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Acta Paulista de Enfermagem

Print version ISSN 0103-2100

Acta paul. enferm. vol.23 no.6 São Paulo  2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-21002010000600009 

ARTIGO ORIGINAL

 

Docência em Enfermagem: insatisfações e indicadores desfavoráveis*

 

Enseñanza en Enfermería: insatisfacción e indicadores desfavorables

 

 

Sabrina Corral-MulatoI; Sonia Maria Villela BuenoII; Dathiê de Mello FrancoIII

IMestre pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem Psiquiátrica da.Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo - USP - Ribeirão Preto (SP), Brasil
IILivre-docente. Professora Associada do Departamento de Enfermagem Psiquiátrica e Ciências Humanas da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo - USP - Ribeirão Preto (SP), Brasil
IIIPós-graduanda (Mestrado) em Saúde da Comunidade. Departamento de Medicina Social da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo - USP - Ribeirão Preto (SP), Brasil

Autor Correspondente

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Identificar e analisar entre docentes de um curso de graduação em Enfermagem os momentos de insatisfação e os indicadores desfavoráveis de sua profissão e a relação entre esses elementos.
MÉTODOS: Estudo descritivo-exploratório de abordagem qualitativa, tendo como participantes 13 professores. A técnica de coleta de dados foi um questionário com questões norteadoras: de identificação e sobre a temática. A análise do material foi por identificação dos eixos temáticos e categorização.
RESULTADOS: Verificou-se que a insatisfação na profissão compreendeu principalmente, duas categorias: questões éticas e o excesso de atividades, categorias que também foram identificadas como indicadores desfavoráveis da profissão.
CONCLUSÃO: Tanto a insatisfação, quanto os indicadores desfavoráveis tiveram como principais questões éticas e excesso de atividades da carreira acadêmica, demandando atenção, devido aos problemas de saúde que podem acarretar ao profissional.

Descritores: Docente de Enfermagem; Educação em Enfermagem; Educação superior; Estresse ocupacional


RESUMEN

OBJETIVO: Identificar y analizar entre los profesores de un curso de Enfermería los momentos de insatisfacción y los indicadores desfavorables de su profesión; y, la verificar la relación entre estos elementos.
MÉTODOS: Se trata de un estudio descriptivo exploratorio con abordaje cualitativo, en donde participaron 13 profesores. La técnica de recolección de datos fue un cuestionario con preguntas orientadoras (identificación y tema). El análisis de los datos fue realizado mediante la identificación de temas y categorización.
RESULTADOS: Se encontró que la insatisfacción en la profesión, estuvo principalmente compuesta por dos categorías: 1) aspectos éticos y 2) actividades excesivas; estas categorías también aparecieron como indicadores desfavorables de la profesión.
CONCLUSIÓN: Tanto la insatisfacción como los indicadores desfavorables estuvieron relacionadas con cuestiones éticas y actividades excesivas de la carrera académica, lo que exige atención, debido a los problemas de salud que pueden ocasionarle al profesional.

Descriptores: Docentes de Enfermería; Educación en Enfermería; Educación superior; Agotamiento profesional


 

 

INTRODUÇÃO

Nos últimos anos, aconteceram transformações que as novas tecnologias e os avanços na área de informação trouxeram para o ambiente de trabalho, incluindo o educacional e, consequentemente, ao trabalho docente.

Tais mudanças corroboram a necessidade premente de atualização e modernização do ensino, adequando as metodologias às necessidades atuais dos alunos, culminando com uma grande transformação em detrimento ao paradigma tradicional, que ainda se faz vigente até então.

Exige-se que a escola e, o docente sejam impulsionados para essa mudança, fazendo-se mister a necessidade de adequação a uma concepção pedagógica mais aberta, dialógica, horizontal, pós-moderna e que tem no aluno, um parceiro na construção do conhecimento(1).

Os docentes da educação superior estão percebendo a necessidade de se adequar a essa nova postura, propondo modificações nos currículos, demandando adaptações, tendo em vista às cobranças impostas pela sociedade contemporânea.

Vários cursos da área da saúde passaram a atender esta nova lógica, inclusive os de graduação em Enfermagem, que já estão em processo avançado nesse sentido, adequando seus currículos a essas exigências.

Todavia, o processo é lento e demanda grande esforço e muito trabalho dos profissionais envolvidos, no sentido de atingir os objetivos propostos, inclusive da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional(2).

O rol de exigências, somado às questões de cunho ético, além de cobranças com atividades acadêmicas e científicas, como ensino, pesquisa, extensão e gestão, geram insatisfação, descontentamento e sobrecarga, podendo contribuir para um desgaste do docente envolvido com essas questões, trazendo prejuízos para sua saúde física e mental.

Neste contexto, a universidade pública brasileira vive um aumento excessivo de horas/aula, redução significativa do tempo para realização de mestrado e doutorado, sendo, pois, avaliada pela quantidade de publicações, congressos, comissões e relatórios, traduzindo a docência em rápida transmissão dos conhecimentos. Ainda, neste contexto, o professor é contratado, tendo como base sua aptidão para a pesquisa de algum tema muito especializado(3).

Atualmente, os educadores estão vivenciando uma crise de identidade, que está estabelecida tanto no domínio do saber e do saber fazer, quanto no conteúdo das informações e dos conhecimentos que possui e na capacidade de utilizar, de maneira adequada, as estratégias específicas. Mas, fundamenta-se, sobretudo, na competência do gerenciamento das crescentes exigências do mundo contemporâneo e da realidade social conturbada de que estão cercados(4).

O professor do ensino superior está permanentemente sob um crivo crítico, desde o ingresso na carreira, por meio de avaliações sistemáticas para a ascensão profissional, de submissão de trabalhos em eventos e revistas de qualidade ímpar, da apresentação de projetos e de relatórios de atividade e de pesquisa, entre outras metas que deve alcançar para manter-se atualizado e competitivo(5).

Em estudo realizado com 314 docentes, de diversos departamentos de uma instituição pública da Bahia, os autores constataram que mais da metade dos entrevistados consideram o ritmo de trabalho acelerado, gerando elevada carga física e psíquica(6).

Todas estas mudanças implicam em enorme desafio pessoal e coletivo em relação aos educadores que se propõem a responder às novas expectativas do paradigma da educação progressista, crítico-social(7).

No caso dos docentes em Enfermagem, sua atuação, na perspectiva reflexiva, já vem mobilizando algumas instituições de ensino. Seu propósito é construir um modelo curricular com um processo de formação articulado com o mundo do trabalho, rompendo com a dicotomia teoria/prática, usando estratégias pedagógicas inovadoras e alternativas, com ensino contextualizado, considerando uma aprendizagem significativa e um futuro mais crítico e voltado ao compromisso de questões profissionais e sociais(8).

Por outro lado, o docente de ensino superior é um trabalhador, identificado profissionalmente(9), e o trabalho que realiza, pode interferir em outros aspectos de sua vida, incluindo comportamentos, expectativas, projetos de futuro, linguagem e até afeto(10).

A atividade do docente universitário é vista como uma atividade na qual ele possui autonomia para gerenciar sua forma de organização. Mas, os procedimentos adotados para efetivá-lo desconsideram as questões de subjetividade dos docentes, seja individual ou coletivamente, o que pode desencadear o sofrimento no trabalho(11).

Os desgastes aos quais os docentes são submetidos, podem ser fatores determinantes de doenças, tanto nas relações interpessoais quanto nas exigências de sua atividade.

A elevada carga horária foi uma das queixas, dos docentes, tendo em vista o atual modelo capitalista que impõe que o profissional exerça o maior numero de tarefas possíveis. Fator que pode desencadear exaustão física e mental, em razão da excessiva carga de trabalho(6).

A tensão no ambiente de trabalho aumenta nas relações com a chefia, pelas exigências e aos próprios métodos utilizados para pressionar o trabalhador, surgindo conflitos nas relações interpessoais, quando a dignidade e a autoestima do indivíduo forem atingidas(12).

Tendo em vista a preocupação com a saúde do docente, que vivencia todas essas pressões, direcionadas ou veladas, da própria instituição, dos órgãos de fomento ou, até mesmo, dos próprios pares, buscou-se identificar e analisar entre docentes de um curso de graduação em Enfermagem, os momentos de insatisfação e os indicadores desfavoráveis de sua profissão e a relação entre esses elementos.

 

MÉTODOS

Este estudo foi realizado por meio de uma pesquisa de abordagem qualitativa, baseando-se em referenciais teóricos(1,13), desenvolvida em uma universidade pública do interior paulista. Os participantes foram 13 docentes de um curso de graduação em Enfermagem, identificados nos resultados como (P).

Como técnica de coleta de dados, foi utilizado um questionário informativo (com questões - abertas e fechadas), identificando dados pessoais (sexo, idade, estado civil, religião e filhos) e de formação, além de levantamento da visão dos docentes de enfermagem sobre o tema central, com as seguintes questões: Favor citar momentos de insatisfação profissional. Quais são os indicadores desfavoráveis da profissão docente?

O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (Processo no. 0834/2007), segundo as normas da Resolução n.º 196/96.

A coleta de dados foi realizada durante o mês de novembro de 2007, por meio de correspondência entregue na casela de cada professor, (local onde são deixadas as correspondências endereçadas aos professores)  na unidade pesquisada. Para tanto, foi deixado em um envelope fechado, o questionário com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, que foi assinado, autorizando a participação. O questionário já respondido e o TCLE assinado foram recolhidos pelo pesquisador em tempo pré-determinado no mesmo local de entrega.

Para a análise de dados, foi utilizado o levantamento do universo temático, segundo referencial de Freire(13) adaptado por Bueno(1), visando à descrição e interpretação da situação dos participantes da pesquisa, identificando suas necessidades, conhecimentos prévios e habilidades. A organização desta análise seguiu as seguintes fases:

- Levantamento dos temas geradores;

- Organização do material da coleta de dados;

- Seleção e codificação de palavras e frases registradas/emitidas;

- Síntese de palavras e frases selecionadas;

- Ordem dos temas geradores.

 

RESULTADOS

Os participantes do estudo constituíram um grupo composto por 13 profissionais docentes do Curso de graduação e pós-graduação em Enfermagem, enfermeiros e não enfermeiros (Pedagogos, Estatísticos e Biólogos), representando as áreas básicas e específicas dos cursos dos três departamentos existentes.

A maioria dos participantes desta pesquisa era do sexo feminino, com idade acima de 41 anos, casada, com predominância da religião católica.

Quanto à carga horária desenvolvida, os pesquisados trabalhavam 40 horas semanais, em Regime de Dedicação Integral à Docência e à Pesquisa sendo distribuídos nos seguintes cargos: Professor-doutor (46%), Livre-docente/associado (31%) e Professor titular (23%).

Com relação à atuação docente, todos trabalhavam com os níveis de graduação e mestrado e a grande maioria também com especialização e doutorado. As áreas de atuação, abrangeram a Educação para a Saúde em diversas áreas da enfermagem (educação para a saúde; saúde mental, da mulher, do trabalhador, pública, ambiental; fundamentos da enfermagem; enfermagem clínica, cirúrgica, oncológica, em cardiologia e genética, estatística e parasitologia).

Categorização dos momentos de insatisfação profissional

Nas respostas dos participantes, dentre os momentos de insatisfação, foram identificados: questões éticas, excesso de trabalho e falta de reconhecimento profissional.

- Insatisfação profissional relacionada à questão ética

A maior parte dos respondentes pontuou como momentos de insatisfação questões éticas, tais como: falta de companheirismo e colaboração, competição entre os colegas, desrespeito verbal, exigências e injustiças no plano de carreira, além da falta de organização das atividades que devem desenvolver na função, entre outras.

"...é incipiente a ética profissional..."(P1); "...não colaboração e envolvimento dos outros colegas, desavenças internas. (P2)"; "...competição, deslealdade, falta de cooperação"(P5).

- Insatisfação profissional relacionada ao excesso de trabalho

Os docentes ainda citaram o excesso de trabalho, de cobrança e responsabilidade, a urgência de assuntos, a dificuldade no cumprimento do planejamento de tarefas, aliado à crescente burocratização e ao estresse cotidiano, como geradores de momentos de insatisfação profissional.

"Excesso de trabalho, excesso de reuniões, acúmulo de tarefas, excesso de cobrança, excesso de responsabilidade." (P1); "...numerosas atividades simultaneamente; numerosas reuniões; pressão excessiva no trabalho..."(P6); "...sobrecarga de aulas, excesso de reuniões e de carga de atividades administrativas." (P13)"; "...algumas atividades burocráticas são difíceis. (P8)".

- Insatisfação profissional relacionada ao reconhecimento e salário

Ainda, algumas das respostas citaram a falta de reconhecimento, a inadequação do salário e do plano de carreira e o consequente desrespeito das leis trabalhistas, como momentos de insatisfação na profissão.

"...não reconhecimento e salário..." (P7); "Falta de vaga para o concurso de titular..."(P9).

Categorização sobre os indicadores desfavoráveis da profissão

Além dos momentos de insatisfação profissional, foi perguntado aos participantes da pesquisa sobre os indicadores desfavoráveis da profissão docente em enfermagem.

- Indicador desfavorável relativo ao excesso de trabalho

Muitos dos pesquisados referiram como indicador desfavorável  da profissão o excesso de trabalho e, consequentemente, a falta de tempo, para que o profissional possa descansar, divertir-se e, até mesmo, estar com seus familiares.

"Desorganização da forma de trabalho..." (P4); "Cobrança de chefias, de alunos, prazos a serem cumpridos..." (P6); "Excesso de atividades, pressões institucionais..." (P7); "Muita atividade, pouco tempo disponível, poucas trocas entre colegas..." (P9); "Excesso de atribuições, falta de tempo, ... sobrecarga profissional..." (P12).

- Indicador desfavorável relativo à ética profissional

"Fofocas, intrigas..." (P3); "Disputa interna por cargos e funções, disputa por fomento às pesquisas." (P6); "Individualismo no trabalho, no ensino e extensão." (P9); "Desvalorização da especificidade profissional" (P12). 

- Indicador desfavorável relativo aos poucos investimentos

"Situação difícil da educação no Brasil e pouco investimento no professor (na educação e no professor." (P8); "Recursos escassos para pesquisa" (P12).

Além destes fatores, foi lembrado o fato de que o ensino, atualmente, é ainda pautado em paradigmas tradicionais e biomédicos.

"O ensino ainda é muito tradicional... ensino ainda fragmentado, desumanizado... necessidade de maior maturidade do docente e do aluno" (P1).

 

DISCUSSÃO

Transformação das exigências na educação

O trabalhador de ensino superior percebe o constante movimento de transformação de seu cotidiano profissional. Panorama, no qual, deve se enquadrar nesse sistema competitivo de produção contínua de alunos, artigos, consultorias e que sejam rentáveis a nova organização socioprodutiva(14).       

Além das atividades cotidianas, o docente universitário soma outras atividades como participação em comissões, consultorias e assessorias, publicação em periódicos de qualidade, participação em bancas de pós-graduação e outros concursos, aprendizagem de novos recursos tecnológicos, submissão às normas e regras técnicas da própria instituição e do ensino governamental, entre outras(15).

O docente assume muitas funções, inclusive, burocráticas, dando-lhe a sensação de desrespeito, sobretudo quando estas tarefas são desnecessárias ou não relacionadas à essência de sua profissão. Sendo assim, o contexto da educação atual é um fator gerador de uma sensação, portanto, de insatisfação. Por conseguinte, o profissional tende a dedicar menos tempo à execução do seu trabalho na docência, à necessária atualização na área, ao lazer e convívio social e, consequentemente, ao convívio familiar e ao descanso físico e mental(16), corroborando com os achados deste estudo.

Insatisfações na docência

A insatisfação docente é uma constante no meio educacional, acarretando inúmeras conseqüências, dentre elas, a qualidade das relações interpessoais no ambiente de trabalho, visto que, na maioria das vezes, essas relações não estão de acordo com as expectativas e representações dos educadores, afetando, assim, a própria realização pessoal(17).

Há que se ressaltar que investigação realizada com professores universitários de diversos cursos, de uma universidade pública de Rondônia(18) indicou que o segundo fator de insatisfação profissional foi o relacionamento com os colegas, como situações permanentes de conflitos entre grupos, questões éticas entre os pares e domínio do ambiente por grupos, indo ao encontro dos nossos achados.

Neste contexto, a competição não saudável, a influência política no ambiente laboral, o comportamento hostil entre os pares e a perda de tempo com discussões inúteis estão entre as características dos agentes estressores do trabalho(19).

Além da falta de controle sobre o trabalho, a ausência de valorização da pessoa por suas contribuições, acaba gerando um desencanto, acrescido pela falta de união entre os trabalhadores e falta de respeito e reconhecimento de seu valor. Esses elementos contribuem para a ocorrência de conflitos de valores, quando há desarmonia entre os princípios pessoais do trabalhador e as exigências do trabalho(20).

Em estudos realizados, apesar da excelente capacitação do corpo docente das universidades públicas, os professores não estão assegurados por diretrizes de valorização e proteção, seja no aspecto legal ou na saúde ocupacional(11).

Contudo, quando o docente não percebe o reconhecimento de seu trabalho, a responsabilidade exigida passa a significar uma sobrecarga, traduzida em um conflito, repercutindo negativamente em sua saúde(21).

Com relação ao ensino público, de um modo geral, os professores sofrem muitas críticas, são excessivamente cobrados, sobretudo em seus fracassos e raramente são reconhecidos por seus sucessos(22).

Insatisfação interferindo na saúde dos docentes

Fatores como insatisfação da pessoa com o seu trabalho, seja pelo ambiente, seja pelas tarefas que executa, poderão desencadear problemas de saúde mental, se não oferecerem possibilidades ao trabalhador de concretizar suas aspirações, ideias, desejos ou quando há inflexibilidade da organização do trabalho(23).

No entanto, é difícil atingir um equilíbrio entre as exigências do universo laboral e as necessidades psicofisiológicas do trabalhador, de tal modo que esse conflito pode conduzir o indivíduo ao sofrimento e, consequentemente, refletir sobre sua saúde física e mental(24).

Pesquisas anteriores mostram que o fator compensação/reconhecimento é o primeiro fator mais estressante para o docente, e o terceiro lugar diz respeito à identidade profissional, que significa as expectativas de ascensão pessoal e o desenvolvimento da carreira(18).

Em estudo realizado com professores universitários, a profissão foi avaliada como estressante por quase todos os pesquisados e entre os fatores mais citados estão a rede de comunicação da instituição, o relacionamento com os pares e com alunos(25) .

Já em 1986, na I Conferência Nacional de Recursos Humanos para a Saúde(26), era discutida a inadequação da formação de mão de obra pelas universidades, em relação às necessidades de saúde e serviços da população.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os docentes das universidades públicas, assim como os de outros níveis escolares, estão sujeitos a grandes exigências em termos de produção científica, acadêmica, de gestão, entre outras. Este panorama está presente nos cursos superiores de forma geral, inclusive, entre os docentes da área de saúde. Todavia, o excesso de atividades vem trazendo aos profissionais da educação superior em Enfermagem consequências, como a insatisfação no trabalho.

Neste estudo, pode-se constatar, que as insatisfações originadas pelo trabalho na carreira docente em enfermagem, e os indicadores desfavoráveis estão estreitamente relacionados ao excesso de atividades desenvolvidas pelos educadores (ensino, pesquisa, extensão e gestão), além disso às exigências das instâncias superiores e dos órgãos de fomento; à necessidade premente de atualização constante, reuniões de urgência, excessiva carga horária de aulas e orientações desgastantes, preparo de avaliações, participação em bancas examinadoras, comissões, pareceres externos e internos à universidade, divulgação dos resultados de suas pesquisas em periódicos de visibilidade internacional, entre outros.

Todavia, este não é um evento que vem se desenvolvendo somente na carreira de enfermagem, mas, sim, em outras áreas dentro da universidade pública, que padecem com as mesmas exigências.

As questões complexas que envolvem a ética foram citadas também como insatisfações, com relação ao individualismo, competição, falta de cooperação entre os pares e falta de respeito às especificidades de cada área. Características que extrapolam os muros da universidade, são retratos do mundo globalizado e capitalista onde vivemos atualmente.

Estes dilemas, se não forem bem trabalhados, discutidos, revistos e modificados na busca de um melhor ambiente laboral, poderão levar o profissional a desenvolver problemas sérios de saúde, tanto físico, como mental.

Embora todos os docentes da instituição acadêmica pesquisada tivessem sido convidados a participar do estudo e terem como prioridade, na carreira, a pesquisa, podemos ressaltar como uma das maiores dificuldades no desenvolvimento deste estudo, a demora na devolução do questionário preenchido e menos respostas do  que o esperado. Referiram não ter tempo disponível para respondê-lo, alegando possuir muitas atividades naquele momento.

Sugerimos, ainda, um investimento maior nas universidades públicas, em geral,  no sentido de tornar o trabalho do professor de nível superior mais prazeroso, menos desgastante, mais valorizado e humanizado, levando em consideração que eles trabalham com a formação de recursos humanos que os vêm como referência de profissionais.

 

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Autor Correspondente:
Sabrina Corral-Mulato
Av. dos Bandeirantes, 3900 - Monte Alegre
Ribeirão Preto - SP - Brasil
CEP. 14040-902
E-mail: sbcorral@yahoo.com.br

Artigo recebido em 17/02/2010 e aprovado em 17/07/2010

 

 

* Estudo realizado na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo - USP - Ribeirão Preto (SP), Brasil.

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