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Acta Paulista de Enfermagem

Print version ISSN 0103-2100

Acta paul. enferm. vol.24 no.4 São Paulo  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-21002011000400005 

ARTIGO ORIGINAL

 

Fatores que facilitam e dificultam a entrevista familiar no processo de doação de órgãos e tecidos para transplante*

 

Factores que facilitan y dificultan la entrevista familiar en el proceso de donación de órganos y tejidos para transplante

 

 

Marcelo José dos SantosI; Maria Cristina Komatsu Braga MassarolloII

IDoutor em Ciências pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo – USP – São Paulo (SP) Brasil
IIProfessora Associada da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo – USP – São Paulo (SP), Brasil

Endereço para correspondêcia

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Desvelar a percepção dos profissionais que atuam em Organizações de Procura de Órgãos sobre os fatores que facilitam e dificultam a entrevista familiar no processo de doação de órgãos e tecidos para transplante.
MÉTODOS: Trata-se de pesquisa qualitativa, na vertente fenomenológica, modalidade "estrutura do fenômeno situado". Participaram do estudo 18 profissionais que atuavam em Organizações de Procura de Órgãos.
RESULTADOS: Após a análise das entrevistas, foram revelados os fatores que facilitam e dificultam a entrevista familiar.
CONCLUSÃO: As proposições que emergiram, revelaram que os fatores que facilitam e dificultam a entrevista familiar estão relacionados ao local da entrevista, à assistência prestada ao potencial doador e aos familiares, aos esclarecimentos fornecidos à família e a manifestação do potencial doador em vida sobre a decisão quanto à doação de órgãos.

Descritores: Transplante; Entrevista; Família; Obtenção de tecidos e órgãos.


RESUMEN

OBJETIVO: Develar la percepción de los profesionales que actúan en Organizaciones de Búsqueda de Órganos sobre los factores que facilitan y dificultan la entrevista familiar en el proceso de donación de órganos y tejidos para transplante.
MÉTODOS: Se trata de una investigación cualitativa, en la vertiente fenomenológica, modalidad "estructura del fenómeno situado". Participaron en el estudio 18 profesionales que actuaban en Organizaciones de Búsqueda de Órganos.
RESULTADOS: Después del análisis de las entrevistas, fueron revelados los factores que facilitan y dificultan la entrevista familiar.
CONCLUSIÓN: Las proposiciones que emergieron, revelaron que los factores que facilitan y dificultan la entrevista familiar están relacionados al local de la entrevista, a la asistencia prestada al donador en potencia y a los familiares, a las aclaraciones dadas a la familia y la manifestación del potencial donador, en vida, sobre su decisión respecto a la donación de órganos.

Descriptores: Trasplante; Entrevista; Familia; Obtención de tejidos y órganos.


 

 

INTRODUÇÃO

O processo de doação de órgãos e tecidos para transplante é complexo(1). O conhecimento, do processo de doação e a execução adequada de suas etapas pelos profissionais possibilitam a obtenção de órgãos e tecidos, a fim de serem disponibilizados para realização dos transplantes(2).

Inúmeros fatores são apontados como causas da não efetivação do doador, porém, autores que avaliam os fatores que condicionam ou intervêm no processo de doação, apontam para a entrevista familiar, como a principal etapa para dar continuidade ao processo de doação(3-5).

A entrevista familiar é definida como uma reunião entre os familiares do potencial doador e um ou mais profissionais da equipe de captação, ou outro profissional treinado, a fim de obter o consentimento à doação(2).

Os profissionais, que começam a realizar entrevistas, desejariam encontrar um conjunto de regras que fossem seguidos. Infelizmente, não é possível estabelecer uma lista de regras infalíveis, pois a entrevista processa-se entre seres humanos, que não podem ser reduzidos a uma fórmula ou padrão comum.

Todavia, a busca pelo aprimoramento das técnicas de entrevista é contínua entre os profissionais que desempenham tal função, pois a entrevista familiar é constantemente apontada por profissionais da área de transplante, como um dos fatores que interferem significativamente na tomada de decisão quanto à doação de órgãos e tecidos(1,6-7).

Na Espanha, país com as maiores taxas de doação no mundo, a entrevista familiar é considerada o fator limitante para o incremento do número de doações(6).

Apesar da relevância atribuída à entrevista, não existem muitas publicações nem investigações a respeito dessa fase do processo de doação. O conhecimento dos fatores que facilitam e dificultam a entrevista familiar para doação de órgãos e tecidos para transplante, pode instrumentalizar os profissionais e contribuir para o desenvolvimento de estratégias, a fim de aperfeiçoar o processo de entrevista para doação.

O objetivo deste estudo foi desvelar a percepção dos profissionais que trabalham em Organizações de Procura de Órgãos sobre os fatores que facilitam e dificultam a entrevista familiar no processo de doação de órgãos e tecidos para transplante.

 

MÉTODOS

Foi realizada uma pesquisa com abordagem qualitativa, na vertente fenomenológica, modalidade "estrutura do fenômeno situado"(8). A adoção do método fenomenológico na pesquisa visou a captar o fenômeno, possibilitando sua compreensão. No presente estudo, a região de inquérito foi a situação de realizar a entrevista familiar no processo de doação de órgãos e tecidos para transplante em Organizações de Procura de Órgãos do Município de São Paulo.

Após a autorização das instituições e aprovação do projeto de pesquisa pelo Comitê de Ética em Pesquisa - Protocolo n.º029/08 da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, os dados foram coletados, sendo solicitada a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido aos profissionais que concordaram em participar da pesquisa.

Foram entrevistados 18 profissionais, em três das quatro Organizações de Procura de Órgãos do Município de São Paulo a coleta de dados foi realizada até o momento em que os dados obtidos passaram a apresentar, na avaliação dos pesquisadores, certa redundância ou repetição. Considera-se que a partir do momento em que haja repetição nos discursos, as descrições serão suficientes para o desvelamento do fenômeno(9).

A obtenção dos depoimentos foi norteada pela seguinte questão: "Fale sobre os fatores facilitam e que dificultam a entrevista familiar no processo de doação de órgãos e tecidos para transplante".

Inicialmente, o contato telefônico foi feito e as entrevistas foram realizadas em dia, local e horário determinados pelos sujeitos da pesquisa. Para caracterização, foi preenchida uma ficha pelos profissionais entrevistados, com os seguintes dados: idade, religião, profissão, titulação, tempo de formado e tempo de atuação na Organização de Procura de Órgãos. As entrevistas foram gravadas com o consentimento dos participantes.

Para a análise do conteúdo dos discursos, as seguintes etapas metodológicas foram utilizadas: o sentido do todo, a discriminação das unidades de significado, a transformação das expressões do sujeito em linguagem do pesquisador e a síntese das unidades de significado transformadas em proposições, possibilitando, assim, o desvelamento da estrutura do fenômeno situado.

Os discursos foram analisados individualmente por meio da análise ideográfica. Pela análise nomotética, buscou-se desvelar as convergências e divergências das unidades de significado interpretadas, em direção à estrutura geral do fenômeno. Na construção dos resultados, foram usados trechos dos discursos para ilustrar os achados. Para a denominação e identificação dos diferentes discursos, utilizou-se a numeração de I a XVIII, com objetivo de preservar o anonimato dos profissionais.

 

RESULTADOS

Participaram do estudo 18 profissionais que vivenciaram a entrevista familiar no processo de doação de órgãos, com idade de 25 a 41 anos, que se denominaram católicos (14), espíritas (2) e evangélicos (2). O tempo de graduação variou de 2 a 14 anos e o de atuação em Organizações de Procura de Órgãos de 2 meses a 13 anos. Dentre esses profissionais, seis eram especialistas em captação de órgãos, seis especialistas em terapia intensiva, quatro especialistas em emergência, um especialista em docência do nível superior e um mestre em Enfermagem.

Aspectos que facilitam a entrevista

Os fatores que facilitam a entrevista, estão evidenciados nas categorias abaixo:

A assistência dispensada aos familiares e ao potencial doador

A assistência adequada ao potencial doador e o acolhimento oferecido aos familiares facilitam a realização da entrevistae requerem o envolvimento da equipe multiprofissional para tratar a família com honestidade e dignidade.

"O que facilita na realização da entrevista, é a assistência que ele vem recebendo desde o início. Isso facilita muito... se a família está sendo orientada, tem sido avisada dos procedimentos que estão sendo realizados... é muito mais fácil [...]". (III)

"[...] a equipe multiprofissional, médicos, enfermeiros têm um papel super importante nesse momento, tem de preparar a família para a questão da perda e facilitar o trabalho do profissional da doação de órgãos". (XI)

"O preparo dessa família ao longo do processo de diagnóstico desse familiar, [...] facilita muito. Outra coisa que facilita [...] é o envolvimento dos profissionais de saúde que estão assistindo aquela família e o potencial doador. [...] as pessoas estarem realmente a fim de dar uma contribuição, de dar uma assistência adequada, de acolher essa família de forma [...] adequada, de forma honesta, de forma digna. [...] isso é importante, dignidade dentro do processo e tratar a família com extrema honestidade. [...] acho que a honestidade dentro do processo com a família facilita muito". (XI)

O esclarecimento dos familiares quanto à morte encefálica

A entrevista é facilitada quando o médico do paciente informa e esclarece os familiares sobre a evolução do quadro do paciente, sobre a suspeita e início do protocolo para comprovação de morte encefálica, sobre a necessidade da realização de dois exames clínicos por médicos distintos e exame complementar para confirmação do diagnóstico, informações essas que possibilitam à família acompanhar, desde o início, a realização dos exames, perceber e aceitar a irreversibilidade do quadro e preparar-se para a morte do paciente.

"[...] Os fatores facilitadores para a realização da entrevista... [...] são [...] quando a equipe do hospital já informou a família sobre a suspeita da morte encefálica e teve todo um acompanhamento, [...] com a equipe multiprofissional, [...] para mim, fica muito mais fácil chegar em uma família e explicar sobre a possibilidade da doação, onde a família já sabia que se encontrava com a suspeita de morte encefálica e acompanhou todo o processo, desde a suspeita até a confirmação, [...] a família já tem em mente que, na verdade, não tem mais volta, [...] fica mais fácil de conversar, [...] você já não encontra mais a família revoltada. Na verdade, você já tem aquela família que já está conformada". (IX)

"[...] que facilita a entrevista é a família realmente saber do ocorrido. Do primeiro momento do atendimento. Do que aconteceu, de todo aquele tempo de internação, dar todas as informações corretas [...]". (XVII)

"Facilita quando todos que trabalham ali dentro, estão orientados quanto ao processo, ao protocolo e para dar uma melhor informação para a família, porque informação é tudo". (XIV)

A linguagem utilizada pelo entrevistador

O uso pelos profissionais de uma linguagem clara, honesta e adequada a cada família facilita a entrevista.

"A forma como o médico transmite a informação, também é muito importante e a forma como a gente vai falar com a família também... adequar a linguagem para cada tipo de família". (V)

O estado emocional dos familiares e o desejo do potencial doador, quanto à doação de órgãos

A entrevista é facilitada quando os familiares encontram-se calmos e quando o potencial doador, em vida, declarou-se doador de órgãos.

"Para mim [...] uma família que esteja tranquila, [...] acho que facilita bastante a entrevista". (VII)

"[...] quando o doador, o provável doador, ele manifesta já em vida, tudo fica mais fácil. A família já vem com o intuito de falar... não... você falou em morte encefálica, a pessoa fala: "pode doar os órgãos dele? "Aí fica mais fácil". (VI)

O local da entrevista

A existência de um local adequado facilita a realização da entrevista. O ambiente deve ser confortável, calmo, acolhedor com o intuito de evitar a agitação do setor, que pode dificultar a compreensão das informações e distante do local onde o doador está internado, para que a família não o observe, durante a entrevista.

"[...] o que facilita é ter um local adequado [...] um local onde seja tranquilo para você conversar com a família [...]". (II)

"[...] o ambiente para mim, eu acho interessante... um ambiente calmo, tranquilo, longe desse doador; não próximo a ele, porque a família vai estar vendo. Já é um impacto muito emocionante... e você tem que desvincular também toda essa questão de ambiente hospitalar para com a família. Eu acho que ela fica muito assim... se ela está dentro de uma emergência, dentro de uma UTI, no horário de visita, todo aquele movimento, realmente, faz com que ela não compreenda essas informações". (IV)

Aspectos que dificultam a entrevista

Neste trabalho, foi explicitado que os fatores que dificultam a entrevista estão relacionados ao local ao esclarecimento dos familiares quanto ao diagnóstico de morte encefálica, à assistência dispensada à família e ao potencial doador durante o período de internação, ao momento da entrevista, à postura do entrevistador e ao fato dos familiares não terem conversado, previamente, sobre a questão da doação de órgãos.

O local da entrevista

O ambiente pode dificultar a realização da entrevista. Portanto, um local desorganizado, com ruídos, trânsito de pessoas, ausência de privacidade e inexistência de assentos para acomodar os familiares, como é comum em corredores e em unidades onde os potenciais doadores estão internados, complica a realização da entrevista.

"O que dificulta a realização da entrevista [...] o ambiente!" (IV)

"[...] fazer a entrevista, no meio de um corredor, dentro de uma UTI, com aquele monte de gente passando, conversando... eu acho muito complicado". (VI)

"[...] a nossa realidade não permite que as etapas sejam cumpridas da forma que a gente gostaria. A gente pega muitos hospitais que não têm lugar para você colocar a família, para estar falando [...]". (VIII)

"[...] fazer a entrevista em lugar onde fica um monte de gente passando atrapalha muito!" (XV)

O esclarecimento dos familiares sobre o diagnóstico de morte encefálica

A entrevista torna-se difícil quando a família não foi informada e esclarecida sobre a evolução do quadro e do diagnóstico de morte encefálica.O fato impede seu preparo para a morte do paciente, evidencia descaso da equipe médica para com os familiares e pode gerar resistência da família em relação ao profissional do serviço de captação de órgãos. Algumas vezes, o médico do paciente pode não conseguir esclarecer o diagnóstico da morte encefálica à família. Assim, a responsabilidade em esclarecer à família sobre a evolução do quadro do paciente e do diagnóstico de morte encefálica pode recair no entrevistador, além da responsabilidade já existente, de falar da questão da doação de órgãos.

"[...] o médico fica sempre assim... falando superficialmente com família, aí eu chego e falo que o paciente está em morte cerebral e a família não acredita. A família me questiona, então, para mim esta é a pior situação para a entrevista familiar".(II)

"[...] a nossa realidade não permite que as etapas sejam cumpridas da forma que a gente gostaria. [...] você não consegue médico para estar falando de uma forma esclarecedora sobre o diagnóstico [...] e acaba sobrando toda esta parte para a gente também. Além de falar sobre doação, a gente acaba falando um pouco mais sobre o caso para os familiares [...]". (VIII)

"Os fatores que dificultam o processo de entrevista, [...] a falta de preparo da família pela equipe que está assistindo o potencial doador. Esse é o grande entrave. [...] uma família, em que um médico, em que um enfermeiro, não passou as informações de forma adequada. Por quê ele evoluiu para aquele quadro de morte encefálica? Uma família que está desinformada com relação a morte de seu ente querido. Isso dificulta muito [...]". (XI)

Informações divergentes transmitidas aos familiares, pelo profissional do serviço de captação e pelo médico do paciente podem gerar conflito e dificultar a entrevista.

"[...] quando há informações desencontradas, entre os diversos médicos, entre a equipe do hospital e nós... isso dificulta bastante a entrevista". (V)

"[...] é super complicado porque você fala uma coisa e alguns profissionais do hospital falam outra [...]". (XIII)

A assistência dispensada ao potencial doador e aos familiares

Oatendimento dado ao paciente e aos familiares também pode dificultar a entrevista. Assim, os familiares que não tiveram confiança e acesso ao médico do paciente, que não foram tratados com educação ou que não tiveram autorização para visitar o familiar internado, podem criticar o tratamento recebido no momento da entrevista.

"O que dificulta é o atendimento do paciente no hospital, o primeiro atendimento, como ele está sendo atendido, como ele está sendo cuidado, como os profissionais de saúde estão se relacionando com a família, isso é que prejudica depois na entrevista. [...]. O atendimento no hospital...". (VII)

"[...] o descaso com o potencial doador, o descaso com a família, a falta de acesso ao médico, falta de acesso à informação, falta de segurança nos profissionais envolvidos... é isso". (VIII)

"A assistência que o paciente e a família tiveram durante a internação dificulta na hora da entrevista [...]". (XVIII)

O momento da entrevista

A entrevista pode se tornar difícil quando realizada imediatamente, após a notícia da confirmação do diagnóstico de morte encefálica, pois a família pode não ter condições psicológicas ou estar em estado de choque. A negação da morte do paciente, a crença na reversão do quadro de morte encefálica e a religiosidade também podem dificultar a entrevista.

"Os fatores que dificultam a realização da entrevista [...] quando a gente chega no momento onde a família acabou de receber a noticia... Então, fica muito complicado, porque a família tem um choque, na verdade, acabou de receber a notícia que morreu, que um familiar foi a óbito e, na verdade, alguém já está ali querendo pedir a doação de órgãos, então, às vezes, é meio conflitante para a família". (IX)

"[...] o entendimento da família sobre morte encefálica; os familiares religiosos [...] convictos de que existe um milagre, de que o paciente retornará da morte cerebral [...] familiares que não têm condições psicológicas de entrevista, que não absorveram a morte do ente querido". (I)

"[...] a família fica sem condições emocionais, quando recebe a notícia da morte encefálica... neste momento, é difícil falar de doação com eles." (XVI)

A postura do entrevistador

O profissional realizar a entrevista em pé (posição superior), quando a família estiver sentada (posição inferior) poderá prejudicar a comunicação.Há situações em que o entrevistador fica em uma posição mais elevada que o entrevistado, o que pode dificultar o contato visual com os familiares que, em virtude do momento vivenciado, encontram-se cabisbaixos e chorosos.

"Na maior parte do tempo, eu fico em pé num patamar mais alto que a família; a família sempre tem que ficar olhando para cima e, nesse momento, a família nunca quer ficar olhando para cima; quer ficar olhando para baixo; ela sempre está cabisbaixa, chorosa, então [...] a contemplação da família em mim, no que eu estou falando... é um pouco... existe uma perda... uma perda do que eu estou falando, a família não presta atenção [...]". (II)

A inexistência prévia de diálogo entre os familiares sobre a questão da doação de órgãos

Aausência de diálogo entre os familiares sobre a questão da doação de órgãos pode ser um empecilho para a entrevista.

"[...] quando se tem dúvida ou nunca se falou a respeito da doação... fica mais difícil de conversar com a família, ainda mais se não for num ambiente propício para isso..." (VI)

 

DISCUSSÃO

Os profissionaisque atuam em Organizações de Procura de Órgãos, apontam o ambiente como um dos fatores que pode facilitar ou dificultar a entrevista familiar.

A existência de um local apropriado para realização da entrevista favorece o diálogo entre entrevistador e familiares(10). Assim, recomenda-se que o entrevistador busque e solicite na instituição um ambiente adequado para conversar com a família do potencial doador.

Muitas instituições, por falta de infraestrutura ou da percepção da importância desse aspecto, não disponibilizam um local específico e restrito para acomodar a família durante a entrevista, o que obriga o profissional a utilizar, ainda que considerado inadequado, um corredor, à beira do leito do potencial doador ou qualquer área livre, fato que dificulta a entrevista e pode influenciar na decisão da família.

A atenção dispensada aos familiares e a avaliação que estes fazem da assistência prestada ao paciente também podem facilitar ou dificultar a realização da entrevista. As famílias que consideram a assistência satisfatória, são mais receptivas ao diálogo sobre a possibilidade da doação de órgãos diferente daquelas que ficaram insatisfeitas e que acusam profissionais e a instituição pela morte do paciente, portanto, esses fatores podem influenciar a família na tomada de decisão(11-12).

A família considera a assistência prestada satisfatória, quando observa que o atendimento é adequado e que os profissionais estão empenhados no tratamento do paciente. A observação de que todos os recursos materiais e humanos, necessários à tentativa de recuperação do paciente, são utilizados, ameniza a angústia e conforta a família(11).

Em pesquisa realizada com familiares que vivenciaram o processo de doação, constatou-se que 68,7% dos familiares ficaram satisfeitos com o atendimento prestado à família e ao doador, enquanto 25% mostraram-se insatisfeitos(13). Os dados são corroborados por outro estudo realizado com 69 famílias de pacientes com morte encefálica que revelou que 22 famílias (31,8%) experimentaram sentimentos de desagrado e descortesia da equipe em algum período da internação. As enfermeiras foram impacientes e desinteressadas, e os médicos foram julgados como frios e insensíveis(14).

É lamentável que profissionais de saúde e instituições ainda demonstrem pouca preocupação com o acolhimento e a assistência aos familiares dos pacientes internados.

Outro fator, que facilita ou dificulta a entrevista, relaciona-se ao esclarecimento que os familiares recebem das ocorrências com o paciente, durante o período de internação. A família que é informada do início dos exames para confirmação do diagnóstico de morte encefálica, tem a possibilidade de preparar-se para a morte do paciente(11,13). Mas, aquelas que recebem a informação só após a confirmação do diagnóstico, ficam geralmente chocadas(11).

Uma pesquisa feita com familiares que recusaram a doação de órgãos, identificou situações complexas relacionadas ao período de internação. As dificuldades de acesso às informações, sua baixa qualidade e a contradição de informações, produziu nas famílias um sentimento de abandono e desatenção, agravado pelo desconhecimento da assistência que estava sendo efetivamente prestada ao paciente. Os sujeitos do estudo relataram dificuldades para saber o verdadeiro estado de saúde de seus familiares, fato que parece ter prejudicado a análise das famílias quanto à possibilidade de consentir a doação(15).

O grande desafio para o profissional que trabalha com captação de órgãos e tecidos, é ter competência ética, para garantir a melhoria contínua desse processo, dando ênfase à comunicação adequada entre equipe e familiares(16).

O momento escolhido para conversar com a família do potencial doador também pode dificultar a realização da entrevista, evidenciar despreparo, desconhecimento da equipe e revelar inadequação no processo de doação.

A entrevista é comumente realizada imediatamente, após a informação da morte do paciente(11) e, até mesmo, antes dessa confirmação. No entanto, um estudo evidenciou que, quando a solicitação da doação foi realizada algum tempo após a notificação da morte encefálica, a taxa de consentimento familiar foi de 81%, e a solicitação feita antes ou simultaneamente com a notícia da morte, o índice foi de apenas 50%(17). Assim, os familiares tornam-se mais receptivos, quando a explicação da morte encefálica e o pedido de doação de órgãos são feitos em momentos diferentes(18).

O fato pode ser atribuído ao tempo insuficiente para assimilar a notícia, quando a solicitação para o consentimento ocorre logo após a comunicação da morte encefálica.

As razões religiosas são frequentemente citadas, como barreiras para doação de órgãos, embora a maioria das religiões seja favorável à doação(19). A crença em Deus pode alimentar a esperança da família de que um milagre possa acontecer, mesmo quando o familiar tem ciência da morte encefálica(20). As famílias acreditam que Deus irá devolver a vida de seu familiar, por ser uma pessoa muito boa e empenham-se em promessas, rezas, orações e cultos em busca de um milagre(21).

A crença na reversão do quadro do potencial doador pode ocorrer também em decorrência da presença de batimentos cardíacos, em virtude do exame complementar evidenciar fluxo nas artérias que irrigam o cérebro, em razão de informações equivocadas sobre a melhora do quadro do paciente e pelo fato do paciente estar em uma unidade de terapia intensiva, fatos que aumentam a esperança da família.

Algumas pessoas recusam-se a acreditar que a morte é real. Nessa situação, não é aconselhável solicitar a doação de órgãos, pois poderá ocorrer uma recusa(22). A aceitação da realidade da perda leva tempo e envolve não só a aceitação intelectual, mas também a emocional. A pessoa enlutada pode estar intelectualmente consciente da perda, mas as emoções não permitem total aceitação da informação como verdadeira(23).

A negação da morte, a religiosidade e a crença na reversão do quadro do paciente, além de serem fatores que dificultam a entrevista também são apontadas como motivos para a decisão de recusar a doação de órgãos(20).

O conhecimento da opinião da pessoa falecida facilita a entrevista. Estudos mostram que para as famílias que autorizaram ou recusaram a doação dos órgãos de um parente falecido, o conhecimento do desejo da pessoa, em vida, em relação à doação de órgãos, foi importante e facilitou a tomada de decisão(20,24-25).

Diferente de outros estudos que buscaram identificar os motivos de recusa quanto à doação de órgãos(15,20), este trabalho evidenciou a percepção dos profissionais que atuam em Organizações de Procura de Órgãos sobre os fatores que podem facilitar e/ou dificultar o processo de entrevista. Os resultados explicitam que alguns dos fatores que dificultam a entrevista também são apontados, como motivos de recusa.

Este estudo não teve a pretensão de esgotar o assunto, portanto traz como limitação, a percepção unilateral da entrevista familiar, tendo como sujeito apenas os profissionais entrevistadores que dialogam com os familiares. Assim, torna-se importante, ainda, a realização de estudos, a fim de desvelar a percepção de familiares sobre os fatores que dificultam e facilitam a entrevista para uma melhor compreensão do fenômeno.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os aspectos que facilitam e dificultam a entrevista quanto à doação de órgãos e tecidos para transplante, não podem ser totalmente controlados pelo entrevistador, uma vez que alguns estão relacionados ao desejo manifestado em vida pelo potencial doador, aos esclarecimentos dados aos familiares e às ações que envolvem outros profissionais no período de internação.

O conhecimento desses fatores, permite concluir que, para otimizar a possibilidade da doação no momento da entrevista, deve-se, além de capacitar técnica e cientificamente o entrevistador, implantar programas educativos que estimulem a discussão da questão da doação de órgãos no âmbito familiar e entre os profissionais de saúde e implementar ações que visem a uma assistência digna e humanizada aos pacientes e seus familiares.

 

REFERÊNCIAS

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Autor Correspondente:
Marcelo José dos Santos
R. Cardeal Arcoverde, 388 apto 22 – Pinheiros – São Paulo – SP
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Artigo recebido em 08/04/2010 e aprovado em 03/02/2011

 

 

*Estudo realizado nos Serviços de Captação de Órgãos do Município de São Paulo (SP), Brasil.

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