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Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014

Estud. av. vol.1 no.1 São Paulo Oct./Dec. 1987

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40141987000100001 

Em busca da contemporaneidade perdida

 

 

Com a publicação de ESTUDOS AVANÇADOS, trazemos ao leitor a variada e fecunda produção que vem sendo trabalhada, avaliada e decantada no mais jovem instituto da USP, o Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP).

Assim, após seu primeiro ano de inquieta existência, já tendo experimentado um número significativo de hipóteses de trabalho e oferecido ao corpo acadêmico — e não só a ele! — variados estímulos que sugerem novas formas de participação e de convivência intelectual, o IEA lança ao debate alguns estudos e ensaios inovadores.

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Desafio imenso, numa universidade burocratizada que se viu obrigada a acolher e aperfeiçoar durante décadas a divisão ideológica do trabalho intelectual. Divisão ideológica que, de resto, marca a vida universitária brasileira contemporânea, regendo todos os atos, símbolos e produtos de nosso mundo universitário. Nessa perspectiva, ESTUDOS AVANÇADOS abrigará preferencialmente escritos que estimulem as análises e as reflexões de caráter interdisciplinar. Ou, se se preferir, produções vincadas pela meditação transdisciplinar.

ESTUDOS AVANÇADOS pretende ser uma alavanca a mais no esforço -necessariamente coletivo - de reerguimento da USP. Criar uma respiração na Universidade, lembrá-la de seus compromissos intelectuais mais altos e a responsabilidade política de seu corpo acadêmico, composto por intelectuais que devem formar novos quadros e produzir ciência e cultura para nossa sociedade.

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A nova publicação não pretende, também no campo editorial, desempenhar ou substituir os papéis dos institutos, faculdades e museus existentes em nossa universidade. Mas envidará seus melhores esforços no sentido de criar espaços para a reflexão original, estimulando linhas de investigação sobre determinados temas e problemas que vêm sendo dispersamente discutidos pela comunidade. Temas e problemas já agora adotados e priorizados pelo IEA, e que vão se aglutinando em áreas do conhecimento tais como:

Biologia Molecular, Ciências Ambientais, Economia e Política, História das Mentalidades, Música (Eletrônica, principalmente).

Cabe advertir: tais áreas do conhecimento constituem ênfases iniciais na política geral do Instituto, que não excluem outras iniciativas conjunturais. A densidade intelectual alcançada nesses campos indicados — ou a massa crítica existente, na expressão cara aos físicos... — e a abrangência dos enfoques adotados já permitem tornar nossas as palavras de Machado de Assis: "a dispersão não lhes tira a unidade, nem a inquietude a constância".

Grupos de Estudos de média ou curta duração que já operam no IEA também não excluem, por certo, a discussão de suas problemáticas com os Colegas porventura interessados. Mencione-se, como exemplo mais visível, a existência e a intervenção de equipe interdisciplinar voltada para o tema da Educação e a Escola Pública, nestes tempos de Congresso Constituinte. Cumpre-se aqui uma das funções do IEA, no sentido de estimular a discussão de temas magnos do País, no interior da USP. Fermentar, eis uma palavra-chave já incorporada no cotidiano dos freqüentadores do IEA, e que ajuda a definir o papel da nova Unidade. Vai-se desenhando, dessa forma, o perfil do modelo uspiano de um instituto dessa natureza.

Já contando com a presença de professores-visitantes em suas atividades iniciais, como o jurista Raymundo Faoro e o historiador Manuel Moreno Fraginals (ambos em 1986), e o compositor e professor H.J. Koellreutter, o crítico e escritor Silviano Santiago, o físico nuclear Bernard Feld, o cientista político Agustín Cueva, o tradutor e ensaísta José Paulo Paes, o historiador das idéias e da urbanização Richard Morse, o historiador da cultura e da política contemporâneas Marc Ferro (todos em 1987), o IEA tem assistido à ampliação de um significativo espaço intelectual. Espaço exercitado por um número considerável de pesquisadores, escritores e artistas nacionais e internacionais, que buscam aqui a interdisciplinaridade perdida — e suas produções procuraremos estampar em ESTUDOS AVANÇADOS. Nessa medida, além dos trabalhos produzidos no interior do IEA (como os de Faoro, Morse, Jean Louis Koszul, Feld etc.), textos de seminários e conferências como os do historiador das mentalidades Michel Vovelle (Sorbonne) ou do economista John Kenneth Galbraith, entre outros, serão divulgados, ao lado de seminários de reflexão sobre questões universitárias ou sobre problemas contemporâneos (Energia, Descolonização, Ecologia etc.).

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Como pensar a nossa contemporaneidade em suas variadas dimensões e impasses, eis um dos objetivos de ESTUDOS AVANÇADOS.

"Avançados em quê?", perguntava o cientista social e professor emérito da USP, Florestan Fernandes, em setembro de 1986, ao entrar pela primeira vez em sua carreira no salão nobre de um renovado Conselho Universitário para proferir a Conferência do Mês do IEA. Respostas a essa pergunta desafiadora deverão estar sendo procuradas a cada passo do IEA. Mas ligadas a outra questão, já agora por rios formulada afinal, uma universidade como a USP, não deveria ser, toda ela, avançada? De fato, em inúmeros setores, ela vem cumprindo seu papel e se atualizando, respondendo aos problemas que a difícil contemporaneidade brasileira propõe. Mas em outros não, sobretudo por terem perdido tais setores o ideal de universitas, necessariamente interdisciplinar, ou por terem se conformado com as regras do estamento burocrático uspiano. Nas palavras de Antônio Cândido, o IEA relança a bandeira do "heterodoxo na história da Universidade de São Paulo", de ser uma "ala móvel, podendo significar muito no cultivo do espírito crítico e renovador que nutre as visões heterodoxas, como as nutriu em 1934".

Em qualquer hipótese, o desafio é grande: qual o compromisso da Universidade e de seus intelectuais na construção da nova sociedade civil e na definição de padrões civilizatórios compatíveis com a dignidade humana neste fim de milênio?

ESTUDOS AVANÇADOS propõe desde logo a seus leitores a meditação inicial, necessariamente coletiva: a Universidade tem estimulado a sociedade a avançar em quais direções?