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Acta Paulista de Enfermagem

versão On-line ISSN 1982-0194

Acta paul. enferm. vol.30 no.3 São Paulo mai/jun. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1982-0194201700047 

Artigos Originais

Fatores relacionados à inatividade física no lazer em mulheres obesas

Taise Santos do Nascimento1 

Fernanda Carneiro Mussi1 

Cátia Suely Palmeira1 

Carlos Antônio Teles Santos2 

Melissa Almeida Santos1 

1Escola de Enfermagem, Universidade Federal da Bahia, Salvador, Bahia, Brasil.

2Laboratório de Epidemiologia Molecular e Bioestatística no Centro de Pesquisas Gonçalo Moniz-FIOCRUZ/SSA, Salvador, Bahia, Brasil.

Resumo

Objetivo

Verificar os fatores relacionados à inatividade física (IF) no lazer em mulheres com excesso de peso.

Métodos

Estudo transversal, recorte de um projeto matriz denominado “Monitoramento remoto de enfermagem de mulheres com excesso de peso”, desenvolvido em ambulatório de referência para obesidade, em Salvador, Bahia, Brasil, no qual uma equipe multidisciplinar cerca de 300 usuários do Sistema Único de Saúde, sendo 91% mulheres, razão pela qual foram selecionadas para o estudo. Mediante consulta aos prontuários 174 mulheres foram recrutadas atendendo aos critérios de inclusão para o projeto matriz: ter excesso de peso (IMC ≥25 kg/m2), idade superior a 18 anos, comparecido a consulta médica nos últimos doze meses e telefone fixo e/ou celular. Foram critérios de exclusão: ausência de condições físicas para medidas antropométricas e cognitivas para responder aos instrumentos da pesquisa, distúrbios psiquiátricos, uso de drogas para perda de peso e realização de cirurgia bariátrica. Obedeceu-se as orientações do processamento e de análise dos dados do IPAQ.

Resultados

Houve alta prevalência de IF (85,2%) e associação significante entre IF e índice de massa corporal, autoeficácia para atividade física, percepção do ambiente, dependentes no domicílio, estado de saúde percebido e número de comorbidades. Na regressão, a IF associou-se ao número de comorbidades (RP:1,31; IC 95% 1,06;1,64); a autopercepção de saúde ruim (RP: 1,28; 1,01;1,61); a baixa autoeficácia (RP:1,27; 1,06; 1,51) e a percepção do ambiente ruim (RP:1,27; IC 95% 1,01;1,60).

Conclusão

A IF no lazer associou-se a variáveis individuais e ambientais.

Palavras-Chave: Exercício; Mulheres; Estilo de vida sedentário; Obesidade

Introdução

As doenças e agravos crônicos não transmissíveis como a obesidade aumentam significativamente em países desenvolvidos e em desenvolvimento. No Brasil, em 2015, no conjunto da população adulta a prevalência do excesso de peso foi de 53,9,5%, sendo de 57,6% para homens e 50,8% para mulheres. Esse panorama associa-se ao modo de viver da sociedade moderna determinando um padrão alimentar que aliado ao sedentarismo, não é favorável à saúde da população.1

O excesso de peso é fator de risco para doenças cardiovasculares, distúrbios endócrinos e respiratórios e alguns tipos de neoplasias, sendo um dos fatores de maior risco para adoecimento e óbito.2O incremento na prevalência do excesso de peso é um problema de saúde pública considerando o impacto dessa condição na saúde e qualidade de vida. Torna-se um desafio a prevenção e o controle deste fator de risco, devendo-se dirigir atenção aos fatores causais.

Há consenso de que a etiologia da obesidade é complexa e multifatorial, resultando da interação entre genes, ambiente, estilo de vida, prática de atividade física e padrão alimentar.3 Sabe-se que quanto mais ativo é o estilo de vida menor é a probabilidade da pessoa tornar-se obesa.4

Apesar dos benefícios estabelecidos da atividade física na promoção e prevenção de agravos à saúde, mais de dois milhões de mortes anuais são atribuídas à inatividade física devido a sua repercussão no incremento de doenças crônicas não transmissíveis que, se mantidas as tendências atuais, estarão relacionadas a 73% das mortes no mundo em 2020.2 No Brasil, no último levantamento do Ministério da Saúde, a prevalência da inatividade física continua elevada, atingindo 47,5% da população em 2015.5

Diversos pesquisadores têm buscado compreender como a atividade física é influenciada e motivada na população. Características sociodemográficas como sexo, idade, escolaridade, ocupação e estado civil aparecem como fatores determinantes de um estilo de vida sedentário. Somado à isso, outras variáveis como a autoeficácia e os fatores ambientais parecem estar associados.6,7

Entretanto, apesar dos avanços no estado da arte sobre fatores implicados na inatividade física, permanecem lacunas na literatura relativas os fatores individuais e ambientais que afetam as mulheres, particularmente com sobrepeso e obesidade. Cabe destacar que a maior parte dos estudos são oriundos de países desenvolvidos.8,9

Considerando a importância da atividade física regular na coletividade e de um estilo de vida saudável para o controle do peso corporal e a prevenção das doenças crônicas não transmissíveis surge a necessidade de aprofundar o conhecimento sobre o padrão epidemiológico dessa prática e de monitorá-la em subgrupos populacionais. Esse conhecimento pode orientar as práticas de cuidado em saúde e em enfermagem, assim como políticas públicas de apoio a prática de atividade física e de controle do peso corporal mediante ações integradas e inter-relacionadas de profissionais de saúde e da comunidade em geral.

Com base no exposto, o objetivo deste estudo foi verificar os fatores associados à inatividade física no lazer em mulheres obesas.

Métodos

Estudo transversal, recorte de um projeto matriz denominado “Monitoramento remoto de enfermagem de mulheres com excesso de peso”, desenvolvido em ambulatório de referência para obesidade, em Salvador, Bahia, Brasil, no qual uma equipe multidisciplinar cerca de 300 usuários do Sistema Único de Saúde, sendo 91% mulheres, razão pela qual foram selecionadas para o estudo.

Mediante consulta aos prontuários 174 mulheres foram recrutadas atendendo aos critérios de inclusão para o projeto matriz: ter excesso de peso (IMC ≥25 Kg/m2), idade superior a 18 anos, comparecido a consulta médica nos últimos doze meses e telefone fixo e/ou celular. Foram critérios de exclusão: ausência de condições físicas para medidas antropométricas e cognitivas para responder aos instrumentos da pesquisa, distúrbios psiquiátricos, uso de drogas para perda de peso e realização de cirurgia bariátrica.

As elegíveis foram consultadas sobre o interesse em participar da pesquisa por telefone e convidadas a virem ao ambulatório em data acordada. Na ocasião, esclareceu-se objetivos e procedimentos da pesquisa e assinatura do Termo de consentimento Livre e Esclarecido. A aquiescência iniciou-se a entrevista e avaliação antropométrica, em sala privativa.

O peso foi verificado com balança digital scale, model TEC 30 da marca Techline®, com variação de 0,1Kg e a altura com estadiômetro portátil, cumprindo os procedimentos especificados na literatura.10 O índice de massa corpórea foi obtido pelo peso em quilogramas dividido pelo quadrado da altura em metros. Adotou-se a seguinte classificação:11 sobrepeso (25 a 29,9kg/m2); obesidade grau I (30 a 34,9kg/m2); obesidade grau II (35 a 39,9kg/m2) e obesidade grau III (≥40kg/m2).11

Utilizou-se um instrumento para caracterização sociodemográfica, com questões fechadas sobre idade, raça/cor autodeclarada, situação conjugal, escolaridade, situação laboral, renda familiar mensal e dependentes no domicílio.

Para a avaliação do padrão de atividade física foi utilizado o International Physical Activity Questionnaire (IPAQ-versão longa), com perguntas relacionadas à frequência, duração e intensidade das atividades físicas realizadas por mais de 10 minutos contínuos, durante a última semana, abrangendo os quatro domínios da atividade física (trabalho, deslocamento, atividades domésticas e lazer). A sua validade e confiabilidade está descrita na literatura.12 Obedeceu-se as orientações do processamento e de análise dos dados do IPAQ, por meio do site www.ipak.ki.se.

A autopercepção de saúde foi avaliada pela pergunta: “como você considera sua saúde atualmente?”13 As respostas foram categorizadas em muito boa/boa; regular e ruim/muito ruim.

Utilizou-se a Escala de Percepção do Ambiente para a Prática de Atividade Física, validada por Florindo et al. (2009), com 38 questões, com escores variando de 0 a 58 pontos. Quanto maior o escore obtido melhor a percepção do ambiente. Avalia diferentes aspectos do ambiente físico que podem favorecer a caminhada e a prática de atividade física no lazer e deslocamento.14A primeira parte contém 18 questões sobre a presença e a proximidade de acesso, a menos de 10 minutos de caminhada do domicílio, como estruturas de lazer, serviços e conveniências no bairro de residência. A segunda parte, contém 20 questões relacionadas a presença e qualidade de estruturas ambientais (áreas verdes, calçadas, acúmulo de lixo) próximas das residências, a segurança percebida no trânsito e no ambiente, o suporte social, o clima e a presença de animal de estimação no domicílio. O estudo de validação da escala não sugere pontos de corte, mas indica que quanto maior o escore, melhor a percepção do ambiente. Assim, os escores obtidos pelos quartis permitiram a classificação da percepção do ambiente pelos indivíduos em: boa (36 a 51 pontos), satisfatória (31 a 35 pontos), regular (27 a 30 pontos) e ruim (13-26 pontos).

A autoeficácia para a prática de atividade física foi avaliada pela escala validada no Brasil por Rech et al. (2011), com 10 itens, divididos em dois blocos, com escores variando de 0 a 10 pontos: 1) prática de caminhada no tempo livre (5 itens) e 2) prática de atividade física de intensidade moderada e/ou vigorosa (5 itens). Os escores da escala foram computados com a soma das respostas de cada bloco considerando-se a resposta “sim” como valor 1 e “não” como 0. Quanto maior o valor obtido, mais elevada a autoeficácia. Dessa forma, utilizando-se os quartis, os escores permitiram a classificação da autoeficácia em: boa (7 a 10 pontos); regular (5 a 6 pontos); satisfatório (3 a 4 pontos) e ruim (0 a 2 pontos).

A pesquisa foi aprovada por Comitê de Ética, sob parecer nº 1.152.259 e atendeu às normas nacionais e internacionais de ética em pesquisa envolvendo seres humanos.

Dados analisados em frequências absolutas e relativas, médias e desvio padrão. Utilizou-se a razão de prevalência, com intervalo de confiança (IC) de 95% para analisar a associação entre as variáveis de interesse e a inatividade física no lazer. Na análise bivariada, empregou-se também o teste de Qui-quadrado de Pearson e as variáveis com valor de p ≤0,20 entraram no modelo de regressão logística: pessoa dependente no domicilio; índice de massa corpórea; número de comorbidades; autopercepção de saúde, autoeficácia e percepção do ambiente. A modelagem foi realizada com o procedimento backward. Para escolha do modelo utilizou-se o critério de informação de Akaike (AIC) escolhendo-se o com menor valor. Para avaliar o grau de acurácia e a qualidade do ajuste do modelo logístico utilizou-se o teste de Hosmer-Lemeshow e a área da curva ROC. Devido ao evento inatividade física ser comum na amostra aplicou-se o Modelo de Regressão de Poisson Robusto para a correção dos riscos. Utilizou-se o programa estatístico STATA, versão 12.

Resultados

Cento e quarenta e duas mulheres atenderam aos critérios de inclusão e aceitaram participar do estudo. A média de idade foi de 50,66 anos (DP=11,59), idade mínima de 21 e máxima de 81 anos. Predominaram mulheres da raça/cor negra (93,7%), casadas/união estável (55,6%), com nível educacional médio, pois 66,4% tinham o ensino médio completo/incompleto/ensino superior. A maioria tinha ocupação remunerada (51,4%) por serem autônomas, aposentadas com atividade ou estarem empregadas. A renda familiar mensal prevalente foi de 1 a 3 salários mínimos (39,2%) da qual dependiam em média três pessoas (DP= 1,328) e 31,0% tinham pessoas no domicílio que dependiam de seus cuidados.

A média do IMC foi 36,29kg/m2 (DP=6,23), com maior proporção de mulheres obesas (83,1%), estando 31,7% com obesidade grau III, 29,5% grau I e 21,8% grau II. Constatou-se sobrepeso em 16,9%. A maioria agregava uma ou mais comorbidades como hipertensão, diabetes mellitus e artrose e considerava regular o seu estado de saúde (54,9%).

A análise da inatividade física global avaliada pelo IPAQ, considerando a avaliação conjunta dos domínios trabalho, deslocamento, ambiente doméstico e tempo livre, evidenciou-se que 65,5% das mulheres eram ativas/muito ativas, pois atingiram a recomendação de prática de atividade física de ≥150min/semana. Menor proporção (34,5%) foram irregularmente ativas/sedentárias. Quanto ao nível de inatividade física por domínio do IPAQ, 54,2% eram inativas no domicílio; 64,4% no trabalho; 78,1% no deslocamento e 85,2% no lazer. A autoeficácia para a prática de atividade física foi regular/ruim para 53,5% delas.

Maiores prevalências de inatividade física no lazer foram identificadas nas mulheres com idade 40-59 anos (87,8%); cor/raça branca (88,9%); sem união estável companheiro (88,9%); ensino fundamental (89,6%); sem ocupação (88,4%); com pessoas dependentes de cuidados (93,2%); renda de 1 a 3 salários (89,3%); obesidade grau III (95,6%); duas comorbidades associadas (90,6%); autopercepção de saúde muito ruim/ruim (96,3%); autoeficácia ruim para a prática de atividade física (97,6 %) e percepção do ambiente regular e/ou satisfatória (89,7%) (Tabela 1).

Tabela 1 Prevalência e razão de prevalência da inatividade no lazer de acordo com as características sociodemográficas, clínicas, autopercepção de saúde e percepção do ambiente de mulheres com excesso de peso 

Características sociodemográficas n(%) Prevalência (%) p-value RP IC 95%
Idade 0,520
18 -| 39 anos 25(17,6) 80,0
≥40 anos a 59 anos 90(63,4) 87,8 1,10 (0,89;1,36)
≥60 anos 27(19,0) 81,8 1,02 (0,78; 1,33)
Raça/Cor 0,748
Branca 9(6,3) 88,9
Negra (parda e preta) 133(93,7) 85,0 0,96 (0,75; 1,22)
Situação conjugal 0,270
Sem companheiro 63(44,4) 88,9
Com companheiro 79(55,6) 82,3 0,93 (0,81; 1,06)
Escolaridade 0,294
Até ensino fundamental 48(33,8) 89,6
Ensino médio/superior inc/completo 94(66,2) 83,0 0,57 (0,19; 1,65)
Situação Laboral 0,297
Sem ocupação 69(48,6) 88,4
Com ocupação 73(51,4) 82,2 0,93 (0,81; 1,07)
Dependentes de cuidado no domicílio 0,073*
Não 98(69,0) 81,6
Sim 44(31,0) 93,2 1,14 (1,01;1,29)
Renda Familiar Mensal 0,310
≥ 3 SM 36(25,4) 77,8
> 1 a <3 SM12 56(39,4) 89,3 1,15 (0,94;1,40)
≤ 1 SM (2) 50(35,2) 86,0 1,11 (0,90;1,36)
IMC 0,063*
Sobrepeso 24(16,9) 75,0
Obesidade 42(29,6) 85,7 1,14 (0,88;1,48)
Obesidade II 31(21,8) 77,4 1,03 (0,77;1,40)
Obesidade III 45(31,7) 95,6 1,27 (1,00;1,62)
Numero de comorbidades 0,200*
Nenhuma (0) 30(21,1) 73,3
Uma (1) 45(31,7) 86,7 1,18 (0,92;1,51)
Duas (2) 53(37,3) 90,6 1,23 (0,98;1,56)
Três (3) 14(9,9) 85,7 1,17 (0,86;1,59)
Autopercepção de saúde* 0,001*
Bom/ muito bom 37(26,1) 67,6
Regular 78(54,9) 89,7 1,33 (1,05;1,68)
Muito ruim/ruim (2) 27(19,0) 96,3 1,43 (1,13;1,80)
Autoeficácia para AF (n=140) 0,059*
Boa 32(22,9) 78,1
Satisfatória 33(23,6) 78,8 1,00 (0,78;1,30)
Regular 34(24,2) 82,3 1,05 (0,83;1,34)
Ruim 41(29,3) 97,6 1,25 (1,03;1,51)
Percepção do Ambiente (n=140) 0,143*
Bom 28(20,0) 71,4
Satisfatório 39(27,9) 89,7 1,26 (0,97;1,63)
Regular 34(24,2) 85,3 1,19 (0,91;1,57)
Ruim 39(27,9) 89,7 1,26 (0,97;1,63)

*p-value do teste Qui-quadrado de Pearson; † Valor de p de teste exato de Fisher; SM - Salário Mínimo; RP - Razões de Prevalência; IC - Intervalo de confiança; *Padronizado pelo Escore Z

Na análise bivariada, evidenciou-se associação de inatividade física no lazer naquelas com dependentes de cuidados no domicílio (RP: 1,14; IC 95% 1,01; 1,29), obesas grau III (RP: 1,27; IC 95% 1,00; 1,62); duas comorbidades associadas (RP: 1,23; IC 95% 0,98; 1,56); autopercepção de saúde regular (RP: 1,33; IC 95% 1,05; 1,68) e ruim/muito ruim (RP: 1,43; IC 95% 1,13; 1,80); autoeficácia ruim (RP: 1,25; IC 95% 1,03; 1,51) e percepção do ambiente satisfatória/ruim (RP: 1,26; IC 95% 0,97; 1,63) (Tabela 1).

Escolheu-se o melhor modelo logístico ajustado de acordo com o menor critério de informação de Akaike, avaliou-se a acurácia do modelo pela curva ROC cuja área foi de 0,88 e a qualidade do modelo pelo teste de Hosmer-Lemeshow obtendo-se p=0,83. No modelo multivariado, as mulheres com uma e duas comorbidades tiveram aumento respectivo de 27% (RP: 1,27; IC 95%: 1,02; 1,58) e 31% (RP: 1,31; IC 95%: 1,06; 1,64) na inatividade física no lazer. Aquelas com autopercepção de saúde ruim (RP: 1,28; IC 95%: 1,01; 1,61) e regular (RP: 1,25; IC 95%: 1,00; 1,56) foram respectivamente 28% e 25% mais inativas. Observou-se ainda que as mulheres com autoeficácia ruim para a prática de atividade física foram 27% mais inativas (RP: 1,27; IC 95% 1,06; 1,51), assim como as com percepção satisfatória do ambiente (RP: 1,27; IC 95% 1,01; 1,60). Embora não se tenha constatado associação estatisticamente significante entre inatividade física e percepção de ambiente notou-se que mulheres com uma pior percepção apresentaram direção para o aumento da inatividade física no lazer. Do mesmo modo, a direção para esse aumento foi notada naquelas com dependentes de cuidado no domicílio e obesidade grau I e III (Tabela 2).

Tabela 2 Fatores relacionados à inatividade física no lazer em mulheres com excesso de peso 

Variáveis RP IC(95%)
Pessoas dependentes de cuidados no domicilio
Não 1 1,00
Sim 1,14 (0,99;1,32)
IMC
Sobrepeso 1 1,00
Obesidade Grau I 1,14 (0,90;1,46)
Obesidade Grau II 0,95 (0,73;1,23)
Obesidade Grau III 1,21 (0,97;1,51)
Número de Comorbidades*
Nenhuma 1 1,00
Uma 1,27 (1,02;1,58)
Duas 1,31 (1,06;1,64)
Três 1,29 (0,98;1,70)
Autopercepção de saúde*
Bom 1 1,00
Regular 1,25 (1,00;1,56)
Ruim 1,28 (1,01;1,61)
Autoeficácia (n=140)
Bom 1
Satisfatório 1,09 (0,86;1,37)
Regular 1,15 (0,92;1,43)
Ruim 1,27 (1,06;1,51)
Percepção do Ambiente*(n=140)
Bom 1 1,00
Satisfatório 1,27 (1,01;1,60)
Regular 1,15 (0,90;1,46)
Ruim 1,21 (0,96;1,53)
AIC = 299,0284

Modelo de regressão logística.p-value < 0,05; RP - Razões de Prevalência

Discussão

A atividade física no lazer é uma das dimensões da atividade física, recomendada mundialmente15no entanto, no presente estudo a prevalência de inatividade física foi elevada e superior a de outras investigações.16-18

O perfil sociodemográfico da amostra corroborou com outros estudos, havendo maior proporção de inatividade física naquelas com idade entre 40-59 anos,19 menor nível de escolaridade,20 casadas21 e dependentes de seus cuidados no domicílio.21 A inatividade física no lazer também está associada a renda familiar pois, mulheres com menor rendimento tendem a possuir menos conhecimento sobre hábitos saudáveis, tempo para sustentar níveis de atividade física saudáveis e oportunidades para atividades recreacionais, sendo uma das principais barreiras para a prática de atividade física em países em desenvolvimento.22

A prevalência de inatividade física foi maior nas mulheres com dependentes no domicílio (filhos e/ou pessoas doentes), relacionando-se aos papéis históricos desempenhados pelas mulheres de esposa, mãe e cuidadora, corroborando com os achados de outro estudo, no qual a presença elevada de crianças no domicílio, dificultou a prática de atividade física no lazer quando não tinham com quem deixar os filhos.21 Outra investigação mostrou que obrigações familiares e renda foram associadas à inatividade física no lazer no conjunto da população (45,4%) e, para as mulheres, tais obrigações apresentaram significância estatística.23

Outro dado relevante foi de que quanto mais elevado o índice de massa corpórea maiores as prevalências de inatividade física no lazer, demonstrando que o excesso de peso é um fator associado negativamente à prática de atividade física, como previamente evidenciado.24

A autopercepção de saúde, apesar de pouco utilizada na clínica, apresenta forte associação com mortalidade, morbidade e qualidade de vida.13,19,25 Neste trabalho foi um preditor para o comportamento inativo no lazer. Nesse sentido, as enfermeiras precisam conhecer a autopercepção de saúde das mulheres com excesso de peso no cotidiano assistencial, assim como do adoecimento e do autocuidado. Poderá assim constatar propor e implementar ações de cuidado à saúde orientadas por suas características e necessidades.13 A (o) enfermeira (o) pode identificar junto as mulheres como é possível ajudá-las para a melhorar a sua condição de saúde e apoiá-las com ações de cuidado compartilhadas.

Constatou-se neste estudo a autoeficácia preditora de inatividade física, ou seja, a crença do êxito do indivíduo no resultado da atividade física é fundamental para a sua prática. Meurer et al. (2015), 26 identificaram que idosos permanecentes em programas de atividade física apresentavam maior autoeficácia para caminhada comparados aos não permanecentes, destacando a importância da avaliação da autoeficácia no planejamento e sistematização de ações para aumento da atividade física. Assim, elevar os níveis de autoeficácia pode ser um componente importante em estratégias para a promoção da saúde.6,27Atividades nas quais as mulheres expressam suas crenças podem proporcionar melhor entendimento sobre as reais perspectivas de resultados. Além disso, a visualização de outras pessoas adotando o comportamento, pode aumentar a crença na realização da atividade.Técnicas que envolvam discussão de grupo, conversas particulares, por telefone, mensagens de email e leitura de textos sobre o comportamento, podem ser estratégias utilizadas pelo (a) enfermeiro (a) para aumentar a confiança da capacidade das mulheres em realizar e manter o comportamento.27

A pior percepção do ambiente foi também associada à inatividade física no lazer. No estudo americano realizado com 3.434 mulheres, aquelas que viviam em áreas com maior número de facilidades e centros comerciais tinham maiores chances de atender as recomendações de caminhada e aquelas que residiam próximas às lojas de alimentação, tinham quase duas vezes mais chances de estarem com excesso de peso (OR = 1.77, 95% CI: 1.33, 2.20).28 Dados semelhantes foram encontrados no estudo que identificou que pessoas que praticavam atividade física no tempo de lazer tiveram maiores médias nos escores de facilidades/conveniências, percepção de segurança geral e de apoio social para a prática de atividade física.29 Nesse sentido, variáveis relacionadas ao ambiente podem ajudar na compreensão dos comportamentos individuais e das barreiras para a manutenção do comportamento inativo. Políticas e ações públicas devem focalizar a melhoria das condições ambientais à prática de atividade física.

Diante destas constatações, é um desafio para a equipe multidisciplinar de saúde estimular a aquisição e a manutenção da prática regular de atividade física no lazer desde as idades mais jovens. Equipes multiprofissionais no acompanhamento de mulheres com excesso de peso devem desenvolver programas de educação em saúde que estimulem a valorização e esclareçam as recomendações da prática de atividade física. O estímulo a prática de atividade física pode ser proporcionado por diferentes ações integradas da enfermeira com o educador físico junto a mulheres com excesso de peso, utilizando inclusive o espaço público como forma de estimular hábitos de vida mais saudáveis, de forma interativa e divertida. Ademais, a oferta de espaços públicos para a prática de atividades físicas no lazer, de forma individual ou em grupo, são estratégias governamentais fundamentais para a melhoria da saúde, especialmente, nos subgrupos menos favorecidos.

Os resultados auxiliam no desenvolvimento de programas de intervenção que enfatizam características individuais e ambientais para o bom nível de atividade física.

Uma das limitações refere-se ao estudo transversal que não permite inferir causalidade dos resultados (causalidade reversa) uma vez que exposição e desfecho são coletados simultaneamente.

Conclusão

Houve alta prevalência de inatividade física no lazer. No modelo multivariado, a inatividade física associou-se significativamente ao número de comorbidades; a autopercepção de saúde ruim; a baixa autoeficácia e a percepção do ambiente ruim.

Agradecimentos

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento de Pesquisa e Tecnologia - CNPQ, pelo financiamento do projeto de Pesquisa “Monitoramento remoto de enfermagem de mulheres com excesso de peso”, ao qual o artigo está vinculado.

Referências

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Recebido: 21 de Abril de 2017; Aceito: 30 de Junho de 2017

Autor correspondente. Fernanda Carneiro Mussi. Av. Dr. Augusto Viana Filho, SN, 40110-16, Campus Canela, Canela, BA, Brasil. femussi@uol.com.br

Conflitos de interesse: não há conflitos de interesse a declarar.

Colaborações

Nascimento TS, Mussi FC e Palmeira CS contribuíram com a concepção do projeto, análise e interpretação dos dados, redação do artigo, adequação às normas da revista e aprovação da versão final a ser publicada. Santos CAT colaborou no plano de análise, análise e interpretação dos dados e aprovação da versão final a ser publicada. Santos MA contribuiu na coleta dos dados, tratamento dos dados e aprovação da versão final a ser publicada.

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