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Acta Paulista de Enfermagem

Print version ISSN 0103-2100

Acta paul. enferm. vol.23 no.4 São Paulo  2010

https://doi.org/10.1590/S0103-21002010000400019 

ARTIGO DE REVISÃO

 

Utilidade da teoria de autocuidado na assistência ao portador do Vírus da Imunodeficiência Humana/ Síndrome da Imunodeficiência Adquirida

 

Utilidad de la teoría del autocuidado en la asistencia al portador del Virus de la Inmunodeficiencia Humana/Síndrome de la Inmunodeficiencia Adquirida

 

 

Léa Maria Moura BarrosoI; Daniele Mary Silva de BritoII; Marli Teresinha Gimeniz GalvãoIII; Marcos Venícius de Oliveira LopesIV

IDoutora em Enfermagem. Professora do Curso de graduação em Enfermagem da Universidade de Fortaleza - UNIFOR - Fortaleza (CE), Brasil
IIPós-graduanda ( Doutorado) em Enfermagem do Curso de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Ceará - UFC - Fortaleza (CE), Brasil; Bolsista FUNCAP
IIIDoutora em Doenças Tropicais. Professora do Curso de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Ceará - UFC - Fortaleza (CE), Brasil
IVDoutor em Enfermagem. Professor do Curso de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Ceará - UFC - Fortaleza (CE), Brasil

Autor Correspondente

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar dentro da Teoria geral de Orem, a utilidade da Teoria de Autocuidado para pacientes com Vírus da Imunodeficiência Humana/ Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (HIV/AIDS), segundo o modelo de análise de teorias
MÉTODOS: Estudo de revisão bibliográfica realizado nas Bases de Dados LILACS, MEDLINE e BDENF com as palavras-chave: autocuidado, Orem e HIV/AIDS. Adotou-se o modelo de análise da teoria de Meleis focando o componente utilidade. Foi identificado um estudo que utilizou a Teoria de Orem com pacientes portadores de HIV/AIDS.
RESULTADOS: A teoria demonstrou ser útil para orientar a sistematização da assistência de enfermagem ao portador de HIV/AIDS; construir instrumentos de avaliação e orientação; medir a qualidade da assistência; testar modelos; classificar o paciente e ajudar como apoio-educação.
CONCLUSÃO: O modelo de Meleis possibilitou compreender a utilidade da Teoria de Orem para a prática, pesquisa, educação e administração.

Descritores: Síndrome de imunodeficiência adquirida; Autocuidado; Teoria de Enfermagem


RESUMEN

OBJETIVO: Analizar dentro de la Teoría general de Orem, la utilidad de la Teoría del Auto-cuidado para pacientes con Virus de la Inmunodeficiencia Humana/Síndrome de la Inmunodeficiencia Adquirida (HIV/SIDA), según el modelo de análisis de teorías.
MÉTODOS: Se trata de un estudio de revisión bibliográfica realizado en las Bases de Datos LILACS, MEDLINE y BDENF con las palabras clave: auto-cuidado, Orem y HIV/SIDA. Se adoptó el modelo de análisis de la teoría de Meleis enfocando el componente utilidad. Fue identificado un estudio que utilizó la Teoría de Orem con pacientes portadores de HIV/SIDA.
RESULTADOS: La teoría demostró ser útil para: orientar la sistematización de la asistencia de enfermería al portador de HIV/SIDA; construir instrumentos de evaluación y orientación; medir la calidad de la asistencia; comprobar modelos; clasificar el paciente; y, ayudar como apoyo para la educación.
CONCLUSIÓN:
El modelo de Meleis posibilitó comprender la utilidad de la Teoría de Orem para la práctica, investigación, educación y administración.

Descriptores: Síndrome de inmunodeficiencia adquirida; Autocuidado; Teoría de Enfermería


 

 

INTRODUÇÃO

Verifica-se em diversas pesquisas, a reflexão sobre a aplicabilidade dos modelos e teorias de enfermagem, permitindo validar e construir novas formas de atuar na assistência de enfermagem, identificando limites e relações entre profissionais e indivíduos necessitados de cuidados.

As teorias de enfermagem expõem as tendências das visões sobre o processo saúde-doença e sobre a experiência de cuidado terapêutico; trata-se de uma conceitualização articulada e comunicativa da realidade inventada ou descoberta (fenômeno central e relacionamentos) na enfermagem com a finalidade de descrever, explicar, prever ou prescrever o cuidado de enfermagem(1).

Entendemos modelos, como referenciais conceituais, representações construídas de algum aspecto do ambiente, utilizando as abstrações como blocos embasadores. O modelo permite construir uma base mais sólida, para uma prática mais informada(2).

Na enfermagem observa-se a ampliação de publicações que versam sobre modelos e teorias, e entre elas, as mais citadas são: a Teoria de Alcance de Metas de Imogenes King, a Teoria do Cuidado Cultural de Leininger, o Modelo de Adaptação de Callista Roy, a Teoria Humanista de Paterson e Zderard e a Teoria do Déficit do Autocuidado de Orem(3).

Na busca de subsídios para melhorar a assistência à saúde, diferentes teorias e modelos são sugeridos. Diante disto, cabe aos enfermeiros desenvolverem teorias para dar sustentação a sua prática e enfocar os conceitos fundamentais da enfermagem.

Assim, com vistas à assistência de portadores do Vírus da Imunodeficiência Humana/ Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (HIV/AIDS), tem sido implementado o uso de modelos e teorias, no intuito de explanar fenômenos relacionados ao cuidado, orientar soluções que respondam às necessidades e interesses das pessoas envolvidas e instrumentalizar o enfermeiro para proporcionar ajuda ao paciente a cuidar de si, pois a AIDS é uma doença crônica que depende do cuidado pessoal do paciente para melhorar a qualidade de vida e prolongar sua sobrevida.

Por autocuidado, entende-se o desempenho ou a prática de atividades executadas pelos indivíduos em seu próprio benefício para manter a saúde, a vida e o bem-estar. Portanto, quando os pacientes apreendem as orientações e estas são seguidas, há manutenção da integridade estrutural e do funcionamento humano, situações que contribuem para o desenvolvimento e recuperação da saúde(4).

Entre os modelos e teorias de enfermagem aplicados para desenvolver cuidados de enfermagem em indivíduos com HIV/AIDS, inclui-se a Teoria de Autocuidado de Orem. Esta aplicação justifica-se por ser a AIDS uma doença caracterizada pela imunodeficiência e por comprometer o funcionamento do corpo, com consequente desvio de saúde, a depender do próprio paciente como agente ativo do autocuidado para manutenção da saúde.

Vários fatores estão relacionados a esse desvio, como: aquisição de infecções oportunistas; dificuldades tanto na manutenção da ingestão suficiente de alimentos como no equilíbrio do sono e das eliminações; náusea e/ou alteração do paladar em decorrência dos efeitos colaterais de medicamentos. Os indivíduos também apresentam perda de peso, fadiga e redução de massa muscular. Além de problemas físicos, há alterações psicológicas, como a não aceitação da autoimagem e baixa autoestima. Há mudanças no estilo de vida relacionado ao autopreconceito, retornos frequentes ao serviço de saúde e efeitos indesejados da terapêutica(5).

O modelo de autocuidado é composto de três teorias inter-relacionadas: Teoria do Autocuidado; Teoria do Déficit de Autocuidado e Teoria dos Sistemas de Enfermagem(4).

A Teoria do Autocuidado apresenta três categorias de requisitos de autocuidado ou exigências: Universal - cuidados associados a processos de vida e à manutenção da integridade da estrutura e funcionamentos humanos; De desenvolvimento - relacionado aos processos de desenvolvimento humano e eventos ocorridos durante os vários estágios do ciclo vital; Desvio de saúde - ocorre em condições de doença ou de lesão(4).

A Teoria do Déficit de Autocuidado é o núcleo da teoria geral de enfermagem(4). Segundo esta teoria, a enfermagem é exigida quando o indivíduo, na condição de dependente, quer seja de pai ou responsável, é incapaz ou tem limitações na provisão do autocuidado. Nesse caso, ele precisa de ajuda. Orem identificou cinco métodos de ajuda(4): agir ou fazer para o outro; guiar o outro; apoiar o outro (física ou psicologicamente); proporcionar um ambiente que promova o desenvolvimento pessoal quanto a tornar-se capaz de satisfazer demandas futuras ou atuais de ação e ensinar o outro.

A Teoria de Sistemas de Enfermagem detém-se nas intervenções delineadas pelo enfermeiro, que devem ser baseadas nas necessidades de autocuidado do paciente para desempenhar as atividades pessoais. Para satisfazer os requisitos, Orem identificou três classificações de sistemas de enfermagem: o sistema totalmente compensatório, o sistema parcialmente compensatório, e o sistema de apoio-educação(4).

Em seu modelo teórico(4), é apresentada também uma proposta de processo de enfermagem, com as seguintes fases: diagnóstico de enfermagem; planejamento; execução das ações e controle do sistema.

A relevância deste estudo é conhecer a contribuição da aplicação da Teoria de Orem e suas implicações na assistência, ensino e pesquisa na área de atuação do enfermeiro que cuida de pacientes com HIV/AIDS. A escolha desta teoria justifica-se, considerando-se que o cuidado pessoal é indispensável à pessoa infectada pelo HIV no dia a dia, para garantir o desenvolvimento em benefício da vida, saúde e bem-estar.

Na literatura, são crescentes as investigações que apresentam a aplicabilidade dos modelos e teorias de enfermagem, possibilitando validação e construção de novas formas de interpretar esta ciência(6). Referidas situações favorecem a melhoria da qualidade do cuidado. No Brasil, não são encontradas referências teóricas quanto a análise do uso da Teoria de Orem, na prática da enfermagem com pacientes soropositivos para o HIV. Por isso, realizamos o presente estudo com o objetivo de analisar, dentro da teoria geral de Orem, a utilidade da Teoria de Autocuidado para pacientes com HIV/AIDS, segundo o modelo de análise de teorias(1).

 

MÉTODOS

Trata-se de um estudo de análise da utilidade da Teoria de Orem, realizado, mediante utilização de um modelo de análise de teoria(1).

O modelo engloba descrição, análise, crítica, teste teórico e teste de apoio. De acordo com o modelo, a descrição pode ser feita por meio dos componentes estruturais e funcionais, enquanto a análise é definida, como um processo de identificação de partes e componentes, e a crítica é um exame ou estimativa de uma situação. O teste teórico refere-se a uma avaliação para a utilidade da teoria. Já o teste de apoio verifica alternativas de validação, em congruência com a natureza da disciplina(1).

Quanto aos aspectos propostos por Meleis(1) em seu modelo, utilizou-se, particularmente, neste estudo a crítica da teoria que objetiva estabelecer uma relação entre estrutura e função, sendo constituída de oito componentes (clareza, consistência, simplicidade e complexidade, tautologia e teologia, diagrama, círculo de contágio, utilidade e componentes externos). Para a análise da Teoria de Autocuidado de Orem, optou-se, dentre os componentes da crítica da teoria ora citados, pela análise da utilidade da teoria.

Para realizar a análise das teorias, segundo o modelo de Meleis(1), são selecionados estudos sobre o assunto para seguir as etapas de análise propostas pelo autor.

Durante o mês de junho de 2006, pesquisou-se nas bases de dados LILACS, MEDLINE e BDENF e identificou-se, por meio das palavras-chave autocuidado, Orem e HIV/AIDS, quatro artigos científicos que utilizaram a Teoria de Autocuidado de Orem em pacientes com HIV/AIDS. Mas em razão de seus resultados serem resumidos, três foram excluídos, e o quarto artigo identificado havia sido extraído de uma tese, que foi, identificada e selecionada para o estudo por apresentar como marco teórico a teoria supracitada e o conteúdo suficiente para a análise pretendida.

O artigo selecionado para a análise crítica da utilidade da Teoria do Autocuidado de Orem em pacientes com HIV/AIDS é intitulado "A prática do auto-exame ocular pelos indivíduos portadores do HIV/AIDS"(7), esta investigação testou um modelo de ensino de autoexame ocular nos portadores, embasado nos requisitos de autocuidado universal, de desenvolvimento e desvio de saúde, com fundamento na Teoria de Autocuidado(4). O estudo selecionado era do tipo convergente-assistencial, desenvolvido em 2002, em Fortaleza-Ceará, com 13 pacientes participantes de uma proposta educativa. Os pacientes foram acompanhados em oficina educativa, consulta de enfermagem, observação participante e aplicação de um instrumento de perfil de engajamento na prática do autoexame ocular(7).

Nessa pesquisa, foram identificados 26 diagnósticos de enfermagem, nos quais as principais queixas oculares foram: baixa acuidade visual, embaçamento visual, hiperemia, dor ocular, lacrimejamento, prurido, sensação de corpo estranho, perda de campo visual e olho seco. Além dos diagnósticos específicos da saúde ocular dos pacientes com HIV/AIDS, também foram identificados os requisitos universais, de desenvolvimento e desvio de saúde do paciente(7).

De acordo com o perfil de engajamento, confirmou-se que os portadores precisam de ajuda moderada a grande, para demanda de autocuidado universal, de desenvolvimento e desvio de saúde. Os resultados foram suficientes para detectar a competência dos portadores para a prática do autoexame ocular, bem como para justificar que é possível, mediante o uso do modelo de Orem, proceder à sistematização da assistência de enfermagem para o autocuidado de pacientes com HIV/AIDS(7).

A utilidade da teoria analisa seu potencial de uso da teoria na prática, pesquisa, educação e administração. Para tal, a análise do estudo empírico selecionado "A prática do auto-exame ocular pelos indivíduos portadores do HIV/AIDS"(7) foi norteada pelas seguintes questões analíticas(1): Na prática: A teoria fornece direção e organização suficiente para atingir a prática? A teoria é atual? Há relevância para a prática de enfermagem? A teoria se encaixa em termos de processo de enfermagem?; Na pesquisa: A teoria foi usada para testar proposições ou para interpretar descobertas? Podem as descobertas ser generalizadas? Existem evidências de confirmação?; Na educação: Tem potencial para guiar o currículo de enfermagem e desenvolvimento de teorias?; Na administração: Ajuda o sistema de classificação do paciente? Oferece assistência ao determinar critérios para controle de qualidade?

Depois de identificadas as questões analíticas para a análise da teoria de enfermagem do estudo empírico em discussão, a tese foi lida exaustivamente no intuito de identificar o potencial de sua utilidade para a prática, pesquisa e educação. Cada utilidade foi analisada, com base nas questões norteadoras propostas por Meleis(1).

As informações extraídas da análise foram organizadas em quatro categorias elaboradas pelo pesquisador para facilitar a discussão dos dados, assim denominadas: Utilidade da Teoria de Orem para a prática de enfermagem ao portador de HIV/AIDS; Utilidade da Teoria de Orem para a pesquisa em enfermagem, voltada ao portador de HIV/AIDS; Utilidade da Teoria de Orem para a educação em enfermagem, voltada para o portador de HIV/AIDS e Utilidade da Teoria de Orem para a administração em enfermagem, voltada para o portador de HIV/AIDS.

 

RESULTADOS

As questões analíticas elegidas para a análise da utilidade da teoria(4) para a prática, pesquisa, educação e administração de enfermagem voltadas ao portador de HIV/AIDS, são analisadss a seguir, em cada categoria de análise.

Utilidade da Teoria de Orem para a prática de enfermagem ao portador de HIV/AIDS

No estudo analisado, percebeu-se que o potencial de utilização da teoria para a prática esteve relacionado à elaboração da sistematização da assistência de enfermagem para o autocuidado de pacientes com HIV/AIDS, utilizando o processo de enfermagem(4); à possibilidade de realização do autoexame ocular pelo paciente; à identificação de atitudes e dos déficits de autocuidado de pacientes com HIV por meio dos requisitos universais, de desenvolvimento e desvio de saúde. Além disso, a teoria colaborou, como método de ajuda para o paciente.

Com base nesses resultados, pode-se afirmar que a Teoria de Orem, nesta investigação, forneceu direção e organização suficiente para a prática, funcionou como um guia para a sistematização da assistência ao portador do HIV/AIDS e para a elaboração de instrumentos de avaliação do autoexame ocular desses pacientes.

Utilidade da Teoria de Orem para a pesquisa em enfermagem, voltada ao portador de HIV/AIDS

O estudo analisado propiciou informações importantes para guiar a pesquisa em enfermagem, pois demonstrou que o uso da Teoria de Orem permitiu testar um modelo de ensino de autoexame ocular nos indivíduos portadores de HIV/aids, que poderá ser incluído no currículo de enfermagem. As descobertas do estudo foram analisadas por meio da Teoria de Orem; no entanto, há dificuldade para generalizações em virtude do reduzido número de participantes, e pela estatística ser restrita, impossibilitando a análise. Todavia, os resultados qualitativos demonstram informações suficientes para detectar a competência dos portadores de HIV/AIDS para a prática do autoexame ocular.

As proposições testadas estavam relacionadas a descobrir qual a proporção de indivíduos em estágios diferenciados de evolução da infecção pelo HIV, pela falta de diagnóstico e tratamento precoces, com alterações oculares irreversíveis e identificar a incidência de problemas oculares. Segundo confirmado, os infectados precisam de ajuda (moderada a grande) para demanda de autocuidado universal, de desenvolvimento e desvio de saúde.

Utilidade da Teoria de Orem para a educação em enfermagem voltada ao portador de HIV/AIDS

De acordo com a análise realizada, a Teoria de Orem demonstrou ser útil para a educação em enfermagem, pois no estudo ora investigado foi descrita a sistematização de enfermagem ao portador de HIV/aids com base no modelo de Orem. Ademais, os resultados obtidos foram suficientes para o enfermeiro perceber que havia uma lacuna na aprendizagem. Diante disso, foi elaborado um manual de orientação sobre o autoexame ocular, testando um modelo nos indivíduos portadores de HIV/AIDS para uso no currículo de enfermagem, embasado no sistema de enfermagem apoio-educação e método de ajuda(4).

Utilidade da Teoria de Orem para a administração em enfermagem, voltada para o portador de HIV/AIDS

Ao analisar o estudo com pacientes com HIV/AIDS que usou a Teoria de Orem, percebeu-se que as descobertas dele advindas também são aplicáveis para guiar a administração de enfermagem em serviços que atendem pessoas com HIV/AIDS. O perfil de engajamento de autocuidado do paciente com HIV para o autoexame ocular, foi identificado, com uma mensuração do alcance ou não da ação de cuidado de si.

Esta mensuração classifica o paciente quanto a seu engajamento para o autocuidado e propicia uma prática de enfermagem mais direcionada. Além disso, o instrumento possibilita medir a qualidade da assistência de enfermagem relacionada ao autocuidado, se usado como avaliação, após as intervenções de enfermagem.

 

DISCUSSÃO

Conforme se constatou, ao utilizar o processo de enfermagem de Orem, o enfermeiro pode organizar sua prática com portadores de HIV/AIDS, identificando déficits de autocuidado e diagnósticos correspondentes(5,7).

No estudo empírico selecionado para a análise crítica, foram identificados 19 diagnósticos de enfermagem, dez dos quais nos requisitos de autocuidado universal, cinco no de desenvolvimento e quatro nos de desvios de saúde. Estes diagnósticos favoreceram a sistematização da assistência de enfermagem (SAE) para esses pacientes(7).

Além de possibilitar a SAE, o uso da Teoria de Orem na pesquisa avaliada viabilizou a criação de instrumentos para o enfermeiro orientar sua prática. No mencionado estudo, dois instrumentos foram elaborados: Levantamento das demandas terapêuticas para o autoexame ocular e Perfil de engajamento na proposta de educação para o autoexame ocular(7).

Quanto à atualidade da teoria, pode-se confirmá-la, pois o conceito de autocuidado de Orem foi publicado pela primeira vez em 1965(5), sendo aplicado hoje em diversas pesquisas na área de enfermagem. Entre estas, mencionam-se as seguintes: com hipertensos(8), gestantes(9), com adolescentes(10), inclusive, com HIV/AIDS(11-12), obtendo-se resultados significativos para a assistência de enfermagem.

Estudo que utilizou como referencial teórico o modelo conceitual de Orem para subsidiar a trajetória do processo de enfermagem para uma pessoa infectada pelo HIV, demonstrou ter havido aproximação entre teoria e prática, pois o processo de enfermagem pode ser implementado em todas as etapas(11).

Em corroboração a esses dados, ao utilizar o modelo teórico de Orem, determinados pesquisadores o consideraram-no fundamental para auxiliar e promover a prática do autocuidado em mulher portadora do HIV/AIDS, por proporcionar ao enfermeiro suporte para ajudar a paciente a realizar seu próprio cuidado(4).

Além disso, diferentes estudos(5,11-12) demonstram a relevância da teoria para a prática e ainda evidenciam sua utilidade para elaborar a SAE e instrumentos de autocuidado para a atuação de enfermagem com pacientes com HIV/AIDS.

Diante disto, segundo se percebe, a Teoria de Orem adequou-se ao processo de enfermagem. Ela possui etapas que possibilitam a identificação de atitudes e dos déficits de autocuidado de pacientes com HIV/AIDS, além de intervenções. As etapas do processo foram seguidas pelo estudo selecionado(7) nesta investigação. Identificaram-se, demandas de autocuidado e elaboraram-se 19 diagnósticos com suas respectivas metas, objetivos, sistema de enfermagem e intervenções (métodos de ajuda)(4).

Para a pesquisa em enfermagem com portadores do HIV, a Teoria de Orem mostrou-se fundamental, visto que pesquisadores, professores e instituições de pesquisa a utilizam e obtêm resultados significativos.

Estudo de caso realizado em um hospital escola localizado na região metropolitana de São Paulo, em novembro de 2003, utilizando a Sistematização da Assistência de Enfermagem demonstrou ser possível considerar que o uso da Teoria do Autocuidado de Orem é um instrumento válido, que ajudou a promover uma comunicação mais objetiva entre pesquisadores e pesquisado, adequando o planejamento da assistência de enfermagem ao paciente infartado portador de HIV(13).

Para o planejamento da assistência, as metas e os objetivos priorizam ações de apoio-educação com vistas ao engajamento do portador do HIV/AIDS ao autocuidado, como já observado em outros estudos com a teoria(5,14).

Investigação que objetivou aplicar a Teoria do Autocuidado de Orem na assistência a paciente portadora de ostomia utilizou o cuidado domiciliário, baseado no sistema de apoio-educação e permitiu a promoção da saúde e percepção da importância da paciente no cuidado, concluindo que a Teoria de Orem possibilita o cuidado e a comunicação terapêutica adequada para a situação da paciente(15).

Considera-se que todos estes achados confirmam a importância da Teoria de Orem para guiar o currículo de enfermagem. Portanto, é possível incluir estes instrumentos, elaborados na pesquisa analisada, nas disciplinas de graduação em enfermagem. Os resultados também podem contribuir para o desenvolvimento de outras teorias voltadas a essa clientela.

A implementação da SAE ao portador do HIV/AIDS poderá subsidiar as instituições interessadas em implementar o diagnóstico de autocuidado aos portadores da infecção, com intuito de melhorar a administração em serviços de saúde. A SAE vem sendo desenvolvida por enfermeiros, sendo considerada um importante instrumento norteador da assistência, do ensino, da pesquisa e da administração em enfermagem. Diversos serviços de saúde têm implementado a SAE, baseados na Teoria de Orem para melhorar a assistência(5,14).

 

CONCLUSÕES

Com a aplicação do modelo de análise crítica das teorias de Meleis, foi possível descobrir a utilidade da Teoria do Autocuidado de Orem para a prática, pesquisa, educação e administração voltada a portadores da infecção pelo HIV/AIDS.

O potencial de utilização da teoria para a prática esteve relacionado à elaboração da sistematização da assistência de enfermagem para o autocuidado de pacientes com HIV/AIDS, utilizando o processo de enfermagem proposto por Orem e ainda a criação de instrumentos de avaliação desses pacientes.

Quanto à utilidade para a pesquisa, a investigação demonstrou ser possível utilizar a Teoria de Autocuidado de Orem para testar modelos para indivíduos portadores de HIV/AIDS. Além disso, propiciou descobertas e confirmações e abriu espaço para outros pesquisadores.

A utilidade para a educação é comprovada pelo apoio-educação que a teoria pode oferecer. Complementarmente, métodos de ajuda foram desenvolvidos, além de um manual de orientação ao portador de HIV/AIDS.

A Teoria de Orem comprovou ser útil para a administração em enfermagem ao paciente com HIV/AIDS, classificou-se o paciente quanto a seu engajamento para o autocuidado e criaram-se instrumentos que podem medir a qualidade da assistência de enfermagem a esse grupo de pacientes. A implementação da Sistematização da Assistência de Enfermagem ao portador do HIV/AIDS é outro recurso indispensável para o enfermeiro administrar serviços que cuidam dessas pacientes.

Como sugestão, outros estudos que analisem uma amostra maior de teses ou artigos devem ser realizados. Os serviços de assistência aos pacientes soropositivos para o HIV, bem como os cursos de enfermagem devem incluir em suas atividades a Teoria de Autocuidado de Orem para subsidiar a prática, pesquisa, educação e administração.

 

REFERÊNCIAS

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Autor Correspondente:
Léa Maria Moura Barroso
R. Amélia Benebién, 282 - casa 107 - Papicu
Fortaleza - CE - Brasil - Cep: 60020-181
E-mail: leammbarroso@gmail.com

Artigo recebido em 22/07/2009 e aprovado em 11/04/2010

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