SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.29 issue1Adaptation and validation into Portuguese language of the HIV Antibody Testing Attitude ScaleTranscultural adaptation of the Infiltration Scale into the Portuguese culture author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Acta Paulista de Enfermagem

Print version ISSN 0103-2100On-line version ISSN 1982-0194

Acta paul. enferm. vol.29 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1982-0194201600012 

Artigos Originais

Complicações relacionadas ao uso do cateter venoso periférico: ensaio clínico randomizado

Mitzy Tannia Reichembach Danski1 

Derdried Athanasio Johann2 

Stela Adami Vayego1 

Gabriella Rodrigues Lemes de Oliveira1 

Jolline Lind1 

1Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, Brasil.

2Instituto Federal do Paraná, Curitiba, PR, Brasil.

Resumo

Objetivo

Analisar as complicações decorrentes do uso e tipo de cateter venoso periférico em adultos.

Métodos

Ensaio clínico randomizado; realizado em um hospital de ensino, no período de 2012 a 2015; incluiu-se 169 adultos internados em unidades clínicas e cirúrgicas que necessitaram de punção venosa periférica e com permanência prevista de mais de 96 horas. A randomização aleatória sistematizada alocou 90 participantes no Grupo Experimental (cateter de segurança completo) e 79 no Grupo Controle (cateter curto flexível).

Resultados

A taxa geral de complicações foi 55,62%, houve 18,34% de flebite, infiltração 11,83%, obstrução 11,24% e tração 9,47%. Não houve diferença significativa entre os grupos para a ocorrência de complicações, flebite, obstrução e tração.

Conclusão

A taxa de complicações no cateterismo venoso periférico foi alta, mas quando comparados, sem diferença estatística significativa, o cateter de segurança completo teve taxas menores de complicações após o quarto dia de sobrevida.

Palavras-Chave: Cateterismo periférico/efeitos adversos; Cateterismo/efeitos adversos; Procedimentos endovasculares/efeitos adversos; Adulto

Introdução

A terapia intravenosa é amplamente utilizada em ambientes hospitalares, principalmente por meio da inserção de cateteres venosos periféricos. A maioria dos cateteres são removidos devido a ocorrência de complicações, fim do tratamento ou ausência de uso.1Destaca-se como complicações locais associadas ao uso de cateter intravenoso periférico: hematoma, trombose, flebite, tromboflebite, infiltração, extravasamento, infecção local e espasmo venoso.2 Valores superiores a 70% dos pacientes internados em instituições hospitalares necessitam de cateter venoso periférico. Nos Estados Unidos da América (EUA) cerca de 200 milhões de cateteres são usados anualmente.3 Na Espanha, aproximadamente 50% dos pacientes internados recebem um cateter intravenoso, sendo 95% periféricos.4 Outros estudos apontam taxas de uso de cateter venoso periférico em 86,4%5 e 80,6%6 dos pacientes.

Destarte, o conhecimento técnico-científico dos enfermeiros e equipe de enfermagem sobre a terapia intravenosa garantem a eficácia no tratamento e a qualidade do cuidado prestado, tornando-se imprescindível o conhecimento da melhor tecnologia e das práticas de cuidado cientificamente comprovadas. Justifica-se, portanto, a importância desta pesquisa para a prática de cuidados diários da equipe de enfermagem, por produzir conhecimento e evidências científicas a fim de subsidiar a tomada de decisão do profissional enfermeiro quanto ao cateter venoso periférico mais adequado aos pacientes submetidos à terapia intravenosa. Assim, o objetivo dessa pesquisa foi analisar as complicações decorrentes do uso de cateter venoso periférico em adultos.

Métodos

Trata-se de um ensaio clínico randomizado controlado realizado em unidades clinicas e cirúrgicas de um hospital universitário de grande porte. A randomização deu-se por amostragem aleatória sistemática, na qual foram compostos dois grupos: cateter de segurança completo (Grupo Experimental) e cateter curto flexível (Grupo Controle). O cateter de segurança completo é constituído por agulha siliconizada com bisel biangulado e trifacetado conectada ao mandril por meio de guia metálico e puxador; confeccionado de biomaterial poliuretano; possui dispositivo de proteção total da agulha, ativado no momento posterior à punção; asas com ranhuras; tubo extensor vinílico transparente; tampa filtro da câmara de refluxo do tipo biosseletivo; clamp de corte rápido; duas vias de acesso composta por conector fêmea em “Y”, sendo uma conexão Luer-Lok® e outra com dispositivo plugue macho removível. O cateter curto flexível é do tipo sobre agulha, com dispositivo de segurança interno (acionado passivamente) e aleta, de uso único e descartável, necessita de um extensor acoplado a ele, para que a infusão ocorra; os extensores utilizados na instituição de pesquisa contemplavam as dânulas, os equipos simples e extensores intermediários de duas ou quatro vias de acesso. A variável complicação local do cateterismo venoso periférico foi o desfecho primário e abrangeu a ocorrência de flebite, tromboflebite, extravasamento, infiltração, obstrução, tração acidental do cateter e infecção local, avaliadas conforme guidelines internacionais.2

Os participantes foram pacientes adultos, maiores de dezoito anos de idade, internados nas unidades que necessitavam de terapia intravenosa periférica. O objeto de estudo foram os cateteres venosos periféricos inseridos. Foram critérios para a inclusão dos participantes: pacientes com necessidade de obtenção de acesso venoso periférico para terapia intravenosa; previsão de permanência de internação superior a 96 horas para tratamento clínico e/ou cirúrgico; não inclusão anterior na pesquisa e utilização do cateter já randomizado. Os critérios de exclusão foram: impossibilidade de punção venosa periférica pela presença de fragilidade capilar, condições clínicas que contraindicassem a punção periférica, especificadas pelo médico responsável, bem como alterações locais que impossibilitassem a punção venosa.

O período de coleta de dados foi de agosto a novembro de 2014, no qual atingiu-se o número de participantes proposto pelo cálculo amostral (nível de significância de 5% e poder de teste 0,80). Previamente à coleta, houve a capacitação dos pesquisadores por meio de reuniões para padronização da coleta e dos conceitos abordados (durabilidade aproximada de 30 horas) e durante a execução do teste piloto realizada em pares. A coleta foi diária, em duplas, na qual ocorria a reposição de materiais, atualização da lista de pacientes internados e solicitação de autorização (TCLE), análise das inclusões e randomização, leitura dos registros, busca ativa de participantes, observação direta do cateter puncionado no paciente e controle das complicações.

As equipes de enfermagem das unidades pesquisadas também participaram de capacitação. Foram 34 reuniões, de durabilidade de 40 a 60 minutos, presença de 109 colaboradores, e ocorreu mediante aula expositiva dialogada (conceitos padronizados conforme guideline internacional),2 visualização de vídeo ilustrativo e oficina de punção.

Os dados foram coletados em instrumento próprio, estruturado, que continha variáveis sóciodemográficas; clínicas; relacionadas ao cateter e de desfecho. O paciente foi acompanhado diariamente desde a inclusão na pesquisa até a retirada do cateter.

Na análise dos dados descritiva, determinou-se frequências absolutas e percentuais e medidas de tendência central e dispersão (média e desvio padrão). Em análise univariada, as características dos grupos de cateter foram comparadas, mediante os testes do Qui-quadrado, Fisher, G de Willians, U de Mann-Whitney e o teste binomial de proporções. Em todos os testes considerou-se nível de significância de 5%. Confeccionou-se uma curva de sobrevida, da data da punção até o surgimento de complicações, para cada grupo, usando o estimador produto limite de Kaplan-Meier. Para comparar as curvas obtidas, o teste de Mantel-Haenzel (log-rank) foi utilizado a um nível de 5% de significância.

O estudo foi registrado na Plataforma Brasil sob o número do Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAEE) 30398914.9.0000.0102.

Resultados

Foram elegíveis para inserção na pesquisa 193 participantes, destes 23 foram excluídos da análise dos dados, um desistiu da participação, e 169 pacientes foram incluídos (90 do grupo experimental e 79 do controle); avaliou-se somente um cateter por paciente; todos os registros não informados foram suprimidos das análises estatísticas.

A amostra foi homogênea e caracterizou-se em sua maioria de etnia caucasóide, faixa etária aproximada de 50 anos de idade, escolaridade ensino fundamental incompleto, ocupação aposentado, não tabagista e não etilista, com histórico familiar de hipertensão arterial sistêmica. Houve maioria do sexo masculino no grupo controle e sexo feminino no experimental. Predominou o setor de internamento em clínica médica masculina, diagnóstico clínico de doenças do aparelho digestivo, nenhuma comorbidade associada, não realização de procedimentos cirúrgicos durante o internamento, ausência de processo infeccioso e desfecho do internamento a alta hospitalar. Quanto ao tempo de internação, houve maior durabilidade (em dias) no grupo controle (Tabela 1).

Tabela 1 Características sóciodemográficas, clínicas e relacionadas aos grupos de cateteres 

Variável/Cateter Grupo Experimental Grupo Controle p-value
n=90 n(%) n=79 n(%)
Dados sóciodemográficos
Sexo
Feminino 48(53,33) 34(43,04) 0,2372**
Masculino 42(46,67) 45(56,96)
Idade 90(54,5±18,05) 79(54,53±16,55) 0,9159
Etnia caucasóide 79(87,78) 61(77,22) 0,2138*
Ensino fundamental incompleto 43(47,78) 29(36,71) 0,0681*
Ocupação aposentado 29(32,22) 32(40,51) 0,9375*
Dados Clínicos
Histórico familiar de hipertensão arterial sistêmica 47(52,22) 47(59,49) 0,4271**
Tabagismo não referido 68(75,56) 49(62,03) 0,0732**
Etilismo não referido 78(86,67) 64(81,01) 0,3656*
Clínica Médica Masculina 24(26,67) 25(31,65) 0,5221*
Tempo de Internação 86(11,53±8,40) 76(13,14±8,82) 0,1861†
Diagnóstico de doenças do aparelho digestivo 29(32,22) 24(30,38) 0,6538*
Nenhuma comorbidade associada 62(68,89) 54(68,35) 0,8618*
Procedimento cirúrgico não realizado 73(81,11) 55(69,62) 0,1163**
Ausência de infecção pré-existente 65(72,22) 48(60,76) 0,2320**
Alta / Transferência de Unidade 85(94,44) 74(93,67) 0,7899*
Dados do cateter
Calibre 20 Gauge 66(73,33) 47(59,49) 0,2397**
Local membro superior esquerdo 62(68,89) 40(50,63) 0,0236**
Região de antebraço 59(65,56) 48(60,76) 0,7233*
Sucesso de punção na 1ª tentativa 76(84,44) 51(64,56) 0,0427*
Soluções e planos de soro 51(56,67) 42(53,16) 0,7629**
Sedativos e analgésicos 60(66,67) 51(64,56) 0,8998**
Outros medicamentos 75(83,33) 65(82,28) 0,9817**
Permanência ≥ 72 horas 54(60,00) 47(59,49) 0,9281**

*Teste G de Williams; **Teste Qui-Quadrado; Teste U de Mann-Whitney

A predominância nos dois grupos de cateteres ocorreu no calibre de número 20; localização em MSE, região de antebraço e sucesso de punção na primeira tentativa. Com relação à utilização dos dispositivos, nos dois grupos houve uso prevalente de soluções e planos de soro, sedativos e analgésicos e outros medicamentos (os quais não faziam parte das classificações contempladas) (Tabela 1), mas minoritariamente na utilização de antimicrobianos, eletrólitos, anticoagulantes, drogas vesicantes e corticosteróides.

A maioria dos cateteres ficou inserido por dois dias. Ao citar o tempo de permanência em horas, a maioria dos cateteres permaneceu inserido por tempo igual ou superior a 72 horas (Tabela 1). O cateter do grupo experimental permaneceu inserido sem complicações em média 3,73 (±2,25) dias e máximo de dez dias, enquanto que o cateter do grupo controle conservou-se por 3,28 (±1,66) e máximo de sete dias. Dentre os motivos de retirada predominou a alta hospitalar, seguido de flebite. Houve diferença significativa entre os grupos nas variáveis: localização de punção (p=0,0236) e número de tentativas de punção (p=0,0047), ou seja, a proporção de cateteres do grupo experimental puncionados em MSE foi significativamente superior aos do grupo controle, quando comparados ao MSD e a proporção de sucesso de punção na primeira tentativa foi superior nos dois grupos.

As taxas de complicações estão descritas na tabela 2, considerando os dois grupos de cateter, o experimental e controle. Não houve diferença estatística significativa entre os dois grupos quanto à ocorrência de complicações.

Tabela 2 Distribuição das complicações nos grupos 

Variável/Cateter Total Grupo Experimental Grupo Controle p-value
n=169 n(%) n=90 n(%) n=79 n(%)
Complicação 94(55,62) 50(55,56) 44(55,70) 0,4927*
Flebite 31(18,34) 19(21,11) 12(15,19) 0,6147**
Infiltração 20(11,83) 11(12,22) 9(11,39)
Obstrução 19(11,24) 8(8,89) 11(13,92)
Tração 16(9,47) 8(8,89) 8(10,13)

*Teste binomial entre duas proporções; **Teste G de Williams

Ao considerar somente os cateteres que desenvolveram complicações (n=94; n=50 Grupo Experimental; n=44 Grupo Controle), evidenciou-se o membro superior direito com maior propensão ao desenvolvimento de complicações no grupo experimental e o membro superior esquerdo no grupo controle (p=0,0234). O sucesso na primeira tentativa de punção foi estatisticamente significativo (p=0,0289) nos dois grupos.

Referente aos cateteres que desenvolveram flebite predominou o calibre 20G, punção em membro superior esquerdo, na região do antebraço, uso de outras drogas e permanência igual ou superior a 72 horas, bem como a não infusão de eletrólitos, anticoagulantes, drogas vesicantes e corticosteróides. No grupo experimental destacou-se o uso de analgésicos e sedativos, soluções e planos de soro e a não administração de antimicrobianos. No Grupo Controle prevaleceu a infusão de soluções e planos de soro e não administração de analgésicos e sedativos. Não houve diferenças significativas entre as variáveis analisadas e a ocorrência de flebite.

A flebite apresentou-se nos diferentes graus, sendo predominante o grau I, seguida de grau II. Somente o Grupo Experimental apresentou o grau III. Não houve desenvolvimento de flebite grau IV em ambos grupos analisados.

Na comparação entre os grupos de cateter que desenvolveram infiltração, nos dois grupos de cateteres, o calibre mais usado foi o 22 gauge, puncionados na região do antebraço, infusão minoritária de eletrólitos, anticoagulantes e drogas vesicantes e administração de outras drogas. No grupo experimental o local mais puncionado foi o membro superior esquerdo, ausência do uso de antimicrobiano, infusão de analgésicos e sedativos e soluções e planos de soro, permanência igual ou superior a 72 horas foi predominante. A infiltração foi significante (p=0,0379) para punções em membro superior esquerdo no grupo experimental e membro superior direito no grupo controle.

Dentre os cateteres que desenvolveram obstrução, destacaram-se, nos dois grupos de cateteres, o calibre 22 gauge; inseridos na região do antebraço; ausência de infusão de: antimicrobianos, sedativos e analgésicos, eletrólitos, anticoagulantes, drogas vesicantes e corticosteróides; uso de soluções e planos de soro e outras drogas. No Grupo Experimental, predominou a punção em membro superior direito e permanência por tempo inferior a 72 horas, enquanto que no Grupo Controle, membro superior esquerdo e permanência igual ou superior a 72 horas. Não houve diferença significativa entre as variáveis analisadas para a obstrução.

A comparação entre as variáveis do cateter e a complicação tração, para os dois grupos, foi semelhante. Foram predominantes o calibre 20 gauge, inserção em membro superior esquerdo, na região do antebraço, utilização do cateter para infusão de sedativos e analgésicos, soluções e planos de soro e outros medicamentos, mínimo uso para infusão de eletrólitos, drogas vesicantes, anticoagulantes e corticosteróides, tempo de permanência inferior a 72 horas. Não ocorreram diferenças estatísticas significativas entre as variáveis.

Estimou-se a sobrevida para todas as complicações, bem como para as quatro mais frequentes nessa pesquisa: flebite, infiltração, obstrução e tração. Não houve diferença significativa entre as curvas. Entretanto, para o desenvolvimento de complicações (p=0,0650), após o quarto dia a sobrevida foi maior no grupo experimental. Ao comparar os grupos, quanto à ocorrência de flebite, a função de sobrevida do grupo experimental foi menor somente no terceiro dia de permanência do cateter (p=0,2900). A sobrevida foi semelhante para infiltração até o segundo dia, após o terceiro ela foi superior no experimental, quando comparado ao Grupo Controle (p=0,1650). Para a ocorrência de obstrução a sobrevida do Grupo Experimental foi menor do segundo dia de permanência do cateter até o quinto dia. (p=0,9510). A tração obteve sobrevida maior para o grupo experimental a partir do segundo dia (p=0,3950) (Figura 1).

Figura 1 Funções de sobrevida por grupo de cateter nas complicações 

Discussão

Quanto aos resultados, a população apresentou-se homogênea, predominantemente de etnia caucasiana, faixa etária 50 anos, similaridade entre os sexos, ausência de relatos de tabagismo e etilismo, histórico de hipertensão arterial sistêmica e ausência de comorbidades, corroborando com diversos estudos que avaliaram os cateteres venosos periféricos.4,7-13

Com relação às características dos cateteres, estudos apontam o calibre 20 como mais utilizado,10-14 localização em membro superior esquerdo3,10 e região de antebraço,1,8,9,13 sucesso de punção na primeira tentativa,1,4 e permanência do cateter acima de 72 horas8-10,13,15 assim como os achados dessa pesquisa. O uso de antimicrobianos, nessa pesquisa, foi divergente de estudos que apontam seu uso frequente.1,3,4,14,15

Taxas semelhantes de complicações no cateterismo venoso periférico são encontradas em 52%7 e em 51,1%4 dos cateteres. Dados apontam maior proporção de complicações no cateter venoso periférico no sexo feminino (p=0,0300), em pacientes com idade igual ou maior de 85 anos, quando comparado à participantes com idades inferiores a 65 anos (p=0,0500), punção na região do antebraço ao comparar com outras regiões de punção (p≤0,0001) e outras regiões puncionadas comparadas às mãos ou pulso (p=0,0300),9 mas nessa pesquisa não houve relações significativas para nenhuma das variáveis analisadas. Quanto ao tempo de permanência, a literatura não recomenda a troca do cateter programada, e sim quando clinicamente indicada, por ser segura, proporcionar conforto ao paciente e reduzir custos à instituição.16-18

Ao considerar a taxa de flebite, houve similitude quando comparado a outros estudos com 17,58%19 (n=148); 15,4%13 e 16,9%4 (n=101). Nessa pesquisa não foram encontradas associações significativas entre a flebite e as variáveis relacionadas aos cateteres. Análises independentes de estudos apontam relações significativas para o desenvolvimento de flebite, entre elas: punção de membros inferiores (p=0,015) e uso de antimicrobiano (p=0,009);12 local de punção em fossa cubital foi vulnerável a flebites de graus mais severos, quando comparada ao antebraço (p<0,05);20 zonas de flexão ou grande mobilidade contribuem para ocorrências de flebites traumáticas;12 sistema fechado de infusão reduz as taxas de flebite em 29% (p=0,004);4 idade (entre 60-100 anos), fumo, internação em enfermaria clínica, geriatria e cardiologia, admissão de urgência, uso de antimicrobiano endovenoso, cateter inserido no dorso da mão, calibres 22 e 24 gauge e outros materiais do cateter diferentes do poliuretano;13 fumo (p=0,030), diabetes (p=0,003), calibre 18 gauge (p=0,031), puncionados em região de fossa antecubital (p=0,001), tempo de permanência superior a 49 horas (p=0,0000), infusão contínua (p=0,039), uso de antimicrobianos (p=0,002);21 tempo de internação superior a 18 dias (p=0,002) e tempo permanência acima de 72 horas (p=<0,001).10 Estudo que relacionou o tempo de permanência do cateter e a flebite identificou seu desenvolvimento em 28% dos cateteres entre o quarto e quinto dias de permanência (p=0,03).22 Corroborando aos achados dessa pesquisa, estudo apontou o grau I como o mais incidente em 94,4% dos cateteres e o grau mais grave foi o III.13 Outros estudos apontam o grau I predominante em 77,66%,22 46,2%10 e 41,6%,8 seguido de 22% grau II,22 40%,10 e 37,5%.8 O grau III, encontrado apenas no grupo experimental, foi apontado com taxas de 12%,22 16,7%,819,3%,23 18,3%,10 9,9%15 e 7,2%.12 Contrapondo os dados apresentados nessa pesquisa, na qual não houve desenvolvimento de flebites de grau IV, ocorreram flebites nesse grau, em estudos com taxas de 4,2%,8 2,2%12 e 22,8%.23 Ao relacionar o tempo de permanência e os graus de flebite, os resultados apontam flebite grau I e II para cateteres que permanecem inseridos por até 72 horas e grau III e IV após 72 horas de inserção com diferença estatística significativa (p=0,006), bem como relação significativa (p= 0,0130) para o grau I em região de dorso de mãos e graus II, III e IV em região do antebraço.23

A ocorrência de infiltração teve taxas próximas às encontradas na literatura, as quais foram mensuradas em 12,5%24 e 13%.12 Nessa pesquisa não houve diferença significativa entre as variáveis analisadas para a obstrução, mas estudo realizado em pacientes cirúrgicos apontou que o calibre 22 gauge, utilizado em 8,1% dos participantes, apresentou mais casos de obstrução, com diferença estatística comprovada (p=0,0004).25 Taxas equivalentes foram resultantes em 10%9 (n=11 de 110 cateteres) e em 11,7%12 para obstrução ou perda de função. Para tração, semelhante ao encontrado nessa pesquisa, estudos mensuram taxas de 10,2%,4 7,8%,24e entre 6 e 9%.14

A ausência de registro de informações referentes às punções venosas nos prontuários dos pacientes foi fator limitante à essa pesquisa. Assim, ao término do teste piloto, além das leituras de anotações de enfermagem, realizou-se busca ativa sobre essas informações, mediante avaliação diária nas enfermarias das unidades pesquisadas, bem como questionamentos direcionados aos funcionários e colaboradores, a fim de sanar vieses de preenchimento do instrumento de coleta de dados, atingindo a precisão das informações necessárias para a condução da pesquisa. Estudo realizado na Austrália, com 327 pacientes, dos quais 190 (86,4%) receberam cateterização venosa periférica, identificou ausência nos registros de cuidados diários dos pacientes sobre as punções venosas e sua utilização e ressaltou a importância da capacitação dos profissionais, bem como a promoção de boas práticas clínicas.5

A aplicabilidade dos resultados dessa pesquisa se dá no sentido de auxiliar o profissional na escolha da melhor ou mais apropriada tecnologia de cateter venoso periférico adequada à terapêutica prescrita ao paciente no processo de cuidar. Os achados podem permear políticas públicas, diretrizes clínicas, protocolos e procedimentos padrões no cuidado ao paciente, com vistas à redução da ocorrência de complicações.

Conclusão

A taxa de complicações no cateterismo venoso periférico foi alta, mas quando comparados, o cateter de segurança completo obteve taxas menores de complicações, obstrução e tração, sem diferença estatística significativa, após o quarto dia de sobrevida.

Agradecimentos

Pesquisa realizada com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq, processo 482886/2013-7. À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pela bolsa de doutorado concedida para Derdried Athanasio Johann.

Referências

1. Wallis MC, McGrail M, Webster J, Marsh N, Gowardman J, Playford EG, et al. Risk factors for peripheral intravenous catheter failure: a multivariate analysis of data from a randomized controlled trial. Infect Control. 2014; 35(1):63-8. [ Links ]

2. Infusion Nurses Society. Infusion nursing standards of practice. J Infus Nurs. 2011; 34(1S). [ Links ]

3. Rickard CM, Webster J, Wallis MC, Marsh N, McGrail MR, French V, et al. Routine versus clinically indicated replacement of peripheral intravenous catheters: a randomised controlled equivalence trial. Lancet. 2012; 380(22):1066-74. [ Links ]

4. López JL, Vilela AA, Palacio EF, Corral JO, Martí CB, Portal PH. Indwell times, complications and costs of open vs closed safety peripheral intravenous catheters: a randomized study. J Hosp Infect. 2014; 86(2):117-26. [ Links ]

5. New KA, Webster J, Marsh NM, Hewer B. Intravascular device use, management documentation and complications: a point prevalence survey. Aust Health Rev. 2014; 38(3):345-9. [ Links ]

6. Fernández-Ruiz M, Carretero A, Díaz D, Fuentes C, Gonzáles JI, García-Reyne A, et al. Hospital-wide survey of the adequacy in the number of vascular catheters and catheter lumens. J Hosp Med. 2014; 9(1):35-41. [ Links ]

7. Idemoto BK, Rowbottom JR, Reynolds JD, Hickman Jr RL. The AccuCath Intravenous Catheter System with retractable coiled tip guidewire and Conventional Peripheral Intravenous Catheters: a prospective, randomized, controlled comparison. J Assoc Vasc Acess. 2014;19(2): 94-102. [ Links ]

8. Tertuliano AC, Borges JL, Fortunato RA, Oliveira AL, Poveda VB. Phlebitis associated with peripheral intravenous catheter among in-patients of a Hospital in Vale do Paraíba. Rev Min Enferm. 2014; 18(2):334-9. Portuguese. [ Links ]

9. Ascoli GB, Deguzman PB, Rowlands A. Peripheral intravenous catheter complication rates between those indwelling > 96 hours to those indwelling 72 - 96 hours: a retrospective correlational study. Int J Nurs. 2012; 1(2):7-12. [ Links ]

10. Abdul-Hak CK, Barros AF. The incidence of phlebitis in a medical clinical unit. Texto Contexto Enferm. 2014; 23(3):633-8. Portuguese. [ Links ]

11. Benaya A, Schwartz Y, Kory R, Ynnon AM, Ben-Chetrit E. Relative incidence of phlebitis associated with peripheral intravenous catheters in the lower versus upper extremities. Eur J Clin Microbiol Infect Dis. 2015; 34(5):913-6. [ Links ]

12. Salgueiro-Oliveira A, Veiga P, Parreira P. Incidence of phlebitis in patients with peripheral intravenous catheters: the influence of some risk factors. Aust J Adv Nurs. 2013; 30(2):32-9. [ Links ]

13. Cicolini G, Manzoli L, Simonetti V, Flacco ME, Comparcini D, Capasso L, et al. Phlebitis risk varies by peripheral venous catheter site and increases after 96 hours: a large multi-centre prospective study. J Adv Nurs. 2014; 70(11):2539-49. [ Links ]

14. Rickard CM, McCann D, Munnings J, McGrail MR. Routine resite of peripheral intravenous devices every 3 days did not reduce complications compared with clinically indicated resite: a randomised controlled trial. BMC Medicine. 2010; 8:53. [ Links ]

15. Pasalioglu KB, Kaya H. Catheter indwell time and phlebitis development during peripheral intravenous catheter administration. Pak J Med Sci. 2014; 30(4):725-30. [ Links ]

16. Webster J, McGrail M, Marsh N, Wallis MC, Ray-Barruel G, Rickard CM. Postinfusion phlebitis: incidence and risk factors. Nurs Res Pract. 2015; article ID 691934. [ Links ]

17. Zheng LM, Siow KC. Should peripheral intravenous catheters be replaced routinely or as clinically indicated?. Int J Evid Based Healthc. 2014; 12(3). doi: 10.1097/01.XEB.0000455163.26455.a6. [ Links ]

18. Khezri HD, Zeydi AE, Mahmoodi G. How long can peripheral venous catheter remain in situ? A short literature review. J Health Spec. 2014; 2(1):37-8. [ Links ]

19. Abolfotouh MA, Salam M, Bani-Mustafa A, White D, Balkhy HH. Prospective study of incidence and predictors of peripheral intravenous catheter-induced complications. Therapeutics and clinical risk management. 2014;10:993-1001. [ Links ]

20. Dunda SE, Demir E, Mefful Oj, Grieb G, Bozkurt A, Pallua N. Management, clinical outcomes, and complications of acute cannula-related peripheral vein phlebitis of the upper extremity: a retrospective study. Phlebology. 2015; 30(6):381-8. [ Links ]

21. Furtado LC. Incidence and predisposing factors of phlebitis in a surgery department. Br J Nurs. 2011; 20(14):16-25. [ Links ]

22. Roca GM, Bertolo CB, Lopez PT, Samaranch GG, Ramirez MC, Buqueras JC, et al. Assessing the influence of risk factors on rates and dynamics of peripheral vein phlebitis: an observational cohort study. Med Clin (Barc). 2012; 139(5):185-91. [ Links ]

23. Urbaneto JS, Rodrigues AB, Oliveira DJ, Dornelles FF, Rosa Filho JM, Gustavo As, et al. Prevalence of phlebitis in adult patients with peripheral venous. Rev Enferm. 2011; 1(3):440-8. Portuguese. [ Links ]

24. Mestre G, Berbel C, Tortajada P, Alarcia M, Coca R, Fernández MM, et al. Successful multifaceted intervention aimed to reduce short peripheral venous catheter-related adverse events: a quasi experimental cohort study. Am J Infect Control. 2013; 41(6):520-6. [ Links ]

25. Hasselberg D, Ivarsson B, Andersson R, Tingstedt B. The handling of peripheral venous catheters - from non-compliance to evidence-based needs. J Clin Nurs. 2010; 19(23-24):3358-63. [ Links ]

Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos (ReBEC): RBR-46ZQR8

Universal Trial Number: U1111-1166-5067

Recebido: 29 de Setembro de 2015; Aceito: 22 de Fevereiro de 2016

Autor correspondente. Derdried Athanasio Johann. Avenida Lothário Meissner, 632, 80210-170, Jardim Botânico, Bloco Didático II, 3º andar, sala do TIS, Foz do Iguaçu, PR, Brasil. derdried.johann@ifpr.edu.br

Conflitos de interesse: não há conflitos de interesse a declarar.

Colaborações

Danski MTR contribuiu com a concepção do projeto, execução da pesquisa, revisão crítica relevante do conteúdo intelectual e aprovação final da versão a ser publicada. Johann DA colaborou com a concepção do projeto, execução da pesquisa, análise e interpretação dos dados, redação do artigo e aprovação final da versão a ser publicada. Vayego SA cooperou com a análise e interpretação dos dados e revisão crítica relevante do conteúdo intelectual. Oliveira GLR contribuiu com a concepção do projeto, execução da pesquisa e aprovação final da versão a ser publicada. Lind J participou da execução da pesquisa, redação do artigo e aprovação final da versão a ser publicada.

Creative Commons License  This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License, which permits unrestricted use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.