consciente", é sobre isso que eu estava tentando colocar uns comentários (EGF1).

A dificuldade em definir os elementos do processo de trabalho referiu-se, principalmente, ao elemento "objeto". Entende-se que no cotidiano da enfermeira da CME as dimensões práticas "gerenciar", "cuidar", "ensinar" e "pesquisar" estejam presentes de modo articulado ou não, o que depende da atividade a ser desenvolvida(5-6). Esse fato possibilita que atue sobre mais de um objeto — materiais e equipe de trabalho — e os transforme, pois emprega atividades relativas ao processamento dos materiais e desenvolve ações educativas à equipe.

Outra fala representou as conexões que uma das participantes busca estabelecer para definir o objeto. Nela, menciona a percepção que fazia antes das discussões e a que começou a elaborar a partir da leitura do material de estímulo e do contato com idéias de outras pessoas.

[...] eu na verdade, eu estou confusa com o que eu penso e com o que eu estou vendo aqui, eu estou tentando ligar as coisas porque assim na minha visão pessoal ou prévia a estas discussões eu pensaria assim o meu objeto de trabalho na central é o paciente (EGF1).

De modo geral, a dificuldade de clarear os elementos do processo de trabalho por parte das enfermeiras realmente existe e se relaciona, principalmente, à identificação do produto que produzem e do objeto do trabalho(12). Esse fato deve-se, entre outros motivos, aos serviços de saúde possuírem a característica peculiar de consumirem seus produtos no ato de sua produção, o que torna complexo o discernimento dos elementos do processo de trabalho em saúde e a mensuração dos resultados das ações dos profissionais que neles atuam(23).

No que se refere às finalidades, elas dependem dos objetos apreendidos e das tecnologias (instrumentos) escolhidas e aplicadas no trabalho. A partir disso, enfatiza-se a percepção do grupo de que seu trabalho se reflete em algo maior, pois atinge o paciente por meio do cuidado indireto e, concomitantemente, deve objetivar a qualidade do serviço prestado. Outro aspecto foi a percepção da tecnologia como finalidade do trabalho, como pode ser visualizado a seguir:

[...] você está sempre buscando aprimorar a sua atividade, para o crescimento da profissão. [...] é um espaço que a gente tem que lutar para permanecer nele, na central, então o desenvolvimento de todas essas atividades do processo de trabalho dentro da central tem que visar sempre o alcance de uma tecnologia nova, em que o conhecimento faça com que o enfermeiro se destaque nesta posição [...] é a aplicação de novas tecnologias (EGF6).

A fala apresentada anteriormente instigou o grupo a perceber a importância de buscar novos caminhos para a identificação e valorização do trabalho da enfermeira na CME e, ao mesmo tempo, para justificar sua existência, no futuro. O sujeito acredita que a busca, o aprimoramento e a aplicação de novas tecnologias possam modificar o processo de trabalho da enfermeira que, para tanto, precisa utilizar um conhecimento que a destaque na posição que assume dentro do setor.

Tem-se a clareza que a discussão contribuiu para o grupo, não somente para compreender o seu trabalho, mas, também, ao exercício de, em conjunto, chegar a uma síntese. A síntese representou a percepção de um grupo de enfermeiras de CME acerca dos elementos de seu processo de trabalho e para apresentá-la elaborou-se um diagrama (Figura 1), apresentado a seguir.

 

 

A percepção do grupo focal revelou o processo de trabalho da enfermeira na CME da seguinte maneira: o objeto está na equipe de trabalho e no processamento de materiais, os instrumentos nas tecnologias de planejamento, conhecimento e comunicação/ relacionamento interpessoal. As finalidades foram: cuidado indireto, qualidade e busca e aprimoramento de novas tecnologias.

 

DISCUSSÃO

As participantes do grupo focal caracterizaram que o objeto se apresenta ora na equipe de trabalho da CME, ora no processamento de materiais, o que dependerá do foco de atenção da enfermeira para cada momento de seu trabalho. O gerenciamento constitui o trabalho principal das enfermeiras de CME, por suas atividades estarem concentradas na organização de materiais e pessoal. Quanto ao processamento de materiais, evidencia-se que a concentração de atividades administrativas, envolvendo recursos materiais, conduz à constatação de que os artigos médico-hospitalares processados ou reprocessados constituem-se como objeto de trabalho da enfermeira na CME(12).

Porém, resgata-se a possibilidade da enfermagem ter mais de um objeto de trabalho, o qual pode ser compartilhado entre a administração, o cuidado, o ambiente terapêutico, a educação em saúde, etc., o que depende das atividades que a enfermeira venha a desempenhar em seu setor de atuação. Dessa maneira, concorda-se que os elementos do processo de trabalho da enfermeira deverão ser compatíveis com as especificidades da prática da profissional, sem esquecer de sua complementar ligação com o processo de trabalho em saúde(24).

Para os instrumentos do processo de trabalho, foram definidas três grandes áreas: conhecimento, comunicação e relacionamento interpessoal e planejamento. Essas compreenderam o agrupamento dos instrumentos, concebidos como tecnologias e sinônimos de meios, utilizados quando saberes e fazeres são empregados com vistas ao alcance de determinada finalidade do processo de trabalho na CME.

A área "conhecimento" foi composta pela habilidade, destreza manual; atualização pessoal, conhecimento teórico científico, conhecimento empírico; educação em serviço ou continuada, capacitação da equipe, orientação; e pesquisa. A enfermagem utiliza padrões de conhecimento articulados e não excludentes – empírico, pessoal, estético, ético, intuitivo, histórico, político, etc.-, revelados no exercício cotidiano da profissão, no qual a enfermeira entrelaça perícia, habilidade, sensibilidade para construir a arte e a ciência da profissão(25-26). Essas diferentes expressões do saber na enfermagem manifestaram, dentre outras coisas, a busca por autonomia e construção de um corpo próprio de conhecimentos para fundamentar o seu fazer na operacionalização do cuidado e na coordenação da equipe(27).

Na área "comunicação e relacionamento interpessoal", foram agrupadas a comunicação, relacionamento interpessoal; e trabalho em equipe, participação ativa, envolvimento. Pelas características de seu processo de trabalho prática social e coletiva , a enfermeira de CME estabelece uma teia de relações grupais ao desenvolver suas ações, pois mantém relações com trabalhadores de sua categoria profissional, da área da saúde e, indiretamente, com pessoas que procuram os serviços de saúde em busca de atendimento. Nessa teia, assume o papel de gerente de relações interpessoais, e os veículos para que isso ocorra estão na comunicação, no envolvimento e na participação ativa nas atividades da equipe da CME(28-29). A comunicação é um instrumento básico, uma ferramenta do processo de trabalho da enfermeira, com a qual pode transformar a consciência individual e coletiva, articular teoria e prática e qualificar as ações de sua equipe(30).

A área "planejamento" foi composta das tecnologias planejamento, organização; observação; supervisão, coordenação; documentação, registro de normas e rotinas; tomada de decisão; recursos diversos; avaliação, análise; e dimensionamento de pessoal. O planejamento constitui-se como outro instrumento de trabalho da enfermeira na CME, na medida em que promove a sistematização de ações futuras e apresenta-se como um saber administrativo que auxilia no gerenciamento do seu setor de trabalho(6,31 ).

Resgata-se que o processo de trabalho da enfermeira é composto por dimensões práticas – cuidar, gerenciar, ensinar e pesquisar – originadas da complexidade do trabalho dessa profissional, que possibilita que opere seu trabalho em mais de uma dimensão de atuação(6). Nesse sentido, percebe-se que essas dimensões foram contempladas nas três áreas de instrumentos (tecnologias), uma vez que a comunicação, relacionamento interpessoal podem compor o "cuidar", "ensinar" e/ou "gerenciar"; o planejamento encontra-se na dimensão "gerenciar" e o conhecimento nas dimensões "ensinar" e/ ou "pesquisar". Cada tecnologia mencionada é importante ao alcance das finalidades, sendo que sua escolha e aplicação dependerão da ação a ser desenvolvida.

A finalidade também foi percebida como sendo composta, nos objetivos de: garantir a qualidade dos serviços prestados e da equipe; cuidado indireto ao paciente; busca, aprimoramento e aplicação de novas tecnologias. A finalidade ou o objetivo do processo de trabalho da enfermeira da CME caracteriza-se na necessidade de produção de materiais em condições seguras de uso e, por conseguinte, está diretamente ligada à qualidade da assistência prestada(12,32 ).

A respeito do cuidado indireto, na CME o cuidado configura-se de maneira diferenciada, em função da inexistência de um contato direto entre o profissional de saúde e o paciente. A partir disso, o cuidado relaciona-se a dois aspectos: o cuidado com materiais e o seu processamento e o cuidado indireto, tendo em vista que os materiais irão subsidiar a realização do cuidado direto, realizado por enfermeiras de outros setores(8).

O aprimoramento e aplicação de novas tecnologias foram identificados como finalidade do processo de trabalho da enfermeira da CME, o que se compreende no fato da tecnologia fazer a mediação entre o pensamento e a transformação desse pensamento em ação e resultado(33). Concebe-se que tal finalidade venha a ser uma alternativa à melhoria da prática da enfermeira, na apropriação adequada das tecnologias existentes e no encontro de novas, além de permitir a divulgação dos seus espaços de trabalho(34).

Os dados indicaram a existência de objetos e finalidades de trabalho compostas definidas em função das ações das enfermeiras na CME. Demonstraram diferentes instrumentos agrupados e considerados como tecnologias de Enfermagem, utilizados na transformação dos objetos e alcance das finalidades, o que promove complexidade ao processo de trabalho da enfermeira no setor.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A relevância do estudo foi percebida na complexidade do tema, no referencial teórico, na profundidade da discussão proporcionada pelo grupo focal e nos dados analisados. O grupo focal revelou que à enfermeira coube a apropriação do processo de trabalho da CME, que a direcionou ao desenvolvimento de atividades especificas e privativas. Concebe-se, portanto, que os elementos do processo de trabalho devam ser compatíveis com as especificidades da prática da enfermeira, pois se relacionam com suas ações cotidianas.

Nesse sentido, o grupo focal permitiu uma discussão produtiva pautada na troca de experiências, opiniões, exposição de idéias e reflexões. Observou-se uma transformação de pensamentos, no anseio de receber e dividir conhecimentos, em explicitar dúvidas e certezas.

A respeito de suas funções na CME, a enfermeira revela competências exigidas que circundam na administração do setor, no desenvolvimento de atividades técnico-assistenciais e na administração dos recursos humanos. Para tanto, a profissional necessita somar à estrutura física da CME, um conjunto de saberes estruturados que venham lhe conferir competência, responsabilização pelo setor. Nesse entendimento, a competência é utilizada para empregar diferentes tecnologias de enfermagem sobre os seus objetos de trabalho, no intuito de transformá-lo, e assim, alcançar as finalidades propostas para seu processo de trabalho.

A partir do exposto, acredita-se que a exclusividade da enfermeira no setor firma-se em seu conhecimento detalhado das ações de cuidado de enfermagem, na capacidade de visualizar as necessidades do trabalho de outras enfermeiras e, também, de outros profissionais de saúde que utilizam os produtos da CME, e isso lhe confere características fundamentais à coordenação do setor.

É imprescindível que novos olhares sejam lançados aos espaços de trabalho da enfermeira, para que os elementos que compõem seu processo sejam desvelados, a fim de compreender, repensar e divulgar suas ações, que articulam cuidado, gerência, ensino e pesquisa.

 

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Autor Correspondente:
Samanta Andrine Marschall Taube
R. Walenty Golas, 370 - Apto 304 B
Curitiba - PR
Cep: 81200-520
E-mail: samitaube@gmail.com

Artigo recebido em 08/12/2006 e aprovado em 08/08/2007

 

 

* Artigo extraído da Dissertação de Mestrado intitulada "O processo de trabalho da enfermeira na Central de Material e Esterilização: uma perspectiva tecnológica aos instrumentos", Universidade Federal do Paraná - UFPR – Curitiba (PR), Brasil.

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