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Estudos Históricos (Rio de Janeiro)

Print version ISSN 0103-2186

Estud. hist. (Rio J.) vol.25 no.49 Rio de Janeiro Jan./June 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-21862012000100001 

IN MEMORIAM

 

Gilberto Velho (1945-2012) - In memoriam

 

 

Celso Castro; Julia O'Donnell

 

 

Não é tarefa fácil escrever um texto em memória de alguém que desapareceu de maneira tão precoce e inesperada, deixando um legado acadêmico tão vasto e importante. Mais que isso, o fato de termos sido orientados por Gilberto tanto no mestrado quanto no doutorado acrescenta um peso emocional que apenas o sentimento de dever homenageá-lo consegue superar. Esse sentimento se torna ainda mais candente pelo fato de vir a ser publicado numa revista que teve o privilégio de tê-lo em seu Conselho Editorial, e que, em suas palavras, expressava plenamente "o pluralismo disciplinar que é a marca da instituição."1

Gilberto foi o fundador da Antropologia Urbana no Brasil, com sua pioneira dissertação de mestrado de 1970, A utopia urbana, publicada em livro em 1973. Ali, em meio a um contexto intelectual amplamente dominado por uma Antropologia dedicada ao estudo das sociedades indígenas, Gilberto ousou lançar seu olhar à temática do cotidiano e dos estilos de vida em uma grande metrópole. A partir de um extenso trabalho de campo em um edifício de apartamentos conjugados em Copacabana, a pesquisa partia de uma das mais gritantes características do bairro – a heterogeneidade – para investigar e discutir aquilo que identificava como uma visão de mundo característica de um grupo social específico – a classe média white-collar. Mais que um trabalho pioneiro, nascia ali uma sólida e frutífera tradição de estudos que faziam da cidade e das camadas médias urbanas objeto de conhecimento.

Sua obra, no entanto, não se restringiu de forma alguma a esse recorte sub-disciplinar. Em livros como Individualismo e cultura (1981), Subjetividade e sociedade (1986) e Projeto e metamorfose (1994), Gilberto estabeleceu-se como um pensador da temática mais ampla das sociedades complexas moderno-contemporâneas. Fez isso, é importante ressaltar, sem insistir no esforço de demarcar fronteiras disciplinares. Muito pelo contrário, transitou por diversas disciplinas e dialogou com diferentes tradições intelectuais, incorporando plenamente uma perspectiva interdisciplinar que era, a seu ver, a qualidade mais nobre das Ciências Sociais. A leitura de seu impressionante currículo, ou de entrevistas como a que deu à Estudos Históricos (n. 28) mostra a importância que atribuía a uma efetiva aproximação com disciplinas tão diversas como os estudos literários e o "mundo psi", a História e a Filosofia.

Foi com essa postura de pensador do mundo social no seu sentido mais profundo que se depararam as muitas gerações de alunos que tiveram o privilégio de participar de um (ou vários, como acontecia com frequência) de seus antológicos cursos de Antropologia Urbana ou de Antropologia das Sociedades Complexas, regularmente ministrados no Museu Nacional. Neles, estudantes das mais diferentes áreas de conhecimento se reuniam para discutir textos que iam desde As bacantes até capítulos de uma dissertação de mestrado recém-defendida, num ambiente intelectual deliberadamente marcado pelo respeito acadêmico e pelo gosto à diversidade intelectual. "Sociedades são complexas porque os indivíduos são complexos", costumava dizer de modo a atentar para os perigos de soluções generalizantes ou simplificadoras. Em meio à impressionante erudição e à evidente paixão com que Gilberto se dedicava ao ofício, não era difícil perceber que, para ele, mais que uma disciplina, a Antropologia era uma forma de ver, compreender e estar no mundo.

Não obstante sua franca abertura a variadas tradições de pensamento, Gilberto gostava de situar-se numa linhagem intelectual que passava por autores como Georg Simmel, Robert Park, Everett Hughes e Howard S. Becker, sem deixar de acrescentar autores clássicos da Antropologia Social ou mesmo literatos e filósofos nessa rede de referência. Mais que desenvolver-se como seguidor fiel de uma escola de pensamento, ele preferia aproveitar, de tudo o que conhecia, o que lhe ajudasse melhor a compreender a realidade social. Fosse na satisfação com que acompanhava pesquisas em andamento, no comprometimento com que se dispunha a ler as (muitas) teses e dissertações que lhe chegavam ou no entusiasmo com que anunciava a descoberta de um autor turco, Gilberto era incansável na tarefa de buscar novos olhares sobre o mundo social. Avesso a modismo, era com o mesmo empenho que fazia recorrentes visitas a clássicos já quase esquecidos, sempre apresentando aos alunos as muitas antropologias de tempos e lugares distintos.  

Foram valores como esses que Gilberto procurava passar, em suas aulas e nas cerca de 100 dissertações e teses que orientou, a seus alunos e orientandos. Nada lhe era mais desprezível do que o pedantismo intelectual, a intolerância com pontos de vista divergentes ou a falta de decoro acadêmico. Para além de formar alunos, buscava sempre formar profissionais éticos e  sensíveis à diversidade. Em troca, sempre buscou ser um ouvinte disponível e um leitor atento, mas também cobrando reciprocidade através da exigência de rigor e seriedade. Nesse sentido, o papel de orientador não era, para ele, uma atividade complementar à docência e à pesquisa, e sim parte fundamental de sua atuação como intelectual. Sua inabalável disposição para ler, comentar e discutir os textos de seus alunos deixou marcas inconfundíveis em cada um dos trabalhos que orientou, conformando uma verdadeira linhagem de estudos comprometidos com o estudo das sociedades complexas.  

Gilberto apreciava a atuação pública do intelectual, no que era muito valorizado por seus pares. Por isso, veio a ocupar posições importantes como a presidência da ABA e da ANPOCS e a vice-presidência da SBPC. Foi também conselheiro do CNPq, do IPHAN e do Conselho Federal de Cultura, além de ter inaugurado a presença das Ciências Humanas na Academia Brasileira de Ciências.

Não podíamos encerrar esse breve memorial sem mencionar sua excepcional capacidade de mediar e promover encontros acadêmicos, profissionais e pessoais entre indivíduos de diferentes círculos sociais, tanto no Brasil quanto no exterior, sempre com a marca da generosidade, cavalheirismo e humor, atributos de que muito sentiremos falta nós, que com ele tivemos o privilégio de conviver.

 

 

1 "O lugar da interdisciplinaridade", in: CPDOC 30 anos, p. 18.