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Acta Paulista de Enfermagem

On-line version ISSN 1982-0194

Acta paul. enferm. vol.25 no.6 São Paulo  2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-21002012000600016 

ARTIGO ORIGINAL

 

Sintomas e fatores de risco para asma entre escolares piauienses*

 

Síntomas y factores de riesgo para el asma entre escolares piauienses

 

 

Gessianne Carvalho CastroI; Lívia Kênia de Carvalho SousaII; Paula Valentina de Sousa VeraIII; Luisa Helena de Oliveira LimaIV; Edina Araújo Rodrigues OliveiraV; Rúbia Fernanda Santos LimaVI Luis Fernando Beserra MagalhãesVII; Nileide Lima AraújoVIII; Marcos Venícios de Oliveira LopesIX

IEnfermeira. Secretaria Municipal de Valença do Piauí (PI), Brasil
IIEnfermeira. Universidade Federal do Piauí - UFPI - Teresina (PI), Brasil
IIIEnfermeira. Secretaria Municipal de Itainópolis - Itainópolis (PI), Brasil
IVProfessora Adjunto, Universidade Federal do Piauí - UFPI - Teresina (PI), Brasil
VProfessora Auxiliar, Universidade Federal do Piauí - UFPI - Teresina (PI), Brasil
VIEnfermeira da Estratégia de Saúde da Família do município de Francisco Santos (PI), Brasil
VIIAcadêmico do 8º semestre do Curso de Enfermagem, Universidade Federal do Piauí - UFPI - Teresina (PI), Brasil
VIIIEnfermeira pela Universidade Federal do Piauí - UFPI - Teresina (PI), Brasil
IXProfessor Associado da Universidade Federal do Ceará - UFC -Fortaleza (CE), Brasil

Autor Correspondente

 

 


RESUMO

OBJETIVOS: Analisar a prevalência de sintomas de asma entre escolares de seis a sete anos do município de Picos-PI; e identificar fatores de risco associados à doença.
MÉTODOS: Estudo transversal realizado com crianças de 6 e 7 anos de Picos em novembro de 2010 a maio de 2011. Para coletar os dados, foi utilizado um formulário adaptado do Internacional Study of Asthma and Allergies in Childhood. Os dados foram analisados com base na estatística descritiva e analítica.
RESULTADOS: Dentre as 234 crianças da amostra estudada, 56% eram do gênero feminino. A prevalência de diagnóstico médico de asma foi de 7,7%. Os seguintes fatores de risco apresentaram relação estatisticamente significante com a ocorrência de asma (p < 0,05): sibilos após a realização de exercício físico, tosse seca à noite sem estar gripado, bronquite, e ter pais asmáticos.
CONCLUSÃO: Observou-se o subdiagnóstico da asma e há necessidade de que novos trabalhos sejam realizados com uma amostra maior, para analisar de modo mais amplo a situação da asma em crianças no município de Picos - PI.

Descritores: Asma; Fatores de risco; Sintomas; Criança; Enfermagem pediátrica


RESUMEN

OBJETIVOS: Analizar la prevalencia de síntomas de asma entre escolares de seis a siete años del municipio de Picos-PI; e identificar factores de riesgo asociados a la enfermedad.
MÉTODOS: Estudio transversal realizado con niños de 6 y 7 años de Picos en noviembre de 2010 a mayo de 2011. Para recolectar los datos, se utilizo un formulario adaptado del Internacional Study of Asthma and Allergies in Childhood. Los datos fueron analizados con base en la estadística descriptiva y analítica.
RESULTADOS: De los 234 niños de la muestra estudiada, el 56% era del género femenino. La prevalencia del diagnóstico médico de asma fue de 7,7%. Los siguientes factores de riesgo presentaron relación estadísticamente significativa con la ocurrencia de asma (p < 0,05): sibilancias después de la realización del ejercicio físico, tos seca por la noche sin estar agripado, bronquitis, y tener padres asmáticos.
CONCLUSIÓN: Se observó el subdiagnóstico del asma y hay necesidad de que nuevos trabajos sean realizados con una muestra mayor, para analizar de modo más amplio la situación del asma en niños en el municipio de Picos - PI.

Descriptores: Asma; Factores de riesgo; Síntomas; Niño; Enfermería pediátrica.


 

 

INTRODUÇÃO

A asma é uma das doenças crônicas mais comuns que afeta tanto crianças como adultos. Sua prevalência vem aumentando de forma substancial em todo o mundo, e isso tem desencadeado numerosos estudos de prevalência e de características dessa condição. Pode ocorrer em qualquer fase da vida, entretanto é mais comum que os primeiros sintomas apareçam na infância. O fenômeno asma envolve não só o aspecto biológico, mas também as relações interpessoais em seus aspectos psicológicos e sociais, transformando-se em experiências difíceis às pessoas envolvidas, permeadas de sofrimento, dor e ameaça de morte (1).

Anualmente, ocorrem cerca de 200.000 internações por asma no Brasil, constituindo-se na quarta causa de hospitalizações pelo Sistema Único de Saúde (1,9% do total no ano de 2009) sendo a terceira causa de hospitalização entre crianças e adultos jovens. Em 2009, os custos do Sistema Único de Saúde com internações por asma foram de 103 milhões de reais, 1,3% do gasto total anual com internações e o terceiro maior valor gasto com uma única doença (2).

A asma é definida como uma doença inflamatória crônica, caracterizada por hiperresponsividade das vias aéreas inferiores e por limitação variável ao fluxo aéreo, reversível espontaneamente ou com tratamento, manifestando-se clinicamente por episódios recorrentes de sibilância, dispneia, aperto no peito e tosse, particularmente, à noite e pela manhã ao despertar. Resulta de uma interação entre genética, exposição ambiental a alérgenos e irritantes, e outros fatores específicos que levam ao desenvolvimento e manutenção dos sintomas (3).

A asma afeta grande número de pessoas, e tem apresentado, nas últimas décadas, um acréscimo de 50% em sua prevalência, com diferenças entre os diversos países e regiões. Um inquérito internacional demonstrou uma prevalência de 21% de sintomas de asma na faixa etária de 13 e 14 anos no Brasil, sendo responsável por aproximadamente, 2,2 milhões de visitas ao pediatra por ano, e é a principal causa de absenteísmo escolar e hospitalização de crianças. Pode ainda ser fatal e numerosos relatos referem uma tendência de incremento também da mortalidade por asma internacionalmente. É inequívoco que a asma é um problema de saúde pública que tem características e critérios a serem preconizados como prioridade: magnitude, vulnerabilidade e transcendência (4).

É necessária a sistematização e organização do atendimento, com base em consensos adaptados à realidade dos serviços. Na estratégia da Atenção Integrada às Doenças Prevalentes na Infância preconizada pela Organização Mundial da Saúde e Organização Panamericana da Saúde, a asma foi priorizada pela sua magnitude na composição da morbidade. A gravidade da doença e o aumento do percentual de situações clínicas consideradas de maior risco para evolução desfavorável são importantes na análise da mortalidade por asma (4).

O atraso no início do tratamento seja pelo não reconhecimento da gravidade da situação, no caso da criança, pela família, seja pelo excesso de confiança nos broncodilatadores inalatórios, em detrimento do uso de anti-inflamatórios, têm sido implicado no aumento da mortalidade por asma.

Ademais, muitas crianças sofrem com sintomas de asma, muitas vezes, desde os primeiros anos de vida, e seguem sem definição de diagnóstico e, consequentemente, sem tratamento adequado. Estudo feito em Cuiabá - MT (5) mostrou que 40% das crianças pesquisadas apresentaram sintomas de asma nos últimos 12 meses e não tinham nenhum diagnóstico. A inexistência de diagnóstico dificulta o tratamento e controle das crises.

Destarte, faz-se necessário conhecer a prevalência de sintomas de asma em crianças no município de Picos - Piauí para que programas de controle da doença possam ser estimulados, levando a um melhor enfrentamento da doença e, consequentemente, melhor qualidade de vida de seus portadores e familiares.

Assim, este trabalho teve como objetivos investigar a prevalência de sintomas de asma entre escolares de seis a sete anos de escolas públicas e privadas do município de Picos - PI e identificar fatores de risco associados à prevalência da doença nesta população.

 

MÉTODOS

Estudo de natureza descritiva do tipo transversal. Participaram da pesquisa 39 escolas, localizadas na área urbana, que possuem séries/anos que se destinam à faixa etária em estudo (6 e 7 anos de idade) e que aceitaram participar do estudo concedendo autorização institucional.

A população foi composta por todas as crianças de 6 e sete anos regularmente matriculadas nessas escolas. Para o cálculo do tamanho da amostra, utilizou-se a fórmula para estudos transversais com população finita (6): n= (Zα2 * P * Q * N) / (Zα2 * P * Q) + (N - 1) * E2. Onde: n = tamanho da amostra; Zα = coeficiente de confiança; N = tamanho da população; E = erro amostral absoluto; Q = porcentagem complementar (100-P); P = proporção de ocorrência do fenômeno em estudo.

Foram considerados como parâmetros o coeficiente de confiança de 95% (1,96), o erro amostral de 5% e população de 1.458 crianças, na fase escolar, regularmente matriculadas nas escolas da zona urbana.

A prevalência de sintomas de asma considerada foi de 24,3% (7) (P=0,243). A partir da aplicação da fórmula, encontrou-se um total de 234 crianças para escolas públicas e privada.

As crianças foram proporcionalmente selecionadas, de acordo com o número de escolares matriculados em cada escola.

Para que não ocorresse nenhum viés de amostragem, as crianças foram selecionadas aleatoriamente, pelo de sorteio, com a utilização do software "R" versão 2.11.1.

Para participar no estudo, foram adotados os seguintes critérios de inclusão: crianças com idade entre 6 e 7 anos; e crianças cujo pais/responsáveis aceitassem participar da pesquisa.

Foram excluídas as crianças, cujos pais fossem adotivos, pois existem variáveis que são determinadas por herança genética.

A coleta de dados foi realizada entre novembro de 2010 e maio de 2011. Para coleta dos dados, foi utilizado um formulário adaptado do questionário escrito do Internacional Study of Asthma and Allergies in Childhood (ISAAC). O referido questionário desenvolvido com o objetivo de determinar a prevalência de sintomas de asma, rinite e eczema atópico entre escolares de 6 e 7 anos e adolescentes de 13 e 14 anos, traduzido e validado para a língua portuguesa. O formulário, além de dados sobre os sintomas de asma, contém informações sobre a história de nascimento da criança, aleitamento materno, núcleo familiar, doenças e imunizações, informações sobre a casa, tipo de alimentação e dados antropométricos da criança. O instrumento foi construído baseado também em um trabalho de dissertação (8) e foi preenchido com o cuidador principal da criança (mãe, pai, avó e/ou tia).

A coleta de dados foi realizada nas reuniões da escola com os familiares das crianças selecionadas. Contudo, quando por algum motivo esses faltavam às reuniões, foram realizadas visitas a seus domicílios, com endereços fornecidos pela diretoria da escola. As visitas aconteceram, mediante autorização prévia do responsável pela criança.

Foram coletados dados de peso corporal em kg, precisão de 100g, em balanças modelo Family BWF (Tanita Corp., Arlington Heights, Estados Unidos). A estatura foi aferida em cm, precisão de 1mm, em estadiômetro portátil afixado à parede lisa e sem rodapé. Ambas as medidas foram realizadas na própria escola da criança.

Primeiramente, foi elaborado um banco de dados na planilha do Microsoft Office Excel 2007 e, posteriormente, transportados para o software versão SPSS versão 17.0, para realização da análise estatística.

Os dados foram organizados em tabelas e analisados com base em frequências absolutas e relativas e em medidas de tendência central, medidas de dispersão e testes de associação.

O teste de Kolmogorov-Smirnov foi aplicado para verificação da normalidade dos dados numéricos.

Com relação aos testes de associação, para frequências esperadas maiores de cinco, utilizou-se o teste de Qui-quadrado, e para frequências esperadas menores de 5 aplicou-se o teste de Fisher. Foram consideradas como estatisticamente significante as associações que apresentaram teste com valor p < 0,05.

Para a realização do estudo, foram seguidos todos os princípios éticos contidos na Resolução nº 196/96(9) que rege pesquisas envolvendo seres humanos. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê deÉtica em Pesquisa da Universidade Federal do Piauí (CAAE: 0242.0.045.000-10) e os pais/responsáveis pela criança assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

 

RESULTADOS

Os dados coletados foram organizados por grupos de respostas, apresentados em tabelas e analisados com a utilização da estatística descritiva e analítica.

Das 234 crianças, 59% apresentaram idade de seis anos e 41% apresentaram sete anos.

De acordo com a Tabela 1, houve prevalência do sexo feminino (56%) na amostra estudada. Em relação à cor da pele, as que obtiveram maior prevalência foram cor parda (54,3%) e a cor branca (41,5%).

 

 

A variável "renda" apresentou uma mediana de R$545,00 reais. As variáveis "peso" e "altura" apresentaram mediana de 21,0 kg e 1,20m, respectivamente.

De acordo com os dados da Tabela 2, do total de crianças avaliadas, 45,7% apresentaram crise de sibilo alguma vez na vida e 15,8% já tiveram bronquite. Nos últimos 12 meses, 12,4% apresentaram sibilo após exercício físico e 35,9% tosse seca à noite. No entanto, apenas 7,7% das crianças tinham diagnóstico médico de asma.

 

 

Das 107 crianças (45,7%) que apresentaram sibilo alguma vez na vida, 48 (44,9%) apresentaram sibilos nos últimos 12 meses.

Após análise estatística, contatou-se que apenas algumas variáveis apresentaram relação estatisticamente significante com a presença do diagnóstico médico de asma entre as crianças pesquisadas. Conforme os dados da Tabela 3, ter apresentado sibilos, após a realização de exercício físico aumentou 23 vezes o risco de desenvolver asma; apresentar tosse seca à noite sem estar gripado ou com infecção respiratória representou um risco três vezes maior de ter asma, e ter apresentado bronquite elevou esse risco em oito vezes.

Já crianças que tinham mãe asmática, tiveram risco sete vezes maior de desenvolverem asma, assim como ter pai asmático elevou o risco três vezes.

As outras variáveis que comumente são apresentadas na literatura como fatores de risco, tais como: sexo masculino, tipo de parto, peso ao nascimento, aleitamento materno, exposição aos alérgenos, tabagismo passivo e nível socioeconômico, não apresentaram relação estatisticamente significante com a presença do diagnóstico médico de asma. Isso pode ter sido ocasionado pela possibilidade de alto subdiagnóstico de asma, pois, apesar das crianças apresentarem alta prevalência de sintomas de asma, apenas 7,7% tinham o referido diagnóstico médico estabelecido.

De acordo com os dados da Tabela 4, 48 crianças que apresentaram sibilos nos últimos 12 meses, a grande maioria (85,4%) apresentou de uma a três crises no último ano; 47,9% nunca tiveram o sono perturbado por crises de sibilância e 25% apresentaram chiado forte a ponto de não conseguir dizer mais de duas palavras a cada respiração.

 

 

Conforme os dados obtidos neste estudo, pode-se observar que 44,9% das crianças apresentaram peso de nascimento entre 2.500 a 3.499 gramas, 86,3% nasceram na data provável do parto, e o normal de termo foi o tipo de parto que prevaleceu (54,3%).

Conforme os dados da Tabela 5, a grande maioria das crianças (94,0%) recebeu aleitamento materno, 46,6% foram amamentadas por mais de um ano de vida e 53,0% receberam aleitamento materno exclusivo por menos de 6 meses.

 

 

DISCUSSÃO

O presente estudo demonstrou, pela primeira vez, a prevalência de sintomas de asma em escolares na cidade de Picos - PI, sendo estes resultados de extrema importância para a obtenção de informações sobre a asma e os fatores de risco a ela relacionados, visando à instituição de medidas preventivas que promovam a melhoria da qualidade de vida das crianças acometidas pela doença. Alguns dados devem ser vistos com cautela em razão do pequeno tamanho amostral.

Estudos indicam que a maior prevalência de asma na infância encontra-se no gênero masculino. Isso pode ser explicado pela diferença na anatomia do trato respiratório inferior, pois os meninos apresentam menor diâmetro, maior tônus das vias aéreas e menos fluxo pulmonar em relação ao gênero feminino(10). Na adolescência, a inversão é decorrente, possivelmente, pelos fatores hormonais (11).

Em relação ao gênero, os resultados deste estudo mostraram que houve predominância do gênero feminino (56%). Resultado semelhante houve em estudo com a mesma faixa etária, realizado em Pelotas - RS, que demonstrou predomínio do gênero feminino (9 52,8%)(12).

Quanto à cor da pele, 41,5% dos entrevistados declararam que a cor da criança era branca, e a maioria dos respondentes foi a mãe da criança (71,8%). O resultado assemelha-se ao do estudo realizado em Pelotas (RS), no qual a cor branca (74,7%) teve maioria, porém, na associação com a asma, encontrou-se um risco 64% maior de asma nas crianças de cor não-branca em comparação com as de cor branca, após ajuste para fatores socioeconômicos (12).

No presente estudo, a altura mediana das crianças foi de 1,20 metros (±0,07) e a mediana de peso foi de 21,0 kg (±4,00). A asma constitui-se como uma das causas de baixo peso e atraso do crescimento nas crianças (13). Em um estudo em que foi relacionado o índice de massa corporal de crianças asmáticas, observou-se uma prevalência de baixo peso (percentil > 95) mais significativa no grupo das crianças asmáticas do que no grupo controle(14). Entretanto, nesta pesquisa não foi evidenciada relação estatisticamente significante entre o diagnóstico de asma e alteração no peso e/ou estatura da criança. Postula-se como possível explicação o fato de ter-se encontrado pequena prevalência do diagnóstico de asma, apesar da alta presença dos sintomas de asma.

Neste estudo, a citação de sibilos alguma vez na vida foi de 47,3%, valor que difere de um estudo (15) realizado em escolas públicas municipais da região Oeste da cidade de São Paulo -SP (55,2%), por ser um pouco menor.

A presença de sibilos nos últimos 12 meses, neste estudo, foi de 42,3%, valor elevado quando comparado com outros estudos (11, 16), onde o valor variou de 12,7% a 25,2%.

Outra forma de se diagnosticar asma, de acordo com o estudo ISAAC, seria pela investigação direta da doença, ou seja, pela indagação sobre diagnóstico médico de asma anteriormente à pesquisa. No presente estudo, encontrou-se um número reduzido de familiares referindo diagnóstico de asma alguma vez (7,7%), valor este muito menor ao encontrado na questão sibilos no último ano (44,9%). Isso demonstra a provável existência de subdiagnóstico da doença em Picos -PI, semelhante ao que já foi verificado em outro estudo (15), onde o valor da questão sibilos no último ano foi quatro vezes maior ao obtido na questão asma alguma vez na vida.

Quando questionados se houve "chiado no peito após exercícios físicos" e se houve "tosse seca noturna sem estar gripado ou com infecção respiratória" nos últimos 12 meses, 12,4% e 35,9% responderam afirmativamente a estas questões, respectivamente. Tais resultados são semelhantes aos encontrados pelo estudo ISAAC realizado em Montes Claros-MG (17), com prevalência igual a 16% e 32,9%, respectivamente. Esses dados tornam-se importantes em razão da tosse seca noturna ser uma manifestação importante da asma, sobretudo na ausência de infecção das vias respiratórias (5) e a asma induzida pelo exercício poder permanecer como manifestação única da doença nessa faixa etária, nem sempre reconhecida pelos responsáveis e professores (18). Vale ressaltar que a tosse seca noturna pode ser manifestação de refluxo gastroesofágico (19) e, assim, superestimar a prevalência da positividade desta questão.

No atual estudo, a prevalência da gravidade dos sintomas da asma avaliada pelas questões, número de crises de sibilos, limitação da fala e distúrbio do sono por sibilos no último ano, apresentou percentual elevado, com relação a outros estudos, de 85,4%, 25% e 31,3%, respectivamente. Contudo, de acordo com a metodologia do estudo ISAAC, o tamanho da amostra necessário para detectar diferenças na gravidade da asma deve ser de 3000 participantes e como o atual estudo foi realizado com uma amostra de 234, ocorreu um aumento no percentual das variáveis acima apresentadas, não significando necessariamente gravidade dos sintomas entre os escolares da cidade de Picos (7).

É comum a população referir-se à asma pelo nome de bronquite e destaca-se também, atualmente, que os termos asma e bronquite são equivocadamente utilizados como sinônimos por muitos médicos, dificultando o diagnóstico correto do paciente (20). Neste estudo, a prevalência de bronquite alguma vez na vida foi de 15,8%, sendo maior com relação à pergunta asma alguma vez na vida, com apenas 7,7%.

A prevalência da asma e o nível socioeconômico são avaliados em muitos estudos. Em uma amostra randômica de 1.073 domicílios na cidade de São Paulo-SP (21), com menores de 5 anos, encontrou-se uma relação entre sibilância recente e baixa renda per capita e, de acordo com esse estudo, os pobres teriam um risco três vezes maior de ter asma. Outros autores (22) avaliaram a prevalência de asma e dos sintomas a ela relacionados no Distrito Federal-DF e sua relação com o nível socioeconômico, e concluíram que pessoas economicamente desfavorecidas apresentam prevalências maiores de sintomas de asma, assim como crises de maior gravidade.

Com relação à renda familiar, no presente estudo, encontramos uma mediana no valor de R$ 545,00. Um valor equivalente ao salário mínimo vigente no momento (R$ 545,00). O que reflete a realidade do País, onde a maioria das pessoas ainda possui uma renda mensal muito baixa.

Quanto ao peso da criança ao nascer, neste estudo grande parte das crianças (44,9%) teve peso ao nascer entre 2.500 a 3.499 gramas. Alguns autores (23) em estudo de revisão da literatura encontraram relação de risco entre peso menor de 2.500 gramas e asma na maioria dos artigos avaliados. Uma das hipóteses para a associação entre asma e baixo peso ao nascer, é o papel da função pulmonar, ou seja, as crianças nascidas com baixo peso podem ter função pulmonar diminuída e, consequentemente, desenvolver quadros de asma; por outro lado, essas crianças podem ser asmáticas apenas pelo baixo peso ao nascer, sem que a função pulmonar tenha um papel mediador nessa associação.

A hereditariedade exerce um importante papel na asma, sendo a ocorrência de asma nos pais um importante fator preditor nas crianças. Em um estudo de prevalência (12), aninhado em uma coorte com 494 crianças com idade entre 6 e 7 anos, de Pelotas-RS, avaliou-se a história de asma na família, considerando mãe, pai e irmãos, encontrando-se um risco 2,8 vezes maior de asma associado a essa variável.

Com relação à presença de doença alérgica nos pais das crianças pesquisadas, o presente estudo mostra que 16 mães (6,8%) e 19 pais (8,1%) tiveram asma. Além disso, este foi um fator de risco que apresentou relação estatisticamente significante, em que ter mãe asmática representou um risco sete vezes maior de desenvolver asma, assim como ter pai asmático elevou o risco três vezes.

 

CONCLUSÃO

Participaram da pesquisa 234 crianças, com predomínio do gênero feminino (56%). A prevalência de asma de 7,7% mostrou valores inferiores quando comparada à prevalência de sibilos nos últimos 12 meses (44,9%). A baixa frequência encontrada de diagnóstico médico de asma sugere que esta ainda é subdiagnosticada.

Os sintomas relacionados à asma apresentaram os seguintes valores: 45,7% para sibilância alguma vez na vida; 12,4% para sibilo após exercício físico; e 35,9% para tosse seca à noite. Apesar, da prevalência dos sintomas de asma mostrar-se maior quando comparada a outros estudos, é necessário considerar que, em razão do pequeno tamanho amostral, as informações encontradas devem ser vistas com parcimônia quando utilizadas para caracterizar e uniformizar a população de crianças com sintomas de asma.

Os seguintes sintomas/fatores de risco associados à asma foram os que apresentaram relação estatisticamente significante (p < 0,05): ter apresentado sibilos, após a realização de exercício físico; crianças com tosse seca à noite sem estar gripado ou com infecção respiratória; ter apresentado bronquite; crianças com mãe asmática e pai asmático.

Assim, sugere-se que novos trabalhos sejam realizados, sobretudo estudos com uma amostra maior, para analisar de modo mais amplo a situação da asma no município de Picos-PI.

 

REFERÊNCIAS

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Autor Correspondente:
Luisa Helena de Oliveira Lima
Rua Zuza Lino, 1239 - AP. 01 - Canto da Várzea
CEP 64600-000 - Picos - Piauí
E-mail: luisahelena_lima@yahoo.com.br

Artigo recebido em 04/11/2011 e aprovado em 21/05/2012

 

 

* Estudo extraído da monografia de graduação intitulada "Sintomas e fatores de risco para a asma entre escolares do município de Picos" - apresentada ao Curso de Enfermagem da Universidade Federal do Piauí - UFPI - Picos (PI), Brasil.

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