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Transinformação

versão impressa ISSN 0103-3786

Transinformação vol.27 no.1 Campinas jan./abr. 2015

https://doi.org/10.1590/0103-37862015000100005 

Artigos Originais

Cientometria: a produção científica de Haity Moussatché1

Scientometrics: Haity Moussatché's scientific production

Elaine Kabarite Costa 2  

Maria Cristina Soares Guimarães 2  

Cícera Henrique da Silva 2  

2Fundação Oswaldo Cruz, Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde, Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde. Av. Brasil, 4365, Manguinhos, 21040-360, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Correspondência para/Correspondence to: E.K. COSTA. E-mail: elkabarite@hotmail.com


RESUMO

A pesquisa aqui relatada é um estudo exploratório sobre a produção científica do Laboratório de Fisiologia do Instituto Oswaldo Cruz, no período 1934-1998, com foco na análise da produção científica de Haity Moussatché, líder desse laboratório, até o ano de 1965. O trabalho visa aferir um possível impacto na produção científica do laboratório depois que seu líder foi cassado pelo Ato Institucional n.5, ocorrido em 1970. Para tanto, foi realizado o mapeamento da produção científica e sua análise bibliométrica, a partir de busca bibliográfica em bases de dados internacionais e pesquisa documental nos acervos da Casa de Oswaldo Cruz e na Biblioteca de Ciências Biomédicas, com o objetivo de colher indícios dos reflexos e das consequências do chamado Massacre de Manguinhos na dinâmica da produção científica do laboratório. Uma característica importante da produção científica do pesquisador aponta para um padrão consistente de publicação em coautoria, desde o início de sua carreira acadêmica. Possivelmente, esse foi o ponto principal que permitiu que ele continuasse ativo na pesquisa, mesmo após cassado e fora do Brasil. Este trabalho contribui para escrever parte da história da ciência no campo da saúde, proporcionando novas leituras desse episódio, em diversos campos disciplinares acadêmicos.

Palavras-Chave: Cientometria; Haity Moussatché; Instituto de pesquisa; Massacre de Manguinhos; Pesquisa em saúde

ABSTRACT

This is an exploratory study about an episode which came to be known as "Manguinhos massacre", when ten leading researchers had their political rights suspended. From the viewpoint of the scientific production of the Laboratory of Physiology at the Fundação Oswaldo Cruz, Instituto Oswaldo Cruz, between 1934-1998, we focused on the scientific production of Haity Moussatche, laboratory chief until 1965. We mapped and analyzed the scientific production retrieved through searches in international databases and from the documentary research conducted at the Casa de Oswaldo Cruz and Library of Biomedical Sciences of Fiocruz, in order to collect evidence of the consequences of the political event on the scientific production of the laboratory. An important feature of the scientific production of the researcher points to a consistent pattern of co-authored publication since the beginning of his academic career. Possibly, this was the main factor which allowed him to remain active in his research even after he had been persecuted and exiled from Brazil. This work contributes to the understanding of the scientific history in the field of health, providing new interpretations of this episode in several academic fields.

Key words: Scientometrics; Haity Moussatché; Research institute; Manguinhos masacre; Health research

Introdução

Ao longo dos últimos cinco séculos, as relações entre Ciência, Estado e Sociedade adquiriram diferentes configurações, fruto de contextos, tempos e circunstân-cias várias, nos diferentes países ocidentais. Uma vez reconhecida a importância da ciência nas diferentes pers-pectivas de desenvolvimento dos países, diferentes instituições, agendas e estratégias foram colocadas em marcha para organizar, financiar, mediar, monitorar e avaliar as várias esferas de produção e de destinação dos produtos oriundos da atividade científica. Se o conheci-mento produzido pela ciência só encontra seu sentido maior na medida em que é apropriado e transformado pela sociedade, ao Estado, enquanto conhecedor das demandas e necessidades da sociedade, sempre coube o papel de estimular e orientar a atividade científica.

Uma política para a ciência seria uma ação do Estado voltada para planejar e coordenar as atividades de ciência e tecnologia, orientar a pesquisa, alocar recur-sos em setores considerados relevantes e prioritários, relacionar laboratórios e pesquisadores, enfim, estabe-lecer uma ação política concentrada para dirigir progra-mas de pesquisa. Nasce aqui, também, um novo campo disciplinar, a Política Científica, uma nova ciência que gera conhecimento prático e que se relaciona de forma estreita com o poder político, seja qual for o regime. A relação entre ciência e Estado é de mão dupla, de troca: reside aqui o contrato social da ciência, na medida em que o financiamento do Estado implica que o conheci-mento gerado pela ciência seja colocado a serviço das demandas e necessidades da sociedade, como aponta Salomon (1988).

A ideia de Política Científica como instrumento de administração de um grande programa tecnológico, que supostamente repercutiria na economia, fortaleceu--se no final dos anos 60 do século passado. A partir do momento em que os investimentos públicos no setor não conseguiram mais acompanhar os custos das pes-quisas, nem tampouco proporcionar trabalho aos recursos humanos treinados para operar em diferentes áreas do conhecimento, começaram a surgir dúvidas sobre a validade do crescimento econômico definido apenas pelo aspecto quantitativo da ciência, e constatou--se um limite para investimentos públicos no setor.

Falando de forma generalizada, os espaços de avaliação científica passaram então a ter relevância por-que a sociedade civil se mobilizou, buscando transpa-rência na administração dos recursos públicos e reivindi-cando participação nas decisões políticas que movem o setor de Ciência e Tecnologia. A sociedade passou a solicitar, desde então, uma parceria com o Estado para tratar das orientações de pesquisa, para escolha das prioridades, para definição da alocação de recursos e para avaliação dos resultados alcançados (Guimarães, 1992).

A ideia da autonomia da ciência traz, assim, im-plícitas, duas normas: o apoio à investigação é dever do Estado, que está relacionado ao interesse coletivo, mas esse contrato não estabelece obrigações recíprocas para a ciência. Quanto menos o Estado se impuser nessa área, mais liberdade terá a ciência para progredir; por mais suave que seja qualquer intervenção, ela comporta a ameaça de um controle excessivo e o risco de incorrer em uma inflexão errada (Guimarães, 1992).

Reside, aqui, um ponto central de toda a discussão prévia para a pesquisa em curso: desde os tempos da institucionalização das políticas relacionadas ao fomento da ciência, a liberdade (do cientista) é um dos atributos para uma ciência comprometida com a sociedade, com a democracia e com o desenvolvimento.

Assim, o processo de avaliação mais adequado para acompanhar uma ciência livre seria debruçar-se sobre o processo de comunicação cientifica, ou seja, uma avaliação a partir das pesquisas publicadas. Price (1976) inovou e propôs a aplicação de métodos até então usados nas ciências naturais, para estudar esse novo fenômeno chamado ciência. É o nascimento do que ficou conhecido como "ciência da ciência": o uso de técnicas quantitativas aplicadas às publicações científicas como forma de estudar a ciência enquanto fenômeno social. A "ciência da ciência" trouxe à tona uma nova área de estudos, a cientometria, que abrange todos os tipos de análises quantitativas da ciência.

Nesse sentido, pode-se dizer que a cientometria é a medição da comunicação científica e, enquanto tal, congrega três perspectivas: a primeira, metodológica, ou seja, a cientometria como geradora de métodos de aná-lise da ciência; a segunda, informacional, ou a cienciome-tria como fonte de análise das diferenças entre campos disciplinares; e a terceira, a cienciometria como instru-mento para a política científica, onde o domínio de ava-liação de pesquisa figura como o tópico mais importante no campo (Guimarães, 1992).

A cientometria, como suporte e orientação nas decisões relativas à gestão de ciência e tecnologia, floresceu a partir do final dos anos 1970, e cada vez mais os governos estão reconhecendo a importância da res-ponsabilidade dos gastos públicos em pesquisa, o que tem aumentado a necessidade de equilibrar a avaliação mais tradicional de revisão por pares com métodos obje-tivos e quantitativos (Campbell et al., 2010).

A institucionalização da ciência no Brasil, no final do século XIX, segundo registra Morel (1979), passa pela criação dos institutos públicos de pesquisa agrícola e em microbiologia, com o propósito de solucionar problemas de importância política e econômica. Nesse contexto, pode-se apontar o Instituto Oswaldo Cruz (IOC), que se destacou desde seu início, quando recebeu alunos interessados nas técnicas de pesquisa de Louis Pasteur, desenvolveu estudos de saúde humana e animal, e gerou linhas de pesquisa com recrutamento e treinamento de estudantes (Azevedo, 2000).

Vem de Baumgarten (2008) a lembrança de que, além do empresariado, que impunha interesses pesados na relação entre desenvolvimento econômico e desen-volvimento científico e tecnológico, havia ainda os mili-tares nacionalistas, preocupados com a soberania e a defesa nacionais. Por outro lado, porém, a comunidade científica cresceu e ganhou forças com a diversificação de sua base de estudos, imprimindo um movimento próprio ao desenvolvimento da ciência, a partir de seus próprios interesses.

Freire Junior (2009) destaca que o Ato Institucional n° 5 (AI-5), de 1970, custou aos cientistas engajados na luta por "uma ciência nacional", em muitos casos, perdas significativas para suas carreiras profissionais e trouxe obstáculos para o desenvolvimento da própria ciência. Esse período, contudo, apresentou também outras formas de atuação política, por meio das quais muitos cientistas buscaram avançar uma agenda de desen-volvimento das ciências no país, especificamente no caso da Física. Muitos dos avanços do período estão, reconhe-cidamente, marcados na infraestrutura de pós-graduação brasileira.

Na perspectiva dos Estudos de Informação, linha de pesquisa à qual a presente pesquisa está vinculada, caberia também perguntar sobre as possíveis impli-cações do regime militar sobre a produção científica de um domínio do conhecimento, por força da desvin-culação de seu principal pesquisador. Para sedimentar o caminho dessa argumentação, a próxima seção apre-senta um breve olhar sobre o que foi o Massacre de Manguinhos, a partir da história recuperada e contada por pesquisadores da Casa de Oswaldo Cruz (COC).

O Massacre de Manguinhos

Em linhas gerais, o evento que ficou cunhado como "Massacre de Manguinhos", baseado no AI-5, suspendia por dez anos os direitos políticos dos seguintes pesquisadores que faziam parte da Instituição: Haity Moussatché, Herman Lent, Moacyr Vaz de Andrade, Augusto Cid de Mello Perissé, Hugo de Souza Lopes, Sebastião José de Oliveira, Fernando Braga Ubatuba e Tito Cavalcanti. A punição não implicava o afastamento das atividades profissionais em Manguinhos, mas, com base em um novo decreto, o AI-10, de 16 de maio de 1969, os pesquisadores foram afastados da Instituição (Mendes-Henze, 2011). Esse novo decreto aposentava--os compulsoriamente e incluía também os nomes de Domingos Arthur Machado Filho e Masao Goto.

Várias são as razões que podem ser apontadas para a cassação desses pesquisadores. Alguns dos aspectos político-institucionais são detalhados aqui de forma resumida, como carência de recursos e perda de autonomia política e financeira, que resultaram na formação de grupos internos que divergiam sobre os caminhos da instituição e criavam um clima de grande instabilidade. No panorama político-repressivo, o conflito de posições no IOC se encerrou quando o grupo de oposição à direção foi afastado da Instituição.

Os cientistas em questão tinham um discurso alternativo à política implementada pela direção de Manguinhos e foram excluídos da Instituição em um período marcado pela centralização do poder nas Forças Armadas, pela repressão, pela eliminação dos setores críticos da sociedade civil e pelo cerceamento a sua parti-cipação política.

Em 1970 foi instituída a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) que, por um lado, devolveu relativa autonomia através dos recursos obtidos com a venda de produtos e, por outro, instituiu uma série de unidades hetero-gêneas e independentes. A Fiocruz passou a congregar a Escola Nacional de Saúde Pública, o Instituto Oswaldo Cruz, o Instituto de Produção de Medicamentos, o Insti-tuto Fernandes Figueira, o Instituto de Endemias Ru-rais, o Instituto de Leprologia e o Instituto Evandro Chagas.

Hamilton (1989) entende que a cassação dos pesquisadores e a criação da Fundação Oswaldo Cruz prejudicaram Manguinhos. Laboratórios foram fechados, linhas de pesquisa foram interrompidas, acordos de cooperação foram suspensos, coleções científicas cor-reram risco de dispersão e até de destruição. A falta de renovação em recursos humanos e os baixos salários atingiram a fabricação de imunobiológicos, como a vacina antipertussis, que, com a aposentadoria de seu responsável, deixou de ser produzida. Além disso, quando os antigos funcionários do IOC tiveram que optar pelo regime de Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) que passou a vigorar, muitos preferiram continuar no regime estatutário que vigorava anteriormente e, com isso, foram transferidos para outras instituições. Fato é que, na dé-cada de 60, o IOC tinha 140 pesquisadores e, dez anos depois, em 1974, contava com apenas 70 cientistas.

A formação de recursos humanos ficou também prejudicada. Grande número de estagiários seguiu os cientistas afastados, e o Curso de Aplicação deixou de ser realizado.

De acordo com Hamilton (1989), o Massacre de Manguinhos não foi um fato isolado na conjuntura política pós-1964: foi um reflexo das contradições mais gerais da sociedade brasileira naquela conjuntura. A divergência entre os defensores da ciência pura e da ciência aplicada tornou o Instituto Oswaldo Cruz mais vulnerável às pressões do Estado, e este, por sua vez, aproveitou-se desse conflito para intervir de forma repressora e arbitrária. Segundo Hamilton especialmente, isso representou a derrota das aspirações dos dois grupos e da produção científica, e provocou, como consequên-cia, uma crise que atingiu todos os setores da insti-tuição.

O breve relato até aqui apresentado, em sua perspectiva histórica, é um entre vários outros possíveis enquadramentos que estariam aptos a dar corpo (nomes, datas, fatos etc.) ao evento Massacre de Manguinhos. A literatura especializada da área dá conta de historicizar o Instituto Oswaldo Cruz e o referido evento (Stepan, 1976; Benchimol, 1990), mas aqui se procurou sintetizar, visto seu objetivo de investigar, na perspectiva da produção científica, a tradução do Massacre de Manguinhos. Ou, em outras palavras, pergunta-se: o que no padrão das publicações dos pesquisadores potencialmente poderia caracterizar o Massacre?

Para tentar responder, foram utilizados estudos quantitativos da informação científica, com potencial para propiciar uma leitura sobre a dinâmica da ciência.

Métodos

A fim de estudar a influência do Massacre sobre a atividade científica do laboratório, tomou-se como ponto de partida a figura do líder de pesquisa, Haity Moussatché, coordenador do Laboratório de Fisiologia até 1965. A "vida" desse laboratório, a trajetória de seu líder e seu duplo movimento de saída e de retorno ao Brasil, para a mesma instituição e o mesmo laboratório, estão regis-trados em diversos formatos e meios, no acervo da Casa de Oswaldo Cruz.

A COC é uma unidade técnico-científica, perten-cente à Fiocruz, que se dedica à preservação da memória e ao resgate da história das Ciências Biomédicas e da Saúde Pública no Brasil, assim como a atividades de pes-quisa, ensino e documentação dessas mesmas áreas. Possui um grande acervo documental, especialmente no que se refere a pesquisas e à história da Fiocruz, como também a pessoas que tiveram relevância e destaque no campo da ciência e da saúde, na Instituição e no Brasil. Esse acervo constituiu o ponto de partida desta pesquisa.

Assim, a primeira etapa do projeto envolveu uma pesquisa documental com o propósito de resgatar e retratar, com o grau de detalhamento necessário, as ativi-dades do laboratório à época do Massacre, no que diz respeito à descrição do grupo de pesquisa envolvido. Os arquivos da COC foram a principal fonte para essa etapa, além das entrevistas de Haity concedidas aos pesquisa-dores do departamento de pesquisa da COC, que foram sumarizadas por Gadelha et al. (1998).

Foi encontrado grande acervo de documentos pessoais de Haity, doados pela família, mas nenhuma publicação ou trabalho científico de sua autoria.

Diante disso, a etapa seguinte foi pesquisar o acervo da Biblioteca de Manguinhos, especializada em Ciências Biomédicas e, como tal, depositária da memória dos pesquisadores do IOC, unidade de origem do pes-quisador Haity Moussatché. Nessa pesquisa foi identi-ficada uma listagem de publicações do autor.

A terceira etapa foi a identificação da produção científica do pesquisador, a partir de buscas bibliográficas retrospectivas em fontes de informação nacionais e internacionais (SciELO, Literatura Latinoamericana em Ciências da Saúde, Scopus, Web of Science e MedLine).

Os dados da listagem localizada foram agregados aos dados recuperados na busca em bases de dados referenciais, e um software de mineração de textos, VantagePoint, foi utilizado para tratamento e análise automática dos dados.

Resultados e Discussão

A apresentação dos resultados foi feita de forma a permitir uma articulação entre as perspectivas quali-tativa e quantitativa no que diz respeito à trajetória de Haity Moussatché.

As informações sobre a vida do pesquisador foram baseadas na entrevista concedida por ele aos pesqui-sadores da Casa de Oswaldo Cruz e relatada por Gadelha e colaboradores (Gadelha et al., 1998).

Haity Moussatché: a produção científica e a trajetória ligada a um laboratório no Instituto Oswaldo Cruz

Na Figura 1 encontra-se distribuída, por ano, a produção de artigos científicos publicados por Haity Moussatché ao longo de sua vida. Foram recuperados também três artigos do pesquisador publicados pós--morte, que devem estar relacionadas a pesquisas em andamento por ocasião de seu falecimento, e que reproduzem o padrão de publicação de Moussatché, em coautoria com antigos pesquisadores, como Jonas Perales e Gilberto Domont, além de outros novos mem-bros da equipe.

Figura 1. Produção científica de Haity Moussatché. Fonte: Elaborado pelas autoras (2011). 

Excetuados alguns períodos de maior expressão e que registram picos quantitativos (1938, 1941, 1949, 1957, 1958), a produção científica aqui representada (Figura 1) apresenta regularidade no seu padrão, com média de 2,63 artigos/ano.

A produção científica (179 artigos) está distribuída entre 35 diferentes títulos de periódicos, dos quais dez são nacionais e os demais estrangeiros. Importante ressaltar que os artigos, na sua maioria, eram publicados em outros idiomas que não o português, mesmo em periódico nacional. Esse é o caso da Revista Brasileira de Biologia, na qual foram publicados artigos em inglês, francês e português.

No que diz respeito aos periódicos utilizados para publicação dos artigos, pode-se observar na Tabela 1 que a produção se concentra na Revista Brasileira de Biologia (33), nos Anais da Academia Brasileira de Ciências (25), nos Comptes Rendus des Sciences de La Société de Biologie (25), Ciência e Cultura (15) e Acta Científica Venezolana (14).

Tabela 1. Publicações em periódicos: 1945-1970. 

Título do periódico Artigos (n)
Anais da Academia Brasileira de Ciências 22
Revista Brasileira de Biologia 16
Ciência e Cultura 15
Memórias do Instituto Oswaldo Cruz 4
Experientia 4
Nature 4
Biochemical Pharmacology 3
Archives Internationales de Pharmacodynamie et de Therapie 2
Archives Internationales de Physiologie 1
Cellular and Molecular Life Sciences 1
Naturwissenschaften 5
Archives of Biochemistry and Biophysics 1
Blood 1
Archives Internationales de Physiologie et de Biochimie 1
Anales de la Facultad de Medicina, Universidad de la Republica, Montevideo, Uruguay 1
Proceedings of the Society for Experimental Biology and Medicine 1
Acta Haematologica 1
Revista Brasileira de Farmácia 1
British Journal of Experimental Pathology 1
Acta Physiologica Latinoamericana 1
Total 86
Fonte: Elaborado pelas autoras (2011).

Fonte: Elaborado pelas autoras (2011).

Pode-se observar que, ele não era um pesqui-sador que publicava sozinho; ao contrário, apenas 12,3% de sua produção é de autoria única. Um olhar sobre o nível de coautoria aponta que os principais parceiros foram, Miguel Ozório de Almeida (41), Mauro Vianna Dias (37), Annie Prouvost Danon (27), Jonas Perales (16), Walter Oswaldo Cruz (12) e Nuno Alvarez Pereira (10).

No geral, o período de 1945 a 1970 mostra-se como a fase de maior atividade intelectual do pesqui-sador, época em que expandiu quantitativamente sua produção, bem como o número de pesquisadores com quem publicou. O Golpe Militar de 1964 demorou para ter alguma repercussão na Fiocruz, mesmo sendo a "crôni-ca de uma morte anunciada", como o próprio Haity apon-tou em sua entrevista à Casa de Oswaldo Cruz. Mas a crise já estava instalada na Instituição e, por diversos mo-tivos que não cabe aqui explicitar, no ano de 1965 Haity perdeu a chefia do Laboratório de Fisiologia.

Quanto ao ano de 1970, apesar de não ter sido encontrada nenhuma publicação, foram recuperadas duas referências bibliográficas, por meio de pesquisas realizadas nos acervos na COC, na Biblioteca de Man-guinhos e nas bases bibliográficas referenciais. Não foi identificada nenhuma publicação datada de 1972, ano que o cientista viveu na Venezuela, nem em 1988, quan-do retornou ao Brasil.

No depoimento dado a Gadelha et al. (1998), Haity defendeu que sempre existiram no IOC duas diferentes linhas de trabalho, uma mais afinada com a ciência apli-cada e a outra mais voltada para ciência pura, cada qual desenvolvendo suas atividades de acordo com os recur-sos e financiamentos que possuíam. Entretanto, confor-me Haity, não existia diferença da metodologia científica entre ciência básica e aplicada. Uma tinha o enfoque mais voltado para um problema mais imediato; a outra para um problema a longo prazo. Com o Golpe Militar de 1964, mudou a orientação política para a ciência, segundo ele, de modo que o enfoque institucional voltou-se à ciência aplicada, como forma de solucionar mais rapidamente os problemas de saúde no Brasil (Gadelha et al., 1998).

Durante o período em que esteve fora do Brasil, Haity conquistou novos parceiros de pesquisa e os man-teve mesmo depois de seu retorno ao país. Haity também produziu trabalhos em coautoria com alguns dos outros pesquisadores cassados da Fiocruz: Herman Lent (1), Augusto Perrissé (4) e Fernando Ubatuba (2).

Haity no Instituto Oswaldo Cruz (1938-1970)

No período de 1938 a 1945, Haity Moussatché publicou 43 trabalhos, em colaboração com Miguel Ozó-rio de Almeida ou com Mário Vianna Dias, sobre os vários aspectos das convulsões experimentais, vistas como um conjunto de respostas do sistema nervoso a determina-dos estímulos. Sua tese de livre-docência em Fisiologia, na Faculdade de Medicina, apresentada em 1943, tam-bém abordou esse tema, assim como sua tese de con-curso para biólogo do Instituto Oswaldo Cruz, em 1945.

Como a Tabela 1 explicita, esse foi um período profissional extremamente produtivo para Haity. Além de ampliar seus parceiros de pesquisa e de coautoria em trabalhos científicos, foi o período em que Haity mais publicou, possivelmente, motivado pela recente contra-tação e as consequentes mudanças na carreira, ou talvez motivado pelo clima que o cercava no laboratório.

Em seu depoimento aos pesquisadores da Casa de Oswaldo Cruz, Haity explica que nesse período a equipe de trabalho no laboratório era bem motivada e interessada:

"[...] umas 14 ou 15 pessoas trabalhando mais ou menos regularmente, mesmo gente que não estava contratada pelo Instituto, mas que procurava o laboratório sabendo que aqui ficávamos trabalhando sábados e domingos. Eram pessoas que estavam trabalhando em outros lugares e que não tinham chance de fazer uma investigação ou gostariam de estar acom-panhando ou mesmo fazendo. '[...] O fato é que o laboratório cresceu e havia certa afluência de gente que nos vinha procurar pelos motivos mais variados. '[...] Portanto, o laboratório já contribuía para a formação de gente e, também, para permi-tir que professores de universidade se dirigissem a nós, aqui, onde eles podiam fazer sua tese de docência ou até de catedrático" (Gadelha et al., 1998, p.56).

A produção científica desse período contabiliza de 86 artigos, publicados nos 20 periódicos constantes da Tabela 2, sendo os mais frequentes os Annais da Aca-demia Brasileira de Ciências (22), a Revista Brasileira de Biologia (16) e Ciência e Cultura (15).

Tabela 2. Publicação em periódicos no período 1971-1986. 

Título do periódico Ano do periódico
1971 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980 1981 1982 1985 1986
Revista Brasileira de Biologia 1 1
Anais da Academia Brasileira de Ciências 3
Acta Cientifica Venezolana Suplemento 1 2 1 1 1 1 5 1 1
Toxicon 1
Journal of Pharmacy and Pharmacology 1 1
Total 1 1 2 1 1 1 1 6 1 1 2 1 3

Fonte: Elaborado pelas autoras (2011).

Paralelamente ao desenvolvimento de diferentes linhas de pesquisa, Haity desenvolvia também outras atividades profissionais. Foi membro fundador da So-ciedade de Biologia do Brasil, filial brasileira da Société de Biologie francesa, em 1941. Nos anos de 1946 e 1947, foi professor de Fisiologia na Faculdade de Ciências Médicas do Estado da Guanabara. Em 1948, foi membro fun-dador da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciên-cia (SBPC), juntamente com Maurício Rocha e Silva, e da qual foi também secretário regional da seção do Rio de Janeiro até 1962 e, ainda, membro do Conselho Científico e vice-presidente em 1961-1962.

Além disso, em 1953, ingressou na Academia Bra-sileira de Ciências como membro titular. No mesmo período tornou-se professor assistente de Fisiologia na Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro e foi membro fundador da International Society of Toxicology. Tornou-se chefe da seção de Farmacodi-nâmica do Instituto Oswaldo Cruz em 1954, e integrou o Conselho Científico da Acta Fisiológica Latinoamericana. Em 1958, passou a chefiar a seção de Fisiologia do Instituto Oswaldo Cruz e tornou-se membro da So-ciedade Brasileira de Fisiologia. Foi eleito membro da Federação Mundial dos Trabalhadores Científicos e da New York Academy of Sciences em 1959. Integrou o grupo que assessorou Darcy Ribeiro no planejamento da Uni-versidade de Brasília, em 1959-1960.

Em 1970, Haity Moussatché foi aposentado com-pulsoriamente pelo Governo, tendo cassados os seus direitos políticos. Sua entrada no laboratório de Fisiologia, que ele dirigia desde o falecimento de Miguel Ozório de Almeida, seu mestre, foi impedida. Seu salário foi re-baixado a um valor irrisório, assim como ele foi impedido de exercer qualquer atividade de pesquisa em laboratório mantido direta ou indiretamente pelo Governo - ou seja, naquele contexto histórico, cortaram quaisquer alter-nativas para que ele continuasse a trabalhar. Os outros integrantes, que também trabalhavam no Laboratório de Fisiologia de Manguinhos, dispersaram-se.

Quando relatou brevemente sua trajetória pro-fissional em depoimento aos pesquisadores da COC, desde sua contratação até a aposentaria em 1970, Haity apontou um detalhe que ele considerava "interessante". Depois de sua contratação em 1937, ele se inscreveu no concurso para pesquisador da área de Fisiologia, o que implicou várias provas até sua aprovação como primeiro colocado, Nível J. Na ocasião da posse, Haity adoeceu e foi o último a tomar posse; por isso foi o último na classifi-cação. Só dez ou doze anos mais tarde é que foi pro-movido para o nível seguinte. Depois de vários anos, tornou-se chefe da Seção de Fisiologia, ainda no posto de letra J, que depois passou a ser chamada de nível 17. Foi cassado e saiu da Fiocruz com o mesmo posto, mes-mo depois de mais de trinta e cinco anos de trabalho, desde 1934, quando entrou ainda sem remuneração, até 1970, aposentado compulsoriamente (Gadelha et al., 1998).

É importante ressaltar que, na mesma entrevista, Haity faz questão de explicar que o laboratório do qual fazia parte era um "laboratório vivo", no sentido de que os pesquisadores que lá trabalhavam o tornaram vivo, com trabalhos publicados continuamente e apresen-tados em reuniões científicas. "Quer dizer, esse é o mas-sacre, pelo menos no meu laboratório; foi o 'Massacre de Manguinhos', como tantos" (Gadelha et al., 1998, online).

Na Venezuela (1971-1986)

Diante dessas circunstâncias, Haity aceitou o convite do amigo e coautor Fernando Ubatuba, em diversos trabalhos, para integrar o corpo docente da Universidad Centro Ocidental "Lisandro Alvarado", localizada em Barquisimetro, no Estado Lara, Venezuela. Começou como professor contratado de Fisiologia e Farmacodinâmica, em 1971. No ano seguinte, foi no-meado chefe da Unidade de Pesquisas em Ciências Fisiológicas da Escola de Veterinária. Esse laboratório foi fundado por Fernando Ubatuba durante sua estada na Venezuela e foi nele que Haity implementou suas inves-tigações de pesquisa, simultaneamente dedicando-se à formação de novos pesquisadores.

Tornou-se professor titular em 1975 e, ao mesmo tempo, com esforço e persistência, equipava o labora-tório. Desse período resultaram 39 trabalhos e comuni-cações originais (nem todos eram artigos) em colabo-ração com vários pesquisadores, entre os quais se desta-cam L. Borche, Carmem Alicia Carmona de Garcia, Nelson Daló, H. Leyva, Aura Lopez, Fernando Leonardi, T. Me-léndez, J. Mendoza, F. Mandelbaum, Reynaldo Muños, B. E. Martinez, E. Paez de Mujica, Jonas Perales, F. Ramirez, M. Saer, J. Villalobos e A. Yates.

Um dos seus temas mais importantes por que tinha interesse era "veneno de serpentes", cujas pesquisas foram desenvolvidas a partir de 1978 e tornaram-se refe-rência para outras pesquisas, implementadas por outros nomes, em Manguinhos nos anos 1990.

Desse período na Venezuela resultou também a formação de um grupo atuante de pesquisadores e o exercício da presidência do Consejo Asesor de Investigación y Servicios(CADIS), por nomeação do reitor da Univer-sidade em 1974, e onde permaneceu até 1985.

Sua atuação nesse Conselho teve amplo reconhe-cimento, tendo recebido sete condecorações e várias homenagens, cercado de uma atmosfera de respeito e amizade. Haity conseguiu fundos para realização de 25 projetos em diferentes áreas, como Ciências Sociais, Agri-cultura, Veterinária e Medicina; criou a Escola de Ciências, onde os auxílios foram estendidos também a Ciências Experimentais e Exatas, atendendo de 30 a 50 projetos. O Conselho sob sua direção implementou ainda as seguintes atividades: ampliação do laboratório de química orgânica; estabelecimento de um controle de pesticidas; estabelecimento de um laboratório para cultivos de Babesia e Anaplasma; organização de um laboratório de ultraestruturas, equipado com microscó-pio eletrônico e com pessoal treinado; complementação da coleção de periódicos da biblioteca da Escola de Medicina; envio de alunos para pós-graduação no exte-rior e contratação de professores estrangeiros de ma-temática.

A pesquisa bibliográfica identificou 22 artigos científicos no período de 1971 a 1986, com 18 coautores, conforme se pode notar na Tabela 2. Os artigos foram publicados em cinco diferentes periódicos, com maior ênfase na Acta Científica Venezolana.

Com o impacto do Massacre de Manguinhos, Haity passou a publicar em poucos periódicos e o número de publicações caiu consideravelmente. O grande número de parceiros nas publicações deve-se ao fato, possivelmente, de ele ter se envolvido com a formação científica e acadêmica de um grupo atuante de pesquisadores.

Retorno ao Brasil (1987-1998)

Depois de ter representado o País no exterior, em 1986, Haity foi convidado pelo Governo brasileiro a retornar ao Brasil, o que aconteceu, de fato, no ano se-guinte, mediante uma cerimônia de desagravo com outros pesquisadores, também cassados, do Instituto Oswaldo Cruz. Haity retornou como chefe do Departa-mento de Fisiologia do Instituto de Manguinhos, da Fundação Oswaldo Cruz.

Logo agregou à sua volta antigos e novos colegas de trabalho, dentre eles Renato Cordeiro, que, depois da dispersão da equipe do laboratório em consequência da cassação de Haity, havia buscado, sem sucesso, condi-ções adequadas de pesquisa por muitos anos. Com o regresso de antigo chefe, teve a chance de retornar ao seu posto, no mesmo laboratório (Gadelha et al., 1998).

Suas primeiras publicações nesse período datam de 1989, dois anos após a chegada. Da continuidade de suas pesquisas, aqui no Brasil, resultaram nove comu-nicações e trabalhos originais (Tabela 3), em cooperação com Jonas Perales, Gilberto Domont, Reynaldo Muños, A. Yates e L. Borche. Jonas Perales fazia parte de sua equipe na Vene-zuela e veio para o Brasil como pesqui-sador visitante integrar a equipe do IOC, onde está até hoje. Gilberto Domont é pesquisador do Departamento de Bioquímica da Universidade Federal do Rio de Janeiro e mantém colaboração com a Fiocruz até hoje.

Tabela 3. Produção em coautoria no período 1987-2000. 

Autor Ano de publicação
1989 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000
MOUSSATCHÉ, H. 2 2 2 1 1 1 1 1 1 2 1
PERALES, J. 2 1 1 1 1 1 1 2 1
DOMONT, G. B. 1 1 1 1 1 1 2 1
CARMONA DE GARCIA, C.A. 1
LOPEZ-ORTEGA, Aura A. 1
ROCHA, S. L. 1 1 1
MARANGONI, S. 1 1
OLIVEIRA, B. 1 1
DALÓ, N. L. 1
SALIOU, B. 1
GRATEROL, S. 1
NOVELLO, J. C. 1
JURGILAS, P. B. 1
OVIEDO, O. 1
SA, P. G. 1
ONE, M. 1
VILLELA, C. 1
FAURE, G. 1
AMORIM, C. Z. 1
TOYAMA, M. H. 1
CHOUMET, V. 1
OVADIA, M. 1
MARTINS, M. A. 1
FRUTUOSO, V. S. 1
LOPEZ, A. 1
BON, C. 1
FARAH, M. D. L. 1
VALENTE, R. H. 1

Fonte: Elaborado pelas autoras (2011).

Toda a sua produção do período (15 artigos) está concentrada em cinco diferentes títulos de periódicos (Tabela 4).

Tabela 4. Publicações em periódicos no período 1989-2000. 

Título do periódico Ano do periódico
1989 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000
Memórias do Instituto 1 1 1 1
Oswaldo Cruz
Toxicon 1 1 1 1 2 1
European Journal of Biochemistry 1
Agents and Actions 2
Brazilian Journal of Medical and 1
Biological Research
Total 2 2 2 1 1 1 1 1 1 2 1

Fonte: Elaborado pelas autoras (2011).

Conclusão

A pesquisa aqui relatada procurou analisar o percurso científico do pesquisador Haity Moussatché, a partir da literatura científica produzida por ele, diante dos fatos políticos do Brasil, que repercutiram diretamente em sua vida profissional e pessoal. A partir do relato e das inúmeras descrições disponíveis do Massacre de Manguinhos, e daquilo que a história da ciência no país registra como um ato arbitrário da política sobre a ciência, buscou-se inferir as possíveis consequências no perfil da produção científica do Laboratório de Fisiologia do Instituto Oswaldo Cruz. Tomou-se para essa análise a produção científica de Haity Moussatché no período 1933-1998, pesquisador que foi líder do laboratório e é reconhecido como um dos grandes nomes da ciência nacional que passaram pela Fiocruz.

Quando tomado sob a perspectiva do campo da Política de Ciência e Tecnologia, o Massacre de Man-guinhos é analisado como ponto de inflexão de uma política pública de fomento de pesquisa, que teve impli-cação direta na dinâmica da atividade científica de um grupo de pesquisadores/linha de pesquisa/laboratório que foram desligados de suas funções institucionais. Entretanto, à primeira vista, e em uma análise simples-mente quantitativa da produção do pesquisador ao lon-go desses mais de cinquenta anos, não é possível antever que houve qualquer grande cisão ou quebra na linha de pesquisa.

Uma característica de toda a produção do pes-quisador é o padrão consistente de publicação em coautoria, e isso desde que iniciou sua carreira acadêmica. Talvez seja esse o ponto principal que permitiu que ele continuasse ativo na pesquisa, mesmo quando cassado e fora do Brasil.

Esse fato abre ainda outras questões interessantes para discussões: essa pouca visibilidade de uma inter-venção política seria função da área do conhecimento? Ou, estivesse se falando da Física, da Química, ou quiçá das Ciências Sociais, seria o padrão de comunicação des-sas comunidades mais ou menos suscetíveis ao argu-mento político? Cabe ainda apontar que o exílio parece não ter fragilizado a linha de pesquisa, até porque quando Haity volta para o Brasil traz um discípulo que vem inte-grar a equipe como pesquisador visitante e que foi seu coautor até o final da vida. Essas são questões a serem respondidas em pesquisas futuras.

Uma limitação do estudo e de seus resultados é que, não tendo sido possível fazer uma leitura temática dos artigos, não se pode afirmar que a manutenção do padrão de publicação responda por uma mesma linha de pesquisa ao longo desses mais de cinquenta anos de atividade científica. A dificuldade para localizar e recu-perar toda a produção acabou por orientar uma leitura mais quantitativa que qualitativa, ainda que o depoimen-to pessoal do pesquisador tenha sido usado como guia para marcar os pontos de inflexão temática.

Nesse sentido, registre-se que houve lacunas na identificação de toda a produção bibliográfica de Haity. Parte dessa produção era de um período bem mais anti-go que as bases costumam indexar, e algumas tinham os dados incompletos e não puderam ser incluídas no conjunto final analisado.

Haity estava no ápice de sua maturidade inte-lectual e profissional quando foi aposentado e impedido de exercer sua profissão em órgão pertencente ou mes-mo financiado por qualquer instância governamental, em território brasileiro. Até aquele momento, já tinha supe-rado várias crises institucionais que repercutiram, muitas vezes, em dificuldades práticas, como poucos recursos e falta de material, para exercer sua atividade profissional. Mesmo assim, continuou sua prática científica movido, muitas vezes, por idealismo e paixão, como ele mesmo apontou em seu depoimento pertencente ao acervo da COC. É razoável ousar dizer que essas eram, aliás, ca-racterísticas comuns a quase todos os cassados a cujos depoimentos esta pesquisa teve acesso.

O Golpe Militar mudou a política científica, que passou a enfocar a Ciência Aplicada e interrompeu dras-ticamente a produção científica e a carreira de vários pesquisadores que, como Haity, produziam Ciência Pura, não apenas na Fiocruz como em outras instituições. Nesse período, a Fiocruz se concentrou na produção de soros e vacinas de diferentes tipos, a fim de solucionar problemas mais urgentes e imediatos da área da Saúde no Brasil.

No caso de Haity, o episódio do Massacre de Manguinhos teve seu impacto amenizado, porque ele teve a chance de continuar suas pesquisas e sua pro-dução científica na Venezuela. Se o foco for direcionado para a produção do laboratório de Fisiologia, que teve toda sua equipe dispersa e experimentou a interrupção de pesquisas de grande valor científico, a repercussão do Massacre foi bem mais intensa e drástica, como apon-tado por ele na entrevista citada neste trabalho: "era um 'laboratório vivo'."".

Referências

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1Artigo elaborado a partir da dissertação de mestrado de E.K. COSTA, intitulada "Dinâmicas científicas e contingências sociais: um estudo exploratório em Manguinhos". Fundação Oswaldo Cruz, 2011

Recebido: 21 de Maio de 2013; Revisado: 20 de Janeiro de 2014; Aceito: 28 de Abril de 2014

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