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Estudos Históricos (Rio de Janeiro)

Print version ISSN 0103-2186On-line version ISSN 2178-1494

Estud. hist. (Rio J.) vol.30 no.60 Rio de Janeiro Jan./Apr. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/s2178-14942017000100001 

Editorial

Perspectivas Globais e Transnacionais: Vida (e morte?) da História Global

Alexandre Moreli, Editor convidado1 

1Escola de Ciências Sociais da Fundação Getulio Vargas (CPDOC/FGV)

O debate sobre os termos e os limites da chamada "virada global" das Humanidades encontra-se atualmente tão intenso e disperso que há alguns meses começou até mesmo a conhecer reflexões especulando sobre o seu fim. De fato, quando este número de Estudos Históricos estava em suas últimas semanas de edição, no que se acreditava ser, ainda, um momento de profusão de perspectivas globais e transnacionais, o historiador americano Jeremy Adelman publicou os ensaios "What is Global History now?" e "The clash of global narratives". Para Adelman, não só estamos entrando rapidamente em uma era de violenta antiglobalização, como as novas realidades sociais e políticas impostas por figuras como Donald Trump e Marine Le Pen, por exemplo, estão mostrando como as perspectivas nacionais estão se tornando mais importantes do que nunca, e como alguns historiadores talvez se tenham precipitado na "farra" da História Global, que ele chama provocativamente de short ride (viagem curta). Na verdade, Adelman parece criticar aqueles que viram na História Global um "elixir, uma maneira de se tornar relevante para o seu público", em uma precipitação que ao longo do caminho, de forma equivocada, desconsiderou a importância da complexidade do espaço e do jogo de escalas.

Será mesmo que chegamos ao fim do que se poderia, então, chamar de uma das mais ambiciosas, mas breves, escolas dentro da História? Na verdade, apesar das interessantes reflexões que propõe e da importante crítica a certo modismo imperante, a própria perspectiva dos textos de Adelman, fortemente centrada na realidade política, acadêmica e historiográfica do eixo Atlântico Norte (o efeito local da eleição de Trump parece ser desproporcionalmente transportado para o resto do mundo pelo historiador), mostra que os debates em torno da História Global ainda podem avançar, sobretudo se buscarem uma plataforma comum para novas redes de pesquisa e para a contínua provincialização da Europa (e do eixo Atlântico Norte...).

Continuar considerando essas perspectivas torna-se uma das maneiras mais incisivas de entender que a globalização (ou nova fase da globalização), lançada nos anos 1970, deve ser tomada de forma muito relativa como motor ou estopim do movimento da História Global, sobretudo porque ela é fortemente baseada no impacto sobre os europeus do fim do processo de descolonização e nos efeitos sobre a sociedade americana da guerra do Vietnã. Ou seja, ela própria é centrada na experiência histórica e na perspectiva do eixo Atlântico Norte, apresentando, portanto, condições muito delimitadas como fenômeno histórico projetado no tempo e no espaço. Se algumas tradições historiográficas apenas começam a procurar novas vias de reflexão, e mesmo se são perceptíveis diversas convergências, discussão sobre transferências, circulação de ideias e influências recíprocas entre elas ainda é rara. Há uma fragmentação clara, efeito da fundação positivista das novas Ciências há cerca de um século e meio, com forte influência da agenda de criação dos Estados-Nação, mas há também uma imensa riqueza de arcabouços teóricos, conceituais e metodológicos, alguns com várias décadas de existência. A novidade parece estar, na verdade, em um diálogo inédito dentro da academia.

De fato, como disse o historiador Robert Frank, que dá uma interessante entrevista para este número, lembrando o clássico texto de 1928 de Marc Bloch, "já faz muito tempo que nós sabemos que devemos sair do quadro nacional" (Frank, 2012/1: 7). Sabemos disso desde muito, muito antes dos anos 1970. Séculos antes, se lermos atentamente o rico texto que Sanjay Subrahmanyam publica aqui. A cacofonia atual por trás do debate sobre História Global, que provoca um momento de "incerteza e transição" na disciplina histórica, como disse Maxine Berg (2013: 18), entretanto, é facilmente identificada no conjunto das obras de síntese ou que se lançam em uma discussão teórico-conceitual e até mesmo epistemológica sobre a questão dentro das Ciências Humanas. Ela provavelmente se explica porque, desde o início do século XX, historiadores têm saído do quadro nacional em tempos e de formas diferentes.

Zhang Xupeng (2013/4 nº 16: 89), por exemplo, em um interessante exercício de revisão da historiografia chinesa contemporânea, revela que a influência de um projeto político de construção de Estado-Nação na China fez com que, na segunda metade do século XX, os historiadores do país apenas começassem a adotar o modelo que, duas década antes, já estava sendo questionado por Bloch. No Brasil, por sua vez, depois da era das "mitografias" do século XIX, como escreveu Maria Helena P. T. Machado (2000), o país conheceria os projetos nacionalistas de Vargas e Capanema e a fundação dos cursos de História nos anos 1930, com profundos efeitos na área até hoje, a ponto de criar até mesmo uma forte historiografia regionalista, que pouco dialoga entre si (dentro do próprio Brasil!), como lembrou o historiador Jeffrey Lesser durante uma palestra de lançamento de seu livro A invenção da brasilidade, no CPDOC, em março de 2016. O caos fica ainda mais complexo quando se percebe que, na África, segundo as palavras de mea-culpa de Catherine Coquery-Vidrovitch (2013/4: 111), não só existe uma enorme produção negligenciada por redes de pesquisa fora da região, como essa produção forma um conjunto extremamente complexo, com pouca organicidade, com assimetrias provocadas por questões materiais e pelas diferentes línguas em que as narrativas são produzidas.

Hoje, quando as facilidades de comunicação colocam a comunidade acadêmica de historiadores em contato de forma mais rápida e acessível, ainda que vetores de difusão continuem concentrados no eixo Atlântico Norte (como as referências bibliográficas desta Apresentação atestam), as diferenças e o caos historiográfico por trás do rótulo do global ficam mais evidentes do que nunca. Se a História Global conseguir ser um palco comum para que essas realidades se encontrem e dialoguem, além de discutir as unidades de análise a serem utilizadas no futuro, então ela merece estar mais viva do que nunca.

Sensível a esse contexto, este número de Estudos Históricos, mais do que trazer interessantes exemplos de como se pode fazer História reconsiderando tempo e espaço projetados no passado, pretende apresentar um estado da arte e ser, ele mesmo, uma plataforma de debate.

Estudos Históricos, de certa forma, tem sido uma caixa de ressonância dessas discussões de quase 100 anos. Tem sido mesmo palco delas desde seus primeiros números, nos anos 1980, como atesta o nº 2, que tem como tema Identidade Nacional (v. 1, n. 2, 1988) e é aberto por um artigo de Elisa Reis sobre "O Estado Nacional como ideologia: o caso brasileiro". Enquanto Reis analisou criticamente a realidade construída do Estado-Nação no Brasil, expondo suas entranhas e alertando os leitores para os diferentes significados das fronteiras, outros números, desde então, exploraram distintos aspectos dessa mesma realidade, como o número sobre Heróis Nacionais (v. 14, n. 25, 2000), ou sua contestação, através da desconsideração ou do desafio das mesmas fronteiras construídas, como os números dedicados à Globalização (v. 6, n. 12, 1993), à América Latina (v. 10, n. 20, 1997, e v. 22, n. 44, 2009) e aos Estados Nacionais e Globalização (v. 23, n. 46, 2010).1 A conjugação desses debates demonstra claramente não bastar que um ser humano cruze uma fronteira e estabeleça uma relação com outro ser humano para que o fenômeno da nação tenha que deixar de ser considerado, ainda que aquela pessoa não esteja a serviço do Estado. Essa bagagem de debate faz-se importante para entender que, se hoje há desconstrução, descentralização e descompartimentalização de processos sociais, houve e continua a haver seu contrário. Todos merecendo a atenção do historiador.

Agora, neste número sobre História Global, a revista oferece uma nova rodada de discussão sobre como se fazer História. Depois das iniciativas de História, Ciências, Saúde-Manguinhos, com o dossiê "Brazil in the Global Context (1870-1945)" (v. 21, n. 1, jan./mar. 2014), e da Revista Brasileira de História, com o dossiê "O Brasil na História Global" (v. 34, n. 68, jul./dez. 2014), e aproveitando-se da organização da Global History Conference pelo CPDOC, em outubro de 2016,2Estudos Históricos lançou uma chamada "global" e publica um número contendo contribuições advindas de diferentes tradições, horizontes culturais e espaciais, todas oferecendo subsídios para a construção da plataforma da História Global.

De fato, uma boa parte dos textos pôde ser debatida durante os encontros da referida Conferência e refletem a riqueza das discussões e a dimensão dos desafios. A contribuição do historiador José Antonio Sanchez-Román, por exemplo, é fruto direto do relatório final apresentado por ele no encerramento do encontro, trazendo um riquíssimo balanço das ideias e dos debates que lá tiveram lugar. Utilizar as diferentes ideias possíveis de "América Latina" (como de espaço e de cultura, por exemplo) serviu de ponto de partida para os textos aqui apresentados. A sofisticação das análises apresentadas pelos autores, entretanto, lhes permite dialogar diretamente com todas as outras iniciativas que discutem, hoje, como escreveremos história no futuro.

Sem que, necessariamente, uma ordem cronológica defina sozinha sua organização, a seção Artigos traz primeiramente a contribuição de dois historiadores preocupados com um corte cronológico bem distante do tempo presente e bem anterior à febre de construção do Estado-Nação no Ocidente no século XIX. Ryan Crewe, de um lado, e Thiago Mota, de outro, construíram narrativas que transformam os espaços oceânicos não em zonas de vazio, mas de intensas e diferentes presenças; uma maneira interessante de reconsiderar áreas como Ásia e África a partir do eixo das Américas e de seus canais de comunicação no Pacífico e no Atlântico.

Em seguida, o artigo de José Augusto Ribas Miranda apresenta uma inovadora modalidade de entender circulação e constituição de conexões em amplos espaços no século XIX. Enquanto considera o sistema internacional de mercado financeiro e de dívida soberana, revela dinâmicas transnacionais que o permeiam e também o constituem, como a história do próprio capital, da reputação, da ambição e até mesmo do crime.

Já o texto de Cristián Castro, avançando pelas primeiras décadas do século XX, apresenta-se como um interessante exemplo de como, dentro do debate da História Global, se pode aproveitar a riqueza teórico-conceitual existente há décadas para propor novas narrativas hoje, sem que seja necessário reivindicar rupturas na História. Ao analisar a imprensa negra em São Paulo e Chicago, Castro lança mão da obra de Benedict Anderson para construir uma "comunidade imaginada transnacional", focando na construção de um discurso anti-hegemônico sobre raça nesses espaços.

Os esforços para relativizar o forte nacionalismo metodológico ainda presente em diversas comunidades acadêmicas na América Latina encontram eco no artigo de Juan Suriano. Assim como têm feito historiadores brasileiros ao discutir o trabalhismo no Brasil considerando o contexto global de conflitos bélicos, Suriano analisa as consequências para o movimento operário argentino dos impactos provocados pela Grande Guerra, propondo, assim, um interessante caminho para a História Global na região.

Mais adiante, reforçando a riqueza de possibilidades de debates, Marcos Chor Maio e Thiago Costa oferecem ainda outra forma de se questionar as diversas ideias de fronteira que possam existir nas Humanidades. Para além de relativizar e desarranjar fronteiras políticas e culturais, o texto de Maio e Costa é um convite para se pensar a virada global como um momento de questionamento das fronteiras entre as próprias Ciências Humanas ao analisar a pesquisa do sociólogo Donald Pierson sobre relações raciais.

Encerrando a sequência de textos com forte corte temático, encontra-se o artigo de Stella Krepp sobre a complexidade da Guerra das Malvinas. A contribuição de Krepp é reverter perspectivas imperantes sobre o conflito, geralmente marcadas por olhares do eixo Atlântico Norte, corrigindo assimetrias e questionando o já mencionado eurocentrismo através da análise da solidariedade terceiro-mundista em torno do conflito.

Os dois últimos textos da seção de Artigos, sendo o penúltimo dos pesquisadores Pedro Afonso Cristovão dos Santos, Thiago Lima Nicodemo e Mateus Henrique de Faria Pereira, e o último de Aldo Marchesi, oferecem uma interessante ponte para os artigos que fecham este número, consolidando-o como uma plataforma de debate sobre as potencialidades e os limites de uma escrita global da história latino-americana. Enquanto Santos, Nicodemo e Pereira analisam as possibilidades de uma "história global autocrítica", inspirados pelos Estudos Subalternos e pelos Estudos Pós-coloniais, Marchesi traz uma contribuição às iniciativas que procuram vincular as tradições globais e locais de escrita da história da Guerra Fria, uma das frentes mais densas do debate atual da História Global.

Em seguida aos artigos, temos na seção Ensaio Bibliográfico uma copiosa contribuição de Albert Manke, Katerina Brezinova e Laurin Blecha, os quais, tendo em mente a importância de se integrar o "sul global" aos estudos sobre Guerra Fria, oferecem uma revisão da literatura produzida nos últimos anos na Europa e nas Américas, indicando os avanços já conquistados e os potenciais a serem ainda explorados.

Passando para a seção das Contribuições Especiais, temos o texto de Sanjay Subrahmanyam, que, muito gentilmente, não somente cedeu a Estudos Históricos os direitos de publicação em português de sua Aula Inaugural no Collège de France em 2013, como se ofereceu para rever o texto e fazer os ajustes necessários. Suas reflexões, como já mencionado, ajudam-nos a entender a profundidade do debate por trás do rótulo do "global". Em seguida temos o texto de José Antonio Sanchez-Román, um rico balanço da Global History Conferece, mas também um rico debate sobre espaço, tempo e escrita da história, e o texto de Diego Olstein, um promissor acadêmico que tem se esforçado nos últimos anos para oferecer um pouco de ordem ao caótico debate sobre a História Global.

Lembrando as expressões utilizadas no título do artigo de Sanchez-Román, a leitura de todos esses importantes estudos aqui publicados certamente provocará "reflexões", mas resultará igualmente em diversas "dúvidas". Talvez ainda seja cedo para algum "compromisso", pois, se a História Global puder ser definida como um encontro, ainda estamos apenas em seu início. De toda a forma, a entrevista com Robert Frank, que encerra este número, oferece diversas pistas nesse sentido. Frank desmistifica vários apelos da História Global e enfrenta a difícil tarefa de compreender o todo e o que está em jogo nesse debate, inclusive politicamente.

A todas e a todos, uma excelente leitura!

Notas

1Todos os artigos de Estudos Históricos podem ser livremente acessados no website da Revista: http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/index.

2A Conferência reuniu, no Rio de Janeiro, o 2º Coloquio Internacional: Latinoamérica y la Historia Global e o 2nd Workshop Latin America in Global Context, em um encontro organizado pela Escola de Ciências Sociais da FGV, pela UFRRJ, pela USP/Labmundi, pela University of Pittsburgh, pela Universität Bern e pela Red Latinoamericana de Historia Global. O programa da conferência pode ser acessado em: http://ri.fgv.br/sites/default/files/noticias/arquivos-relacionados/ghc_programa.pdf.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ADELMAN, Jeremy. What is global history now?, Aeon, publicado on-line em 2 de março de 2017 em https://aeon.co/essays/is-global-history-still-possible-or-has-it-had-its-moment, visitado em 3 de março de 2017. [ Links ]

______. The Clash of Global Narratives, H-Diplo/ISSF, Policy Seriesm America and the World - 2017 and Beyond, publicado on-line em 15 de março de 2017 em https://issforum.org/roundtables/policy/1-5U-clash, visitado em 15 de março de 2017. [ Links ]

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Alexandre Moreli é professor da Escola de Ciências Sociais da Fundação Getulio Vargas (CPDOC/FGV).

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