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Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014

Estud. av. v.1 n.1 São Paulo out./dez. 1987

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40141987000100003 

Apresentação

 

 

Antônio Cândido

 

 

A formação desse Instituto de Estudos Avançados me estimula à definição sobre a dialética do ortodoxo e do heterodoxo na história da Universidade de São Paulo. Tais conceitos são relativos e variáveis, mas acho que podem ajudar a visualizar os caminhos percorridos pela USP.

Quando de sua fundação, face as faculdades isoladas tradicionais que haviam por aqui, a simples idéia de uma Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras — organismo nuclear da Universidade —, era por si só um impacto que a sociedade custou a absorver. Mas, depois de consolidado, o ponto de vista inovador foi dissolvido por uma nova fase ortodoxa na medida em que se tornou oficializado. E a Universidade encalhou um pouco na rotina que substituíra a renovação. Foi aí, no fim dos anos de 1960, que tudo pareceu, de repente, esclerosado e inútil, como se a Universidade de São Paulo não tivesse sido, há meio século, uma das maiores revoluções culturais do Brasil. Só que, não há dúvida, era uma ex-revolução, como todas acabam por ser. Por isso surgiram fermentos atualizadores, que puseram de novo a USP em movimento e abriram a fase atual. Tais situações, corretivos heterodoxos produzidos pela própria Universidade, sacudiram a sua estrutura e motivaram soluções institucionais que, desafortunadamente, dada a situação de ditadura militar, raramente foram felizes. Porém, em todo caso, ficou a consciência de que o movimento é uma necessidade.

Digo isto pensando em coisas como a mobilização de estudantes e professores nas comissões paritarias de 1968, na luta por uma reforma abortada; pensando em coisas como a primeira greve de professores de ensino superior oficial em 1979, promovida pela Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo-ADUSP, um de cujos subprodutos foi o despertar da luta dos funcionários, último segmento a participar das tentativas renovadoras. Pensando em coisas como estas é que falo do papel das organizações paralelas e das alas móveis, que trazem o fermento da heterodoxia, sem os quais a Universidade não poderá encontrar o novo rumo, nos nossos dias de passagem da concepção liberal para concepções mais vinculadas à igualdade econômica e ao direito geral aos diversos níveis de instrução, como postula o socialismo.

Acredito que esse Instituto de Estudos Avançados pode vir a ser um certo tipo, embora mais sistemático, de organização paralela e de ala móvel, podendo significar muito no cultivo do espírito crítico e renovador que nutre as visões heterodoxas, como as nutriu em 1934. Daí a simpatia e a esperança que o Instituto desperta. Daí a oportunidade de se haver escolhido Raymundo Faoro para abrir os trabalhos, pois ninguém mais qualificado para mostrar o nível de exigência intelectual e de oportunidade histórica que se espera de uma organização aberta, como sem dúvida será esta.

Raymundo Faoro é um pensador e homem de ação que tem assumido na vida brasileira posições cheias de dignidade e de eficácia. Todos lembram a sua atuação na Ordem dos Advogados do Brasil, num momento perigoso e decisivo, quando sua iniciativa pôs tantos pontos nos "is" e firmou posições que se tornaram marcos na luta pela democracia. Em Raymundo Faoro é notável que a ação do jurista e do democrata esteja baseada na mais sólida base intelectual, feita de saber jurídico e filosófico, de saber histórico, sociológico e literário. A ele devemos um dos livros mais importantes do pensamento brasileiro, Os Donos do Poder, que renovou a própria concepção da estrutura e do papel do Estado na formação da nossa sociedade, trazendo elementos teóricos e analíticos de grande novidade e alcance. A ele devemos também uma das raras obras realmente eficazes de sociologia da literatura no Brasil, Machado de Assis — A Pirâmide e o Trapézio, onde refaz a visão que tínhamos de ângulos pouco esclarecidos da obra do grande escritor, mostrando como, nela, a análise da sociedade se inscreve de maneira profunda, a cada instante, no próprio ritmo da narrativa. E, ainda mais, devemos igualmente a ele uma atividade jornalística desassombrada e' oportuna, que vai, a cada momento, focalizando e criticando os fatos problemáticos da sociedade brasileira, de modo a formar uma verdadeira filosofia política da vida cotidiana.

Portanto, ninguém melhor do que o eminente mestre Raymundo Faoro para abrir esta atividade nova e importante, esta ala móvel que há de ser o Instituto de Estudos Avançados.