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Acta Paulista de Enfermagem

On-line version ISSN 1982-0194

Acta paul. enferm. vol.25 no.1 São Paulo  2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-21002012000100004 

ARTIGO ORIGINAL

 

Uso rotineiro do brinquedo terapêutico na assistência a crianças hospitalizadas: percepção de enfermeiros*

 

Routine use of therapeutic play in the care of hospitalized children: nurses' perceptions

 

Uso rutinario del juguete terapéutico en la asistencia a niños hospitalizados: percepción de enfermeros

 

 

Ana Gabriela Bertozzo FrancischinelliI; Fabiane de Amorim AlmeidaII; Daisy Mitiko Suzuki Okada FernandesIII

IEnfermeira da UTI Pediátrica, Hospital Israelita Albert Einstein - HIAE - São Paulo ( SP) Brasil
IIDoutora, Professora do Curso de Graduação e Coordenadora do Curso de Especialização em Enfermagem Pediátrica e Neonatal da Faculdade de Enfermagem, Hospital Israelita Albert Einstein - HIAE - São Paulo (SP), Brasil
IIIEnfermeira, Hospital Israelita Albert Einstein - HIAE - São Paulo (SP), Brasil

Autor Correspondente

 

 


RESUMO

OBJETIVO: verificar a percepção de enfermeiros em relação ao uso rotineiro do brinquedo terapêutico (BT) na assistência à crianças hospitalizadas.
MÉTODOS: Estudo descritivo-exploratório, de abordagem quantitativa, realizado com 30 enfermeiros de unidades que atendem crianças em um hospital privado do município de São Paulo-SP. Os enfermeiros foram entrevistados e os dados analisados por meio de técnicas de estatística descritiva.
RESULTADOS:
A maioria já teve contato com o tema "brinquedo/brinquedo terapêutico" (27,9%) e considerou válido seu uso na prática (29,9%); entretanto (18,6%) não o utilizava na instituição onde trabalha. Dentre os que já empregaram o BT alguma vez, a maioria (22,7%) identificou benefícios e 11 enfermeiros (37%) citaram dificuldades, como a falta de tempo (9,3%).
CONCLUSÃO: Apesar da maioria dos entrevistados ter conhecimento sobre BT e valorizar seu uso na prática, ainda não o utiliza rotineiramente em seu cotidiano.

Descritores: Jogos e brinquedos; Criança hospitalizada; Enfermagem pediátrica; Percepção


ABSTRACT

OBJECTIVE: To identify nurses' perceptions regarding the routine use of therapeutic play in the care of hospitalized children.
METHODS: A descript exploratory, quantitative study, conducted with 30 nurses in units that care for children in a private hospital in the city of São Paulo-SP. The nurses were interviewed and the data were analyzed by means of descriptive statistical techniques.
RESULTS: The majority had contact with the theme "play/therapeutic play" (27.9%) and considered it valid for use in practice (29.9%); however, it was not used in the insitution where they currently worked (18.6%). Among those who had ever used therapeutic play, the majority (22.7%) identified benefits, while 11 nurses (37%) cited difficulties, such as lack of time (9.3%).
CONCLUSION: Although the majority of those interviewed had knowledge about therapeutic play and valued its use in practice, it is not routinely used in their daily practice.

Keywords: Play and playthings; Child, hospitalized; Pediatric nursing; Perception


RESUMEN

OBJETIVO: Verificar la percepción de enfermeros en relación al uso rutinario del juguete terapéutico (JT) en la asistencia a niños hospitalizados.
MÉTODOS: Estudio descriptivo-exploratorio, de abordaje cuantitativo, realizado con 30 enfermeros de unidades que atienden a niños en un hospital privado del municipio de Sao Paulo-SP. Los enfermeros fueron entrevistados y los datos analizados por medio de técnicas de estadística descriptiva.
RESULTADOS: La mayoría ya tuvo contacto con el tema "juguete/juguete terapéutico" (27,9%) y consideró válido su uso en la práctica (29,9%); entre tanto (18,6%) no lo utilizaba en la institución donde trabaja. De los que ya emplearon el JT alguna vez, la mayoría (22,7%) identificó beneficios y 11 enfermeros (37%) citaron dificultades, como la falta de tiempo (9,3%).
CONCLUSIÓN: A pesar de que la mayoría de los entrevistados tenga conocimiento sobre JT y valorice su uso en la práctica, aun no lo utiliza rutinariamente en su cotidiano.

Descriptores: Juego e implementos de juego; Niño hospitalizado; Enfermería pediátrica; Percepción


 

 

INTRODUÇÃO

Brincar é a atividade mais importante da vida da criança, é a forma pela qual ela se comunica com o meio onde vive, expressando, não só seus sentimentos de amor, mas também suas ansiedades e frustrações, bem como as críticas ao meio e às relações familiares, conquistando o desenvolvimento harmonioso de sua personalidade (1).

No final do século XIX, Florence Nightingale já enfatizava a importância do brincar, preconizando, para a criança, cuidados de higiene física, alimentar e de meio ambiente, bom como recreação e ar puro (2-3).

Compreendido como uma forma de diversão, de recreação, de atividade não séria e oposta ao trabalho, o brincar vai além, do que simplesmente proporcionar entretenimento,lazer, distração e ocupação. É uma necessidade da criança, presente em todos os estágios do desenvolvimento e sua importância no processo de socialização, no desenvolvimento e aprimoramento da criatividade e da autoconsciência tem sido amplamente abordada na literatura (2-6).

O brinquedo possui também importante valor terapêutico, por ajudar a criança a enfrentar situações de crise, como a hospitalização. Nesse caso, pode influenciar positivamente no restabelecimento físico e emocional da criança ao tornar o processo de hospitalização menos traumatizante, acelerando sua recuperação (7).

No contexto hospitalar, é utilizado com frequência na dramatização de papéis e conflitos, favorecendo a catarse, que significa alívio e purificação do indivíduo. Evidencia-se, dessa forma, sua função curativa, ao possibilitar que a criança elabore seus conflitos, aliviando sua ansiedade. Afinal, expressar-se por meio do brinquedo é a forma mais natural de autoterapia que a criança dispõe (2,8).

Uma das modalidades lúdicas terapêuticas bastante utilizadas pelos enfermeiros é o brinquedo terapêutico (BT). Embora se fundamente na ludoterapia, o BT difere desta, uma vez que é indicado para qualquer criança que viva experiências atípicas à sua idade que podem ser ameaçadoras (como a hospitalização). Pode ser utilizado por diferentes profissionais e em qualquer local, com o objetivo de melhor compreender seus necessidades e seus sentimentos (9-10).

O BT é classificado em dramático, instrucional e capacitador de funções fisiológicas. O BT dramático ou catártico permite a descarga emocional e a expressão dos sentimentos, desejos e experiências vividas. Propicia uma comunicação mais eficaz, dando oportunidade à criança de assumir papéis sociais, pois ao "fazer-de-conta" que é o pai, a mãe ou o profissional passa a compreender melhor a situação e consegue modificar seu comportamento (2,6-7,10-11).

O BT instrucional objetiva explicar os procedimentos à criança, para que compreenda o que deve esperar e como participar durante o procedimento ao manipular o material da experiência antes e após ela (2,6-7,11-12).

O BT capacitador de funções fisiológicas, por sua vez, é aquele no qual a criança participa de uma atividade lúdica com o intuito de melhorar seu estado físico. Possibilita à criança utilizar suas capacidades fisiológicas dentro de suas possibilidades e aceitar novas condições de vida (2,6-7,12).

Conforme a literatura, o uso de brincadeiras no hospital apresenta muitas vantagens, dentre elas, a capacidade de conduzir as crianças a uma experiência que as faça sentir-se vivas, mesmo em situação estressante, como quando doentes. Essa vivência propicia-lhes ganhos e perdas, crescimento e amadurecimento, sucessos e fracassos, mantendo a evolução de seu processo de desenvolvimento (13-15).

Atualmente, é notório que o uso do brinquedo na assistência à criança é um ingrediente indispensável à consecução de uma das atuais tendências da assistência de enfermagem à criança, que é a assistência atraumática. Este tipo de assistência também denominado cuidado sem traumas, é uma filosofia que pressupõe o uso de intervenções que eliminem ou minimizem o desconforto físico e psicológico vivenciado pelas crianças e suas famílias (6,16).

A assistência atraumática está em consonância com o que é preconizado pela Política Nacional de Humanização do Ministério da Saúde (6). Diante disso, o uso do brinquedo/BT está entre as estratégias que tornam possível a criação de um espaço hospitalar mais humanizado, distanciando-se os estereótipos do medo e da ansiedade tão presentes no cotidiano das crianças, ao serem submetidas a procedimentos considerados dolorosos e angustiantes.

Todavia, ainda que a literatura seja vasta no que se refere às vantagens e benefícios do brincar no hospital, ele ainda é pouco empregado na prática, em função de algumas dificuldades apontadas pelos profissionais de saúde, como destaque para a falta de tempo para brincar e o despreparo em relação ao uso do BT.

Embora existam dificuldades para a implantação dessa prática, sejam relacionadas a recursos humanos, materiais e/ou estruturais, elas não devem se constituir em empecilhos que justifiquem a privação do direito que a criança tem de brincar. É preciso instrumentalizar a equipe de enfermagem, para que conheça os benefícios da inserção do brincar na prática do cuidar e saiba utilizá-lo de maneira a potencializar tais benefícios (17).

Entendendo a importância do brinquedo na prática da assistência de enfermagem para a criança e estando sensibilizadas para as dificuldades enfrentadas pelos profissionais para inseri-lo em seu cotidiano, as autoras propuseram-se a desenvolver este estudo, com o intuito de explorar a percepção dos enfermeiros em relação ao uso do brinquedo no cuidado à criança hospitalizada. Esta pesquisa constituiu-se em um passo inicial no processo de inserção do uso do BT pelo enfermeiro na instituição onde os dados foram coletados.

 

OBJETIVOS

Identificar a percepção de enfermeiros em relação ao uso rotineiro do brinquedo terapêutico na assistência à criança hospitalizada.

 

MÉTODOS

Trata-se de um estudo descritivo-exploratório, com abordagem quantitativa, realizado em um hospital geral privado, de grande porte na cidade de São Paulo-SP.

Participaram da amostra os enfermeiros que atuavam na unidade pediátrica, terapia intensiva pediátrica, clínica de especialidades e "Day Clinic" da referida instituição. Foram excluídos aqueles afastados em férias ou licenças durante a coleta dos dados ou que não concordaram em participar do estudo, perfazendo um total de 30 enfermeiros.

A coleta de dados ocorreu no segundo semestre de 2007, após aprovação do projeto de pesquisa pelo Comitêde Ética em Pesquisa do Hospital Israelita Albert Einstein (CAAE: 0043.0.028.000-07) e autorização dos gestores das unidades onde foi realizada a coleta. Primeiramente, a pesquisadora explicava o objetivo da pesquisa e em que consistia a participação do sujeito, apresentando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido a ser assinado por ele, caso concordasse em participar.

Os dados foram coletados por intermédio de entrevista estruturada, agendada durante o horário de trabalho, de acordo com a disponibilidade do enfermeiro. Para conduzir a entrevista, utilizou-se um formulário contendo 19 questões fechadas e uma aberta, abordando as características dos respondentes (dados de identificação, formação acadêmica e atuação profissional dos sujeitos) e a experiência do enfermeiro com o BT, durante a formação acadêmica e na prática profissional. Ressalta-se que as categorias de respostas foram estabelecidas previamente, exceto para a questão aberta, que se referia à idade do respondente.

Os dados foram analisados por técnicas de estatística descritiva e apresentados em números absolutos e relativos, sob a forma de tabelas.

 

RESULTADOS

Caracterização dos enfermeiros

A maioria dos 30 entrevistados era do sexo feminino (96,6%), com idade variando entre 25 e 50 anos (média = 32 anos). Quanto à formação acadêmica, 21 (70%) graduaram-se em instituição particular e nove (30%), em instituição pública. O tempo de formado variou de 1 a 16 anos, e 12 (46%) tinham entre 1 e 6 anos de formado. No que se refere à titulação, a maioria (85%) era especialista, enquanto apenas três (11%) eram mestres.

Em relação ao tempo de atuação na área de enfermagem pediátrica, 10 (34%) trabalhavam entre 4 e 6 anos nessa área e sete (23,3%), há mais de 10 anos (Tabela 1).

 

 

Contato dos enfermeiros com o brinquedo terapêutico durante a vida profissional

A maioria dos entrevistados (90%) teve contato com a temática durante a formação acadêmica, sobretudo no curso de graduação (46,7%) e especialização (23,3%), como mostram os dados da Tabela 2.

 

 

Quanto à participação em grupos e/ou núcleos de estudo sobre o brinquedo/ BT, verifica-se que apenas 6(20%) participam ou participaram desse tipo de atividade.

Em relação ao uso do BT na prática, a maioria dos entrevistados (18, 60%) não o utilizava na instituição onde trabalha. Vale destacar que na instituição onde o estudo foi realizado, esta não é uma prática rotineira.

Dentre os entrevistados que não usavam o BT na instituição onde trabalham, 15 (50%) citaram que já o empregaram na prática alguma vez, a saber: em outra instituição onde trabalharam (5; 17%); durante o curso de graduação (5, 17%) ou pós-graduação (3, 10%); em outra ocasião não discriminada (4, 13%). Ao serem indagados, ainda, quanto à finalidade com que o BT foi utilizado nessa ocasião, 7 enfermeiros (23%) empregaram-no no preparo prévio da criança para a realização de procedimentos, 6 (20%) durante o procedimento para transformá-lo em brincadeira e obter a cooperação da criança e 5 (17%), apenas para permitir à criança brincar livremente e expressar seus sentimentos.

Dentre os enfermeiros que empregavam o BT nas unidades onde os dados foram coletados, 7 (23%) utilizavam apenas com algumas crianças, nunca rotineiramente, com a finalidade de preparar a criança para procedimentos, e 5 (17%), no procedimento para obter a cooperação da criança ou para que ela brincasse livremente e expressasse seus sentimentos.

 Percepção dos enfermeiros em relação ao uso do brinquedo terapêutico na prática

A grande maioria dos entrevistados (97%) era favorável ao uso do BT na prática, considerando uma estratégia válida a ser instituída na assistência de enfermagem à criança e sua família.

Dos 27 entrevistados que já utilizaram o BT na prática, seja na instituição atual de trabalho ou em outros locais, a maioria (81%) apontou os benefícios dessa prática à criança, e os mais citados, de acordo com os dados da Tabela 3 foram: melhora da interação entre adulto e criança (19%), maior cooperação da criança durante o procedimento (17%) e redução da ansiedade da criança, que passa a chorar menos durante o procedimento (17%).

 

 

Quanto às dificuldades para usar o BT na prática, a maioria dos entrevistados que já o usou (59%) não relatou nenhuma dificuldade para desenvolvê-lo com as crianças. Dentre as dificuldades mais citadas, conforme os dados da Tabela 4, destacam-se a falta de tempo (50%) e a preocupação com as outras atividades a serem desenvolvidas na unidade (25%). Ressalta-se, que a falta de conhecimento e a insegurança para utilizar o BT, bem como as interrupções de outros profissionais durante a brincadeira foram as menos frequentes (8,3%).

 

 

 

DISCUSSÃO

Os dados mostraram que a maioria dos enfermeiros entrevistados referiu ter conhecimento sobre o brinque-do/BT e que o contato com a temática ocorreu sobretudo nos cursos de graduação e/ou pós-graduação sensu lato.

Vários autores já citados enfatizam a importância de se inserir o brincar na assistência prestada à criança em diferentes contextos e não apenas no hospital (2-3,8,18-24).

Além disso, o uso do brinquedo/BT é uma prática recomendada e regulamentada pelo Conselho Federal de Enfermagem, de acordo com a Resolução nº 295/2004 (6,25).

Para que o enfermeiro introduza essa prática em seu cotidiano, há necessidade que ele possua embasamento teórico quanto ao reconhecimento do brincar como necessidade básica à criança e o desenvolvimento de habilidades essenciais para seu uso.

Assim, o brincar deve ser contemplado nos cursos de graduação e pós-graduação, bem como naqueles de nível técnico. Justifica essa afirmativa o fato de que o brincar deve ser considerado, pelo enfermeiro pediatra, a maneira mais adequada de se aproximar da criança e desenvolver uma empatia entre ambos, estabelecendo um relacionamento de confiança (26-27).

Os resultados do presente estudo também mostraram que a maioria dos entrevistados identificou benefícios em >relação ao uso do brinquedo com a criança.

Um dos benefícios mais citados pelos enfermeiros que participaram deste estudo e utilizam o brinquedo na prática foi ajudar a criança a enfrentar novas situações, auxiliando a prepará-la para procedimentos hospitalares, reforçando o que afirmam alguns autores (7,15,27-28).

Vários benefícios relacionados ao uso do brinquedo e apontados pelos enfermeiros entrevistados também são citados na literatura sobre o tema, destacando, entre outros, o valor do brinquedo como estratégia para diminuição do estresse provocado pela hospitalização (2-3,8,15,26,28).

O brinquedo também é capaz de propiciar mudanças no comportamento da criança, que passa a aceitar, de maneira mais tranquila, os procedimentos hospitalares que precisam ser realizados com ela. Estudos mostram que os comportamentos que evidenciam maior adaptação e aceitação do procedimento pela criança tornam-se mais frequentes, assim como a redução da dor, quando o preparo com o brinquedo é realizado previamente (19-20).

Outro benefício citado pelos enfermeiros que vai ao encontro aos achados da literatura é o fato do brinquedo terapêutico possibilitar ao enfermeiro compreender melhor as necessidades e os sentimentos da criança, ajudando-a a assimilar novas situações e compreender, o que se passa a seu redor (2-3,8,15,28).

Os benefícios apontados pelos enfermeiros do presente estudo relacionavam-se apenas à criança, mas, de acordo com a literatura, eles também se estendem à família, ao próprio profissional e à instituição.

Uma pesquisa realizada com enfermeiros assistenciais e docentes, que se propunha a apresentar e discutir os benefícios do BT vivenciados na prática, evidenciou, além dos inúmeros benefícios já citados anteriormente à criança, família, ambiente do cuidado e profissionais, vivenciá-los no seu cotidiano faz com que o enfermeiro sinta-se gratificado e realizado pessoal e profissionalmente, levando-o a valorizar o BT como instrumento de intervenção de enfermagem(15).

Quando o brincar faz parte da assistência à criança hospitalizada, o hospital também se beneficia, pois a visão corrente é de que nesse ambiente só existe dor, solidão, medo e choro, ou seja, apenas aspectos negativos que são relativizados (3).

Embora a maioria dos enfermeiros que utiliza ou já usou o brinquedo na prática, não aponte as dificuldades para incluí-lo como prática rotineira, algumas destas dificuldades citadas pelos entrevistados também são mencionadas na literatura, como a falta de tempo para se dedicar a essa atividade e a preocupação com as demais atividades a serem desenvolvidas.

Aparentemente, a sala de recreação é o local mais procurado pelas crianças e suas mães durante a internação hospitalar. Evidencia-se como um lugar especial para elas, sobretudo às crianças, que podem estar com outras sem se sentirem solitárias e também à equipe de saúde, ainda que de forma mais discreta. Entretanto, muitas vezes, pela escassez de funcionários de enfermagem e à falta de tempo, ela permanece fechada por longos períodos (3,29).

Muitas vezes, percebe-se que os enfermeiros, embora notem as manifestações de tensão, como irritabilidade, lamentos e choro, entre outros, focam seu plano de cuidado na recuperação da saúde biológica da criança. Com a justificativa da falta de tempo e, muitas vezes, de pessoal para atender a todas as demandas das unidades de internações, a atenção à criança e à família, que incluem o brincar e as explicações sobre o que está ou vai acontecer, acabam ficando um pouco de lado (4).

A insegurança para utilizar o BT na prática também foi apontada como dificuldade apenas por um entrevistado, que parece estar bastante relacionado à falta de conhecimento em relação à técnica do BT também citado apenas uma vez neste estudo. Em nossa prática, são comuns os relatos de enfermeiros que não se sentem preparados para utilizar o BT rotineiramente, assim como na literatura(30); esta dificuldade teve pouca representatividade entre os enfermeiros entrevistados neste estudo.

Em relação à interrupção do enfermeiro por outros profissionais durante a brincadeira, ainda que citada por poucos profissionais, também é vivenciada pelas autoras na prática, mostrando que essa atividade nem sempre é valorizada pela equipe de saúde, que não a reconhece como uma das atribuições do enfermeiro (3,29).

Considerando que este é um estudo descritivo, exploratório recomenda-se a realização de outros trabalhos que permitam comparar esses resultados com os observados com os enfermeiros de instituições que utilizam rotineiramente o brinquedo.

Um estudo que analisa a produção acadêmica dos enfermeiros brasileiros sobre o uso do brinquedo na atenção à criança no hospital nos programas de pós-graduação stricto sensu, aponta que, embora o número de trabalhos nesta temática venha aumentando a cada ano, novas pesquisas precisam ser realizadas, no sentido de investigar como o brinquedo está sendo utilizado pelos enfermeiros que lidam com as crianças em seu cotidiano (26).

 

CONCLUSÃO

Os resultados deste estudo mostram que, apesar da maioria dos entrevistados referir que já teve contato com o tema "brinquedo/BT", sobretudo na graduação e especialização e valorizarem seu uso na prática, ainda não o utilizam na instituição onde trabalhavam.

Dentre os entrevistados que já utilizaram o BT na prática, a maioria apontou benefícios em seu emprego, não identificando nenhuma dificuldade para sua realização. A falta de tempo e a preocupação com as outras atividades a serem desenvolvidas na unidade foram as dificuldades mais citadas, enquanto a falta de conhecimento, a insegurança para usar o BT e as interrupções de outros profissionais durante a brincadeira foram as menos frequentes.

Diante dessas evidências, acredita-se na importância do papel dos gestores de unidades que atendem crianças, promovendo grupos de discussão com seus membros, a fim de identificar as necessidades para a execução dessa atividade e buscar soluções a fim de que o enfermeiro possa brincar, disponibilizando o tempo necessário de sua carga horária. Assim, espera-se que a falta de tempo não seja um empecilho à incorporação do brincar na assistência de enfermagem à criança.A construção do conhecimento a respeito do brinquedo terapêutico ainda se constitui em um vasto campo de investigação, especialmente, quanto à aplicação e dificuldade de interpretação da sessão de brinquedo, bem como seu uso em situação do ensino.

 

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Autor correspondente:
Fabiane de Amorim Almeida
Rua Rio Grande do Norte, 55 ap 53. Pompéia
CEP: 11065-460 Santos - SP - Brasil
Tel: (13) 3252-2822
E-mail:fabi@einstein.br

Artigo recebido em 30/05/2010 e aprovado em 20/04/2011

 

 

* Trabalho de conclusão do Curso de Graduação em Enfermagem da Faculdade de Enfermagem, Hospital Israelita Albert Einstein - HIAE - São Paulo (SP), Brasil.

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