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Acta Paulista de Enfermagem

Print version ISSN 0103-2100

Acta paul. enferm. vol.24 no.5 São Paulo  2011

https://doi.org/10.1590/S0103-21002011000500007 

ARTIGO ORIGINAL

 

Atitudes de estudantes de enfermagem frente questões relacionadas ao álcool, alcoolismo e alcoolista*

 

Attitudes of nursing students facing questions related to alcohol, alcoholism and the alcoholic

 

Actitudes de estudiantes de enfermería frente a cuestiones relacionadas al álcool, alcoolismo e alcoolista

 

 

Divane de Vargas

Doutor em Enfermagem. Professor do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Psiquiátrica da Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo - USP - São Paulo (SP), Brasil

Autor Correspondente

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Examinar as atitudes de uma amostra de estudantes de enfermagem frente ao álcool, alcoolismo e alcoolista.
MÉTODOS: Estudo exploratório realizado com 144 estudantes do último ano de graduação em enfermagem de duas escolas do setor privado da cidade de Ribeirão Preto - SP. Para a coleta de dados, utilizou-se a Escala de atitudes frente álcool, alcoolismo e alcoolista.
RESULTADOS: as atitudes frente ao alcoolista foram mais negativas do que aquelas que vêm sendo reportadas na literatura. A maioria dos participantes considerou o alcoolista culpado por seus problemas de saúde e preferiu não trabalhar com esse tipo de paciente.
CONCLUSÃO:
As atitudes dos estudantes frente às questões relacionadas ao álcool e alcoolismo tendem à ambivalência e à negatividade, o que pode ser atribuído à falta de preparo recebida durante a graduação. Apesar das recomendações feitas pelos especialistas no País pouco tem sido investido na formação do enfermeiro em álcool e outras drogas sobretudo nas escolas privadas.

Descritores: Estudantes de enfermagem; Atitudes; Álcool; Alcoolismo; Alcoolicos


ABSTRACT

OBJECTIVE: To examine the attitudes of a sample of nursing students toward alcohol, alcoholism and the alcoholic.
METHODS: An exploratory study conducted with 144 students in their final year of undergraduate nursing in two private schools in the city of Ribeirão Preto - SP. For data collection, we used the scale of attitudes towards alcohol, alcoholism and the alcoholic.
RESULTS: Attitudes toward alcohol were more negative than those that have been reported in the literature. The majority of participants considered the alcoholic to blame for his health problems and preferred not to work with this type of patient.
CONCLUSION: The students' attitudes to questions related to alcohol and alcoholism tended toward ambivalence and negativity, which can be attributed to lack of preparation received during their education. Despite recommendations made by specialists in the country, little has been invested in nursing education on alcohol and other drugs, especially in private schools.

Keywords: Students, nursing; Attitudes; Alcohol; Alcoholism; Alcoholics


RESUMEN

OBJETIVO: Examinar las actitudes de una muestra de estudiantes de enfermería frente al alcohol, alcoholismo y al alcohólico.
MÉTODOS:
Estudio exploratorio realizado con 144 estudiantes del último año del pregrado en enfermería de dos escuelas del sector privado de la ciudad de Ribeirão Preto - SP. Para la recolección de datos, se utilizó la Escala de Actitudes frente al alcohol, alcoholismo y alcohólico.
RESULTADOS: las actitudes frente al alcoholismo fueron más negativas que aquellas que vienen siendo reportadas en la literatura. La mayoría de los participantes consideró al alcohólico culpable por sus problemas de salud y prefirió no trabajar con este tipo de paciente.
CONCLUSIÓN:
Las actitudes de los estudiantes frente a las cuestiones relacionadas al alcohol y alcoholismo tienden a la ambivalencia y a la negatividad, el que puede ser atribuído a la falta de preparación recibida durante el pregrado. A pesar de las recomendaciones realizadas por los especialistas en el País poco ha sido invertido en la formación del enfermero en alcohol y otras drogas sobre todo en las escuelas privadas.

Descriptores: Estudiantes de enfermería; Actitud; Alcohol; Alcoholismo; Alcohólicos


 

 

INTRODUÇÃO

Conforme informes sobre a saúde mundial, o álcool foi responsável por 4% da carga de morbidade e 3,2% (1.8 milhões) de todas as mortes do mundo em 2000. Dentre os 26 fatores de risco avaliados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), foi o quinto mais importante no que se refere às mortes prematuras e discapacidades. Nas Américas em 2000, foi o fator de risco mais importante para a saúde, tanto nos em desenvolvimento, incluindo Brasil e México, como nos países desenvolvidos, como Estado Unidos da América e Canadá(1). O consumo de álcool nas Américas é, aproximadamente, 40% maior que a média mundial, o que pode justificar o fato do continente constituir-se na única região do mundo onde o álcool teve o primeiro lugar, como fator de risco para mortes prematuras e discapacidades(1).

No Brasi(2), em um vasto levantamento realizado nas 108 maiores cidades encontrou-se que 12,3% das pessoas entre 12 e 65 anos são dependentes de álcool, e que 74,6% já o consumiram na vida. Quanto ao uso de outras drogas, o mesmo estudo apontou que, na população estudada, 44% usaram tabaco, 8,8% Cannabis, 6,1% solventes, 4,1% inibidores de apetite, 2,9% cocaína e 0,7% crack, constatando um rápido aumento do uso e abuso de substâncias psicoativas lícitas e ilícitas nos últimos cinco anos. Fenômeno que vem contribuindo para o aumento de problemas físicos, psíquicos e sociais na população, ocasionando o aumento da demanda de pacientes com problemas relacionados ao uso e abuso de substâncias psicoativas, sobretudo do álcool nos serviços de saúde que, consequentemente, aumentam o contato do enfermeiro com essa população, fenômeno que vem exigindo habilidades para enfrentamento da problemática.

Apesar dessa nova demanda imposta à prática do enfermeiro, vários estudos(3-5) apontam que os estudantes de enfermagem brasileiros não estão sendo preparados adequadamente para o cuidado e enfrentamento dos problemas relacionados às substâncias psicoativas. Estes profissionais têm recebido pouca educação no campo do álcool e outras drogas para atuação na prática(3). Fenômeno que não tem sido observado só no Brasil, estudos realizados nos Estados Unidos da América(6), Austrália(7) e Inglaterra(89) revelam que os conteúdos envolvendo o uso e o abuso de substâncias psicoativas nos currículos de enfermagem são inadequados. A falta de preparo para atuação com dependentes químicos pode acarretar atitudes negativas dos enfermeiros e estudantes de enfermagem, quando se deparam com situações envolvendo o uso do álcool e outras drogas(5,10-11), o que em última análise influencia na qualidade do cuidado prestado(5,12-14).

Estudos sobre essa temática vêm revelando que os estudantes de enfermagem demonstram atitudes negativas frente ao dependente químico(15). As pesquisas apontam ainda que o contato com esses pacientes, durante a formação, possibilita maior aceitação dos estudantes frente ao dependente(16). Estudo inglês(9) avaliou o impacto de um programa educacional em álcool e drogas na aquisição do conhecimento e mudança de atitudes dos estudantes de enfermagem. Os resultados sugerem que o programa educativo sobre álcool e drogas exerceu impacto nas atitudes dos estudantes de enfermagem, uma vez que no pós-teste a maioria dos participantes demonstrou atitudes mais positivas frente ao dependente químico e estava mais otimista, considerando a dependência de álcool e drogas, como uma doença tratável.

Estudo realizado no Brasil(5) com objetivo de examinar o conhecimento e as atitudes de estudantes de enfermagem frente ao dependente de substâncias psicoativas evidencia que os estudantes tinham uma atitude positiva frente a esse tipo de paciente, pois a maioria rejeitou o estereótipo de que estes são desagradáveis de se trabalhar e que o alcoolismo estava relacionado à fraqueza de caráter.

Apesar de estudos realizados em outros países há mais de duas décadas(10,17-18), no Brasil foram desenvolvidos poucos a respeito das atitudes de estudantes de enfermagem frente às questões de dependência química(4). Na literatura nacional há carência de publicações sobre a questão(4-5), fato que vem levando os especialistas no assunto(4-5) a recomendarem mais investigações, visando a identificar as atitudes dos enfermeiros e estudantes de enfermagem frente aos usuários de substâncias psicoativas e aos problemas relacionados às mesmas que devem ser conduzidos no País. Frente a isso e considerando o aumento da demanda de pacientes alcoolistas nos serviços de atenção à saúde, o que acarreta no maior contato dos estudantes de enfermagem com essa população realizou-se este estudo com o objetivo de examinar as atitudes de uma amostra de estudantes de enfermagem brasileiros frente ao álcool, alcoolismo e alcoolista. Pressupõe-se que os resultados observados subsidiem possíveis ações no sentido de evidenciar a necessidade de inclusão das disciplinas obrigatórias sobre a temática nos currículos de enfermagem o País.

 

MÉTODOS

Estudo exploratório descritivo conduzido com uma amostra constituída por 144 estudantes do último semestre de graduação (4º ano) de enfermagem de duas escolas privadas da cidade de Ribeirão Preto - São Paulo, Brasil. Optou-se por alunos do último ano de graduação, por considerar-se que estes já haviam concluído a maior parte do currículo, o que pressupõe que tiveram conteúdos sobre o tema e experiências clínicas com pacientes com problemas relacionados ao álcool e alcoolismo. Desse total, 84 pertenciam à "Escola A" e 60, à "Escola B". Os critérios de inclusão na amostra foram estar cursando o último ano de graduação e aceitar participar do estudo.

Os aspectos éticos observados na realização desta pesquisa foram: aprovação do projeto de pesquisa pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (Protocolo nº. 12476/2004) e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido pelos sujeitos que participaram do estudo.

As atitudes dos estudantes de enfermagem frente ao álcool, alcoolismo e alcoolista foram mensuradas pormeio do uso da Escala de Atitudes Frente ao Álcool, Alcoolismo e Alcoolista - EAFAAA(19). Esta escola foi construída e validada no Brasil por Vargas, em 2008(19) e apresentou um índice de confiabilidade de 0,90, composto de 84 itens que abrangem cinco fatores: Fator 1: O alcoolista: o trabalho e as relações interpessoais; Fator 2: Etiologia; Fator 3: Doença; Fator 4: Repercussões decorrentes do uso e abuso do álcool; Fator 5: A Bebida Alcoólica. Com a escala de atitudes, foi aplicado um questionário sociodemográfico elaborado pela pesquisadora, que se constituiu de duas seções. Seção 1, composta de perguntas sobre as características demográficas como: sexo e idade; na seção 2, questões relacionadas ao preparo no campo das substâncias psicoativas, recebido na formação em enfermagem. Para aplicação, o instrumento foi apresentado pela autora aos sujeitos coletivamente em sala de aula em um caderno único, com os 84 itens do questionário distribuídos aleatoriamente. As questões podiam ser respondidas por meio de uma escala do tipo Likert de três pontos, na qual os estudantes deveriam expressar sua opinião sobre cada afirmação, de acordo com o seguinte esquema: (1= Discordo 2 = Indiferente; 3 = Concordo). O tempo máximo de resposta ao instrumento não ultrapassou 30 minutos e todos os sujeitos aceitaram participar do estudo. Os dados foram armazenados em um banco elaborado no Statistical Package for Social Science (SPSS) version 18.0 onde todas as análises foram realizadas.

 

RESULTADOS

Características da amostra

A maioria da amostra do estudo constituíu-se de mulheres (85%) com idade média de 27,4 anos (DP= 6,82), solteiras (68%); brancas (89%). Quanto ao preparo recebido para atuação com dependentes químicos, os participantes informaram ter recebido entre duas e três horas de aulas sobre a temática durante a graduação. As respostas relacionadas às atitudes dos estudantes frente ao álcool, alcoolista e alcoolismo são apresentadas nos dados das Tabelas 1 a 3.

Os resultados evidenciaram o predomínio de atitudes positivas dos sujeitos do estudo frente ao álcool e seu consumo. A maioria (58%) concordou com o fato de que as pessoas devem beber, se este for seu desejo, pois a bebida alcoólica é agradável e traz bem-estar na opinião de 43% dos estudantes, e o consumo do álcool, foi visto como algo normal por 55% deles. Além disso, 54% discordam de que qualquer quantidade de álcool consumida pode causar a dependência, resultado consistente com as atitudes frente ao beber moderado, pois, observou-se que 41% mostraram-se favoráveis a esse tipo de uso (moderado) e 56% endossaram a ideia de que o beber com moderação não é prejudicial. A maioria (74%) concordou com a existência de pessoas que bebem e sabem controlar sua ingestão alcoólica, entretanto, quando se posicionam sobre o fato de que o álcool em doses pequenas tem potencial para causar dependência, 60% demonstraram não estar bem certos desse fato, embora no item anterior tenham discordado de que qualquer quantidade de álcool consumida possa causar a dependência.

Os dados da Tabela 2 mostram os resultados referentes às atitudes dos estudantes de enfermagem frente ao paciente alcoolista. A maioria dos participantes (72%) concorda que é uma pessoa sem limites, 74% consideram-no uma pessoa psicologicamente abalada, 88% concordam ser um doente e 97% concordam ser um paciente que precisa de ajuda; 67% rejeitaram a concepção de que o alcoolista é uma pessoa imoral, embora, para 41% dos participantes seja considerado culpado por seus problemas de saúde. Não se observou uma atitude definida por parte dos participantes sobre o fato do alcoolista ser um paciente violento, desfecho semelhante foi observado frente à concepção de que é uma pessoa fraca, pois, 42% dos participantes concordaram com essa visão, e 41% discordaram.

Com relação ao relacionar-se com alcoolistas, 41% dos sujeitos do estudo concordaram que é um paciente de difícil contato. Quando avaliaram a possibilidade de confiar nesses pacientes, 39% endossam essa atitude e 49% revelam que têm medo da agressividade do alcoolista, embora 75% neguem tal sentimento, caso tivessem de abordar o problema do beber com pacientes alcoolistas. A análise dos itens referentes ao trabalhar com esse tipo de paciente mostrou que os participantes apresentaram atitudes ambivalentes sobre a questão. Dos participantes, 50% não saberiam conduzir a situação, caso necessitassem atender a um paciente alcoolista e 52% não têm preferência para cuidar do mesmo. A maioria (43%) concordou que se trata de um paciente que dá muito trabalho à enfermagem, 65% disseram que deveriam cuidar do alcoolista mesmo contra sua vontade e 81% que não desistiriam de ajudá-lo, apesar disso. Quanto ao tratamento, a maioria (44%) concordou que o alcoolista leva o tratamento a sério, 83,3% que este é capaz de responder satisfatoriamente ao tratamento.

Com relação às atitudes dos estudantes frente ao alcoolismo, observou-se que a maioria (84%) concebe como uma doença, 77% não endossam a opinião de que pode ser controlado pelo indivíduo. Consistente com esses resultados, 95% dos participantes concordaram que causa dependência física e psíquica. A maioria (67%) concordou que leva à perda da identidade e da moral e de acordo com 66% dos alunos, o álcool é capaz de levar à loucura e à morte. Verificando as tendências das atitudes dos estudantes frente à etiologia do alcoolismo, encontrou-se que 64% dos entrevistados atribuem sua origem a desajustes familiares, 52% à influência dos amigos, 64% concordam que a depressão leva ao alcoolismo. Além disso, conforme 38% dos estudantes, as pessoas sem emprego fixo e que passam por dificuldades financeiras também apresentam probabilidade de desenvolve-lo, 77% concordaram que a falta de autocontrole leva ao alcoolismo e 40% concordaram que existe um gen determinante para seu desenvolvimento.

 

DISCUSSÃO

Vários estudos(4-5) indicam que o preparo no tema álcool e outras drogas dos estudantes de enfermagem no Brasil é insuficiente. Os dados verificados neste estudo corroboram tais apontamentos, uma vez que os participantes revelaram que, durante sua formação, o tempo de aulas e os treinamentos para atuação na área não ultrapassaram, em média, três horas. Essa carga horária é menor que a média de tempo dedicado ao tema álcool e outras drogas encontradas em estudos prévios que ficaram entre quatro e seis horas(3-4). Considerando que os estudos anteriores(3-4) envolveram amostras de estudantes de universidades públicas, os resultados demonstram que a temática álcool e outras drogas em universidades privadas vêm recebendo ainda menos atenção, fato preocupante quando se considera que no Brasil a maioria das escolas de enfermagem encontra-se nessas universidades privadas.

Com relação às atitudes dos estudantes de enfermagem frente ao álcool, observou-se que estas são predominantemente positivas, pois, estes se mostraram favoráveis ao beber, uma vez que concordam que as pessoas devem beber, se quiserem, sendo este comportamento considerado normal. No entanto, essas atitudes positivas parecem ser restritas ao uso moderado de álcool, que não se aplica a indivíduos com problemas relacionados ao beber, pois, de acordo com os participantes existem pessoas que bebem e sabem controlar sua ingestão alcoólica. Assim, as atitudes positivas podem não ser estendidas aos que não conseguem controlar tal comportamento. Alia-se a isso, o fato de que embora sejam favoráveis ao uso moderado do álcool, os estudantes não o isentaram de riscos, pois demonstram dúvida quando precisam se posicionar sobre o fato de que doses pequenas sejam capazes de causar dependência.

Consistente com resultados de outros estudos(5,9), os dados mostraram que as atitudes dos estudantes frente ao alcoolista tendem a ser positivas. Embora tenha se observado ambivalência nas mesmas, por não endossarem a visão de que o alcoolista é uma pessoa imoral e de caráter fraco e concebê-lo como um doente, uma parcela significativa de estudantes concordou que são indivíduos sem limites, culpados por seus problemas de saúde e que não querem realmente se cuidar. Este resultado corrobora os apontamentos de um estudo semelhante, realizado com estudantes de enfermagem dos Estados Unidos da América(16) que evidencia a prevalência das atitudes negativas dos profissionais de saúde frente às questões relacionadas ao alcoolismo, independente de considerarem o mesmo como doença ou não.

O fato do alcoolista ser visto como uma pessoa sem limites sobre seu beber, é consistente com o que foi encontrado em estudo prévio(5), no qual os estudantes concebiam-no como um indivíduo incapaz de adotar um beber controlado. Ao considerarem que é culpado pela sua doença, esses estudantes reforçam a concepção de que o alcoolista é um doente proposital, atribuindo-lhe a voluntariedade do beber, responsabilizando-o por seus problemas de saúde. Essa visão pode acarretar a rejeição do paciente alcoolista pelo estudante, resultado congruente com o que foi observado entre os estudantes que demonstraram preferir não cuidar desse tipo de paciente. Em uma revisão da literatura sobre as atitudes de enfermeiros frente às questões relacionadas ao álcool(20), os autores concluíram que, apesar das mudanças ocorridas nos últimos anos, levando a maior aceitação dos dependentes por parte dos enfermeiros, ainda existe uma significativa parcela que continua considerando-o como imoral, fraco de caráter e com baixa probabilidade de recuperação.

Com relação a trabalhar com alcoolistas, os estudantes acreditam que é um paciente difícil de lidar e tratar e que dá muito trabalho à enfermagem. Estudo brasileiro(5) realizado com estudantes de enfermagem evidenciou que estes consideravam difícil abordar o problema do uso e abuso de substâncias com os dependentes. Conforme os autores da pesquisa(5), o fato pode ser reflexo da falta de preparo e conhecimento para trabalhar com usuários de substâncias psicoativas. Embora seja considerado um paciente difícil de trabalhar pelos estudantes, estes acreditam que, mesmo que recuse o tratamento, devem continuar sendo assistidos e mostraram-se dispostos a continuar cuidando do paciente, revelando atitudes mais positivas no que se refere ao cuidado do paciente alcoolista do que frente a ele próprio.

A maioria dos participantes revelou não preferir trabalhar com pacientes alcoolistas, resultados consistentes com os apontados em outras pesquisas(13,19,21). No entanto, estudos(5,9) evidenciam atitudes mais positivas dos estudantes frente ao alcoolista, pois, estes não o consideravam um paciente desagradável e gostariam de trabalhar com tais pacientes, caso tivessem oportunidade(8). Os resultados mostraram que esses estudantes possuem atitudes mais negativas frente ao trabalhar com o alcoolista do que as verificadas em outras pesquisas(5,9,18). Isso pode ser atribuído a duas razões; a primeira, estaria relacionada ao estigma estabelecido com relação a esse tipo de paciente e a segunda, ao pouco preparo recebido para atuar nesse contexto, o que pode levar o estudante a ficar inseguro para tal atuação e tender evitá-la(5,22), resultado que é congruente com o fato de que a maioria revelou que não saberia conduzir a situação, caso precisasse trabalhar com alcoolistas. Estes resultados corroboram os apontamentos de estudos anteriores(5,14) que evidenciam falta de adequação, conhecimentos e competência dos enfermeiros e estudantes de enfermagem para trabalhar com dependentes de substâncias psicoativas. Pesquisa realizada, na década de 1990(23), encontrou que os estudantes de enfermagem estavam menos dispostos a trabalhar com alcoolistas que com pessoas fisicamente debilitadas e que preferiam trabalhar com pacientes dependentes e comunicativos. Assim, talvez a questão dos estudantes preferirem trabalhar com outros pacientes que não o alcoolista esteja relacionada, além do fato de não estarem preparados para essa atuação às próprias características do paciente alcoolista que, na maioria das vezes, se mostra independente do cuidado do enfermeiro, em decorrência da negação da doença. Assim, se o estudante não reconhecer tal mecanismo, é provável que evite esse tipo de paciente e, consequentemente, prefira não cuidar dele.

Dentre os fatores etiológicos para o alcoolismo, os participantes concordaram que este pode ser causado por fatores sociais, como desemprego, dificuldades financeiras e desajustes familiares, psicológicos, depressão e falta de autocontrole e biológicos, acreditando que existe um gen responsável pelo adoecimento. Dados semelhantes foram encontrados em estudo anterior(5), em que o alcoolismo foi considerado como uma doença genética pelo estudantes.

Observou-se quase unanimidade dos sujeitos ao acreditar que o alcoolismo cause dependência física e psíquica; este resultado deve ser considerado positivo, pois, de certa forma, ameniza o caráter moral atribuído ao alcoolismo, ao endossarem a concepção de que este é ocasionado pela falta de autocontrole ou que é desencadeado por culpa do próprio alcoolista, pois ao reconhecerem que o álcool pode causar dependência, o alcoolismo passa a adquirir outro caráter que independe da vontade do indivíduo e pode ser visto realmente como doença.

Este estudo possui muitas limitações, dentre elas, o tamanho da amostra e o fato de ter sido conduzido em apenas duas escolas de enfermagem privadas de uma região brasileira, cujos dados não podem ser generalizados. No entanto, traz avanços à área da enfermagem, nacional e internacional, uma vez que contribui de forma significativa para a literatura brasileira, diante da escassez de estudos investigando as atitudes de enfermeiros e estudantes de enfermagem frente à questão no Brasil e na América Latina.

Além disso, permite mapear as atitudes dessa população em regiões e instituições ainda não mapeadas, contribuindo para o conhecimento dessa área, apresentando evidências que têm potencial para servir de base para futuras pesquisas relacionadas ao ensino e à assistência de enfermagem no campo das substâncias psicoativas. Além disso, possibilita reconhecer que apesar das discussões e recomendações da 1 Conferência Nacional de Especialistas em Enfermagem Psiquiátrica em álcool e outras drogas, ocorrida em 2000, na qual foram consideradas a integração e a inclusão dos conteúdos sobre substâncias psicoativas que deveriam ocupar prioridade nos currículos de enfermagem(24), pouco tem se conseguido a esse respeito no País, após dez anos dessas recomendações. Poucas ações foram de fato incorporadas pelas escolas e as que o foram, deram-se sobretudo nas escolas públicas.

 

CONCLUSÃO

A maioria das escolas privadas continua dedicando pouca ou nenhuma atenção à questão das substânciaspsicoativas na formação do enfermeiro. É preciso que haja uma mobilização por parte dos especialistas em adições do País, para pressionar as autoridades governamentais, a fim de assegurem a inserção de estes conteúdos nas leis da educação, para formação do enfermeiro, pois, tais conteúdos, atualmente, não constam como obrigatórios na grade curricular do enfermeiro e, portanto, ficam em segundo plano na maioria das instituições formadoras. Os resultados confirmam os apontamentos de estudos anteriores de que pouca atenção vem sendo dada à questão do álcool e outras drogas na formação do enfermeiro no Brasil, revelando, ainda, que a situação é mais preocupante entre as escolas do setor privado, visto que se constatou que o número de horas dedicadas a essa temática nas duas escolas estudadas foi menor do que o observado em estudos, envolvendo amostras de escolas públicas. As atitudes desses estudantes foram mais negativas frente ao alcoolista do que tem se observado em outros estudos, levando a pressupor que a formação pouco influenciou nas atitudes dos alunos a respeito do tema, pois, embora possam aceitar o conceito do alcoolismo como doença, acreditando que esse paciente quer se recuperar, persistem ideias preconceituosas e atitudes negativas frente ao alcoolista, que o ensino não conseguiu eliminar. Esses resultados podem ser reflexo da pouca importância que vem sendo atribuída à questão das substâncias psicoativas nos currículos de graduação em Enfermagem no Brasil e reforçam os apontamentos de que a educação e o preparo para o enfrentamento do problema das substâncias psicoativas aumentam a adequação do papel do enfermeiro para atuação na área e servem de base para atitudes mais positivas frente a essa clientela.

 

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Autor Correspondente:
Divane de Vargas
Av.: Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 419/244 - Cerqueira Cesar
São Paulo - SP - Brasil
Cep: 05403-000
E-mail: vargas@usp.br

Artigo recebido em 22/07/2010 e aprovado em 17/05/2011

 

 

* Trabalho realizado em duas escolas de enfermagem do setor privado da cidade de Ribeirão Preto - (SP), Brasil.

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