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Revista Brasileira de Ciência Política

versão impressa ISSN 0103-3352versão On-line ISSN 2178-4884

Rev. Bras. Ciênc. Polít.  no.32 Brasília maio/ago. 2020  Epub 21-Ago-2020

https://doi.org/10.1590/0103-335220203204 

Artigo

O Jovem Feminismo em Madri: um debate sobre a questão (inter)geracional

The Young Feminism in Madrid: a debate on the (inter)generational question

El Joven Feminismo madrileño: un debate sobre la cuestión (inter)generacional

Rosangela Schulz1 
http://orcid.org/0000-0001-8820-5083

M. Almudena Cabezas Gonzalez2 
http://orcid.org/0000-0002-6988-2633

1Professora do Departamento de Sociologia e Política (DESP) e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política (PPGCPol) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Pelotas, RS, Brasil. E-mail: <rosangelaschulz@gmail.com>

2Professora do Departamento de Historia, Teorías y Geografía Políticas na Facultad de Ciencias Políticas y Sociología da Universidad Complutense de Madrid (UCM). Madrid, Espanha. E-mail: <macabeza@ucm.es>


Resumo:

O artigo tem como proposta discutir a questão geracional/intergeracional nos feminismos autônomos da cidade do Madri na nova dinâmica política espanhola a partir do movimento 15M. Dois aspectos centrais são desenvolvidos ao longo da discussão: a socialização das jovens ativistas na construção como feministas neste novo ciclo de mobilizações e o conflito ou compartilhamento intergeracional nos feminismos na cidade de Madri. As narrativas das jovens protagonistas dos feminismos autônomos, fruto de entrevistas semiestruturadas e observação participante fazem pensar que o compartilhamento geracional se traduz em uma maior densidade e diversidade do tecido feminista na cidade de Madri. E esta densidade e diversidade se dá, em grande medida, na importante participação de distintas gerações de mulheres no movimento 15M, a partir da Comissão de Feminismos Sol.

Palavras-chave: feminismo; ativismo; juventude; geração; 15M; Espanha; Madri

Abstract:

This paper intends to discuss recent Spanish political dynamics related to feminisms, focusing on the generational/intergenerational question. The discussion explores two central aspects: the socialization of young activists in their collective and individual identity formation as feminists and the intergenerational conflict or sharing among Madrid feminisms. The article finds that generational sharing promotes greater density and diversity in the city’s feminist fabric. This density and diversity grows out of the participation by different generations of women in the 15M demonstrations, especially during the Acampada Sol, a moment that made this kind of generational/intergenerational sharing possible.

Keywords: feminist; activism; young; generation; 15M; Spain; Madrid

Resumen:

El articulo se propone discutir la cuestión (inter)generacional en los feminismos autónomos de la ciudad de Madrid en la nueva dinámica política española, surgida a partir del movimiento 15M. Dos aspectos centrales se desarrollan a lo largo de la misma: la socialización de las jóvenes activistas en la construcción como feministas en este nuevo ciclo de mobilizaciones, y el conflicto o compromiso intergeracional en los feminismos en la ciudad de Madrid. Las narrativas de las jóvenes protagonistas de los feminismos autónomos, fruto de entrevistas semi-estructuradas y de la observación participante hacen pensar que el compromiso generacional se traduce en una mayor densidad y diversidad del tejido feminista. La densidad y diversidad parecen darse, en gran medida, por la importante participación de distintas generaciones de mujeres en el movimiento 15M, a partir de la Comisión de Feminismos Sol.

Palavras-chave: feminismo; activismo; juventude; generación; 15M; España; Madrid

Introdução

A cidade de Madri tem sido palco de intensas manifestações feministas, principalmente após o ciclo de protestos que tomou as praças da Espanha em 2011, conhecido como 15M (BRINGEL, 2015; CABEZAS, 2012; CASTELLS, 2012; FERNÁNDEZ-PLANELLS et al., 2013)3. A força do feminismo representada na Comissão Feminismos Sol (CFS) durante o acampamento na Praça do Sol, serviu como combustível para a continuidade da mobilização após o término dos grandes protestos4. Novos coletivos criados por jovens mulheres somaram-se ao já tradicional movimento feminista autônomo da capital, incluindo novas temáticas e novos repertórios de ação. A diversidade e pluralidade dos feminismos se faz presente alterando a dinâmica política madrilenha (BILBAO, 2011; CRUELLS; EZQUERRA, 2015; GALDÓN, 2016).

A literatura que aborda o movimento feminista espanhol pós-franquismo afirma que houve uma unidade nos anos 1980, herança da luta contra a ditadura e do consenso do período de transição do autoritarismo para a democracia em torno de alguns temas como aborto e violência contra a mulher5. Parte das análises produzidas no final dos anos de 1990 afirma que a vitória do movimento feminista espanhol com a legalização do aborto na metade da década de 19806, somada a outros avanços em termos de políticas inclusivas em anos posteriores, promoveu a desmobilização do movimento, produto da institucionalização progressiva do feminismo igualitarista (MAULEÓN, 1998)7. Enquanto a literatura que dá centralidade à diversidade do movimento feminista espanhol entende que o consenso dos anos de 1980 acabou por projetar a subordinação de outras identidades dentro do feminismo, e nos 1990 as “outras” questionam esta subordinação e o fazem por meio da sexualidade, em especial as lésbicas que protagonizaram um dos pontos de fuga no movimento feminista espanhol (BARBADILLO, 2009, p. 165)8. Nesta linha, os sujeitos que marcam culturalmente o feminismo espanhol “las políticas insumisas, transexuales, lesbianas, ocupas y queer” (GIL, 2011, p. 167) pluralizam o feminismo no país9.

Nas duas narrativas, a partir de distintos olhares, o movimento feminista espanhol do início dos anos 2000 encontrava-se desmobilizado seja por ter se institucionalizado seja por estar segmentado/fraturado internamente. Esse quadro se altera com a crise política e econômica a partir de 2008 que promoveu as grandes mobilizações de 2011. Estas tornaram visível o tecido feminista autônomo que trabalhava intensamente nas grandes cidades da Espanha durante a primeira década do século XXI, com coletivos como Las Lilas ou Las Tejedoras, entre outros (GALDÓN, 2016; GIL, 2011), algumas delas agrupadas na Assembleia Feminista de Madri10.

Em Madri, no acampamento na Praça do Sol, os limites para atuação das mulheres se mostraram pela discriminação que sofrem por parte dos companheiros de protesto, “[...] insultos machistas u homófobos e incluso en el hecho que las primeras asambleas generales no recogieran ninguna cuestión o propuesta feminista” (CRUELLS; EZQUERRA, 2015, p. 48; GALCERÁN, 2012). A reação foi rápida, no terceiro dia de acampamento toda uma rede de ativistas feministas, queer e anticapitalistas trabalhou para a criação da Comissão Feminismos Sol (BILBAO, 2011). Ela logo se tornou o lugar específico para o debate e para ações em torno do tema gênero (CRUELLS; EZQUERRA, 2015). A forte atuação das feministas durante o 15M demonstrou que o feminismo madrilenho não estava desmobilizado, no máximo desarticulado ou espalhado pelos bairros da cidade.

Após o término da ocupação permanente, a então autodenominada Comissão Feminismos Sol passou a fazer assembleias em distintas praças para, por fim, reunir-se no bairro Lavapiés, onde continua atuante, embora tenha sofrido uma renovação em termos geracionais. Nosso foco é discutir como a questão geracional/intergeracional é percebida pelas ativistas feministas que ocupam lugares sociais, culturais e políticos distintos nos feminismos madrilenhos a partir do ciclo 15M. Para cumprir a proposta, optamos por analisar, à luz da literatura que discute o tema geracional nos feminismos (ADRIÃO; TONELI, 2008; ADRIÃO; MALUF; TONELI, 2011; ALVAREZ, 2014; GONÇALVES; PINTO, 2011; GALDÓN, 2016, 2018), as narrativas das ativistas que participaram da pesquisa sobre os feminismos pós-15M desenvolvida entre os anos de 2014 e 2015 na capital espanhola.

Primeiro apresentamos a metodologia qualitativa da pesquisa, seguida do debate sobre a questão (inter)geracional nos feminismos, para então adentrar na análise das narrativas das ativistas feministas entrevistadas. Encerramos com algumas considerações sobre a transcendência da questão intergeracional.

Breve nota metodológica

As informações trabalhadas no artigo resultam da pesquisa “Feminismos em Madri: do 15M aos novos partidos políticos”, desenvolvida entre setembro de 2014 e julho de 2015 na capital da Espanha, que objetivava compreender se havia um novo “fazer político feminista” a partir do novo ciclo de protestos11.

O feminismo é um território fluido, formado por uma diversidade de atores (ALVAREZ, 2014; MELONI, 2013), e sua fluidez se mostrou presente inclusive alterando a proposta da pesquisa. No primeiro momento da investigação, optamos pela observação participante nas assembleias da Comissão Feminismos Sol como procedimento metodológico para acompanhar os debates, as tomadas de decisão, as tensões e as ações desenvolvidas pelas feministas atuantes que marcaram presença no 15M em sua diversidade. Porém, diferente da expectativa inicial, nos deparamos apenas com ativistas jovens. Segundo suas narrativas, as feministas com mais idade e experiência que estavam presentes na CFS durante a acampada e até 2012/2013 passaram a atuar em outros lugares e coletivos após a transferência desta para o bairro de Lavapiés e elas lideram agora.

Assim, foi necessário ampliar o campo de observação e buscar a diversidade de atores e dos discursos feministas que se espraiavam pela cidade. Então, optamos por acompanhar as diferentes manifestações feministas que aconteceram na capital espanhola no período da pesquisa: as flashmob e marchas de 28 de setembro - conhecida como Marcha pelo Aborto -, e de 25 de novembro (25N), as mobilizações de 8 de fevereiro (8F) e a quinzena feminista de março 2015 (8M). Ao longo da pesquisa de campo, contatamos com várias ativistas que haviam saído da CFS, mas se faziam presentes sempre que eram chamadas para performances, ações de rua e também marchas. Além disso, participamos das Jornadas de Jovens Feministas em Madri que aconteceram na Universidad Complutense, onde contatamos com ativistas que atuam em pequenos coletivos e foram incorporadas ao estudo como a parte mais jovem das jovens feministas12.

Trata-se de uma pesquisa realizada como uma etnografia situada desenvolvida entre setembro de 2014 e julho de 2015. Fomos observadoras e observadoras participantes, entendemos as relações de poder que emergem das diferenças entre as mulheres que convergem nas marchas. Após quase oito meses de observação participante, iniciamos as entrevistas semiestruturadas com ativistas feministas de diferentes coletivos com o propósito de conhecer a dinâmica dos feminismos atuantes na capital da Espanha. O roteiro das entrevistas possuía dois eixos centrais: a) Feminismos/15M - com objetivo de compreender a trajetória das ativistas, os temas, os repertórios de ação e a relação (inter)geracional; e b) Feminismos/Partidos Políticos - buscava o entendimento que as ativistas tinham da relação entre feminismos e partidos políticos.

Em total se realizaram 18 entrevistas semiestruturadas, com mulheres com idades entre 17 e 52 anos no momento da pesquisa, selecionadas no modelo bola de neve, ou seja, cada entrevistada indicava outras, e considerando como variável central, mas não excludente, a participação na Acampada Sol, na Comissão Feminismos Sol. Além disso, atentamos para a atuação na CFS pós-15M, para a militância em outras organizações feministas e partidos políticos, bem como para a situação migratória. Considerando que o objetivo do artigo é analisar o debate geracional nos feminismos madrilenhos, dividimos as 14 entrevistas utilizadas no artigo em três faixas etárias: mulheres jovens, jovens adultas e adultas. Estas características se encontram resumidas na seguinte tabela.

Tabela 1. Trabalho de campo - informações sobre as ativistas entrevistadas 

Antes do
15M
15M /
Acampada Sol
15M /
Feminismos Sol
Coletivos
Feministas
Migrantes
com papéis
Partidos
Políticos
TOTAL
Jovens < 25 anos 0 0 0 3 1 2 3
Adultas jovens 26 a 35 anos 2 3 3 3 0 0 4
Adultas > 36 anos 6 6 6 6 1 3 7

Fonte: elaboração própria com base nas entrevistas realizadas.

As participantes mais jovens são três mulheres que não estiveram na Acampada Sol. As duas mais jovens, Mamen e Antonia, chegam ao ativismo pela influência da família, militantes da esquerda, algo habitual nas formas de socialização política de jovens espanholas (ECHEVERRI, 2010), mas declaram viver o feminismo em isolamento, acessando a literatura feminista em bibliotecas ou pela internet. Elas fundam nas redes sociais o Coletivo Scum Girls 13 e, no momento das entrevistas, em abril de 2015, Antonia havia entrado para o novo partido político Podemos14, enquanto Mamen se afirmava como feminista autônoma. De outra parte, Lua representa o ativismo solitário/individualizado e o ativismo por relações de entorno. Originária da Colômbia, adentra o movimento feminista de Madri pelo convite de uma amiga com a qual cria uma associação de apoio para mulheres violentadas. No período da entrevista, iniciava a militância em Podemos, onde cruza os temas feminismo e migração, feminismo e racismo, sendo também parte de uma organização feminista da universidade.

Entre as quatro jovens adultas, três formaram parte da Comissão Feminismos Sol, ainda que possuíssem trajetórias distintas, e uma das assembleias de bairros. Duas delas têm experiência prévia em coletivos feministas. Ana foi protagonista da Comissão Feminismos Sol desde seu início até 2014, quando abandonou por falta de tempo, devido ao trabalho. Aitana e Sara entram durante a Acampa Sol, sendo que Sara se mantém na CFS até 2015 e Aitana permanece ativa. Altea teve forte implicação nas assembleias de bairros.

Ana iniciou o ativismo no movimento estudantil universitário, na criação de um coletivo feminista, e mais tarde se incorporou como profissional de um coletivo de trabalhadoras do sexo. Enquanto Aitana se considerava uma pessoa politizada, mas não ativista até o 15M: “el activismo se ha convertido en un segundo trabajo o un primer trabajo en mi vida […], Sara provém de uma família vinculada ao feminismo e atuou no movimento universitário, sendo parte de um coletivo feminista antes de chegar ao Feminismos Sol. Por fim, Altea também se faz ativista no 15M, não participa da CFS, mas sua atuação no ciclo de protestos fez dela uma feminista.

As ativistas feministas mais experientes compartilham o fato de ter formado parte da CFS, quatro delas não militam em partidos (Rosa, Sandra, Amaya e Emilia), duas são parte de Ganemos Feminismos e participaram do projeto AhoraMadrid (Nora e Sonia) e outra do partido Equo (Renata)15. Algumas tiveram participação em partidos políticos, sempre no campo da esquerda, como Sandra, que iniciou a militância por relações familiares e também por entorno, primeiro no Partido Comunista de Espanha (PCE), depois fez parte do movimento sindical alternativo e do movimento autônomo de base. Rosa vem do mundo da cooperação e participa de um dos principais coletivos feministas de Madri: Amaya havia-se aproximado de coletivos LGBT, porém não se sentia “cómoda”, encontrou seu lugar na CFS durante o 15M; Renata provém dos grupos ambientalistas; e, por fim, Emilia nunca havia sido ativista feminista até chegar ao 15M.

A análise está focada num dos pontos presentes nas narrativas das ativistas que consta do primeiro eixo do roteiro das entrevistas semiestruturadas: a relação entre as distintas gerações nos feminismos. Mas, antes de trabalhar as narrativas, apresentamos um panorama do debate geracional/intergeracional nos feminismos. Conscientes de que toda narrativa sobre a história de um movimento social é situada e que “las historias que uno cuenta en relación al pasado están siempre motivadas por la posición que uno ocupa o desea ocupar en el presente” (HEMMINGS, 2018, p. 25), incluímos narrativas das entrevistadas dando centralidade às jovens feministas, mas utilizando argumentos das feministas mais experientes sempre que pensamos necessário para sustentar ou contrabalançar as narrativas, mantendo o anonimato das ativistas.

A questão geracional/intergeracional nos feminismos

Em seus diferentes períodos e bases analíticas, o feminismo foi de alguma maneira um movimento de jovens mulheres que questionaram sua condição em uma sociedade que lhes impunha um papel específico nas relações sociais, culturais e políticas. É comum tratar a periodização do feminismo por meio de ondas, mas estas podem acarretar alguns inconvenientes como fixar teorias em períodos, enfatizar rupturas e produzir uma valoração normativa das diferentes ondas (HEMMINGS, 2009). Desta forma, optamos por abordar a mobilização feminista em perspectiva geracional (REGER, 2014).

Muita mobilização se fez necessária e várias gerações de mulheres se constituíram como ativistas, portanto a pluralidade das perspectivas feministas que marcaram as décadas finais do século XX tornou impossível tratar o feminismo no singular. Entre essa pluralidade, apresentam-se as reivindicações das jovens feministas e floresce-se o debate geracional/intergeracional.

As transformações das relações sociais estão sujeitas ao surgimento/reconhecimento de novos sujeitos e, em consequência, ao desaparecimento/reconfiguração dos antigos. A autora Krauskopf (2000), ao discutir a participação social da juventude, apresenta um histórico das categorias que deram sentido ao debate geracional, das quais três são centrais: adultocentrismo, adultimos e bloqueios geracionais. O adultocentrismo, categoria pré-moderna e moderna, designa “en nuestras sociedades una relación asimétrica y tensional de poder entre los adultos (+) y los jóvenes (-)” (KRAUSKOPF, 2000, p. 124), no qual o critério biológico subordinava as mulheres por razões de gênero e os jovens em função da idade. Na perspectiva de Krauskopf, a categoria acaba por entrar em crise com as mudanças sociais, econômicas e políticas do final do século XX, quando ganha centralidade a categoria de adultismo, que trata especificamente das interações entre adultos e jovens, deslocando a categoria gênero.

A concepção de adultismo compreende que as mudanças aceleradas deixam os adultos desprovidos de referentes suficientes em sua própria vida para orientar e enfrentar o que vivem os jovens. As carências levam à rigidez de posições adultas que projetam o bloqueio de escutas e a busca por afirmação do controle adulto mediante práticas aprendidas anteriormente. “Se traduce en la rigidización de las posturas adultas frente a la inefectividad de los instrumentos psicosociales con que cuentan para relacionarse con la gente joven” (KRAUSKOPT, 2000, p. 124-5).

Adultocentrismo e adultismo conduzem à discriminação etária e aos bloqueios geracionais, os quais são produtos da dificuldade de diálogo que, em consequência, gera discursos e realidades paralelas. A autora acaba por afirmar que a solução para os bloqueios geracionais está na busca de diálogo. Porém, salienta que esta não é desprovida de conflito. Para que este diálogo se torne possível é necessário compreender que

Ya no se trata de una generación adulta preparada versus una generación joven carente de derechos y conocimientos a la que hay que preparar. Se trata, en la actualidad, de dos generaciones preparándose permanentemente. Y eso cambia totalmente las relaciones (...). Son necesarios nuevos horizontes compartidos para encontrar soluciones apropiadas (KRAUSKOPT, 2000, p. 125).

As três categorias apontadas pela autora para explicar as relações entre distintas gerações contribuem para compreender que o processo de categorização das relações geracionais não é estático e tem a ver com a forma como as relações são vividas e problematizadas em diferentes contextos políticos, sociais e culturais. Porém, o debate se mostra limitado quando a proposta é pensar o jovem feminismo em pelo menos dois sentidos: não trata do campo movimentista (ALVAREZ, 2014), em especial do movimento da juventude; o marcador gênero está ausente, o que impede problematizar possíveis diferenças (inter)geracionais16.

Debater o movimento da juventude17 não é proposta deste artigo, mas é importante perceber que a literatura que trata dos movimentos jovens não tem o marcador gênero como central. Por exemplo, investigações que tratam da ação de jovens no Brasil nas manifestações conhecidas como “Fora Collor!” em 1992 (MISCHE, 1997) e “Jornadas de junho” em 2013 (ALONSO; MISCHE, 2017), não utilizam o marcador gênero, tratam jovens como uma categoria homogênea. Um dos poucos artigos que apresenta este recorte na análise do ciclo de protestos de 2013 no Brasil evidenciou a desigualdade de gênero no contexto das manifestações (MENDONÇA; SARMENTO; REIS, 2017)18. De forma similar, a literatura que trata do 15M na Espanha destaca a juventude dos participantes, mas poucos estudos utilizam o marcador “gênero” ou debatem as desigualdades de gênero nos espaços de protesto (CRUELLS; EZQUERRA, 2015; GALCERÁN, 2012; SANZ; MATEOS, 2014)19.

As pesquisas de Alvarez (2014) e Adrião, Maluf e Toneli (2011) - bem como a pesquisa desenvolvida em Madri - investigam a atuação de uma parcela da juventude no movimento feminista, isto é: o marcador geracional é interno ao feminismo. Sabemos que este recorte produz especificidades. Estas serão consideradas no momento em que nos sentimos tentados a generalizar resultados ao pensar como se cruzam no campo movimentista os marcadores “gênero” e “geração” nos feminismos autônomos em Madri.

Perspectiva geracional: as Jovens Feministas

Os feminismos como “campos discursivos de ação” formam um território com fronteiras fluidas, composto por uma diversidade de atores, localizados em distintos lugares sociais, culturais e políticos, com discursos articulados por sujeitos individuais e coletivos que disputam “as representações e os significados para e entre si” (ALVAREZ, 2014, p. 18). Nesse sentido, o movimento feminista em sua pluralidade e diversidade não está isento de tensões, de desacordos e de disputas de poder, já que, como outros movimentos, está repleto de desigualdades. Em equilíbrio contingencial, o movimento que chamamos aqui no singular embora conscientes da pluralidade, está em constante reconfiguração, resultado de interações externas com outros movimentos e, principalmente, com o campo político, e interações internas que podem alterar coalizões, alianças, inclusive gerar fraturas ou conflitos (ALVAREZ, 2014, p. 19-20; MELONI, 2013).

A questão geracional e intergeracional remete também aos embates que se estabelecem na transmissão das heranças políticas, assim como na negociação e introdução de novas ideias ou temas (BENGOETXEA, 2009, p. 18). Às vezes, os nós ou obstáculos no campo teórico ou prático não têm a ver com a idade das pessoas, mas com suas bagagens, experiências políticas prévias, ou a falta destas, e também com sentidos de lugar muito fortes, entre outras variáveis (CABEZAS, 2012, p. 199).

Na segunda década do século XXI há uma crescente expansão de jovens que se identificam como sujeitos do discurso feminista. A difusão quantitativa vem acompanhada do enunciado de novos temas e demandas, além da ressignificação de antigas pautas e reivindicações, o que leva a questionar se as jovens se constituem em mais um segmento que disputa representações e significados no complexo, fluido e já diversificado campo discursivo feminista (ALVAREZ, 2014; ADRIÃO; MALUF; TONELI, 2011).

Não é uma questão de fácil resposta. Afinal, em diferentes épocas e contextos políticos e sociais, o movimento feminista foi (e continua sendo) um movimento composto em grande medida por jovens mulheres. A questão que se coloca é se algo mudou, se a atuação das jovens feministas projeta alteração na dinâmica política do campo movimentista feminista.

Segundo Gonçalves e Pinto (2011, p. 31-32), “já há algum tempo os movimentos feministas vêm incorporando a geração como marcador socialmente relevante, tanto para problematizar o envelhecimento quanto o rejuvenescimento”, debate que acontece em termos teóricos e práticos. Na primeira perspectiva estão as discussões acadêmicas, com análises sobre fenômenos diversos; na segunda, o debate ocorre no terreno da prática política ou da militância, com a “emergência de agentes que reivindicam espaço próprio e voz no interior do movimento feminista”. Nas duas perspectivas, os debates apontam:

[...] de um lado, a relação marcada pelo silenciamento ou invisibilização de alguns sujeitos do feminismo e, dentre estes, as jovens; e, de outro lado, a hegemonia de sujeitos adultos, as “feministas históricas”, às vezes apresentadas de forma caricata como “fósseis”, “dinossauras”, “pré-históricas”” (GONÇALVES; PINTO, 2011, p. 40).

Sobre a discussão geracional nos feminismos e das jovens feministas brasileiras encontramos que “[...] se as jovens antes eram produzidas discursivamente com os significantes de ‘feministas’ e/ou ‘feministas jovens’, agora passam a se colocar como ‘jovens feministas’” (ADRIÃO; TONELI, 2008, p. 472)20. Como expressa de forma explícita a narrativa da jovem ativista feminista Ana, em outro artigo:

Por que “jovens” antes de “feministas”? As jovens com quem dialogaram nos dias do encontro, vindas, principalmente, da Nicarágua, do Chile e do Peru, autodenominavam-se “feministas jovens”, porque eram feministas, em primeiro lugar. Mas Ana, assim como as demais jovens brasileiras, também é “feminista em primeiro lugar”. Entretanto, diz mais uma vez Ana que colocar o nome “jovem” antes do nome feminista revela uma demarcação de visibilidade (ADRIÃO; MALUF; TONELI, 2011, p. 669).

Embora o marcador geracional apareça antes da categoria feminista, é possível supor que o debate não se concentre no “ato de medir uma dupla participação”, pois a importância está centrada no “peso que a imbricação de dois significantes, orientadores de dois segmentos específicos - movimento da juventude e movimento feminista -, tem quando aparecem juntos” (ADRIÃO; MALUF; TONELI, 2011, p. 671).

Igualmente, um trabalho sobre os contrastes e as continuidades entre diferentes gerações de feministas a partir da Marcha das Vadias21, expressa que há uma nova forma de pensar o feminismo e expor as demandas por voz e visibilidade que são distintas das tradicionais manifestações feministas, agora com centralidade na sexualidade. Altera-se a percepção do corpo, que passa a ter duplo papel: “é objeto de reivindicação (autonomia das mulheres sobre seus corpos) e é também o principal instrumento de protesto, suporte de comunicação. É um corpo-bandeira” (GOMES; SORJ, 2014, p. 437) subjetivado. As autoras assinalam diferenças geracionais com o deslocamento das reivindicações pela descriminalização do aborto, pelo planejamento familiar e pela saúde das mulheres, para esses outros corpos com significações mais subjetivas. Porém, no contexto europeu, mas também latino-americano - como mostram os jueves negros da Polônia e o pañuelazo verde argentino -, as demandas prévias se mantêm abertas e constantes no horizonte da ação (CABEZAS; BROCHNER, 2019), na compreensão da autonomia dos corpos, embora o sujeito político do feminismo apareça mais diversificado e não seja definido exclusivamente pela biologia do corpo mulher.

Perspectiva intergeracional e gênero

Não há um consenso de que as jovens se constituam num novo segmento, no sentido de a categoria juventude constituir-se como marcador que define um duplo ativismo. Antes disso, as pesquisas demonstram que os sujeitos que estão sob o guarda-chuva “jovens feministas” também são heterogêneos e plurais, são jovens feministas negras, indígenas, migrantes, trabalhadoras, lésbicas, transexuais, cruzando marcadores, e que produzem discursos com demandas particulares ligadas aos seus lugares de enunciação, aos seus tempos de articulação e às suas condições políticas, sociais, culturais e econômicas desiguais às quais estão submetidas.

O marcador geracional esboça mais uma desigualdade que tem de ser enfrentada e, apesar da diversidade, as pesquisas demonstram que as jovens feministas têm entre seus objetivos ocupar espaços e gerar visibilidade para si e para suas demandas específicas (ADRIÃO; MALUF; TONELI, 2011; ADRIÃO; TONELI, 2008; ALVAREZ, 2014; BOTERO et al., 2012; GALDÓN 2016 e 2018; GOMES; SORJ, 2014; GÓMEZ-RAMÍREZ; CRUZ, 2008; GONÇALVES; PINTO, 2011; MARTÍNEZ, 2007; WELLER, 2005a, 2005b; ZANETTI, 2011). Então, colocar-se discursivamente como jovens feministas parece tratar-se de uma estratégia de visibilidade dentro do movimento, um artifício de demarcação de lugar, por meio da inclusão de novas temáticas e novos repertórios de ação, gerando modificações internas. O que pode ocorrer em conflito ou não com as feministas experientes ou históricas.

Parte da literatura sobre as jovens feministas afirma que elas “desestruturam a ordem, ao mesmo tempo que pedem licença às ‘mais velhas’ para participarem, exaltando o que já foi conquistado e levando em consideração as lutas travadas anteriormente” (ADRIÃO; MALUF; TONELI, 2011, p. 671), no sentido de uma relação geracional de compartilhamento, não desprovida de doses de disputas que podem conformar ou não fraturas ou rupturas (ALVAREZ, 2014). Configura-se, então, uma relação geracional em que as jovens aprendem com as mais experientes, mas contestam a legitimidade dessa experiência (GOMES; SORJ, 2014), sobretudo, para criticar o papel destinado às jovens de promover novas formas de expressão, de preferência animadas, coloridas e ousadas (ZANETTI, 2009, p. 36).

Nesses trabalhos, apesar dos relatos de tensões entre gerações, não é possível afirmar a centralidade explicativa da categoria “conflito”. As noções de continuidade e descontinuidade aparentam ser mais elucidativas para debater relações geracionais e intergeracionais nos discursos e práticas feministas. A ideia de continuidade de discursos e práticas pode ser facilmente sustentada se pensarmos nos grandes temas que pautaram (e ainda pautam) as ações do movimento feminista em sua pluralidade. Por exemplo, a violência contra as mulheres, no sentido mais amplo e plural que as noções violência e mulher possam significar, é tema presente em todas as gerações feministas e que possuem uma capacidade de agência consensual. Porém, as formas de sofrer, de questionar e de enfrentar a violência diferem entre gerações (sem falar no cruzamento da violência com outros marcadores sociais). Podemos dizer que há uma descontinuidade nos discursos e nas práticas, sem desconsiderar a legitimidade das pautas e repertórios de ação das gerações passadas?

Se a resposta for positiva, não se trata de uma descontinuidade no sentido de intercalar espaços e temporalidades, nem uma descontinuidade no sentido de gerar conflitos e rupturas como assistimos nas teorias explicativas das ondas do feminismo, já bastante criticadas (HEMMINGS, 2009). Antes, trata-se de uma continuidade fraturada, na qual o descontínuo é construído por uma heterogênea vertente jovem que projeta modificações no campo feminista ao reivindicar espaço e voz, ao introduzir novas bandeiras e novas performances de luta (ZANETTI, 2009), em que a sexualidade é um ponto nevrálgico (GIL, 2011; GOMES; SORJ, 2014) e o colorismo demarca fronteiras quase intransponíveis (ALVAREZ, 2014), marcadores que se cruzam e, algumas vezes, expelem-se.

Enfim, vamos tentar compreender como se configura a relação geracional no campo movimentista feminista espanhol, em especial na capital Madri. Antes de nos dedicarmos à análise das entrevistas, é fundamental lembrar que apenas as muito jovens não participaram do 15M, onde as feministas marcaram forte presença reivindicando espaço de ação e fala e articulando uma comissão específica - Feminismos Sol. As marchas e mobilizações de 2011/2012, dada sua dimensão, constituíram-se em uma janela de oportunidades políticas (DELLA PORTA; DIANI, 2015; TARROW, 2009) para dinamizar o feminismo madrilenho e apresentam reflexos sobre as novas gerações que se plasmam no ativismo contra a reforma do aborto, com destaque para jovens de 16 e 17 anos, e contras as violências machistas e na construção da greve geral feminista do 8M no ciclo 2014-2018 (CABEZAS; BROCHNER, 2019; GALDÓN, 2016).

Compartilhamento intergeracional no feminismo madrilenho: continuidade com doses de ruptura

Abordamos na continuação a relação geracional e intergeracional nos feminismos madrilenhos a partir das narrativas das ativistas feministas autônomas contidas nas entrevistas semiestruturadas, realizadas durante a pesquisa em Madri, que serão complementadas com informações obtidas na observação participante dos diferentes eventos feministas. Três pontos se destacam nas narrativas das feministas que atuam na capital espanhola: a relação de compartilhamento entre diferentes gerações feministas; o contexto do 15M, em especial a Comissão Feminismos Sol, como marco de convergência; e os pontos de inovação ou ruptura nos enunciados das jovens feministas.

A relação de compartilhamento entre diferentes gerações feministas

A relação geracional nos feminismos madrilenhos é narrada como um espaço de compartilhamento, de troca de experiências, de renovação de olhares e de respeito, pelas ativistas entrevistadas. As falas das mais jovens retratam de forma positiva a diversidade de idade, ao afirmarem que o coletivo em que atuam recebe apoio de feministas com longa trajetória ativista, em suas palavras:

En la verdad nosotras estamos muy contentas sobre todo de la gente mayor, nos ven jóvenes pero estamos en su misma línea, así que nos prestan ayuda. Estas señoras mayores, que ya han hecho bastante, quieren que vengamos chicas como nosotras, gente nueva con ganas de luchar (...) en ningún momento nos engriparon o nos dijeron ‚sois muy jóvenes, necesitan formación’ (Mamen).

Outra entrevistada, também bastante jovem, destaca que “una persona mayor nos dijo ‘es que vosotros jóvenes nos han hecho darnos cuenta de cosas que nosotros no veíamos’” (Antonia). As jovens adultas que atuam na Comissão Feminismos Sol e participaram do 15M utilizam palavras como enriquecimento, orgulho, crescimento e solidariedade para se referir à relação com outras gerações, coincidem em afirmar que a experiência intergeracional na Assembleia durante o acampamento na Praça do Sol foi única, nas palavras de Ana: “Yo creo que el sentimiento que más se veía es una solidaridad intergeneracional. No se veía como una dificultad sino como una riqueza de ‘estamos aquí un montón y mujeres diversas’”.

Apenas uma das ativistas assinala que “las diferencias no eran tanto la edad más por las diferentes formas de ver y de entender el feminismo” (Sara). Nas narrativas das feministas com longa trajetória de ativismo, o rejuvenecimento dos feminismos é visto como positivo. Além disso, partilham com as mais jovens a sensação de compartilhamento intergeracional de saberes, de desejo de mudança, de disposição para a luta como demonstram os fragmentos de entrevistas:

[...] a mi me parece magnífico que estén las jóvenes ahí y que estén con ganas, me parece que tienen muy buenas ideas. (Rosa).

Me gusta lo que las jóvenes están proponiendo, y me parece que en algún momento ellas tendrán que liderarlo. El liderazgo es bastante movible, es decir: a veces las mayores hemos retomado, pero viendo a las más jóvenes, no retomar. (Sonia).

Creo que un conjunto sí que se ha respetado siempre. (Emília).

Nenhuma delas fala de conflito e isto é positivo, ainda que houvesse embates no interior dos feminismos em relação aos partidos políticos tradicionais e, em especial quando compartilhavam o espaço público, como por exemplo nas mobilizações de 25N, onde estavam presentes mulheres do PSOE e do PP, que são recebidas nas marchas com o canto do 15M “Le llaman democracia y no lo es”, e também respeito do temas-chaves como “la prostituição e o transfeminismo”, ou debates emergentes como as “barrigas de aluguel”.

A influência do contexto movimentista

A participação no 15M, em especial a atuação na Comissão Feminismos Sol é destacada pelas ativistas como central para a nova dinâmica feminista madrilenha. Tanto para as jovens feministas quanto para as adultas, a Comissão foi um espaço de encontros, de renovações, de revisões, de intercâmbios para múltiplas mulheres de distintas vivências políticas e sociais, constituindo-se para a diversidade de mulheres ali presentes em um círculo de reconhecimento, sobretudo para as mulheres mais jovens que adentram o movimento com o objetivo de construir tal espaço com muita força, bem acompanhadas por mulheres que já atuavam em coletivos feministas ou que aterrizaram na militância feminista graças ao 15M, gerando uma relação na qual a transmissão do ideário feminista e das experiências das ativistas com longa trajetória foi destaque. Foi também espaço para as mulheres mais velhas, como a Emilia, que nunca haviam participado do feminismo. No espaço da mobilização foi possível haver a socialização de mulheres com o feminismo e o compartilhamento entre as distintas gerações presentes, como alusão à seguinte narrativa:

El 15M integró gente jovencísima que estaba en la universidad, incluso institutos, y también integró las Yayoflautas22 y gente jubilada. Feminismo Sol creo que también sea un reflejo de este movimiento social que acoge a un montón de edades y generaciones. A mi me gusta mucho estar con feministas que llevan haciendo activismo desde los años 70, por ejemplo, es interesantísimo. Lo que nunca hubo es rivalidad. No ha habido conflictos. Es muy positivo. Lo encuentro (...) el transfeminismo, y todo eso (…) pues igual, tenemos una comisión que ha acogido muchos tipos de feminismos y por eso se habla en plural: Feminismos Sol para que no se excluya en ningún momento. Ha sido un crecimiento personal muy importante y como colectivo (Aitana).

As narrativas das entrevistadas permitem constatar um compartilhamento de horizontes intergeracional nos feminismos em Madri, onde cabe destacar, frente a dinâmica tradicional dos partidos e outros movimentos sociais, a questão da horizontalidade. Durante o trabalho de campo, emerge com força a categoria de horizontalidade nas relações entre as mulheres de diversas procedências e distintas idades, como já destacaram Gomes e Sorj (2014, p. 441), inclusive as mulheres que têm presença em partidos políticos acusam a falta de horizontalidade nestes espaços, carência que em muitos casos as afastam dos partidos, porque não estão dispostas a abandonar as práticas horizontais de debates e decisões políticas que aprenderam na socialização feminista do 15M.

A próxima narrativa também destaca a importância do contexto, ou seja, o ambiente da grande mobilização se mostrou favorável ao compartilhamento geracional, pois, embora o movimento seja identificado com os jovens, faziam-se presentes muitos adultos com ou sem experiência em termos de ativismo ou militância:

Entonces ahí sí, yo creo que también es muy interesante que en el 15M edad no significa trayectoria de los movimientos sociales. O sea, en los colectivos en general es muy difícil que entre alguien nuevo, que con 60, con 70 años se meta en un colectivo feminista cerrado, eso es más difícil. Y en el 15M de pronto hubo un montón de mujeres mayores de 30, 40, 50, 60, 70, que antes nunca habían tenido contacto directo con el feminismo, y entraron. Y eso a mí me parece unas de las cosas más potentes (Sara).

Como as demais ativistas, Aitana vê com bons olhos o corte geracional no 15M e destaca que o movimento foi impulsionado por gente muito jovem, por gente universitária entre 25 e 30 anos. Complementa dizendo que sua experiência mostra que as pessoas com mais de 35 anos entraram para atuar fortemente nas assembleias de bairros. Produziu-se então […] una mezcla generacional como muy chula que tuvo sus cosas positivas, y aprendemos mucho ambos [...] Aprendimos también de historia, de cómo se había organizado antes la gente, cuando era difícil” (Aitana). Da mesma forma Amaya aponta: “Sí, reconocer a las mujeres mayores que han estado en el movimiento feminista, que llevan 35 años, a mí me sorprende verlas tan energéticas, que digo yo “madre mia!”, y juntarnos a mujeres que has leído, que las ha seguido, y que están en la misma altura que tú, es fantástico” (Amaya).

Como dito anteriormente, as feministas com longa trajetória também veem o momento do 15M como um tempo e lugar de interação entre distintas gerações de feministas: “había muchas mujeres jóvenes bien pensantes, y una retaguardia de mujeres empoderadas” (Sonia); “Es verdad que todavía en Feminismos Sol siguen participando mujeres toda la vida [...], o mujeres que empezaran con el 15M y que son madres, abuelas, y yo creo que eso es muy rico” (Rosa). Por fim, um excerto que nos parece definidor do compartilhamento entre as diferentes gerações é a fala de Nora:

Una cosa que me gusta mucho y que creo que sí es innovador o sí que creo que ha contribuido en esta generación feminista es la diversidad de edades en el feminismo, y esto aporta mucho. Cuando yo estaba en Ligaduras23 teníamos edades parecidas, y me gustó mucho eso en la Acampada del Sol porque no solamente las que tienen mucha experiencia, sino cabezas pensantes nuevas, donde traen cosas frescas, juntadas con todo este trabajo realizado, me parece una bomba relojería (Nora).

Além disso, a questão da pressão que sofrem as mulheres de diferentes idades estava presente nos debates e nas atividades, como exemplifica o vídeo da luta contra as violências machistas de 25 de novembro de 2011, cuja preparação se deu ao longo de duas semanas de trabalho coletivo para escrever o texto e culminou em uma performance que refletia o respeito às necessidades de todas as mulheres. Como pode observar-se no vídeo, da performance participaram mulheres de distintas idades que denunciavam as distintas opressões que nos atravessam desde a interseccionalidade etária24.

Igualmente, durante a celebração do Primeiro Encontro do Feminismos 15M-Madrid, sob o título “Violencias en lo cotidiano”, apresentou-se a necessidade de buscar as feministas mais experientes, que já haviam enfrentado tanto a crise dos anos 1970 e 1980 quanto uma sociedade sem direitos para as mulheres25. A proposta era aprender com elas, recuperar seu saber para fazer frente à grave crise do Estado espanhol e suas nefastas consequências sociais, especialmente sobre as mulheres. Além disso, eram necessários seu conhecimento e sua prática para enfrentar um contexto de reverberação do machismo e de fechamento e limitação de direitos26. Compartilhar esses saberes é fundamental quando se fez necessário lutar outra vez contra a penalização do aborto, e os contatos e redes tecidas nos encontros passam a ser ativados a posteriori quando necessários. Como pudemos observar nas flashmob de preparação das marchas de 28 de setembro de 2014, a cumplicidade intergeracional torna-se já a normalidade nas ruas27.

Pontos de inovação ou ruptura

Nas narrativas das feministas dos três grupo entrevistados - jovens, jovens adultas e adultas -, vários pontos se relacionam a inovações ou rupturas trazidas para o movimento pelas jovens feministas.

Em relação às inovações há um destaque interessante para o tema dos cuidados, que adquire uma conotação distinta nas novas gerações. Não se trata apenas do cuidado com os outros, dos papéis de gênero e da reprodução social como atividades destinadas às mulheres por excelência no modelo patriarcal, que está no centro da economia feminista:

Creo que se está haciendo mucho trabajo interesante ahora, que antes no se tocaban. Por ejemplo las huelgas que han habido, huelga de trabajos, donde el Feminismos Sol salía con huelga de cuidados, que me parece súper interesante. Porque siempre es huelga de los trabajadores, haciendo piquetes [...]. Y de pronto, esa huelga, lo que se reivindica, es el hecho de visibilizar y considerar como muy importante el cuidado. Eso para mi es innovador, como acción (Sandra).

O destaque é para a ressignificação da noção de cuidado introduzida pelas jovens feministas; cuidado não se refere apenas à necessidade de cuidar de si e das outras ativistas, mas também em impor limites à própria prática militante, como destaca uma feminista experiente: “[...] las jóvenes saben cuidarse mejor de lo que hemos hecho algunas antes, saben poner límites, saben decir que no” (Rosa). A imposição do vínculo “de vida” com determinado grupo ou coletivo até o esgotamento é percebida como ausência de cuidado de si. Depois do 15M as jovens feministas ressignificam a noção de cuidado na militância ao permitir uma maior fluidez na entrada, permanência e saída dos coletivos (GALDÓN, 2016, 2018).

Mas, em relação aos pontos de ruptura, podemos dizer que há um consenso entre os três grupos de feministas entrevistadas em torno de dois temas que geram alguma tensão: transfeminismo e prostituição. O tenso debate sobre a prostituição não é novidade nos feminismos, inclusive uma das adultas entrevistadas ressalta que “A lo mejor, en algunas cosas hay rupturas, supongo que también (son) las rupturas clásicas del feminismo, como el tema de la prostitución” (Sonia). O tema também está presente na narrativa das mais jovens, como podemos notar quando uma delas exemplifica a diferença etária por meio da forma de entendimento da prostituição.

Y sí que se nota un poco las diferencias que tenemos, por ejemplo yo me acuerdo el 25, el día contra el maltrato, que participamos con el Fórum de Mujeres de Madrid, entonces ellas querían decir algo en el discurso sobre la prostitución que era abolicionista, y claro, nuestro colectivo no es abolicionista, y ahi se notó bastante la diferencia de edad y de decir (Mamen).

Enfim, como salientamos anteriormente, o tema também está presente nas narrativas das adultas jovens que atuam na CFS:

Incluso temas más delicados como el tema de la prostitución. Hay gente que certificamos en la comisión que tienen posturas más abolicionistas. En cambio tenemos compañeras que trabajan por la legalización total de la prostitución. O sea, hemos conseguido convivir con muchos feminismos y muy heterogéneos (Aitana)

Interessante que o tema é apresentado nas duas citações anteriores como exemplo de uma tensão que pode ser contornada, sem provocar ruptura que impeça ações conjuntas28. Se a prostituição é um tema clássico do debate feminista, o segundo - transfeminismo - trata-se de um debate em muito enunciado pelo jovem feminismo autônomo e os novos partidos políticos. Importante destacar que no início da Acampada Sol haviam duas comissões distintas (Feminismo e Transmaricabollo) que acabaram atuando juntas, fazendo com que a Comissão Feminismos Sol mencionasse “a todas aquellas identidades sexuales sometidas por este sistema - mujeres, gays, lesbianas, trans, intersex, etcêtera” (GALDÓN, 2018, p. 13).

Uma das jovens adultas entrevistada chama atenção sobre a presença de uma “ola muy joven de transfeministas con un discurso bastante rompedor y bastante diferente” (Sara), confirmando que no contexto do feminismo espanhol essa é uma diferença muito clara dos discursos das jovens feministas com relação aos discursos de gerações prévias (GIL, 2011; MARTINEZ, 2007). A sexualidade é um ponto nevrálgico para as jovens feministas (GOMES; SORJ, 2014), como esclarece a narrativa de uma das adultas entrevistadas com longa tradição no ativismo feminista ao falar sobre as diferentes gerações nos feminismos:

Si, yo creo que hay diferentes narrativas. Diferentes maneras de incluso entender cómo funciona el patriarcado o heteropatriarcado. Cada colectivo narra de una manera o pone más énfasis en unas causas que otras. (...) Las nuevas generaciones feministas efectivamente tienen sus narrativas (...) creo por ejemplo que los nuevos colectivos, más jóvenes, tienen mucho más presente el transfeminismo, tienen mucho más presente la diversidad del cuerpo, la sexualidad, la diversidad y capacidad de agencia. Tienen todavía mucho más fuerza para apropiarse, a través del cuerpo, de todas estas narrativas (Nora).

Emilia, que somente acessou e se constituiu como sujeito do feminismo já adulta no 15M, percebe a ascendência do transfeminismo na CFS no momento posterior ao deslocamento da praça para o bairro. Embora tenha demonstrado algum desconforto, argumenta que não é algo que afete seu ativismo.

El transfeminismo, aunque yo lo llevo bastante bien, no me siento cercana, pero de ninguna manera es que sea para mí algo que rompe y ya que no puedo seguir (Emilia).

De igual forma, identificamos também uma distinção no tratamento do tema geracional/intergeracional entre as jovens feministas que possuem dupla militância - em coletivos feministas e em partidos políticos. Lua, uma das jovens entrevistadas, ao tratar da questão geracional no partido em que milita, afirma que os preconceitos para com as jovens não são só patrimônio dos partidos:

En todos los movimientos, el sectarismo siempre está presente, nos apoderamos de las cosas y siempre lo nuestro es lo mejor. Hay que dialogar¡ es bueno escuchar a la otra persona a ver que me puedo o no aportar, y eso yo lo veo en todos los movimientos. En el feminismo también lo he visto pero hemos sabido conseguir el respeto y tratamos de interrelacionarnos (Lua).

Porém, a centralidade da crítica está direcionada aos partidos políticos, especificamente ao novo partido Podemos, em que militam duas jovens entrevistadas; uma delas declara: “Cuando eres joven es muy complicado hablar y eso que, en verdad, la política hoy día la están haciendo personas jóvenes, pero con un partido de jóvenes totalmente estático” (Lua). Relato interessante, já que uma das marcas da identidade da nova política espanhola é o reclamo de juventude. O relato da outra jovem introduz a questão de gênero no partido, ao narrar que há pessoas que a valorizam e outras que a subestimam, destacando que “Es gracioso porque las personas que me han subestimado han sido hombres siempre” (Antonia). A crítica às masculinidades nos partidos consta também das narrativas de feministas adultas com duplo ativismo, particularmente aquelas que militam em Equo e em Ganemos, e participam da nova política espanhola.

Considerações finais

O artigo buscou compreender a percepção da questão geracional/intergeracional pelas jovens feministas autônomas em Madri a partir da literatura que aborda a temática desde as noções de conflito e de compartilhamento intergeracional nos feminismos, segundo as falas de algumas protagonistas do Feminismos Sol e outras jovens feministas.

Em relação à trajetória de socialização das jovens feministas presentes na literatura, destacaram-se como chegam ao feminismo a partir do ativismo solitário e o ativismo estudantil. A literatura constata que a nova geração vive a transição para o feminismo de forma individualizada, muitas em isolamento. A transmissão do ideário feminista se dá pela apropriação da literatura que apresenta as ações práticas e a produção teórica das predecessoras: isto significa que o feminismo está no ar. As entrevistas das mais jovens feministas apontam nessa direção. Porém, quando nos remetemos às jovens que viveram as mobilizações do 15M, percebemos em algumas que o ativismo estudantil contribuiu como porta de entrada, sendo possível supor que os limites para debates e pautas feministas no movimento estudantil, como acontece em outros espaços de militância, direcionam as jovens mulheres para coletivos feministas.

É importante ressaltar o papel das universidades, com o crescimento numérico de disciplinas, oficinas, grupos de pesquisa, seminários, palestras e jornadas que tratam de temáticas de gênero, com foco central na teoria e prática feminista, como pode ser exemplificado pela Jornada de Jovens feministas que ocorreu na Universidad Complutense de Madri. O compartilhamento geracional (intergeracional) tem tido nas academias um espaço privilegiado de transmissão do ideário feminista, porém não é um espaço isento de hierarquias, como destacavam no conversatório das mulheres jovens do Encontro na Universidades29. Importante pensar que nas universidades estamos vivendo horizontes compartilhados com duas gerações (adultas e jovens) preparando-se permanentemente (KRAUSKOPF, 2000).

Além disso, as entrevistas apontam a positividade da diversidade intergeracional nos femininos madrilenhos, sendo o compartilhar e não o conflito a tônica mais destacável (GALDÓN, 2018). Porém um olhar mais atento desvela leves tensões em relação aos temas incluídos na pauta feminista pelas jovens, particularmente em relação ao transfeminismo e à prostituição. Como a literatura acessada demonstrou, na discursividade das jovens feministas o sujeito político do feminismo aparece mais diversificado, não definido exclusivamente pela identidade biológica da mulher. Isto talvez marque a principal descontinuidade com o feminismo anterior que é fortemente exclusivista em relação às mulheres (GOMES; SORJ, 2014).

Identificamos também uma distinção no tratamento do tema geracional entre aquelas que possuem duplo ativismo (no feminismo e no partido político), sobretudo entre as mais jovens que não atuaram na Comissão Feminismos Sol. As mulheres do Feminismos Sol manejam um registro diferente com palavras como enriquecimento, orgulho, crescimento e solidariedade para referir-se à questão intergeracional no feminismo madrilenho. Por fim, as mulheres com longa trajetória ativista destacam a importância da presença de jovens feministas.

Constatamos que as tensões e os embates que povoam as relações geracionais nos feminismos se relacionam mais à introdução de novos temas e bandeiras de luta. Parece tratar-se uma disputa de domínio discursivo do movimento, distante da variável etária, muito mais fortemente ligada a bagagens e experiências políticas prévias, ou falta delas.

Por fim, é possível afirmar que o compartilhamento geracional se traduz em uma maior densidade e diversidade do tecido feminista na cidade de Madri. Essa densidade e diversidade se dá, em grande medida, pela participação de distintas gerações de mulheres na manifestação 15M, particularmente na Acampada Sol, momento que propiciou tal compartilhamento geracional. Os acampamentos da Plaza del Sol se constituíram em uma janela de oportunidades políticas para as feministas, pois propiciaram às novas cortes feministas partilhar o espaço com ativistas de maior experiência nas lutas passadas. Sua importância é palpável nas mobilizações pelo direito ao aborto do ciclo 2013-2015 e ao largo dos anos, na presença central do feminismo no campo político espanhol, como mostram as greves gerais de mulheres convocadas nos últimos anos, em 8 de março (CABEZAS; BROCHNER, 2019), quando a cidade de Madri é desbordada por mulheres e meninas de todas idades.

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3 O ciclo de protestos conhecido como 15M ou Indignados resulta do agravamento da crise econômica iniciada em 2008. O descontentamento político acabou se transformando em uma “tomada” da Praça do Sol - local símbolo das manifestações em Madri. A permanência dos manifestantes na praça acabou por gerar uma mobilização que se espalhou por outras praças da Espanha. O acampamento foi organizado em uma estrutura de assembleia, dividida em diversas comissões e mantido nas ruas até o 12 de junho de 2011.

4 A Comissão ou Assembleia Feminismos Sol fundada no acampamento tem forte papel na retomada das ações feministas em Madri (CRUELLS; EZQUERRA, 2015; GALDÓN, 2016). A cronologia da Comissão está disponível em Martín (2015).

5 A ditadura de Franco perdurou de 1939 até 1975. Durante esse longo período os movimentos sociais foram amplamente reprimidos na Espanha.

6 A Lei Orgânica nº 09/1985, de 5 de julho, despenalizou o aborto induzido em três casos: risco grave de saúde física e psíquica da mulher; violação e malformações do feto. A LO nº 02/2010, de 4 de março, considera um prazo de 14 semanas de “autodeterminação consciente” e permite a interrupção voluntária da gravidez às mulheres de 16 e 17 anos.

7 O entendimento que o movimento feminista se institucionaliza com a volta da democracia após décadas de ditadura está presente na literatura sobre a América Latina e, em particular, sobre o Brasil (MATOS; PARADIS, 2013; PINTO, 2010).

8 Segundo a autora, dois fatores explicam o protagonismo das lésbicas na Espanha: a) o processo de aprendizagem com experiências de outros países que levou o ativismo lésbico a um trabalho de conscientização das feministas heterossexuais sobre a heterossexualidade obrigatória para evitar uma ruptura interna; e b) em função das perdas de direitos impostas pelo regime franquista, que tornou necessário o consenso no movimento feminista.

9 A teoria queer continua a pautar espaços nos atuais feminismos madrilenhos, principalmente em torno do tema transfeminismo, que é ponto de alguma tensão interna, como fica expresso nas narrativas das ativistas entrevistadas.

10 Maiores informações da Asamblea Feminista de Madrid estão disponíveis em: http://www.feministas.org/madrid/?page_id=7. Acesso em: 10 jan. 2018.

11 Trata-se de pesquisa desenvolvida em colaboração entre as pesquisadoras da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e da Universidad Complutense de Madrid (UCM), autoras do artigo em um projeto de Estágio Sênior financiado pela Capes.

12 As Jornadas aconteceram na Universidad Complutense de Madri no dia 6 de março de 2015. O áudio está disponível em: http://www.rednosotrasenelmundo.org/Radio-en-Directo-I-Jornada-de. Acesso em: 12 mar. 2016.

13Scum Girls de Madri trata-se de um coletivo autônomo que, no período final do trabalho de campo, no verão de 2015, estava integrando-se dentro dos grupos que trabalham na Eskalera Karakola, o carro-chefe do movimento feminista autônomo da capital espanhola. No momento das entrevistas, contava com 40 ativistas na comunidade de Madri, com idades compreendidas entre 16 a 20 anos, a maioria de nível secundário. As pesquisadoras souberam da existência desse coletivo na marcha do 25N de 2014, e mais tarde contataram com elas nas Jornadas da Jovens Feministas de Madri. Informações estão disponíveis em: http://scumsgirls.blogspot.com. Acesso em: abr. 2018.

14 O partido político Podemos foi criado em 11 de março de 2014 como movimento político dirigido às eleições europeias que ocorreram no período de 27 de março a 2 de abril do mesmo ano, e concorre as municipais e autonômicas de maio de 2015 com notável êxito. Em sua narrativa originária, coloca-se como o herdeiro natural do 15M.

15 Nas eleições municipais de maio 2015, AhoraGanemos foi a plataforma eleitoral que amalgamou distintas propostas dos movimentos sociais da capital da Espanha; e Equo é um partido político que deriva do 15M com corte ambientalista, apresenta-se em coalizão com Podemos em boa parte do território estatal.

16 Mesmo que as categorias que acionam possam estar presentes em narrativas de jovens feministas, como demonstra uma ativista que diz “ser necessário não construir espaços adultocêntricos e verticais, garantir que as mais diversas jovens expressem suas necessidades e apreensões dentro do processo”, entrevistada presente no artigo de Adrião, Maluf e Toneli (2011, p. 670).

17 Assim como o feminismo não pode ser utilizado no singular, sabemos que juventude é um conceito complexo e plural.

18 A pesquisa foi realizada com jovens ativistas em Belo Horizonte - MG no período dos protestos de junho de 2013.

19 Por exemplo, Botero et al. (2012) cruza a categoria geração com formação política de jovens, mas não utiliza o marcador de gênero, o artigo de Gómez-Ramírez e Cruz (2008) que trata do jovem feminismo no México, tem o recorte de gênero, mas não debate a relação geracional.

20 As autoras analisam o ativismo de jovens feministas em duas edições do Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe, ambos ocorridos no Brasil, respectivamente, em 1985 e 2005.

21 Trata-se de uma pesquisa documental e observação participante junto à organização da Marcha das vadias no Rio de Janeiro, iniciada em 2013 e que continuava em andamento no momento da publicação do artigo.

22 O termo se refere aos ativistas do 15M que são adultos ou estão aposentados e vem do coloquial yayo, usado para nomear as avós.

23 A entrevistada está referindo-se ao Coletivo Feminista Ligaduras, o primeiro grupo feminista autônomo de Madrid, vinculado a Asamblea de Okupas (GIL, 2011, p. 79).

24 O vídeo pode ser acessado no canal de Feminismos Sol: https://www.youtube.com/watch?v=PaVqftUSGsE. Acesso em: 27 abr. 2018.

25 Pode-se consultar o chamado para o Encontro no site do 15M: https://madrid.tomalaplaza.net/2012/01/18/i-encuentro-feminismos-del-15m-madrid/. Acesso em: 24 maio. 2019.

26 Para maiores detalhes sobre este Encontro, ver o sitehttp://madrid.tomalaplaza.net/2012/01/18/i-encuentro-feminismos-del-15m-madrid/. Acesso em: 20 set. 2016.

27 Um resumo das mesmas se encontra no site da Coordinadora Feminista: http://www.feministas.org/nota-de-prensa-manifestacion-28-de.html. Acesso em: 10 out. 2019.

28 Vale dizer que mais adiante, desde 2017 e 2018, quando o feminismo está no centro do campo político, já não se mantém a Entente Cordiale.

29 O Encontro foi transmitido pela rádio.

Recebido: 27 de Setembro de 2019; Aceito: 06 de Março de 2020

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