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Acta Paulista de Enfermagem

versión impresa ISSN 0103-2100

Acta paul. enferm. vol.25 no.2 São Paulo  2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-21002012000200017 

ARTIGO ORIGINAL

 

Valores sociais: com a palavra a juventude*

 

Valores sociales: con la palabra la juventud

 

 

Vilmar Ezequiel dos SantosI; Tatiana YonekuraII; Cássia Baldini SoaresIII; Célia Maria Sivalli CamposIV

IPsicólogo, Pós-graduando (Doutorado) do Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo.– USP – São Paulo (SP), Brasil
IIPós-graduanda ( Mestrado) do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo – USP – São Paulo (SP), Brasil. Bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil
IIILivre Docente. Professora Associada do Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo – USP – São Paulo (SP), Brasil
IVDoutora. Professora do Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo – USP - São Paulo(SP), Brasil

Autor correspondente

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Identificar os diferentes posicionamentos de jovens estudantes em relação às expressões sobre valores sociais contemporâneos.
MÉTODOS: Estudo descritivo de abordagem quantitativa, utilizou-se uma planilha para assinalar os posicionamentos de 229 estudantes de 15 a 19 anos, participantes de 29 grupos focais realizados em dez escolas de quatro regiões desiguais do município de Santo André, (SP). Os jovens posicionaram-se quanto à concordância – dúvida ou desacordo – sobre um conjunto de expressões valorativas sorteadas e discutidas nos grupos. Estas posições foram analisadas de acordo com suas frequências.
RESULTADOS: Por um lado, indicam certo grau de uniformidade de pontos de vista, como consequência da experiência geracional de assimilação dos valores disseminados na sociedade; evidenciam, por outro lado, heterogeneidades que expõem contradições inerentes aos diferentes contextos sociais que cercam esses jovens.
CONCLUSÃO: Identificou-se valores que diferem entre jovens pertencentes a distintos grupos sociais enquanto que outros não. Houve mais heterogeneidade do que homogeneidade nas opiniões sobre expressões valorativas utilizadas.

Descritores: Valores sociais; Adolescente; Estudantes; Iniquidade social


RESUMEN

OBJETIVO: Identificar los diferentes posicionamientos de jóvenes estudiantes en relación a las expresiones sobre valores sociales contemporáneos.
MÉTODOS: Estudio descriptivo de abordaje cuantitativo, en el que se utilizó um formulário para señalar los posicionamentos de 229 estudiantes de 15 a 19 años, participantes de 29 grupos focales realizados en diez escuelas de cuatro regiones desiguales del municipio de Santo André, (SP). Los jóvenes se posicionaron en cuanto a la concordancia – duda o desacuerdo – sobre un conjunto de expresiones valorativas sorteadas y discutidas en los grupos. Estas posiciones fueron analizadas de acuerdo con sus frecuencias.
RESULTADOS: Por un lado, indican cierto grado de uniformidad de puntos de vista, como consecuencia de la experiencia generacional de asimilación de los valores diseminados en la sociedad; evidencian, por otro lado, heterogeneidades que exponen contradicciones inherentes a los diferentes contextos sociales que rodean a esos jóvenes.
CONCLUSIÓN: Se identificó valores que difieren entre jóvenes pertenecientes a distintos grupos sociales en cuanto que otros no. Hubo más heterogeneidad que homogeneidad en las opiniones sobre expresiones valorativas utilizadas.

Descriptores: Valores sociales; Adolescente; Estudiantes; Inequidad social


 

 

INTRODUÇÃO

A temática da juventude vem ganhando cada vez mais visibilidade. No Brasil, esta deve-se à magnitude dessa população - são 40 milhões de jovens que estão entre 18 e 29 anos (21,1% da população geral do País) – e dos problemas advindos da precariedade das condições de vida de grande parte deles – chegam a 30% os jovens que vivem em famílias com renda per capita de até meio salário mínimo(1). Estudo realizado com jovens brasileiros de 15 a 24 anos mostrou que as maiores preocupações relatadas por eles eram violência, falta de acesso e precariedade das condições de trabalho, dificuldade de acesso e qualidade da educação, miséria pela má distribuição de renda e desigualdades sociais(2).

No entanto, embora haja características e questões comuns a esse grupo etário, não é possível tomá-lo como um grupo homogêneo. Ou seja, embora haja um componente geracional que permite definir a juventude pelo que há de específico à sua condição, ela não é vivida igualmente; sendo as diferentes condições e oportunidades disponíveis definidas pela situação socioeconômica a que o jovem está submetido. Por isso, tornou-se usual empregar a expressão juventudes, enfatizando que subsiste uma pluralidade de situações que confere diversidade às demandas e necessidades dos jovens(3). Essa pluralidade obedece às diferenças de classe que tornam impróprio conceber a categoria juventude como universal, pois são diversos os processos de socialização dos jovens das distintas classes sociais(4).

Coerentemente a essa opção teórica, este estudo toma valor como conceito historicamente construído na relação dialética com o modo de produção da vida social. O valor em Marx(5) é definido apoiado em sua base econômica e refere-se ao trabalho incorporado às mercadorias, de tal forma que as coisas e os objetos sejam valorizados pelo que aparentam e representam. Como a consciência somente tem acesso à realidade por meio das representações, conforma-se um sistema de valoração aparente que se torna o mecanismo fundamental para orientar escolhas, desejos, aspirações e ações. Os valores não são naturais ou universais, são heterogêneos e diferenciam-se nas distintas classes sociais, embora numa determinada sociedade, existem elementos comuns (valores dominantes, forma de consciência dominante, etc.) que servem para a reprodução da sociedade (6).

Nesta investigação, considera-se que as transformações em curso imprimidas pelo mecanismo do capital afetam em grande medida o sistema de valoração da juventude. Partiu-se do pressuposto que os jovens dos diferentes grupos sociais são diversamente afetados pelo sistema de valores contemporâneos. O objetivo deste estudo foi o de identificar os diferentes posicionamentos de jovens estudantes em relação às expressões sobre valores sociais.

 

MÉTODOS

Este estudo descritivo, de abordagem quantitativa1, seguiu os preceitos éticos estabelecidos pela Resolução nº. 196/1996, do Ministério da Saúde, tendo sido aprovado (Processos 538/2006/CEP-EEUSP e 27/2007/CEP-SSSA) por dois Comitês de Ética em Pesquisa, credenciados no Conselho Nacional de Ética em Pesquisa.

As escolas foram escolhidas por representarem a realidade social da região onde se encontravam, e os jovens participaram voluntária e aleatoriamente. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido foi assinado pelos pais ou responsáveis, pois a maior parte dos jovens não tinha completado 18 anos.

Como instrumento de coleta de dados, utilizou-se uma planilha em que foram marcados em espaço próprio os posicionamentos sobre as expressões valorativas dos jovens participantes de um jogo educativo(7). O jogo seguiu as normas do grupo focal e mostrou-se, conforme descrito em outro estudo(8), um instrumento vigoroso para coleta de dados com os jovens. Foi utilizado para promover o debate e a reflexão entre os jovens sobre um conjunto de 73 expressões valorativas que diziam respeito à realização/sucesso; segurança, confiança e futuro; drogas e outras formas de bem-estar e prazer. Cada jovem sorteou uma expressão e leu-a em voz alta, para que todos posicionassem um adesivo em um ponto de uma linha contínua que tinha em uma das extremidades a inscrição concordo plenamente e noutra discordo integralmente, apresentando também espaço para posições intermediárias. Os jovens puderam mudar de posição no decorrer das discussões. O grupo contou com um moderador, que direcionava as discussões, conforme os interesses e objetivos da pesquisa e possibilitava a participação dos jovens, e com um observador, responsável pelo preenchimento da planilha que documentou as mudanças de opiniões e outras questões de relevância para análise.

Foram obtidas 29 planilhas preenchidas, correspondentes aos 29 grupos realizados com 229 jovens de 15 e 19 anos, estudantes do ensino médio, em dez escolas de diferentes regiões do município de Santo André, SP, (Brasil). O município fora classificado em quatro regiões denominadas de Central (C), Quase central (QC), Quase periférica (QP) e Periférica (P), de forma que quanto mais os jovens e suas famílias dispunham de acesso à riqueza e cidadania, mais centralmente se localizam na cidade, embora esta relação centro-periferia não seja tão simétrica. Essas regiões compõem o Mapa das Juventudes de Santo André e foram identificadas baseadas em dados socioeconômicos e demográficos2 de jovens de 15 e 24 anos do município(9).

Dos 29 grupos, 11 foram relativos aos valores sobre realização/sucesso, nove sobre segurança, confiança e futuro e nove sobre drogas e outras formas de bem-estar e prazer. Nem todas as expressões foram discutidas em todos os grupos. As variáveis "concordo plenamente" e "concordo" captadas pela planilha foram agrupadas para análise no indicador "concordância" e as variáveis "discordo" e "discordo integralmente" compuseram o indicador "discordância".

Para efeito de análise, procedeu-se uma classificação dos grupos de acordo com o tema central das expressões valorativas sorteadas, referindo os distintos posicionamentos e apontando as diferenças entre os grupos estudados.

 

RESULTADOS

Posicionamento dos jovens quanto a valores relativos à realização/sucesso

Este conjunto de valores valeu-se de expressões que diziam respeito à realização humana por meio da educação e pela participação política, o sucesso pessoal independente dos meios. Foram realizados 11 grupos, com 84 jovens.

A valorização da educação como base para um futuro melhor foi discutida por 26 jovens, dos quatro grupos sociais. Dentre estes, todos (100%) os dos grupos C e QC concordaram que a educação garante o futuro. No grupo QP, 87,5% valorizaram o estudo, embora uma parcela já tenha ficado em dúvida (12,5%). Já no grupo P, em um primeiro posicionamento, 90% dos jovens afirmaram que a educação garante o futuro, mas após o debate e reflexão do grupo este percentual diminuiu (76,1%). Esse foi o único grupo social (P) que expressou discordância (14,2%) e 9,5% desses jovens ficaram em dúvida.

Ainda para discutir os valores relacionados à realização humana foi sorteada a expressão associada à política/participação/atuação política (a política é perda de tempo), discutida por jovens de todos os grupos sociais. Apenas no grupo P, houve concordância de 50% dos jovens, os outros 50% ficaram em dúvida; nesse grupo, não houve discordância com a assertiva. Os jovens dos grupos C, QC e QP discordaram da expressão.

Para discutir os valores associados a sucesso, foram propostas as expressões só se dá bem quem é corrupto ou passa o outro para trás, discutida por jovens de todos os grupos sociais e todo mundo rouba uma vez ou outra, discutida entre jovens dos grupos QC, QP e P. Foi unânime em todos os grupos a discordância com a primeira expressão. Em relação a segunda expressão, em um primeiro posicionamento, 60% dos jovens do grupo QC concordaram, mas, após discussão e reflexão, apenas 20% mantiveram a concordância e 80% passaram a discordar de que todo mundo rouba uma vez ou outra. Dentre os jovens do grupo QP, 25% discordaram e 75% dos jovens expressaram dúvida. Já no grupo P, a maioria dos jovens (75%) concordou com a expressão.

Posicionamento dos jovens quanto aos valores relativos à segurança, confiança e futuro

Este conjunto de valores foi discutido por 72 jovens, participantes de nove grupos, baseados nas temáticas violência e família.

Para discutir as questões relacionadas à violência, as frases utilizadas foram os pais não têm direito de bater nos filhos, às vezes, é preciso ser violento para resolver as coisas, violência é a única maneira de se obter respeito, filmes violentos incentivam a violência e joguinhos eletrônicos estimulam a violência.

Quanto à utilização da expressão os pais não têm direito de bater nos filhos, a maioria dos jovens dos grupos das regiões QC e QP concordou com a frase (71,4% e 73,6%, respectivamente). Já entre os jovens do grupo P 36,3% discordaram; 36,3% ficaram em dúvida e a menor porcentagem - 27,1% - concordaram com a expressão.

Os jovens também se mostraram contrários ao uso da violência, como forma de se dar bem na vida (às vezes, é preciso ser violento para resolver as coisas e violência é a única maneira de se obter respeito), com mais de 80% em desacordo com as expressões sem diferenças entre os grupos sociais.

A maioria dos jovens não acredita que filmes ou joguinhos violentos incentivem a violência (filmes violentos incentivam a violência e joguinhos eletrônicos estimulam a violência), com 66% do grupo QC e 55% do QP. Entretanto, após a discussão, o desacordo com a expressão caiu para 44,4% e 36,3% no grupo P. Quase um terço dos jovens manifestou dúvidas quanto à expressão.

Ainda para discutir valores relacionados à segurança, confiança e futuro, foi abordada uma questão associada à família, utilizando-se a expressão tenho meus pais como exemplo. Encontraram-se diferenças nos posicionamentos de jovens do grupo social C e do grupo P. Enquanto 100% dos jovens do grupo C concordaram com a expressão, no grupo P 54,5% concordaram e 45,5% discordaram da expressão.

Posicionamento dos jovens quanto a valores relativos a drogas e outras formas de bem-estar e prazer

Neste conjunto de valores, foram realizados nove grupos com a participação de 73 jovens e referiam-se a sexo, drogas lícitas e ilícitas, amigos e moda.

Para discutir esses valores, por meio da temática ligada a sexo, foram usadas as expressões sexo está em primeiro lugar em matéria de prazer e usar camisinha não está com nada.

Em relação à primeira expressão, 88,9% dos jovens do grupo QP e 68,7% dos jovens do P mostraram-se em dúvida quanto a essa valorização do sexo como forma de prazer. Já 60% dos jovens do grupo QC concordaram com a expressão.

A utilização de preservativos foi apoiada pelos jovens dos grupos QC e QP; e ao final da discussão 100% deles discordaram da expressão.

Para apreender valores associados ao consumo de drogas, como fonte de prazer, as expressões discutidas foram usar drogas é prazeroso, fumar é bom, a maconha deveria ser legalizada, a maconha é do bem, somente os nóias usam crack, pode ser prazeroso perder o controle.

A expressão valorativa usar drogas é prazeroso foi sorteada em dois grupos, das regiões QP e P. Entre os jovens da região QP, 40% dos jovens concordaram e 60% deles ficaram em dúvida. Já entre os do grupo P, 30% ficaram em dúvida e 70% discordaram. Ou seja, na região QP os jovens manifestaram maior dúvida quanto ao prazer proporcionado pelas drogas, tendendo à concordância, e na região P a maior porcentagem discordava e desconfiava do prazer propiciado pela droga.

Para abordar drogas lícitas, a expressão fumar é bom foi sorteada em dois grupos da região QC e em um grupo da região QP. Entre os jovens da região QC, em um dos grupos a discordância foi de 100%, e no outro grupo, 50% dos jovens ficaram em dúvida e 50% discordaram. Entre os jovens do único grupo da QP, 70% ficaram em dúvida e 30% discordaram. Ou seja, na região QC, a tendência maior foi de discordância e na região QP os jovens permaneceram em sua maioria em dúvida quanto aos benefícios do ato de fumar. No entanto, não se observou concordância em nenhum grupo.

A expressão a maconha deveria ser legalizada foi sorteada em dois grupos da região QP e em um grupo da região P. Em um dos grupos da QP, 80% dos jovens discordaram e 20% ficaram em dúvida e no outro grupo dessa região 50% ficaram em dúvida, 30% concordaram e 20% discordaram. No grupo de jovens da região P, 90% dos jovens discordaram da afirmativa e 10% ficaram em dúvida.

A expressão a maconha é do bem foi sorteada pelos grupos das regiões QC, QP e P. Na região QC, foram realizados dois grupos, com posicionamentos distintos por parte dos jovens. Em um deles, houve 100% de discordância e noutro, apenas 20% discordaram e os demais 80% ficaram em dúvida. No grupo da região QP, 80% dos jovens ficaram em dúvida e 20% discordaram totalmente. No grupo da região P, 90% dos jovens discordaram e 10% ficaram em dúvida.

A expressão somente os nóias usam crack foi sorteada em duas regiões (QP, P). Na QP, foram realizados dois grupos – e um deles, 20% ficaram em dúvida e 80% discordaram; noutro grupo, 20% concordaram, 40% ficaram em dúvida e 40% discordaram. Já no grupo da região P, 50% concordaram e 50% discordaram. Os grupos da região QP tendem para a discordância; e o da região P dividiu-se entre os dois extremos - concordância e discordância.

Ainda relacionado ao prazer associado ao consumo de drogas, foi discutida a expressão pode ser prazeroso perder o controle, entre jovens das regiões C, QP e P. Os jovens do grupo C foram os que mais concordaram (71%) e 29% ficaram em dúvida. Entre os do grupo QP, 31,5% concordaram, 37,5% discordaram e 31,2% ficaram em dúvida. No grupo P, 80% dos jovens ficaram em dúvida e 20% discordaram.

Em relação ao prazer obtido com amigos, a frase sorteada foi não há nada mais prazeroso do que estar com os amigos. Os jovens do grupo C e do QC relataram que o prazer com os amigos estava em primeiro lugar, com concordância de 100% e 94%, respectivamente. Já no grupo QP, houve 100% de discordância. Entre jovens da região P, 60% ficaram em dúvida, 30% discordaram da expressão e apenas 10% concordaram.

Ainda no que diz respeito às fontes de prazer, foi discutida a expressão andar na moda faz a gente se sentir bem. Entre os jovens do grupo C, 57,2% concordaram e 42,8% ficaram em dúvida. No grupo da região QP, 88,9% discordaram e 11,1% concordaram. Já no P, a totalidade (100%) dos jovens estava em desacordo com a expressão.

 

DISCUSSÃO

Pode-se observar uma certa descrença na educação como garantia de realização futura entre os jovens das regiões periféricas, que pode estar embasada na dificuldade real que encontram os jovens pobres de alcançarem os níveis mais avançados do sistema de ensino e nos obstáculos que enfrentam para se inserirem no mercado de trabalho. Embora seja crescente a diminuição do analfabetismo entre os jovens, menos de 15% chegam ao ensino superior. Essa condição é diretamente proporcional à renda, o ensino superior tem sido inacessível aos jovens de famílias pobres(1). Combinado a isso, a escolaridade não é garantia de ingresso no mercado de trabalho, especialmente, no mercado formal e se considerarmos as posições dos estratos menos privilegiados da sociedade, exatamente aqueles que têm acesso tardio aos degraus mais elevados do sistema de ensino(10).

A desvalorização da política pelos jovens do grupo P pode revelar um posicionamento crítico de descontentamento geral com o cenário político atual (disputa de interesses corporativos, corrupção, etc.), mas também pode expressar uma posição alienada, que coloca o jovem em um lugar de distanciamento, indiferença e passividade no tocante à sua participação na vida política social, tão esvaziada na contemporaneidade. A desmobilização pode ser consequência do enaltecimento do individualismo e da descrença no futuro(11).

Esta diferença de posicionamento pode estar associada às condições de acesso a ensino de melhor qualidade. Tendência semelhante foi observada em estudo sobre o perfil da juventude brasileira que revela a associação diretamente proporcional entre o grau de engajamento político e a escolaridade(12).

Quanto à expressão todo mundo rouba uma vez ou outra foi significativo o percentual de jovens que concordou com ela mesma, sobretudo no grupo P. Por um lado, esse dado denota certa naturalização de valores negativos, mas também pode estar ligado à necessidade de acesso a mercadorias, valor que cada vez mais vem se impondo na sociedade. Como o acesso aos bens e mercadorias é muito desigual, o roubo pode passar a ser naturalizado, como forma de obtenção do objeto do desejo e como forma de correção da injustiça social. As significativas mudanças de posição após o debate podem denotar que se a princípio o que se mostra é uma certa assimilação cultural que naturaliza o roubo, com a reflexão os jovens têm a possibilidade de exercer a crítica, caminhando em outra direção.

Em relação ao percentual de 36,3% de concordância pelo grupo P de que os pais têm direito de bater nos filhos, os dados podem revelar que a opção por determinados atos disciplinadores na educação dos filhos, como os de bater, consista em experiência pouco criticada ou naturalizada na vivência desses grupos.

Essa interpretação é reforçada por estudo(13), que ao averiguar com jovens de diferentes grupos sociais as respostas adotadas por suas famílias, quando eles apresentam comportamentos recrimináveis, verificou que nas famílias de mais acesso a bens, o que equivaleria neste estudo aos jovens do grupo C, a conversa era a prática mais frequente, já a punição corporal foi mais citada por jovens de menos acesso a bens, correspondendo, neste estudo, a jovens dos grupos QP e P.

Embora a violência esteja presente nas diferentes classes sociais, há indícios de que as condições materiais mais precárias de vida tendem a limitar os recursos da família para lidar com situações conflituosas com os filhos(13-14), como mostram estudos que tomam como objeto os recursos familiares para lidar com conflitos. Estudo que tomou como sujeitos pais com nível superior, alguns com pós-graduação e renda de 11 a 20 salários, com o intuito de verificar como eles abordavam a orientação sexual de seus filhos jovens, relatou que eles referiram que orientavam os filhos por meio de conversa franca(15). Já outro estudo(16) que investigou família residente na periferia de Fortaleza (CE) com precárias condições de vida, a mãe declarou não conversar sobre sexo, temendo que a conversa pudesse induzir as filhas a iniciarem a prática sexual.

No entanto, no que diz respeito aos castigos corporais, o resultado obtido foi a tradução dos discursos dos jovens e não das práticas das famílias, podendo retratar inclusive uma possibilidade diferenciada da elaboração discursiva dos jovens, que lhes permite filtrar diversamente a realidade de relacionamento com os pais, produzindo muitas vezes o discurso do que seja o politicamente correto. Autores ponderam que entre as famílias que usam o castigo físico como forma de disciplinamento há as que guardam essa prática em segredo, temendo a reprovação social(14).

Quanto à expressão tenho meus pais como exemplo, os dados revelam que os jovens do grupo C tendem a valorizar a família como modelo de identificação e essa tendência diminui significativamente no grupo P. Ancoramos a explicação desses resultados nas condições de reprodução social das famílias. Provavelmente, os jovens do grupo C encontram no âmbito familiar condições materiais de sobrevivência e acolhimento/proteção(13) que lhes favorece a intenção de reproduzi-las, o que não ocorre com parte dos jovens do grupo P.

A tendência de desvalorização da família acentua-se à medida que se caminha para as famílias com menos disponibilidade de recursos simbólicos e materiais(17).

Os resultados em relação à priorização do prazer sexual estão em consonância com um estudo realizado com jovens(18) que constatou a não configuração do prazer sexual como valor prioritário e questiona se a ênfase dada à temática, pela mídia, pela academia, por ONGs e por programas governamentais não está refletindo mais o controle social adulto do que a legítima preocupação dos jovens.

A unanimidade quanto à defesa do uso de preservativos revela que a população jovem tem sido impactada pela divulgação do seu uso como mecanismo potente para a prevenção da Aids, percepção reiterada por resultado de estudo(19) realizado com jovens, a respeito de métodos contraceptivos, que confirmam que a proporção de uso do preservativo é maior entre jovens.

A maior desconfiança quanto ao prazer propiciado pelo uso de drogas pode estar revelando que os jovens da região P conheçam usuários ou dependentes de drogas em situações de maior desgaste, tanto no âmbito do consumo como no do tráfico, uma vez que advém das condições de reprodução social o acesso a recursos para lidar com o problema. Jovens das periferias têm sido arregimentados para o comércio de drogas ilícitas, que oferece identidade, respeitabilidade, rendimento financeiro e 'plano de carreira' para grande parcela da juventude socialmente excluída [...]( 20). No entanto, esse envolvimento traz desfechos problemáticos a essa população. Evidencia-se que [...] entre os jovens pobres, existe maior pressão para o envolvimento com grupos de criminosos comuns, por conta da facilidade de entrar em dívida com traficantes, da repressão policial e da dificuldade em encontrar atendimento médico e psicológico quando vêm a ter problemas reais com o uso e controle das drogas(21).

Apesar da discordância quanto aos efeitos benéficos do ato de fumar, a dúvida foi significativa nos grupos, em especial, no grupo QP. Esse posicionamento dos jovens pode ser resultado da política de regulamentação da distribuição e marketing de cigarros no Brasil, que diferentemente da voltada à produção e distribuição de bebidas alcoólicas é uma das mais ousadas do mundo contemporâneo, só comparada à do Canadá em termos de proteção da sociedade à agressividade da indústria produtora. O consumo de cigarros no Brasil diminuiu 43% entre 1979 e 1998(20).

Durante o debate da afirmativa a maconha deveria ser legalizada vários jovens dos diferentes grupos sociais defenderam maior controle do comércio da droga pelo Estado, pois do contrário as pessoas dependeriam unicamente de sua consciência e do esforço individual para evitar o consumo problemático.

Da mesma forma quanto à valorização positiva da maconha, o posicionamento foi semelhante, com altos percentuais de discordância à legalização da droga, indicando alto grau de intolerância ao uso de drogas associadas às ilícitas, geralmente, quanto às situações de ilegalidade e violência.

Quanto à expressiva discordância da expressão somente os nóias usam crack pelos jovens da região P, é possível interpretar esse posicionamento da mesma forma que se analisou aquele sobre o prazer advindo das drogas, ou seja, que os desfechos das situações de consumo e envolvimento com o tráfico são tanto mais graves quanto mais se aprofunda à precariedade das condições de reprodução social(21-22). Dessa forma, pode-se inferir que os mais jovens da região periférica tenham se posicionado favoravelmente à afirmativa por terem mais contato com usuários de crack que se envolveram em situações problemáticas.

Quanto à ideia do prazer em perder o controle também aqui as diferenças de posicionamento podem revelar que as vivências distintas dos grupos sociais estão diretamente relacionadas às suas realidades. Perder o controle para o jovem de mais acesso a bens, pode significar uma experiência de prazer; mas, aos jovens de menos acesso essa experiência pode estar associada a situações problemáticas.

A diferença de valorização da relação de amizade pode ser explicada pelo desenvolvimento de vínculo de confiança entre amigos, mais presente entre jovens dos grupos mais centrais(23).

Quanto ao prazer em andar na moda, o posicionamento dos jovens poderia ser homogêneo, pois se trata de valor bastante difundido, uma vez que se configura como ordem de consumo fundamental para a reprodução do capital. No entanto, os resultados encontrados revelam que andar na moda para jovens dos grupos centrais é uma possibilidade real, e aos dos grupos periféricos essa possibilidade está mais distante, expressando uma contradição que advém das desigualdades sociais.

 

CONCLUSÃO

Com base em um instrumento interativo, foi possível identificar valores que diferem entre jovens dos distintos grupos sociais e outros que não. Há mais heterogeneidade do que homogeneidade nas opiniões.

A educação como garantia de um bom futuro e estar com amigos, consumir drogas, perder o controle, andar na moda como as melhores fontes de prazer não são valores homogêneos entre os jovens dos diferentes grupos sociais, a concordância foi mais presente entre aqueles de grupos com maior acesso a bens.

Houve homogeneidade na discordância de que haja benefícios no consumo de cigarro, na concordância com o uso de preservativo e na concordância de que o uso da violência seja uma necessidade.

Os resultados indicaram, por um lado, uma certa homogeneidade de opiniões, como consequência da vivência geracional, que assimila valores dominantes e, por outro, a heterogeneidade que evidencia contradições das concretas inserções sociais desses jovens.

O aprofundamento do estudo sobre valores sociais pode contribuir para uma melhor orientação das políticas sociais públicas ampliando a compreensão sobre as raízes sociais dos problemas juvenis e a criação de novas ferramentas educativas de intervenção. Por isso, acredita-se que as políticas sociais públicas devam incentivar a discussão de valores, evidenciando essas contradições, baseadas em uma compreensão crítica que resulte na construção de uma nova cultura e uma nova sociabilidade.

Guardadas as especificidades metodológicas, os resultados podem servir de guia para comparações em realidades semelhantes, embora não sejam generalizáveis a qualquer realidade.

 

REFERÊNCIAS

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Autor Correspondente:
Cássia Baldini Soares

Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo
Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 419 - 05403-000 - São Paulo, SP, Brasil
E-mail: cassiaso@usp.br

Artigo recebido em 08/03/2011 e aprovado em 05/09/2011

 

 

* Estudo realizado no município de Santo André (SP), Brasil.
1 Subprojeto de investigação mais ampla - "Jovens, valores e consumo de drogas: políticas públicas na perspectiva da Saúde Coletiva", que objetivou levantar os valores sociais de jovens de diferentes grupos sociais do município de Santo André-SP, que obteve apoio FAPESP 06 51671-9. A parcela qualitativa dos dados será apresentada em outro espaço.
2 O grupo C tinha a maior concentração de jovens brancos, solteiros e sem filhos, a predominância de domicílios próprios com saneamento básico, baixa densidade de moradores por dormitório (1,1 a 2), menos horas semanais de trabalho e renda de mais de cinco salários-mínimos. Apesar da predominância da religião católica, verificou-se maior porcentagem de espíritas em relação aos demais grupos. Da mesma forma, os jovens encontravam-se predominantemente na posição de filho do responsável pelo domicilio. A maioria dos jovens de 15 e 18 anos cursava o ensino médio em escolas particulares ou frequentava cursos pré-vestibulares. Já os de 19 e 24 anos cursavam o ensino superior, além de terem mais anos de estudo. Os grupos QC e QP apresentaram médias que, em sua maioria, oscilaram entre os grupos C e P. O grupo QP, por sua vez, tinha a maior concentração de trabalhadores com renda de um a três salários-mínimos, com a média de 41 a 60 h de trabalho/semana, com jovens que referiram mais de 60 h semanais de trabalho. Nesse grupo, havia maior porcentagem de moradias improvisadas. Na maioria das variáveis, o grupo P refletia médias que se encontram no extremo oposto àquelas do grupo C - porcentagens altas de jovens casados, com filhos, responsáveis pelo domicílio, com atraso na escolaridade, trabalhando mais de 41 horas semanais, com salários de até um salário-mínimo, vivendo em moradias cedidas ou invadidas, com densidade de mais de três moradores por dormitório, contando apenas com formas alternativas de abastecimento de água, esgoto e lixo e com índices baixos de posse de bens. Vale ressaltar que a maior parte dos jovens desse grupo morava em áreas periféricas da cidade, envoltas por mananciais.