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Acta Paulista de Enfermagem

Print version ISSN 0103-2100

Acta paul. enferm. vol.23 no.6 São Paulo  2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-21002010000600010 

ARTIGO ORIGINAL

 

Cuidados aos idosos institucionalizados - opiniões do sujeito coletivo enfermeiro para 2026*

 

Caring for the institutionalized elderly - opinions of a collective subject (consider as being the nurses) for 2026

 

Cuidados a los ancianos institucionalizados - opiniones del sujeto colectivo (considerado como los enfermeros) para 2026

 

 

Bárbara Tarouco da SilvaI; Silvana Sidney Costa SantosII

IPós-graduanda (Doutorado) da Universidade Federal do Rio Grande - FURG - Rio Grande (RS), Brasil. Integrante do Grupo de Estudo e Pesquisa em Gerontogeriatria, Enfermagem/Saúde e Educação (GEP-GERON). Bolsista da Capes
IIDoutora em Enfermagem. Professora da Universidade Federal do Rio Grande - FURG - Rio Grande (RS), Brasil. Pesquisadora do CNPq. Líder do GEP-GERON

Autor Correspondente

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Identifica a percepção de enfermeiros a respeito do cuidado de enfermagem direcionados às pessoas idosas residentes em Instituição de Longa Permanência para Idosos.
MÉTODOS: Estudo prospectivo com elaboração de cenários futuros, com seis enfermeiros, nas quais se aplicou questionário. Na análise dos dados, utilizou-se o Discurso do Sujeito Coletivo (ILPI).
RESULTADOS: Do Discurso do Sujeito Coletivo, originaram-se as categorias: papel da Instituição de Longa Permanência para Idosos na vida dos idosos e familiares; desafios para o Brasil, a respeito do cuidado de enfermagem aos idosos residentes em ILPI; cuidados de enfermagem necessários para os idosos institucionalizados; realização de cuidados de enfermagem para os idosos residentes em ILPI; preparo do enfermeiro brasileiro para enfrentar adequadamente o cuidado de enfermagem para os idosos residentes em ILPI. Nessas categorias, considerou-se a elaboração de cenários futuros para o ano 2026.
CONCLUSÃO: A questão central enfocou a necessidade de preparo dos enfermeiros para cuidar de idosos institucionalizados, agora e em 2026.

Descritores: Cuidados de Enfermagem; Instituição de longa permanência para idosos; Idoso


ABSTRACT

OBJECTIVE: To identify the perceptions of nurses regarding the nursing care residents in Long-Stay Institution for the Elderly(LSIE).
METHODS: Is a prospective study with development of future scenarios, with six nurses, in which a questionnaire was applied. In the data analysis, was used the Collective Subject Discourse (CSD).
RESULTS: From the CSD were originated 5 categories: 1) role of the LSIE in the lives of elderly and their families; 2) challenges for Brazil, regarding nursing care to elderly residents in LSIE; 3) nursing care needed for the institutionalized elderly; 4) performance of nursing care for elderly residents in LSIE; and 5) preparation for the Brazilian nurses to adequately address the nursing care for elderly residents in LSIE. In these categories, was considered the development of future scenarios for the year 2026.
CONCLUSION: The central question focused on the need of preparing nurses to care for institutionalized elderly, now and in 2026.

Keywords: Nursing care; Homes for the aged; Aged


RESUMEN

OBJETIVO: Identificar la percepción de enfermeros sobre el cuidado de enfermería orientado a personas ancianas residentes en una Institución de Larga Permanencia para Ancianos (ILPA).
MÉTODOS: Estudio prospectivo con elaboración de escenarios futuros, con seis enfermeros, en los cuales se aplicó un cuestionario. En el análisis de los datos, se utilizó el Discurso del Sujeto Colectivo (DSC).
RESULTADOS: Del DSC se originaron cinco categorías: 1) papel de la ILPA en la vida de los ancianos y familiares; 2) desafíos para Brasil, al respecto del cuidado de enfermería a los ancianos residentes en ILPA; 3) cuidados de enfermería necesarios para los ancianos institucionalizados; 4) realización de cuidados de enfermería para los ancianos residentes en ILPA; y, 5) preparación del enfermero brasileño para enfrentar adecuadamente el cuidado de enfermería para ancianos residentes en ILPA. En esas categorias, se consideró la elaboración de escenarios futuros para el año 2026.
CONCLUSIÓN:
La cuestión central se enfocó en la necesidad de preparar a los enfermeros para cuidar de ancianos institucionalizados, ahora y en 2026.

Descriptores: Atención de Enfermería; Hogares para ancianos; Anciano


 

 

INTRODUÇÃO

A população idosa é a que mais cresce atualmente no País, exigindo mudanças socioeconômicas em sua estrutura. Estima-se que essa população esteja, além dos 17 milhões de habitantes, ocupando destaque entre as dez maiores populações envelhecidas do mundo. A população brasileira ultrapassa os 180 milhões de habitantes e, destes, mais de 9% têm 60 anos ou mais. As projeções demográficas para o ano de 2025 indicam uma população de 32 milhões de idosos, representando quase 15% da população total brasileira. As estimativas apontam ainda que, de 1990 a 2025, a população idosa crescerá 2,4% ao ano, contra 1,3% de crescimento anual da população total(1-2).

O cuidar é uma atividade que vai muito além do atendimento às necessidades básicas de cada ser humano, no momento de fragilidade. Cuidar é uma atitude que envolve também autocuidado, autoestima, autovalorização. Geralmente, o cuidado dos idosos é realizado por um sistema de suporte informal, que inclui família, amigos, vizinhos, membros da comunidade e, muitas vezes, é prestado voluntariamente e sem remuneração. A família predomina como alternativa nesse sistema de suporte informal. Mas, as famílias não possuem nenhum sistema de apoio do Estado, pois o sistema de saúde não está preparado para atender às demandas dessas pessoas idosas nem de seus familiares cuidadores(3).

Dessa forma, muitas famílias optam por institucionalizar seu idoso, buscando a Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI), como uma alternativa viável. A ILPI é uma moradia especializada, cujas funções básicas são proporcionar assistência gerontogeriátrica, conforme a necessidade de seus residentes, integrando um sistema continuado de cuidados(4).

A equipe multiprofissional presente na ILPI necessita ser composta por enfermeiro, técnicos de enfermagem, médico, nutricionista, psicólogo, assistente social, fisioterapeuta, educador físico, cuidadores e responsáveis pelos serviços gerais, com a finalidade de assistir integralmente a pessoa idosa, cabendo a cada trabalhador o desenvolvimento de seu processo de trabalho, de modo complementar.

O enfermeiro é um dos trabalhadores inseridos no contexto da multidisciplinaridade na ILPI. Ele desenvolve suas atividades com a pessoa idosa, por meio de um processo de cuidar que consiste em olhar essa pessoa, considerando os aspectos biopsicossociais e espirituais vivenciados por ela e por sua família. Essa concepção de cuidar prevê a interação das multidimensões do viver do idoso, para promover uma vida saudável, por meio da utilização de suas capacidades e condições de saúde, visando a seu contínuo desenvolvimento pessoal(5).

São funções que competem ao enfermeiro: administrativa/gerencial; assistencial/cuidativa; educativa/ de ensino; pesquisa/investigação(6). O desempenho do papel do enfermeiro responsável por uma ILPI torna-se relevante, para que esse modo de residência venha a ser o mais satisfatório possível à pessoa idosa. Para tanto, o enfermeiro precisa ter ciência desse papel, das ações de sua competência, bem como das atividades da equipe de trabalhadores sob sua liderança.

Diante dessas questões, este estudo justifica-se pela necessidade de se investir em trabalhos científicos em uma das áreas emergentes do conhecimento brasileiro: a gerontologia. Esta investigação poderá contribuir também para o cuidado de enfermagem prestado ao idoso institucionalizado. Ainda, são poucos os trabalhos científicos sobre pessoas idosas institucionalizadas e instituições de longa permanência, fazendo-se premente a necessidade do desenvolvimento de novas pesquisas nesse campo. Elas viriam proporcionar um entendimento mais aprofundado sobre essa realidade no País, impulsionando os enfermeiros a se interessarem pelo cuidado específico dessas pessoas residentes em ILPI, hoje e em uma perspectiva futura.

Assim, o estudo teve a seguinte questão norteadora: qual a percepção dos enfermeiros a respeito dos cuidados de enfermagem direcionados às pessoas idosas residentes em ILPI?

 

MÉTODOS

Foi realizada uma pesquisa prospectiva, com o intuito de identificar a percepção de enfermeiros sobre o cuidado ao idoso residente em uma ILPI. É de interesse saber como a enfermagem está enfrentando as questões do envelhecimento populacional, procurando compreender também como está planejando a assistência às pessoas idosas, no que diz respeito à institucionalização. Por essa razão, optou-se por utilizar a construção de cenários futuros, de modo a refletir a respeito da atenção ao idoso institucionalizado. Os enfermeiros devem preparar-se para enfrentar os desafios relacionados ao envelhecimento e, consequentemente, à institucionalização das pessoas idosas.

A pesquisa prospectiva é uma maneira de estudar de modo sistemático o futuro, sendo "uma forma de pensar baseada no pressuposto de que concebemos o futuro como maleável e não predeterminado ou previsível com precisão"(7). Decidiu-se pela projeção de cenários futuros para o ano de 2026, ou seja, para 18 anos a partir da data estimada para o término da pesquisa. Trata-se, segundo os estudos prospectivos, do limite mínimo de um período médio de tempo (compreendido entre 18 e 23 anos), no qual as mudanças realizadas hoje e nos próximos anos poderão influenciar e afetar o futuro, tornando possível realizar modificações em decorrência de decisões, planejamentos e ações do presente(7). Além disso, estima-se que, no ano de 2025, as pessoas idosas representem 15% da população total, como referido anteriormente.

Foram sujeitos do estudo seis enfermeiras pesquisadoras do projeto interinstitucional "Instituições de Longa Permanência para Idosos - ILPI'S no Brasil: tipologia e proposta de modelo básico de assistência multidimensional", financiado pelo CNPq. As enfermeiras integraram os polos da pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina, Universidade de São Paulo - Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Pontífice Universidade Católica - Rio Grande do Sul, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Universidade de Passo Fundo e Universidade Federal do Rio Grande.

Para a coleta de dados, utilizou-se um questionário contendo questões abertas relacionadas à percepção das enfermeiras sobre o cuidado ao idoso residente em ILPI, para o ano de 2026; a percepção do papel da ILPI na vida dos idosos e de seus familiares; e aos desafios que o País enfrentará no que diz respeito ao cuidado de enfermagem aos idosos institucionalizados. Realizou-se contato com os possíveis sujeitos, por meio do endereço eletrônico e por telefone, explicando os objetivos do estudo e solicitando sua participação. Posteriormente, foram enviados por email o questionário e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), solicitando que os participantes devolvessem o instrumento e o TCLE, após responderem, ao correio eletrônico da pesquisadora.

Na análise dos dados, foi utilizada a técnica do Discurso do Sujeito Coletivo, em que se procura o pensar expresso de forma discursiva por um conjunto de sujeitos, sobre determinado assunto. Consiste ainda em analisar o material verbal coletado, extraindo-se de cada um dos depoimentos as ideias centrais e ancoragens e as suas correspondentes expressões-chave, que compõem um ou vários discursos-síntese, na primeira pessoa do singular. Dessa forma, o sujeito coletivo expressa-se por meio de um discurso emitido no que se poderia chamar de primeira pessoa coletiva do singular, pois, várias pessoas discursaram sobre determinado tema, mas não formam um nós, mas, um eu coletivizado(8).

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, da Universidade Federal de Santa Catarina, sob o número de Processo 013/07.

 

RESULTADOS

Por meio da caracterização das enfermeiras participantes da pesquisa e dos Discursos do Sujeito Coletivo são apresentados os seguintes resultados.

Caracterização das enfermeiras investigadas

Das seis participantes do estudo, cinco têm doutorado em Enfermagem, uma tem pós-doutoramento e outra é mestre em Enfermagem, cursando o doutorado. A média das idades das enfermeiras ficou em torno de 50 anos.

Discurso do Sujeito Coletivo (DSC) dos enfermeiros a respeito do cuidado de enfermagem ao idoso institucionalizado, no Brasil, em 2026

Nesse momento, apresentam-se os temas que surgiram dos respectivos discursos das enfermeiras participantes do estudo.

O papel da ILPI na vida dos idosos e familiares, em 2026

De acordo com os depoimentos, percebeu-se que a ILPI, daqui a 18 anos, será um espaço de moradia para pessoas idosas, proporcionando cuidados especializados, além de uma assistência qualificada e um viver tranquilo. Será procurada tanto por familiares, que se sentirão menos culpados por colocarem seu idoso em uma instituição, como também pelos próprios idosos que desejarem um lugar onde possam ter uma vida mais sossegada e atendimento às suas necessidades.

DSC

Acredito que, daqui a 18 anos, a ILPI será um local de moradia e convivência, além de acolher. Assim, acho que os familiares se sentirão menos culpados ao colocarem seu idoso em uma instituição. Os próprios idosos que desejarem um lugar onde possam ter uma vida mais sossegada e assistência para suas necessidades vão buscar a ILPI. No entanto, para atender a essa expectativa, a ILPI será vista não somente como uma instituição social, mas como uma instituição de saúde, promotora do autocuidado.

Desafios para o Brasil, no ano 2026, a respeito do cuidado de enfermagem para os idosos residentes em ILPI

As enfermeiras apontaram algumas necessidades para se valorizar os trabalhadores que atuam em ILPIs: formação e qualificação profissional para atuar com a pessoa idosa; salários justos; investimentos nas condições de trabalho; contratação de mais pessoal, evitando o acúmulo de funções e o estresse.

DSC

Acredito que a enfermagem precisa vencer o preconceito de que aquele profissional que trabalha em ILPI ocupa lugar de menos valia. É preciso reivindicar salários justos e condições de trabalho adequadas, qualificando e sensibilizando o trabalhador para atuar em tais instituições. Para a prestação de um serviço qualificado, acho importante a existência de ILPIs públicas, em número suficiente para atendimento aos grupos populacionais de menor poder aquisitivo, além da integração da família, ILPI e comunidade no que se refere ao cuidado da pessoa idosa.

Os cuidados de enfermagem necessários para os idosos residentes em ILPI, em 2026

As enfermeiras defenderam a necessidade de uma abordagem biopsicossocial direcionada ao idoso institucionalizado, centrada na redução das morbidades, manutenção da capacidade funcional, promoção da saúde e da educação em saúde. Observaram o compromisso dos trabalhadores e cuidadores em promover lazer e atividades voltadas à integração dos idosos residentes.

DSC

Em 2026, verifica-se a necessidade de uma abordagem biopsicossocial direcionada à pessoa idosa residente em ILPI, pautada na diminuição das morbidades, manutenção da capacidade funcional e promoção de educação em saúde. É preciso que os trabalhadores da ILPI invistam em atividades que promovam o lazer e a integração dos idosos, diminuindo o isolamento e os déficits cognitivos e afetivos.

Possibilidades dos cuidados de enfermagem dos idosos residentes em ILPI, no Brasil, no ano de 2026

Para as enfermeiras, os cuidados de enfermagem aos idosos institucionalizados será feita baseada na responsabilidade do Estado, sobretudo com os idosos e família de baixo poder aquisitivo e sem família. Defendem que os administradores e gerentes das ILPIs deverão ser profissionais competentes à função, com conhecimento específico sobre a pessoa idosa. Lembram da necessidade de se investigar mais na institucionalização de idosos.

DSC

Acredito que, em 2026, a realização dos cuidados de enfermagem para os idosos residentes em ILPI se dará a partir da responsabilização do Estado para com aqueles idosos com baixo poder econômico e sem família. Os administradores e gerentes das ILPIs deverão ser sensibilizados quanto às necessidades dos idosos, favorecendo uma infraestrutura adequada e investimento em recursos humanos. Além disso, é preciso investir na pesquisa, pois isso possibilita condições dos profissionais melhorarem suas práticas.

Preparo do enfermeiro brasileiro para enfrentar adequadamente o cuidado de enfermagem para os idosos residentes em ILPI, no Brasil, em 2026

Para os enfermeiros estarem devidamente preparados para cuidar e assistir à pessoa idosa em ILPI, daqui a 18 anos, será preciso maior sensibilização das Instituições de Ensino Superior (IES) para oferecimento de disciplinas voltadas ao atendimento das necessidades dos idosos. Lembram aos docentes que invistam em pesquisas e práticas que contribuam para a Enfermagem Gerontogeriátrica.

DSC

Acredito que a busca pelo conhecimento é o modo mais seguro para se preparar para o cuidado da pessoa idosa. É preciso também investir na formação de pessoal, além de desenvolver mais pesquisas e práticas, contribuindo, dessa forma, para a enfermagem gerontogeriátrica.

 

DISCUSSÃO

Em relação ao papel da ILPI na vida dos idosos e familiares, em 2026, verificou-se que a instituição desempenha dupla função no atendimento aos idosos. A primeira, está relacionada ao cuidado ao idoso, no que se refere ao atendimento às necessidades dos diferentes graus de dependência e quanto aos programas voltados à diminuição e prevenção de morbidades. Já a segunda, relaciona-se ao aspecto dos vínculos e papéis sociais, seja no convívio no ambiente interno da instituição, seja com a comunidade(9).

Quanto ao atendimento às necessidades dos diferentes graus de dependência, enfatiza-se uma pesquisa de campo em ILPI, no Rio Grande do Sul, que verificou o perfil de 55 idosos institucionalizados, utilizando-se o índice de Katz para Atividade de Vida Diária (AVD) e o índice de Barthel para Atividade Instrumental de Vida Diária (AIVD). As AVDs referem-se às atividades de autocuidado, como alimentar-se, banhar-se, vestir-se, mobilizar-se e manter controle sobre suas eliminações. As AIVDs incluem a capacidade do indivíduo de preparar as refeições, realizar compras, utilizar transporte, cuidar da casa, utilizar telefone, administrar o dinheiro e tomar seus medicamentos. Nela, verificou-se dependência total em 48 idosos para AIVD; quanto à AVD, houve dependência total em um homem e duas mulheres; dependência parcial em nove homens e 22 mulheres; independência em seis homens e 15 mulheres(10). Percebeu-se que a institucionalização havia contribuído para a dependência dos idosos, sobretudo quanto às AIVDs.

Nos próximos 18 anos, a ILPI precisará organizar seus serviços, tendo em vista a satisfação das múltiplas necessidades físicas, emocionais e espirituais que os idosos apresentam, a fim de lhes proporcionar uma vida diária satisfatória, tanto como indivíduos, e como participantes da vida comunitária, incluindo assistência integral à saúde(6).

As ILPIs serão locais que deverão manter as características de um lar. Não deverão ser marcadas pelo isolamento nem serem espaços de uniformização da vida de seus residentes, pois cada ser humano tem especificidades e multidimensionalidades ímpares.

O melhor espaço para a pessoa idosa residir é aquele que oferece conforto, segurança, tranquilidade que supre as necessidades de vida diária, como também atende aos aspectos físicos, sociais e afetivos. Quando se busca um local para viver, um elemento que favorece a escolha é a possibilidade da estrutura da instituição aproximar-se, o máximo possível, a um lar(11).

Além disso, os familiares buscarão instituições que possuam trabalhadores qualificados, com habilidade técnica, conhecimento e disposição pessoal para trabalhar com os idosos. A institucionalização poderá propiciar um convívio social da pessoa idosa com pessoas da mesma faixa etária, permitindo um resgate da autoestima, minimizando o sentimento de solidão(11).

Por representar uma função social significativa, a ILPI precisará manter, à medida do possível um ambiente familiar, permitindo ao idoso um local de moradia especializado, possibilitando que ele traga objetos pessoais e peças decorativas de sua casa, pois, essa atitude fornecerá um toque mais familiar e acolhedor, facilitando o processo de adaptação. Possibilitando ainda a liberdade dos horários de visitas e o acesso de familiares e estimulando o apoio familiar, já que a convivência pode ser uma forma de desenvolver o equilíbrio afetivo entre idoso e sua família(12-13).

Quanto aos desafios para o País no que diz respeito aos cuidados de enfermagem prestados aos idosos institucionalizados, no ano de 2026, percebeu-se a importância da efetivação de políticas públicas voltadas ao atendimento das necessidades da pessoa idosa e também maior disponibilização de ILPI públicas, com acesso universal, visando ao atendimento de grupos com menor poder aquisitivo, que se encontrem em situação de vulnerabilidade e com necessidades de cuidado integral. Esse cuidado direcionado à pessoa idosa deverá acontecer sob parceria da instituição com as famílias e a comunidade.

Atualmente, novas e diferentes instituições estão surgindo, cada uma com sua filosofia organizacional. Muitas investiram na inclusão de ambientes para socialização, valorização da independência e autonomia, preservação da individualidade e respeito à identidade do idoso.

As ILPs têm a obrigação de manter padrões de habitação qualificados, compatíveis com as necessidades dos idosos e de acordo com as normas sanitárias, sob as penas da lei. Essa assertiva tem origem no Estatuto do Idoso, definido pela Lei n.° 10.741 de outubro de 2003, no qual é estabelecido que o idoso tem o direito à moradia digna, no seio da família natural ou substituta, ou desacompanhado de seus familiares, quando assim o desejar, ou ainda, em instituição pública ou privada(14).

A ILPI é uma moradia especializada, cujas funções básicas são proporcionar assistência gerontogeriátrica, conforme a necessidade de seus residentes, integrando um sistema continuado de cuidados. Para que exista a assistência integral do indivíduo, é requerida a presença de uma equipe multiprofissional habilitada para o cuidado à pessoa idosa(6).

É visível o despreparo dos trabalhadores que assistem os idosos institucionalizados, pois não basta o conhecimento de suas necessidades básicas, e sim a busca de fontes diferenciadas de conhecimento. Um aspecto fundamental é o respeito pelos significados que a pessoa idosa tem sobre si mesma, no que se relaciona a seu autocuidado. Os profissionais devem ter como princípio que são os orientadores para a promoção do cuidado ao idoso(15). Mas, essa conscientização dos trabalhadores só se tornará possível, quando eles tiverem esses conhecimentos em sua formação ou se os adquirirem durante a ação cuidativa, por meio da educação permanente.

Nos cuidados de enfermagem necessários para os idosos residentes em ILPI, em 2026, verificou-se que os problemas de saúde mais citados pelos idosos foram referentes à dor nas articulações, dificuldades visuais e doenças cardíacas. Desse modo, há necessidade de ajudar os idosos em suas AVDs(16). A dependência, a perda da autonomia, o comprometimento da realização das AVDs, na maioria das vezes, faz-se presente na idade mais avançada, exigindo mais cuidados. O cuidador precisa de uma estrutura física e emocional bem consolidada, para estar preparado para essa situação(12).

Para melhor cuidar de um idoso institucionalizado, torna-se necessária a implantação do prontuário do residente e da respectiva Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) voltada à saúde do idoso, com atendimento às necessidades de vida diária, manutenção e recuperação das condições de saúde, proporcionando uma qualidade de vida melhor.

Para realizar adequadamente a SAE, é preciso que os enfermeiros tenham conhecimento das teorias de enfermagem, para que as ações originárias da SAE sejam embasadas em conceitos teóricos já consolidados na Enfermagem Nacional e Internacional. Também para que esses profissionais possam, dentre as várias teorias de enfermagem, escolher uma que melhor atenda às necessidades do contexto e dos idosos residentes e os vejam de forma integral.

A Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa, instituída pela Portaria n° 2.528, de outubro de 2006, estabelece que as práticas de cuidado destinadas aos idosos exigem uma abordagem global, interdisciplinar e multidimensional, levando em consideração a grande interação entre fatores físicos, psicológicos e sociais que influenciam sua saúde, além da importância do ambiente em que estão inseridos. As intervenções precisam ser realizadas e orientadas, visando à promoção da autonomia e independência da pessoa idosa, estimulando-a para o autocuidado(17).

Quando as famílias optam pela institucionalização de membro idoso, procuram uma instituição que ofereça um ambiente agradável, com companhia, proporcionando os cuidados necessários e que seja um espaço de convivência e socialização entre os moradores. Os familiares acreditam que, por meio de visitas, podem manter os vínculos afetivos, dar carinho e afeto, conversar, realizarem atividades juntos e fornecerem o suporte financeiro(11). É preciso que as famílias encontrem esse suporte na ILPI, para que se sintam mais tranquilas quanto ao seu idoso institucionalizado.

A realização dos cuidados de enfermagem para os idosos residentes em ILPI, no Brasil, no ano de 2026, requer equipe multiprofissional devidamente preparada para atuar na ILPI, com trabalhadores de enfermagem capacitados, para melhor atender às especificidades desse segmento populacional.

Na maioria das vezes, as ILPIs não apresentam pessoal nem recursos materiais e físicos suficientes para o atendimento aos idosos. Em algumas, o trabalho é realizado por cuidadores não qualificados para trabalhar com essa população. Para melhorar a qualidade de vida dos idosos, torna-se necessária a presença do enfermeiro e sua equipe, médico, nutricionista, assistente social, psicólogo, terapeuta ocupacional, entre outros, visando, assim, atender às necessidades de saúde, alimentação, lazer, higiene e repouso, proporcionando a manutenção da funcionalidade e, consequentemente, uma boa qualidade de vida.

Faz-se interessante que os empresários e administradores das ILPIs contratem o enfermeiro, garantindo, desse modo, aos idosos residentes, um cuidado qualificado. Isso também proposrcionaria à equipe de enfermagem segurança no desenvolvimento de suas ações e um serviço com competência. Torna-se importante que os órgãos responsáveis pela legislação de enfermagem, em nível nacional e regional, procurem assegurar aos enfermeiros a plena atuação nessas instituições para idosos, oferecendo-lhes um novo campo de ação e condições para melhor desempenho das atividades dos trabalhadores de enfermagem(6).

O principal requisito para o enfermeiro que quer trabalhar em ILPI é conhecer o processo de envelhecimento, para atingir dois objetivos. O primeiro, é determinar ações que possam atender integralmente às necessidades expressas e não expressas do idoso, resguardando, ao máximo, os princípios de autonomia e independência. O segundo é capacitar os membros da equipe de enfermagem, a fim de instrumentalizá-los a executarem as ações do cuidado ao idoso com sensibilidade, segurança, maturidade e responsabilidade(6).

A educação no ambiente de trabalho é uma estratégia fundamental para o desenvolvimento dos profissionais, visando à manutenção de trabalhadores qualificados, para garantir uma assistência mais adequada aos institucionalizados. A busca pelo aperfeiçoamento da qualidade da assistência acontece, dentre outras formas, por meio da incorporação de teorias de enfermagem, da implementação da sistematização da assistência, ainda, pela utilização do manual de normas e rotinas(18) e, sobretudo, por meio da sensibilização permanente dos trabalhadores quanto ao que os idosos residentes demandam e os cuidados correspondentes.

Quanto à preparação do enfermeiro brasileiro para enfrentar adequadamente o cuidado de enfermagem para os idosos residentes em ILPI, no Brasil, em 2026, verificou-se que o ensino a respeito da Saúde do Idoso, Enfermagem Gerontogeriátrica ou Enfermagem em Geriatria e Gerontologia, vem sendo implantado e implementado baseado nas sugestões das Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em Enfermagem. Estas Diretrizes declaram que a assistência de enfermagem contempla "conteúdos (teóricos e práticos) em nível individual e coletivo prestada à criança, ao adolescente, ao adulto, à mulher e ao idoso"(19).

A presença das universidades ocorre por meio de estratégias pedagógicas, que incluem atividades práticas no contexto da ILPI. Essa presença potencializa a práxis dos trabalhadores, já que, muitas vezes, a presença dos estudantes permite a realização de atividades que eles não conseguem implementar, pelo acúmulo de tarefas. Além de ser uma possibilidade de ampliação do quadro, que qualifica o atendimento integral aos idosos. A relação de parceria entre as instituições de ensino superior e ILPIs só pode ser solidificada por meio de ações contínuas, estabelecendo-se projetos de extensão(9) e outras ações.

Na ILPI, torna-se importante a presença de estudantes de cursos técnicos de enfermagem, assim como da graduação e pós-graduação, visando à relevância do futuro trabalhador com os idosos, capacitando-os nas questões gerontológicas, sensibilizando-os no cuidado ao idoso, contribuindo com a melhoria do cuidado prestado(6) e, sobretudo com a renovação da prática por meio de estudos e pesquisas.

Os trabalhadores que assistem os idosos precisam ser capazes de saber e fazer o cuidado específico do idoso. Espera-se que eles tenham capacidade para compreender, responder e manter um diálogo com a pessoa idosa, assistindo e considerando suas peculiaridades(15). E também necessitam estar sempre procurando reciclar-se, participando de eventos, lendo materiais novos, para propiciarem um cuidado de enfermagem mais adequado às reais necessidades dos idosos residentes.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo do estudo foi atingido, uma vez que foi possível identificar a percepção dos enfermeiros a respeito dos cuidados de enfermagem destinados aos idosos residentes em ILPIs, contribuindo para a Enfermagem Gerontogeriátrica, como também para melhoria da saúde dos idosos.

A metodologia prospectiva - elaboração de cenários futuros permitiu o conhecimento e a opinião dos participantes sobre o papel e a importância da ILPI na vida dos idosos que residem nessas instituições, em 2026.

A análise dos dados por meio do DSC, permitiu a identificação de desafios que os enfermeiros e a enfermagem necessitam superar para que possam influenciar, de modo positivo nas transformações decorrentes do processo de envelhecimento e no que se refere ao cuidado de enfermagem direcionado à pessoa idosa.

A atuação dos enfermeiros na saúde da pessoa idosa poderá centrar-se na promoção da vida e em educação em saúde. A manutenção da capacidade funcional será o foco do cuidado à pessoa idosa institucionalizada. Os trabalhadores da ILPI irão estimular os residentes, favorecendo a independência em suas atividades diárias.

O ensino da Enfermagem Gerontogeriátrica deverá possibilitar ao enfermeiro o devido preparo, visando a um cuidado centrado na promoção da saúde, estimulando a independência, o autocuidado e a conservação da capacidade funcional. Assim, torna-se necessário maior investimento na produção científica, nas questões do envelhecimento e cuidados de enfermagem voltados à pessoa idosa.

Acredita-se na necessidade de desenvolver um estudo com os enfermeiros que atendem às pessoas idosas residentes em instituições de longa permanência, a fim de verificar como esses profissionais percebem o cuidado de enfermagem prestado, suas dificuldades, limitações e os desafios que enfrentam para proporcionar uma assistência de enfermagem qualificada a essa população.

 

REFERÊNCIAS

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Autor Correspondente:
Bárbara Tarouco da Silva
Av. Silva Paes, 110 - Centro
Rio Grande - RS - Brasil - CEP. 96200-340
E-mail: barbaratarouco@yahoo.com.br

Artigo recebido em 01/04/2009 e aprovado em 20/08/2010

 

 

* Artigo originado da dissertação de mestrado "Percepção das pessoas idosas sobre a institucionalização e possibilidades de serem cuidadas pelos enfermeiros nas ILPIs, no ano de 2026", sustentada em novembro de 2008, no Programa de Pós-graduação em Enfermagem, da Universidade Federal do Rio Grande (FURG).