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Acta Paulista de Enfermagem

Print version ISSN 0103-2100

Acta paul. enferm. vol.22 no.spe1 São Paulo  2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-21002009000800014 

ARTIGO ORIGINAL

 

Hemodiálise: estilo de vida e a adaptação do paciente*

 

Hemodiálisis: el estilo de vida y la adaptación del paciente

 

 

Genesis de Souza BarbosaI; Glaucia Valente ValadaresII

IEnfermeiro. Especialista em Nefrologia. Pós-graduando (Mestrado) em Enfermagem pelo Programa de Pósgraduação em Enfermagem da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ - Rio de Janeiro (RJ), Brasil
IIDoutora em Enfermagem, Professora da Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ - Rio de Janeiro (RJ), Brasil

Autor Correspondente

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Identificar como o paciente dependente de hemodiálise enfrenta no dia-a-dia o processo saúde-doença, considerando atitudes, comportamentos e práticas.
MÉTODOS: Estudo de abordagem qualitativa baseado nos princípios da Teoria Fundamentada nos Dados e realizado na Associação de Doentes Renais e Transplantados do Estado do Rio de Janeiro. Participaram do estudo dez sujeitos dependentes de hemodiálise.
RESULTADOS: A análise apontou para a adaptação, a negação, o ajuste social e a luta contra maus sentimentos que desvelaram a categoria (Re)Construindo um novo estilo de vida: a adaptação.
CONCLUSÃO: As ações do enfermeiro devem seguir para além das necessidades físicas e biológicas atingindo os campos social e psicológico, onde estratégias para a melhoria da qualidade de vida destes indivíduos devem ser consideradas, orientadas e estimuladas.

Descritores: Hemodiálise/psicologia; Adaptação psicológica; Assistência centrada no paciente; Cuidados de enfermagem


RESUMEN

OBJETIVO: Identificar cómo enfrenta, en el día a día, el proceso salud-enfermedad el paciente dependiente de hemodiálisis, considerando actitudes, comportamientos y prácticas.
MÉTODOS:
Estudio de abordaje cualitativo basado en los principios de la Teoría Fundamentada en los Datos y realizado en la Asociación de Enfermos Renales y con Transplantes del Estado de Río de Janeiro. Participaron en el estudio diez sujetos dependientes de hemodiálisis.
RESULTADOS: El análisis apuntó hacia la adaptación, la negación, el ajuste social y la lucha contra los malos sentimientos que develaron la categoría (Re) Construyendo un nuevo estilo de vida: la adaptación.
CONCLUSIÓN: Las acciones del enfermero deben ir más allá de las necesidades físicas y biológicas alcanzando los campos social y psicológico, donde las estrategias para mejorar la calidad de vida de estas personas deben ser consideradas, orientadas y estimuladas.

Descriptores: Hemodiálisis/ psicología; Adaptación psicológica, Atención dirigida al paciente; Atención de enfermería


 

 

INTRODUÇÃO

Neste estudo, procurou-se compreender o modo como os pacientes vivenciam o processo de enfrentamento no contexto hemodialítico. O interesse por esta pesquisa surgiu a partir de inquietações decorrentes da observação desta clientela durante as atividades práticas do estágio supervisionado, no setor de nefrologia, à época da graduação em enfermagem.

Cabe destacar que ser portador de uma doença crônica se caracteriza como um grande desafio, por envolver mudanças de hábitos de vida que estão relacionadas à dieta e atividades físicas, uso contínuo de medicações e a dependência de pessoas e aparelhos para adaptar-se a um novo modo de viver(1-2).

Diante disso, a doença crônica que aqui é vista como uma intercorrência estressora possui um impacto que pode surgir a qualquer tempo e permanecer, alterando o processo de ser saudável de indivíduos ou de grupos(3). O dependente de hemodiálise vivencia uma repentina mudança no seu cotidiano e o modo pelo qual enfrentará a situação é particular, porém de grande relevância para a assistência de enfermagem que prima pela totalidade do indivíduo.

Para tanto, é necessário estimular sua capacidade, para se adaptar de maneira positiva ao novo estilo de vida e assumir o controle do seu tratamento, abordando saúde e doença não como elementos opostos, mas como parte de um processo único. A experiência da doença enquanto processo integra corpo, mente e entidade fisiológica, inserindo-os num contexto sociocultural(2).

O enfoque da doença como um processo contínuo remete à abordagem sistêmica do indivíduo em contraponto com o modelo biomédico atual, de características cartesianas, passando a não mais focar as unidades menores somente e, sim, o todo da matéria, da vida e da mente que se influenciam e se determinam reciprocamente. Quando a atenção atende a estes aspectos tem-se a concepção holística da saúde(4).

Enfrentar o desafio da especificidade do trabalho realizado junto ao dependente de hemodiálise demanda disponibilidade física e mental na oferta do cuidado(5). Nesse sentido, o estudo aponta a relação de interdependência entre conhecimento e sensibilidade, visando a garantia de um cuidado fundamentado na concepção sistêmica do indivíduo(6).

Diante das ideias apresentadas, este estudo teve por objetivo identificar como o paciente dependente de hemodiálise enfrenta no dia-a-dia o processo saúde-doença, considerando atitudes, comportamentos e práticas. É importante destacar que o cliente experiencia uma importante mudança no seu cotidiano tão logo seja imperativo a necessidade de hemodiálise. Deste modo, o enfrentamento do cliente dependente de hemodiálise, foi definido como nosso objeto de estudo.

 

MÉTODOS

O estudo de abordagem qualitativa ocorreu na Associação de Doentes Renais e Transplantados do Estado do Rio de Janeiro após aprovação do projeto de pesquisa pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem Anna Nery/Hospital Escola São Francisco de Assis. Adotaram-se princípios da Teoria Fundamentada nos Dados que, através de uma profunda análise, busca entender os processos a partir dos quais ocorre o fenômeno investigado(7-8). Assim, foram utilizadas a distribuição vertical do discurso, codificação aberta, codificação axial e codificação seletiva para delineamento do fenômeno investigado.

Foi utilizada a observação participante sistemática e a entrevista semi-estruturada, através de um roteiro elaborado que abordou a vivência do processo saúde-doença desses pacientes, considerando a experiência do contexto hemodialítico, propondo uma interação em profundidade. A amostra foi configurada por dez sujeitos, sendo sete mulheres e três homens, todos da cidade do Rio de Janeiro, adultos, de diferentes faixas etárias e sob terapia renal substitutiva, com tempo de tratamento hemodialítico entre 2 e 25 anos.

Todos os envolvidos tomaram ciência do objetivo deste estudo e concordaram em participar, assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido em consonância com a Resolução nº196/96 do Conselho Nacional de Saúde(9) e tiveram o anonimato preservado.

 

RESULTADOS

Foi possível perceber, em muitos momentos, características de negação da realidade vivida onde sentimentos e atitudes de rebelião ao tratamento ou perda do estímulo à manutenção do equilíbrio eram experimentados. Nesse contexto os pacientes passaram a enxergar o tratamento como tortura e perda de tempo por não verem resolutividade em direção à cura.

Imagina perder seu tempo três vezes na semana pra ficar aqui grudado numa máquina porque seu organismo já não faz o que deveria fazer. É muito chato. Rubi

Sou hipertenso e tenho diabetes por isso comecei na diálise, mas já faço tratamento há muito tempo, estou controlado. Minha saúde é boa. Só que eu já estou farto de tanta coisa, dessa rotina. Cristal

A aceitação foi observada quando os indivíduos reconheciam a função do tratamento e a relevância da adequação à situação de saúde e experimentavam adotar comportamentos, atitudes e práticas que se molda às exigências impostas pela condição crônica. Iniciavam o processo de aceitação abandonando a visão da hemodiálise como uma tortura passando a enxergá-la como salvadora.

[...] eu encaro numa boa, agora encaro numa boa. Ametista

Até que não tem sido ruim não. Agora que já faz um tempo que dialiso não é tão ruim. A gente se acostuma com essa triste rotina [...] você não é o único e que tem gente muito pior que você. Turmalina

Foi possível verificar a adoção de práticas muito semelhantes as que tinham antes de iniciarem o tratamento. Alguns, diante da adaptação vivida, se consideravam normais ao passo que seguiam formando amigos, realizando atividades sociais e de lazer ao mesmo tempo em que incorporavam as exigências do tratamento à rotina de vida.

Eu procuro fazer atividades sociais, procuro me informar, procuro ter conhecimento de tudo que envolve a hemodiálise, sei de tudo, aprendi a conviver com aquilo sem encarar de uma maneira escravizada. [...] não vejo como escravidão e sim como ajuda. Esmeralda

Outra característica importante observada foi o exercício constante para reunir forças e dar seguimento ao seu cotidiano sem deixar-se abater ou desanimar por intercorrências diversas que poderiam surgir durante a rotina terapêutica.

Eu procuro fazer tudo pra não ficar pensando na doença [...] pra não me deixar abater. Quartzo Fumê

Assim, os códigos gerados foram agrupados nas subcategorias: Vivenciando a adaptação: negação; Vivenciando a adaptação: aceitação; Adotando novas e antigas práticas: o viver social e Lutando contra maus sentimentos, que, por sua vez delinearam a categoria (Re)Construindo um novo estilo de vida: a adaptação.

 

 

DISCUSSÃO

O modo como diferentes indivíduos vivenciam uma mesma situação estressora é singular e o desenvolvimento de habilidade cognitiva para o enfrentamento é um processo mental particular, em que cada um tem diferentes níveis de capacidade para enfrentar ou responder a esses estressores(1,10).

A vivência da nova realidade experimentada permite que o paciente atribua seus próprios significados à doença e ao tratamento(11). Nesse sentido, destaca-se o fato de que idéias pré-concebidas sobre o estado crônico de saúde podem influenciar o modo como cada um utiliza mecanismos de adaptação à condição de saúde ora vivenciada.

Em contrapartida, os limites impostos pelo tratamento hemodialítico, por alguns momentos, levam os pacientes a enxergar a rotina de tratamento sob uma ótica negativa, uma vez que ocasiona comprometimento na realização de atividades cotidianas impactando, sobretudo nas atividades laborais e domésticas(12-13).

É importante ressaltar que embora, através das subcategorias, sejam delineadas etapas, estas não definem uma trajetória linear de enfrentamento da situação permitindo assim que um indivíduo adaptado ao cotidiano hemodialítico, ora visite a negação e revolta ora auxilie outros pacientes na adaptação da situação vivenciada. Apesar do grande número de estressores vivenciados, muitos pacientes adaptam-se bem à rotina de tratamento experimentando sintomas negativos num processo temporário do contexto inicial de adaptação(13).

A ideia da adaptação como um processo contínuo e dinâmico é demonstrada através do diagrama constante na Figura 2.

 

CONCLUSÃO

A análise criteriosa dos dados obtidos permitiu fundamentar o conhecimento teórico e prático acerca do enfrentamento abordando o paciente dependente de hemodiálise sob uma ótica sistêmica permitindo assim, identificar os comportamentos, atitudes e práticas experienciadas no cotidiano oriundas do imperativo de mudança exigido pela terapia hemodialítica.

É necessário considerar que cada pessoa apresenta uma resposta a uma mesma situação estressora, portanto o planejamento das ações de enfermagem deve ocorrer a partir do reconhecimento de manifestações para o enfrentamento da situação vivida pelo paciente.

Assim, um aspecto importante a ser considerado pelo enfermeiro é a educação do paciente frente às exigências impostas pelo tratamento, pois o conhecimento mais profundo sobre sua doença, tratamento e possibilidades de reabilitação pode auxiliá-los no enfrentamento de situações estressoras vivenciadas no cotidiano hemodialítico.

Ainda como uma ferramenta de auxílio do enfermeiro, a ação educativa, ajuda na retomada do controle sobre a vida alterada, pelo cotidiano imposto pela doença crônica e a perda da autonomia associada.

 

REFERÊNCIAS

1. Barbosa GS, Valadares GV. Experimentando atitudes e sentimentos: o cotidiano hemodialítico como base para o cuidar em enfermagem. Esc Anna Nery Rev Enferm. 2009;13(1):17-23.         [ Links ]

2. Gualda DMR, Bergamasco RB, organizadoras. Enfermagem, cultura e o processo saúde-doença. São Paulo: Ícone; 2004.         [ Links ]

3. Trentini M, Silva DGV, Leimann AH. Mudanças no estilo de vida enfrentadas por pacientes em condições crônicas de saúde. Rev Gaúch Enferm. 1990;11(1):18-28.         [ Links ]

4. Capra F. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix; 1986.         [ Links ]

5. Cruz DOA, Araújo STC. Diálise peritoneal: a percepção tátil do cliente na convivência com o cateter. Acta Paul Enferm. 2008;21(Spe):164-8.         [ Links ]

6. Barbosa GS, Valadares GV. A construção do conhecimento em saúde a partir do enfrentamento do cliente dependente de hemodiálise: o desafio cotidiano. J Bras Nefrol. 2008;30(Supl 3):227.         [ Links ]

7. Strauss A, Corbin J. Basics of qualitative research: grounded theory procedures and techniques. Newbury Park, Calif.: Sage Publications; 1991.         [ Links ]

8. Valadares GV. A formação profissional e o enfrentamento do conhecimento novo: a experiência do enfermeiro em setores especializados [tese]. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro. Escola de Enfermagem Anna Nery; 2006.         [ Links ]

9. Brasil. Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Saúde. Normas de pesquisa envolvendo seres humanos - Res. CSN 196/96. Bioética. 1996;4(2 Supl):15-25.         [ Links ]

10. Bringuente MEO. Estressores vivenciados por paciente de terapia intensiva, e suas estratégias de enfrentamento: um estudo direcionado à assistência de enfermagem. [tese]. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro. Escola de Enfermagem Anna Ner; 2000.         [ Links ]

11. Lima AFC, Gualda DMR. História oral de vida: buscando o significado da hemodiálise para o paciente renal crônico. Rev Esc Enferm USP. 2001;35(3):235-41.         [ Links ]

12. Martins MRI, Cesarino CB. Qualidade de vida de pessoas com doença renal crônica em tratamento hemodialítico. Rev Latinoam Enferm. 2005;13(5):670-6.         [ Links ]

13. Almeida AM, Meleiro AMAS. Depressão e insuficiência renal crônica: uma revisão. J Bras Nefrol. 2000; 22(1):16-24.         [ Links ]

 

 

Autor Correspondente:
Genesis de Souza Barbosa
R. Alzira Brandão, 73/301 - Tijuca
Rio de Janeiro - RJ - Cep: 20520-070
E-mail: genesisbarbosa@gmail.com

 

 

* Artigo extraído da Monografia de Conclusão de Curso de Graduação em Enfermagem "A construção do conhecimento em saúde a partir do enfrentamento do cliente dependente de hemodiálise: o desafio cotidiano" apresentada à Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ - Rio de Janeiro (RJ), Brasil.

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