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Acta Paulista de Enfermagem

Print version ISSN 0103-2100

Acta paul. enferm. vol.23 no.5 São Paulo Sept./Oct. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-21002010000500015 

ARTIGO ORIGINAL

 

História reprodutiva de mulheres laqueadas*

 

Historia de la reproducción de mujeres con ligadura de trompas

 

 

Ana Izabel Oliveira NicolauI; Maria Leonor Costa de MoraesII; Diego Jorge Maia LimaIII; Priscila de Souza AquinoIV; Ana Karina Bezerra PinheiroV

IPós-graduanda (Mestrado) em Enfermagem pela Universidade Federal do Ceará - UFC - Fortaleza (CE), Brasil. Professora Auxiliar I da Universidade Federal do Piauí - UFPI - Teresina (PI), Brasil
IIPós-graduanda (Mestrado) em Enfermagem pela Universidade Federal do Ceará - UFC - Fortaleza (CE), Brasil
IIIAcadêmico em Enfermagem pela Universidade Federal do Ceará - UFC - Fortaleza (CE), Brasil. Bolsista do Programa de Educação Tutorial (PET)/Sesu
IVPós-graduanda (Doutorado) em Enfermagem pela Universidade Federal do Ceará - UFC - Fortaleza (CE), Brasil. Professora Assistente I da Universidade Federal do Piauí - UFPI - Teresina (PI), Brasil
VDoutora em Enfermagem, Professora Adjunto III e Vice-coordenadora do Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Ceará - UFC - Fortaleza (CE), Brasil

Autor Correspondente

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Investigar o perfil obstétrico de mulheres laqueadas e a existência de associação com variáveis sóciodemográficas e sexuais.
Métodos:
Estudo quantitativo, retrospectivo e documental, desenvolvido em um Centro de Parto Natural em julho de 2008, na cidade de Fortaleza-CE. A amostra foi composta por 277 prontuários de usuárias laqueadas.
RESULTADOS: Houve alto número de gestações associado à baixa escolaridade, início precoce da vida sexual e escassa utilização pregressa de métodos contraceptivos reversíveis, alta freqüência de partos cesarianos e abortos.
CONCLUSÃO: O perfil encontrado reafirma a necessidade de fortalecer as orientações e a troca de informação no planejamento famíliar entre profissionais de saúde e a população atendida, estimular a participação masculina e garantir o acesso aos diversos métodos contraceptivos.

Descritores: Esterilização tubária; Planejamento familiar; Perfil de saúde 


RESUMEN

OBJETIVO: Investigar el perfil obstétrico de mujeres con ligadura de trompas y la existencia de asociación con variables socio-demográficas y sexuales.
MÉTODOS: Se trata de un estudio cuantitativo, retrospectivo y documental, desarrollado en un Centro de Parto Natural, en julio de 2008, en la ciudad de Fortaleza-CE. La muestra fue composta por 277 fichas médicas de pacientes que hicieron ligadura de las trompas.
RESULTADOS: Hubo un alto número de gestaciones asociadas a: baja escolaridad, inicio precoz de la vida sexual, escasa utilización anterior de métodos contraceptivos reversibles, y alta frecuencia de partos por cesárea y abortos.
CONCLUSIÓN:
El perfil encontrado reafirma la necesidad de: fortalecer las orientaciones y el intercambio de informaciones en la planificación familiar entre profesionales de la salud y la población atendida; estimular la participación masculina; y, garantizar el acceso a los diversos métodos contraceptivos.

Descriptores: Esterilización tubaria; Planificación familiar; Perfil de salud


 

 

INTRODUÇÃO

No Brasil, a contracepção é resultado de um longo processo de luta almejado, especialmente, pela população feminina, a fim de desvincular a maternidade do desejo e da vida sexual(1). O processo culminou no estabelecimento dos serviços de planejamento familiar, cuja efetivação ocorreu a partir, de 1983, com a criação do Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher pelo Ministério da Saúde. Esse Programa foi considerado um marco histórico das políticas de gênero no País, pois inseriu uma nova abordagem à saúde da mulher, incluiu questões relativas ao planejamento familiar e adotou políticas e medidas de acesso da população aos meios de contracepção(2).

A concepção é produto da relação homem e mulher. Assim, espera-se que a contracepção seja uma decisão dos parceiros igualmente envolvidos nessa interação. Na realidade brasileira, a mulher lida com contracepção em um contexto de escassa ou quase nula participação masculina, exercendo, muitas vezes, mais um papel de objeto do que sujeito de sua história sexual e reprodutiva(3).

Tal assertiva pode ser evidenciada pela alta frequência do uso de dois métodos contraceptivos femininos: a laqueadura tubária (LT) e o anticoncepcional hormonal oral, que juntos respondem por 60% dos métodos usados por mulheres entre 15 e 49 anos(4). Em 1996, 40,1% das mulheres unidas haviam realizado a LT; já, em 2006, esse índice caiu para 36,7%, representando baixa queda para o período, fato que mantém o Brasil como um dos países com maiores índices de esterilização feminina do mundo(5-6).

A laqueadura sempre provocou polêmica por envolver aspectos políticos, éticos, religiosos, demográficos e sociais(6).O método cirúrgico tem sido bastante debatido em razão de seu impacto populacional, e sua prevalência foi apontada como principal causadora do arrefecimento na taxa de crescimento populacional entre as décadas de 1960 e 1990(7). Estudos apontam que mulheres laqueadas apresentam maior número de gestações e, por isso, elegem a esterilização, o que denota que a queda da fecundidade no Brasil está relacionada a outros fatores da vida reprodutiva da população(8-10).

Na maioria das vezes, a esterilização como método contraceptivo não se traduz em uma escolha ou opção, mas em falta de escolha, imposta pelas circunstâncias vividas e pela indisposição de continuar a contracepção de forma solitária, sem a colaboração do parceiro(3,11). A imposição do papel reprodutivo à mulher, bem como a culpa pelos insucessos provocam sentimentos de incapacidade pessoal, quando não se consegue controlar esse aspecto da vida(8). Dessa forma, o método cirúrgico passa a ser percebido como consequência de uma história reprodutiva diferenciada, marcada pela alta taxa de fertilidade e dificuldades nas decisões contraceptivas e não como método modificador dessa história.

Tendo em vista a existência de outros fatores que interferem na decisão de realização da LT, e a necessidade de elucidação da influência dos aspectos econômicos e sexuais nessa escolha, decidiu-se realizar este estudo com o objetivo de investigar o perfil obstétrico de mulheres laqueadas e a existência de associação com variáveis sóciodemográficas e sexuais.

Uma vez que haja esclarecimento sobre os fatores mais relacionados às mulheres que optaram por realizar a LT, os enfermeiros poderão contribuir mais para uma escolha segura, embasada e orientada. Conhecer a clientela de maior adesão à LT poderá facilitar a atuação dos profissionais de enfermagem na reorientação da dinâmica de atendimento em planejamento familiar, uma vez que o profissional poderá identificar mais facilmente as mulheres predisponentes a essa escolha e fornecerá subsídios para o fortalecimento dos direitos sexuais e reprodutivos nessa população, para que não haja uma escolha contraceptiva precipitada sem o conhecimento e a clareza necessários.

Ademais, os resultados evidenciarão o contexto reprodutivo das mulheres esterilizadas, revelando uma situação diagnóstica que facilitará a condução de estratégias para a promoção da saúde dessa clientela.

 

MÉTODOS

Estudo quantitativo, retrospectivo, documental, desenvolvido no Centro de Parto Natural Lígia Barros Costa (CPN), unidade de atenção primária à saúde, localizada em Fortaleza-CE. Tal serviço oferece atendimento específico de enfermagem no acompanhamento pré-natal e prevenção do câncer de colo uterino.

Foi investigado o tipo de método contraceptivo registrado nos prontuários utilizados nas consultas de enfermagem em ginecologia, datados de abril de 2005 a junho de 2008, contabilizando 1.423. Dos prontuários existentes, 237 não empregavam métodos contraceptivos, sendo utilizados por 909 pacientes. Diante dessa parcela, 277 registros eram de usuárias laqueadas, compondo a amostra do estudo. A coleta de dados foi realizada em julho de 2008. O instrumento de coleta seguiu o roteiro empregado nas consultas de enfermagem em ginecologia, que contemplam dados de identificação sóciodemográfica e de histórias sexual e reprodutiva. Utilizou-se o programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 14.0, para a análise dos dados.

A primeira etapa de explicitação dos resultados consistiu na descrição das frequências absolutas e relativas, médias e desvio-padrão encontrados, alocados em tabelas. Na segunda etapa, foram investigadas associações entre os dados sóciodemográficos, sexuais e obstétricos, utilizando-se as ferramentas estatísticas: teste Qui-quadrado de Pearson e correlação de Pearson/Spearman. Tais associações são consideradas estatisticamente significativas quando o valor de p (probabilidade) for menor ou igual a 0,05 nos testes realizados(12).

Os aspectos éticos que envolvem as pesquisas com seres humanos foram respeitados, segundo a Resolução nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde(13), uma vez que informações contidas nos prontuários dos pacientes foram coletadas, mantendo-se seu anonimato. Após a autorização para a realização da pesquisa no local, o projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Ceará, sob protocolo nº 315/05.

 

RESULTADOS

Para caracterizar as mulheres estudadas, foram descritas as variáveis referentes à idade, nível de escolaridade e estado civil, dispostas nos dados da Tabela 1. alienta-se que a ausência de informações em alguns dos 277 prontuários investigados explica a variedade do total das variáveis demonstradas.

 

 

Todas as 277 participantes eram maiores que 21 anos e apresentavam média de idade de 40,19 anos. Ressalta-se que 81 (29,2%) mulheres ainda estavam no período de alta fertilidade, isto é, abaixo dos 35 anos. Ao investigar a idade da realização da LT nessas 81 mulheres, 14 (17,3%) foram identificadas como laqueadas com menos de 25 anos e quase metade, 38 (47%), foi esterilizada até os 30 anos. A ausência do registro dessa informação nos 196 prontuários remanescentes enfraquecem a capacidade de inferência nas associações que consideram a idade de realização da laqueadura.

No referente ao nível de escolaridade, 164 (76,6%) informantes possuiam até o ensino fundamental completo, e 27 (12,6%) eram não letradas. Quanto à situação conjugal, a maioria, 167 (71,7%), citaram viver com seus parceiros, sendo casadas ou unidas consensualmente. Os dados relativos ao perfil obstétrico das participantes estão na Tabela 2. O valor total das variáveis se diferenciou de 277 pela falta de informação contida em alguns prontuários.

 

 

 

Dos prontuários analisados, 274 continham informações sobre a história obstétrica. Desses, o número de gestações variou de 1 a 12, com o predomínio, 139 (50,7%), de três a quatro gestações. Além disso, 89 (32,5%) mulheres gestaram cinco vezes ou mais e apenas 46 (16,8%) experienciaram menos de três gravidezes. O total de gestações contabilizou 1.117, com média de 4,08 gravidezes por mulher.

O tipo de parto mais vivenciado foi o normal, de modo que 201 (72,5%) informantes relataram a experiência de partos por via vaginal. Dentre estes, foram contabilizados de 1 a 12 partos naturais, com intervalo mais frequente de um a quatro, em 163 (81%) mulheres. O parto fórceps correspondeu a 20 (3,15%) do total de partos vaginais.

No concernente ao parto cesariano, este foi experienciado por 168 (60,6%) mulheres, com variação de um a quatro partos. Mais da metade das mulheres, 98 (58,4%), submeteu-se uma única vez ao parto cirúrgico, 44 (26,1%) duas vezes; 25 (14,9%) três vezes e apenas uma (0,6%) o vivenciou quatro vezes. O número total de partos cirúrgicos foi de 265, com média de 1,05 partos por mulher, ao passo que o parto normal contabilizou 635, com média de 2,51 partos por informante, o que denota uma frequência 2,3 vezes maior que o cirúrgico. A média total dos partos foi de 3,5 por mulher.

Quase metade das informantes esterilizadas, 111 (40,1%), possuía história de aborto, totalizando 166 perdas obstétricas. A maioria, 77 (69,4%), vivenciou abortos isolados, apresentando média de 1,5 abortos por informante.

No referente ao desfecho do total de gestações (1.117), 265 (23,7%) foram concluídas por meio da cesariana, 635 (56,9%) por partos normais e 166 (14,8%) finalizaram com o aborto. Houve perda amostral de cerca de 5% dessas informações.

As variáveis contínuas idade e número de gestações apresentaram correlação de Pearson/Spearman significativa (p=0,000) e positiva (r= 0,407), ou seja, conforme aumenta a idade, aumenta o número de gestações. Dentre as mulheres que gestaram mais de seis vezes, 29 (10,6%), eram maiores de 35 anos. Mais da metade das mulheres acima de 35 anos, 25 (52%), nunca utilizou qualquer contraceptivo pregresso, fato que ocorreu em 14 (70%) mulheres acima dos 45 anos. Em suma, 14 (80%) mulheres que gestaram mais de seis vezes nunca utilizaram qualquer método contraceptivo. Dentre as mulheres na faixa etária até 30 anos, 29 (66%) gestaram de três a quatro vezes, sendo 4 (80%) menores de 25 anos, fato que denota uma alta taxa de fecundidade também entre mulheres jovens.

Os dados da Tabela 3 mostram associação significativa entre gestações e escolaridade. Entre as analfabetas, 18 (66%) vivenciaram mais de três gestações, com queda para 95 (58%), entre as que possuíam até o ensino fundamental e 15 (30%) entre as mais instruídas.

 

 

A correlação de Pearson e Spearman entre as variáveis contínuas, início da vida sexual e gestações, apresentou-se significativa (p=0,000), com correlação negativa (r= - 0,289), ou seja, conforme aumenta a idade de início da vida sexual, diminui o número de gestações. Observou-se que, 181 (83,4%) mulheres que gestaram três vezes ou mais, iniciaram sua vida sexual na adolescência.

A correlação gestações e idade da laqueadura mostrou-se significativa (p= 0,002), seguindo uma característica positiva (r=0,349). Entre as participantes que tiveram mais de quatro gestações, 16 (69,5%) esterilizaram-se após os 30 anos de idade. Entre aquelas com números inferiores de gestações, 31 (56,36%) fizeram a laqueadura até os 30 anos e 24 (43,6 %) antes dos 28 anos.

A avaliação do período reprodutivo, entre a coitarca e a idade da laqueadura, contabilizou um mínino de 2 anos e máximo de 26, com média de 13,16 anos. Enfatiza-se que 22 (30,1%) mulheres tiveram menos de 10 anos disponíveis à procriação.

Na relação gestações e tempo de vida reprodutiva, encontrou-se uma correlação positiva significativa (r=0,077, p=0,000). Mulheres que tiveram apenas 4 anos para procriação obtiveram em média uma gestação a cada 1,45 anos. Aquelas que apresentaram de 5 a 7 anos de vida reprodutiva, apresentaram média de uma gestação a cada 2,3 anos, e essa média foi de uma a cada 3,25 anos entre as que tiveram de 8 a 10 anos de vida reprodutiva.

Outros dados apresentados consistem que cinco mulheres que permaneceram com condições de procriar por apenas dois a cinco anos vivenciaram até três gestações. Entre aquelas com intervalo de tempo mais prolongado, de seis a nove anos, 12 (75%) obtiveram esse mesmo número de gestações, enquanto 29 (60,4%) mulheres que apresentaram maior período disponível à procriação gestaram mais de três vezes. Essas encontram-se na Tabela 4.

 

 

Acrescenta-se que o curto período de vida reprodutiva esteve associado (teste Qui-quadrado/ p=0,000) com a menor idade de realização da laqueadura, sobretudo entre mulheres que iniciaram a vida sexual mais tarde. O grupo com menor período de vida reprodutiva (dois a cinco anos), iniciou a vida sexual mais tardiamente, porém encerrou sua vida reprodutiva precoce, possivelmente, como solução para seu alto índice de fecundidade, uma vez que apresentou o menor espaçamento entre as gestações (uma gravidez a cada 1,45 anos).

A correlação entre número de gestações e o tipo de parto mostrou-se significativa (p=0,02 cesariano/ p=0,000 normal), negativa para o cesariano (r= - 0,144) e positiva para o normal (r=0,804). Dessa forma, à medida que aumenta o número de gestações, diminui a quantidade de partos cesarianos, correlação contrária ao associar com partos normais.

Houve correlação positiva (r= 0,284) significativa entre o número de abortos e a idade da esterilização, dados apresentados na Tabela 5. Quase metade das mulheres que nunca sofreu abortos, 21 (42,8%), realizou a esterilização até os 27 anos. Esse número diminui para 4 (19%), entre as que sofreram apenas um aborto.

 

 

DISCUSSÂO

Quando comparadas à população geral, as mulheres esterilizadas compõem uma parcela de menor nível educacional. Há uma relação inversa entre a porcentagem de mulheres laqueadas e sua escolaridade(14), situação que demonstrada na amostra estudada.

Dados sobre relações maritais na parcela feminina laqueada evidenciaram que o tempo e a idade com que iniciaram a convivência com o companheiro atual estão associados ao fato da mulher ser laqueada. Ademais, são casadas e apresentaram relações maritais mais estáveis que as não esterilizadas(8). Semelhante à literatura, o estudo mostrou predominância de mulheres casadas ou unidas consensualmente.

Na pesquisa realizada, o total de gestações contabilizou 1.117 e apresentou média de 4,08 gravidezes/mulher. Pesquisa desenvolvida em Ribeirão Preto (SP) com 235 laqueadas, bem como estudo documental com 95 prontuários de candidatas à LT na mesma cidade, encontraram média de gestações semelhantes à do presente estudo, com predomínio três gestações ou mais, e total de gravidezes superior ao das mulheres não esterilizadas(9-10). Esses dados expressam a alta taxa de fecundidade dessas mulheres, inferindo que a esterilização cirúrgica é considerada não como uma opção contraceptiva, mas a solução das preocupações com futuras gravidezes indesejadas. A média encontrada foi superior aos achados da Pesquisa Nacional sobre Demografia e Saúde, que denota queda da taxa de fecundidade das nordestinas, de 3,1 para 1,8 filhos, entre 1996 e 2006(5).

O parto por via vaginal foi o mais vivenciado pelas participantes do estudo, apresentando uma média 2,3 vezes maior que o cirúrgico. Parte de uma pesquisa multicêntrica realizada com 433 mulheres na cidade de Natal-RN durante a gestação e posteriormente, no puerpério concluiu que a minoria desejosa pelo parto cesáreo concentra- se entre multigestas, cujo maior argumento é o desejo pela LT(15). A fim de desvincular a LT das cesarianas, a Portaria n.º 48 de fevereiro de 1999, proibiu a realização da esterilização no parto ou aborto, exceto nos casos de comprovada necessidade. Ademais, prevê fiscalização e controle pelo Sistema Único de Saúde das instituições que realizam planejamento familiar(16).

A alta frequência de aborto foi atenuada pelo maior número de abortos isolados. A média encontrada de 1,5 abortos por mulher foi idêntica à encontrada em estudo realizado na cidade de Ribeirão Preto (SP) com 235 mulheres que se submeteram à LT(17). Esse baixo índice pode ser explicado pelo fato de que mulheres com atitudes mais negativas quanto ao aborto tendem a esterilizar-se mais jovens, além da presença de um ou mais abortos conferir proteção à realização da LT(18). Desde 1985, a Organização Mundial de Saúde estabeleceu uma taxa máxima do parto cesariano de 15%, portanto, apesar da prevalência do parto vaginal, a representatividade dos cesarianos (23,7%) mostrou-se acima do recomendado(19).

Mulheres mais maduras utilizaram menos métodos contraceptivos e gestaram mais vezes. Há relação direta entre proporção de laqueadas, filhos vivos e idade: quanto maior a idade maior o número de filhos vivos e maior a porcentagem de LT(17).

Uma possível explicação é o fato da antiga geração feminina corresponder à população com maior idade, menor escolaridade e menor uso de contraceptivos. Dentre as explicações para a queda da fecundidade no Brasil, estão a mudança do cenário econômico brasileiro, inserção da mulher no mercado de trabalho, aumento do acesso à informação e métodos reguladores da fecundidade, bem como aumento do nível educacional dos brasileiros, especialmente, das mulheres(20).

O presente estudo revelou uma alta taxa de fecundidade, apesar da utilização de meios para diminuí-la. Investigação descritiva e qualitativa com 31 laqueadas analisou suas experiências contraceptivas e revelou a busca por um método que proporcionasse alta eficácia, inocuidade à saúde, fácil uso, aceitabilidade aos costumes e ausência de resistências pelo parceiro, sendo a expectativa mais intensamente associada à LT(21).

Há forte associação entre paridade e escolaridade, sendo majoritário o número de primíparas (81%) entre as mulheres de maior nível educacional(15). Quanto menor a escolaridade maior será a prole(17). Foram contabilizadas mais gestações entre mulheres de mais idade, menor instrução e menor uso pregresso de contraceptivos reversíveis.

A correlação negativa entre coitarca e gestações confirma a importância da prática de estratégias educativas em planejamento familiar na população adolescente. No Brasil, considerando-se o total de filhos das mulheres em idade fértil, aumentou o percentual de filhos das jovens entre 15 e 19 anos nesse total(22).

Gestações e idade da LT correlacionaram-se positivamente, fato que confirma os achados de um estudo, no qual mulheres com menos filhos fizeram a esterilização mais jovens e possuíam maior escolaridade(15). Ressalta-se que mulheres que se esterilizam antes dos 35 anos, têm 17 vezes mais chances de arrepender-se. Já nas que tiveram até duas gestações, esse risco é de 15 vezes(18).

Os diferentes perfis demográficos e socioeconômicos influenciam no espaçamento das gestações, sendo prováveis fatores interferentes, como a idade da mulher à época do nascimento de cada filho, o número de filhos que já possui, escolaridade, condição social, participação na força de trabalho e local de residência. As mulheres mais jovens têm maior probabilidade de ter seu próximo filho dentro de três anos. Em 50 países, 60% ou mais das mulheres de 15 a 19 anos exibem intervalos inferiores a três anos entre um filho e outro(23).

A ocorrência de aborto protelou a idade da LT. A presença de um ou mais abortamentos mostrou-se, como fator de proteção à laqueadura(14). O desejo de conceber pode ter influenciado o momento da decisão pelo método cirúrgico, protelando a idade da esterilização pelas tentativas sucessivas de engravidar.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As características sóciodemográficas encontradas mostraram-se semelhantes às de outras investigações com mulheres laqueadas, compondo uma população, em sua maioria, unida maritalmente e com baixo nível de escolaridade. O achado ratifica a importância do fortalecimento de estratégias educativas em planejamento familiar com casais que almejam esse método, para que haja uma escolha contraceptiva adequada e consciente das consequências e dos aspectos envolvidos.

A história obstétrica evidenciou uma alta média de gestações, favorecida pela escassa utilização pregressa de métodos contraceptivos reversíveis e início precoce da vida sexual, alta frequência de abortos e partos cesarianos, apesar da prevalência de partos vaginais. Percebe-se que a escolha por um método cirúrgico foi o desfecho de uma trajetória ginecológica e obstétrica diferenciada, marcada por questões de gênero no planejamento familiar, pouco esclarecimento e experiência dos meios de conduzir com autonomia sua vida sexual e reprodutiva. Ademais, a população estudada representou um grupo de mulheres pouco contempladas pelo planejamento familiar, evidenciado pela baixa utilização pregressa de métodos reversíveis, restrita diversidade e alta taxa de gestações, mesmo nas que experimentaram algum contraceptivo.

A correlação existente entre a idade precoce da coitarca e o maior número de gravidezes denota a necessidade de disseminação de informações sobre planejamento familiar e promoção da saúde sexual nos espaços ocupados pelos adolescentes, para que, futuramente, não se deparem com situações não planejadas que as conduzam a escolhas precipitadas.

Diante dos achados, concluiu-se que as peculiaridades do grupo estudado ratificaram a necessidade de estratégias capazes de empoderar essas mulheres em suas decisões a respeito do planejamento familiar, respeitando o princípio da autonomia. Mas, para que essa mulher opte pelo método contraceptivo mais adequado, é necessário que os serviços de planejamento familiar disponibilizem outras opções, com garantia de continuidade do método selecionado.

Assim, conhecer os fatores que influenciam a decisão pela LT é de suma importância para adoção de estratégias de orientação e aconselhamento às mulheres mais suscetíveis a essa decisão. Ademais, faz-se relevante a realização de novas investigações sobre os motivos de adesão ao método, a fim de embasar os achados da literatura e redirecionar com mais propriedade as consultas de enfermagem em planejamento familiar, garantindo uma escolha livre e consciente.

 

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Autor Correspondente:
Ana Izabel Oliveira Nicolau
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Artigo recebido em 16/07/2009 e aprovado em 16/06/201

 

 

* Trabalho realizado no Centro de Parto Natural Lígia Barros Costa (CPN), em julho de 2008, na cidade de Fortaleza-CE.

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