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Revista Brasileira de Ciência Política

versão impressa ISSN 0103-3352versão On-line ISSN 2178-4884

Rev. Bras. Ciênc. Polít.  no.24 Brasília set./dez. 2017

https://doi.org/10.1590/0103-335220172401 

Artigos

Mudança de valores em países latino-americanos: comparando os índices de pós-materialismo e valores emancipatórios

Value change in Latin American countries: comparing the indexes of post-materialism and emancipatory values

Lucas Toshiaki Archangelo Okado *  

Ednaldo Aparecido Ribeiro **  

*Pesquisador do Núcleo Estudos em Participação Política da Universidade Estadual de Maringá (Nuppol/UEM). Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Paraná (PPGCP/UFPR). E-mail: <lucas.okado@gmail.com>.

**Professor da UEM e do PPGCP/UFPR. E-mail: <ednaldoribeiro@icloud.com>.


Resumo

Desde a identificação do fenômeno do pós-materialismo por Ronald Inglehart no início dos anos 1970, o processo de mensuração dos valores tem passado por constantes atualizações metodológicas. Recentemente Christian Welzel propôs uma revisão da teoria da mudança valorativa, criando uma nova medida denominada índice de valores emancipatórios. O objetivo desde trabalho é testar a aplicabilidade desta medida no contexto de alguns países da América Latina, comparando-a com o índice de pós-materialismo de Inglehart. Utilizando dados do projeto World Values Survey, as medidas foram comparadas utilizando-se dois critérios de construção de escalas e redução de dimensões que a literatura descreve como formativo e reflexivo. Os resultados indicam maior confiabilidade do índice de valores emancipatórios e atestam a sua aplicabilidade no contexto latino-americano.

Palavras-chave: cultura política; valores; pós-materialismo; valores emancipatórios.

Abstract

Since the identification of the phenomenon of post-materialism by Ronald Inglehart in the early seventies, the process of measuring values has passed by constant updating and methodological revisions. Recently Christian Welzel proposed a revision of the theory of value change, creating a new measure for phenomenon: the emancipative values index. The aim of this paper is to test the applicability of this measure in the context of some Latin American countries, comparing it with Inglehart's post-materialism index. Using data from the World Values Survey project, we compare both measures using two scaling and dimension reduction criteria: formative and reflective approach. The results obtained identify a greater reliability of the emancipative value index and attests its applicability in the context of Latin America.

Keywords: political culture; values; post-materialism; emancipative values.

Introdução

Os estudos sobre mudança de valores foram, juntamente às pesquisas sobre capital social de Putnam (1993), responsáveis por reascender o interesse na abordagem culturalista em meados dos anos 1970. No centro do debate sobre a mudança de valores estão os trabalhos de Ronald Inglehart e seus diversos colaboradores que, desde o final dos anos 1970, têm apontado a ocorrência da mudança de valores, principalmente em sociedades industriais avançadas, de uma postura materialista em direção a uma postura pós-materialista.

O desenvolvimento econômico e o aumento dos níveis educacionais e da qualidade de vida têm feito com que haja o abandono de valores de orientações materialistas, voltados para a acumulação e a sobrevivência física imediata, em direção a valores pós-materialistas, com ênfase na liberdade, na autoexpressão e na realização pessoal (Inglehart, 1971). Outros trabalhos também se dedicaram a estudar a transformação dos valores, como as dimensões autoritária e libertária de Flanagan (1979), mas os estudos sobre a síndrome do pós-materialismo tornaram-se hegemônicos nos trabalhos sobre mudança valorativa, em grande parte por conta do vasto material empírico produzido pelo projeto do World Values Survey (WVS).

Sendo uma agenda de pesquisa discutida a mais de quatro décadas, a teoria de Inglehart foi amplamente escrutinada, recebendo críticas das mais variadas possíveis1 ao longo desses anos. Mas tais críticas não impediram que esta agenda de pesquisa, principalmente a sua chave analítica, se deslocasse para países em desenvolvimento, inclusive na América Latina.

O índice de pós-materialismo (PM), instrumento utilizado para a mensuração das dimensões materialistas e pós-materialistas, tem sido empregado na análise de diversos objetos de pesquisa na região: estudos sobre gênero no Peru, no Brasil e no Uruguai (Cruz, Guibert e 2015; Ribeiro, 2011a; Vairo e Pérez, 2010); participação política na América Latina e no Chile (Ribeiro e Borba, 2010; Valenzuela, Arriagada e Scherman, 2012); elites políticas brasileiras (Gatto e Power, 2016); e movimentos ambientalistas no México e na Argentina (Ponte e Smith, 2004; Walter, 2008). Todos estes estudos discutem ou se utilizam dos conceitos propostos por Inglehart.

Os estudos sobre a questão ambiental evidenciam a problemática de transpor estas chaves analíticas, as dimensões materialistas e pós-materialistas, para os países da região. Enquanto nas sociedades desenvolvidas o meio ambiente é uma agenda defendida principalmente entre os pós-materialistas (Inglehart, 1990), em países em desenvolvimento a pauta do meio ambiente mistura-se com a questão do acesso à terra e à agricultura de subsistência, permeando quase todas as camadas sociais (Ponte e Smith, 2004; Walter, 2008). Castro e Capistrano (2008) demonstram que o índice de pós-materialismo possui um efeito explicativo inferior nos países da região para o democratismo e a participação política. Ribeiro e Borba (2010), apesar de encontrarem efeitos significativos desta medida sobre o engajamento político na Argentina, no Brasil no Chile e no Peru, apontam a necessidade de se empregar estas medidas com cautela, uma vez que, na comparação com países desenvolvidos, a influência dos valores é menor.

Ao longo dos anos, o instrumento de mensuração proposto por Inglehart sofreu alterações. A primeira medida era composta por quatro itens (Inglehart, 1971). Posteriormente foram incluídos outros oito (Inglehart, 1990), desenvolvidos para cobrir os itens da escala de prioridade de Maslow (1954). Inglehart e Welzel (2005) propõem uma revisão dessa métrica ao apresentarem o índice de autoexpressão. Tomando como base a medida de pós-materialismo, estes autores acrescentam a bateria inicial de quatro itens, questões como aceitação da homossexualidade, sentimento subjetivo de felicidade, confiança interpessoal e participação em abaixo-assinados.

O objetivo destes autores é questionar os impactos da modernização no processo de democratização. Suas conclusões apontam que a modernização não leva à democracia, se não estiver acompanhada da mudança de valores. Esta mudança, por sua vez, é mediada por condições históricas e culturais, não ocorrendo em um processo linear.

Recentemente Welzel (2013) revê novamente a teoria da mudança valorativa. Abandonando o utilitarismo econômico, presente nos trabalhos de Inglehart, e adotando a abordagem das capacidades de Sen (1999), este autor propõe um instrumento de mensuração para entender a relação entre desenvolvimento, mudança valorativa e democratização. De forma resumida, o desenvolvimento levaria ao aumento das liberdades, que, por sua vez, aumentariam o sentimento de utilidade destas. Livres para agir conforme as suas escolhas e motivadas para tal, as pessoas buscariam transformar estas liberdades em garantias legais, levando ao aprofundamento da democracia. Este processo de atribuição de valor utilitário à liberdade é mensurado por meio do índice de valores emancipatórios (VE).

O objetivo do presente trabalho é comparar os índices de VE e de PM no contexto de alguns países da América Latina - Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México, Peru e Uruguai. Para além do simples exercício metodológico de comparação entre duas métricas, almeja-se aqui colaborar com o debate da agenda de pesquisa da mudança de valores, um conceito recorrente nos estudos de cultura política da região, por meio da apresentação de um novo instrumento de mensuração deste fenômeno, bem como a validação empírica dele.

Este artigo organiza-se da seguinte forma: a primeira seção oferece detalhes teóricos e metodológicos dos dois índices; na segunda seção apresentamos informações sobre o material empírico utilizado e os procedimentos estatísticos empregados na comparação; na terceira seção apresentamos e discutimos os resultados; por fim, na última seção há a conclusão.

Índices de pós-materialismo e valores emancipatórios

As propostas de Inglehart e Welzel assentam-se em dois conceitos distintos da teoria econômica para explicar o processo de mudança de valores. De acordo com Ribeiro (2011b), a teoria do pós-materialismo vale-se do conceito de utilidade marginal, baseado principalmente na pirâmide de prioridades de Maslow (1954), enquanto a teoria da emancipação humana adota a abordagem do desenvolvimento como liberdade de Amartya Sen (1999).

Segundo Inglehart (1990), as prioridades valorativas, ou aquilo a que os indivíduos atribuem valor subjetivo e definem como metas ou objetivos, estão relacionadas com as condições objetivas em que estão inseridos. Desta forma, em um ambiente de insegurança física, marcado pela escassez de condições materiais, os recursos necessários à sobrevivência adquirem alta utilidade marginal e são preteridos em relação às satisfações estéticas, intelectuais e à realização pessoal. Na medida em que o ambiente passa de uma condição de escassez para uma situação de abundância material, a preocupação com a sobrevivência imediata deixa de ocupar o rol de prioridades, dando lugar para outras metas. Esta transição acontece apenas se a sobrevivência não for uma preocupação, ou seja, se houver um sentimento de segurança física.

Em um ambiente de escassez de água, conseguir este recurso é essencial para a sobrevivência. Assim, um indivíduo que habita este ambiente vai devotar as suas energias para obtê-la. Satisfeita a necessidade por água, ele pode dedicar-se a buscar comida e abrigo, e assim por diante. Para Maslow (1954), as prioridades humanas podem ser divididas em cinco categorias: 1) necessidades fisiológicas, como água, comida e abrigo; 2) segurança e proteção; 3) necessidades de pertencimento ou sociais; 4) estima; e 5) autorrealização. Na concepção de Maslow esta hierarquia se estabelece como uma escala, em que o nível superior só pode ser atingido se as necessidades do nível anterior forem atendidas. Esta é o que Inglehart (1990) define como “hipótese da escassez”.

A “hipótese da escassez” não explica sozinha o processo de mudança de valores de uma sociedade. Alterações conjecturais nas condições de vida dos indivíduos não alteram as suas prioridades valorativas. Isto acontece porque os valores e as atitudes adquiridos durante as primeiras décadas de socialização consolidam-se durante os anos impressionáveis (Visser e Krosnick, 1998), permanecendo ao longo da vida. Os anos impressionáveis são o período de grande plasticidade, que se estende até o início da idade adulta, em que são incorporados os sistemas de crenças, valores e atitudes (Sears, 1975). Findado este período, estes sistemas consolidam-se e manifestam-se de forma latente ao longo de toda a vida (op. cit.).

A “hipótese da escassez”, operada em conjunto com a “hipótese da socialização”, explica o processo de mudança de valores. Indivíduos socializados em um ambiente de insegurança material incorporam valores orientados para as questões materiais. A alteração destas condições não produziria mudanças imediatas nas prioridades valorativas, uma vez que, findados os anos impressionáveis, os valores materialistas já estão consolidados. A geração seguinte, socializada em um ambiente de abundância, tenderia a dar menos ênfase às questões materiais, podendo orientar suas prioridades para outras questões não relacionadas às condições de sobrevivência imediata.

Para mensurar as prioridades valorativas dos indivíduos, Inglehart (1971) utiliza uma bateria de quatro itens, a primeira versão de seu índice de pós-materialismo, posteriormente ampliada. Nessa versão inicial os entrevistados eram solicitados a escolher duas opções entre as seguintes:

  1. Manter a ordem na nação;

  2. Dar às pessoas mais voz nas decisões políticas importantes;

  3. Combater a inflação;

  4. Proteger a liberdade de expressão.

Aos quatro itens da sua primeira versão do índice de pós-materialismo, foram adicionados os seguintes:

  1. Manutenção de altas taxas de crescimento econômico;

  2. Assegurar forças de defesa fortes;

  3. Dar às pessoas mais voz em como as coisas são decididas no trabalho e no seu país;

  4. Tentar fazer com que as cidades e as paisagens sejam mais bonitas;

  5. Manter a economia estável;

  6. Combater o crime;

  7. Mover em direção a uma sociedade mais amigável e menos impessoal;

  8. Mover em direção a uma sociedade em que as ideias são mais valorizadas do que o dinheiro.

Os 12 itens representam a construção final da bateria de pós-materialismo de Inglehart, e, em todos os seus trabalhos posteriores, os valores são mensurados desta maneira. Ao testar a sua validade interna, o agrupamento das cargas fatoriais acontece mais ou menos como o previsto, evidenciando as dimensões materialista e pós-materialista, com exceção do item “fazer as cidades mais bonitas”, que não assume nenhuma das dimensões. Futuramente Inglehart identifica que esta questão foi formulada de maneira ambígua e que permite um dúbio entendimento por parte do entrevistado, já que, ao mesmo tempo em que cidades mais bonitas têm um significado estético, elas também se relacionam com a ideia de uma cidade mais limpa ou segura (Inglehart, 1990). Ou seja, tanto indivíduos materialistas quanto pós-materialistas poderiam optar por esta questão, sem expressar contradições com os seus valores. Em análises posteriores, quando esse autor finaliza a versão definitiva do índice de pós-materialismo, ele remove este item. As dimensões da bateria de 12 itens são sistematizadas no quadro 1:

Quadro 1 Dimensões materialistas e pós-materialistas 

Fonte: Adaptado de Inglehart (1979b, p. 313).

A sua operacionalização dá-se a partir de três questões nas quais o entrevistado é levado a escolher a primeira e a segundo prioridades. Cada questão possui duas alternativas materialistas e duas alternativas pós-materialistas, e, para cada escolha do grupo de variáveis do segundo conjunto, é atribuído um valor de 1. Ao final, todas as respostas são computadas, excluindo as respostas à alternativa “tentar fazer com que as cidades e as paisagens sejam mais bonitas”, pelas razões descritas acima. O construto final é a somatória de todas as questões, produzindo uma escala de 6 pontos, variando de 0 (materialista) a 5 (pós-materialista).

Welzel (2013) rompe com o utilitarismo econômico presente nos estudos de Inglehart, ao propor uma nova explicação para o processo de mudança de valores, valendo-se da abordagem das capacidades para entender este fenômeno. Outra grande diferença está no próprio objeto de estudo em si. Inglehart primeiro identificou o que ele denomina como síndrome do pós-materialismo, para, em seguida, identificar os impactos da mudança de valores na política (Inglehart, 1979a), na religiosidade (Norris e Inglehart, 2011), nas relações de gênero (Inglehart e Norris, 2003), entre outros temas. Welzel, por sua vez, está preocupado com o processo de emancipação humana, sendo os valores emancipatórios por ele mensurados apenas uma parte deste.

O processo de empoderamento humano possui três características. A primeira delas são as condições existenciais, ou as capacidades de se agir de acordo com as próprias escolhas. Como condição existencial são descritos os recursos cognitivos, materiais e conectivos, denominados pelo autor de recursos de ação. Capacidades aqui têm o mesmo sentido utilizado por Sen (1999), ou seja, representam as condições objetivas de serem realizados os funcionamentos que são valorizados pelos indivíduos. Funcionamentos são as descrições de estados ou ações, ou o “ser” e o “fazer” (Pinheiro, 2012). As capacidades, entretanto, definem a liberdade de se escolher diferentes combinações de funcionamentos. A escolha é uma característica central das capacidades, uma vez que muitos funcionamentos acontecem independentemente da capacidade. Um exemplo é sentir fome, sensação vivenciada tanto por quem não tem o que comer quanto por alguém que opta por fazer jejum. No primeiro caso, a pessoa não tem a opção de não sentir fome, como no segundo.

O aumento dos recursos de ação leva à ampliação das capacidades dos indivíduos de agirem conforme as suas próprias escolhas, o que produz uma maior quantidade de funcionamentos alcançados livremente. A realização ou vivência de um funcionamento atribui utilidade, proporcionando maior bem-estar subjetivo (Sen, 1999). Na teoria de Welzel, a possibilidade de escolha levaria à atribuição de utilidade à liberdade, ou seja, aumenta o que este autor define como escala utilitária da liberdade. Isto leva ao segundo componente da emancipação humana, as orientações psicológicas.

Estas orientações são definidas como a valorização da independência de escolhas e das igualdades de oportunidades. O índice de EV foi desenhado para mensurar este processo. Estes valores correspondem às motivações para exercer a liberdade, ou seja, são o empoderamento psicológico dos cidadãos.

Com a capacidade de agir de acordo com as escolhas individuais e valorizando a liberdade, o último componente do empoderamento humano são as garantias legais para preservar essa liberdade. Com plenas condições de agir livremente e valorizando a utilidade da liberdade, o próximo passo é buscar a codificação destes valores em leis de modo a preservar os direitos de escolha e autonomia. Isto é o que Welzel (2013) denomina como regulamentação institucional e corresponde ao último componente do processo de emancipação. Aqui é retomada a polêmica relação entre cultura e instituição discutida por Inglehart (Inglehart, 1990; 1997; Inglehart e Welzel, 2005). A ideia central é que o desenvolvimento econômico, ou o aumento dos recursos de ação, não leva automaticamente ao aperfeiçoamento da democracia. A dispersão de valores condizentes com instituições democráticas é fundamental para que ocorram melhorias nestas, mas isso não conduz necessariamente à afirmação de que o sentido causal da relação entre cultura e instituição é unilateral, da primeira para a segunda. Apenas reconhece que a manutenção e o aperfeiçoamento do sistema democrático ocorrem a partir de uma relação de múltipla causalidade, ideia que já era defendida pelos primeiros teóricos culturalistas (Almond e Verba, 1989; Lijphart, 1980). O ciclo de emancipação humana pode ser descrito da seguinte maneira:

Quadro 2 Ciclo do empoderamento humano 

Fonte: Adaptado de Welzel (2013, p. 44).

A versão inicial do índice de valores emancipatórios possui quatro subíndices que representam as dimensões da autonomia humana: escolha, igualdade, voz e autonomia (Welzel, 2013). Em trabalhos mais recentes, todavia, esse último subíndice foi descartado (Welzel e Dalton, 2013). Cada uma dessas dimensões é operacionalizada por três variáveis do questionário do WVS, mensuradas de forma distinta. Desta forma, o autor padronizou todas as variáveis em escalas de 0 a 1, procedimento mantido nos testes aqui realizados.

O subíndice “escolha” é composto por três questões sobre a aceitação do aborto, do divórcio e da homossexualidade. O entrevistado é inquerido sobre o quanto tais comportamentos são justificáveis por meio de uma escala de 10 pontos, em que 1 significa que nunca são justificáveis e 10 que sempre o são. Já o subíndice “igualdade” utiliza perguntas que mensuram igualdade de gênero: a primeira delas indaga se, em um cenário de escassez de empregos, as mulheres devem ser preteridas em relação aos homens no acesso ao trabalho e o entrevistado responde se concorda, discorda ou nem concorda e nem discorda; a segunda questão refere-se à igualdade de acesso à educação, em que as vagas das universidades devem ser prioritariamente destinadas aos homens e o entrevistado seleciona entre quatro opções, que variam entre concorda muito e discorda muito da afirmação; por fim, a terceira variável mensura a concordância com a afirmação de que os homens são melhores líderes políticos do que as mulheres, respondendo de forma idêntica à questão que trata sobre acesso à educação; por fim, o subíndice “voz” utiliza os itens “proteção da liberdade de expressão”, “mais voz nas decisões do governo” e “mais voz nas decisões locais” da bateria de pós-materialismo de Inglehart.

Os dois primeiros itens deste subíndice fazem parte da mesma bateria no questionário do WVS, que indaga ao entrevistado sobre a sua primeira e segunda prioridades. Se foi selecionado como primeira e segunda prioridades a “proteção da liberdade de expressão” e “mais voz nas decisões do governo”, é atribuído 1. Caso selecione apenas uma entre as duas opções como primeira prioridade, o valor é 0,66. Se uma destas duas respostas figuram entre a segunda prioridade, é atribuído 0,33. Se elas não forem selecionadas em nenhuma destas prioridades, o valor é igual a 0. Na bateria que “mais voz nas decisões locais” faz parte, apenas esta variável é selecionada; desta forma, se ela figurar como primeira prioridade, o valor do componente do subíndice é igual a 1; se for selecionada como segunda prioridade, ele passa a ser 0,5; e se não for escolhida como primeira e nem segunda prioridade, é definido como 0. Apesar de o subíndice “voz” possuir três componentes, tal como os demais, ele é construído a partir de duas variáveis, dada a forma como os componentes são mensurados. Os componentes do índice de valores emancipatórios são sistematizados no quadro 3:

Quadro 3 Valores emancipatórios 

Fonte: Adaptado de Welzel e Dalton (2013, p. 293).

Cada um dos três subíndices é mensurado em uma escala que varia de 0 a 1, e o construto final também possui a mesma amplitude, obtido por meio da somatória ponderada dos anteriores, com pesos iguais para cada um deles.

Dados e métodos

Para comparar a aplicabilidade das duas medidas na América Latina são utilizados os dados levantados durante a sexta onda - 2010 a 2014 - do projeto WVS. Este projeto é formado por uma rede de investigadores que tem como objetivo realizar pesquisas de opinião pública acerca de valores e atitudes. É a partir deste projeto, inaugurado por Ronald Inglehart, que são obtidas as informações para construir tanto o índice de PM quanto o de VE. Foram selecionados os oito países da América Latina presentes no levantamento realizado durante a sexta onda do WVS: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México, Peru e Uruguai.

A intenção é mapear as diferenças entre estas duas medidas para identificar sua utilidade objetivando estudar a mudança de valores nessa região. Isso é feito por meio de testes de confiabilidade das duas escalas de forma comparativa. Primeiramente verificamos a consistência interna das variáveis que compõem os dois índices, avaliando em que medida os valores das variáveis sobrepõem-se uns aos outros, de modo a justificar o agrupamento delas em um índice. Logo em seguida é testada a consistência externa das medidas, avaliando qual a sua capacidade explicativa sobre os fenômenos que ambos se propõem a explicar.

Esta metodologia obedece a duas abordagens distintas na criação de índices. A primeira delas é descrita na literatura como “reflexiva” (Diamantopoulos, 1996), e corresponde ao modelo clássico de criação de escalas descrito nos manuais de pesquisa quantitativa. Esta abordagem obedece a uma lógica dimensional (Welzel, 2013), na qual os elementos são agrupados com base nos efeitos que geram uns sobre os outros. Dimensão, no caso, seria o agrupamento das variáveis que possuem efeitos relacionados ou que possuem a sua variância explicada pela variância dos outros componentes. Pressupõe, portanto, a existência de um fator comum, não necessariamente observável, que explica a covariação do conjunto (Figueiredo Filho e Silva Júnior, 2010) e que justificaria o agrupamento das variáveis em uma única medida.

O método mais recorrente de identificação destas dimensões é a extração por meio de uma análise de componentes principais ou análise fatorial. Dado que as variáveis que compõem ambos os índices são escalares, a análise fatorial é realizada a partir de uma matriz de correlação policórica, na qual as variáveis X e Y são divididas em n variáveis ξ latentes, onde n é igual ao número de categorias das variáveis X e Y. Sendo assim, “a correlação policórica estima a associação entre duas variáveis latentes, que se assumem com distribuição normal bivariada, subjacentes a duas variáveis ordinais manifestas” (Maroco, 2010, p. 74).

A segunda metodologia de construção de índices é definida como “formativa”, e agrupa os componentes da escala a partir da sua validação externa (Diamantopoulos, 1996; Diamantopoulos e Siguaw, 2006; Diamantopoulos e Winklhofer, 2001; Welzel, 2013). Diferentemente da sua contraparte “reflexiva”, esta segunda abordagem preocupa-se em reunir os itens da medida a partir da sua relação com a variável dependente, e não pela existência de fatores comuns. Logo, o que é levado em conta na construção de um índice “formativo” não é a sua consistência interna, e sim a sua validação externa.

Para a validação dos índices de PM e VE, usando uma abordagem “formativa”, são utilizadas duas variáveis que representam a causa e uma das consequências de tais valores. Conforme descrito nas seções anteriores, tanto Inglehart (1971) quanto Welzel (2013) definem como causa dos respectivos fenômenos que estudam as condições objetivas de vida. A síndrome de pós-materialismo, de acordo com a hipótese da escassez (Inglehart, 1990), afirma que os indivíduos atribuem prioridade à sua sobrevivência imediata. Apenas quando a sobrevivência física não se encontra sob risco, as pessoas poderiam deslocar suas prioridades valorativas para perseguir objetivos relacionados à estética, ao desenvolvimento intelectual e à busca pela liberdade (op. cit.). Este deslocamento nas prioridades valorativas aconteceria por meio de câmbios geracionais: segundo a hipótese da socialização, indivíduos que vivenciaram os seus primeiros anos de vida em um ambiente de escassez material ainda manteriam valores materialistas. Na medida em que as gerações futuras forem sendo socializadas sem restrições à sobrevivência física, esta deixa de figurar no seu rol de prioridades, deslocando a sua atenção para metas relacionadas à autoexpressão.

Welzel (2013), por sua vez, afirma que os seres humanos possuem um desejo universal pela liberdade, mas condições existenciais impõem limites para exercer a livre escolha. De acordo com a sua teoria, o indivíduo vai atribuir baixa utilidade para a liberdade se viver em um ambiente escasso de recursos de ação: materiais, intelectuais e de conexão. Na medida em que estes recursos são incrementados, também aumentam as suas capacidades para exercer a liberdade universal. Este processo de empoderamento existencial leva à validação utilitária da escolha, e, por sua vez, à valorização dela. Ele é denominado empoderamento psicológico e é responsável pelas motivações para exercer a liberdade.

As condições objetivas de vida figuram, então, como causa da síndrome de pós-materialismo e do empoderamento humano, tal como descritos por Inglehart (Inglehart, 1977; 1990; Inglehart e Welzel, 2005) e Welzel (2013). De acordo com ambas as teorias, sociedades mais ricas teriam uma proporção maior de indivíduos com valores pós-materialistas ou emancipatórios, uma vez que teriam menos preocupações relacionadas à sobrevivência física. Como medida de disponibilidade de recursos, utilizamos em nossos testes o Produto Interno Bruto (PIB) per capita, medido em dólares e com valores constantes, tendo como referência o ano de 2010. Tal medida é cruzada com a proporção da população de cada país que manifesta tais valores. A linha de corte para ambas as medidas é a mediana do índice. Desta forma, foi definido como portador de valor pós-materialista todos os indivíduos que se encontram entre os valores 3 e 5. Já aqueles que manifestam valores emancipatórios foram definidos como os que se situam entre 0,51 e 1.

Diferentemente do que é feito no teste da consistência interna, aqui foi feita a opção de não restringir a análise apenas para os países da América Latina. Dado o número de casos, foram incluídos, nesta parte da análise, todos os países participantes da sexta onda do WVS. Qatar e Singapura foram retirados da análise por apresentarem valores muito destoantes do restante da amostra. Tanto os valores de VE quanto PM foram demasiado baixos, comparados com o PIB per capita. Hong Kong, Kuwait e Palestina também foram removidos da análise pela ausência de dados complementares. Se a manifestação de valores pós-materialistas e emancipatórios é influenciada pelas condições materiais e pelos recursos disponíveis, sociedades mais ricas teriam uma proporção maior de indivíduos portadores de tais valores. Consequentemente, a relação linear entre o PIB per capital e a proporção da população que manifesta valores PM ou VE seria positiva. Quanto maior a relação linear, mais condizentes são as expectativas teóricas em relação aos achados empíricos.

As duas teorias relacionam a posse de valores PM e VE a uma postura mais democrática e operam com base teórica idêntica: a posse de maiores recursos elimina as restrições para agir conforme as próprias escolhas, aumentando a capacidade de as pessoas agirem conforme as suas escolhas, no caso da teoria do desenvolvimento humano (Inglehart e Welzel, 2005), ou validando a utilidade atribuída à liberdade, aumentando as motivações para agirem livremente (Welzel, 2013). Com o aumento das capacidades e das motivações para exercer a liberdade, aumentariam também as demandas por garantias legais para exercê-la. É lógico supor, então, que exista uma relação, observável no nível individual, entre a posse destes valores e uma posição de valorização da democracia.

Ribeiro (2011) encontrou uma relação entre a posse de valores pós-materialistas e uma postura de valorização da democracia no contexto brasileiro. Gibson e Duch (1994) observam fenômeno parecido na Rússia. Inglehart e Welzel (2005) associam a disseminação de tais valores aos processos de democratização. Por sua vez, Welzel (2013) e Welzel e Dalton (2013) encontraram evidências empíricas da relação entre a disseminação de valores emancipatórios e maior qualidade da democracia.

Para conduzir esta análise foram selecionados novamente os oito países latino-americanos presentes na sexta onda do WVS - Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México, Peru e Uruguai. Como variável dependente foi criado um índice de democratismo que, na verdade, mensura a adesão a valores não democráticos.2 Tal medida é criada a partir de cinco variáveis pinçadas do WVS que mensuram a avaliação de diferentes tipos de governo: militar, governo de um líder forte e um governo de técnicos. As outras duas variáveis questionam se é uma característica da democracia as leis serem interpretadas por religiosos e a possibilidade de intervenção dos militares em um governo insatisfatório. Todas as cinco variáveis foram agrupadas em uma escala,3 normalizada em valores que variam de 0 a 1. Esta medida é regredida, tendo como variável independente os índices de PM e VE, primeiro para a América Latina e depois para cada um dos oito países separadamente. Como parâmetro de análise é adotado o coeficiente de beta e seu respectivo erro, bem como o valor do r quadrado ajustado. Espera-se que haja uma relação negativa entre esta medida e as médias de PM e VE. O quadro 4 sumariza os procedimentos metodológicos adotados para comparar as medidas de PM e VE:

Quadro 4 Testes de comparação entre PM e VE 

Elaboração dos autores.

Resultados e discussões

A tabela 1 mostra o porcentual da população que possui PM e VE nos países que foram sondados na sexta onda do WVS. Nota-se que as medidas são díspares e, apesar de se proporem a mensurar fenômenos similares, a proporção da população de cada país que se identifica com valores pós-materialistas aparenta não ser a mesma que se identifica com valores emancipatórios. Há um grupo de 11 nações (Argentina, Austrália, Alemanha, Japão, Holanda, Nova Zelândia, Eslovênia, Espanha, Suécia, Estados Unidos e Uruguai) em que a proporção da população que possui VE é maior do que a de PM. Em 20 países (Argélia, Azerbaijão, Bahrein, Colômbia, Gana, Índia, Iraque, Jordânia, Líbano, Líbia, Malásia, Marrocos, Nigéria, Paquistão, Filipinas, Ruanda, Tailândia, Turquia, Uzbequistão e Zimbábue) o número de PM excede o número de VE. No restante dos países, a diferença entre as duas medidas não ultrapassa a margem de erro da pesquisa.

Tabela 1 Porcentagem de PM e VE em cada país 

Fonte: World Values Survey Official Aggregate File V.20150418 (WVS, 2014).

Os dados indicam a existência de um aparente padrão na composição dos três grupos, uma vez que, com a exceção do Japão, apenas países ocidentais figuram entre o primeiro grupo. A existência de um viés cultural nas respostas das baterias que compõem ambos os índices é uma hipótese razoável para explicar por que existem diferenças entre estas duas medidas. A construção de modelos específicos é imprescindível para responder a esta questão, que, infelizmente, não figura entre o escopo dos objetivos deste trabalho. Mas a hipótese inicial de que ambas as baterias mediriam o mesmo fenômeno de maneira distinta aparentemente não é válida. O que a tabela 1 demonstra é que os indivíduos pós-materialistas não possuem, necessariamente, valores emancipatórios, e vice-versa. Por se valer de variáveis que medem a igualdade de gênero, a aceitação do aborto e da homossexualidade, os VEs podem ser afetados pela secularização e pela religião, uma vez que tais valores são rejeitados por diversas religiões. Uma população majoritariamente cristã ou mulçumana poderia ter valores emancipatórios baixos, mesmo estando em um estágio de transição para uma economia pós-industrial. Esta hipótese deve ser testada em um momento oportuno posterior.

Passando agora para a análise da consistência interna das medidas de pós-materialismo, a tabela 2 mostra os resultados da análise de componentes principais a partir da matriz de correlação policórica. Tal como previsto pela teoria, apenas um fator foi extraído, representando a dimensão pós-materialista. Os valores dos fatores extraídos excedem 0,3, valor mínimo para a interpretação de uma estrutura (Hair Jr., et al. 2010, p. 115), mas ainda aquém do ideal de 0,5 para justificar o seu agrupamento. Existe uma tendência de que o indivíduo que escolheu uma opção que representa este conjunto de valores o faça nas três baterias. A variância compartilhada entre os fatores na primeira medida é de 16%, na segunda representa 20%, e na terceira 22%. No contexto da América Latina, o índice de pós-materialismo demonstra frágil confiabilidade interna.

Tabela 2 Consistência interna das medidas de pós-materialismo na América Latina 

Fonte: World Values Survey Official Aggregate File V.20150418 (WVS, 2014).

Obs.: p. < 0,001.

O próximo passo separa a população de cada país da América Latina e verifica a consistência interna do índice de Inglehart em cada um deles. A tabela 3 traz os escores da análise de componentes principais com ajuste policórico para os oito países da região que foram incluídos na sexta onda do WVS. Novamente aqui se observa que o agrupamento dos fatores acontece como descrito pela teoria. Apenas um fator foi extraído em todos os países, indicando que o padrão observado na região repete-se nos países individualmente. Apesar da metodologia empregada neste trabalho diferenciar-se levemente de Ribeiro (2007), os resultados aqui encontrados diferem do que este autor descreve sobre as medidas de pós-materialismo, pois se esperava que as cargas fatoriais fossem superiores. Ainda que estas medidas tenham apresentado, em sua maioria, valores superiores a 0,3, valor mínimo para a adequação do modelo, são insuficientes para afirmar que existe uma única dimensão. É importante destacar, todavia, que o autor mencionado utiliza dados de outra onda do WVS, então a diferença nos resultados pode ser resultado de uma mudança da estrutura de valores da região.

Tabela 3 Consistência interna das medidas de pós-materialismo nos países da América Latina 

Fonte: World Values Survey Official Aggregate File V.20150418 (WVS, 2014).

Nota: * p. <0,001.

No caso do Equador, a medida 1 não apresenta um escore superior a 0,3, o que implicaria exclusão desta variável na construção final do modelo, dado que a variância compartilhada com os outros componentes do índice é de apenas 6%. Contudo, o Chile apresenta escores que poderiam justificar o emprego do índice de PM neste contexto nacional específico, ainda que a medida 2 apresente um escore de 0,48, muito próximo do valor ideal. Todos os outros países apresentam escores superiores a 0,3, mas inferiores ao valor ideal de 0,5. Fazendo a ressalva do caso chileno, em que a medida mostrou-se adequada, e do equatoriano, no qual um dos componentes não mostrou relação com os outros que justifique o seu agrupamento, podemos dizer que as medidas de PM têm uma consistência interna relativamente frágil nos países presentes neste estudo.

Por sua vez, os componentes do índice de VE também se agruparam obedecendo às expectativas teóricas, tanto no nível 1 (subíndices) quanto no nível 2 (índice de VE). Diferentemente do que foi feito para analisar o índice de PM, aqui foi empregada a técnica de análise fatorial com uma rotação não ortogonal (oblíqua),4 uma vez que o método de construção do índice adotado por Welzel (2013) transforma as variáveis em escalas de 0 a 1. A tabela 4 traz os resultados dos escores do modelo, composto pelas variáveis dos subíndices (nível 1) e o agrupamento deles (nível 2).

Tabela 4 Consistência interna das medidas de valores emancipatórios na América Latina 

Fonte: World Values Survey Official Aggregate File V.20150418 (WVS, 2014).

No nível 1, todas as variáveis agrupam-se nos seus respectivos subíndices, tal como a teoria descreve. O primeiro fator, escolha, é composto pelas variáveis que questionam o entrevistado acerca da aceitação da homossexualidade, do aborto e do divórcio, respectivamente. Já o segundo fator representa a dimensão da igualdade: igualdade de gênero no trabalho, na política e no acesso à educação. Por fim, o terceiro fator é formado pelos itens do subíndice voz, extraído a partir da bateria de PM de Inglehart e formado pelos itens “proteção à liberdade de expressão” e “mais voz nas questões locais e nacionais”. Podemos constatar que as variáveis formam os subíndices, e estes se agrupam em uma única dimensão, o que justifica a construção do índice.

A consistência interna do índice de VE é muito superior à verificada para a medida de PM. No contexto da América Latina, todos os subíndices produziram cargas fatoriais com valores superiores ao limite crítico de 0,5 estabelecido pela literatura, comportando-se como previa a teoria. No nível 2, o índice de VE apresentou cargas fatorais acima de 0,6, contra um valor de 0,4 das medidas de PM. Apesar de o índice de PM também demonstrar um comportamento condizente com a literatura, produzindo uma única dimensão, os valores das cargas fatoriais são inferiores ao limite aceitável, o que indica uma maior fragilidade interna desta medida.

Tabela 5 Consistência interna do índice de VE (Argentina, Brasil, Chile e Colômbia) 

Fonte: World Values Survey Official Aggregate File V.20150418 (WVS, 2014).

Obs.: Os dados em negrito mostram o agrupamento das cargas fatoriais.

Todos os subíndices foram agrupados nos três fatores que correspondem à igualdade, à escolha e à voz, tal como previa a teoria, quando analisados os casos de cada país. Além disso, os valores das cargas dos fatores extraídos são superiores a 0,5 em todos os componentes dos subíndices. No caso da Colômbia, o componente 1 do subíndice de igualdade apresenta um valor de 0,46, algo muito próximo do ideal, o que ainda justificaria o seu agrupamento. Pode-se observar um padrão no comportamento desta variável, pois ela apresenta valores inferiores em todos os países - mas ainda dentro do limite. Este componente do subíndice de igualdade corresponde à igualdade de oportunidades entre homens e mulheres no acesso ao trabalho. Ainda que o valor da carga fatorial extraída justifique o seu agrupamento com os outros dois componentes - igualdade de gênero no acesso à educação e à política -, os resultados indicam que a igualdade de acesso aos postos de trabalho possui uma intercorrelação menor com os outros dois componentes.

Tabela 6 Consistência interna do índice de VE (Equador, México, Peru e Uruguai) 

Fonte: World Values Survey Official Aggregate File V.20150418 (WVS, 2014).

Obs.: Os dados em negrito mostram o agrupamento das cargas fatoriais.

Argentina e Chile apresentam as maiores cargas fatoriais no índice de VE, tanto no nível 1 quanto no nível 2, seguidos pelo Uruguai (tabelas 5 e 6). Tal resultado também pode ser observado na análise das cargas fatoriais do índice de PM (tabela 3), o que evidencia a proximidade teórica das medidas propostas por Welzel (2013) e Inglehart (1977). Mas, diferentemente do índice de PM, em todos os países as medidas de VE apresentam valores satisfatórios que justificam o agrupamento, tanto dos subíndices quanto do construto final. A única exceção é o Equador, em que foram extraídos dois fatores no nível 2. Os subíndices voz e igualdade pertencem a uma única dimensão, e o subíndice escolha compõe uma dimensão independente. Dado que tanto os valores pós-materialistas quanto os valores emancipatórios apresentam incongruências, no caso do Equador, o processo de mudança de valores tem ocorrido de forma distinta daquilo que a teoria descreve. Considerando o critério da abordagem reflexiva na construção de índices, as medidas de PM e VE neste país devem ser empregadas com cautela.

Ainda que as duas medidas de valores apresentem os escores mínimos aceitáveis para identificar a existência de dimensões, o índice de PM está muito aquém do ideal de 0,5 definido pela literatura (Hair Jr. et al., 2010). Contudo, o índice de VE apresenta escores muito mais elevados do que o índice de PM, bem como a variância compartilhada entre seus componentes, o que indica que há um ajuste melhor entre eles. Mesmo que ambos sejam satisfatórios, de acordo com os critérios da abordagem reflexiva, o índice de VE mostra-se superior ao de PM, pois apresenta uma consistência interna maior.

O índice de pós-materialismo de Inglehart propõe-se a mensurar uma única dimensão da mudança cultural. Ele inicialmente foi pensado para captar as alterações das prioridades valorativas em sociedades pós-industriais (Inglehart, 1990). Segundo este autor, a mudança de valores ocorreria nas economias altamente desenvolvidas e que eliminaram as pressões existenciais. O emprego destas medidas em países em desenvolvimento sempre foi feito de forma condicional: por ainda existirem pressões existenciais e não haver a difusão generalizada do sentimento de segurança física, países em desenvolvimento, como os da América Latina, não vivenciariam o fenômeno da mudança cultural de forma generalizada, como em países com economia pós-industrial. Existe, nestes países, uma parcela da elite que manifesta valores pós-materialistas, mas tais valores não estão dispersos nas suas populações.

Por sua vez, Welzel (2013) tem uma proposta teórica mais abrangente, e, talvez, mais ambiciosa. Este autor propõe uma teoria evolutiva do empoderamento humano. Baseado no axioma de que todo ser humano busca a liberdade, ele entende que as pressões existenciais aumentam ou diminuem a utilidade da emancipação humana. A preocupação aqui é mensurar a utilidade atribuída à liberdade, por meio das dimensões da escolha, da igualdade e da voz. Por ser uma teoria construída com uma proposta mais generalista, podemos supor que seu índice também possui uma validade em um maior número de casos. O que os dados indicam é que, de acordo com a perspectiva “reflexiva”, o índice de VE tem mais consistência interna do que a medida de PM. Em sociedades pós-industriais espera-se, por sua vez, que estas medidas se igualem.

A segunda parte da análise agora trata de verificar a confiabilidade externa destas duas medidas. A abordagem formativa afirma que, mais importante do que a confiabilidade interna, é a consistência externa, ou seja, a relação de causalidade do índice com outras variáveis que realmente importam no processo de construção da medida (Diamantopoulos e Siguaw, 2006; Diamantopoulos e Winklhofer, 2001; Welzel, 2013). Seguindo o que foi proposto acima, a análise da confiabilidade externa das medidas é feita a partir de dois parâmetros: primeiramente é testada a relação linear, no nível agregado, entre porcentagem da população que manifesta valores PM e VE e o PIB per capita; medida é usada como proxy de condição material em ambas as teorias. Espera-se que haja uma relação linear entre esta variável e os índices de PM e VE.

O gráfico 1 traz a correlação entre a porcentagem de indivíduos que manifestam valores pós-materialistas e o PIB per capita, demonstrando que não há uma correlação linear entre as medidas. Já o gráfico 2 correlaciona a porcentagem da população que possui valores emancipatórios e o PIB e sugere fortemente um padrão linear entre estas duas variáveis. Os valores emancipatórios aparentam ser mais responsivos ao PIB per capita do que os valores pós-materialistas.

Inglehart afirma que a mudança de valores acontece por meio de câmbios geracionais (Inglehart, 1997), logo, mudanças bruscas nas condições materiais levariam à mudança nas prioridades valorativas, mas de forma lenta e gradual. Entretanto, a crise financeira, desde meados dos anos 2000, apresentaria efeitos que poderiam ser sentidos no último levantamento do WVS.

Fonte: World Values Survey Official Aggregate File V.20150418 (WVS, 2014) e indicadores do Banco Mundial.

Gráfico 1 Média de valores pós-materialistas e PIB per capita 

Fonte: World Values Survey Official Aggregate File V.20150418 (WVS, 2014) e Indicadores do Banco Mundial.

Gráfico 2 Média de valores emancipatórios e PIB per capita 

Os valores emancipatórios não trabalham com a hipótese da socialização. O incremento nos recursos - materiais, intelectuais e sociais - diminuem os constrangimentos à escolha (Welzel, 2013), e, por isso, são mais responsivos às mudanças de curto prazo. Se o PIB per capita é o indicador que mensura, em ambas as teorias, as condições materiais, e estas, por sua vez, são responsáveis pelas mudanças nos valores, podemos afirmar que os valores emancipatórios são mais responsivos a esta medida e apresentam, portanto, maior consistência empírica.

Por fim, a última parte da análise da confiabilidade externa traz a regressão, tomando a medida de democratismo como dependente. A tabela 7 mostra os coeficientes de regressão das medidas de PM e VE como preditores do democratismo para todos os países da América Latina presentes neste estudo.5 Nota-se, primeiramente, que a capacidade de explicação dos valores emancipatórios é maior. Enquanto os valores PM explicam apenas 1% da adesão à democracia, o modelo do VE explica pouco mais de 5% da variância do índice de democratismo. Em ambos os modelos o r 2 é relativamente baixo, ou seja, não explicam a variância do democratismo. Cabe ressaltar que o objetivo aqui não é explicar as bases do apoio à democracia, e sim qual a validade dos índices de PM e VE no contexto latino-americano. O democratismo é um fenômeno multidimensional (Booth e Seligson, 2009) e não pode ser explicado unicamente pela posse ou não de valores pós-materialistas ou emancipatórios. Em segundo lugar, a proporção entre o coeficiente B e o erro-padrão é menor no modelo do VE, o que indica que há uma margem de erro menor em relação ao modelo dos valores PM.

Tabela 7 Coeficientes de regressão democratismo e VE e PM na América Latina 

Elaboração dos autores.

Nos modelos que analisam esses efeitos para os países isoladamente, a situação é mais emblemática. No caso da medida de Inglehart, os efeito no México. Isto indica que a população pós-materialista na Colômbia, no Equador, no Peru e no Uruguai não difere muito dos materialistas em termos de adesão à democracia, o que vai na contramão das expectativas teóricas. Mesmo nos países em que os modelos foram estatisticamente significantes, apenas na Argentina e no México a capacidade explicativa do modelo extrapolou 1%. Para os outros países o R quadrado ajustado foi inferior a este valor.

Tabela 8 Coeficientes de regressão democratismo e valores pós-materialistas 

Elaboração dos autores.

Os valores emancipatórios tiveram um resultado um pouco mais satisfatório. Conforme demonstra a tabela 9, todos os oito países apresentam coeficientes significativos. Outro dado interessante são os valores do R quadrado ajustado. Todos os modelos apresentam valores superiores a 1%, com a exceção do Equador. Na Argentina, os valores emancipatórios explicam 12% da variação da adesão à democracia. No Chile, este valor chega a 9%. Estes resultados indicam que a medida de VE é um indicador mais robusto para explicar a adesão à democracia, ainda que no caso do Brasil, da Colômbia e do México esta medida explique pouco mais de 1% da adesão à democracia.

Tabela 9 Coeficientes de regressão democratismo e valores emancipatórios 

Elaboração dos autores.

O quadro 5 traz o sumário dos resultados das análises acima. Tratando da consistência interna das medidas de PM e EV, ambos os índices são satisfatórios e apresentam justificativas estatísticas para o agrupamento das variáveis que os compõem. Como dito acima, apenas o Equador apresenta inconsistência, e isto ocorre tanto para as medidas de PM quanto de VE. O emprego destas medidas neste país não deveria ser feito se adotados os pressupostos reflexivos de construção de escalas.

Passando para a análise da consistência externa, a variável que é descrita como sendo uma das responsáveis por causar o fenômeno da mudança de valores só apresenta uma relação linear com o índice de VE. O PIB per capita, aqui empregado como medida de condição material, apresenta um R 2 linear de 0,69, com a proporção de pessoas que manifestam valores emancipatórios nos 54 países presente na sexta onda do WVS, o que é um valor razoavelmente alto para os estudos do campo.

Quadro 5 Sumário dos resultados 

Elaboração dos autores.

Ao analisar os supostos efeitos sobre o democratismo, em metade dos casos não encontramos resultados estatisticamente significativos para o índice de pós-materialismo. Entretanto, todos os casos apresentaram coeficientes significativos para as medidas de VE. Comparando o sumário dos resultados, podemos concluir que o índice de valores emancipatórios apresentou um desempenho mais satisfatório quando comparado ao índice de pós-materialismo.

Conclusões

O índice de pós-materialismo é resultado de uma agenda empírica que procurou identificar os padrões de mudança de valores em sociedades pós-industriais. O que Inglehart e seus diversos colaboradores identificaram ao longo dos últimos 30 anos foi que a mudança de valores, de uma postura que enfatiza as questões materiais para uma postura que prioriza aspectos pós-materialistas, têm produzido impactos significativos em diversos aspectos da política (Inglehart, 1977; 1979a; 1995; Inglehart e Norris, 2003; Inglehart e Welzel, 2005; Norris e Inglehart, 2011; Ribeiro e Borba, 2010). Desde a publicação de Silent Revolution em 1977, a bateria inicial de quatro itens foi sendo aprimorada até a versão final composta por 12 itens (Inglehart, 1997).

O objetivo deste trabalho era comparar o índice de valores emancipatórios com o índice de pós-materialismo. De fato, o índice de VE apresenta resultados mais consistentes, tanto na confiabilidade interna quanto na sua relação com os fenômenos externos. Em termos empíricos, a análise dos resultados acima apresentados evidencia que o índice proposto por este autor representa de fato um avanço na agenda de estudos da mudança de valores, mas dois pontos devem ser ponderados.

Primeiro, a tabela 2 mostra que existem diferenças significativas entre a proporção da população que manifesta valores emancipatórios e pós-materialistas. Dos 54 países investigados na sexta onda do WVS, apenas em 23 as duas medidas são condizentes. Os outros 31 países apresentam divergências. Este dado pode indicar que há um viés cultural nas respostas dos entrevistados nos diferentes países. Welzel não nega a existência desta possibilidade, mas ela aparece de forma secundária em seu trabalho. Seu argumento parte do pressuposto de que existem zonas culturais que afetam a incidência de valores emancipatórios, mas a diminuição dos constrangimentos à escolha levaria, em última instância, à busca pela emancipação. Os dados indicam que a posição da cultura pode não ocupar este papel secundário.

O outro ponto que devemos destacar é a relação entre as medidas de PM e VE e a adesão à democracia. Tanto Inglehart (Inglehart e Welzel, 2005) quanto Welzel (2013) afirmam que existe uma forte relação entre a posse de tais valores e o apoio à democracia. Esta relação até existe no contexto latino-americano, mas ela não é tão forte como descrito por estes autores. Existe uma tendência de indivíduos que possuem valores pós-materialistas ou emancipatórios apoiarem mais a democracia enquanto forma de governo, mas existem outras questões por trás deste apoio que vão além de uma postura pós-materialista ou emancipatória.

Feitas estas duas ressalvas, podemos concluir que o índice de valores emancipatório proposto por Welzel é uma medida mais consistente para mensurar a mudança de valores no contexto dos países presentes neste estudo. Tanto a confiabilidade interna do índice de VE quanto a sua validação externa são superiores ao índice de PM. Mas os resultados dos testes desenvolvidos neste estudo indicam fragilidades nesta medida que devem ser levadas em consideração. Se os valores emancipatórios representam as motivações necessárias para se buscar o aprofundamento da democracia, a relação entre tais valores e as atitudes antidemocráticas deveria ser mais robusta.

Ainda que os testes permitam dizer que o índice de valores emancipatórios é mais consistente do que o índice de pós-materialismo no contexto dos países estudados, a relação entre a dispersão de tais valores e o aprofundamento dos regimes democráticos em países em desenvolvimento carece de evidências empíricas mais sólidas.

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1Para uma síntese destas críticas, bem como as respostas de Inglehart e seus colaboradores a elas, ver Abramson (2011).

2A literatura recente sobre valores democráticos faz uma distinção entre adesão a democracia – que mede a preferência a um regime democrático em detrimento de outro – e compromisso democrático – que mensura a adesão à democracia quando condicionada a outros fatores. Para uma revisão sobre este debate, ver Casalecchi (2016). Sendo o objetivo deste trabalho verificar a validade das medidas de PM e VE, optou-se por um índice de adesão à democracia, dada a sua simplicidade.

3α de Cronbach = 0,6.

4Uma rotação não ortogonal permite que um mesmo componente seja agrupado em mais de um fator. Ela permite a existência de fatores correlacionados ao invés de manter a independência dos fatores (Hair Jr. et al., 2010, p. 114).

5Ambas as variáveis independentes foram padronizadas em escalas de 0 a 1 para facilitar a comparação. Escalas de 0 e 1 são índices em que o valor mínimo é representado por 0 e o valor máximo é tido por 1. Então as medidas variam em valores fracionados de 0 a 1.

Apêndice metodológico

O índice de pós-materialismo é construído a partir das respostas das três questões abaixo:

1) Se tivesse que escolher, qual dessas coisas o(a) sr.(a) diria que é a mais importante atualmente?

  1. Manter a ordem na nação;

  2. Dar às pessoas mais voz nas decisões governamentais;

  3. Combater a inflação;

  4. Proteger a liberdade de expressão.

2) Fala-se muito sobre quais objetivos o Brasil deve procurar atingir nos próximos dez anos. Neste cartão estão alguns objetivos que as pessoas dariam prioridade. O(a) sr.(a) poderia dizer qual desses você mesmo considera o mais importante?

  1. Manutenção de altas taxas de crescimento econômico;

  2. Assegurar forças de defesa fortes;

  3. Dar às pessoas mais voz em como as coisas são decididas no trabalho e no seu país;

  4. Tentar fazer com que as cidades e as paisagens sejam mais bonitas.

3) Aqui está outra lista. Em sua opinião, qual dessas coisas é a mais importante?

  1. Manter a economia estável;

  2. Combater o crime;

  3. Mover em direção a uma sociedade mais amigável e menos impessoal;

  4. Mover em direção a uma sociedade em que as ideias são mais valorizadas que o dinheiro.

O entrevistado é instado a escolher uma primeira prioridade e uma segunda prioridade em cada uma dessas três questões. As escolhas materialistas são computadas como 0 e as escolhas pós-materialistas como 1. Somam-se todas as escolhas, ignorando as respostas “Tentar fazer com que as cidades e as paisagens sejam mais bonitas”.

Índice de valores emancipatórios.

Esta medida é composta por três subíndices:

1) Escolha:

“Por favor, indique, para cada uma dessas ações, se você acha que nunca se justificam, sempre se justificam ou alguma opinião entre essas duas, usando esse cartão” (escala de 1 a 10):

  1. Aborto;

  2. Divórcio;

  3. Homossexualidade.

2) Igualdade:

“Para cada uma das seguintes afirmações que eu irei ler, gostaria que você dissesse em que medida você concorda ou discorda de cada uma. Você concorda totalmente, concorda, discorda ou discorda totalmente?” (escala de 1 a 4):

  1. Fazer faculdade é mais importante para os homens do que para as mulheres;

  2. De modo geral, os homens são melhores líderes políticos do que as mulheres;

  3. Quando há poucos empregos, os homens devem ter mais direito a um emprego do que as mulheres.

3) Voz:

Este subíndice utiliza-se da primeira e da segunda baterias do índice de pós-materialismo, computando as respostas:

  1. Dar às pessoas mais voz nas decisões governamentais;

  2. Proteger a liberdade de expressão;

  3. Dar às pessoas mais voz em como as coisas são decididas no trabalho e no seu país.

Todas as respostas são normalizadas em escalas que variam de 0 a 1. Todos os itens são agrupados nos seus respectivos subíndices, em que é computado o valor médio para cada um deles. Os três subíndices são somados atribuindo pesos iguais a cada um deles.

Recebido: 01 de Maio de 2017; Aceito: 19 de Junho de 2017

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