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Acta Paulista de Enfermagem

versão impressa ISSN 0103-2100

Acta paul. enferm. vol.25 no.2 São Paulo  2012

https://doi.org/10.1590/S0103-21002012000200018 

ARTIGO ORIGINAL

 

Trabalhador portuário: perfil de doenças ocupacionais diagnosticadas em serviço de saúde ocupacional*

 

Trabajador portuario: perfil de enfermedades ocupacionales diagnosticadas en un servicio de salud ocupacional

 

 

Marlise Capa Verde de AlmeidaI; Marta Regina Cezar-VazII; Laurelize Pereira RochaIII; Letícia Silveira CardosoIV

IPós-graduanda (Doutorado) em Enfermagem. Programa de Pós-Graduação em Enfermagem/Saúde da Universidade Federal do Rio Grande – FURG – Rio Grande (RS), Brasil
IIDoutora em Filosofia da Enfermagem. Professora Associada da Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande. FURG – Rio Grande (RS), Brasil
IIIPós-graduanda (Mestrado) do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem/Saúde da Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande – FURG – Rio Grande (RS), Brasil
IVPós-graduanda (Doutorado) do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem/Saúde da Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande – FURG – Rio Grande (RS), Brasil; Professora Universitária – Universidade da Região da Campanha – URCAMP. Bagé (RS), Brasil

Autor correspondente

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Identificar as doenças diagnosticadas em trabalhadores portuários avulsos, atendidos em um ambulatório de medicina do trabalho portuário.
MÉTODOS:
Estudo quantitativo descritivo com análise retrospectiva, que apresentou como fonte de dados as fichas de atendimento médico dos trabalhadores portuários avulsos entre 2000 e 2009. A coleta de dados desenvolveu-se mediante aplicação de um formulário predeterminado e procedeu-se à análise quantitativa descritiva em 953 fichas médicas dos trabalhadores.
RESULTADOS: totalizou-se 953 fichas médicas (94,7%), das quais 90,47% pertenciam a trabalhadores do sexo masculino, 52% na faixa etária acima de 50 anos e 51,7% com mais de 19 anos de atuação. Identificaram-se 527 diagnósticos, sendo os principais relacionados ao trabalho: hipertensão (8,3%), lombalgia (6,2%), outras doenças pulmonares (1,7%) e episódios depressivos (1,2%).
CONCLUSÃO: constatou-se o acometimento do trabalhador por patologias ocupacionais de ordem mental, circulatória, respiratória e osteomuscular, evidenciando morbidades que o afetam e interferem em sua qualidade de vida e na produtividade das atividades laborais.

Descritores: Enfermagem em saúde pública; Saúde do trabalhador; Patologia; Diagnóstico de enfermagem.


RESUMEN

OBJETIVO: Identificar las enfermedades diagnosticadas en trabajadores portuarios independientes, atendidos en un consultorio externo de medicina del trabajo portuario.
MÉTODOS: Estudio cuantitativo descriptivo con análisis retrospectivo, que presentó como fuente de datos las fichas de atención médica de los trabajadores portuarios independientes entre 2000 y 2009. La recolección de los datos se desarrolló mediante la aplicación de un formulario estructurado y se procedió a realizar el análisis cuantitativo descritivo de 953 fichas médicas de los trabajadores.
RESULTADOS: De un total de 953 fichas médicas (94,7%), el 90,47% pertenecían a trabajadores del sexo masculino, el 52% se encontraba en el grupo etáreo arriba de los 50 años y el 51,7% con más de 19 años de actuación. Se identificaron 527 diagnósticos, estando los principales relacionados al trabajo: hipertensión (8,3%), lumbalgia (6,2%), otras enfermedades pulmonares (1,7%) y episodios depresivos (1,2%).
CONCLUSIÓN: se constató el ataque del trabajador por patologías ocupacionales de orden mental, circulatorio, respiratorio y osteomuscular, evidenciando morbilidades que lo afectan e interfieren en su calidad de vida y en la productividad de las actividades laborales.

Descriptores: Enfermería en salud publica. Salud del Trabajador; Patología; Diagnóstico de enfermería.


 

 

INTRODUÇÃO

A enfermagem vem intensificando os investimentos técnico-científicos para aprofundar seu corpo de conhecimento profissional, com vistas à ampliação das práticas em saúde, acompanhando as necessidades do viver humano nos diferentes ambientes onde atua. Na particularidade da saúde do trabalhador, vem se mostrando cada vez mais premente a atuação profissional entre os distintos ramos produtivos, dada a multiplicidade de condições de trabalho que conformam o ainda constante desenvolvimento de doenças relacionadas ao trabalho(1,2).

Estas caracterizam um desafio para a operacionalização e planejamento das ações de prevenção e reabilitação construídas pelos profissionais da saúde, tendo em vista a complexidade que envolve a análise e o reconhecimento dos danos à saúde que podem ser suscitados pelos riscos heterogêneos e dinâmicos dos diferentes ambientes de trabalho(2).

Na enfermagem, o estudo específico das doenças relacionadas ao trabalho é identificado em pequeno número entre as produções científicas(1-5), visto que a maioria tem seu foco voltado aos riscos ocupacionais, aos fatores causadores de doenças e à ocorrência de acidentes de trabalho, sobretudo entre os próprios profissionais da área da saúde. Dessa forma, constitui-se em um conhecimento que focaliza o trabalhador da saúde, como objeto do trabalho da enfermagem, mas visualiza-se a necessária abordagem profissional aos trabalhadores inseridos na multiplicidade de profissões e realidades trabalhistas existentes. Assim, viabiliza-se o conhecimento a respeito das condições prejudiciais que compõem os processos produtivos, de forma a constituir o conhecimento clínico profissional e a consequente assistência da saúde do trabalhador.

Alguns dos estudos de enfermagem que abordam as doenças ocupacionais em distintas realidades de trabalho focalizam trabalhadores de setores judiciais, da costura industrial, da construção civil, do manejo de resíduos hospitalares, motoristas, cobradores de ônibus e os que trabalham no setor de higienização hospitalar(1-5).

Nesse contexto, o presente estudo apresenta o trabalhador portuário atuante em seis diferentes categorias profissionais como: capatazia, estiva, conferência de carga, conserto de carga, vigilância de embarcações e trabalhadores em bloco. As atividades produtivas os expõem a diferentes riscos ocupacionais, como ruídos, vibrações de corpo inteiro, intempéries, contato com substâncias químicas, levantamento manual de carga e utilização de ferramentas inadequadas(6).

Além dos citados, os trabalhadores também estão expostos a riscos presentes no ambiente externo ao trabalho, como o uso de substâncias químicas (álcool e drogas ilícitas), que pode corroborar no desenvolvimento de doenças e ocorrência de acidentes de trabalho, gerando risco ao próprio trabalhador e à equipe de trabalho envolvida(7). Com base em informações como estas, pode-se visualizar a necessidade de instrumentalização profissional do enfermeiro para formulação de estratégias sistemáticas de ação nesse campo.

Considerando a importância da obtenção de dados concretos e integrados a respeito do ambiente e da situação de saúde dos sujeitos em questão, para a produção de conhecimento e planejamento de intervenções em enfermagem aos trabalhadores portuários, apresenta-se como objetivo deste estudo identificar as doenças diagnosticadas em trabalhadores portuários avulsos, atendidos em um ambulatório de medicina do trabalho portuário.

 

MÉTODOS

Trata-se de um estudo quantitativo descritivo, de análise retrospectiva, desenvolvido no Porto do Rio Grande/RS. Foram usadas como fontes de dados as fichas de atendimento médico do Ambulatório de Medicina do Trabalho Portuário, pertencentes ao Órgão Gestor de Mão de Obra do Trabalho Portuário Avulso do Porto Organizado do Rio Grande (OGMO-RG).

Para a coleta de dados, foram utilizados os registros obtidos no período entre 2000 e 2009, empregando-se um formulário predeterminado, construído com base nos documentos preconizados pelo Ministério da Saúde e nas informações existentes nos próprios prontuários do serviço – obtidas por meio de conhecimento prévio – e questões de outros instrumentos de coleta de informações em saúde do trabalhador(6,7). Como embasamento técnico, usou-se a Tabela de Atividades dos profissionais médico e enfermeiro do trabalho, descritas na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO)(8) e a fundamentação teórica possibilitada pela revisão de literatura.

O instrumento referido apresenta quatro sessões: caracterização dos sujeitos, dados clínicos e diagnósticos médicos, ações em saúde desenvolvidas pelos profissionais e ações dispensadas à avaliação das condições de saúde do trabalhador quando de seu retorno ao trabalho. A organização e a análise dos dados compreendeu a digitalização das informações no programa EPINFO 6.04, que viabilizou a dupla digitação dos dados, com vistas à fidedignidade e, posteriormente, as análises foram realizadas no software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) versão 13.0.

Para a análise estatística, os dados clínicos foram apresentados em variáveis qualitativas categóricas (sim e não) e dicotomizadas. As variáveis contínuas 'idade e tempo de atuação' foram dicotomizadas com base na mediana de cada variável (Idade: 50 anos; Tempo de atuação: 19 anos), viabilizando a análise por meio de proporções e pela elaboração de tabelas de contingência para a realização da estimativa do Teste do Qui-quadrado de Pearson. O nível de significância estatística utilizado foi α=0,05.

Com relação aos aspectos éticos da pesquisa, foi solicitada a aprovação de realização da pesquisa no OGMO–RG. O projeto de pesquisa intitulado "Saúde, Riscos e Doenças Ocupacionais – estudo integrado em diferentes ambientes de trabalho", do qual este trabalho é integrante, foi devidamente submetido à aprovação do Comitê de Ética na Pesquisa em Saúde da Universidade Federal do Rio Grande – FURG, obtendo aprovação, conforme o Parecer nº 109/2010. Os pesquisadores envolvidos comprometeram-se com o sigilo dos dados coletados, por meio da não divulgação dos sujeitos envolvidos.

 

RESULTADOS

Dos dados coletados de 953 fichas médicas, 523 (54,9%) eram de trabalhadores de capatazia, 309 (32,4%) da estiva, 66 (6,9%) conferentes de carga, 28 (2,9%) vigias de embarcações, 14 (1,5%) trabalhadores em bloco e 11 (1,2%) consertadores de carga. Duas fichas médicas não trouxeram a categoria profissional do trabalhador (0,2%).

As fichas permitiram a identificação de uma população de trabalhadores predominantemente masculina (90,47%), cuja maior representatividade situou-se na faixa etária menor de 50 anos de idade (52%). Com relação ao tempo de serviço, a maioria apresentou no mínimo 19 anos de trabalho portuário (51,7%), destacando que o menor tempo de atuação dos trabalhadores foi de 12 meses e o maior, de 45 anos. Com relação ao estilo de vida, foram identificados 57 (6,0%) registros de trabalhadores usuários de bebidas alcoólicas, os quais pertenciam predominantemente, à categoria de capatazia (n= 28 – 2,9%). Foram identificados também usuários de drogas em geral, totalizando 19 (2,0%) registros que predominaram também entre os trabalhadores de capatazia (n=12 – 1,3%).

Com relação às doenças, foram identificados 527 diagnósticos, de acordo com a Classificação dos Grupos de Doenças Relacionadas ao Trabalho(9), que aponta a existência de 14 grupos e, entre os diagnósticos registrados pelo serviço neste estudo, dez (71,4%) foram abrangidos. Quatro grupos de doenças apresentaram maior frequência de casos: o grupo das doenças do sistema osteomuscular (15,8% - n=152), do sistema circulatório (9,1% - n=87), do sistema respiratório (2,6% - n=25) e o de transtornos mentais e comportamento (2,2% - n=17). Em cada grupo, as doenças mais frequentes foram as lombalgias (6,2% - n=59); a hipertensão arterial sistêmica (8,3% - n=79); outras doenças respiratórias, como bronquite e asma (1,7% - n=17) e os episódios depressivos (1,2% - n=11).

Além das citadas, houve doenças não diretamente relacionadas ao trabalho, de acordo com o manual de referência previsto pelo Ministério da Saúde, das quais as mais recorrentes foram: obesidade (5,6%), registro de colesterol em níveis elevados (4%) e diabetes (3%), entre os distúrbios endócrinos, nutricionais e metabólicos; a disacusia (3,1%), entre as doenças do ouvido; a lombocitalgia (1,2%), como doença osteomuscular e o uso de lentes corretivas (4,3%), entre as doenças do olho e anexos.

Entre os outros grupos de doenças identificadas, destacaram-se as: infecciosas e parasitárias (3,3%); as do sangue e dos órgãos hematopoiéticos (0,5%); as do sistema nervoso (0,1%) e as da pele e do tecido subcutâneo (0,6%).

Os dados da Tabela 1 apresentam a ocorrência dos diagnósticos mais frequentes, na relação com a categoria profissional, a idade e o tempo de serviço dos trabalhadores. A maior frequência de ocorrência de Diabetes (2,6%), colesterol elevado (2,4%), episódios depressivos (0,8%), hipertensão (6,5%), lombalgia (3,8%), doenças respiratórias (1,0%) e lombocitalgia (0,9%) estiveram na faixa etária de trabalhadores com mais de 50 anos. A variável idade mostrou associação significativa com a ocorrência de Diabetes (p=0.000), hipertensão (p=0.000), lombalgia (p=0.038) e lombocitalgia (p=0.024), indicando relação de dependência entre as variáveis.

Na relação com o tempo de serviço, houve maior ocorrência de Diabetes (1,8%), episódios depressivos (0,7%), hipertensão (4,5%), lombalgia (3,6%) e lombocitalgia (0,9%), entre os que apresentaram maior tempo de trabalho portuário (acima de 19 anos). A análise de associação mostrou-se significativa com as variáveis lombocitalgia (p=0.025) e uso de lentes corretivas (p=0.013). Os resultados apontaram maior ocorrência de diagnósticos entre as categorias mais representativas, ou seja, dos trabalhadores em capatazia e dos em estiva, seguidos pela categoria de conferência de carga. Na análise das morbidades com as categorias profissionais portuárias, mostrou-se associação entre Diabetes (p=0.000), hipertensão (p=0.000), lombocitalgia (p=0.022) e uso de lentes corretivas (p=0.000).

 

DISCUSSÃO

Com base nos resultados, foi possível verificar que as características do trabalho em ambiente portuário podem contribuir para o desenvolvimento de patologias ocupacionais e não ocupacionais. Algumas doenças identificadas podem ser desencadeadas tanto pelas peculiaridades das atividades produtivas portuárias como pautadas nos hábitos de vida do indivíduo, considerando seu comportamento de saúde. Essa realidade complexifica a abordagem da enfermagem para a assistência em saúde do trabalhador, reiterando a necessária elaboração de ações em saúde integradas ao cotidiano laboral e ao contexto de vida do trabalhador.

Dessa forma, entre as patologias relacionadas ao trabalho que afetaram os trabalhadores portuários avulsos estão os transtornos mentais; dentre eles, os episódios depressivos foram identificados em maior número. A sintomatologia patológica é caracterizada por irritabilidade, humor triste, perda de interesse e prazer pelas atividades do dia a dia, o que pode causar sensação de fadiga aumentada, dificuldade de concentração e sono perturbado(9). No ambiente portuário, essa sintomatologia agrega riscos para acidentes de trabalho relacionados à queda do trabalhador, à queda de cargas suspensas e ao atropelamento quando do trabalho com empilhadeiras e veículos em geral.

As patologias de ordem mental podem estar condicionadas pelo uso de substâncias como álcool e drogas, especialmente, quando entre os fatores de risco para o desenvolvimento patológico está a convivência com usuários de tais substâncias(10). Em estudo com 306 trabalhadores portuários avulsos pesquisados, 43,12% apontaram conhecer colegas de trabalho que já atuaram sob efeito de drogas(7), enfatizando a necessidade da intervenção educativa em saúde, com vistas à interrupção do uso dessas substâncias e à prevenção das doenças associadas ao hábito. Nas fichas médicas, foram observados casos de trabalhadores usuários de substâncias químicas, dentre os quais alguns foram encaminhados pelo Ambulatório de Medicina do Trabalho Portuário às comunidades terapêuticas para desintoxicação química. Mas, o tempo de uso e as substâncias envolvidas não foram explicitamente apresentados na fonte de dados, limitando este tipo de descrição no presente estudo.

Quanto às doenças do sistema circulatório, salienta-se a ocorrência de hipertensão arterial sistêmica que, na especificidade do ambiente portuário, pode estar relacionada ao estresse causado pelo trabalho com elementos físicos prejudiciais, como a exposição a ruídos de maquinários e embarcações que atracam no cais do porto, e também a aspectos antiergônomicos, relativos ao trabalho excessivo, sob pressão, de intensa responsabilidade e em turnos. Na relação com outros fatores, alguns estudos apresentam a associação existente entre a elevação da pressão arterial e a obesidade(1,11), cuja ocorrência foi de 5,6% entre os trabalhadores portuários. Os aspectos citados permitem visualizar o risco do estabelecimento de uma possível conexão de morbidades de diferentes sistemas orgânicos, que tendem a fragilizar ainda mais a saúde desse trabalhador.

Também foi identificada entre os trabalhadores portuários significativa associação entre idade e patologia em questão, dado este que também foi identificado em um estudo com trabalhadores de uma metalúrgica(12). Diante do exposto, pode-se inferir que o exercício contínuo do trabalho portuário e o aumento da idade debilitam as condições de saúde dos indivíduos, aumentando a possibilidade de desencadeamento patológico.

Ainda foi possível identificar casos de doenças que afetam o sistema respiratório, sobretudo a asma e a bronquite. O contexto portuário propicia o contato de todas as categorias profissionais de trabalhadores com poluentes oriundos das embarcações e do próprio ambiente de trabalho, como as áreas industriais ou urbanas, com altas taxas de poluição ambiental que, muitas vezes, expõem os trabalhadores a danos respiratórios e ainda dermatológicos, o que pode constituir justificativa para a frequência dessas patologias entre os diagnósticos(13,14).

Já as patologias do Sistema Osteomuscular e do Tecido Conjuntivo, como as Lesões por Esforços Repetitivos e Doenças Osteomusculares Relacionadas ao Trabalho (LER/DORT) foram as mais frequentes no total de diagnósticos identificados. Estas caracterizam-se pela ocorrência de dor, parestesia, sensação de peso e fadiga, sobretudo nos membros superiores. São desencadeadas baseadas nas sobrecargas excessivas dos músculos, sujeitos a movimentos repetitivos e a esforços localizados, quando da manutenção do trabalhador em uma mesma posição por período prolongado e sua atuação sob vibração de corpo inteiro(9).

No ambiente portuário, a manipulação e a movimentação de cargas pesadas no interior de porões e conveses, as atividades de manutenção, como pintura, batimento de ferrugem e higienização de embarcações, reparo e restauração de embalagens e mercadorias, entre outras, muitas vezes desenvolvidas sob condições antiergônomicas facilitam a produção das patologias ocupacionais destacadas. Isso sem mencionar o trabalho dos portuários sobre veículos (carros, tratores, empilhadeiras), no qual incide a influência das vibrações de corpo inteiro para a produção de lombalgias, especialmente em razão da atuação cotidiana nesse tipo de atividade, expondo-os a vibrações de diferentes magnitudes e convergindo ao desconforto corporal(9,14-15) e à possibilidade de desenvolvimento dessa patologia.

Além das doenças já previstas como desencadeadas pelos processos produtivos, destacam-se aquelas ainda não diretamente descritas nos manuais de referência(9), mas que também ocorreram com frequência entre os trabalhadores portuários avulsos, como é o caso do Diabetes, colesterolemia e obesidade, e das doenças oculares que levam ao uso de lentes corretivas/óculos, disacusia e lombocitalgia.

Dentre as recém-apontadas, as patologias endócrinas, nutricionais e metabólicas condicionam a qualidade de vida do trabalhador, tendo em vista sua associação com o desenvolvimento de patologias ocupacionais de outros sistemas orgânicos também comumente afetados entre os trabalhadores portuários, como o sistema auditivo e circulatório.

A ocorrência de Diabetes, por exemplo, pode acarretar maior sensibilidade auditiva, que, associada ao trabalho contínuo em ambiente ruidoso, poderá ocorrer na perda da audição induzida por ruído(17) Destaca-se que o trabalho desenvolvido no ambiente portuário envolve a exposição ao ruído de máquinas, embarcações e, até mesmo do trânsito de veículos no cais, que colaborar para uma conjuntura prejudicial, além das próprias atividades de manutenção e reparo de embarcações que acarretam a mesma exposição.

Além do Diabetes, visualizam-se os efeitos nocivos de elevação de concentrações lipídicas na corrente sanguínea, o que leva à obesidade, à colesterolemia e à exigência de maior esforço físico para o exercício das atividades produtivas(16). A dinamicidade e a agilidade são características importantes no trabalho portuário e podem ser comprometidas nessas condições patológicas, considerando o ritmo exigido para movimentação e manipulação das cargas, com vistas ao alcance da produtividade prevista nas operações portuárias contratadas.

As patologias permitem visualizar aspectos externos ao trabalho que atuam direta ou indiretamente no desencadeamento de patologias, como por exemplo, os hábitos alimentares. As doenças nutricionais e endócrinas abordadas aludem como medida de prevenção possível à educação em saúde voltada ao controle nutricional do trabalhador. No entanto, o vínculo avulso do trabalhador portuário não disponibiliza o fornecimento de refeições, garantido entre os trabalhadores formais, inviabilizando uma possibilidade para o acompanhamento nutricional do portuário. Nesse sentido, destaca-se a necessidade de desenvolver alternativas diversificadas de intervenção para adoção de medidas saudáveis.

Outra característica importante relativa ao desempenho das atividades no ambiente de trabalho pesquisado diz respeito ao uso de lentes corretivas ou óculos entre os trabalhadores. A falta de uso do mesmo, por aqueles que necessitam, acarreta uma elevação no risco de acidentes, sobretudo no manuseio das cargas e no trabalho com maquinários, como guinchos e guindastes que dependem de observação e atenção dos trabalhadores(18). Tal informação foi amplamente registrada entre as fichas de atendimento médico; no entanto, as patologias que geraram a utilização desses equipamentos não foram explicitadas na fonte de dados, o que constituiu uma das limitações do estudo aqui apresentado.

Outro grupo de patologias identificado compreendeu as doenças do ouvido, que decorrem especialmente de fatores internos ao ambiente de trabalho e afetam diversas categorias profissionais, como trabalhadores de marmorarias, madeireiras, metalúrgicas e fábricas de cimento(19), operadores de máquinas, motoristas e vigilantes(20), trabalhadores da indústria metalúrgica, do setor de transportes e da construção civil, setor têxtil e mineração(21,22).

Os estudos mencionados apresentam a ocorrência das patologias entre trabalhadores do sexo masculino, com idade acima de 40 anos e com mais de 15 anos de atuação profissional em ambiente ruidoso, indicando relação da faixa etária e tempo de atuação com a incidência da patologia. Embora a análise da associação não tenha se mostrado significativa, devem ser ressaltadas as características apontadas, visto que se identificam as mesmas condições no ambiente portuário.

O acometimento dos limiares auditivos já é possível a frequências baixas, como 3.000 a 6.000hz(23). Dessa forma, a constante exposição do trabalhador aos ruídos ocupacionais que extrapolam tais níveis pode gerar alterações audiológicas importantes como zumbidos, dificuldade na compreensão da fala, hipoacusia e vertigens de origem auditiva(19-22) que, no ambiente portuário, podem dificultar a comunicação necessária ao desempenho de atividades como as de fiscalização, carga e descarga e movimentação das mercadorias.

Estudos apontam ações clínicas da enfermagem nesse sentido, como a anamnese ocupacional e a avaliação de medidas audiológicas(19), somando a isso o saber profissional sobre os danos auditivos ocupacionais, a fim de planejar a assistência clínica condizente à abordagem em saúde.

Com relação às doenças osteomusculares não relacionadas ao trabalho, cita-se a lombocitalgia, que se caracteriza por ser uma das patologias lombares que mais causa transtornos de saúde relacionados ao trabalho e ao absenteísmo(24), de sintomatologia incapacitante e geradora de invalidez. Estudo da literatura identificou-a entre fisioterapeutas e descreve entre as medidas de prevenção e reabilitação o tratamento medicamentoso, aliado ao exercício físico, variando de acordo com a forma como se apresenta a patologia(25).

 

CONCLUSÃO

O estudo permitiu identificar que o trabalho portuário contribui para o desencadeamento de patologias de ordem ocupacional e não ocupacional, que interagem e interferem diretamente na qualidade de vida do trabalhador e na produtividade das atividades laborais.

As patologias do sistema circulatório remetem tanto à possível ineficiência de medidas de autocuidado, como às condições inadequadas de trabalho, que geram tensão por parte do trabalhador e podem desencadear o acometimento patológico. Também deve ser destacada a instituição de medidas de controle ambiental, como o uso de equipamentos de proteção individual específicos, de forma a diminuir a exposição daqueles trabalhadores que apresentam patologias do sistema respiratório.

As atividades produtivas portuárias também provocaram transtornos mentais, enfatizando que atividades que envolvem um ritmo cansativo e o uso de substâncias psicoativas contribuem para o desenvolvimento patológico. Já a frequência de afecções do sistema musculoesquelético faz surgir a necessidade de atuar com tais trabalhadores, com medidas de posicionamento laboral e de incentivo à adoção de ações preventivas aos danos referentes a cada operação portuária desenvolvida.

Acredita-se que, com a obtenção do perfil de patologias que afetam esses trabalhadores, subsidie-se a ação clínica da enfermagem, a qual, de posse das informações em saúde, poderá planejar as ações concernentes ao processamento da clínica para realização de intervenções da enfermagem no referido campo de atuação. Além disso, a identificação destas patologias demonstra um campo profícuo para a ampliação da produção científica da Enfermagem em diferentes ambientes produtivos, com vistas ao avanço no saber clínico profissional sobre as doenças ocupacionais e não ocupacionais, que conflui em estratégias clínicas de promoção à saúde no trabalho.

 

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Autor Correspondente:
Marlise Capa Verde de Almeida

R. Almirante Barroso, 197. APTO: 208 – Rio Grande – RS – Brasil
Cep: 96201-001. E-mail: marlisealmeida@msn.com

Artigo recebido em 24/03/2011 e aprovado em 23/08/2011

 

 

* Corresponde à produção teórica que parte da dissertação intitulada "Enfermagem clínica e doenças relacionadas ao trabalho: um estudo a respeito dos trabalhadores portuários no sul do Brasil" defendida em janeiro de 2011.

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