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Acta Paulista de Enfermagem

Print version ISSN 0103-2100

Acta paul. enferm. vol.23 no.6 São Paulo  2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-21002010000600006 

ARTIGO ORIGINAL

 

Capacitação de profissionais da atenção primária à saúde para educação em Diabetes Mellitus*

 

Capacitación, de profesionales que actúan en la atención primaria a la salud, en educación en Diabetes Mellitus

 

 

Heloisa de Carvalho TorresI; Marta Araujo AmaralII; Maria Marta AmorimIII; Antonio Pithon CyrinoIV; Regina BodsteinV

IPós Doutora. Professora do Departamento de Enfermagem Aplicada da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG- Belo Horizonte (MG), Brasil
IIDoutora. Professora do Departamento Materno Infantil da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG- Belo Horizonte (MG), Brasil
IIINutricionsta. Pós-graduanda (Doutorado) da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG- Belo Horizonte (MG), Brasil
IVDoutor, Professor do Departamento de Saúde Pública da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual "Julio de Mesquita Filho" - UNESP - Botucatu (SP), Brasil
VPós doutora. Professora da Escola Nacional de Saúde Pública-Fundação Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro(RJ),Brasil

Autor Correspondente

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Apresentar o delineamento das oficinas educativas em Diabetes Mellitus e uma estratégia avaliativa voltada à atualização dos profissionais de saúde da atenção primária.
MÉTODOS: As oficinas foram implementadas, utilizando metodologia participativa, técnicas lúdicas, vivências e dinâmicas de grupo, envolvendo a participação de 85 profissionais de saúde das Unidades Básicas de Saúde de Belo Horizonte/MG. Os conhecimentos sobre a doença e as competências requeridas para o autocuidado foram aferidos mediante a aplicação de instrumento especifico. As oficinas foram avaliadas com base em instrumento próprio.
RESULTADOS: Foram observadas limitações no conhecimento dos profissionais centrados na fisiopatologia e nos exames complementares da doença. As oficinas contribuíram para o despertar do potencial reflexivo, crítico e criativo dos profissionais para a mudança no processo educativo. Foi considerada uma estratégia pedagógica, de fácil compreensão, interativa e lúdica.
CONCLUSÕES: As oficinas contribuíram para o planejamento do processo educativo e a estruturação de um modelo de avaliação das práticas de promoção, da saúde e educação em Diabetes.

Descritores: Formação de recursos humanos; Educação em saúde; Atenção primária à saúde; Diabetes Mellitus


RESUMEN

OBJETIVO: Presentar el proyecto de talleres educativos sobre diabetes y una estrategia de evaluación dirigida a la actualización de los profesionales de la salud en la atención primaria.
MÉTODOS: Los talleres se llevaron a cabo utilizando la metodología participativa, las técnicas de juego, las experiencias y dinámicas de grupo, con la participación de 85 profesionales de la salud de las Unidades Básicas de Salud de Belo Horizonte, MG. El conocimiento sobre la enfermedad y las habilidades necesarias para el autocuidado fueron evaluados mediante la aplicación de instrumentos específicos. Los talleres fueron evaluados con base en instrumento propio.
RESULTADOS: Se encontraron limitaciones en el conocimiento de los profesionales centrados en la fisiopatología y en las pruebas complementarias de la enfermedad. Los talleres ayudaron a despertar el potencial de reflexión, de crítica y de creatividad de los profesionales, que se necesita para cambiar el proceso educativo. Fue considerada una estrategia pedagógica, fácil de entender, interactiva y lúdica.
CONCLUSIONES: Los talleres contribuyeron para la planificación del proceso educativo y la estructuración de un modelo de evaluación de las prácticas de promoción de la salud y de la educación en diabetes.

Descriptores: Formación de recursos humanos; Educación em salud; Atención primaria de salud; Diabetes Mellitus


 

 

INTRODUÇÃO

O objeto deste estudo foi o de apresentar o desenvolvimento de oficinas de formação de profissionais da atenção primária à saúde, para a educação em Diabetes Mellitus, de modo a atualizar seus conhecimentos sobre a doença e os hábitos de vida saudável, requeridos no tratamento da doença. De forma complementar, autores(1-3) observam que a atuação dos profissionais de saúde na orientação do manejo de autocuidado da doença é compreender e avaliar o indivíduo, proporcionando apoio emocional, clínico, conhecimentos e habilidades para alcance dos objetivos, ajudando-os a descobrir e desenvolver a autonomia para serem responsáveis pelo controle de sua doença. No entanto, os profissionais da atenção básica à saúde que, na maioria das vezes, por iniciativa própria, desenvolvem ações educativas voltadas aos usuários, ressentem-se da falta de capacitação, quando o tema em questão é educação em Diabetes(2-3).

O Ministério da Saúde propôs a capacitação dos profissionais da rede básica no Plano de Reorganização da Atenção à Hipertensão Arterial Sistêmica e o Diabetes Mellitus (DM)(2), considerando a lacuna de conhecimento que foi detectada nos profissionais que assumiam o processo educativo dessa clientela. Além disso, foi observada a necessidade de formação do pensamento crítico e emancipatório dos profissionais de saúde, de forma a procurarem uma comunicação aberta e interativa com os usuários, levando-os a adquirirem conhecimentos e habilidades, e permitindo-lhes fazer algo para melhorar a educação do autogerenciamento dos cuidados da doença(1-3). Autores(2-4), reforçam que essa comunicação facilita o exercício da prática do profissional e uma efetiva educação dos usuários para o autocuidado e autocontrole das condições de cronicidade, como o DM.

Nesse sentido, as ações educativas realizadas na perspectiva dialogal, reflexiva e crítica poderão ser efetivas na formação de uma consciência crítica e, assim, possibilitarão compreender a realidade do usuário, visando a favorecer sua autonomia para realização do autocuidado da doença(4-5).

O aumento da prevalência do diabetes aliado à complexidade de seu tratamento, tais como: restrições dietéticas, uso de medicamentos e complicações crônicas associadas (retinopatia, nefropatia, neuropatia, cardiopatia, pé neuropático, entre outras) reforçam a necessidade de programas educativos eficazes e viáveis aos serviços públicos de saúde. A mudança de comportamento, com a adoção de uma dieta balanceada e da prática de atividades físicas é essencial para que o controle e o tratamento do DM tenham êxito(1). Estudos(1-3) mostram que o controle e a prevenção de complicações do diabetes são possíveis por meio de programas educativos.

Em vista do exposto, o objetivo do presente estudo foi de apresentar o delineamento das oficinas educativas em DM e uma estratégia avaliativa voltada à atualização dos profissionais de saúde da atenção primária em Belo Horizonte/MG. A avaliação dessa iniciativa apontou a necessidade do aprimoramento de metodologias educativas que integrem conteúdo informativo e motivação, privilegiando a construção coletiva do conhecimento. Esse contexto favoreceu a criação de uma parceria entre o serviço de saúde e a instituição acadêmica para o desenvolvimento do trabalho aqui apresentado.

 

MÉTODOS

Optou-se por utilizar a metodologia de oficinas, visando a garantir um espaço de debate, construção de conhecimentos e propostas para melhoria da assistência em saúde(6). As oficinas foram implementadas, mediante metodologia participativa baseada em técnicas lúdicas, vivências e dinâmicas de grupo(7). Esta abordagem possibilitou trabalhar, simultaneamente, os aspectos cognitivos, lidando, de modo articulado, com ideias, valores, práticas e comportamentos. Os objetivos das oficinas foram: sensibilizar os profissionais de saúde da atenção primária sobre a pratica educativa, e aprimorar os conhecimentos desses trabalhadores a respeito da educação para o autocuidado em diabetes associado aos hábitos de vida saudável.

Os pressupostos deste trabalho têm suas bases na concepção crítica do campo da educação em saúde e na teoria freiriana que propõe a educação dialógica, como forma de resgatar o conhecimento e a experiência advindos da prática social(5). Essa perspectiva emancipatória de educação guarda coerência com a necessidade de buscar um fundamento dialético - que articule teoria e prática - para analisar os conhecimentos da educação em diabetes dos profissionais.

Participaram do estudo 85 profissionais de saúde da atenção primária (médico, enfermeiro, assistente social, dentista, psicólogo e técnicos e auxiliares de enfermagem) de quatro Unidades Básicas de Saúde de Belo Horizonte/MG, em 2008. As oficinas foram coordenadas por cinco docentes (três enfermeiras e duas nutricionistas) e contaram com a colaboração de oito alunos dos Curso de graduação em Enfermagem e Nutrição da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG.

O delineamento das oficinas envolveu três etapas: avaliação de conhecimentos dos profissionais de saúde préviamente às oficinas com base em rol de competências requeridas para o autocuidado e autocontrole do diabetes; realização das oficinas educativas que abordaram aspectos clínicos da doença e os hábitos saudáveis de vida; e avaliação de conhecimentos dos profissionais de saúde com base em um rol de competências requeridas para o autocuidado e autocontrole, após um mês da intervenção educativa e avaliação das oficinas.

Primeira etapa

O rol de competências requeridas para o autocuidado e autocontrole no diabetes (rol de competências requeridas)(8-9) foi adaptado após teste piloto e aplicado em duas fases: a primeira, com professores/facilitadores das oficinas e, a segunda, com os profissionais de saúde. Esse rol contém quatro eixos: fisiopatologia (conceituação, sintomas, classificação, fatores de risco, exames complementares e complicações do diabetes); nutrição (composição dos alimentos, fracionamento das refeições, alimentos light/diet, porções, construção do cardápio); exercício físico (plano de atividades físicas, vantagens da pratica de exercícios físicos na prevenção e controle da doença) e insulinoterapia (tipos, dosagens, conservação e locais de aplicação). Cada item do instrumento foi avaliado, considerando três possibilidades de resposta quanto ao conhecimento aferido: presente, ausente e parcialmente presente.

Avaliou-se o conhecimento dos profissionais das unidades de saúde em estudo, mediante a aplicação do rol de competências requeridas, com a finalidade de levantar as dos profissionais, e assim, apoiar o planejamento e a organização do programa educativo sobre DM.

Segunda etapa

A estratégia educativa escolhida para o desenvolvimento da atualização dos profissionais de saúde foi a modalidade de oficinas descritas nos dados do Quadro 1. Nestas oficinas, buscou-se resgatar o conhecimento da equipe sobre DM, discutir o processo educativo, como atividade continua do serviço local, possibilitando definir e diferenciar as condutas profissionais.

Foram realizadas seis oficinas com os profissionais, no período de maio a outubro de 2008, após autorização dos gerentes das unidades de saúde. Os horários foram determinados, de acordo com as especificidades de cada serviço. As oficinas foram realizadas, mediante metodologia participativa e problematizadora, uma vez que se partiu das próprias experiências e conhecimentos dos participantes e destes para a discussão e conscientização, buscando facilitar os processos de reflexão, de ensino e aprendizagem e de sensibilização entre os participantes.

As discussões versaram sobre os seguintes aspectos: atualização conceitual sobre diabetes, nutrição e alimentação saudável e a importância da prática de atividades físicas e pé diabético. Os conteúdos foram pautados no material educativo utilizado pelo Ministério da Saúde (MS)(2), para diabetes e nos padrões de referência do National Standards for Diabetes Self-Management Education(10). Os temas foram abordados por dinâmicas lúdicas, jogos educativos, estudo de caso, painel para que cada um dos participantes pudesse externar seus conhecimentos, compartilhando-os com os demais membros da equipe. que geraram discussões construtivas sobre os assuntos abordados, tal como apresentado nos dados do Quadro 1.

Durante as oficinas, foram registrados, em um diário de campo, os comportamentos dos participantes, a receptividade das atividades propostas e a relação entre a equipe.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais e Secretaria Estadual de Saúde de Belo Horizonte/MG (n.º Parecer 403/2008 e 0024.040410.203.09)e o Termo de Livre Consentimento Esclarecido.

Terceira etapa

No final, foi aplicado um instrumento de avaliação das oficinas com os 85 profissionais de saúde centrado em quatro questões: metodologia, conteúdo, tempo de duração e material didático.

Após um mês do termino das oficinas, foi aplicado novamente o rol de competências requeridas nos profissionais de saúde, para avaliar os conhecimentos, a nutrição saudável e a atividade física.

 

RESULTADOS

A avaliação do conhecimento dos 85 profissionais de saúde a respeito do diabetes, mediante a aplicação do rol de competências requeridas, permitiu verificar menor percentagem de acertos a respeito da fisiopatologia e de exames complementares. Estas e outras dificuldades identificadas (nota de rodapé) apontaram a necessidade de educação continua com equipes de saúde e apoiaram o planejamento e desenvolvimento das oficinas(1)*

Durante as oficinas foram discutidas as práticas educativas e os conhecimentos sobre a doença, plano alimentar e atividade física, o que possibilitou uma reflexão individual e coletiva dos participantes sobre a educação para o autocuidado do diabetes. Cada oficina durou duas horas e aconteceu, após a aplicação do rol de competências requeridas com os mesmos participantes. Os subgrupos com o máximo de oito pessoas foram formados e proposta a elaboração da pirâmide alimentar correlacionada às atividades físicas. Os participantes destacaram suas vivências e experiências no atendimento ao diabético e construíram coletivamente uma pirâmide alimentar adequada às necessidades e à realidade do usuário.

Na atividade de elaboração da pirâmide alimentar, percebemos que, a princípio, alguns profissionais mostraram dificuldades para distribuir os alimentos. Algumas equipes preferiram organizar os alimentos por grupos e depois construir um plano alimentar, distribuindo os alimentos, de acordo com as necessidades dos usuários da área abrangência. No decorrer do trabalho, observou-se o interesse dos participantes em elaborar um plano alimentar que considerasse a satisfação e o prazer que o alimento proporciona ao indivíduo, e não só as calorias e porções estabelecidas.

A atividade em grupo com a pirâmide também possibilitou discussões em relação aos produtos dietéticos, à dieta fracionada, à variação e distribuição dos alimentos. Percebemos o interesse e envolvimento dos participantes para esclarecer detalhes e melhorar os conhecimentos sobre o plano alimentar referente a seu comportamento e dos usuários das unidades para quem prestam assistência. Os participantes envolvidos conseguiram discutir as principais diretrizes propostas pelo MS(2) para orientar as condutas no controle do diabetes. A partir da análise de casos concretos, as equipes de saúde fizeram o diagnóstico das situações apresentadas e destacaram condutas, orientações, e as atribuições de cada profissional nas ações clínicas e educativas.

Os profissionais mostraram-se interessados na apresentação dos conteúdos sobre as ações educativas, para o autocuidado associado à dieta e à atividade física. No caso clínico do usuário com diabetes, a participação e os questionamentos sobre a prática educativa dos profissionais, os hábitos alimentares e a atividade física foram discutidos, uma vez que esses temas não eram explorados nas orientações feitas pela equipe. As atividades educativas periódicas foram destacadas, como uma ferramenta fundamental no gerenciamento da educação do autocuidado da doença.

Ao final da oficina, os participantes preencheram um questionário de avaliação que contemplava comentários sobre as atividades desenvolvidas e os conteúdos abordados. A avaliação, realizada com os profissionais de saúde das unidades básicas, revelou que a expectativa quanto às oficinas foi atingida em 93% dos participantes. O conteúdo abordado foi satisfatório com possibilidade de aplicá-lo na prática diária. A duração das oficinas foi considerada adequada, porém 30% sugeriram a ampliação da carga horária. A qualidade do material didático foi avaliado positivamente por todos os participantes. A atuação dos pesquisadores e o domínio de conteúdo foram considerados excelentes, assim como a integração com as equipes.

A partir dos resultados do rol de competências requeridas e dos debates nas oficinas, os participantes sugeriram a elaboração do material didático dos temas referentes à fisiopatologia, alimentação e atividade física em diabetes, por meio de um manual de bolso para auxiliar os profissionais que prestam assistência ao diabético. Observou-se que o resultado do rol de competências requeridas, após as oficinas, apresentou melhora nos conhecimentos sobre o diabetes: Conceituação da doença: 84%; Sintomas: 76%; Classificação: 74%; Fisiopatologia: 66%; Fatores de risco: 68% e Exames complementares: 62% .

Percebeu-se que a modalidade das oficinas promoveu de forma lúdica a interação entre os profissionais de ensino e serviço e contribuiu para uma análise das ações educativas desenvolvidas pela equipe de saúde e ofereceu subsídios ao planejamento e implementação do programa educativo.

 

DISCUSSÃO

Ao analisar as atividades realizadas, seu encadeamento e a dinâmica geral das oficinas, pode-se reconhecer uma relação horizontal e dialógica, do ponto de vista do relacionamento humano entre a equipe, que foi permeada pela confiança, facilitando a abordagem educativa dos conhecimentos relativos ao tema discutido.

Em relação às possibilidades observadas na utilização deste método educativo, percebeu-se que o mesmo abriu diversas possibilidades. A criação de um espaço de livre diálogo, caracterizado pela condução não diretiva dos facilitadores, que permitiu a troca de experiências e saberes entre os participantes e a reflexão sobre as dificuldades por eles vivenciadas em seu cotidiano, provocando a problematização sobre a relação de cada participante em relação à pirâmide alimentar(4-5).

Outro aspecto a ser mencionado foi a abordagem dialógica adotada na construção de cada etapa de aprofundamento sobre o tema, que se expressou na valorização das discussões dos participantes, marcadas pela realidade vivenciada e na adoção de estratégias pedagógicas baseadas em dinâmicas de grupo que propiciaram o encontro do saber técnico-científico, rompendo-se com o modelo tradicional de transmissão de informações(10-11).

Os profissionais mostraram-se interessados e sensibilizados em relação à importância da integração da equipe para promoção e educação em diabetes. Foi enfatizada a importância de planejar e sistematizar programas educativos voltados ao diabetes, respeitando as necessidades, valores e crenças dos usuários, assim como o uso de uma linguagem apropriada pelo profissional para a abordagem de diferentes temas.

Alguns autores(12-15) destacam que, qualquer tipo de atuação visando à melhoria dos serviços de saúde, deve capacitar os profissionais de saúde para a busca constante do aperfeiçoamento das relações sociais que se desenvolvem no dia a dia dos serviços sob uma perspectiva crítica e reflexiva no processo trabalho. Investir na formação de profissionais de saúde da atenção primária e educação, em estreita colaboração com pesquisadores resulta em produtos inovadores para os serviços e em novos desafios relevantes para o mundo acadêmico. É necessário saber adaptá-lo à realidade de cada indivíduo, à sua rotina e à sua capacidade de compreendê-lo de maneira que possa ser aplicado em algum aspecto de sua vida cotidiana.

Assim, a oficina caracterizou-se como um processo rico de trocas de experiência entre o serviço e a academia, em uma via de mão dupla. O processo de atualização e as estratégias adotadas para tal, foram avaliados positivamente pela maioria dos participantes. Relataram que a capacitação teórico-prática possibilitou a implantação do programa de educação em diabetes. Os participantes manifestaram o desejo de continuar as oficinas, como forma de atualização e avaliação permanente da educação da equipe multidisciplinar no atendimento ao usuário com diabetes.

As limitações do estudo foram relacionadas às diferenças apresentadas em cada unidade de saúde que merecem ser consideradas quanto ao envolvimento e interesse dos profissionais para atualização das ações educativas no autocuidado. Observou-se um interesse maior dos participantes daquelas unidades com processos anteriores de capacitação realizados em articulação com a instituição acadêmica. Alguns problemas identificados foram relativos à área física disponível para a realização das oficinas. Em algumas unidades, o espaço era pequeno para o número de convidados, gerando desconforto aos participantes, pois os gerentes do serviço não planejaram as atividades dos profissionais para outros horários, dificultando a participação da equipe em todas as oficinas.

Um dos desdobramentos do trabalho desenvolvido foi a criação de um manual de educação para o autocuidado em diabetes que trata dos seguintes temas: fisiopatologia da doença, medicamentos e insulinoterapia, nutrição e atividade física, utilizando linguagem clara, objetiva e ilustrações com desenhos(13). O manual já foi apresentado e discutido com os profissionais de saúde com intuito de sistematizar as competências indispensáveis para atendimento individual e coletivo ao usuário na prevenção e controle da doença. Posteriormente, será validado para publicação. O modelo de avaliação do programa educativo foi implementado.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A atualização dos profissionais de saúde permitiu que refletissem sobre as práticas desenvolvidas nas Unidades Básicas de Saúde, em relação ao atendimento ao usuário com diabetes e o planejamento e organização do programa educativo. Pretende-se que a educação dos profissionais proporcione a identificação de problemas, cuja solução seja procurada por eles mesmos, mediante a busca de conhecimentos e mudança de atitudes. O processo de atualização dos profissionais de saúde deve ser reconhecido, como parte de um trabalho de educação permanente dos serviços, do qual a Universidade pode ser uma importante parceira.

Dessa forma, a proposta de trabalhar com os profissionais de saúde da atenção primária na modalidade de oficinas educativas em diabetes para a promoção do autocuidado, envolvendo a participação dos profissionais de ensino (docentes) e serviço mostrou-se apropriada para gerar uma reflexão da equipe de saúde sobre a realidade vivenciada pelos usuários e do processo educativo no controle da doença.

A proposta da oficina como modalidade educativa favoreceu a discussão dos desafios e dificuldades para a estruturação da prática da educação em diabetes. Por outro lado, mostrou que é possível utilizar e combinar estratégias de promoção da saúde e prevenção e avaliar as intervenções, orientando a continuidade das ações. Evidenciou-se que a intervenção sobre as competências para o autocuidado em suas diferentes dimensões, mediante uma abordagem comunicativa dialógica foi capaz de contribuir para fortalecer o potencial reflexivo, crítico e criativo dos profissionais em suas práticas educativas.

 

REFERÊNCIAS

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Autor Correspondente:
Heloisa de Carvalho Torres
Av.: Alfredo Balena, 190 - Santa Efigênia
Belo Horizonte - MG - Brasil - CEP. 30130-100
E-mail: heloisa@enf.ufmg.br

 

 

* Estudo relaizado em quatro unidades basicas de saúde da região Leste da cidade de Belo Horizonte (MG), Brasil.

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