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Revista Brasileira de Ciência Política

versão impressa ISSN 0103-3352versão On-line ISSN 2178-4884

Rev. Bras. Ciênc. Polít.  no.32 Brasília maio/ago. 2020  Epub 21-Ago-2020

http://dx.doi.org/10.1590/0103-335220203210 

Resenha

As bases afetivas do comportamento político: ressentimento racial, partidarismo negativo e polarização na política americana

The affective bases of political behavior: racial resentment, negative partisanship and polarization in American politics

Julian Borba1 
http://orcid.org/0000-0002-0149-6533

Gregório Unbehaun Leal da Silva2 
http://orcid.org/0000-0002-4603-9803

1Professor do Departamento de Sociologia e Ciência Política da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil. Pesquisador do CNPq. E-mail: <borbajulian@yahoo.com.br>

2Doutorando em Sociologia e Ciência Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil.

RESENHA:, ABRAMOWITZ, Alan I.. The great alignment: race, party transformation, and the rise of Donald Trump. ., New Haven, CT: :, Yale University Press, ,, 2018. , p., 153p.


Alan Abramowitz é amplamente reconhecido como um dos mais influentes cientistas políticos dedicados ao estudo da política americana. Professor da Emory University, tem uma vasta obra, que aborda estudos sobre congresso, opinião pública, partidos e voto. Desde a década de 1990, o autor tem investigado a polarização política no eleitorado do país, que segundo o seu diagnóstico é de um fenômeno em constante ascensão.

Seu último livro, The Great Alignment, vai buscar, de uma maneira inovadora e amparada em boa documentação histórica, dados eleitorais e de opinião pública, as origens e especialmente as causas desse processo. A obra marca uma inflexão importante do autor em relação à sua produção anterior. Até Disappearing Center (2010), era possível ver um Abbramowitz muito centrado no debate sobre polarização ideológica no público massivo. Aqui, o foco desloca-se para a dimensão afetiva da polarização.

Para além de uma análise do caso norte-americano, acreditamos que o enquadramento analítico proposto na referida obra fornece importantes elementos para aqueles que se dedicam ao estudo do comportamento do eleitorado em outros contextos, especialmente aqueles de crescente polarização, como é o caso brasileiro.

O livro inicia proclamando uma “nova era de partidarismo” e traz dados que apontam para o crescimento da lealdade partidária nos Estados Unidos, bem como forte congruência ideológica entre os que se dizem conservadores e os autoidentificados como republicanos. O mesmo se dá na díade democratas e liberais.

Esse fenômeno de animosidade entre grupos é central no argumento de Abramowitz. Enquanto o debate tradicional sobre polarização esteve fortemente assentado na divisão de grupos a partir de opiniões distintas sobre issues, o autor chama a atenção para um novo tipo de divisão no público de massa, de base afetiva, cujas origens, porém, são buscadas em clivagens objetivas da sociedade norte-americana, principalmente, na questão racial.

A tese central do livro é que o ressentimento racial é enormemente responsável pela disseminação do partidarismo negativo e da polarização afetiva entre os eleitores republicanos. É ele que promove o alinhamento de opiniões mencionado anteriormente. Para desvendar este nexo causal que vai da questão racial ao partidarismo negativo e à polarização afetiva, Abramowitz percorre um longo caminho, como se verá a seguir.

Para chegar até tal condição foi necessária a quebra de uma coalizão que dominou a política do país. Trata-se da “New Deal Coalition” que durou de 1952 até 1988. Essa representou a grande força da coalizão Democrata no período, fruto do resultado das políticas iniciadas por Theodore Roosevelt, que a forjou entre 1932 e 1936. Tal coalizão se dava pela dominação dos democratas em determinadas regiões, em especial no sul do país. Mesmo quando perdiam eleições presidenciais, mantinham a maioria das casas legislativas. A força dos azuis provinha da amplitude e da diversidade geográfica de seu domínio eleitoral, que tornava possível agregar visões de mundo diferentes internamente ao partido.

A coalizão detinha força por englobar em suas fileiras candidatos liberais e conservadores dentro do mesmo partido e assim obter resultados eleitorais positivos. Em suma, o apoio à coalizão atravessava barreiras ideológicas, e desse arranjo foi possível sustentar as vitórias eleitorais dos democratas.

Ao mesmo tempo que mostra a força dessa coalizão, o livro também identifica a origem do seu declínio. Nesse sentido, para Abramowitz, o fato histórico mais marcante foi o apoio do democrata Lyndon Johnson em 1964 à causa dos direitos civis dos afro-americanos. O impacto dessa medida fica claro, como veremos adiante, nos dados sobre atitudes e posições do eleitorado, assim como na complexa análise longitudinal dos resultados ao longo dos períodos subsequentes. Outro fato destacado é a posição dos democratas e republicanos na questão Roe vs. Wade3. Essa questão decidida na Suprema Corte acelerou o alinhamento de conservadores com os republicanos.

Os dados eleitorais e de opinião pública apresentados no livro iniciam em 1952, em que fica nítido um processo, inicialmente tímido, da perda de muitos apoiadores dos democratas para as fileiras de republicanos. O processo acentua-se com o passar das décadas. Procedendo assim, Abramowitz aborda longitudinalmente as forças políticas do país e dá força empírica às suas conclusões4.

Essa inflexão é destacada na sequência da obra, quando o autor aponta o processo de alinhamento entre as atitudes políticas, preferências partidárias e características sociodemográficas do eleitorado. Os dados analisados acerca dos anos 1970, 1980 e 1990 são marcantes dessa transição. Esses anos são coincidentes com o período em que a antiga coalizão democrata aprofunda sua dissolução.

Era muito comum, nesse período de transição do desalinhamento para o alinhamento, o voto dividido de muitos conservadores, votando nos republicanos para presidente e nos democratas para o Legislativo. Essa resiliência democrata para esses cargos é interpretada pelo autor no fato de que muitos conservadores ainda não tinham abandonado sua lealdade à velha coalizão em nível estadual. No entanto, à perda no cinturão sul, após 1964, somou-se, com o passar do tempo, a queda dos democratas em outras regiões, e o que restava da coalizão New Deal não sobreviveu aos anos 2000.

A geografia passa cada vez mais a ocupar um papel central nos resultados eleitorais norte-americanos. Esse fato afeta o partido Democrata, pois os estados mais liberais no processo de alinhamento ideológico são aqueles localizados em maiores conglomerados urbanos, o que dificulta vitórias nos distritos eleitorais. Segundo Abramowitz, as disputas dentro dos estados tendem a ser cada vez menores, de modo que as vitórias partidárias por larga margem e o straight-ticket voting 5 têm crescido vertiginosamente. O número do swing states 6 tem caído também e o alinhamento está cada vez mais caracterizado por posicionamento geográfico. A região sul, antigo bastião democrata, é hoje a maior força republicana. As outras regiões vêm a cada eleição cada vez mais pendendo para um lado da disputa.

Na sequência do trabalho, o autor sintetiza o padrão recente do comportamento do eleitorado americano: aumento cada vez maior da proporção de eleitores não brancos7; cada vez mais vitórias dos republicanos entre os brancos e a manutenção histórica de vitórias democratas entre os não brancos; distribuição regional de votos cada vez mais clara com o crescimento do straight-ticket voting; e trabalhadores brancos de baixa escolaridade tendendo aos republicanos, em especial na vitória de Donald Trump em 2016. Essa composição também apresenta traços atitudinais marcantes. No que concerne à ideologia, conservadores são cada vez mais eleitores dos republicanos. Por outro lado, os liberais seguem cada vez mais apoiadores dos democratas. Em suma, se por um lado o crescimento dos não brancos beneficia os democratas, por outro a distribuição geográfica é favorável aos republicanos.

A chave causal do alinhamento eleitoral está no processo de identificação partidária negativa. Segundo o autor, essa seria a atitude política mais relevante em termos de capacidade explicativa do comportamento do eleitor americano recente. O fenômeno se dá quando grupos se alinham amplamente contra um partido em vez de se identificar positivamente com outro. Ou seja, o “não gostar” do outro partido tende a ser mais forte que o “gostar” de algum. Esse partidarismo negativo, um dos mais importantes desenvolvimentos na opinião pública americana desde o pós-guerra, torna muito difícil que um republicano ou um democrata avalie bem um candidato do outro partido, mesmo que o candidato de seu partido de preferência lhe desagrade bastante8.

Há, segundo Abramowitz, uma variedade de explicações para o crescimento desse partidarismo negativo nos Estados Unidos incluindo as campanhas mais caras, a crescente influência dos meios de comunicação partidários e ideológicos e a crescente divisão cultural em temas como direito aos gays e ao aborto. Para o autor, entretanto, o fator mais importante para o crescimento da identificação partidária negativa tem sido a crescente divisão racial entre partidários dos dois partidos.

A divisão racial resulta não apenas de um fosso crescente entre a composição racial das coalizões eleitorais democratas e republicanas, mas principalmente de um aumento dramático no ressentimento racial entre os eleitores republicanos brancos. Este é o mecanismo que faz com que os eleitores conservadores se afastem do partido democrata. Essa é a questão mais importante do livro. O apelo de candidatos conservadores ao ressentimento racial também faz com que democratas vejam os líderes republicanos num crescente negativo.

De modo a mensurar o ressentimento racial, o autor verifica o quanto a melhoria de qualidade de vida de não brancos incomoda os brancos. Para tanto, usa uma bateria de quatro questões9 que originaram a escala de ressentimento racial e testa os efeitos dessa medida sobre ideologia e posicionamento partidário e voto. Os dados demonstram que há uma clara evidência do crescente número de eleitores brancos que se sentiram ameaçados pela perda de seu status dominante anterior, tanto na política quanto na sociedade americana. Marcante desse fato é um dos dados apresentados pelo autor no último capítulo de sua obra: “81% dos apoiadores de Trump, comparado com 19% de Hillary Clinton, acreditam que a vida para ‘pessoas como eles’ piorou nos últimos 50 anos” (ABRAMOWITZ, 2018, p. 169). Também foi possível, nos modelos de regressão, isolar características sociais e geográficas, de modo que os efeitos do ressentimento racial foram maiores entre os brancos de estados pró-republicanos.

Outro fato relevante para a vitória de Donald Trump é de que a classe trabalhadora branca e não escolarizada tendeu para os republicanos. Primeiro, mesmo com o crescimento da população não branca no país - em virtude da maior taxa de natalidade e ondas de imigrantes - os trabalhadores brancos não escolarizados ainda representam um contingente significativo do eleitorado e com grande capilaridade. Segundo, desde as primárias, ficou nítido que Trump foi o republicano mais habilidoso em mobilizar esse contingente apelando tanto para o ressentimento racial quanto para a crise econômica. Mas, vale frisar que, segundo Abramowitz, essa mobilização não foi fruto somente de um processo eleitoral, mas fruto de anos de alinhamento partidário.

Em suma, o livro lança uma série de evidências de que a vitória de Trump não se deu somente por suas estratégias para captar o voto dos brancos menos escolarizados, mas principalmente foi fruto de um longo processo de mais de 50 anos. E é esse processo que subsidia a previsão do autor de que governos - tanto a nível local quanto federal - lidarão com dificuldade cada vez maior de costurar alianças e apoios intrapartidários necessários para o governo.

Conforme abordamos na introdução a esta resenha, trata-se de uma obra extremamente original sobre a política americana, que faz, além da caracterização empírica do desalinhamento/alinhamento político (o que por si só já não seria uma tarefa simples), uma busca dos mecanismos causais que explicam esse processo. E aqui entram o partidarismo negativo e o ressentimento racial.

Difícil contestar as evidências apresentadas no livro, porém um importante limite deriva de sua concentração exclusiva no caso norte-americano, que leva o autor a caracterizar como fenômenos nativos processos políticos semelhantes que estão acontecendo em outros contextos. Em outras palavras, apesar de Trump ser um fenômeno obviamente exclusivo da política americana, ele pertence à família dos populismos, do sub tipo right populism, como tem sido amplamente documentado pela pesquisa comparativa (MUDDE; KALTWASSER, 2012; NORRIS; INGLEHART, 2019). Nesse sentido, a sua construção analítica e o foco num único caso o impedem de problematizar, por exemplo, em que medida, além do ressentimento racial, não haveria por trás do fenômeno Trump uma reação cultural conservadora a uma ampla mudança de valores na sociedade americana, como defendem Norris e Inglehart (2019).

Por outro lado, cabe destacar que suas teses sobre a política americana oferecem uma importante inspiração analítica para se pensar outros estudos de caso ou mesmo estratégias comparativas. Aqui, uma rápida digressão sobre o caso brasileiro. Estudos recentes têm apontado para a existência de um realinhamento político no país (SINGER, 2012, 2018), cujas causas estariam relacionadas a políticas sociais implementadas durante os governos do Partido dos Trabalhadores no Governo Federal, e que teriam impactado na estrutura de classes da sociedade brasileira, o chamado Lulismo. A mudança na estrutura de classes, por sua vez, teria produzido reflexos no comportamento do eleitorado, alterando as preferências partidárias dos diferentes segmentos, bem como a geografia do voto. Nesse sentido, o Lulismo e a reação a ele constituiriam a principal força motriz da política brasileira desde 2006. Relacionado a este debate sobre realinhamento, importante estudo recente de Samuels e Zucco (2018) apontam evidências robustas de que o partidarismo negativo, especialmente o antipetismo, constitui um importante, se não o principal, elemento explicativo das atitudes e do comportamento do eleitorado brasileiro.

Guardadas as grandes diferenças de contexto entre os Estados Unidos e o Brasil, acreditamos que o trabalho de Abramowitz fornece um enquadramento analítico relevante para se pensar uma agenda comparativa de pesquisas sobre polarização política. A título de sugestão para futuras pesquisas, finalizamos com uma questão: será que, no Brasil, em vez de ressentimento racial, as origens do partidarismo negativo (antipetismo) poderiam ser buscadas num ressentimento de classe daqueles segmentos que se sentiram atingidos e incomodados com a ascensão econômica e de direitos dos setores mais empobrecidos da sociedade?

Referências

ABRAMOWITZ, A. I. The great alignment: race, party transformation, and the rise of Donald Trump. New Haven, CT: Yale University Press, 2018. [ Links ]

ABRAMOWITZ, A. I. The disappearing center: engaged citizens, polarization and american democracy. New Haven: Yale University Press, 2010. [ Links ]

ABRAMOWITZ, A. I.; WEBSTER, S.W. Negative partisanship: why americans dislike parties but behave like rabid partisans. Advances in Political Psychology, v. 39, n.1, p. 119-135, 2018. [ Links ]

MUDDE, C.; KALTWASSER, C. K. Populism in Europe and the Americas: threat or corrective for democracy? Cambridge University Press, 2012. [ Links ]

NORRIS, P.; INGLEHART, R. Cultural backlash: Trump, Brexit, and authoritarian populism. Cambridge: Cambridge University Press, 2019. [ Links ]

SAMUELS, D.; ZUCCO, C. Partisans, antipartisans, and nonpartisans: voting behavior in Brazil. Cambridge: Cambridge University Press, 2018. [ Links ]

SINGER, A. O lulismo em crise: o quebra-cabeça do período Dilma (2011-2016). 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. [ Links ]

SINGER, A. Os sentidos do lulismo. Reforma gradual e pacto conservador. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. [ Links ]

3 Caso Roe contra Wade é o caso judicial pelo qual a Suprema Corte dos Estados Unidos reconheceu o direito ao aborto ou interrupção voluntária da gravidez nos Estados Unidos. O presidente republicano à época, Ronald Reagan, junto com seus colegas de partido, tomou posição fortemente contrária ao direito. Os democratas, por sua vez, posicionaram-se favoravelmente. Essas posições, segundo Abramowitz, acentuaram ainda mais o processo de alinhamento.

4 Alguns dados apresentados por Abramowitz são marcantes nesse sentido. Por exemplo, nos anos 1970 e 1980 a proporção de pessoas que votavam para partidos diferentes nas eleições para Legislativo e Executivo era de 1 para 4, já nas eleições mais recentes esse número é de 1 para 10. A principal queda nesse quesito se deu no contingente de eleitores que votavam no candidato presidencial republicano e no Legislativo democrata.

5 Trata-se de apontar o mesmo partido em todos os votos.

6 São os estados decisivos nas eleições presidenciais, pois são aqueles que não têm o resultado tão previsível, que podem mudar de lado. É comum em eleições, dado o sistema de colégio eleitoral, os candidatos centralizarem suas campanhas nesses estados. O que Abramowitz destaca no texto é a diminuição do número de swing states e um certo “congelamento” dos estados como republicanos ou democratas.

7 Entre 1992 e 2012, a parcela de não brancos dos eleitores nas eleições presidenciais americanas mais que dobrou, passando de 13% para 28%.

8 Fato marcante no pleito de 2016, em que tanto H. Clinton, quanto D. Trump obtiveram os piores resultados entre apoiadores de seus próprios partidos em série histórica cujos dados vêm desde 1968 (ABRAMOWITZ; WEBSTER, 2018, p. 121).

9 As quatro questões utilizadas foram: “(1) Irlandeses, italianos, judeus e muitas outras minorias superaram o preconceito e avançaram. Os negros devem fazer o mesmo sem nenhum favor especial. (2) Gerações de escravidão e discriminação criaram condições que dificultam a saída dos negros da classe baixa. (3) Nos últimos anos, os negros obtiveram menos do que merecem. (4) É realmente uma questão de algumas pessoas não se esforçarem o suficiente; se os negros se esforçassem mais, poderiam estar tão bem quanto os brancos”.

Recebido: 16 de Abril de 2019; Aceito: 26 de Maio de 2020

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