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Acta Paulista de Enfermagem

Print version ISSN 0103-2100

Acta paul. enferm. vol.24 no.6 São Paulo  2011

https://doi.org/10.1590/S0103-21002011000600004 

ARTIGO ORIGINAL

 

Ensino de administração de serviços de saúde: perfil de enfermeiras que exerceram a docência*

 

Teaching health services administration: profile of nurses engaged in education

 

Enseñanza de administración de los servicios de salud: perfil de enfermeras que ejercieron la docencia

 

 

Divanice ContimI; Maria Cristina SannaII

IDoutora em Ciências. Professora Adjunto, Universidade Federal do Triângulo Mineiro - UFTM - Uberaba (MG), Brasil
IIDoutora em Enfermagem. Orientadora no Programa de Pós-graduação em Enfermagem, Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP - São Paulo (SP), Brasil

Autor Correspondente

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Descrever o perfil de enfermeiras que exerceram a docência em um Curso de Administração Hospitalar nos anos 1970.
MÉTODOS: Estudo histórico documental constituído de fontes primárias e secundárias produzidas entre 1975 e 2009. O conteúdo constante nessas fontes foi analisado frente ao processo de trabalho em Enfermagem, e estudado à luz da teoria da Burocracia.
RESULTADOS: Foi descrito o perfil profissional de quatro enfermeiras docentes A primeira era diretora da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo; a segunda era americana, professora do Incarnate Word Collegge, Texas, mestre em ciências; a terceira foi a primeira presidente do Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo; e a quarta era Diretora do Serviço de Enfermagem do Instituto do Coração do Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
CONCLUSÃO: Constatou-se que essas enfermeiras eram detentoras de projeção em suas carreiras e esse prestígio, possivelmente, agregou valor ao curso citado.

Descritores: Administração em saúde/educação; Docentes de enfermagem; História da enfermagem; Ensino superior


ABSTRACT

OBJECTIVE: To describe the profile of nurses engaged in teaching a course in hospital administration during the 1970.
METHODS: This was a historical documentary consisting of primary and secondary sources produced between 1975 and 2009. The content contained in these sources was analyzed against the nursing work process, and studied in light of the theory of bureaucracy.
RESULTS: We described the professional profile of four nurses: the first faculty director of The School of Nursing, University of Sao Paulo; the second was an American professor in a master of science course at Incarnate Word College, Texas; the third was the first president of the Regional Nursing Council of São Paulo; and the fourth was Director of Nursing Service of the Heart Institute of the Hospital de Clinicas, Faculty of Medicine, University of Sao Paulo.
CONCLUSION: We found that these nurses held positions of esteem and status in their careers and that this prestige, possibly, has added value to the courses discussed.

Keywords: Health administration/education; Faculty, nursing; History of nursing; Education, higher


RESUMEN

OBJETIVO: Describir el perfil de enfermeras que ejercieron la docencia en un Curso de Administración Hospitalaria en los años 1970.
MÉTODOS: Estudio histórico documental constituído de fuentes primarias y secundarias producidas entre 1975 y 2009. El contenido constante en esas fuentes fue analizado frente al proceso de trabajo en Enfermería, y estudiado a la luz de la teoría de la Burocracia.
RESULTADOS: Fue descrito el perfil profesional de cuatro enfermeras docentes. La primera era Directora de la Escuela de Enfermería de la Universidad de Sao Paulo; la segunda era americana, profesora del Incarnate Word Collegge, Texas, magister en ciencias; la tercera fue la primera presidente del Consejo Regional de Enfermería de Sao Paulo; y la cuarta era Directora del Servicio de Enfermería del Instituto del Corazón del Hospital de las Clínicas de la Facultad de Medicina de la Universidad de Sao Paulo.
CONCLUSIÓN: Constató que esas enfermeras eran detentoras de la proyección en sus carreras y ese prestigio, posiblemente, agregó valor al citado curso.

Descriptores: Administracion em Saúde/educación; Docentes de enfermeria; Historia de la enfermeria; Educación superior


 

 

INTRODUÇÃO

Na década de 1970, duas instituições renomadas - o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFM-USP) e a Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas (EAESP-FGV), propuseram o Programa de Estudos Avançados em Administração Hospitalar e de Sistemas de Saúde (PROASHA). A primeira atividade realizada pela parceria foi o Curso de Administração Hospitalar e de Serviços de Saúde, do qual participaram vários profissionais, dentre eles, enfermeiras1.

Na época em que o Curso de Especialização em Administração Hospitalar citado estava começando no Brasil, a área de Enfermagem passava por uma série de transformações relacionadas diretamente à predominância da assistência curativa individualizada, favorecida pela expansão da rede de assistência médico-hospitalar privada que, de certo modo, influenciou os currículos dos cursos de graduação e pós-graduação em Enfermagem. De fato, o currículo mínimo dos Cursos de graduação em Enfermagem e Obstetrícia, de 1972, incentivava o enfermeiro a dominar, cada vez mais, as técnicas avançadas de cuidado, em razão do desenvolvimento científico e tecnológico e do sistema de financiamento das ações de saúde, que davam sustentação ao modelo biomédico de atenção(1).

No campo assistencial, ganhava projeção a Teoria de Wanda de Aguiar Horta que trazia, em sua essência, questões sobre o planejamento de cuidados denominado Processo de Enfermagem. No mesmo período, estava em discussão a elaboração dos Padrões Mínimos da Assistência de Enfermagem, sob o patrocínio do Ministério da Saúde, direcionados à promoção, proteção e recuperação da saúde, com o objetivo de orientar a qualidade e o controle das ações em saúde, em um sistema de atenção que privilegiava a prática curativa e hospitalocêntrica. Ambas as iniciativas consagravam a ação intelectual de assistir e administrar a assistência, conferindo-lhe a legitimidade do trabalho intelectual do enfermeiro, que também encaminhava a conquista do reconhecimento social(2).

Com base nesse direcionamento, as atividades de planejamento e organização dos serviços e de supervisão do pessoal auxiliar, executadas pela enfermeira, sofreram incremento e a estas foram incorporadas outras funções administrativas ligadas sobretudo à gerência de unidades como, por exemplo, o controle de materiais e equipamentos, dentre outras(1-2).

Nessa época, também ocorreram investimentos em programas de formação e capacitação de recursos humanos, em especial os voltados à área de Enfermagem, patrocinados por iniciativa governamental e por instituições supranacionais e norte-americanas, o que favoreceu a criação de cursos de pós-graduação latosensu e de aperfeiçoamento(1-2).

Nesse período, outro fato a ser considerado foi que a categoria das enfermeiras potencializava esforços na busca do crescimento da profissão(1-3). Nessa perspectiva, o ensino de pós-graduação stricto sensu na área foi criado direcionado por uma concepção política de promoção do desenvolvimento econômico do país, segundo a qual, era necessária a formação de recursos humanos qualificados.

Ainda datam dessa época a introdução da observação sistematizada na Enfermagem e dos elementos básicos para o diagnóstico dos aspectos assistenciais, além da inserção da enfermeira em grupos multi-institucionais de discussão dos problemas assistenciais de enfermagem, em hospitais de grandes centros urbanos. Começava a discussão da integração do ensino e do serviço de enfermagem focada nos problemas locais e nacionais, iniciando o debate sobre o perfil da enfermeira para os serviços de saúde, diante dessa realidade(1-2).

Nesse cenário, as enfermeiras muito tinham a ensinar em Programas de Especialização de Administração em Saúde que começavam a surgir, dado seu preparo para tal, na formação de graduação, seu reconhecido envolvimento com a prática do gerenciamento no ambiente hospitalar e o início da produção científica nacional de enfermagem sobre o assunto(4).

A constatação desses fatos levou a indagar sobre a participação de enfermeiras como docentes no curso citado, considerando a relevância deste para a formação de recursos humanos, no campo da administração em saúde, e o momento histórico especial vivenciado pela Enfermagem à época. A investigação também se justifica pela colaboração que pode representar para a avaliação da contribuição da Enfermagem para o projeto político contido na criação do curso.

Assim, o presente estudo objetivou descrever o perfil de enfermeiras que exerceram a docência no Curso de Administração Hospitalar e de Serviços de Saúde promovido pelo HCFM-USP e a EAESP-FGV, na década de 1970, não se constituindo em objeto da investigação, a prática docente propriamente dita, a ser tratada, no conjunto de professores, em outra publicação.

 

MÉTODOS

Para o presente estudo, optou-se pela investigação histórica de documentos coletados na Secretaria do PROHASA, localizada na EAESP-FGV.

As fontes primárias foram constituídas de sete documentos coletados nessa Secretaria, referentes aos anos de 1975 a 1976, que são calendários de distribuição das atividades escolares do primeiro e segundo curso, com as datas e horários das aulas e nome dos professores, e os programas das disciplinas: "Equipamentos e Instalações Hospitalares", coordenada pelos professores Oscar Cesar Leite e Humberto de Moraes Novaes, e "Administração do Serviço de Enfermagem", do curso citado, histórico curricular das docentes, além de recortes dos jornais Folha de São Paulo, Estado de São Paulo e Jornal da Tarde, contendo anúncios de divulgação do curso.

As fontes secundárias foram constituídas por livros, teses e artigos de periódicos que tratam da história da enfermagem, além de materiais impressos e on-line com registros dessas enfermeiras. O período de coleta de dados foi entre 2006 e 2009.

Após a identificação dos documentos, os mesmos foram selecionados e copiados eletrostaticamente, certificados pelo cedente e armazenados fisicamente em pastas. Em seguida, efetuou-se a leitura completa dos documentos, com a finalidade de realizar seu fichamento, o que proporcionou a catalogação e sua organização por similaridade, pertinência temática, cronologia e origem. Para lograr esse intento, várias técnicas podem ser utilizadas, entre essas: análise de expressão, avaliação ou representacional, de relações da enunciação e temática. Esta última foi incorporada à proposta do presente estudo porque permite evidenciar os núcleos de sentidos que possam constituir algo relevante para o objetivo pré-delineado. A técnica parte da proposta de interpretação com o estabelecimento de áreas temáticas e a transformação de dados brutos em unidades de compreensão, transformadas em unidades de registro e classificadas em categorias, por meio dos núcleos de significação(5).

Os produtos do fichamento foram anotados e organizados em banco de dados eletrônico, para permitir melhor manuseio do corpus documental do estudo.

A operacionalização do estudo empregou o sistema de análise temática(5-6) o qual incluiu a pré-análise, composta de leitura flutuante, constituição de corpus, formulação de hipóteses e objetivos. Assim, foram feitos recortes textuais dos documentos, transformados em unidades de registro. Esses recortes foram palavras, frases, assuntos e personagens. Por último, realizou-se a classificação e agregação dos dados, com a organização por similaridade e pertinência temática dos achados, o que possibilitou criar a estrutura das biografias de cada uma das professoras do curso, compondo-se esses achados com as fontes secundárias.

Os documentos revelaram que quatro enfermeiras desempenharam a função docente no curso em foco, nesse período: Maria Rosa de Souza Pinheiro, Diane B. Greene, Maria Camargo de Oliveira Falcão e Vanderli de Oliveira Dutra.

A seguir, os achados foram classificados, contextualizados e interpretados à luz do referencial teórico de Max Weber. Esse pensador não teve a preocupação de estabelecer definição para a burocracia e essa não pode ser vista como um modelo prescritivo, pois é uma abstração descritiva, um esquema que sintetiza os pontos comuns à maioria das organizações formais modernas, em que ele procurou desenvolver a base, o alicerce formal-legal sobre o qual as organizações se assentam(7-8). Com base nisso, procurou-se compreender e contextualizar as várias dimensões do processo de trabalho em Enfermagem praticado à época estudada.

 

RESULTADOS

A participação das enfermeiras docentes no Curso de Administração Hospitalar e de Serviços de Saúde ocorreu desde seu início.

A primeira delas foi a professora Maria Rosa de Souza Pinheiro, que fez parte da equipe do professor Humberto de Moraes Novaes e do médico Oscar Cesar Leite, na disciplina Histórico da Assistência Hospitalar1 (1-2,4).

Maria Rosa de Souza Pinheiro nasceu em Araraquara - São Paulo - em 1908, cursou a Escola Normal no Colégio Caetano de Campos, na Praça da República - SP, e concluiu o Curso de Educadora Sanitária, no Instituto de Higiene de São Paulo(9), em 1930. Estudou na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, formando-se em Línguas Neo-Latinas, em 1937, e foi educadora chefe do Centro de Saúde do Instituto de Higiene em São Paulo. Estudou Enfermagem na Universidade de Toronto - Canadá, graduando-se em 1943(9-10). Foi bolsista do Instituto de Assuntos Americanos, na Universidade de Columbia, obtendo o título de mestre. Também foi bolsista da Fundação Kellogg, atuando como observadora de escolas de enfermagem e de hospitais americanos e canadenses. Participou da comissão de peritos em Enfermagem, em 1951, na reunião de Genebra da Organização Mundial da Saúde e, em 1954, na reunião de Londres. Atuou como consultora de enfermagem em diversas situações como, na Europa, mais precisamente em Lisboa, e na América Latina, orientando a criação de cursos de pós-graduação nos anos 1970(9-11).

Após seu retorno ao Brasil, foi designada vice-diretora da Escola de Enfermagem da USP (EE-USP) e, no período de 1951 a 1955, exerceu o cargo de diretora do Serviço Especial de Saúde Pública, no Rio de Janeiro, retornando para a EE-USP, como diretora, e permanecendo no cargo, no período de 1956 a 1978(9-11).

Entre 1951 e 1955, foi presidente da Associação Brasileira de Enfermagem e participou da elaboração do documento "Levantamento de Recursos e Necessidades de Enfermagem no Brasil", entre 1956/58, marco inicial das pesquisas na área de enfermagem no país. Em 1975, foi eleita primeira presidente do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN), desempenhando importante papel na implantação do Sistema COFEN/CORENs(10,12).

Aposentou-se, em 1978, após exercer, por 23 anos, a direção da EE-USP, porém continuou como colaboradora, com participação ativa no conselho editorial da Revista da Escola de Enfermagem da USP. Faleceu em 21 de junho de 2002(12).

A segunda enfermeira que participou como docente do Primeiro Curso de Administração Hospitalar e de Serviços de Saúde, em 1976, foi Diane B. Greene, enfermeira americana do Incarnate Word Collegge, de San Antonio, Texas (EUA), mestre em ciências2 que ofereceu a disciplina "Administração do Serviço de Enfermagem". Esta disciplina foi oferecida em formato de curso de extensão, e seu conteúdo abordava temas de interesse da Enfermagem brasileira3. O curso foi divulgado em vários jornais de grande circulação nacional, como a Folha de São Paulo4, Estado de São Paulo5 e Jornal da Tarde6.

O curso da professora Diane B. Greene propunha conteúdos sobre diversos temas de interesse da Enfermagem brasileira que, na época, estava em busca de qualificação relativa às novas práticas gerenciais e assistenciais. A construção do corpo de conhecimentos específicos era focada na área hospitalar e fortemente vinculada ao modelo norte-americano de organização do trabalho da enfermagem. Esse curso revelava a intenção de induzir a qualificação de enfermeiras brasileiras para a reprodução ou apropriação do modelo americano então em evidência(1-3), foi ministrado como disciplina optativa do programa do primeiro Curso de Administração Hospitalar e de Serviços de Saúde e foi aberto à participação das enfermeiras do HCFM-USP(1).

À equipe7 do professor Humberto de Moraes Novaes e Oscar Cesar Leite, estava integrada a enfermeira Maria Camargo de Oliveira Falcão, que foi admitida no HCFMUSP como enfermeira prática porque a escola onde estudara não tinha ainda conquistado o reconhecimento na esfera federal. Seu diploma foi revalidado, em 1956, quando então foi promovida ao posto de enfermeira(1,13).

A enfermeira Maria Falcão, como é conhecida, trabalhou em diversas unidades de serviço do HCFMUSP. Foi indicada para fazer o Curso de Pós-Graduação em Administração aplicada à Enfermagem e Centro Cirúrgico, na EEUSP, e foi bolsista da OMS-OPAS para um estágio de observação no Hospital Distrital Universitário no Centro Médico em Rio Piedras - Porto Rico. Em 1971, fez o Curso de Administração Hospitalar na Faculdade de Saúde Pública da USP, coordenado pelo professor Odair Pacheco Pedroso. Sua participação nesse curso ocorreu pelo fato de integrar a equipe de trabalho que participava da organização de hospitais no Brasil(13).

A enfermeira foi ainda diretora substituta da Divisão de Enfermagem do HCFMUSP, em 1972, e, em janeiro de 1974, foi nomeada titular, permanecendo no cargo até 1976. Sua atuação profissional, antes de assumir a direção daquela divisão, era centrada na área de Centro Cirúrgico. No mesmo complexo hospitalar, foi também diretora do Serviço de Enfermagem do Instituto de Psiquiatria, de 1977 a 1985(13).

Participou ainda de entidades de classe. Da Associação Brasileira de Enfermagem - Seção São Paulo, foi presidente e, como membro da diretoria, organizou o XXII Congresso Brasileiro de Enfermagem, que discutiu a inserção da enfermeira de nível universitário do serviço público do Estado de São Paulo.

Com a promulgação da Lei n.º 5.905/1973, que criou o Sistema COFEN/ CORENs, foi a primeira presidente do Conselho Regional de Enfermagem (COREN-SP), iniciando o cadastro de profissionais de Enfermagem(4,13). Nesse momento da história da Enfermagem paulista, sua posse foi considerada significativa por congregar todos os profissionais de enfermagem do Estado de São Paulo.

O conteúdo da disciplina ministrada pela enfermeira Maria Falcão foi "Centro de Material Esterilizado". Vale registrar que sua experiência profissional nessa área era bastante extensa, pois atuou no HCFMUSP e na organização de outros serviços similares no Brasil, tendo sido consultora do Ministério da Saúde na área.

Na época em que a docente atuava no HCFMUSP, o trabalho em centro cirúrgico era visto como processo de organizar uma unidade onde fossem realizadas cirurgias, bem como local onde era realizado o preparo de material e alguns equipamentos esterilizados, indispensáveis ao procedimento cirúrgico e ao cuidado geral do paciente hospitalizado para prevenção de infecções(13-14).

A prática da enfermeira em centro cirúrgico estava mais voltada aos aspectos de gerenciamento, ou seja, para a provisão, manuseio e manutenção de materiais e equipamentos nas salas de operação que, por sua vez, estava se tornando uma unidade de alta tecnologia, necessitando preparo para o atendimento das mais sofisticadas cirurgias, como os primeiros transplantes de rim e coração(13-15).

Outra docente que integrava a equipe dos professores Humberto de Moraes Novaes e Oscar Cesar Leite foi Vanderli de Oliveira Dutra. Graduada em Enfermagem pela Cruz Vermelha Brasileira, filial do Estado de São Paulo, em 1962, também se graduou em Pedagogia, em 1976. Concluiu cursos de especialização em Administração de Serviço de Enfermagem na EE-USP e em Administração Hospitalar, na Faculdade de Higiene e Saúde Pública da USP. Obteve o título de Mestre em Educação, em 2008, pela Universidade Bandeirantes8 (16).

A atuação profissional de Vanderli de Oliveira Dutra esteve localizada nas áreas de ensino e hospitalar, mais precisamente na gerência de serviços. Constituiu o grupo de trabalho que organizou o Serviço de Enfermagem do Instituto do Coração (INCOR-HCFMUSP)(16), e foi a primeira diretora desse serviço, permanecendo no cargo por 15 anos. A experiência proporcionou-lhe a oportunidade de coordenação, implantação e implementação da sistematização do cuidado de enfermagem, baseada na Teoria de Enfermagem e Metodologia do Processo de Enfermagem de Wanda de Aguiar Horta.

No período de 1988 a 1995, foi coordenadora da Coordenadoria de Aprimoramento de Pessoal do HCFMUSP, atuando no planejamento, implantação e organização das atividades de educação dos profissionais daquele hospital, estagiários e alunos externos a ele, exceto na área médica(16). Na época, sob seu comando, implementou e sistematizou programas de aprimoramento, em vários campos das ciências da saúde, no HCFMUSP e, em sua gestão, liderou e conquistou a busca do reconhecimento desses programas como de especialização, conforme a legislação vigente.

Quanto à participação em entidade de classe, foi vice-presidente do COREN-SP, no período de 1996 a 2002, membro de Comitês Técnicos do Ministério da Saúde em dois projetos: Padrões Mínimos de Assistência de Enfermagem em Recuperação da Saúde, em 1979, e Acreditação Hospitalar, em 1997(16). No primeiro Curso de Administração Hospitalar e de Serviços de Saúde do HCFMUSP/FGV, foi responsável pelo conteúdo sobre unidades de internação, serviços de berçário e ambulatório.

 

DISCUSSÃO

A presença dessas docentes enfermeiras no Curso de Administração Hospitalar e de Serviços de Saúde demonstrou a possibilidade da ação local e a formação de alianças políticas serem capazes de ampliar a participação das enfermeiras, no campo da formação de recursos humanos em saúde, para além da Enfermagem. No cenário de grandes transformações em que se deu a criação do curso de especialização estudado, a presença dessas enfermeiras representou a ampliação de poder das enfermeiras, por meio de sua inclusão em grupo de destaque, em iniciativa pioneira e reconhecida. O fato não foi em razão exclusivamente vinculada à ação individual de cada uma delas, mas configurou a típica ação social, na visão weberiana, como se verá a seguir.

Na interpretação weberiana, a preocupação com a formação especifica é exigida pela moderna burocracia, que visa a eficiência e aprimoramento técnico para o exercício de ocupações ou cargos nas estruturas públicas e privadas, em sistemas organizacionais complexos.

A representação da professora Maria Rosa de Souza Pinheiro no cenário da enfermagem brasileira envolvia o exercício consciencioso e honesto do papel representativo do qual era possuidora. Na linguagem weberiana, esse processo é entendido como vocação política que tem o dever de lutar para transformar suas convicções íntimas em ordem e regra(7). Assim, alertava o pensador: confundir esses deveres vocacionais aviltaria duplamente a vida política, na organização do domínio permanente e no exercício da liderança, atribuindo a esses representantes o modo legítimo e vinculante(7-8).

Nesse caso, para o autor empregado como referencial de análise, quem possui o carisma e emprega esforços responsáveis por uma causa, o faz porque tem convicções pessoais, seja na condição de agente social que influencia as decisões das várias esferas da sociedade, por ser detentor não só de certos instrumentos de poder, mas também por ser portador de ideologia que lhe mostre os fins a serem alcançados e, mais do que isto, motive-o a participar da vida política(7).

Por sua vez, o curso da professora Diane B. Greene trazia um temário inovador de determinado conhecimento especializado, que melhoraria o entendimento das transformações que estavam em curso na Enfermagem americana e que deveria ser apresentado à Enfermagem brasileira, para que esta pudesse produzir novas formas de conhecimento para o processo de trabalho gerenciar em enfermagem.

O mesmo ocorreu com a atuação das enfermeiras Maria Falcão e Vanderli de Oliveira Dutra que, estimuladas por apoio institucional, foram em busca de conhecimentos e habilidades especializados, de referência americana, para realizar o trabalho gerencial. Por esse motivo, ambas foram convidadas pelos coordenadores da disciplina que lecionaram a divulgar esses conhecimentos e habilidades, o que lhes oportunizou a demonstração dos saberes e poderes da Enfermagem, no campo onde atuavam, para alunos de um curso referência na área de Administração em Saúde.

Nesse sentido, pode-se afirmar que as docentes retratadas utilizaram o prestígio e reconhecimento que detinham nas áreas onde atuavam, manifestando, dessa forma, a dominação burocrática, que é própria do sujeito especializado, prevalecendo a qualidade da especialização em detrimento da "qualidade cultural". Dessa forma, a ideia de utilidade passou a ser relevante no processo educacional do especialista(7,17). Nessa direção, estas docentes, especialistas em suas respectivas áreas de atuação, ofereceram ao curso características significativas e influenciaram a formação de profissionais também para atuar em uma área específica - a Gestão de Serviços de Saú.

Ao retratar essas enfermeiras docentes, percebe-se que as relações por elas estabelecidas estavam baseadas na racionalidade instrumental, entendida como um processo de socialização, transformando suas contribuições em um produto da sociedade, manifestado nas individualidades dessas professoras aqui retratadas. Entende-se que, nesse ciclo, prevaleceu o sucesso individual de cada uma, porém norteado por comportamentos próprios, inseridos na sociedade contemporânea e vinculados a ela, garantindo a presença da burocracia.

 

CONCLUSÃO

Estudar este grupo profissional permitiu caracterizar em profundidade esse segmento do corpo docente do curso de especialização que estava sendo criado. Vale ressaltar que as enfermeiras docentes já possuíam projeção em suas carreiras e seu prestígio possivelmente agregou valor ao curso citado.

A contribuição deste estudo sobre o ensino de administração de serviços de saúde, nos anos 1970, é evidenciada pelo aprofundamento da discussão sobre ocupação do espaço de práticas sociais educativas formais e a formação de recursos humanos para essa área específica. Vale ressaltar que a participação dessas enfermeiras reafirmou a valorização de atributos no sentido de fazer valer os interesses políticos e sociais da época.

A teoria weberiana foi adequada à análise dos resultados da presente pesquisa, especialmente nos conceitos de burocracia com suas tipologias, da sociologia compreensiva no tratamento de situações coletivas, quanto à questão da noção de sentido e causalidade, diante da configuração histórica, e na ação social, que visa à compreensão da dominação e legitimação, presença comum nas organizações formais modernas.

Vale registrar que a pesquisa documental forneceu contribuições legítimas para o conhecimento desse período da história da saúde e da enfermagem, restringindo-se, porém, à instituição e período analisados. Seus achados podem suscitar novas interrogações, instigando outros pesquisadores a buscarem novos esclarecimentos, o que permitirá expandir o conhecimento, limitado, no presente estudo, ao objeto, atores e circunstâncias analisadas.

 

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Autor Correspondente:
Divanice Contim
Praça Manuel Terra, 330
Uberaba - MG - Brasil
Cep: 38015-050
E-mail: d.contim@uol.com.br

Artigo recebido em 11/05/2010 e aprovado em 18/11/2010

 

 

* Trabalho extraído da tese de doutorado "Parceria FGV-HCFMUSP na formação do Administrador de Saúde: 1971-1977", apresentada à Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP - São Paulo (SP), Brasil; 2009.
1 Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - HCFMUSP Processo Nº1501/1972. Programa de Estudos Avançados em Administração Hospitalar e Serviços de Saúde- PROASHA. Curso de Pós-graduação em Administração de Empresas. São Paulo: Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - HCFMUSP; 1972.
2 EAESP-FGV. Primeiro Curso de Especialização em Administração de Saúde e Hospitalar: Carta convite 'a profa Diane Greene para ministrar o Curso de Administração do Serviço de Enfermagem fev/76. Data [n.i.].
3 EAESP-FGV. Primeiro Curso de Especialização em Administração de Saúde e Hospitalar: Disciplina Administração do Serviço de Enfermagem, Professora Diane B. Greene. Data [n.i.].
4 Folha de São Paulo. Primeiro Curso de Especialização em Administração Hospitalar: Anuncio sobre. Curso de Administração do Serviço de Enfermagem. São Paulo. 22/12/1974, p. 22.
5 O Estado de São Paulo. Primeiro Curso de Especialização em Administração Hospitalar: Anuncio sobre. Curso de Administração do Serviço de Enfermagem. São Paulo. 04/01/1976, p. 18.
6 Jornal da Tarde. Primeiro Curso de Especialização em Administração Hospitalar: Anuncio sobre. Curso de Administração do Serviço de Enfermagem. São Paulo. 05/01/1975, p. 12.
7 EAESP-FGV. Curso de Especialização em Administração Hospitalar: Disciplina Equipamentos e instalações hospitalares, Profs. Oscar Cesar Leite e Humberto de Moraes Novaes. Período out-dez 1975.Data [n. i.]
8 Dutra VO. Curriculum Lattes. [Base de dados Internet]. Brasília (DF): CNPq; 2009. [citado 23 jul 2009]. Disponível em: http://lattes.cnpq.br/4589608073867621

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