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Acta Paulista de Enfermagem

Print version ISSN 0103-2100

Acta paul. enferm. vol.26 no.2 São Paulo  2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-21002013000200010 

ARTIGO ORIGINAL

 

Percepções e expectativas dos enfermeiros sobre sua atuação profissional

 

 

Augusto Hernán Ferreira UmpiérrezI; Miriam Aparecida Barbosa MerighiII; Luz Angélica MuñozIII

IFacultad de Enfermería y Tecnologías de la Salud, Universidad Católica del Uruguay, Montevideo, Uruguay
IIEscola de Enfermagem, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
IIIFacultad de Enfermería, Universidad Andrés Bello, Santiago de Chile

Autor correspondente

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Conhecer como os enfermeiros percebem sua atuação profissional e quais suas expectativas sobre o desenvolvimento das gestões do cuidado integral.
MÉTODOS: Pesquisa qualitativa com abordagem da fenomenologia social de Alfred Schütz. Os sujeitos foram nove enfermeiras que trabalhavam em hospitais públicos e privados de Montevideo, Uruguai.
RESULTADOS: Os enfermeiros vivenciam a distância entre a teoria e a prática, a sobrecarga administrativa, a insegurança para assumir a gestão de cuidado e a busca de conhecimento formal e informal; mostram desejos de definições específicas, autonomia e identidade profissional, valorização da profissão.
CONCLUSÃO: Os enfermeiros percebem a sua atuação profissional como distante entre a teoria e a prática, sobrecarga administrativa, insegurança para assumir a gestão do atendimento e a busca do conhecimento formal e informal, com expectativas e desejos de recuperação e de definições de funções específicas, autonomia e identidade profissional.

Descritores: Cuidados de enfermagem; Gestão em saúde; Pesquisa qualitativa; Legislação de enfermagem; Carga de trabalho


 

 

Introdução

A gestão de cuidado é um componente essencial do papel que é abordado em distintas regulamentações do exercício profissional.(1) Trata-se de um processo de mobilização do recurso humano no ambiente de trabalho. Assim, o papel do enfermeiro gestor será conduzir e apoiar os que prestam cuidados, promovendo a sua visibilidade,(2,3) além de sustentar como premissa o trabalho realizado por uma equipe de enfermagem e contar com independência no exercício profissional, expresso por um respaldo legal que lhe permita assumir com propriedade as decisões e ações de enfermagem.(4)

No entanto, há evidências de que o enfermeiro em sua prática vivencia frustrações e insatisfações em relação à suas atividades. Um estudo realizado no Brasil mostra que os enfermeiros têm certo conhecimento sobre administração e gestão, porém, não conseguem colocá-lo em prática. Além disso o estudo destaca que os enfermeiros sentem conflitos entre o que é idealizado sobre seu papel e o que é realmente desempenhado.(5)

É preciso mudar essa realidade com profissionais críticos que promovam e defendam a saúde, profissionais comprometidos com a profissão, à medida que incorporam os conhecimentos da academia em sua prática.(6)

A educação continuada é fundamental no desenvolvimento das habilidades para incorporar esses aspectos no cotidiano da prática profissional. Os resultados de um estudo sobre a capacitação dos enfermeiros brasileiros concluiu que, em geral, não existem políticas institucionais formalizadas a respeito da capacitação profissional.(7)

É importante refletir sobre o contexto de saúde para o exercício das práticas do cuidado nos processos gerenciais em um espaço onde ocorra a relação do enfermeiro com o usuário, como outros profissionais e a organização, o que constitui e imprime determinadas características no processo de trabalho de enfermagem e que afeta uma de suas áreas fundamentais: a gestão de cuidado.(8)

Pautado nesta realidade, este estudo levanta as seguintes questões: como o enfermeiro concebe as atividades inerentes ao seu papel profissional no desenvolvimento da prática diária? Como desenvolve o cuidado de enfermagem relacionado à prática clínica? Quais expectativas tem em relação a seu papel na gestão de cuidado, com base em legislação que defina sua atuação profissional e estabeleça as obrigações próprias da profissão?

Torna-se relevante destacar o estudo das percepções, desejos e expectativas dos enfermeiros, para o alcance dos objetivos emancipatórios da profissão. Os resultados do desvelamento da atuação desses profissionais certamente contribuirão para melhor compreensão do tema e na tomada de decisões estratégicas, que possam mudar a situação dos enfermeiros e seu melhor posicionamento profissional.

O objetivo desta pesquisa é conhecer, como os enfermeiros percebem a sua atuação profissional e quais são suas expectativas no desenvolvimento da gestão de cuidados de enfermagem.

 

Métodos

Trata-se de um estudo qualitativo, com base na premissa de que o conhecimento dos indivíduos é possível com a descrição da experiência humana, como ela é vivida e como é definida por seus atores.(9) Optou-se pelo método fenomenológico.(10)

A abordagem escolhida foi a fenomenologia social de Alfred Schütz, que fornece uma abordagem sistemática para melhor compreender os aspectos sociais da ação humana. Esta abordagem oferece uma maneira de articular conceitos de intencionalidade, intersubjetividade, ações humanas, relações sociais, expectativas e outros que possam ser alcançados, como neste estudo, uma melhor compreensão do mundo social dos profissionais de enfermagem.(11) A compreensão do fenômeno, vivido no dia a dia, é uma análise do comportamento social em relação aos motivos dos enfermeiros.

Esse referencial tem como cerne a teoria da ação social entendida como precursora das mudanças ocorridas no mundo cotidiano. A ação acontece baseada em motivos existenciais relacionados ao passado e ao presente vivido (motivos por que) e às projeções que se constituem na possibilidade da ação propriamente dita, ato antecipado, imaginado, significado subjetivo da ação (motivos para). Tem a tipificação como matriz conceitual comum que traduz a ação de um determinado grupo social.(12)

Um dos conceitos chaves desse referencial é a intersubjetividade, que se trata de uma pré condição da vida social. Este mundo não existe na esfera subjetiva, mas em uma intersubjetividade, na qual as experiências são interpretadas de forma recíproca. Nesse sentido, a relação assume lugar face a face, uma vez que há sempre alguém que está disponível para a experiência direta do outro quando compartilha o mesmo espaço.

Outro conceito do referencial da fenomenologia social diz respeito ao que é chamado atitude natural, como o homem experimenta o mundo intersubjetivo, incorporado no mundo do senso comum. Esta atitude é influenciada pela base de conhecimento e pela situação biográfica de cada sujeito, como as experiências anteriores são armazenadas, e estas determinam os elementos relevantes da ação.

O estudo foi realizado na cidade de Montevidéu, Uruguai, e participaram nove enfermeiros que atuavam tanto em hospitais públicos como privados. A coleta de dados foi realizada entre setembro e novembro de 2009; depois de consultar os profissionais sobre sua disponibilidade em participar do estudo. Os depoimentos foram obtidos por meio de entrevistas abertas, gravadas, com garantia de sua privacidade, anonimato e confidencialidade das informações fornecidas.

Dada a natureza do estudo, o número de participantes não foi anteriormente definido, sendo a coleta dos dados encerrada quando os dados mostraram sinais de desvelamento do fenômeno, as inquietações dos pesquisadores foram respondidas e os objetivos alcançados.(13)

As entrevistas foram guiadas pelas seguintes questões norteadoras: Como você desenvolve suas atividades, em sua prática diária, relacionadas à gestão do cuidado ao paciente? Quais são as suas expectativas em relação ao seu papel como gestor de cuidado, se o país é definido papel profissional? Os depoimentos foram transcritos na integra, assegurando, assim, a integridade do processo e a redução fenomenológica que pretende alcançar a essência das formas que compõem a experiência psíquica do outro.(14)

A análise das entrevistas seguiu os passos indicados pelos métodos de análise de dados qualitativos(15) e pelos pesquisadores da fenomenologia social:(16) leitura cuidadosa de cada entrevista para captar a essência de cada experiência vivida pelos enfermeiros; agrupamento de aspectos significativos presentes nos depoimentos para compor as categorias e sua análise buscando a compreensão dos motivos para e dos motivos por que da ação dos enfermeiros e discussão dos resultados à luz da fenomenologia social de Alfred Schütz e outras referências relacionadas ao tema. As categorias concretas foram compostas por descrições que mostraram, de forma expressiva, a vivência dos profissionais em relação à sua atuação profissional, denominadas como: teoria e prática, sobrecarga administrativa, busca de conhecimento, insegurança, definições específicas, autonomia e identidade profissional, valorização da profissão.

O desenvolvimento do estudo atendeu as normas internacionais de ética em pesquisa envolvendo seres humanos.

 

Resultados

Conforme o referencial adotado, os motivos por que dos indivíduos foram representados pelas categorias construídas por meio das falas dos enfermeiros.

A teoria e a prática: [...] Eu tento desenvolver a melhor gestão possível. Não faz muito tempo que aprendi e lembro-me como era ressaltado na Faculdade que, sem fundamentação teórica e sem metodologia esta profissão não iria crescer. Acontece que muitas vezes é difícil [...] D1; [...] está em todos os livros, é tema de todas as aulas, mas depois você começa a trabalhar e entra na rotina e acaba atuando sem reflexão; [...] Eu vejo diariamente em meu trabalho, tanto assistencial, como na docência, como é interessante ter as duas perspectivas. No assistencial trato de colocar em prática tudo que ensino, porém as vezes é complicado [...] D7.

Outra categoria construída relacionou-se com a sobrecarga administrativa: [...] há muitas tarefas administrativas, mas não administrativas no sentido de administrar os cuidados, gerenciar o atendimento ao paciente, são questões que dizem respeito à coordenação de estudos, acompanhar visita com os médicos, fazer as receitas que deixam pendentes, não é fácil [...] D1; [...] às vezes, você até perde a prática dos cuidados, porque o que mais se faz e, portanto, que se tem prática, refere-se às questões administrativas... cada vez mais[...] D3; [...] por uma questão de necessidades temos optado por delegar nossas atividades, o que em grande parte percebo que temos perdido prestígio, pois somos vistos como meras administradores [...] D4.

Ainda em relação à experiência dos enfermeiros surgiu a categoria busca pelo conhecimento: [...] quando você inicia suas atividades em um setor, aprende muitas coisas com os colegas que te orienta a desenvolver todo o serviço [...] D4; [...] você aprende com colegas jovens, recém-formados, que atuam muito bem na gestão do serviço porque estão com tudo fresquinho [...] D6; [...] temos que nos atualizar continuamente, buscar cursos de aprimoramento, aprender, sempre, e fazer uma boa gestão e atividades relacionadas ao cuidado [...] isto é uma necessidade de nosso país [...] Eu aprendi com outras colegas, é importante, ver e aprender com os outros [...] D8.

A última categoria, relacionada aos motivos por que foi a insegurança: [...] eu atuo na educação dos enfermeiros. Às vezes, eu acho que eles realmente estão prontos para assumir algumas coisas. Às vezes, eu vejo os caras jovens, e eu acho o mesmo [...] D7; [...] a questão é cumprir as obrigações assumidas [...] D9.

Os motivos para, conforme o referencial adotado foram incluídos nas categorias apresentadas a seguir:

As definições específicas surgem baseadas na análise dos trechos das falas: [...] Creio que se tivesse uma lei para nós, seria muito bom que se definissem funções para sabermos que temos um respaldo que até agora nunca aconteceu [...] D1; [...] isso seria muito bom, para definir o que fazemos e o que não fazemos, ou seja, que a nossa profissão tem um sentido [...] D2; [...] Espero que se defina ainda mais nossa área de ação, como eu disse, e que essas obrigações sejam acompanhadas por recompensa financeira proporcional [...] D7.

Outra categoria que diz respeito às expectativas dos enfermeiros referiu-se à autonomia e a identidade profissional, [...] Eu tenho esperanças de que nosso papel seja claramente definido e o que nós, enfermeiros, e ninguém mais faça o que é nosso, ou seja, cobrar nossa identidade profissional [...] D2; [...] Eu diria que é necessário definir e deixar claro algumas questões para legislar sobre o assunto suponho que se tiver leis, haverá um respaldo que nos dará mais autonomia e definirá nossa área de ação, é o meu desejo. [...] D7; [...] Eu espero que nós tenhamos mais autonomia, reconhecimento, especialmente, no social [...] D8.

Por último, emergiu a categoria valorização da profissão: [...] Desejo que nos valorizem, dizem que o enfermeiro é necessário, porém nos substituem por um auxiliar, sem quaisquer problemas [...] D5; [...] tem mais coisas que eu esperaria: nossa valorização, reconhecimento e reconhecer-nos a nós mesmos, porque às vezes tanto se fala de identidade e nós não temos claro o significado isso [...] D6.

 

Discussão

Os resultados do presente estudo, embora tragam vivências ricas de significados, apresentam como limitação o fato de ter sido realizado com profissionais enfermeiros pertencentes a um mesmo grupo social em uma situação específica. Assim, considerando-se as particularidades aqui enunciadas, sugere-se a investigações sobre a temática abordada a fim de que revele outros aspectos não identificados. É preciso enfatizar que oferece contribuições interessantes para a compreensão do reconhecimento do trabalho dos enfermeiros.

As categorias relacionadas aos motivos por que, teoria e prática, sobrecarga administrativa, busca de conhecimento e insegurança mostram um sentimento comum do grupo de enfermeiros, constituindo parte de sua tipificação.

O papel do enfermeiro como gestor de cuidado é uma das características da profissão.(3) Os resultados de um estudo relacionado ao papel destes profissionais mostram as dificuldades em desenvolver as funções inerentes à profissão gerando, portanto, frustração e insatisfação, sobretudo porque não conseguem desenvolver na prática os conhecimentos sobre gestão.(5)

O modo como executam suas atividades tem a ver com seu acervo de conhecimento e suas experiências vividas. Não conseguem utilizar-se da teoria aprendida em sua formação na rotina de trabalho e, com isto, têm dificuldade para implementar o que aprenderam. Por esta razão, faz-se necessário o planejamento conjunto da prática profissional com alunos, professores e enfermeiros dos serviços de saúde. Será esta uma forma de coordenar as práticas educativas e profissionais.(17)

Percebe-se que os enfermeiros buscam o conhecimento por experiências que fazem parte de seu acervo de conhecimentos. Mostram a riqueza do aprendizado com outros, com aqueles que continuamente ensinam e proporcionam oportunidades para aumentar a bagagem de conhecimento, fato que se constitui na constitui na troca de subjetividade (intersubjetividade), conceito relevante na abordagem da fenomenologia social.(18)

A partir dos depoimentos dos enfermeiros, fica claro que existe uma necessidade de aprender mais, investir na educação continuada, pois, alguns, sentem-se desinformados e desatualizados. Em razão disso, buscam conhecimento e aprendizagem de diversas formas, para atender às demandas e exigências relacionadas à gestão do cuidado aos pacientes.

A necessidade de formação e busca constante do conhecimento, encontrada na presente investigação, também aparece nas conclusões de outro estudo que ressaltam que os enfermeiros necessitam de intervenções de formação adequadas para assumir o processo de gestão e o processo de cuidado de enfermagem com ferramentas eficazes.(19)

Dessa forma entende-se que o curso de pós-graduação certamente poderá colaborar com o desenvolvimento do poder profissional, que será atribuído e, entre outras questões, poderá incrementar habilidades da prática, com o poder do conhecimento especializado e de relação terapêutica. Isto permitirá reorientar o exercício de enfermagem, considerando o desenvolvimento da autonomia e a tomada de decisões relativas à sua área de domínio.

Os motivos para, como mencionados anteriormente: definições específicas, autonomia e identidade profissional e valorização da profissão, revelam projetos e expectativas para desenvolver integralmente a gestão de cuidados em seus serviços, com condições que definem claramente seu papel profissional em nível nacional.

Os enfermeiros manifestaram também expectativas sobre a definição de papéis específicos, aumentando a esperança em relação à definição de sua função profissional. Desejam autonomia e identidade profissional e tomada de decisão sobre questões específicas de sua área de competência. Suas expectativas referem-se, ainda, à aspiração de serem identificados e reconhecidos pelo que realmente são com valorização da profissão. Estes aspectos constituem a tipificação desse grupo em relação a seus projetos.

Cabe destacar que todas as pessoas que compartilham de uma realidade social, sentem necessidades pessoais e sociais como pertencentes a um grupo social. A definição clara de seu papel é a determinação necessária para todas as pessoas. O mundo vida de cada pessoa é composto em grande parte dessas considerações.

Conforme Schütz, os indivíduos precisam ter a definição do papel que desempenham em sua prática diária, determinando seu lugar na sociedade e certa posição, que faz parte de suas expectativas.(20)

A necessidade sentida por esses profissionais é compartilhada e inclui-se na intersubjetividade. A definição de seu papel gera expectativas sobre sua realidade e experiência cotidiana.(5)

A temática relacionada ao papel dos enfermeiros é muito abordada e estudada em vários cenários. Há ênfase na idéia de que com base na definição de sua função, pode-se construir a identidade profissional e colocar em prática as funções específicas do enfermeiro. A enfermagem tem muitas dificuldades para explicar a definição de sua função, o que influencia os conceitos de autonomia da profissão.(21)

Certamente, a geração de conhecimento no país, colaborará para que emerjam aspectos centrais do papel profissional, revelando o impacto social e de saúde que a enfermagem pode alcançar. O desejo relacionado à identidade e à autonomia profissional é observado em diferentes estudos.(22,23) Essa falta de identidade é uma característica relevante do tipo vivido do grupo estudado, sendo suas tipificações elementos relevantes do mundo social.(24)

No entanto, entende-se que os objetivos emancipatórios da profissão podem relacionar-se com a essência do cuidado e interação enfermeiro-paciente, enfermeiro-família, enfermeiro-comunidade. Para este resgate faz-se necessária a compreensão e interiorização da intersubjetividade que ocorre na relação entre quem cuida quem recebe e participa do cuidado. Nesta reciprocidade de intenções, além das competências técnico-científicas, o cuidador deve estabelecer um processo de crescimento e aprendizagem para ambos, ao expressar sua sensibilidade, respeito pelos valores e empatia. Nesse cenário, o cuidado deixa de ser uma mera intervenção, pois torna-se uma relação de ajuda, de forma profissional, holística, humana, deixando espaço para a criatividade no mundo das relações sociais. Esta linha de ação é essencial para que a profissão obtenha o poder do cuidado.

De acordo com alguns autores, o desenvolvimento do papel profissional, identificado em grande parte por uma gestão cuidadosa, está intimamente relacionado com os conceitos de autonomia e identidade profissional.(23,25) Estes estudos mostram que, semelhante às percepções das enfermeiros da presente investigação, estas expectativas estão em constante desenvolvimento e, há algum tempo, vem ocorrendo debates sobre a independência do exercício da profissão.

A questão torna-se relevante para a definição dos papéis, responsabilidades e autonomia do enfermeiro. Indagar a experiência vivida põe estes profissionais, desenvolve diariamente seu papel e conhecer seu universo de motivações, aspirações e atitudes, com base em uma nova perspectiva de caráter mais experiencial, certamente, contribuirá para melhor compreensão das necessidades e expectativas desse grupo social no que se refere à sua atuação profissional. A aproximação de sua vivência profissional poderá ser fundamental para possibilitar a consonância entre o cuidado oferecido e as necessidades do paciente.

Com base na abordagem utilizada neste estudo, seu desenvolvimento permitiu visualizar a necessidade de transformação da profissão, estabelecendo propostas que podem ser encaminhados por meio de três elementos chave, inter-relacionados entre si: o empoderamento da gestão de cuidados, melhorando o perfil dos egressos, articulando a docência à assistência; o investimento em pesquisas científicas baseadas em outros aspectos dos cuidados e visibilidade profissional, com promoção e criação de programas de mestrado e doutorado; e o desenvolvimento de um processo de emancipação da profissão com valorização de seu papel profissional.

A geração de conhecimento por meio de pesquisa, articulando a academia com o exercício profissional, com inovação e internacionalização, é uma forma de mostrar as contribuições da profissão na área da saúde, promovendo o desenvolvimento de políticas, regulamentações e comportamento social, ao compreender que o futuro dos cuidados de saúde das pessoas depende do potencial do trabalho de enfermagem, sendo visto como uma força viva e especializada, um suporte ao sistema.

 

Conclusão

Os enfermeiros percebem a sua atuação profissional como distante entre a teoria e a prática, sobrecarga administrativa, insegurança para assumir a gestão do atendimento e a busca do conhecimento formal e informal, com expectativas e desejos de recuperação e de definições de funções específicas, autonomia e identidade profissional.

Colaborações

Umpiérrez AHF; Merighi MAB e Muñoz LA declaram que contribuíram com a concepção e projeto, análise e interpretação dos dados; redação do artigo, revisão crítica relevante do conteúdo intelectual e aprovação final da versão a ser publicada.

 

Referências

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Autor correspondente
Augusto Hernán Ferreira Umpiérrez
Avenida 8 de Octubre 2738, Montevideo, Uruguay
auferrei@ucu.edu.uy

Submetido 22 de Abril de 2012
Aceito 27 de Março de 2013
Conflitos de interesse: não há conflito de interesse a declarar

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