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Acta Paulista de Enfermagem

versão On-line ISSN 1982-0194

Acta paul. enferm. vol.27 no.6 São Paulo nov./dez. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/1982-0194201400088 

Artigos Originais

Riscos ocupacionais e adoecimento de trabalhadores em saúde mental

Márcia Astrês Fernandes1 

Maria Helena Palucci Marziale2 

1Universidade Federal do Piauí, Teresina, PI, Brasil.

2Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP, Brasil.

RESUMO

Objetivo

Analisar a associação entre o adoecimento de trabalhadores em saúde mental e os riscos ocupacionais.

Métodos

Estudo epidemiológico, transversal, realizado com 163 profissionais da equipe multidisciplinar de saúde mental atuante em um hospital psiquiátrico, divididos em dois grupos: com e sem licença saúde. O instrumento de pesquisa foi um questionário com as variáveis de estudo e os registros de licenças saúde.

Resultados

Os riscos ocupacionais identificados foram principalmente; exposição a bactérias e vírus (87,12%), tabaco (82,82%), ruídos (81,60%), indução a adoção de postura corporal inadequada devido a inadequações ergonômicas (72,39%) e ao estresse (71,17%). Cerca de 64,42% dos trabalhadores adoeceram no período de estudo sendo registrados 270 diagnósticos.

Conclusão

Mais da metade dos trabalhadores de saúde apresentam problemas de saúde, no entanto, pequena parte dos diagnósticos registrados consta da lista de doença ocupacional. Houve associação estatisticamente significativa entre a variável adoecimento e risco químico e risco psicossocial.

Palavras-Chave: Riscos ocupacionais; Pessoal de saúde; Saúde mental; Saúde do trabalhador; Doenças profissionais

Introdução

A Organização Internacional do Trabalho(1) estimou que 2,34 milhões de pessoas morrem todos os anos em virtude de acidentes e doenças relacionados com o trabalho, sendo 2,02 milhões (86,3%) causados por Doenças Profissionais e 321 mil em consequência de Acidentes de Trabalho. São 6.300 mortes diárias relacionadas ao trabalho, 5.500 causadas por Doenças Profissionais, números esses inaceitáveis, os quais indicam que ações devem ser intensificadas em busca do Trabalho Decente (adequadamente remunerado, exercido em condições de liberdade, equidade e segurança, além de ser capaz de garantir uma vida digna às pessoas).

Os riscos oriundos de mudanças tecnológicas, sociais e de organização (consequências da globalização) afetam gravemente a saúde dos trabalhadores, ainda que alguns dos riscos tradicionais tenham diminuído devido a maior segurança, a melhor regulamentação e a maiores recursos técnicos empregados. Paralelamente surgem novos tipos de Doenças Profissionais oriundas de riscos emergentes ocasionados por condições ergonômicas deficientes, exposição à radiação eletromagnética e devido aos riscos psicossociais.(1)

No caso específico dos trabalhadores de serviços de saúde mental, pela experiência acumulada enquanto trabalhadora e gestora de instituições psiquiátricas, consideramos necessário um olhar mais atento às situações de trabalho vivenciadas, visto que esses profissionais ao executarem atividades assistenciais a indivíduos portadores de distúrbios psíquicos, além dos riscos ocupacionais comuns a que estão expostos os trabalhadores das instituições de saúde em geral, desenvolvem suas tarefas em ambientes envoltos pela elevada tensão emocional devido à imprevisibilidade do comportamento dos pacientes assistidos.(2)

A Política Nacional de Saúde do Trabalhador reconhece na promoção da saúde a busca da equidade e busca estimular as ações intersetoriais; fortalecer a participação social; promover mudanças na cultura organizacional; incentivar a pesquisa e divulgar as iniciativas voltadas para a promoção da saúde para profissionais de saúde, gestores e usuários do Sistema Único de Saúde - SUS.

Considerando o problema do adoecimento de trabalhadores de saúde mental pelo trabalho devido a exposição a riscos ocupacionais e das diretrizes nacionais e internacionais de atenção a Saúde do Trabalhador, surgiu a motivação para a presente pesquisa com a finalidade de buscar resposta ao seguinte questionamento: - Os trabalhadores de saúde mental reconhecem os riscos ocupacionais a que estão expostos e a adoecem pelo trabalho? O objetivo do trabalho foi analisar a associação entre o adoecimento de trabalhadores em saúde mental e os riscos ocupacionais.

Métodos

Estudo epidemiológico, transversal, de caráter retrospectivo e abordagem quantitativa, realizado em um Hospital Psiquiátrico localizado na cidade de Teresina, Piauí, Brasil, tendo como população-alvo a equipe multidisciplinar de saúde composta por 185 trabalhadores de 12 categorias profissionais, sendo que 163(88,1%) trabalhadores participaram desse estudo e atendiam o critério de seleção de exercer atividades na instituição no triênio 2010-2012. Foram excluídos os trabalhadores em férias ou afastados do trabalho no período da coleta de dados efetuada de outubro de 2012 a março de 2013.

Os dados foram coletados por meio da aplicação um questionário contendo perguntas fechadas relacionadas a dados sócio demográficos, ocupacionais e de saúde dos trabalhadores (esse instrumento foi avaliado e aprovado por cinco pesquisadoras quanto a objetividade e adequação ao estudo) e de consulta ao formulário de registro de licenças de saúde do hospital estudado. Ressalta-se que o diagnóstico médico das licenças codificado segundo a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde - CID10.

Para verificar a associação entre os problemas de saúde dos trabalhadores e os riscos ocupacionais referidos. Os sujeitos foram alocados em dois grupos, o primeiro composto pelos trabalhadores que tiveram licença-saúde (GA) e o segundo, por aqueles que não tiveram licença-saúde (GB). Na sequência, foram analisados os riscos ocupacionais identificados pelos sujeitos e depois comparados os dois grupos.

A partir dos dados do GA foram analisados se os diagnósticos médicos das licenças de saúde integravam, ou não, a Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho do Ministério da Saúde.(3) Finalizando essa etapa, foi analisada a possível relação existente entre os problemas de saúde apresentados pelos trabalhadores com os riscos ocupacionais referidos.

Os dados foram armazenados em planilhas do aplicativo Microsoft Excel e transportados para análise estatística descritiva no programa computacional Statistical Package for the Social Science (SPSS), versão 19.0. O teste de Fischer foi utilizado para analisar se os problemas de saúde apresentados pelos trabalhadores tinham relação com os riscos ocupacionais.

O desenvolvimento do estudo atendeu as normas nacionais e internacionais de ética em pesquisa envolvendo seres humanos.

Resultados

O maior número dos sujeitos é do sexo feminino, com idades entre 40 a 59 anos (77,92%), casados 82 (50,31%),cor (auto referida) parda 103(63,19%), escolaridade correspondente ao nível médio 67(41,10%), residentes com companheiro ou cônjuge (89 - 54,60 %) e com um filho 125(76,69 %), regime de trabalho de 30 horas semanais (80 -49,08%) e de 40 horas semanais (43 - 26,38%). A maioria não possui o hábito de fumar (153-93,87%) e não usar álcool (130-79,75%). Quanto ao lazer muitos revelaram praticá-lo (65-39,88%) com frequência, no entanto, 42(25,77%) sujeitos não realizam nenhuma atividade de lazer.

A tabela 1 apresenta os resultados em relação aos riscos ocupacionais referido pelos trabalhadores de saúde mental segundo o setor de trabalho.

Tabela 1 Distribuição dos riscos ocupacionais a que estão expostos os trabalhadores de saúde mental atuantes no Hospital Psiquiátrico, segundo o setor de trabalho (n= 163) 

Riscos Setor de trabalho
Internação integral Urgência e emergência Hospital Dia Ambulatório Nutrição e dietética Laboratório
n(%) n(%) n(%) n(%) n(%) n(%)
Físicos            
 Ruído 57(61,96) 12(60) 9(90) 15(83,33) 3(75) 3(100)
 Temperatura 29(31,52) 4(20) 4(40) 1(5,56) 4(100) -
 Umidade 13(14,13) - - 2(11,11) - -
 Vibrações 10(10,87) - 2(20) 5(27,78) - -
 Pressões anormais 6(6,52) 1(5) - - - -
 Radiações - - - 1(5,56) - -
Biológicos            
 Bactéria 86(87,76) 14(70) 8(80) 20(95,24) 2(100) 4(100)
 Vírus 69(70,41) 10(50) 6(60) 21(100) 1(50) 4(100)
 Bacilos 67(68,37) 11(55) 6(60) 10(47,62) 1(50) 3(75)
 Parasitas 61(62,24) 9(45) 5(50 ) 9(42,86) 2(100) 4(100)
 Protozoários 43(43,88) 7(35) 2(20 ) 11(52,38) 1(50) 4(100)
 Animais 8(8,16) - 2(20) 1(4,76) 2(100) -
 Plantas 3(3,06) - 1(10) - - -
 Outros 2(2,04) 1(5 ) - - - -
Químicos            
 Fumo 87(92,55) 18(85,71) 9(81,82) 9(52,94) 1(33,33) 1(33,33)
 Poeira 32(34,04) 5(23,81) 5(45,45) 6(35,29) 1(33,33) 2(66,67)
 Produtos químicos 25(26,6) 4(19,05) 2(18,18) 3(17,65) 2(66,67) 1(33,33)
 Vapores 8(8,51) 1(4,76) 1(9,09) 3(17,65) 3(100) -
 Gases 5(5,32) - 2(18,18) 2(11,76) 2(66,67) 1(33,33)
 Outros 4(4,26) - - 2(11,76) - 2(66,67)
 Neblinas - - - - - -
 Névoas - - - 1(5,88) - -
Ergonômicos            
 Postura inadequada 52(62,65) 9(50) 7(77,78) 11(68,75) 1(100) 3(75 )
 Monotonia e repetitividade 33(39,76) 6(33,33) 3(33,33) 6(37,5) - 2(50)
 Esforço físico 30(36,14) 3(16,67) 2(22,22) 4(25) - 1(25)
 Levantamento de peso 20(24,1) 1(5,56) 1(11,11) - - 1(25)
 Controle rígido de produtividade 5(6,02) 1(5,56) - - - -
 Outros 1(1,2) 1(5,56) - 1(6,25) - -
Psicossociais            
 Situação de estresse 64(78,05) 14(70) 6(66,67) 11 (84,62) 3(100) 2(66,67)
 Agressão física 40(43,48) 11(55) 5(50) 3(16,67) 1(25) 1(33,33)
 Trabalho em período noturno 24(29,27) 8(40) - 1(7,69) - -
 Relacionamento com chefias, colegas e pacientes 24(29,27) 9(45) 2(22,22) 1(7,69) - -
 Elevação tensão ambiental 23(28,05) 4(20) 3(33,33) 3(23,08) - -
 Jornada de trabalho prolongada 12(14,63) 1(5 ) 1(11,11) - - 1(33,33)
 Imposição de rotina intensa 1(1,22) 2(10 ) - 1(7,69) - 2(66,67)
 Outros 1(1,22) - - 1(7,69) - 1(33,33)

Dentre os riscos físicos na Unidade de Internação Integral os mais frequentes foram: risco físico (ruído 57-61,96%); risco biológico (bactérias 86-87,76% - e vírus 69-70,41%); risco químico (Tabaco 87-92, 55%); risco ergonômico (postura inadequada 52-62,65%) e risco psicossocial (estresse 64-78,05% - e agressão física 40 - 43,48% trabalhadores).

No Setor de Urgência e Emergência os riscos mais assinalados foram: risco físico (ruído 12-60,0%); risco biológico (bactérias 14-70,0% - e vírus 10-50,0%); risco químico (fumo 18-85,71%); risco ergonômico (postura inadequada 9-50,0% - e monotonia e repetitividade 6-33,33%); risco psicossocial (estresse 14-70,0%, agressão física 11-55,0 %).

No Hospital Dia os riscos mais identificados foram: risco físico (ruído 9 - 90,0%); risco biológico (bactérias 8-80,0%, e vírus 6-60,0 %); risco químico (fumo 9 - 81,82%); risco ergonômico (postura inadequada 7-77,78%) e risco psicossocial (estresse 6 - 66,67% - e agressão física 5 - 50,0 %).

No Ambulatório os principais riscos identificados foram: risco físico (ruído 15-83,33%); risco biológico (vírus 21-100 % - e bactérias 20-95,24 %); risco químico (fumo 9-52,94%); risco ergonômico (postura inadequada 11- 68,75 %) e risco psicossocial (estresse 11 - 84,62%).

Buscando resposta à indagação do que adoecem os trabalhadores do hospital psiquiátrico foram analisadas as licenças-saúde, dos 163 sujeitos, 105 (64,42%) trabalhadores tiveram, no período estudado, 297 licenças-saúde, e 58(35,58%) trabalhadores não registraram licença-saúde no período.

A maior frequência de registro de licenças-saúde ocorreu em 2012 (105 - 35,35 %) seguida pelos anos de 2011 (98 - 33,00%) e 2010 (94 - 31,65%).

No ano de 2010, 48 trabalhadores se afastaram por licenças-saúde, dos quais 14(29,17%) tiveram diagnósticos nas licenças que integram Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho e 34(70,83%) trabalhadores tiveram licenças devido a problemas de saúde com diagnósticos não constante na referida lista. Em 2011, 48 trabalhadores se afastaram por licenças-saúde, dos quais 12(25,0%) por diagnósticos que integram a Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho e 36(75,0%) trabalhadores por problemas de saúde cujos diagnósticos não integram a referida lista. No ano de 2012, 54 trabalhadores tiveram licenças saúde, sendo 17(31,48%) diagnosticados com doenças que integram a Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho e 37 (68,52%) com diagnósticos não listados.

Os resultados obtidos no levantamento documental mostram que 297 licenças-saúde foram registradas no triênio 2010-2012, envolvendo 64,41% trabalhadores, acarretando 4671 dias de afastamento.

A figura 1 mostra a distribuição dos diagnósticos médicos registrados nas 297 licenças-saúde, os quais estão agrupados com base na CID-10.

Figura 1 Distribuição dos diagnósticos das doenças ou problemas de saúde, agrupados com base na CID 10, registrados nas licenças-saúde dos trabalhadores de saúde do Hospital Psiquiátrico (n= 297) 

Os fatores que influenciam o estado de saúde foi o grupo que apresentou maior frequência de registros nas licenças-saúde (60,58 - 20,40%), seguido pelos grupos doenças do sistema circulatório (29,40 - 9,90%); doenças do sistema osteomuscular e tecidos (27,91 - 9,40%); lesões, envenenamentos e causas externas (27,90 - 9,40%); doenças infecciosas e parasitárias (20,79 - 7,00%).

Constatou-se que dos 270 diagnósticos médicos registrados nas licenças-saúde 62(23,33%) integra Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho e 208(77,03%) não a integram. Na sequência são apresentados na tabela 2 os resultados relativos ao adoecimento dos trabalhadores e sua relação com os riscos ocupacionais referidos pelos trabalhadores do hospital psiquiátrico.

Tabela 2 Distribuição das licenças saúde dos trabalhadores de saúde mental durante os anos de 2010 a 2012, segundo a inserção ou não do diagnóstico médico na Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho, riscos ocupacionais e ano de ocorrência(n2010=61; n2011=56; n2012=65) 

Riscos Ano da licença saúde
2010 2011 2012
Integra a lista Não integra a lista Total Integra a lista Não integra a lista Total Integra a lista Não integra a lista Total
n(%) n(%) n(%) n(%) n(%) n(%) n(%) n(%) n(%)
Ocupacionais                  
 Sim 14(23,0) 33(54,1) 47(77,0) 12(21,4) 35(62,5) 47(83,9) 17(26,2) 34(52,3) 51(78,5)
 Não - 1(1,6) 1(1,6) - 1(1,8) 1(1,8) - 3(4,6) 3(4,6)
Físicos                  
 Sim 13(21,3) 30(49,2) 43(70,5) 11(19,6) 28(50,0) 39(69,6) 14(21,5) 30(46,2) 44(67,7)
 Não 1(1,6) 4(6,6) 5(8,2) 1(1,8) 8(14,3) 9(16,1) 3(4,6) 7(10,8) 10(15,4)
Biológicos                  
 Sim 13(21,3) 30(49,2) 43(70,5) 11(19,6) 33(58,9) 44(78,6) 15(23,1) 31(47,7) 46(70,8)
 Não 1(1,6) 4(6,6) 5(8,2) 1(1,8) 3(5,4) 4(7,1) 2(3,1) 6(9,2) 8(12,3)
Químicos                  
 Sim 14(23,0) 25(41,0) 39(63,9) 8(14,3) 32(57,1) 40(71,4) 14(21,5) 28(43,1) 42(64,6)
 Não - 9(14,7) 9(14,7) 4(7,1) 4(7,1) 8(14,3) 3(4,6) 9(13,8) 12(18,5)
Ergonômicos                  
 Sim 10(16,4) 29(47,5) 39(63,9) 9(16,1) 27(48,2) 36(64,3) 15(23,1) 28(43,1) 43(66,2)
 Não 4(6,6) 5(8,2) 9(14,7) 3(5,4) 9(16,1) 12(21,4) 2(3,1) 9(13,8) 11(16,9)
Psicossocial                  
 Sim 9(14,8) 28(45,9) 37(60,7) 8(14,3) 29(51,8) 37(66,1) 13(20,0) 27(41,5) 40(61,5)
 Não 5(8,2) 6(9,8) 11(18,0) 4(7,1) 7(12,5) 11(19,6) 4(6,2) 10(15,4) 14(21,5)

O teste de Fischer mostrou associação estatisticamente significativa entre as variáveis licenças-saúde e o risco químico nos anos de 2010 e 2011, respectivamente p=0,03352 e p=0,008281. No ano de 2010, a associação estatisticamente significativa foi identificada entre as variáveis licenças-saúde e risco psicossocial, p=0,03161. Nos registros de 2012 não houve associação entre as variáveis analisadas.

Discussão

Os limites dos resultados deste estudo estão relacionados com o delineamento retrospectivo do estudo que não permite o estabelecimento de relações de causa e efeito.

Os resultados, no entanto, agregam novos conhecimentos científicos que subsidiam o planejamento de ações de promoção da saúde, prevenção de agravos à saúde no ambiente de trabalho, especialmente em instituições hospitalares da região nordeste do país onde esse tema ainda foi pouco explorado.

Os dados sócio-demográficos mostram as características da população estudada, das quais merece destaque que 77,92% dos sujeitos apresentaram idades entre 40 anos e 59 anos, dado que diverge de outros estudos a exemplo da pesquisa realizada em 22 serviços de saúde mental do Estado de Goiás onde i66,4% dos profissionais de saúde tinham idades até 39 anos.(4)

Quanto às características ocupacionais, um aspecto positivo identificado na situação de trabalho foi que 49,08% dos profissionais de saúde do Hospital Psiquiátrico perfazem 30 horas semanais na jornada de trabalho, visto que a redução da jornada de trabalho é uma reivindicação dos profissionais da saúde brasileiros. Na abrangência nacional os trabalhadores de enfermagem aguardam a votação do Projeto de Lei do Senado 2.295/2000, mais conhecido como PL 30 Horas, que estabelece a jornada máxima de 30 horas semanais para os enfermeiros/as, técnicos/as e auxiliares de enfermagem.(5)

Quanto às variáveis interferentes na condição de saúde, foi constatado que 39,88% dos trabalhadores realizam atividades de lazer rotineiramente e 25,77% não realizam. Dado preocupante, pois o lazer é considerado como uma necessidade psicossocial, amortecedor do estresse, forma de diminuir os efeitos deletérios de eventos desagradáveis, especialmente por sua característica socializante, um dos fatores fundamentais para o bem-estar e colaborador para a saúde, sobretudo, para a saúde mental.(6)

E embora, a maioria dos trabalhadores de saúde do Hospital Psiquiátrico tenha referido não usar bebidas alcoólicas de forma abusiva, destaca-se que o uso abusivo dessa droga é comum no discurso de trabalhadores que usam a bebida como um recurso para relaxar e amenizar a tensão vivenciada no trabalho, marcada pelas pressões de chefias, riscos, alto nível de atenção e/ou responsabilidade.(7)

Quando analisamos a identificação de riscos ocupacionais segundo o local de trabalho, os resultados revelaram que os sujeitos dos diversos locais de trabalho referiram estar expostos, de forma semelhante, aos mesmos agentes de risco, sendo que o ruído foi o risco físico mais frequente em todas as unidades analisadas; as bactérias dentre os riscos biológicos; o fumo dentre os químicos; adoção de postura corporal inadequada dentre os ergonômicos; e o estresse e as agressões físicas (violência) dentre os riscos psicossociais.

Em estudo realizado com técnicos e auxiliares de enfermagem de um hospital psiquiátrico constatou que durante a jornada de trabalho esses profissionais encontram-se expostos a objetos como facas e pedaços de madeira que podem ser usados pelos pacientes nos casos de agressões físicas.(8) No entanto, em geral, as agressões físicas são manifestadas com chutes, socos, tentativas de estrangulamento e tapas.

Em algumas unidades psiquiátricas, o índice de violência contra trabalhadores ultrapassa o número de 100 casos por 100 trabalhadores por ano.(9) Estudo realizado com enfermeiras psiquiátricas forenses da Inglaterra e País de Gales analisou o impacto da violência no trabalho sobre a saúde mental do trabalhador e identificou que os indivíduos ao vivenciarem altos níveis de estresse adotam comportamentos paliativos, tais como, o uso de álcool.(10)

O risco biológico, no caso do trabalhador hospitalar, é representado principalmente pelas infecções causadas por bactérias, vírus, clamídias, fungos e parasitoses produzidas por protozoários, helmintos e artrópodes.(11) Nas instituições hospitalares psiquiátricas mereceram destaque além do frequente risco de exposição na administração de medicamentos injetáveis e da manipulação de instrumentos perfuro cortantes, o risco de infestação por parasitas e ao contato com secreções corporais humanas, visto que os trabalhadores de saúde, ao cuidarem de pacientes portadores de transtorno mental com pediculose e/ou escabiose, expõem-se à possibilidade de infestação.(12)

Os parasitas e protozoários foram agentes biológicos também identificados por trabalhadores das 12 categorias de trabalhadores de saúde atuantes no Hospital Psiquiátrico, sendo ainda identificada a presença de felinos, roedores e de plantas como potenciais agentes de risco à saúde dos trabalhadores e pacientes.

Com relação aos riscos químicos identificados pelos trabalhadores do Hospital Psiquiátrico, além da manipulação de substâncias químicas (medicamentos, soluções de limpeza e esterilização), houve destaque para o uso de tabaco pelos pacientes.

Dentre os riscos físicos o agente mais identificado pelos trabalhadores foi o ruído 67,67% devido aos sons emitidos pelos portadores de transtornos mentais, visto que as alterações de linguagem são comuns na maioria das psicopatologias, especialmente a logorreia, a ecolalia, o fluxo aumentado, a coprolalia e a taquilalia.

Quanto aos riscos ergonômicos a adoção de postura corporal inadequada, a monotonia/repetitividade do trabalho e o esforço físico dispendido na execução das atividades rotineiras foram os fatores identificados pela maioria dos trabalhadores. As atividades laborais executadas foram consideradas simultaneamente repetitivas e imprevisíveis, sendo repetitivas porque são rotineiras e imprevisíveis devido a alterações comportamentais inesperadas de alguns pacientes psiquiátricos.

A situação de estresse foi o único fator de risco psicossocial identificado por trabalhadores de todas as categorias profissionais. Neste sentido, dentre as características atuais, torna-se preocupante o estresse relacionado com o trabalho e as consequências para a saúde dos trabalhadores. Os casos de assédio psicológico, intimidação, assédio moral, assédio sexual e outras formas de violência estão cada vez mais presentes no ambiente de trabalho e, na tentativa de lidar com o estresse, os profissionais podem recorrer a comportamentos pouco saudáveis, tais como o abuso de álcool e drogas. Foram identificadas relações entre o estresse e doenças musculoesqueléticas, cardíacas e do sistema digestivo. A crise econômica e a recessão levaram a um aumento do estresse relacionado com o trabalho, da ansiedade, da depressão e de outros distúrbios mentais, tendo mesmo conduzido algumas pessoas ao extremo do suicídio.(1)

Há estudo que afirma que as instituições de saúde apresentam um contexto complexo, visto que o ambiente laboral é permeado por uma diversidade de inter-relações tensas, das quais participam diferentes sujeitos, entre eles os gestores, trabalhadores e usuários, com interesses e necessidades diferenciados, heterogêneos e conflitantes. Tal situação acaba gerando satisfações e/ou insatisfações, em virtude dos conflitos de interesses que nem sempre estão em consonância os das instituição com os da classe trabalhadora.(13)

A insatisfação e o desânimo pelo trabalho realizado geram desconforto, e este, somado ao estado de cansaço ou fadiga, torna-se um importante fator de desgaste mental no trabalho dos profissionais e enfermagem de instituições psiquiátricas. A satisfação pelo trabalho é um fator protetor importante com relação ao adoecimento de ordem mental relacionado ao trabalho. Assim, quando a situação é desfavorável, ocorrem os transtornos mentais.(8)

Um estudo realizado com trabalhadores de saúde mental de um centro de atenção psicossocial de Fortaleza identificou o contato direto com os usuários como motivo de satisfação no trabalho e como razões de insatisfação as condições de trabalho e a baixa remuneração. A insatisfação no âmbito laboral resultou em diversas consequências na vida dos trabalhadores, organizacional e especialmente na saúde física e mental.(14)

Com relação aos problemas de saúde obtidos no levantamento documental realizado mostram que 297 licenças-saúde foram registradas no triênio 2010-2012 e envolveram 64,41% dos profissionais de saúde do Hospital Psiquiátrico e acarretaram 4.671 dias de afastamento (dias de trabalho perdidos). Esses resultados são preocupantes, uma vez que mais da metade dos trabalhadores adoeceu no triênio analisado, resultando em prejuízos aos trabalhadores, à instituição e aos pacientes.

No Brasil, o número de benefícios previdenciários por incapacidade para o trabalho, superior a quinze dias, devido a transtornos mentais e comportamentais relacionados ao trabalho, superou doze mil casos em 2008.(15)

Constatou-se que dos 270 diagnósticos médicos registrados nas licenças saúde, no triênio analisado, 62 (23,33%) diagnósticos integram a Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho do Ministério da Saúde e que 208 (77,03%) diagnósticos não a integram.

Muito embora, tenha sido verificada associação estatisticamente significativa entre os problemas de saúde dos trabalhadores do Hospital Psiquiátrico e os riscos químico e psicossocial é importante ressaltar que o estabelecimento de nexo causal da doença com o trabalho é complexo, especialmente quando o adoecimento é de ordem psicoemocional, a exemplo da depressão.

Conclusão

Os trabalhadores de saúde de todas as categorias profissionais, atuantes no hospital psiquiátrico, reconheceram e identificaram os riscos ocupacionais a que estão expostos na situação de trabalho, bem como a possibilidade de adoecer. Mais da metade dos trabalhadores de saúde mental apresentam problemas de saúde, no entanto, pequena parte dos diagnósticos integra a lista de doença ocupacional. Houve associação estatisticamente significativa entre o variável adoecimento e risco químico e adoecimento e risco psicossocial.

Agradecimentos

Este estudo foi financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES junto ao Projeto de Doutorado Interinstitucional entre o Programa de Pós-Graduação em Enfermagem Fundamental da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo – EERP/USP com a Universidade Federal da Paraíba-UFPB e a Universidade Federal do Piauí-UFPI.

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Recebido: 18 de Agosto de 2014; Aceito: 26 de Agosto de 2014

Autor correspondente: Márcia Astrês Fernandes. Campus Universitário Ministro Petrônio Portel, Teresina, PI, Brasil. CEP: 64049-550. m.astres@ufpi.edu.br

Conflitos de interesse: não há conflitos de interesse a declarar.

Colaborações: Fernandes MA e Marziale MHP declaram que contribuíram com a concepção do projeto, análise e interpretação dos dados, redação do artigo, revisão crítica relevante do conteúdo intelectual e aprovação final da versão a ser publicada.

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