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Acta Paulista de Enfermagem

Print version ISSN 0103-2100

Acta paul. enferm. vol.23 no.1 São Paulo  2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-21002010000100017 

ARTIGO ORIGINAL

 

Comunicação não-verbal durante cuidados prestados aos filhos por mães com Vírus da Imunodeficiência Humana*

 

Non-verbal communication during child care by mothers with Human Inmunodeficiency Virus

 

Comunicación no-verbal durante cuidados prestados a los hijos por madres con Virus de la Inmunodeficiencia Humana

 

 

Simone de Sousa PaivaI; Marli Teresinha Gimeniz GalvãoII; Lorita Marlena Freitag PagliucaIII; Paulo César de AlmeidaIV

IEnfermeira. Mestre em Enfermagem
IIDoutora em Enfermagem. Professora do Departamento de Enfermagem e do Curso de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Fortaleza (CE), Brasil
IIIDoutora em Enfermagem. Professora Titular do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Fortaleza (CE), Brasil
IVDoutor. Estatístico. Professor Adjunto da Universidade Estadual do Ceará. Fortaleza (CE), Brasil

Endereço para correspondecia

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar a comunicação não verbal durante os cuidados prestados a filhos menores de seis meses por mães portadoras do vírus da imunodeficiência humana (HIV).
MÉTODOS: Estudo desenvolvido em ambiente experimental com cinco mães HIV+, no segundo semestre de 2007. Utilizou-se como recurso de coleta de dados a filmagem de cuidados maternos (banho, troca de roupas, mamadeira, brincar e ninar) dispensados ao filho. As cenas foram analisadas em face dos aspectos da comunicação não-verbal.
RESULTADOS: Analise estatística indica diferença entre os cuidados em todas as manifestações da comunicação. Entre os cuidados, a troca de roupas e o banho foram os cuidados mais instrumentais. A comunicação não-verbal é utilizada pela mãe para demonstrar apego ao filho e para perceber anormalidades.
CONCLUSÃO: Os resultados demonstram necessidade de incentivar a mãe a interagir com seu filho durante todos os cuidados, promovendo estímulos para o desenvolvimento infantil.

Descritores: HIV; Relações mãe-filho; Comunicação não verbal.


ABSTRACT

PURPOSE: To examine the non-verbal communication during child care by mothers with the human immune deficiency virus (HIV).
METHODS: This study was conducted in the second semester of 2007 in an experimental setting with 5 HIV positive mothers. Data were collected through videotaping during child care such as bathing, clothes changes, feeding, playing, and cuddling. Data analysis focused on the aspects of non-verbal communication.
RESULTS: Statistical analysis indicated differences between the mother and the child in all aspects of non-verbal communication during child care. Clothes changes and bathing were the most instrumental child care. Non-verbal communication is used by mothers to show affection and to perceive abnormalities.
CONCLUSION: The study's findings suggest the need to encourage mothers to interact with the child during all aspects of child care to promote normal child development.

Keywords: HIV; Mother-child relations; Nonverbal communication.


RESUMEN

OBJETIVO: Analizar la comunicación no verbal durante los cuidados prestados a hijos menores de seis meses por madres portadoras del virus de la inmunodeficiencia humana (HIV).
MÉTODOS: Estudio desarrollado en ambiente experimental con cinco madres HIV+, durante el segundo semestre de 2007. Se utilizó como recurso de recolección de datos la filmación de cuidados maternos (baño, cambio de ropas, mamadera, jugar y arrullar) dados al hijo. Las escenas fueron analizadas bajo los aspectos da comunicación no-verbal.
RESULTADOS: El análisis estadístico indica una diferencia entre los cuidados en todas las manifestaciones de la comunicación. Entre los cuidados, el cambiar de ropas y el baño fueron los cuidados más instrumentales. La comunicación no-verbal es utilizada por la madre para demostrar apego a su hijo y para percibir anormalidades.
CONCLUSIÓN: Los resultados demuestran la necesidad de incentivar a la madre a interactuar con su hijo durante todos los cuidados, promoviendo estímulos para el desarrollo infantil.

Palabras clave: HIV; Relaciones madre-hijo; Comunicación no verbal.


 

 

INTRODUÇÃO

Entende-se a gravidez como um processo ocorrido no período de tempo decorrente entre a concepção e o parto. A maternidade, porém, ultrapassa a gravidez. Ambas envolvem mudanças importantes na vida da mulher, as quais exigem adaptações sucessivas e a longo prazo(1). Como é notório, a futura mãe assume um novo corpo e a responsabilidade de cuidar de um outro ser humano.

A exemplo de toda crise de desenvolvimento, a gravidez e a maternidade desequilibram o ciclo de vida do indivíduo. De acordo com a forma como a crise será vivenciada, tal desequilíbrio poderá ser maior ou menor. Para a mulher portadora de Vírus da Imunodeficiência Humana/Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, a este desequilíbrio da geração de um filho acrescentam-se as especificidades da soropositividade(2). Com isso, esse período de crise para a mulher nessa condição pode ser maior do que o habitual para uma gestante. Nestas circunstâncias, o desempenho do cuidado materno ao filho nascido na vigência do HIV pode ser afetado.

Desde os primeiros dias de convívio com o bebê, a mãe inicia o desempenho do seu cuidado ao filho. Com o decorrer do período pós-parto, a nova mãe identifica-se com este papel e passa a desempenhá-lo melhor(3). Dessa forma, estabelece concretamente a relação que irá ter com o filho durante suas vidas.

No entanto, ao se descobrir portadora de alguma doença capaz de comprometer o seu filho, como no caso da soropositividade materna ao HIV, pode surgir na futura mãe sentimentos de culpa(4) e ansiedade, pois, como toda mãe, ela espera ter um filho saudável. Sobremodo, diante dessas situações, o cuidado despendido pela mãe ao seu concepto poderá sofrer influencias e, por conseguinte, a comunicação poderá ficar comprometida.

A comunicação está presente desde os primeiros contatos entre mãe e filho. Desde o nascimento, o rosto é um poderoso canal de interação entre adulto e criança, atrai sua atenção e provoca uma sensação de bem-estar, indispensável para seu processo de socialização(5). Além do rosto, outras expressões não-verbais ocorrem entre mãe e filho, como as carícias maternas, o choro e o balbuciar do recém-nascido. Todas essas expressões são formas de comunicação não-verbal (CNV). O processo comunicativo entre mãe e bebê é rico em expressões. Nele os primeiros contatos acontecem com intenção de propiciar conhecimento mútuo e estabelecimento de afetos.

Após o nascimento, a criança é totalmente dependente dos cuidados de um adulto normalmente a sua mãe. O momento do cuidado materno deve constituir uma oportunidade de diálogo entre mãe e filho para o estabelecimento de um relacionamento saudável. Portanto, não pode se resumir ao mero desempenho de procedimentos instrumentais. Para tanto, torna-se necessário aos profissionais avaliar o cuidar materno, mediante observação da comunicação entre mãe e filho, sobretudo a não-verbal, linguagem predominante nessa relação, durante o desempenho desses cuidados.

O estudo objetivou analisar a comunicação não-verbal durante os cuidados prestados a filhos menores de seis meses por mães portadoras do vírus da imunodeficiência humana (HIV).

 

MÉTODOS

Desenvolveu-se estudo descritivo/exploratório no Laboratório de Comunicação em Saúde (LabCom_Saúde) em Fortaleza-Ceará, local onde existe estrutura física e tecnológica apropriada ao desenvolvimento de situações de comunicação com diferentes clientelas. Como observado, o ambiente-cenário dispõe de sala com vidro-reflexo, onde fica o pesquisador, de modo que o pesquisado não consegue visualizá-lo. Também integram o ambiente, copa e banheiro.

Desenvolvido ao longo do segundo semestre de 2007, o estudo contou com a participação de cinco binômios (mãe-filho) cuja mãe apresentava sorologia anti-HIV positiva. Como critérios para inclusão das mães adotou-se: Ter idade igual ou superior a 18 anos, possuir conhecimento da infecção pelo HIV, ter filho nascido exposto ao HIV, residir em Fortaleza e aceitar participar da pesquisa.

Para propiciar intimidade, um ambiente-cenário foi montado no laboratório de forma semelhante a uma casa. Neste ambiente a mãe se sentia familiarizada e executou cinco cuidados cotidianamente desempenhados com seu filho, a saber: banho, troca de roupas, oferecimento de mamadeira (alimentação), momentos de brincadeira (brincar) e no momento de fazê-lo dormir (ninar/embalar).

Para o banho, dispunha-se de uma bancada com 1,0 metro de altura, onde ficava disposta a banheira com água, além de produtos ao alcance das mãos da mãe, os quais poderiam ser utilizados neste cuidado. Outra bancada, ao lado, tinha lugar para trocar a criança, com disposição de fraldas, roupas e perfumarias, todas próximas à mãe. Havia, ainda, uma sala para alimentar, brincar, e ninar, com poltrona de braços, mesa de apoio e brinquedos infantis. Tal como no ambiente doméstico, a circulação entre os espaços era livre.

Para a coleta de dados usou-se questionário semi-estruturado com perguntas relativas aos dados de identificação, socioeconômicos, informações obstétricas acerca do diagnóstico. Utilizou-se, também, a filmagem como recurso de captação e registro de informações. Cada binômio mãe e filho teve um dia para a filmagem, a mãe escolhia o momento para começá-las.

No referente à coleta de dados, antes de iniciar a filmagem, a mãe conheceu o ambiente experimental (LabCom_Saúde) e foi explicado quais os cuidados deveria desempenhar, a mãe ficou livre para mudar de posição objetos conforme desejasse, para torná-los mais acessíveis durante os cuidados. Após concordância da mãe, iniciava-se a filmagem. No ambiente experimental, duas câmeras ficaram posicionadas em locais estratégicos, de modo que captassem as cenas e não interferissem nos cuidados. Em sala anexa, computador conectado às filmadoras executava as gravações e armazenava os dado,s sem interferência no ambiente de filmagem.

Da análise dos dados das filmagens participaram dois juízes. A cada trinta segundos as gravações eram pausadas e avaliadas individualmente por cada juiz, segundo um roteiro de observação. Neste roteiro constavam elementos da CNV divulgados na literatura(5), cujas variáveis foram: paralinguagem, cinestésica, distância, contato visual, tom de voz, ocorrência de choro ou gemido, tipo de toque da criança e tipo de toque materno. Cada roteiro preenchido por cada um dos juízes correspondeu às interações mãe e filho, no total finalizaram-se 344 interações entre os cinco binômios. No presente estudo não houve perdas amostrais.

Os registros no roteiro de observação foram agrupados por cuidado materno e analisados, estatisticamente, para quantificação das interações encontradas e suas variáveis. Para o processamento dos dados empregou-se o Software SPSS. Foram feitas análises de proporção e associações (Testes z e X2), fixando-se o nível de significância de 1%.

Como exigido, o estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Ceará, sob protocolo no.151/07. As mães foram convidadas a participar do estudo em instituições de saúde e em organização não governamental na cidade de Fortaleza. Aquelas que demonstravam interesse foram conhecer o LabCom_Saúde e só assim decidiam sobre a participação ou não na pesquisa. Mediante aceitação foi agendada um dia para as filmagens. Para anuência formal foi solicitada a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Com vistas ao anonimato das participantes, a cada binômio atribuiu-se um número, de acordo com a ordem de participação (1 a 5).

 

RESULTADOS

No referente à idade, a das mães variou entre 18 e 34 anos, enquanto a dos bebês variou entre 39 e 175 dias. Elas informaram conhecimento do diagnóstico do HIV há no mínimo um ano e no máximo quatro anos e relacionamento estável com seus parceiros. Destes, apenas um era soropositivo ao HIV. Quanto à renda per capita, situou-se entre R$ 53,00 a R$ 175,00 por mês. O salário vigente na época era de R$ 385,00. Contudo, uma mãe referiu não ter rendimentos. Segundo a maioria das mães, os filhos foram desejados, todas se submeteram a parto cesário. Os bebês nasceram entre a 36ª e 37ª semana gestacional, apresentavam peso adequado ao nascer para idade gestacional, entre 2.500 a 3.500 gramas e não apresentavam doenças ou malformações. Todas as mães usaram o AZT® (Zidovudina) como determinado ante a vigência do HIV. No entanto, apenas três referiram ter iniciado seu uso aos três meses de gestação. Na Tabela 1, apresentam-se os dados sobre a associação entre as variáveis, cuidado materno e fatores da CNV.

Consta na Tabela 1 a associação entre as variáveis cuidado materno e fatores da comunicação não-verbal, descritos em paralinguagem, cinestésica, distância, contato visual, tom de voz, toque/criança e toque/mãe. Registrou-se diferença estatisticamente significante (p< 0,0001) entre os cinco cuidados maternos no referente a todas as manifestações da comunicação não-verbal.

Como mostra a Tabela 1, o cuidado no qual se despendeu maior número de interações para sua realização foi troca de roupas (N=95), seguido pelo ninar (N=78) e alimentar a criança (N=73). No oferecimento do banho do bebê houve 53 interações da mãe com o filho e durante o brincar 45 interações entre ambos.

Ao se analisar a "paralinguagem" (X2 71,12; p<0,0001), o momento da troca de roupas do bebê é aquele em que a criança mais emite vocalizações (31,6%). Ao se observar a emissão de sons produzidos pela mãe, identificou-se semelhança aos da criança (28,4%), mas a maior freqüência desta categoria ocorreu durante o brincar (68,9%), verificou-se ausência de paralinguagem em mais da metade das interações do cuidado ninar (57,7%). No banho houve também ausência de interações (43,4%) entre mãe e filho.

Quanto à "cinestésica" (X2 52,61; p<0,0001), a postura lateral/costas foi mais comum durante o banho (62,2%). Em contrapartida, a postura frente-a-frente predominou durante o brincar (97,8%). No referente ao fator "distância" (X2 79,67; p<0,0001), a íntima entre mãe e filho foi identificada em todas as interações do alimentar e do ninar, com menor freqüência na troca de roupas (61,1%). Entretanto o "contato visual" (X2 20,26; p<0,0001) ocorreu em todas as cenas do banho, do alimentar e do brincar, embora com menor ocorrência durante o ninar (89,7%).

Outra observação foi a seguinte: o tom baixo de voz e o sussurro aconteceram com maior freqüência ao longo do brincar (24,4% e 55,6%, respectivamente), enquanto o tom de voz alto/normal foi verificado com maior freqüência durante o banho do bebê (22,7%). Já o silêncio deu-se ao longo da troca de roupas e do ninar o filho (X2 46,36; p<0,0001).

Em relação ao "comportamento tátil da criança", na maioria das cenas do brincar (82,2%) e na minoria das interações do ninar (29,5%), o bebê virou-se para a mãe. Como se percebeu, o banho foi o momento em que mais a criança se virou (ou foi virada) para o lado oposto ao da mãe (X2 46,81; p<0,0001).

Quanto ao toque provocado pela mãe (X2 116,05; p<0,0001), ou ainda "comportamento tátil da mãe", o toque localizado foi mais comum na troca de roupas (88,4%). O agarrar ocorreu com maior freqüência durante o brincar (40%) e o acariciar foi o tipo de toque mais identificado durante o ninar (25,7%). Já o sorriso foi mais comum no brincar (15,5%).

 

DISCUSSÃO

Nas pequenas atividades do dia-a-dia, como brincar, alimentar, vestir e banhar, o vínculo mãe-bebê se desenvolve(6). Como evidenciado, as vocalizações do lactente poderiam ter a intenção de solicitar algo, fazer alguma reclamação ou comentário, registradas em estudo sobre sensitividade materna durante o banhar e vestir o bebê(7). Ao longo da troca de roupa, a criança é muito manipulada, e poderá sentir mudança de temperatura ao ser despida. Essas comunicações vocais podem sugerir ou não algum tipo de desconforto da criança, como um desejo de relatar o que sente à sua mãe.

A mãe apresenta o número de vocalizações paralingüísticas semelhante aos da criança durante a troca de roupas. Isto sugere uma boa atenção por ela dispensada ao filho. De modo geral, os sons emitidos pela mãe podem estar relacionados ao desejo de chamar a atenção do filho ao manipulá-lo ou como resposta às suas vocalizações.

Durante o brincar, a mãe tenta chamar a atenção do filho para o brinquedo mediante uso freqüente de vocalizações. Quem torna o brinquedo sempre novo e atraente para o bebê é a mãe, sobretudo pelo uso de artifícios que lhe chamem a atenção.

Ainda como observado, a postura lateral e costas é freqüentemente adotada durante o banho e isto se deve à posição da banheira, em sentido perpendicular ao da mãe, em cima de uma mesa. Constantemente a mãe precisava pegar algum objeto (sabonete, xampu, toalha). Para isso, a mãe segurava o bebê em uma das mãos, apoiando-o pelo abdome e tronco, já que uma criança muito pequena é, em geral, ligeiramente encurvada e isso facilita a mãe segura-lo na posição descrita com uma das mãos enquanto usa a outra para pegar o objeto desejado. Assim, a criança ficava de costas para mãe.

De acordo com a literatura as brincadeiras dos filhos são momentos de constante observação, reflexão e atuação dos pais sobre as crianças(8). Mesmo de maneira não intencional, os pais observam o comportamento dos filhos, avaliam seu desenvolvimento e suas habilidades. Esta avaliação torna-se possível pelo contato visual constante, pela posição próxima e de frente com o filho. Justifica-se, assim, a maior ocorrência dessa posição durante o brincar. Tal fato torna-se marcante em virtude das mães serem HIV positivo. Elas precisam ter certeza do bem-estar do filho, de diagnóstico ainda indefinido por terem sido gerados na vigência de uma infecção ainda incurável.

Quanto à distância, é explicada pela organização do ambiente para cada cuidado. A distância sofre interferência direta do cuidado materno a ser desempenhado. No estudo ora desenvolvido, o local destinado ao ninar e alimentar era uma poltrona, onde necessariamente a mãe teria de colocar a criança em seu colo, próxima a si, para ser possível esses dois cuidados, e na qual estava a mesa onde ficavam a mamadeira e os brinquedos. Já o local de troca do bebê era um móvel cuja altura situava-se nas imediações da região pélvica da mãe. A criança ficava no meio do móvel, a certa distância da mãe que permanecia em pé e de frente para a criança. Referida posição aumentava a distância para guardar ou pegar a roupa do bebê, alcançar algum objeto. Neste caso, porém, a distância não era intencional, mas necessária para alcançar objetos. Estas distâncias, no entanto, devem ser evitadas porquanto podem provocar acidentes, como a queda.

De modo geral, o contato visual da mãe complementa o desejo de se relacionar com o filho durante seu cuidado. Pelo olhar, a mãe transmite ao filho tranqüilidade e segurança. As mães têm uma forte necessidade de ver seus filhos, olhá-los além das aparências(9).

Enquanto não for estabelecido o diagnóstico definitivo quanto à infecção, crianças nascidas de mães soropositivas para o HIV são consideradas com doença crônica(10). Isto pode demorar até dois anos(11). Nesse caso, a doença crônica do filho se constitui em importante mediador da qualidade de interação entre mãe e bebê(12). Assim, o olhar dirigido é um modo de saber se tudo acontece de maneira adequada com a criança, se ela está saudável e protegida.

Entretanto, durante o ninar, conforme previsto, em dado momento o bebê adormecerá. Cessa então o contato visual. Em virtude da quietude da criança, a mãe pode, despreocupadamente, olhar para o ambiente ao seu redor. Mencionada atitude pode explicar a ausência de contato visual na maioria das cenas do ninar.

De acordo com o divulgado(13), o tom de voz é regulado conforme a distância e a postura adotadas. No estudo ora elaborado, os dados observados confirmam essa referência. No entanto, o silêncio verificado na maior parte das cenas da troca de roupas relaciona-se ao caráter instrumental desse cuidado, como o banho, quando a mãe está mais atenta ao procedimento do que à comunicação. Ainda quanto ao tom de voz, o elevado gera desprazer em crianças pequenas(14). Assim, os ruídos interferem no sono, geram estresse, choro, fadiga e irritabilidade(9). Portanto, a predominância do silêncio durante o ninar é adequada.

No concernente ao comportamento tátil do bebê, virar-se para a mãe denota interesse pela ação de brincar. No ninar, a criança está sonolenta, assume um papel mais passivo e ocorre ausência de movimentos. Já durante o banho, de maior freqüência na categoria "vira-se para o lado oposto ao da mãe", a criança constantemente é manipulada pela mãe, inclusive de costas, em decorrência da própria técnica desse cuidado, assumindo passivamente dada posição. Ao referir-se ao tipo de toque materno em cada cuidado desempenhado, a forma comumente observada durante a troca de roupas é o toque localizado e este reforça o caráter instrumental desse cuidado. Conforme determinado pesquisador(15), a troca de fraldas não é o momento em que as mães demonstraram carinho ou outro sentimento em relação a seus filhos.

Na ótica das autoras, a filmagem poderá ter influenciado esse cuidar materno mais tecnicista. Como a troca de roupas foi o primeiro cuidado desempenhado pelo binômio, naquele momento a mãe poderia ainda estar apreensiva pelo ambiente estranho e pela presença da câmera.

Provavelmente, as mães têm medo de se expor em uma pesquisa filmada. Desse modo, influencia-se seu comportamento, pois a gravação constitui registro concreto da sua participação em estudo como soropositiva para o HIV, fato que tentam ocultar até mesmo de membros da família, em face do receio do julgamento e da exclusão social(16). Contudo, no caso do estudo em desenvolvimento, conversou-se com a mãe antes da filmagem, e esclareceram-se dúvidas, com vistas a familiarizá-la com o ambiente. Ao mesmo tempo, esclareceram-se os aspectos éticos da pesquisa o anonimato, com a finalidade de deixá-la mais tranqüila.

Quanto ao acariciar, em estudo divulgado sobre responsividade materna durante o banhar e o vestir o bebê, os autores observaram que o acariciar obteve freqüência extremamente baixa(7). Portanto, corroboram a pesquisa ora elaborada. Em contrapartida, durante o ninar, a criança freqüentemente é embalada nos braços maternos. Para o bebê, o embalo representa o movimento uterino a que estava acostumado desde a gestação. Ele tem efeito calmante(17), necessário para fazer o bebê dormir.

No cotidiano, a brincadeira é atividade lúdica na qual a mãe se envolve, principalmente com os filhos pequenos. O lúdico proporciona sorriso, alegria. Presente com maior freqüência durante o brincar, o sorriso é manifestação de alegria e satisfação por perceber que seu filho é curioso, ativo e interage com o mundo. Estes são sinais de saúde para a mãe.

 

CONCLUSÕES

A pesquisa contribuiu para o exercício do cuidar em enfermagem dos binômios mãe e filho, pontuando aspectos importantes no desenvolvimento da relação afetiva entre eles, a exemplo de uma comunicação efetiva durante o desempenho do cuidar materno.

De modo geral, durante o desempenho do cuidado materno mães utilizam a CNV para estimular e avaliar o filho, identificando sinais de saúde e normalidade.

Ao se avaliar o processo comunicativo entre mãe e filho ao longo do cuidado materno, a troca e o banho constituem atividades instrumentais com comunicação/interação deficiente, quando comparada aos outros cuidados, pois a mãe está mais atenta ao desempenho de uma tarefa que exige habilidade. Esses resultados demonstram ser necessário estimular a mãe a interagir com seu filho ao exercerem esses cuidados, promovendo, durante o banho e a troca de roupas, estímulos para o desenvolvimento infantil.

Como limitação do estudo indica-se a impossibilidade de afirmar que os diferentes aspectos da comunicação não-verbal observados no estudo ora apresentado são exclusivos de binômios cuja mãe é infectada pelo HIV.

Desta forma, sugere-se o aprofundamento do tema com o desenvolvimento de pesquisas de cunho comparativo entre cuidados de mães HIV positivo e HIV negativo, bem como investigações desenvolvidas em ambiente natural a fim de contribuir para o diagnóstico mais preciso sobre os aspectos da comunicação mãe-filho em idade precoce.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondecia:
Marli Teresinha Gimeniz Galvão
R. Marcos Macedo, 1350. Apto 702
Fortaleza (CE), Brasil. CEP: 60150-190
E-mail: marligalvao@gmail.com

Artigo recebido em 22/12/2008 e aprovado em 02/04/2009

 

 

* Trabalho extraído da dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Ceará (UFC). Pesquisa inserida em projeto subvencionado pela Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FUNCAP) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Desenvolvido no Laboratório de Comunicação em Saúde (LabCom_Saúde) da Universidade Federal do Ceará. Fortaleza (CE), Brasil.

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