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Acta Paulista de Enfermagem

Print version ISSN 0103-2100

Acta paul. enferm. vol.24 no.3 São Paulo  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-21002011000300011 

ARTIGO ORIGINAL

 

Influência recíproca entre atividade profissional e vida familiar: percepção de pais/mães*

 

Influencia recíproca entre actividad profesional y vida familiar: percepción de padres/madres

 

 

Laurelize Pereira RochaI; Marlise Capa Verde de AlmeidaII; Mara Regina Santos da SilvaIII; Marta Regina Cezar-VazIV

IPós-graduanda (Mestrado) do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem/Saúde da Universidade Federal do Rio Grande - FURG. Rio Grande (RS), Brasil
IIPós-graduanda (Doutorado) do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem/Saúde da Universidade Federal do Rio Grande - FURG. Rio Grande (RS), Brasil
IIIDoutora em Enfermagem. Professora Associada da Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande - FURG. Rio Grande (RS), Brasil
IVDoutora em Filosofia da Enfermagem. Professora Associada da Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande - FURG. Rio Grande (RS), Brasil

Autor Correspondente

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Mensurar a influência, tanto da vida familiar na atividade profissional como da atividade profissional na vida familiar.
MÉTODOS: Estudo exploratório descritivo de abordagem quantitativa, que utilizou um questionário com duas versões - feminina e masculina - aplicado em amostra de 92 casais com filhos de idade até seis anos, residentes na cidade do Rio Grande - RS.
RESULTADOS: Constatou-se que o cansaço físico e mental relacionado ao trabalho, influenciou nas tarefas familiares, causando desânimo e irritabilidade. Os homens apresentaram maior preocupação com o pouco tempo disponível em família em razão da profissão. Visualizou-se como muito influente o apoio familiar, tornando o diálogo contribuinte na resolução dos problemas profissionais e na criação de um ambiente propício ao enfrentamento dos desafios impostos pelo trabalho. Os pais consideraram que a vida familiar não prejudica sua atividade profissional, mas referiram influência do pensamento familiar no trabalho.
CONCLUSÃO: Poucas influências foram identificadas que prejudicam a conciliação entre vida familiar e atividade profissional, o que, no geral, contrariou demais estudos encontrados na literatura.

Descritores: Relações familiares; Trabalho; Pré-escolar


RESUMEN

OBJETIVO: Medir la influencia, tanto de la vida familiar en la actividad profesional como de la actividad profesional en la vida familiar.
MÉTODOS: Estudio exploratorio descriptivo de abordaje cuantitativo, que utilizó un cuestionario con dos versiones - femenina y masculina - aplicado en una muestra de 92 parejas con hijos de edad hasta seis años, residentes en ciudad de Rio Grande - RS.
RESULTADOS: Se constató que el cansancio físico y mental relacionado al trabajo, influyó en las tareas familiares, causando desánimo e irritabilidad. Los hombres presentaron mayor preocupación con el poco tiempo disponible para la familia en razón de la profesión. El apoyo familiar se visualizó como muy influyente, volviéndose el diálogo como contribuyente en la resolución de los problemas profesionales y en la creación de un ambiente propicio para el enfrentamiento de los desafíos impuestos por el trabajo. Los padres consideraron que la vida familiar no perjudica su actividad profesional, sin embargo refirieron influencia del pensamiento familiar en el trabajo.
CONCLUSIÓN: Pocas influencias fueron identificadas como perjudiciales a la conciliación entre vida familiar y actividad profesional, lo que, en general, se opone a estudios encontrados en la literatura.

Descriptores: Relaciones familiares; Trabajo; Preescolar


 

 

INTRODUÇÃO

A criação dos filhos está imersa na realidade social em que vive a família; é moldada por valores e crenças presentes nas relações interpessoais estabelecidas e nos diversos núcleos familiares, fazendo, assim, com que a experiência da criação seja determinada por esse contexto(1). Na particularidade do crescimento de crianças com idade inferior à escolar, visualiza-se a implementação de ações que subsidiem o adequado desenvolvimento infantil, fazendo-se necessário, para tanto, o envolvimento intenso dos pais em ações que visem a estimular a criança e propiciem maior integração com o meio social em que está inserida(2).

As atividades profissionais dos pais são apresentadas, como elemento atrelado ao desenvolvimento infantil, em razão da influência que causam à relação familiar. Estas atividades estão inseridas na reestruturação do mercado de trabalho, que conformou modificações organizacionais importantes, como a reorganização estrutural do emprego, a maior precarização das relações de trabalho e da renda familiar, a ampliação do envolvimento do trabalhador nas instituições de trabalho, entre outras(3).

As interferências no cotidiano profissional e familiar acarretadas são observadas pela inserção cada vez maior dos pais em seu contexto de trabalho, que tendem a ter ampliadas suas responsabilidades/competências, contribuindo para um maior desempenho profissional, mas, ao mesmo tempo, acarretando menor interação familiar. Estudos apresentam a maior permanência dos pais no ambiente de trabalho(4), a exposição destes às situações estressantes, conduzidas pela ocorrência de conflitos laborais(5) e o desenvolvimento de determinadas atividades - por exemplo, a atuação em turnos(6) - como práticas que diminuem a convivência com os filhos.

As condições de trabalho impostas aos pais, portanto, interferem em sua disponibilidade no desenvolvimento de ações que contemplem o adequado crescimento e desenvolvimento dos filhos. Estudos(6-7) apresentam o sentimento de constrangimento desses pais em decorrência do desejo insatisfeito de realização pessoal e não atendimento efetivo de seu papel na vida familiar.

Por conseguinte, constata-se que os diferentes tipos de organizações familiares estabelecidos pelas características sócioculturais de certos países podem colaborar para atenuação ou intensificação das relações interacionais. Estudos(7-8) apresentam a existência de estruturas familiares mais modernas, nos quais os pais trabalham por uma estabilidade maior de sua família e procuram deixar seus filhos em instituições cuidadoras ou aos cuidados da família estendida, como avós, tias e primas, permitindo, assim, que ambos trabalhem e contribuam no equilíbrio econômico do lar, corroborando para maior harmonia e interação entre os membros.

Por outro lado, o estudo que investigou a conciliação entre trabalho e filhos, na realidade de cinco países(8), identificou também características de famílias mais tradicionais, nas quais a relação de gênero está fortemente presente nas sociedades, delegando o sustento familiar à figura paterna, considerada "chefe de família" e os cuidados dos filhos, à mãe. Isso se justifica pela ausência de confiança nas instituições cuidadoras; por acreditarem que o desenvolvimento afetivo sofra influências negativas em razão da distância entre mães e filhos na primeira infância; e também pela influência da atribuição materna de cuidado aos filhos, ainda presente em muitas famílias. Nesse sentido, um estudo(9) apresenta que determinadas condições de saúde e vida dos filhos não estão relacionadas a fatores socioeconômicos, mas, às condições de vida, alimentação, habitação, acesso a serviços de saúde entre outros estabelecidos, de acordo com o estilo de vida das mães.

Na realidade brasileira, foi contextualizado um estudo que investigou a percepção dos filhos sobre suas mães, mulheres trabalhadoras(7). E aponta que a situação trabalhista exige até mesmo a inserção da família estendida no mercado de trabalho, impedindo o apoio familiar no cuidado às crianças. A situação referida pode desenvolver um sentimento de culpa nos pais, por não estarem presentes por maior período de tempo com seus filhos.

É oportuno destacar também a relação de reciprocidade no contexto, percebendo que alguns aspectos familiares interferem no desenvolvimento do trabalho, como nos momentos em que se faz necessário o afastamento dos pais para resolução de necessidades relativas à família ou nos casos que envolvem o processo saúde-doença, igualmente apontados em estudos realizados(6,10-11). Além disso, autores(12) sustentam que o relacionamento familiar propicia a construção da identidade pessoal e profissional, por meio da relação entre as gerações, que congregam rituais e rotinas contínuos no núcleo familiar e fornecem características relevantes para definição do comportamento pessoal, profissional e social. Ressalta-se ainda que a idade inferior à pré-escolar, é o momento em que as informações são absorvidas e colocadas em prática, formando, assim, a personalidade da criança. Estudo apresenta que a enfermagem brasileira deve visualizar a família como objeto de sua assistência e para isso necessita buscar conhecimentos sobre as características e condições em que a família vive para intervir positivamente(13).

O presente estudo foi motivado pelo interesse de conhecer a influência da reciprocidade entre atividade profissional e vida familiar, na perspectiva de pais e mães com filhos menores de seis anos. Partindo da premissa de que a faixa etária em questão necessita de apoio familiar, ao mesmo tempo, em que a família precisa de estabilidade financeira. Assim, elaborou-se a seguinte questão norteadora: Como se apresenta a influência da reciprocidade entre atividade profissional e vida familiar, na perspectiva de pais e mães com filhos de até seis anos? Para respondê-la, foi estabelecido o objetivo de analisar o grau de exigência dos elementos influenciadores da relação recíproca entre atividade profissional e vida familiar, com base nos seguintes objetivos específicos: mensurar a influência, tanto da vida familiar na atividade profissional como da atividade profissional na vida familiar.

 

MÉTODOS

Trata-se de uma pesquisa de caráter exploratório e descritivo com abordagem quantitativa, cuja origem situa-se em um macroprojeto intitulado "Vida familiar e profissional - entre as responsabilidades e as demandas enfrentadas pelos pais na sociedade contemporânea"(14), iniciado por um grupo de pesquisadores da Universidade do Porto/Portugal e que vem sendo desenvolvido por grupos de pesquisa de outros países, inclusive do Brasil. Em nosso País, o desenvolvimento deu-se no município de Rio Grande, localizado no extremo sul do Rio Grande do Sul e teve como amostra 92 casais, buscando pesquisar a conciliação entre vida familiar e profissional de casais com filhos com idade até seis anos.

Os critérios de inclusão para a seleção dos sujeitos foram: residência no município, onde o estudo foi realizado; inserção de ambos os pais no mercado de trabalho; ter pelo menos um filho com idade até seis anos e concordância com a participação no estudo, mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Para a coleta de dados, utilizou-se um questionário com duas versões, feminina e masculina, tendo por base os seguintes tópicos: profissão, divisão de tarefas, vida familiar, estratégias para conciliação, vida pessoal, vida em comum e dados sociodemográficos. No ano de 2006, foi adaptado à realidade local do município de Rio Grande, tendo em vista que a versão original foi elaborada em outro contexto sociocultural, econômico e político, por pesquisadores da Universidade do Porto/Portugal, em 2003(14).

De acordo com os objetivos deste artigo, foram abordadas sete questões relativas à Influência da Atividade Profissional na Vida Familiar e outras sete relacionando a Influência da Vida Familiar na Vida Profissional, que foram respondidas por meio de uma escala do tipo Likert. Segundo esta escala, as respostas são graduadas, conforme variações entre zero (0) e quatro (4), expressando opiniões entre dois extremos: nada exigente ou influência nula (0) e muito exigente ou influência extrema (4). As demais variações da escala refletem os níveis: quase nada exigente ou pouca influência (1), um pouco exigente ou média influência (2) e exigente, mas não demasiado ou muita influência (3).

As entrevistas foram realizadas nas residências dos sujeitos da pesquisa, mediante agendamento prévio de data e horário, sendo a maioria feita em finais de semana, em 2008. Antecedendo à coleta de dados, foi realizado o treinamento de bolsistas, a fim de instruí-los para execução da atividade. Para processamento e análise dos dados, foi utilizado o programa estatístico Statistic Package for Social Sciences (SPSS) versão 16.0. Conforme os preceitos da Resolução n.º 196/96, o macroprojeto foi aprovado pelo Comitê de Ética da instituição envolvida (Processo n.º 23116.003244/2008-16).

 

RESULTADOS

Para a exposição dos resultados sobre a influência da reciprocidade entre atividade profissional e vida familiar, serão apresentadas três etapas: caracterização dos sujeitos, influência da atividade profissional na vida familiar e influência da vida familiar na atividade profissional.

Caracterização dos sujeitos

Participaram como sujeitos da pesquisa 92 casais com filhos até seis anos de idade. Com relação à faixa etária, 45,7% das mães tinham idade entre 20 e 29 anos e 42% dos pais, idade entre 30 e 39 anos.

Já com relação à atividade profissional, 13,2% de mães exerciam a docência, como professoras de ensino fundamental, médio, educação especial e disciplinas isoladas, caso da Matemática, por exemplo. Além destas, 13,2% desempenhavam cargos em serviços gerais, como setores de higienização de hospitais e domicílios; 8,8% das mães atuavam na área de enfermagem como enfermeiras ou técnicas de enfermagem, 5,5% eram domésticas e 7,7% operavam em setores comerciais.

Já na realidade dos pais participantes do estudo, de acordo com a maior frequência, 7,6% atuavam no setor comercial, como vendedores, atendentes e comerciantes; 6,5% trabalhavam como motoristas; 5,4% atuavam na segurança residencial, nas funções de vigilantes e porteiros e 5,4% desenvolviam atividades que podem ser consideradas "braçais", como a de pedreiros, lenhadores e pintores.

Influência da atividade profissional na vida familiar

Os resultados obtidos relacionaram as afirmativas que envolveram a influência da atividade profissional na vida familiar e permitiram visualizar maior evidência do cansaço físico e mental relacionado ao trabalho. Isso porque em ambas as afirmativas, os pais e mães responderam no sentido da presença de tais fatores na causalidade de desânimo e irritabilidade nas atividades familiares. Os resultados correspondentes podem ser visualizados nas Figuras 1 e 2 que ilustram as freqüências de resposta:

 

 

 

 

Nesse sentido, destaca-se que a maioria das mães entrevistadas (35,4%), conferiu muita influência (3) ao cansaço na realização de tarefas domiciliares, e para o mesmo quesito, 33,7% dos pais uma influência média (2). Na referência ao estresse, percebeu-se que 39,2% das mães, atribuíram muita influência (3) e 28,3% dos pais, média influência (2), afirmando que um dia de trabalho estressante contribui para sua irritabilidade.

Ao considerar a diminuição do tempo disponível para as atividades familiares em razão da atividade profissional, 30,4% das mães atribuíram influência média e 28,3% dos pais, muita influência. Sob a perspectiva de que a influência das atividades realizadas no trabalho torna as conversas no núcleo familiar mais interessantes, 30,4% das mães e 27,2% dos pais atribuíram influência média a esse tema, respectivamente.

Não obstante, a realização de tarefas no trabalho, como auxílio para lidar melhor com os problemas em casa foi apontada como de influência média por 34,2% das mães, ao passo que 27,2% dos pais conferiram influência nula e ainda outros 27,2%, pouca influência. Verificou-se também a utilização de capacidades profissionais nas atividades domiciliares, com uma influência nula, correspondendo a 26,6% das mães e a 29,3% dos pais, comprovando uma tênue variação entre as opiniões dos pais e mães entrevistados.

Concluindo esta categoria, questionou-se o aspecto de não se desvincularem das preocupações profissionais no período em que se encontram em casa, atribuindo-se pouca influência para 29,1% das mães, e 23,9% dos pais conferiram influência nula e outros 23,9%, pouca influência.

Influência da vida familiar na atividade profissional

Nesta categoria, foi possível visualizar a influência da vida familiar na atividade profissional. Destacam-se como fatores mais relevantes, a existência de afeto e consideração na relação familiar, o que apodera o indivíduo com uma maior autoconfiança para desenvolvimento da atividade profissional, e a negação de que o exercício de responsabilidades familiares diminui a dedicação à atividade profissional. Os fatores citados constituem situações dessemelhantes, embora presentes no envolvimento familiar, um representando a contribuição sentimental da família e o outro, o desempenho de atividades de cuidado no sentido de compromisso com a família e com o lar. A frequência de respostas relativas à estas condições são ilustradas nas Figuras 3 e 4:

 

 

 

 

Conforme os dados das figuras apresentadas, a maior frequência refere-se a ambos os sexos, visto que 47,8% dos pais e 49,4% das mães atribuíram uma influência extrema (4) ao primeiro fator, e 50% dos pais e 36,74% das mães reportaram influência nula (0) ao conteúdo do segundo, referente à diminuição da dedicação profissional pelas responsabilidades familiares.

Além destes, destaca-se a conversação familiar, especialmente, no que se refere ao diálogo do casal. Observou-se que 45,6% das mães relataram influência extrema na conversa com o companheiro, como auxílio na resolução dos problemas profissionais, ao passo que 41,3% dos pais atribuíram o mesmo nível de influência à questão.

Por conseguinte, a maioria dos pais e mães percebe que situações de estresse em casa não geram consequências profissionais, visto que 43,5% dos pais e 41,8% das mães referiram nula a influência do estresse familiar, como causador de irritação no emprego. Ao contrário, a família pode proporcionar um ambiente de descanso e de suporte para enfrentamento dos desafios profissionais dos indivíduos. Nesse sentido, pais (41,3%) e mães (32,9%) consideraram influência extrema para o fator em destaque.

Com relação à conexão familiar quando do exercício do trabalho, destaca-se que pais e mães têm conseguido desvincular-se com maior propriedade, pois 34,2% e 30,4%, respectivamente, consideraram uma influência média tal situação.

Por último, apresenta-se a interferência do ciclo sono-vigília na interação dos membros familiares. Relacionada a isso, encontra-se a questão das atividades em casa poderem interferir no sono do casal, e quando questionados a este respeito, 35,9% dos pais atribuíram influência nula, e 29,1% das mães consideraram muita a influência desse fator.

 

DISCUSSÃO

A relação recíproca entre atividade profissional e vida familiar na referência dos pais entrevistados demonstrou a presença de cansaço físico e mental, como influência da atividade profissional na vida familiar, em um grau intermediário de exigência; e a afetividade da família como fonte de apoio, no tocante à influência da vida familiar na atividade profissional, pela maior frequência referida no grau de exigência máximo. Dessa forma, destaca-se que o cuidado aos filhos pequenos envolve interferências, tanto em relação aos aspectos físicos/fisiológicos dos pais como aos elementos psicossociais.

Assim, considerando os resultados que demonstram a influência do trabalho na produção do cansaço físico e mental dos indivíduos, as mulheres apresentaram com mais frequência tal aspecto, pertinente à presença de indisposição e irritabilidade no ambiente familiar. Isso pôde ser verificado também em estudo com trabalhadoras da área da saúde, no qual esses fatores relacionam-se às jornadas de trabalho e às relações interpessoais no ambiente familiar, que propiciam ao trabalhador sentir-se angustiado, incompreendido, cansado, tornando-o mais irritável(15).

Na relação recíproca, os pais apontaram que as adversidades na família não geram estresse para o desenvolvimento do trabalho, achado contrário ao apresentado em estudo(10) que aponta a mudança de planos inerentes às atividades profissionais, à saída precoce do ambiente de trabalho e ao pensamento contínuo na família inserido no ambiente laboral como produtores de estresse e de mau humor no trabalho.

Com relação ao menor tempo disponível com a família em razão das obrigações e horários de trabalho, verificou-se a preocupação dos pais com a diminuição de seu envolvimento nas atividades familiares. Visto por esse ângulo, os pais podem estar avaliando a qualidade do seu papel paterno, diante das condições impostas por seu trabalho, conforme verificado em estudo(6). Já na realidade das mães, outro estudo(16) sustenta a diminuição do tempo em família pela sobrecarga de trabalho. Nesse ponto, as mães trabalhadoras apresentaram maiores preocupações com o pouco tempo que possuem para dedicar-se aos filhos e ao cônjuge.

Na relação recíproca, há uma negação da influência das responsabilidades domiciliares na dedicação profissional, por meio da influência nula atribuída pela maioria dos sujeitos entrevistados, especialmente, pelos homens. Colabora com esse achado o estudo que investigou trabalhadoras de enfermagem(11) e descreveu a diminuição de desempenho laboral apenas em razão da ausência ao trabalho em decorrência do adoecimento dos filhos. A despeito disso, as trabalhadoras referiram orgulho por estarem sempre presentes em seu ambiente de trabalho, correspondendo às suas responsabilidades profissionais. A situação pode configurar o reflexo da necessidade de autoafirmação feminina ou ainda mostrar a capacidade multifuncional das mulheres no mercado de trabalho.

Considerando os dados obtidos a respeito das atividades no trabalho como influenciadoras nas conversas familiares, tornando-as mais interessantes, faz-se conveniente mostrar que, além da interação dialógica da família ser constituída por rotinas próprias do núcleo familiar, conforme mostra um estudo(12), é possível visualizar a influência profissional na referida interação. Portanto, é plausível indicar que a influência em análise ocorre também pelas atividades na interação dialógica da família.

Na reciprocidade, a interação familiar contribui na formação do comportamento profissional do indivíduo, visto que as características familiares constroem uma estrutura, tanto no desempenho pessoal como profissional(12). Aprimorando o sentido profissional, os achados do estudo retrataram a importância do relacionamento familiar, já que as mães reconhecem como mais frequência a importância do relacionamento conjugal baseado no diálogo entre o casal. Os pais, por sua vez, reconhecem com maior frequência o relacionamento familiar, como um todo, para a constituição de um ambiente de conforto, favorável ao descanso, com o fim de subsidiar o bem-estar no núcleo familiar, de modo a contribuir com o bom desempenho profissional. Pelo que foi afirmado, acredita-se firmemente que o bom relacionamento familiar representa um suporte no desempenho pessoal e profissional.

Além disso, ficou registrado que os pais contam com o apoio familiar, expresso com base na afetividade e consideração, originário de sua relação conjugal e da interação com os filhos, como exigência para um bom desempenho profissional. Nesse sentido, um estudo destaca(10) que somadas à influência positiva da esfera doméstica, tanto a própria esfera profissional, como a comunidade em que a família está inserida, constituem fontes de apoio influenciadoras no desempenho profissional do indivíduo(10).

A pesquisa permitiu visualizar ainda que o trabalho pode influenciar, tanto na resolução de problemas em casa como no aproveitamento das competências profissionais nas rotinas do lar. Logo, o estudo revela que as mulheres expressaram mais fortemente a influência do trabalho na resolução dos problemas familiares, o que foi observado também em uma investigação com trabalhadoras da enfermagem(17), na qual os autores concluíram que determinadas atividades e obrigações inerentes ao trabalho influenciam diretamente no convívio familiar, afastando a profissional da vivência com o cônjuge e os filhos. Em consequência desse afastamento, a resolução de problemas em casa pode tornar-se prejudicada, fato que tende a deixar a mãe-esposa-profissional frustrada, por considerar insuficiente sua participação direta no âmbito familiar(18).

Na mesma direção, estudos apontam a reciprocidade por meio da influência negativa das responsabilidades familiares no trabalho(10,16), especialmente, com relação à diminuição na disponibilidade de tempo para realização de atividades profissionais no lar e por meio de mudanças nos planos de trabalho, decorrentes de situações familiares. Assim, autores(17) que investigaram a percepção de professoras com filhos recém-nascidos, após o retorno ao trabalho, verificaram que a interferência da família na atividade profissional causa a desistência do desenvolvimento de atividades extras à sua rotina de trabalho. O estudo em foco reforça os resultados, visto que, embora a influência retratada tenha sido nula, as mães apresentaram menor frequência.

Já na utilização das competências profissionais nas rotinas de casa, o grau tênue expresso pelos pais e mães é um indicativo do baixo reconhecimento da interferência das atividades profissionais na vida familiar. Mas é aceitável acreditar que os afazeres profissionais interferem na vida familiar de modo proporcional às condições e tipos de trabalho realizados por eles, o que é confirmado por estudo com trabalhadoras da enfermagem, no qual se verificou valorização da profissão, pois, em consequência das atividades desenvolvidas no trabalho, há uma repercussão de maior segurança ao lidar com as tarefas de casa, nas relações familiares e no cuidado com os filhos durante a primeira infância(17).

A respeito dos resultados indicarem a existência de certo grau de desligamento das preocupações profissionais, quando se encontra no ambiente familiar, é possível afirmar pelos resultados desse estudo, que os problemas relacionados ao trabalho não interferem negativamente na vida familiar. Contrapondo tal achado, autores(18) demonstram que mães professoras não conseguem desvincular-se do trabalho, quando estão em casa, em razão das atribuições profissionais exigirem o envolvimento, além do horário do expediente. Para eles, as preocupações do trabalho interferem nas atividades cotidianas e na relação com a família. Pode-se constatar, então, que a preocupação com a vida profissional no âmbito familiar ocorre, porém, com diferentes amplitudes, o que pode ser justificado pelo tipo de trabalho que o pai ou a mãe executam.

Em conjunto com essa ideia, aparecem as preocupações familiares durante o desenvolvimento das atividades profissionais, retratadas com maior frequência pelas mães, mesmo com a identificação de uma influência tênue. As condições apresentadas demonstram mais uma vez que as mães percebem com maior intensidade a influência da família durante o desenvolvimento profissional.

Estudo(18) ratifica esse achado, ao apresentar a ansiedade de mães que necessitam deixar seus filhos em instituições cuidadoras enquanto trabalham. Como a família estendida nem sempre está disponível, muitas vezes, por também estar inserida no mercado de trabalho, os pais recorrem a creches com o intuito de preservarem o cuidado dos filhos durante sua ausência. Mas, os pais mantêm-se vinculados aos filhos em decorrência da preocupação com os cuidados que estão sendo oferecidos nesses locais, gerando sentimentos que podem atrapalhar o desenvolvimento profissional.

Apresentando a atividade familiar na interferência no ciclo sono-vigília do casal, destaca-se que o fato de ter filhos em idade escolar pode conformar dificuldades na conciliação entre o descanso e os horários em que os mesmos estão em casa, especialmente, no trabalho em turno dos pais(6). Os dados apresentados contrariam os resultados obtidos pelo estudo citado, no qual os pais não identificam que a vida familiar interfira no descanso necessário para o bom desempenho profissional. O que pode justificar-se em decorrência da carga horária profissional deles, destacando, por exemplo, que atividades como: pintura, construção civil e atuação comercial, em geral, não envolvem atividades noturnas que possam vir a alterar o ciclo de sono e o descanso dos pais. Já na realidade das mães, que apontaram com maior frequência essa influência, pode-se considerar que a maioria delas é professora, atua na enfermagem ou no serviço de higienização, os quais, muitas vezes, conformam diferentes turnos de trabalho e desempenho de atividades profissionais em casa. Associada a isso, apresenta-se, de forma reiterada, a tendência de transferir os cuidados dos filhos à mãe, especialmente, dos menores de um ano, em decorrência da amamentação e demais atividades inerentes à faixa etária.

No contexto, o caráter quantitativo do estudo viabilizou a identificação de fatores que influenciam a relação existente entre trabalho e família, o que remete à possibilidade do desenvolvimento de estudos qualitativos, com vistas ao aprofundamento das questões específicas do microespaço familiar.

 

CONCLUSÃO

Com relação à categoria "Influência da atividade profissional na vida familiar", constatou-se que, para os pais e mães do estudo, o cansaço físico e mental relacionado ao trabalho influencia de forma a causar desânimo e irritabilidade nas tarefas familiares. Além disso, os pais mostraram-se mais preocupados do que as mães com relação à diminuição do tempo disponível com a família, acarretado pelo cumprimento das atividades profissionais, o que pode ser relacionado ao perfil de tais atividades. Notou-se grau mediano no que se refere à influência do trabalho nas conversas familiares, assim como foi atribuído o mesmo grau na particularidade das mães, por meio do reconhecimento do auxílio do trabalho na resolução dos problemas familiares. O resultado a que se chegou, foi corroborado pelos casais no tocante ao uso das capacidades profissionais na vida familiar, podendo configurar um indicativo de não reconhecimento da referida influência. Concluindo a categoria em foco, verificou-se a questão do não se desvincular das preocupações profissionais no âmbito familiar, E a razão para tanto, pode ser a não interferência dos problemas relacionados ao trabalho na vida familiar desses pais.

Já na categoria "Influência da vida familiar na atividade profissional", pôde-se notar que os pais contam, com o apoio familiar, capaz de gerar autoconfiança por meio de um diálogo familiar que contribua na resolução dos problemas profissionais, bem como com na criação de um ambiente pacífico e fortalecedor para o enfrentamento dos desafios impostos pelo trabalho em seu cotidiano. Além disso, consideram que a vida familiar não prejudica a atividade profissional, nem mesmo no caso da ocorrência de estressores familiares, ao passo que referem certa exigência do pensamento familiar no desenvolvimento profissional. Houve maior variação do grau de exigência quanto ao ciclo sono-vigília, com as mães percebendo maior interferência da família no descanso domiciliar, necessário para o bom desempenho do trabalho.

Dessa forma, constata-se a existência de uma influência recíproca entre vida familiar e atividade profissional, destacando que embora os sujeitos sejam pais com filhos pequenos, foi possível identificar poucas influências que prejudiquem a conciliação das duas instâncias, o que, no geral, contrariou consideravelmente estudos encontrados na literatura.

 

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Autor Correspondente:
Laurelize Pereira Rocha
R. 24 de Maio, 415 - Apto 6
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Artigo recebido em 12/08/2010 e aprovado em 12/12/2010

 

 

* Trabalho oriundo de um macro projeto de pesquisa desenvolvido pelo Grupo de Estudos e Pesquisa de Família, Enfermagem e Saúde da Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande- FURG - Rio Grande (RS), Brasil.

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