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Acta Paulista de Enfermagem

Print version ISSN 0103-2100

Acta paul. enferm. vol.24 no.4 São Paulo  2011

https://doi.org/10.1590/S0103-21002011000400007 

ARTIGO ORIGINAL

 

Formação ética do enfermeiro - indicativos de mudança na percepção de professores*

 

Formación ética del enfermero - indicativos de cambios en la percepción de profesores

 

 

Flávia Regina Souza RamosI; Laurete Medeiros BorgesII;Laura Cavalcanti de Farias BrehmerIII; Luciana Ramos SilveiraIV

IPós Doutora em Educação (Universidade de Lisboa). Professora Associada do Departamento de Enfermagem e do Programa de Pós-graduação PEN/UFSC - Florianópolis (SC), Brasil
IIDoutoranda do Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina/PEN/UFSC- Florianópolis (SC), Brasil. Professora do IF/SC
IIIDoutoranda do Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina/PEN/UFSC - Florianópolis (SC), Brasil. Bolsista CNPq
IVMestranda do Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina/PEN/UFSC- Florianópolis (SC), Brasil. Bolsista CNPq

Endereço para correspondêcia

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Discutir os indicativos de mudança identificados por professores no cenário da formação do enfermeiro em relação à sua dimensão ética.
MÉTODOS: Pesquisa do tipo estudo de caso, com abordagem pós-estruturalista, com seleção de seis cursos de graduação em Enfermagem do Estado de Santa Catarina, em que foram desenvolvidos grupos focais com 50 professores.
RESULTADOS: Os professores indicaram mudanças em três diferentes cenários: no cenário da sociedade, da ciência e da academia; no cenário do trabalho da enfermagem e no cenário local, na forma como os alunos se apresentam nesse contexto.
CONCLUSÕES: As mudanças perpassam dimensões locais, nacionais e globalizadas, fomentadas por transformações na estrutura social e política com evidências implicadas no pensar e fazer ético do profissional.

Descritores: Educação em enfermagem; Ética em enfermagem; Ética.


RESUMEN

OBJETIVO: Discutir los indicativos de cambios identificados por profesores en el escenario de la formación del enfermero en relación a su dimensión ética.
MÉTODOS: Se trata de una investigación de tipo estudio de caso, con abordaje post-estructuralista, con selección de seis cursos de pregrado en Enfermería del Estado de Santa Catarina, en el que fueron desarrollados grupos focales con 50 profesores.
RESULTADOS: Los profesores indicaron cambios en tres escenarios diferentes:en el escenario de la sociedad, de la ciencia y de la academia; en el escenario del trabajo de la enfermería y en el escenario local, en la forma cómo los alumnos se presentan en ese contexto.
CONCLUSIONES: Los cambios perpasan dimensiones locais, nacionales y globalizadas, fomentadas por transformaciones en la estructura social y política con evidencias implicadas en el pensar y hacer ético del profesional.

Descriptores: Educación en enfermería; Ética en enfermería; Ética.


 

 

INTRODUÇÃO

No Brasil, a formação profissional em saúde tem colocado a diferentes atores novos e complexos desafios, relativos ao contexto histórico das políticas de educação, da saúde e das configurações do mundo do trabalho. A sempre debatida relação entre trabalho e educação apresenta responsabilidades originais às universidades. No plano nacional, é notável a influência das políticas de saúde sobre o processo de planejamento da formação superior na área. Ao longo dos 20 anos pós-Constituição Federal de 1988, com a garantia do direito universal à saúde e a criação do Sistema Único de Saúde são inúmeros os exemplos de políticas, programas e iniciativas do setor saúde formulados, sobretudo, para inverter a lógica do modelo de atenção à saúde. Estas ações representam uma forte influência nas novas diretrizes curriculares dos cursos da área da saúde, para atender à necessidade de formar profissionais em sintonia com as novas práticas demandadas por um contexto sanitário em transformação.

O presente estudo é parte de uma pesquisa que elegeu duas destas responsabilidades, ou seja, a articulação entre os processos de mudança dos Projetos Políticos Pedagógicos dos cursos de enfermagem, tendo como referência as Diretrizes Curriculares Nacionais e o desafio da formação ética dos enfermeiros. A pesquisa intitulada "A construção discursiva da ética na formação do enfermeiro nas Escolas Santa Catarina", teve como um de seus objetivos: analisar a construção discursiva da ética na formação do enfermeiro, presente nos processos de mudanças curriculares, em relação aos elementos relacionados ao mundo do trabalho, ao mundo da escola e aos modos de articulação desses elementos no fazer educativo. Dentre as diferentes categorias de análise, esse trabalho focaliza-se no tema dos desafios percebidos quanto à inserção da ética na formação do enfermeiro, objetivando, especificamente, discutir os indicativos de mudança identificados por professores no cenário da formação do enfermeiro, especialmente os relacionados com a formação ética desse profissional.

Com frequência, a ética é abordada como disciplina filosófica que se dirige ao estudo da conduta humana, ou seja, como saber racional ou reflexão crítica sobre a ação e a vida moral(1). É comum uma distinção semântica entre moral e ética, embora se faça uso dos termos ética e moral como sinônimos, em consideração a sua etimologia, já que representam a tradução grega e latina da mesma palavra. Para Foucault, a moral tanto pode ser vista como os valores e regras de conduta dirigidas aos indivíduos e aos grupos, como ao comportamento real destes, em sua relação com as regras e valores que lhes são propostos. A ética diferencia-se por ser a relação de si para consigo mesmo, a maneira como constitui a si mesmo, como um sujeito moral de suas próprias ações, em referência aos elementos prescritivos que constituem os códigos morais. Foucault pensa a ética do ponto de vista dos processos de subjetivação, da constituição de um ethos, ou de um modo de ser, que torna o indivíduo um sujeito, por meio do trabalho moral realizado sobre si(2).

 

MÉTODOS

O estudo adotou a abordagem pós-estruturalista de Michel Foucault para a análise de discurso, com base na noção de linguagem, como um sistema de significados constituídos histórica e socialmente. Textos escritos e expressões orais são tomados como reveladores de referências e demarcações de determinados discursos que, por sua vez, operam no interior de disciplinas e práticas sociais em diversas formas e estratégias de poder e intervenção na vida social. Elementos discursivos são construídos por pensamentos particulares e também constroem pensamentos e compreensões particulares, produtores de desdobramentos que não se restringem à esfera textual(3). Assim, os dados textuais (orais e documentais) não se limitam ao lugar de simples variáveis ou ao papel ilustrativo ou descritivo de conteúdos, mas são os próprios conteúdos da reflexão e crítica.

Considerando tais pressupostos, o estudo foi definido por um desenho de pesquisa do tipo estudo de caso, já que esta estratégia de investigação não limita os processos analíticos característicos de estudos pós-estruturalistas. Entende-se que estudos de caso permitem explorar um fenômeno único ou um conjunto de situações/experiências que guardam entre si uma relativa unidade empírica; - sobre o qual se volta com maior profundidade e intensidade; - valorizando o contexto real e complexo em que tal fenômeno situa-se e acontece(4).

Após um levantamento documental sobre os 26 cursos de graduação em Enfermagem do Estado de Santa Catarina, seis cursos foram selecionados, considerando a distribuição geográfica nas diferentes regiões do Estado e um tempo mínimo de funcionamento de seis anos. O convite aos professores ocorreu por meio das coordenadoras de curso, após contato inicial e detalhamento do estudo. Em cada uma dessas seis escolas foi desenvolvido um grupo focal com professores interessados na temática em estudo, totalizando 50 participantes, em grupos que variaram entre cinco e 15 sujeitos. A discussão era mobilizada pela pesquisadora, que propunha questões centrais sobre o tema, em um crescente aprofundamento da interface educação, ética e enfermagem.

As gravações dos grupos focais foram transcritas e compuseram o corpus documental que, após organização, foi tratado por meio do software Atlas-Ti 5.0 (Qualitative Research and Solutions). O programa, denominado a partir da expressão Non-numeric and Unstructured Data – Index, Searching and Theorizing, permite indexar, buscar e teorizar, com base nos dados não numéricos e não estruturados, facilitando a análise qualitativa dos dados, o armazenamento, a exploração e o desenvolvimento de ideias e/ou teorias sobre os dados(5).

O Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Santa Catarina aprovou o estudo (Parecer 075/07); todos os sujeitos expressaram seu consentimento por meio de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

 

RESULTADOS

Indicativos de mudanças amplas: a sociedade, a ciência e a academia

Para a análise das mudanças ocorridas no cenário da formação superior em Enfermagem, os professores identificaram transformações configuradas em dois eixos distintos e inter-relacionados: no plano macro, aponta-se para a globalização e a sociedade da informação; no plano nacional, para as políticas públicas de saúde e educação no Brasil.

Para os professores, os temas oriundos do social não são apenas objetos de discussões, mas passam a funcionar também como agentes de mudanças. A política, o sistema econômico ou a violência são exemplos de temas que intervêm na formação ao mobilizarem novas reflexões. A estreita relação entre saúde e seus determinantes sociais, na realidade globalizada, também ajudou a produzir, como reflexo, discentes e docentes mais críticos.

Conforme os sujeitos da pesquisa, a educação superior em Enfermagem ultrapassou o limite técnico operacional de ajustamento dos novos currículos, passando a gerir exigências cotidianas, oriundas das políticas de saúde, das diferentes realidades e experiências em cada universidade.

Um dos indicativos de mudança expresso pelos professores foi a ciência, ou a ideia de avanço da ciência representado, sobretudo, pelos avanços tecnológicos. As pesquisas científicas e as implicações éticas do conhecimento e a tecnologia constituem matéria das discussões atuais da bioética e são incorporadas ao processo de formação dos profissionais em enfermagem.

"... além das incertezas, nós estamos à frente de uma ciência nova, uma ciência que até tempos atrás se restringia a poucas coisas; hoje, nós temos leituras do DNA, Genoma Humano, Células Tronco. Todas essas mudanças que colocam o ser humano... não só ele, mas todo o meio, o contexto que ele vive, em discussão." (P2)

Em uma perspectiva um pouco diferente, identificou-se uma percepção de mudança relacionada à transição do paradigma científico. Os professores reconhecem que o valor científico cada vez mais é contestado e debatido, não havendo mais espaço para a verdade absoluta. A tarefa de questionamento da ciência prevê maior preparo dos professores frente a um perfil contestador e explorador dos acadêmicos. Saberes antigos e recentes descobertas convivem no ambiente de formação.

Também deste indicativo deriva uma problematização da relação entre ciência e academia, visto que à segunda não cabe mais a exclusividade como agente autorizada a produzir e divulgar o conhecimento. Os professores percebem-se mais determinados para a busca de novas tecnologias e experiências propiciadas por outro tipo de relação com o saber disponível.

"O professor deixou de ser o dono do saber, cada um tem seu conhecimento. Nós somos educadores [...] a ciência em si, ao evoluir tanto, veio trazer facilidades, através de comunicações, informações que a gente não tinha." (P7)

Enquanto um entendimento sobre a academia parece expressar um sentido mais genérico e compartilhado, o cotidiano de trabalho nesse espaço é realisticamente "recontado" por vivências particulares e concretas de alunos e professores. Embora falem de um cenário das universidades relativamente generalizável, os indicativos de mudanças tomam feições bem mais próximas aos micros espaços. No delineamento desse cenário os professores refletiram sobre a formação de enfermeiros, argumentando a respeito das: - influências do mercado de trabalho sobre o ingresso dos discentes e uma superficial apreensão das tendências desse mercado por eles próprios; - uma posição das instituições privadas como empresas e do ensino superior como mercadoria; - uma consequente banalização desta formação, por vezes, atribuível a esta lógica mercadológica e, também, à falta de maturidade do aluno; - finalmente, um adiamento da esperada valorização e compreensão da amplitude e compromissos da formação universitária para momentos "fora da escola", quando o egresso enfrenta dificuldades no processo de trabalho. Deste modo, até mesmo o ingresso em um curso de formação profissional é questionado quanto ás suas motivações.

"Eu (aluno) entrei num curso que parece um curso superior... mas parece que eu vou me matricular ali para fazer um corte e costura, é mais uma coisa que eu estou agregando. E quando você (professor) começa a trabalhar mais amplo surge a barreira... porque parece que isso não diz respeito." (P1)

Os professores admitem que a competitividade entre as instituições formadoras influencia o comportamento no mercado de trabalho. Com o aumento da oferta de cursos e vagas no ensino privado, passa a existir a preocupação com a qualidade do ensino capaz de distinguir os cursos e garantir a sobrevivência dos mais qualificados. Na inserção dos egressos destas escolas no mercado de trabalho, estes sofrem uma espécie de discriminação pela sua procedência. Os professores expressam desconforto quanto à lógica de produção movida pela empregabilidade - como se o valor da formação estivesse em constante processo de diluição, restando apenas sua face de mercadoria; face que banaliza a conquista do aluno em seu processo de formação.

As preocupações demonstradas pelos professores também giram em torno do apoio para a capacitação profissional, gerador de desmotivação por não figurar entre as prioridades das instituições. Isso se processa no mesmo conjunto de mudanças que impulsiona o avanço de universidades, currículos e formas de avaliação, assim como a criticidade de alunos e a consciência de professores sobre a necessidade de capacitação e desenvolvimento de novas competências. Parte desta polêmica tem ligação com o suporte financeiro, mas não deixa de contemplar a importância do planejamento e das discussões coletivas.

"Essa nova estrutura requer tantas preocupações e incentivos, e a instituição não tem financiado, e os professores têm se desmotivado. Por quê? Porque ao menos nós precisaríamos de, por exemplo, muito mais planejamento, discussão." (P1)

Indicativos de mudanças no trabalho da enfermagem

Conforme os entrevistados, há um olhar diferenciado para a formação dos profissionais de saúde, não só fundamentada na competência técnica, mas desafiando as instituições a formarem profissionais educadores, cientistas, pesquisadores. Reforçam a ideia de que esta não é apenas uma exigência do mercado de trabalho, e sim do mundo onde vivemos.

"O mundo do trabalho tem exigido um sujeito diferente [...] para mim, é um momento de pensar eticamente na relação com o outro no trabalho." (P2)

No processo de trabalho, as questões éticas e bioéticas são vistas pelos professores como "algo à parte", desarticuladas das temáticas de sala de aula, como se toda a compreensão do docente ficasse dissolvida ou anulada no momento em que está na prática. Por outro lado, apesar desta avaliação, os professores deixam clara a percepção da existência de importantes questões éticas no trabalho, que exigem o preparo para a reflexão sob pena do enfermeiro formado ser mais um "técnico melhorado".

No contexto do trabalho de enfermagem, os docentes apontam para a necessidade dos profissionais assumirem maiores responsabilidades diante das lutas da categoria e nos processos de mudança. Um tom de crítica aparece quanto ao desinteresse dos profissionais de enfermagem em ações no cenário político. O argumento da enfermagem como "profissão de mulheres" se colocou-se em um duplo sentido, o de reconhecimento da emancipação e os avanços conquistados, lado a lado com uma imagem reproduzida que ainda vincula o feminino ao domínio privado e à precariedade da ação política no domínio público.

"A gente reconhece. Sempre tem a questão da profissão. E nós não temos tempo histórico suficiente para ter mudado isso [...] é uma questão sim de gênero [...] Ai entra a responsabilidade sobre se posicionar. Eu não vejo saída para profissão, a não ser cada ser independente se posicionar para lá na frente ter um somatório. Aquela coisa, a falta de união da profissão." (P4)

O tema da capacidade de influir decisivamente nos rumos da profissão faz com que os professores retomem antigos temas, nunca resolvidos e sempre foco de dissensos e questionamentos. As funções do enfermeiro, entre a assistência e a gerência, por exemplo, são atualizados nos novos campos e modos de trabalhar.

Para os professores, somos hoje desafiados diariamente a refletir sobre o que somos. Duas correntes são visualizadas - uma mais tradicional, na qual o enfermeiro ocupa-se com as tarefas ("têm de fazer") e a outra que valoriza mais a questão humana. Os professores salientam a insuficiência do profissional que valoriza somente o individual, sem uma visão coletiva de tudo que envolve seu trabalho ou que não articula e valoriza o cuidado e o gerenciamento em sua complementariedade.

"[...] e nós, desta segunda corrente, vamos ser engolidos. Que a tendência é isso hoje. Depende de tudo, nosso conceito sobre quem somos, quem é o homem, quem é a mulher..e a questão ética. E isso perpassa a educação." (P7) "[...] temos que preparar gente para cuidar e gerenciar [...] dar valor em referência ao cuidado, mas não pode ser só uma gerência do cuidado [...] se não equilibrar estas coisas tu não serve para o mercado." (P4)

As mudanças que mobilizam os profissionais no desenvolvimento de suas atividades vão desde as discussões sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), a promoção da saúde, os modos de trabalhar e construir relações diferenciadas com outros trabalhadores e, especialmente, com os usuários; estes, por sua vez, também mudaram, têm muito mais consciência de seus direitos, representando mais uma oposição às práticas paternalistas, não acolhedoras ou não humanizadas.

Por outro lado, os professores salientam que a sociedade talvez ainda não tenha um olhar diferenciado para o trabalho da enfermagem, o que é remetido ao estereótipo de docilidade e a não resistência às pressões institucionais (empregadores e mercado de trabalho). A questão do assédio moral é exemplarmente lembrada, como um alerta sobre o vulto que poderá tomar no contexto de trabalho da enfermagem, no momento em que for seriamente problematizado e visibilizado pelos profissionais.

"A pessoa se ressente, mas não faz nada. [...] Sabemos que está errado, às vezes, sofremos, mas não fazemos oposição. Eu acho que, com esta moda do assédio moral, as coisas vão mudar." (P5)

O tema das mudanças no trabalho motiva comparações entre o que os professores vivenciam hoje e a época em que se formaram, refletindo sobre um ambiente de trabalho que "maltratava mais", em contraste com uma atual posição de maior respeito e credibilidade. Ressaltam a parceria com outros profissionais que contribuíram para as relações de trabalho melhores, menos desiguais e mais solidárias.

Diante de todas estas questões, os participantes acreditam que estão oferecendo um ensino de melhor qualidade, preparando profissionais melhores, com maior iniciação para a pesquisa, mais politizados, sensíveis a uma atuação como educadores, pois acreditam que o papel profissional não é definido por um único cenário - no trabalho hospitalar ou na Estratégia de Saúde da Família, e sim em múltiplas e crescentes intervenções e espaços na sociedade.

Quanto às mudanças que hoje percebem, resta questionar, como o fazem e se estão acontecendo em função do próprio papel/perfil profissional em seu campo de trabalho ou como mera adaptação ao contexto. O que se reafirma, é o modo como questões éticas são inalienáveis ao compromisso da educação, permeiam todo o processo educativo e são fundamentais para a construção de novas práticas.

Indicativos de mudanças locais e o aluno neste cenário

Os enfrentamentos vivenciados pelos professores no cotidiano das universidades não são isolados dos processos de transformações que atingem e articulam a ciência, a educação e o trabalho. Nestes contextos, intencionalidades diversas estabelecem aproximações em torno de projetos e certos ideais. O corpo docente percebe-se estimulado a refletir sobre a prática diária nas universidades e serviços de saúde, mas também sente os obstáculos para consolidar propostas de mudanças planejadas ou mesmo construir planos relativamente consistentes.

Quando as Diretrizes Curriculares estabelecem a necessidade de articulação com os demais cursos da saúde, as experiências revelam limites de diferentes ordens. As mudanças são passiveis de conflitos pela complexidade do assunto e por que exigem que os envolvidos estejam comprometidos no movimento de discussão, reflexão e avaliação de ações prioritárias para cada contexto.

A trajetória das mudanças agrega profissionais, há mais tempo na instituição com "os que acabaram de chegar", em uma perspectiva de constituição de um grupo que abrigue e alimente objetivos comuns, mas também a necessária flexibilidade e abertura. Ao mesmo tempo em que consideram estas características grupais, como condições para o trabalho coletivo, os professores percebem-se comprometidos e visionários, pensam em sua qualificação pessoal como contribuição para os fins da formação e da instituição. Sabem que, para crescer, existe uma cadeia de eventos envolvidos e apostam no sucesso do empreendimento coletivo.

Contudo, alguns fatores foram apontados como entraves para o desempenho docente, dentre os quais a limitação geográfica (quando não residem na região) e a forma de contratação sem dedicação exclusiva ou estabilidade, gerando a existência de outros vínculos profissionais e ausência de uma perspectiva da carreira docente.

Em uma análise local, o docente reconhece que ao assumir uma função administrativa, descobre desafios para os quais não possui experiência prévia, o que o leva a perceber o contexto institucional de modo diferente. Espera-se, por exemplo, que projetos pedagógicos propostos com a participação coletiva e a negociação com a instituição recebam o devido apoio e prioridade em sua execução. Quando estas expectativas são frustradas, o docente em cargos de gestão do ensino pode representar um aliado na conquista dos avanços coletivos.

"Então, ele não é um projeto somente daquelas pessoas, se ele foi aprovado nesse molde, é porque a instituição aceitou, e ela tem por obrigação dar subsídios, para que esse modelo aconteça. Infelizmente, não é isso que a gente vivencia hoje." (P4)

Embora percebam maior atenção das universidades com o aperfeiçoamento dos professores, o incentivo institucional não é equiparável ao crescente investimento pessoal em sua própria qualificação. Nas experiências relatadas, tanto a capacitação como a maturidade do corpo docente, adquirida pela convivência e enfrentamento coletivo dos desafios, está se refletindo no desenvolvimento dos discentes.

A constante preocupação com a qualidade dos resultados do trabalho docente e a construção de alternativas pedagógicas é percebida como uma manifestação dessa maturidade. A confiança sobre as conquistas e os impactos positivos alcançados é visualizada, quando os projetos são percebidos e valorizados pela comunidade. Este resultado ainda se mostra em experiências isoladas, colocadas como autoavaliação do próprio corpo docente, dos setores de coordenação acadêmica, dos fóruns profissionais ou do corpo discente.

"Nós estamos num processo de amadurecimento. Até se consolidar como grupo [...], é um processo que não se faz do dia para a noite [...] as coisas aqui têm tudo para dar certo [...]. Se um dia der uma reviravolta, aí, nós vamos achar outros caminhos." (P1)

A formação profissional de nível superior diversifica-se ao construir novas relações entre docente-discente-mundo. Para os professores, o empoderamento está contribuindo para essas novas relações, possibilitando aos discentes maior independência e reivindicação de direitos. O contexto de mudança e a implantação das diretrizes curriculares levantam tensões e dúvidas sobre a participação e envolvimento dos alunos ou sobre o modo com estes irão responder ao novo perfil.

"Não sabemos se para o bom ou para o ruim, mas neste semestre eles estão adultos, eles estão preparados para isto, eles têm uma opinião formada." (P1)

"Nada é escondido do aluno. [...] Por que eles se sentem seguros? Porque eu não vou ter o perigo de estar equivocado. Então, a liberdade que eles têm para chegar no professor, no integralizador ou na coordenação. É justamente porque eles conhecem o sistema. O conhecimento, por exemplo, do plano de ensino". (P4)

Um indicativo positivo é a referência aos alunos como mais críticos. No entanto, os relatos de inúmeras experiências negativas reavivam um discurso de permanente tensão entre professor-aluno. São lembradas declarações ofensivas, menosprezo na forma de tratamento do professor e de seu trabalho, comparações entre profissionais, entre outros ruídos de comunicação e inadequadas formas de se relacionar no ambiente acadêmico. Situações chegam ao extremo, quando o conflito torna-se "pessoal" e ameaça os direitos do professor, algumas vezes, constrangido e amedrontado.

"Parece não existir mais respeito. Por outro lado, temos que pensar que isto tem um lado positivo: seria como um ajuste de conduta? Não se aceita mais o "pronto", por isso se contesta... Não respeita a tradição." (P5)

"Porque, às vezes, você fala uma coisa, e ele interpreta outra e já comenta de outra forma, para outra pessoa, distorce tudo, e isso causa problemas irreversíveis, às vezes. Tipo esses dias uma aluna veio falar com a professora X com um gravador, gravando a conversa entre elas." (P1)

Para os professores, os cursos recebem alunos diferentes, com grande número de técnicos de enfermagem já empregados em instituições públicas e privadas e com limitações concretas para se dedicar aos estudos. Diversos são os objetivos buscados na formação e vários serão os valores e comportamentos que um professor irá perceber no grupo de alunos.

Os professores encontram formas de entender o desafio das relações pedagógicas, que escapam dos modelos e formulações anteriores. Entendem o período de incertezas vivido por esse aluno, vinculam tal momento a um contexto de crise de valores e projetos da sociedade, mas reclamam por um comportamento de consumidor que "paga por um serviço" e deveria compreender os benefícios a que tem direito. Acreditam que a conquista de direitos deve vir acompanhada da compreensão ampliada acerca, de uma capacidade de avaliar as conseqüências de sua ação e liberdade de expressão.

 

DISCUSSÃO

No que estamos mudando? Por que queremos mudar?

Ao ser reconhecido o potencial determinante dos eixos macro e nacional para as transformações nos cenários da sociedade, ciência e academia, observa-se o surgimento de uma consciência voltada ao debate ético social, mobilizada pela repercussão de situações que ferem valores e resgatam sua discussão. "Está sendo concretizado um novo pensar e agir na educação em enfermagem, objetivando melhoria no atendimento das demandas sociais, com a construção de competências ético-sociais, envolvendo a capacidade de colaboração e cooperação com o outro"(6).

Um argumento de mudanças na sociedade, recorrente na percepção dos professores, refere-se à globalização, pautada e imbricada na velocidade de propagação das informações, que exigem a constante atualização das instituições de ensino e o preparo dos professores para trabalhar questões emergentes na área da saúde.

O contexto social também foi evidenciado como um campo fértil para o surgimento de diversas questões trazidas pelos acadêmicos durante a formação. Do mesmo modo, a aplicação das diretrizes curriculares deve voltar-se para o movimento constante de avaliação e reflexão das práticas para atender às demandas desse contexto global. Isto confirma que a prática cotidiana é o espaço de integração dos elementos da conduta moral profissional, no encontro com o sentido da vida humana e os fins do próprio trabalho, suas obrigações e deveres(7).

Outra dimensão da mudança é fomentada no campo das políticas públicas de saúde, que vinculam a responsabilidade ético-social dos sujeitos envolvidos no processo de formação ao desafio de formar um profissional capaz de se inserir na produção dos serviços de saúde, em consonância com os princípios e consolidação do SUS(8).

Na articulação dos planos, global e nacional, agora é pautada a dimensão ética das ações humanas, mobilizadas por uma base mínima de informação sobre os direitos em questão nestas relações e pela participação de novos protagonistas.

A respeito da perspectiva das mudanças no cenário da ciência, o avanço nessa área pode ser representado pelo mundo moderno das incertezas e da superação da racionalidade técnica que exige a formação de profissionais flexíveis e críticos, com competências para inserção em diferentes setores profissionais(9).

O reflexo do acelerado progresso científico é facilmente identificado nas mudanças ocorridas na academia. Aqui se abrem diversas possibilidades de problematizar sua própria posição frente à ciência, uma vez que o desejado papel da academia recai também sobre si, como professor que representa e ocupa um lugar nesse espaço. Nesse movimento, é possível pensar sobre sua prática docente para além do modelo de depositário do saber, acreditando que a bagagem da ciência e o acesso à informação podem mobilizar a busca de novos conhecimentos e a efetiva troca com os sujeitos da ação educativa. Semelhante achado foi apresentado por um estudo a respeito da formação do enfermeiro, que evidenciou a abordagem tradicional do ensino, como um fator limitante ao desenvolvimento da criatividade, participação e ética. Nessa perspectiva, o professor conduz o aluno a objetivos externos e não internalizados pelos alunos(10).

Se este acesso àinformação faz aumentar o empenho por atualizar-se/aperfeiçoar-se, traz também a responsabilidade de questionar a legitimidade ou a qualidade daquilo que se consome, na pressa das conexões e trocas. De uma visão positiva e promissora desse indicativo, rapidamente vislumbram-se os riscos e as novas responsabilidades frente às competências tão mais abrangentes e renováveis, a exigir mais atenção crítica.

Apesar do reconhecimento desta necessidade, o ensino da ética e bioética permanece limitado às disciplinas e professores isolados ou a um "discurso mínimo" e pouco concretizado(11). Um indicativo promissor, semelhante ao apontado com base na análise de programas de disciplinas de Ética, Bioética e Exercício da Enfermagem, é a presença de bibliografias voltadas à fundamentação filosófica, ética e moral dos discentes, como instrumentais para a abordagem de conflitos éticos e bioéticos do fazer cotidiano dos enfermeiros(12).

A análise das recentes pesquisas sobre educação ética em Enfermagem no cenário internacional mobiliza a questionar se os enfermeiros estão educacionalmente melhor preparados para exercer as habilidades de tomada de decisão ética. Assim, é apontado o perigo do distanciamento ou dissociação da realidade por parte dos estudantes, com problemas de aplicação do julgamento moral nos contextos clínicos(13).

Em síntese, os achados do estudo foram coerentes com a proposição do conceito de tecnologia em enfermagem, englobando aspectos da ciência, da produção de conhecimento, da competência profissional e, inclusive, de elementos sócioeconômicos, políticos e éticos da sociedade. A produção e a utilização da tecnologia suscitam a postura e a tomada de decisão profissional pautada em princípios éticos(14).

A reflexão sobre estes novos tempos da academia remete ao próprio "ser humano", tomado como objeto das práticas de saúde. A ciência que amplia a visão sobre o humano, e a vida social é também a ciência que pode se colocar em divergência com outro tipo de exigência e reflexão – a ética. O profissional é dedicado a uma causa de transcendência social e humana, por isso, o exercício de uma profissão exige empregar-se nessa causa social, como saúde, docência e informação que transcenda a quem a serve(15).

Para que as transformações almejadas na formação em saúde e no trabalho da enfermagem sejam possíveis, é preciso valorizar a ética em todos os setores da sociedade, sobretudo nas escolas e universidades, como um fator primordial da vida em sociedade, que contribui positivamente para uma convivência social mais qualificada e uma ação humanizada e competente(16).

"A dimensão ética da prática humana, que é anúncio de expressão digna de si na relação solidária com o outro e com o mundo, se não realizada e vivida pode se transformar na marca do maior dos danos ao humano"(17).

Mesmo uma realidade adversa é capaz de envolver os professores em discussões sobre a formação profissional e social dos discentes. O fazer ético da implementação da mudança na educação em Enfermagem implica responsabilidade da construção de um sujeito cidadão, capaz de uma atuação propositiva e crítica no sistema de saúde. A realidade desafia os profissionais e a sociedade a repensarem e interferirem na construção de um modelo assistencial que atenda às necessidades do conjunto da população(18).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Apesar dos desafios e dificuldades enfrentadas pelos professores, estes vislumbram o contexto em suas perspectivas de mudança, de novos e interessantes papéis do enfermeiro no trabalho coletivo. Tais oportunidades remetem a valores políticos e ao papel da organização profissional diante das instituições formadoras, enfim, de como os profissionais posicionam-se e mobilizam-se nas transformações em curso.

O estudo permitiu apontar para a análise de alguns dos atuais desafios da formação ética do enfermeiro, e como é fundamental reconhecer as percepções e experiências dos professores nos cursos em seu processo de mudança. Em síntese, o discurso dos professores aponta para complexos elementos referentes aos contextos internacional, nacional e regional/local, nas dimensões profissional, institucional e pessoal. Isso sinaliza para uma perspectiva crítica em construção dirigida não apenas ao cenário onde atua, mas sobre sua própria situação como enfermeiro e educador. No plano deste discurso é recorrente, a visibilidade do tema da ética, como peculiar a este tempo e em íntima conexão com o cotidiano das práticas clínicas, pedagógicas e políticas da profissão.

 

REFERÊNCIAS

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Autor Correspondente:
Flávia Regina Souza Ramos
Travessa Angela Chaves, 81- Lagoa da Conceição - Florianópolis - SC - Brasil
CEP. 88062-305
E-mail: flaviar@ccs.ufsc.br

 

 

Artigo recebido em 28/04/2010 e aprovado em 12/02/2011

 

 

*Trabalho realizado em Universidades com professores de cursos de graduação em Enfermagem do Estado de Santa Catarina - Florianópolis (SC), Brasil.

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