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Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014

Estud. av. vol.1 no.1 São Paulo Oct./Dec. 1987

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40141987000100005 

Apresentação

 

 

Carlos Guilherme Mota

 

 

Foi com satisfação imensa que pudemos contar com a presença, no início do mês de setembro de 1987, do prof. Michel Vovelle na Universidade de São Paulo, a convite do Instituto de Estudos Avançados e do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Contribuindo decisivamente para o alargamento da compreensão de problemas da historiografia contemporânea, o prof. Vovelle desenvolveu dois seminários, com intensa participação da comunidade acadêmica.

Seria difícil sintetizar aqui, nesta rápida nota introdutória, todo o significado do trabalho e da obra do historiador Michel Vovelle. Mas é sempre interessante ressaltar alguns poucos aspectos de sua personalidade acadêmica. Em primeiro lugar, cumpre dizer que o prof. Vovelle é um dos grandes precursores das investigações que definiram a problemática, que parece querer virar moda hoje em dia, da História das Mentalidades. Além de seus livros que vêm sendo traduzidos para o português, notadamente o Ideologias e Mentalidades, Michel Vovelle tem uma carreira acadêmica bem marcada como historiador e como professor, situando-se na tradição — a boa tradição — generosa e empenhada que vem do socialista George Léfèbvre, do jacobino Jacques Godechot e do comunista (bastante heterodoxo em suas análises concretas) Albert Soboul, historiadores que alargaram e aprofundaram os estudos sobre as revoluções francesas. Em Aix-en-Provence, sobretudo, e agora na Sorbonne, ele vem estimulando e propondo novas linhas de reflexão sobre a contemporaneidade, trilhando os difíceis percursos metodológicos que levam da história social à história das mentalidades e, en passant, incorporando e dando novo substrato teórico à história das ideologias. Já podem ser considerados clássicos alguns de seus textos sobre a Revolução e a queda da monarquia, sobre questões histórico-culturais e sobre a discutida história do cotidiano, que inovam de modo marcante a produção historiográfica atual. Traço distintivo de sua obra, a interdisciplinaridade, ou transdisciplinaridade, está o tempo todo presente em seus estudos.

Mais recentemente, nos últimos quatro anos, ele se transformou no Professor de História da Revolução Francesa da Sorbonne, e sucessor de uma figura que é muito querida para nós: o saudoso Albert Marius Soboul, que várias vezes trabalhou na USP. Também gostaria de dizer que o prof. Michel Vovelle, além de seus trabalhos, e de dirigir o Instituto de História da Revolução Francesa, é o secretário dos clássicos Annales Historiques de la Révolution Française que agora ressurgem numa versão editorial moderna.

Finalmente, seria desnecessário afirmar o quanto é oportuno o debate, entre nós, de toda a problemática do Bicentenário da Revolução Francesa que o prof. Vovelle nos traz. Deixo registrado, portanto, a alegria e o prazer deste encontro com Michel Vovelle no Instituto de Estudos Avançados da USP, num clima arejado e fermentador.

O texto aqui apresentado, publicado em sua versão original em francês e ainda inédito internacionalmente, é uma das mais atuais contribuições do prof. Vovelle. Um amplo balanço da historiografia da Revolução Francesa, elaborado com o rigor, a erudição e o estilo que caracterizam seu trabalho de historiador.