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Estudos Históricos (Rio de Janeiro)

versión impresa ISSN 0103-2186

Estud. hist. (Rio J.) vol.24 no.48 Rio de Janeiro jul/dic. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-21862011000200005 

ARTIGOS

 

"Lençóis de linho, pratos da Índia e brincos de filigrana": vida cotidiana numa vila mineira setecentista

 

"Sheets of linen, dishes from India and filigree earring": daily life in a XVIIIth Century mining town

 

 

Ana Luiza Castro Pereira

 

 


RESUMO

Este artigo versa sobre a intensa circulação de objetos na época das navegações portuguesas e sobre a capacidade de homens e mulheres introduzirem bens do Império Português no seu viver cotidiano. O consumo e a cultura material têm sido amplamente analisados visando compreender o significado que a posse de objetos representou na vida cotidiana ao longo da História, bem como a maneira como os bens materiais foram vivenciados no cotidiano. Foram consultados inventários post-mortem dos moradores da vila de Sabará para perceber que África, Ásia, América e Europa se fizeram notar nas mesas de Sabará.

Palavras-chave: cultura material; inventários; Sabará, século XVIII.


ABSTRACT

This article focuses on the intense movement of objects during the main period of Portuguese navigation, and the ability of men and women to introduce goods of the Portuguese Empire in their daily lives. Consumption and material culture have been widely analyzed in order to understand the meanings that the possession of objects represented in everyday life throughout history, as well as how the material goods were used in daily life. Post-mortem inventories of residents of the town of Sabará were studied in order to demonstrate that Africa, Asia, America and Europe have found a proper place in the tables of Sabará.

Key words: material culture; inventories; Sabará, eighteenth century.


RÉSUMÉ

Cet article se concentre sur l'intense circulation d'objets dans l'ère de la navigation portugaise et la capacité des hommes et des femmes d'introduire des marchandises de l'empire portugais dans leur vie quotidienne. La consommation et la culture matérielle ont été largement analysées afin de comprendre la signification que la possession d'objets a représenté dans la vie quotidienne à travers l'histoire, ainsi que la façon dont les biens matériels ont été expérimentés dans la vie quotidienne. Des inventaires post-mortem des habitants de la ville de Sabará ont été consultés pour montrer que l'Afrique, l'Asie, l'Amérique et l'Europe ont fait partir des tables de Sabará.

Mots-clés: culture matérielle; inventaires; Sabará au XVIIIe siècle.


 

 

Introdução

O principal argumento da história da civilização material é a relação dos homens com as coisas e com os objectos (Roche, 1998: 12)

Entre os historiadores que se dedicam ao estudo do Império Português é consensual a importância que as atividades comerciais desempenharam como promotoras da circulação não somente de objetos, mas também de pessoas nas diversas possessões do Império Português (Russel-Wood, 2006; Boxer, 2000; Furtado, 1999; Godinho, 1990). Comerciantes, homens de negócio (Furtado, 2006), tratantes foram algumas denominações atribuídas àqueles que estabeleceram redes de comércio e propiciaram a circulação dos produtos pelos portos do Império Português. Nesse contexto, a cidade de Lisboa desempenhou um papel fulcral como principal praça de comércio (Pedreira, 1995). No porto de Lisboa, em meados do século XVIII, podiam ser encontrados, cerca de 35 produtos diferentes originários da América Portuguesa (Russel-Wood, 2006: 199-200). No final desse mesmo século, eram cerca de 125, os produtos na praça lisboeta vindos da América. No que tocou às restantes possessões portuguesas no globo foram encontradas a prata, da região de La Plata, na América do Sul; as sedas e as especiarias, de Goa; o ébano, o marfim e o coral, da África Oriental; os escravos, da África Ocidental, que eram transportados para as demais possessões portuguesas no Império. Há ainda que considerar a presença, na praça de Lisboa, de produtos provenientes do mar Báltico, como, por exemplo, os cereais; da Alemanha, metais utilizados para fabricar armas, vidro, sal e curtume. Nota-se que foi estabelecido um intenso comércio intercolonial ligando quatro continentes, África, América, Ásia e Europa, inserindo Portugal numa "[...] rede global de trocas de mercadorias que ia desde Danzig ao Zambeze, e de Mato Grosso a Manila" (Russel-Wood, 2006: 200).

No outro lado do Atlântico, na América Portuguesa, a presença de bens e produtos das mais diversas partes do Império Português foi perceptível, sobretudo, no momento de descrever os bens que os indivíduos acumularam ao longo da vida e que fizeram parte do seu cotidiano. Os inventários post-mortem, nesse contexto, foram um importante instrumento na percepção do significado que a circulação humana e material assumiu ao longo da História, e foi por esse motivo que decidimos utilizá-lo como fonte documental para a elaboração deste texto.

Em qualquer parte do Império Português, e também fora dele, circulavam tecidos como baetas inglesas,1 cambraias,2 chitas holandesas3 de algodão e linho, as linhas de costura italianas, porcelanas chinesas, especiarias indianas e tabaco da América do Sul. Relativamente à América Portuguesa, a inserção no cotidiano dos seus habitantes de produtos pertencentes aos quatro cantos do Império representou, para muitos investigadores, uma espécie de europeização dos hábitos alimentares (Silva, 1993). Sérgio Buarque de Holanda destaca que "[...] em tais paragens tratam os portugueses de provocar um ambiente que se adapte à sua rotina, às suas conveniências mercantis, à sua experiência africana e asiática" (Holanda, 1957: 1).

Na análise da vida material e da posse de bens os inventários4 orfanológicos têm sido bastante utilizados, na medida em que são caracterizados por conterem um rol de descrição bastante minucioso dos bens pertencentes a um indivíduo, razão pela qual foram utilizados na confecção deste artigo. O rol de bens avaliados variou desde um botão de casaca até grandes propriedades rurais. Some-se a isso o fato de constarem no ato da descrição dos bens alguns adjetivos que interferiam, diretamente, na sua avaliação, entre os quais "ordinário", "velho", "usado", "novo", entre outros, como fator de influência no valor dos bens.

No Brasil, os inventários post-mortem (Mattoso, 1976; Magalhães, 1987; Faria, 1998; Mota, 2005) têm sido utilizados desde a década de 1970 pelos historiadores para analisar os mais diversos aspectos da vida social, cultural e econômica. Em Portugal, alguns estudos que se debruçaram sobre a análise dos inventários post-mortem revelam, também, a circulação de objetos que marcou todo o período de existência do Império Ultramarino português. Para Portugal continental, no século XVIII, o estudo de Nuno Madureira (1989), torna-se fundamental por analisar os aspectos do consumo e da vida material na cidade de Lisboa e a sua ligação com o intenso ir e vir de produtos na praça lisboeta. Segundo o autor, a praça lisboeta de comércio caracterizava-se, naquela época, como um

[...] grande porto transitário, e vértice estratégico do triângulo Portugal-Brasil-Europa, a capital goza de uma posição privilegiada nas trocas internacionais particularmente durante o último quartel do século XVIII. Para ela confluem mercadorias das mais variadas proveniências (Madureira, 1989: 85).

Sabe-se que do processo de inventário resultava a partilha dos bens entre os herdeiros,5 motivo pelo qual a descrição e avaliação dos bens tinha que ser minuciosa de maneira a garantir que todos os herdeiros receberiam a mesma quantia do espólio.

Para a elaboração deste artigo, os bens foram reunidos em 12 categorias: 1) armas (de fogo e brancas); 2) utensílios de uso doméstico (tachos, pratos e talheres); 3) utensílios de uso profissional (almocafres, alavancas e bateias); 4) instalações profissionais (tendas de ferreiro); 5) bens em estoque (tecidos, botões, especiarias); 6) moedas (ouro em pó); 7) objetos em ouro e prata (argolas de filigrana, brincos, colares); 8) móveis (leitos, bancos e catres); 9) vestuário (camisas, vestidos e meias de seda); 10) imagens religiosas; 11) bens imóveis; e 12) bens semoventes (animais e escravos). As próximas páginas dedicam-se à análise da maneira como os bens da praça lisboeta, uma vez desembarcados na América Portuguesa, ganharam os sertões e passaram a fazer parte do cotidiano das famílias mineiras.

 

Vida cotidiana na América Portuguesa dos Setecentos

Antes de analisar o universo material que fez parte do viver cotidiano da vila de Sabará no século XVIII é importante considerar o contexto em que estava inserido, a maneira como era vivenciado nesse viver cotidiano. Um investigador que se debruce sobre a análise da vida e da cultura material (Carvalho, 2003) no século XVIII deve considerar, entretanto, os variados aspectos que compunham a vida privada setecentista (Novais; Souza, 1997). A própria transformação do viver cotidiano no século XVIII, ao passar de um período anterior de escassez para o de um consumo acelerado de bens, deve ser considerada (Roche, 1998). A exemplo disso temos a constatação do uso de talheres. Sabe-se que em finais do século XVIII comer com as mãos ainda era corrente, mas a aparição frequente nos inventários de talheres e guardanapos, seguidos da expressão "de seu uso", aponta para o fato de que os hábitos coloniais estavam se refinando (Braudel, 1979; Furtado, 2003). Nota-se, portanto, a criação de um espaço em que a porcelana chinesa, as sedas indianas, os tecidos ingleses e o marfim africano dividiam lugar com os produtos comercializados, por exemplo, pelas negras de tabuleiro (Figueiredo, 1993; Reis, 1989). Os quintais (que permitiam que os olhares dos vizinhos desvendassem a vivência dos espaços), as janelas de treliça (associadas ao confinamento feminino), o mobiliário e os recheios das casas revelam o viver de homens, mulheres e crianças no interior de suas casas.

A vida cotidiana dos habitantes de Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador (Silva, 1993) com a chegada da corte portuguesa em 1808, apesar de extrapolar o marco espaço-temporal deste artigo, é um excelente exemplo da capacidade de adaptação dos seus habitantes à presença, nos trópicos, de produtos alimentares desconhecidos da culinária e que acabaram por modificar e diversificar sua dieta. É o caso da farinha de mandioca, do milho, da rapadura (produto proveniente do caldo da cana-de-açúcar), entre outros, que passaram a compor o universo material dos portugueses recém-chegados e ganharam espaço em suas mesas. Nas Minas não foi raro encontrarmos, nos espólios dos seus habitantes, bens que apontavam para o fato de que, durante as refeições, eram bastante utilizados porcelanas da China e da Inglaterra, pratos em estanho, copos em cristal, sopeiras e chocolateiras. Tais objetos compunham não somente o dia-a-dia dos brancos, mas também dos mestiços, sobretudo as mulheres.

Ao considerar a questão do significado da sociabilidade no cotidiano setecentista, há contudo que ter em conta o significado que o ambiente da casa e da rua então assumia no Império Português. Na primeira metade dos Setecentos, o convívio concentrou-se, sobretudo, no ambiente privado dos recolhimentos femininos (Algranti, 1993; Nascimento, 1994; Silva, 2002) ou das casas. Na segunda metade do mesmo século, foi identificado outro tipo de convívio entre os habitantes das várias partes do Império Português: aquele vivenciado nos espaços públicos - ruas, igrejas etc. Constata-se que a maioria dos momentos de convívio e interação social acontecia nas festas (Boschi, 2006; Jancsó; Kantor, 2001; Santos, 2001), nas procissões religiosas, nas comemorações de nascimento, casamento e morte de príncipes e princesas.

 

Do Ultramar para os Sertões: bens do Império nas casas mineiras

[...] a Capitania de Minas é povoada de Mineiros, roceiros, negociantes e oficiais de diferentes ofícios. Os mineiros, são os que dão mais utilidade a Sua Majestade, no quinto que recebe do ouro. [...] Os comerciantes fazem a segunda parte do rendimento da Capitania dos Direitos que pagam à mesma Majestade.6

Desde a ocupação da América Portuguesa que sua extensão territorial significou um grande problema para as autoridades metropolitanas. Parte dos navios carregados de produtos7 manufaturados e mão de obra escrava que cruzavam o oceano Atlântico era dirigida para o litoral do Rio de Janeiro, sobretudo para a cidade do Rio de Janeiro e para a vila de Parati (Fragoso & Florentino, 2001). A ligação do sertão das Minas Gerais e o litoral (Resende, 2007; Renger; 2007; Fragoso & Florentino, 2001; Chaves, 1999; Furtado, 1999; Holanda, 1957) deu-se por meio da abertura de trilhas por onde fosse possível fazer chegar ao interior os produtos desembarcados, mas também por onde fosse possível escoar a produção de ouro vinda das Minas.

[...] Os viandantes que entravam nas minas, em geral levavam pouco valor em dinheiro, e muita mercadoria. E, ao voltarem, [...] traziam bastante ouro em pó, apurado na venda dos efeitos introduzidos nas Gerais (Zemella, 1990: 163).

Contudo, não era importante somente fazer chegar ao sertão os produtos a serem comercializados; era também importante investir alguns homens de uma tarefa que se tornaria fundamental para o abastecimento (Carrara, 1997) dos sertões com os produtos do além-mar: a atividade de comerciantes. A presença, nas Minas, de um elevado número de comerciantes vem sendo objeto de estudo por parte de alguns historiadores que se dedicam não somente a analisar o papel que eles desempenharam na construção de uma sociedade mineira voltada para as atividades comerciais (Chaves, 1999; Furtado, 1999), mas também o papel que os homens de negócio desempenharam relativamente às práticas creditícias (Santos, 2005). Para Júnia Ferreira Furtado (1999), uma das estratégias utilizadas pelos negociantes para expandir seus negócios pelo interior das Minas foi, justamente, enviar seus representantes com o objetivo não só de comercializar suas mercadorias, mas também de verificar se havia possibilidade de fixação de lojas de comércio na região. Francisco Pinheiro, um "negociante por grosso",8 por exemplo, possuía uma rede de negócios cujas localidades abrangiam não somente as principais cidades portuguesas (Braga, Coimbra, Porto e as ilhas da Madeira e Açores), como também grandes praças de comércio na França, Inglaterra, Holanda e Itália.

No que toca à questão do abastecimento, há ainda que considerar a distância geográfica entre as Minas e o litoral como um dos fatores que interferiu diretamente na fixação dos preços dos produtos nas lojas (Venâncio; Furtado, 2000) de secos e molhados das Minas setecentistas, com preços bastante distintos daqueles praticados nas demais regiões da América Portuguesa. Segundo Júnia Furtado (1999: 198-199),

[...] A distância das Minas, a dificuldade dos meios de transporte, os inúmeros intermediários e a cobrança de vários impostos eram alguns dos motivos que faziam com que os preços das mercadorias atingissem nas Minas preços nunca vistos.

Contudo, apesar das dificuldades de acesso ao interior e da prática de preços elevados, é inegável a variedade de produtos que passaram a compor o cotidiano dos habitantes das Minas dos Setecentos. André João Antonil9 (1711) destacou a variedade de produtos comercializados nas Minas: alimentos, vestuário, acessórios e armas, tudo era vendido nas lojas de secos e molhados das Minas.

[...] Logo se fizeram estalagens, e logo começaram os mercadores a mandar às Minas o melhor que chega nos navios do reino, e de outras partes, assim de mantimentos, como de regalo, e de pomposo para se vestirem, alem de mil bugiarias de França, que lá também foram dar.10

Contudo, ao abordarmos a questão do abastecimento, não podemos inferir que o mercado externo foi o único responsável. A produção agrícola da colônia - associada à pecuária e à produção de aguardente e de alguns tecidos mais grosseiros - garantiu o abastecimento das Minas (Silva, 2007; Chaves, 2003; Furtado, 1999; Meneses, 1997; Zemella, 1990). Percebe-se, assim, a importância que a região assumiu para a Coroa portuguesa, tanto no que dizia respeito à extração de ouro (e, posteriormente de diamantes) quanto pela promoção da circulação de bens do sertão para o litoral e vice-versa.

 

Viver nas Minas com bens do Império

Para este texto foram consultados 171 processos de inventário post-mortem de residentes na vila de Nossa Senhora da Conceição do Sabará,11 sede administrativa da comarca do Rio das Velhas,12 entre os quais 105 pertenciam a homens e 66 eram de mulheres. As moedas de ouro e prata representaram a maioria no rol dos bens pertencentes a estes inventariados, como podemos constatar na tabela abaixo.

 

 

No rol dos 171 inventariados de Sabará, foi possível identificar 29 indivíduos naturais de Portugal13 continental. A diversidade de utensílios domésticos aponta para uma tendência a recriar e interiorizar hábitos e costumes europeus no seio das famílias mineiras, numa tentativa de recriar, mais uma vez, o modus vivendi do além-mar. Leiteiras, sopeiras, pratos de cobre e estanho nos mais diversos tamanhos, garfos e facas em prata. Chocolateiras, tachos, novamente em estanho e cobre, louças provenientes da Índia e da China, simbolizavam a introdução de hábitos mais refinados no seio das famílias na América Portuguesa. Simbolizavam a sofisticação e o luxo que, outrora, experimentaram no além-mar. Sabe-se, entretanto, que a diversidade do recheio das casas era sinônimo de distinção social. Nesse sentido, existiam os utensílios que estavam presentes na maioria dos espólios analisados, tais como as panelas e os caldeirões de ferro, as colheres, os garfos, as facas, os catres, os "bofetes" etc., que são expressivos do viver setecentista naquela vila. Os utensílios domésticos eram usados no dia-a-dia na lida da cozinha. Os móveis, por sua vez, acrescentavam ao viver na colônia algum conforto nos momentos de descanso. Já a presença, no espólio, de objetos em ouro, sobretudo jóias, conferia, aos seus detentores, prestígio e visibilidade social.

A presença das jóias entre os objetos de ouro e prata descritos nos inventários post-mortem sabarenses (Magalhães, 2002) aponta para a importância fulcral que esses objectos assumiram no viver cotidiano setecentista. A minuciosa descrição dos ornamentos em ouro e prata, o trabalho manual empregado - como os brincos em filigrana (técnica de trabalho manual no ouro característica da região do Minho, em Portugal) -, o material usado, tudo aponta para a relevância que esses objetos assumiram não somente como instrumentos de distinção social, não somente em vida, mas também, num cenário post-mortem, ou seja, no momento da partilha dos bens entre os herdeiros.

Deve-se ter em conta, ainda, o fato de que numa sociedade em que o peso das jóias e objetos em prata era calculado de acordo com o ouro lavrado, não é surpresa que se encontrem, com frequência, objetos em ouro nos espólios. Some-se a isso o fato de as jóias e as peças em prata serem consideradas como sinônimo de riqueza e prestígio social.

Chica da Silva foi um caso exemplar da relação que muitas mulheres no século XVIII estabeleceram com a posse de jóias e objetos em ouro e prata. A ostentação no pescoço, nos arranjos de cabelo, nos balangandãs14 que pendurava à volta da cintura revelava não somente a importância que o ouro tinha no cotidiano daquelas pessoas, mas também sua tentativa de recriar hábitos e costumes brancos (Furtado, 2003). Mas não foram apenas os objetos de adorno que fizeram parte do cotidiano feminino do século XVIII. As jóias de caráter religioso - tais como os crucifixos, pingentes com o formato de Menino Jesus, memórias, verónicas e os rosários - tiveram grande importância, quer entre as brancas livres, quanto entre as de cor forras (Lara, 2000; Paiva, 2001; Mol, 2002).

Não é possível esquecer, entretanto, a importância que os objetos assumiram no viver cotidiano, as interferências por eles causadas. A ausência de determinados objetos, comuns na Europa do século XVIII, foi vivenciada muitas vezes por imigrantes que cruzaram o Atlântico e se instalaram na América, obrigando-os a se adaptarem a uma nova maneira de estar, ressignificando objetos e hábitos, estabelecendo relações diferentes com os utensílios domésticos e profissionais que faziam parte do seu dia-a-dia, ao que Vânia Carneiro chamou de um "[...] relacionamento simbiótico entre objetos domésticos e formação de identidades sociais diferenciadas pelo gênero" (Menezes, 2008: 13), em estudo sobre a relação entre cultura material e gênero na cidade de São Paulo do século XIX. Nesse contexto, os artefatos (terminologia por ela utilizada) interagem diretamente com os indivíduos, passando a fazer parte da sua personalidade. Nesse contexto, "[...] tão-só existe objeto para um sujeito."(Menezes, 2008: 13)

Tendo em conta a ideia de um mundo em movimento, a variedade de bens que compunha o espólios dos indivíduos que deixaram inventários pode ser verificada no gráfico a seguir. Tecidos, jóias, mobiliário, trajes e adornos do Império estiveram presentes nos domicílios da vila de Sabará. Embora sua procedência não conste na maioria dos bens inventariados, aqueles em que essa informação esteve presente permitiu a elaboração do gráfico. Nota-se a predominância dos produtos provenientes da praça lisboeta, sobretudo os tecidos manufaturados, como toalhas de mesa, jóias em ouro (aplicadas com a técnica da filigrana16) e louças de cozinha (provenientes da região da cidade do Porto). Logo em seguida, estavam os tecidos originários da região de Flandres. Os móveis em moscovia, originários da Rússia, surgiam em terceiro lugar, seguidos dos produtos de origem indiana, tais como louças e porcelanas.

 

 

Já vimos que o trânsito de pessoas pelos sertões das Minas e, também, pela vila de Sabará, imprimiu, uma intensa circulação de objetos provenientes das mais diversas regiões do Império. A presença de uma variada gama de tais artigos confirma que a distância geográfica entre as várias regiões que compunham o Império Português não foi sinônimo de impedimento para que uma diversidade de bens viesse da Europa para o ultramar. Há ainda que considerar a própria composição das casas sabarenses, no que se refere ao mobiliário e aos utensílios domésticos.

Sabe-se que poucos foram os domicílios que prezaram pelo conforto doméstico e pela decoração dos interiores. Em geral, os domicílios setecentistas (fossem os das zonas açucareiras ou mineradoras) eram caracterizados pela presença de um mobiliário precário e, muitas vezes, adaptados ao viver colonial. Um exemplo disso é o uso de redes (objetos caracteristicamente de origem indígena) como substitutos dos leitos e, em alguns casos, de cadeiras. Até os dias atuais permanece, em algumas regiões do Brasil, o uso de redes como cama, como local onde se dorme (Câmara, 2003).

Na América Portuguesa, os leitos só começaram a ser vistos, nas mais diversas localidades de São Paulo, Minas Gerais e Bahia, em meados do século XVIII. Muitos outros objetos acabaram por substituir parte do mobiliário nos domicílios coloniais, como os cabides de chifre de boi ou de veado que substituíram os armários. Além disso, os trajes e adornos usados pelos moradores da vila apontam para uma tentativa de recriar, em terras de além-mar, o modus vivendi de Portugal continental.

O que podemos inferir com a leitura dos inventários post-mortem é que a posse de objetos mais "refinados" esteve diretamente relacionada ao status socioeconômico dos indivíduos, ou seja, tendencialmente os objetos de luxo foram encontrados em inventários de militares, homens de negócios, eclesiásticos etc.

O padre Thomas de Moura, natural da freguesia de São Salvador, bispado de Porto, faleceu em 27 de abril de 1785, sendo seu inventário aberto dois dias depois. Seus bens somavam quase um conto e 200 mil réis e estavam distribuídos em móveis, vestuário, objetos em ouro e prata, utensílios domésticos e outros bens. Na cozinha, os bens do português Thomas de Moura incluíam chocolateira, almofariz em bronze, tachos em cobre, bacias, escumadeira, colheres, garfos, facas. Os objetos originários da Índia compreendiam pratos de louça de guardanapo pintados, sopeira, tigelas, xícaras com os respctivos pires. Os móveis de casa foram relacionados de acordo com a madeira em que eram feitos. Assim, em jacarandá, constam catres17 e tamboretes, um preguiceiro de couro cru, um armário pequeno com as respectivas portas, uma estante de pôr livros, forrada de tábuas; em pau branco, havia um catre, mesas, bancos toscos, canastras e cadeiras de encosto. As roupas de casa e vestuário também demonstram a diversidade do seu espólio. Encontramos um chapéu de sol com armação de forja, uma capa de gala, luvas de gala preta, uma casaca de pano pardo forrado de baeta, uma vestia e calção de pano azul, meias pretas, camisas de pano de linho, toalhas de pano de linho e de algodão, guardanapos de linho de Guimarães.

Nota-se que, seja entre os bens de uso pessoal, seja na composição da sua biblioteca particular, os bens do padre Thomas de Moura são exemplos da intensa circulação de objetos nos sertões das Minas Gerais. Entre os bens descritos e avaliados no processo de inventário, o mobiliário da casa, no que se refere ao valor absoluto, ocupou a terceira posição, estando atrás somente da categoria "outros" e "objetos em ouro e prata". A existência, entre os bens inventariados, de mesas, estantes para acomodação dos livros, canastra, tamboretes, entre outros, revela a preocupação do eclesiástico com o interior do seu domicílio.

Entretanto, o que mais chamou a atenção foi a biblioteca, devido à quantidade e à diversidade de livros18. Entre os volumes inventariados estavam um tomo Soares de Penitência em folio, dois tomos Soares cursos Filosóficos em folio velhos, um tomo Nogueira Exposito Bulo Cruciato em folio, uma Prosódia de Bento Pereira19, três tomos do (cretase) de Gratinao de Gregório Nono de Bonifácio Oitavo em folio, um tomo de Comentário de Justiniano em folio, dois tomos de Pisinelle Mundus (sic) em folio, um tomo de Picinelle Lumino Reflexa em folio, um tomo de Amaro dos Anjos Sermões, 11 tomos de Cornélio Alaúde em folio, cinco tomos de Nova Floresta de Bernardes20, 15 tomos de Sermões do Padre Vieira, uma Bíblia Sacra, um tomo de Gradus Act Parnasum21 in oitavo, um tomo Ritual Romano, um tomo Ofício de defunto, um tomo de Ordenandus Pugadores e Confessores in quarto, um livro espiritual intitulado Luz e Calor22 in quarto, um Brasilia Pontifitio in quarto grande, um tomo Exercício de Rodrigues Espiritual23 em folio, dois tomos de Lacroix Teologia Moral em folio, três tomos de Bispado Teologia Expeculativa in folio capa de pergaminho, um tomo de um Breviário, cinco latins Teologia Concionatorio in cloze , um Comento de Virgílio dos Eglolos (sic) pergaminhos, dois tomos de Sermão de Frei José de Lima24, um tomo de Stromos Predicaris, um tomo de Céu Místico25, um tomo de Sermões de Quaresma de frei José de Souza, um tomo de Conpello de Cerimónias, um tomo de Cerimónias de Bernardes, um tomo de Romano, um tomo de Sermão de frei António Lopes Cabral intitulado Poncarpia, um tomo de Arte Prática de Consoantes, um tomo de Biblioteca Secreto de Pregadores, um Responso, um Arte Franceza intitulada "O Mestre", um Arte Franceza de La Rué e um caderno de Santos Novos.

Entre os inventários deixados por mulheres destaca-se o de Catarina Teixeira da Conceição. Embora este monte-mor26 não esteja entre os mais expressivos da vila de Sabará, sua análise torna-se interessante, na medida em que podemos apreender um pouco sobre o viver dessa mulher numa sociedade essencialmente masculina. É interessante observar a referência a alguns credores: Manoel Marques do Rego, Manoel Bernardes Coutinho (reverendo padre), João da Costa Correia de Melo, Thomas Rodrigues Guimarães (alferes). A inventariada possuía ainda seis escravos e uma casa térrea coberta de telhas.

O espólio de Catarina Teixeira da Conceição está concentrado, principalmente, na diversidade de objetos de ouro e prata e utensílios domésticos, apontando para a circulação material característica da época em que viveu. Faziam, ainda, parte do espólio uma variada gama de tecidos e peças de vestuário, entre os quais mantos de seda, saias de chita, brilhantina, melanina cor-de-rosa, algumas anáguas de algodão, lenços de cambraia, lã, algumas fronhas de linho. Seu mobiliário era composto por catres de jacarandá torneado e alguns de pau branco. Do mesmo material Catarina possuía, ainda, uma mesa, um armário e um oratório. Os baús também faziam parte do rol de bens de Catarina, sendo um de moscovia, outro de couro cru. Vale à pena ressaltar que, também em Portugal continental, de norte a sul, verificava-se, nessa época, a presença bastante usual de móveis, tais como caixas e baús, que serviam para acondicionar uma imensa variedade de produtos, desde roupas e serviços de louça e prata até sementes e queijos (Madureira, 1989; Durães, 2000; Olival, 2011).

Os utensílios domésticos revelam ainda um pouco mais sobre o modus vivendi de Catarina. Entre os objetos para uso doméstico, encontramos colheres e garfos em prata, tachos em cobre, bacia usada para fazer pão de ló, coco de cobre, chocolateira de cobre, candeeiro de latão, bacia e forro de estanho, pratos de estanho, colheres de estanho, colheres de latão, garrafa de vidro, bandejas de cobre pintadas de xará da Índia, pratos finos de guardanapo da Índia, pratos de pedra, copo de vidro, tabuleiro pintado, trempe de ferro. Foram ainda descritos bens de uso profissional, utilizados provavelmente por seus escravos, tais como machados, alavancas, facões de ferro e ainda um ferro de pescoço utilizado, provavelmente, para castigar um escravo desobediente.

Seu inventário, embora pouco extenso, revela aspectos interessantes do viver nas Minas. A presença de baú de moscovia, tecidos de chita, linho, cambraia, móveis de jacarandá e pau branco, talheres de prata e cobre e pratos indianos demonstra o trânsito de tais objetos pelos pontos mais longínquos do mundo português. O oceano Atlântico não representou, nesse contexto, um obstáculo para que a Índia, a Bretanha, a Rússia, entre outras paragens, passassem a fazer parte do cotidiano de Catarina Teixeira da Conceição, sem que ela tivesse saído, sequer, da vila de Sabará.

Há, contudo, outro aspecto a ser considerado ao analisarmos o papel desempenhado pelos objetos na composição dos espólios, bem como na formação da identidade: a possibilidade de inserção que eles conferiam a homens e mulheres mestiços no cotidiano branco e livre. Júnia Furtado destaca que

[...] todos os sinais exteriores anunciavam a posição que cada um ocupava. Por essa razão as forras preocupavam-se em vestir-se com luxo, tanto para comparecer nas cerimônias como para sair às ruas do arraial, pois a vida transcorria aos olhos de todos e o espaço público fornecia a oportunidade de afirmação do papel social que cabia a cada um desempenhar (Furtado, 2003:137).

A reprodução - não somente na posse de jóias e vestuário, mas também na posse de escravos - foi uma maneira encontrada por mestiços de buscar a paridade numa sociedade extremamente hierarquizada como a da América Portuguesa. Aqui, novamente, debruçamo-nos sobre um inventário feminino: o da preta forra Catarina de Barros, casada com Domingos da Silva e moradora na rua do Largo da Igreja Grande, em Sabará. Do seu casamento nasceu somente um filho, Inácio, que tinha 15 anos quando a mãe faleceu. De seu inventário post-mortem chamaram nossa atenção os bens relacionados com o seu vestuário (saias de seda, camisas, pano de lemiste preto, anágua, par de meias), assim como os objetos em ouro e prata (cordões de ouro, cruz com uma volta de cordão, botões de ouro, argolas de ouro, brincos esmaltados, Verónica de São Bento, coração de filigrana, palito de ouro com cordão, braceletes de corais, memórias de ouro, botões de prata, feitio de Nossa Senhora da Conceição, feitio do Espírito Santo, unha de onça), que revelam a preocupação de Catarina de Barros em acumular objetos semelhantes àqueles utilizados pelas mulheres brancas, livres e católicas. Na partilha dos bens couberam ao cônjuge, Domingos da Silva, os utensílios domésticos, a morada de casas e os escravos. Ao filho, Inácio, Catarina de Barros deixou os objetos em ouro e prata.

Naturais do Reino e das Minas formavam a sociedade da vila de Sabará. O mundo atlântico português estava em constante movimento, possibilitando aos seus habitantes o acesso a bens provenientes dos mais remotos cantos do globo. A circulação do marfim africano, do ouro brasileiro, do vinho português, do algodão maltês, da seda indiana, da saraça asiática e de outros produtos do Império não ficou restrita às grandes praças mercantis do litoral. Catres, tamboretes, baús de moscovia e vinhático, sopeiras indianas, facas flamengas, uma infinidade de objetos usados no dia-a-dia por homens e mulheres que não atravessaram o Atlântico e que podiam ter em suas mesas de pau-branco louças, talheres, guardanapos dos quatro cantos do mundo português.

Os produtos do Império chegavam aos domicílios do sertão e foram a matéria-prima para a confecção de calções e vestias, dos punhos de armas que foram talhados, das imagens religiosas esculpidas em madeira e, muitas vezes, folheadas a ouro. Nesse contexto, a atividade comercial foi fundamental não só para a fixação do contingente humano nas Minas Gerais do século XVIII, mas também para a circulação dos bens desembarcados nos portos da América Portuguesa. Mais do que um elo entre o litoral e os sertões mineiros, os comerciantes que se estabeleceram nas Minas foram responsáveis por introduzir na região um elevado nível de mobilidade. O fluxo humano e de mercadorias expressava-se na diversidade de produtos de uso pessoal e profissional, originários não somente às demais regiões da América, mas também da Ásia, da África e da Europa.

 

Notas

1. Tecido confeccionado a partir da lã.

2. Tecido fino e transparente de linho ou de algodão.

3. Tecido de algodão, estampado a cores.

4. Na última década do século XX, foi publicado no Brasil um conjunto de cinco volumes intitulado Equipamentos, usos e costumes da casa brasileira, escrito pelo historiador Ernani Silva Bruno. Trata-se de um projeto empreendedor, caracterizado por uma vasta pesquisa sobre o cotidiano das casas brasileiras, desde o século XVI até o século XIX. A coleção reúne informações sobre alimentação, construção, costumes, objetos e equipamentos. A consulta aos resultados do projeto pode ser feita também no website http://www.mcb.sp.gov.br/ernMain.asp.

5. Segundo as Ordenações Filipinas, a ordem de sucessão dos herdeiros era a seguinte: primeiramente os descendentes, seguidos dos ascendentes. Na terceira linha de sucessão estavam os herdeiros colaterais, nomeadamente, primos, sobrinhos e tios (cf. Ordenações Filipinas, Livro IV, Títulos 96, p. 954-968).

6. Documentos Diversos, RAPM, 1987, ano 2, 507.

7. Entre os anos de 1803 e 1805 - pouco antes, portanto, da transferência da família real portuguesa para o Brasil -, os produtos vindos do Reino eram a maioria (38%) entre aqueles que foram importados para o país. Em seguida, vinham os produtos originários de outras regiões europeias (22%), seguidos pelos produtos provenientes de outras regiões da América Portuguesa (20%). À África e à Ásia couberam, respectivamente, 15% e 5% do valor das importações naquela época.

8. Classificação utilizada por Charles Boxer para caracterizar os comerciantes ligados à comercialização de produtos manufaturados em grande escala. Além disso, esses comerciantes também transitavam no mercado da especulação e de empréstimos.

9. Giovanni Antônio ou João Antônio Andreoni ou, como ficou conhecido, André João Antonil, foi um jesuíta italiano que, antes de se integrar à Companhia de Jesus, estudou direito civil na Universidade de Perúgia, na Itália. Quando completou 18 anos, em 1667, ingressou na Companhia de Jesus. Chegou em Salvador, na capitania da Bahia, em 1681, onde faleceu em 1716. Aqui exerceu o cargo de reitor do Colégio por duas vezes, tendo sido o provincial de 1705 a 1709. Antonil foi um estudioso da economia, sendo a sua obra Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas, publicada em 1711, considerada pelos historiadores como um dos melhores estudos feitos sobre a economia e sociedade das Minas no século XVIII. A exposição feita por Antonil das condições socioeconômicas das Minas foi vista pela Coroa portuguesa como uma ameaça à tão almejada estabilidade buscada para aquela região. Em função disso, a maioria dos exemplares da obra de Antonil foi confiscada e retirada de circulação.

10. Documentos Diversos, RAPM, 1987, ano 2, 517.

11. No século XVIII, a América Portuguesa estava dividida, em termos administrativos, em capitanias, que, por sua vez, estavam divididas em comarcas. A capitania de Minas Gerais estava dividida em mais três comarcas, além da do Rio das Velhas: a de Vila Rica, onde foi instalada a sede do governo, em 1720; a do Serro Frio, com sede em Diamantina; e a do Rio das Mortes, com sede em São João del Rei.

12. O rio das Velhas nasce no município de Ouro Preto e deságua no rio São Francisco. Foi um importante marco natural na delimitação do território dos sertões mineiros e, também, no processo de descobrimento do ouro e, posteriormente, de seu escoamento.

13. A descoberta do ouro nas Minas Gerais, em finais do século XVII, foi responsável pela atração de elevado número de pessoas das mais variadas regiões da América, mas também do além-mar. No caso da imigração portuguesa para a América, grande parte do contingente que para lá se dirigiu provinha da região noroeste de Portugal, nome adamente do Entre-Douro-e-Minho. A transposição do Atlântico pelos portugueses significou também, em alguma medida, a transposição de práticas culturais e do próprio modus vivendi português, expresso, por exemplo, na posse de alguns objetos de uso pessoal e doméstico, provenientes daquela região. É o caso dos adornos em ouro, trabalhados artesanalmente e empregando a técnica da filigrana, ou das colchas provenientes de Guimarães, artigos característicos da região minhota.

14. Relativamente aos africanos e mestiços, deve-se considerar, ainda, que a vivência da religião nestes segmentos da sociedade da América Portuguesa não se traduziu somente na devoção de santos cristãos, mas no uso, muitas vezes simultâneo, de objetos cristãos e africanos destinados à proteção pessoal. Os crucifixos critãos eram, assim, unidos a balangandãs africanos.

15. Para a elaboração deste gráfico foram analisadas 758 entradas de objetos pessoais e profissionais referentes aos 171 inventariados residentes na vila de Sabará. Entre os 758 bens arrolados nos inventários, 116 forneciam a origem.

16. A filigrana é um trabalho ornamental feito a partir de fios extremamente finos de ouro, juntamente com pequenas bolas de metal soldadas e reunidas de maneira a compor um desenho. Tal técnica é, nos dias atuais, bastante utilizada por ourives da região norte de Portugal. Suas peças são usadas frequentemente no conjunto do vestido de noiva tradicional e, ainda, no traje feminino dos ranchos folclóricos do Minho.

17. Leito pobre e tosco.

18. Os títulos dos livros aqui apresentados foram transcritos conforme estavam no inventário, razão pela qual muitos deles tiveram seus títulos em latim preservados no momento da descrição do inventário.

19. A obra a que se refere é PEREIRA, Bento; CARNEIRO, Domingos, Regras geraes, breves, e comprehensivas da melhor ortografia, com que se podem evitar erros no escrever da lingua latina, e portugueza para se ajuntar à Prosodia ordenadas pelo author della, o P. D. Bento Pereira da Companhia de Jesus, Qualificador do Santo Officio Approvadas por varões peritissimos em huma, e outra lingua Dividem-se em trez partes A primeira he das regras commuas à lingua latina e portugueza. A segunda he das tocantes só à latina. A terceira he das tocantes só à portugueza. Lisboa: Oficina Domingos Carneiro, 1666.

20. A obra a que se refere é BERNARDES, Manuel; DESLANDES, Valentim da Costa; SILVA, José António da, Nova Floresta ou Sylva de varios apophtegmas e ditos sentenciosos espirituais, e moraes: com Reflexoens, em que o util da doutrina se acompanha com o vario da erudição, assim divina, como humana. Lisboa: Officina de Valentim da Costa Deslandes, 1796.

21. A obra a que se refere é de autoria desconhecida, mas intitulada Parnasum philosophicum, seu gnomateumata scotistica... logica, physica metaphysica.... versos latinos. Ulyssipone: Typ. Michaelis Rodriguees, 1749.

22. A obra a que se refere é BERNARDES, Manuel; DESLANDES, Miguel, Luz, e calor: obra espiritual para os que tratão do exercicio de virtudes, & caminho de perfeyção: dividida em duas partes... / escrita pelo P. Manoel Bernardez. Lisboa: Officina de Miguel Deslandes, 1696.

23. A obra a que se refere é RODRIGUES, Afonso, Exercício de perfeição e doutrina espiritual para extinguir vicios e adquirir virtudes. Lisboa: Offic.. de João Gabrão, 1632.

24. A obra a que se refere é PILAR, Bartolomeu do; FERREIRA, José Lopes; FERREIRA, Manuel Lopes, Sermam nas exequias do Illustrissimo, e Reverendissimo Senhor D. Fr. Francisco de Lima terceiro Bispo de Pernambuco, celebradas na sua Cathedral de Olinda em 2. de Junho de 1704 / que pregou o M.R.P.D. Fr. Bartholomeu do Pilar Religioso de N. Senhora do Carmo da Provincia de Portugal... Lisboa: Officina de Manoel e Joseph Lopes Ferreyra, 1707.

25. A obra a que se refere é AZEVEDO, Sebastião, Céu místico. Lisboa: Off. António Pedroso Gabam, 1725.

26. Designa-se como monte-mor o valor monetário total dos bens acumulados por um indivíduo e avaliados, seja por determinação de suas incapacidades mentais, seja por seu falecimento. Do monte-mor retiram-se as dívidas contraídas pelo inventariado e que não tinham ainda sido quitadas, ficando o restante do valor para ser dividido entre os herdeiros.

 

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Artigo recebido em 30 de junho de 2011 e aprovado para publicação em 20 de setembro de 2011.