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Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014

Estud. av. vol.1 no.1 São Paulo Oct./Dec. 1987

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40141987000100007 

DOCUMENTO

 

IEA-USP: Proposta de trabalho*

 

 

Por que um Instituto de Estudos Avançados na USP?

Fundamentos

A Universidade de São Paulo, criada em 1934, encontra-se numa situação desafiadora: como conseguir, com sua experiência de mais de meio século de vida, criar um fórum central onde seus membros possam intercambiar idéias entre si, convidando colegas a atravessar as fronteiras de suas especialidades e a interagir com cientistas, pensadores, artistas e escritores de projeção nacional e internacional?

A USP constitui o maior Centro de ensino e pesquisa do País. É a grande responsável pela produção científico-cultural da rede universitária nacional. Aglutinando faculdades criadas no século passado, como a Faculdade de Direito (1827) e a Escola Politécnica (1894), os fundadores da USP beneficiaram-se da experiência de institutos, comissões e escolas que antecederam sua fundação, como a Comissão Geográfica e Geológica (criada em 1886, com Orville Derby), a Sociedade de Medicina e Cirurgia, a Escola de Farmácia, Odontologia e Obstetrícia (esta, com projeto de escola superior de Bráulio Gomes), a Faculdade de Medicina (de 1913, que adquiriu impulso a partir de 1931, transformando-se num poderoso complexo médico-hospitalar), e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (1934, inspirado no modelo do Massachusetts Institute of Technology).

Nos horizontes da vida científica de então, contavam também as experiências do Instituto Bacteriológico (1893), do Instituto Soroterápico (embrião do Butantã, 1889), do Instituto Agronômico de Campinas (1887-1892), do Instituto Biológico (1924) e, desde 1891, do Museu Paulista, que desenvolvia pesquisas e bibliografia nos campos da História, da Zoologia e da Etnografia. A partir de 1933, a Escola de Sociologia e Política recrutou uma série de intelectuais nacionais e estrangeiros, ampliando o campo das pesquisas e da reflexão teórica em Ciências Sociais no Brasil.

Nessas instituições, gestava-se o moderno espírito científico, aberto às pesquisas e reflexões de vanguarda que ganhariam uma nova dimensão com a fundação da USP, em 1934, cujo núcleo central deveria ser a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, segundo a concepção de seus criadores Júlio de Mesquita Filho, Paulo Duarte, Armando de Salles Oliveira e Fernando Azevedo. A função precípua dessa faculdade, nuclear no organograma da Universidade, seria a de estimular a ciência fundamental, numa criativa perspectiva humanista, liberal, interdisciplinar e — vale ressaltar — intemacionalista.

Para a nova universidade, importava formar quadros novos, uma nova elite para atualização do País, recrutando talentos onde eles se achassem, por vezes até fora das famílias das oligarquias locais. E, no Exterior, souberam os fundadores da USP detectar para os novos quadros universitários jovens ainda pouco conhecidos, como o físico Gleb Wathagin, o antropólogo Lévy-Strauss, o historiador Fernand Braudel ou o poeta Ungaretti. A qualidade era o que importava.

Após 50 anos, a USP, situada numa problemática cidade-limite como São Paulo, tendo vivido conjunturas nacionais difíceis e as vicissitudes de um organismo complexo e hiperburocratizado, vê-se na continência de retomar alguns pontos de sua própria história. Hoje, como reerguer a USP sem repensá-la?

Os acadêmicos uspianos mobilizam-se para repensar a instituição em suas múltiplas funções de pesquisa, de ensino, de formadora de profissionais para a nova sociedade civil. Além de, naturalmente, aprimorar os mecanismos de renovação de seus próprios quadros.

Com efeito, na perspectiva da atual Reitoria, a tarefa prioritária é estimular a criação de novos mecanismos de promoção da ciência e dos cientistas, das artes e dos artistas e, em última análise, da própria sociedade que se quer reconhecer nessa instituição eminentemente pública. Propõe-se o aprofundamento da crítica que romperá com o burocratismo instalado, nos últimos anos, na maior universidade do País. Burocratismo generalizado que temporariamente a retirou da cena político-cultural nacional.

Para tanto, quando se propõe a criação de um IEA, que pressupõe a participação de intelectuais de máximo nível, não se deve apenas observar o caminho trilhado por outros institutos congêneres. Como o Institute for Advanced Study, de Princeton, fundado em 1930, cujo trabalho concentrado em alguns campos do saber é notável, inclusive tendo abrigado, em seus quadros, um cientista do porte de Albert Einstein. Impõe-se também — como propõe o Instituto de Estudos Avançados de Berlim (1981) — fazer notar à comunidade universitária nacional a importância em se promover a discussão científica, apoiada pela crítica cultural, para além das limitações das disciplinas, das nações e das gerações. No caso da USP, vale enfatizar o exemplo desse modelo, indicando que a colaboração interdisciplinar deve ultrapassar a vida cotidiana estanque de algumas escolas que se isolaram do conjunto. E diminuir as barreiras que por vezes os títulos criaram, ao invés de estimularem o convívio acadêmico aberto, crítico e democrático.

 

 

Espera-se que o IEA, em formação, saiba incorporar as características da própria história da Universidade em que surge ele, bem como as da cidade e do País em que se situa, ultrapassar suas limitações e vencer seus desafios.

Retomar a discussão dos grandes temas de nossa época, das pesquisas e do conhecimento de vanguarda, da interdisciplinaridade, da possibilidade de avaliação das produções setoriais significativas e inovadoras e do sentido da própria atividade universitária não é, entretanto, tarefa que deva ser pensada isoladamente por um grupo de iluminados. Trata-se, antes, de um convite à reflexão sobre nosso tempo, e sobre os possíveis novos significados da vida intelectual no fim do século XX, num país desafiador como é o Brasil.

Nesse sentido, são oportunas as advertências de um professor desta universidade que, recentemente, lembrava estarem as universidades do Terceiro Mundo "incluindo em seu projeto básico a gigantesca missão de contribuir para romper as malditas amarras do subdesenvolvimento Somente elas — muito antes do que a Igreja e, agora, somando forças com a Igreja e outras instituições — têm capacidade para redirecionar a atenção da sociedade e dos Governos para com os humildes e desprotegidos (. . .) Caberá à Universidade recuperada a grande tarefa de ser a consciência critica da Nação Brasileira" (AB'SÁBER, J 984)1.

Em síntese, com a criação do IEA, a atual Reitoria da USP pretende responder a um dos antigos anseios do corpo acadêmico e oferecer um instrumento a mais para que a instituição se reencontre com sua própria História. Estimula-se, assim, um processo endógeno, porém internacionalista, de reflexão crítica. Advirta-se desde logo, que o modelo adotado - e que deverá ser aprimorado a partir das sugestões do corpo acadêmico uspiano — exclui radicalmente o perigo de se transformar o IEA numa universidade dentro da Universidade.

O objetivo não é esvaziar as faculdades e os departamentos de suas substâncias; ao contrário. Diversamente de modelos como o Colégio de México, o College de France ou a École Pratique des Hautes Études, (externos à Universidade), o modelo uspiano de Instituto de Estudos Avançados caracteriza-se pela ativação de um espaço de reflexão onde se cultivem os estudos avançados conduzidos por mestres de excelência nacional e internacional, no interior da instituição

 

A Natureza do IEA-USP: sua vocação

Considerações prévias

O Grupo de Estudos instaurador do IEA, designado pelo Magnífico Reitor da Universidade de São Paulo, prof. José Goldemberg, entendeu não caber a si definir desde logo a vocação desse centro de reflexão que ora se cria na USP. Cabe ao Grupo de Estudos, antes de tudo, sistematizar algumas observações preliminares, resultantes de inúmeros colóquios e sondagens efetuados junto a colegas representativos das diversas áreas e correntes do conhecimento, bem como resultantes da análise da estrutura e funcionamento de organismos congêneres, como o Institute for Advanced Study, de Princeton, o Wissenschaftskolleg zu Berlin, o Colégio de México, o College de France, a École Pratique des Hautes Études, além do National Humanities Center, da Carolina do Norte, do Humanities Center da Universidade de Stanford e o Woodrow Wilson Center, de Washington. Ou, ainda, de sugestões que derivaram de consultas a personalidades como o antropólogo-sociólogo Henri Favre, do CNRS (França), o jurista, historiador e cientista político Raymundo Faoro (Rio de Janeiro, convidado pela atual Reitoria a participar das atividades iniciais do IEA) e o crítico e escritor Antônio Cândido (Professor Emérito da FFLCH-USP), entre outros.

O importante é ressaltar, também, que a proposta de criação de um IEA vem sendo historicamente defendida pela Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo-Adusp. Neste âmbito, a idéia surgiu em 1979, quando da anistia dos professores aposentados pelos Atos Institucionais. Entre eles, estavam vários cientistas e intelectuais de renome que, distanciados da Universidade devido às transformações por ela sofrida durante seu afastamento compulsório, poderiam ser abrigados mais adequadamente no Instituto.

A idéia não teve seqüência, e somente durante a gestão do prof. José Jeremias de Oliveira Filho (FFLCH) criou-se uma comissão de estudos, composta pelos professores: Gerhard Malnic (ICB), Alberto Luiz da Rocha Barros (IF), Mário Schenberg (IF), Crodowaldo Pavan (IB), Alexandre Martins Rodrigues (IME), Newton da Costa (IME) e Alberto Carvalho da Silva (ICB). No decorrer do II Congresso da USP, a idéia foi enfaticamente apresentada e aprovada (cf. o jornal da Adusp, São Paulo, nº 9, nov. 1984, p. 16).

Portanto, o Grupo de Trabalho está procurando, agora, oferecer um lineamento inicial, elaborado a partir de uma série de considerações preliminares que nortearão as primeiras atividades do IEA, com vistas à sua definição e implantação.

Desnecessário afirmar que o aperfeiçoamento da estrutura e do funcionamento do Instituto de Estudos Avançados dar-se-á a partir das experiências, das críticas e das sugestões do corpo acadêmico da USP, que poderão ser encaminhadas à Reitoria, ou ao Grupo de Estudos-GE, pessoalmente ou por escrito.

 

Premissas

Nessa medida, o Grupo de Estudos-GE, considerando que:

a) Urge ampliar as oportunidades de intercâmbio de idéias do corpo acadêmico da USP entre si, apresentando os resultados desse intercâmbio a um público que não se limita ao meio acadêmico.

b) A investigação de ponta implica em especialização cada vez maior, e o pesquisador perde freqüentemente contato intelectual com seus colegas de disciplinas vizinhas e até mesmo com seus colegas de sua própria especialidade.

c) Os pesquisadores sentem necessidade de se distanciarem de suas atividades normais de vez em quando, para pensarem suas eventuais descobertas à luz do avanço de outras disciplinas, e de examiná-las num campo de conhecimento cada vez maior.

d) Os pesquisadores sentem necessidade de divulgar os resultados de suas investigações (de ponta, a se verificar) através de documentos mimeografados ou xerocopiados e de circulação rápida, porém restrita, em colóquios e simpósios igualmente restritos e de caráter provisório e especulativo.

e) Os pesquisadores devem ter a oportunidade de, ao menos três ou quatro vezes em sua vida profissional, apresentar uma síntese de seus conhecimentos numa obra escrita, dentro de uma perspectiva mais ampla e humanista que, sem ser uma obra de vulgarização, alcance um público mais amplo.

f) O O encontro de pesquisadores de disciplinas diferentes num meio intelectual propício poderá favorecer uma verdadeira interdisciplinaridade; além disso, num país onde muitos intelectuais de envergadura não possuem títulos universitários, objetiva-se uma forma de integração entre o corpo acadêmico da USP e produtores de cultura de outros tipos de formação.

g) A verdadeira interdisciplinaridade — tal como a concebemos — não deve conduzir ao confusionismo metodológico;essa interdisciplinaridade situa-se, antes, no nível da confrontação epistemológica.

h) No campo das Humanidades, ou das Ciências da Cultura, o problema da interdisciplinaridade se apresenta de modo altamente complexo, envolvendo questões de ordem teórica, política e até estética, que não são passíveis de equacionamentos simplificadores, demandando análises que abrangem campos tão diversos como o da Linguagem, da Psicanálise, da Arte, da Filosofia e da própria História.

i) A USP já atingiu, em várias frentes de pesquisa, um grau de maturidade que solicita uma interlocução mais aguda dessas frentes com outros ramos do saber contemporâneo.

Propõe que:

 

Objetivos Gerais

A Reitoria promova a criação de um Instituto de Estudos Avançados, que pode ser definido, preliminarmente:

1) Pela sua atenção aos temas, problemas e investigações "de ponta" do pensamento contemporâneo, com vistas ao aprimoramento e à atualização do corpo acadêmico desta universidade, intensificando os contatos deste com as correntes intelectuais mais significativas e críticas de nosso tempo.

2) Pelo seu caráter interdisciplinar.

3) Pela sua preocupação com as políticas de desenvolvimento científico, tecnológico e cultural e, em seu âmbito, serão realizados estudos sobre o uso social do conhecimento, visando uma melhor articulação entre a Universidade e a sociedade.

4) Pela sua preocupação básica em promover a colaboração entre os pesquisadores de países diversos e o corpo docente da USP, e entre este e personalidades da vida cultural, nacional e mundial.

 

 

(*) Texto elaborado pelo Grupo de Estudos encarregado de definir as condições de implantação do IEA-USP, no decorrer do primeiro semestre de 1986.
(1) AB 'SÁBER , A.N. 1984. Universidade de São Paulo: raízes, mudanças, sobrevivência (1934-1984) (Pronunciamento feito pelo prof. Aziz Nacib Ab'Sáber na abertura do IX Simpósio Anual da ACIESP, comemorando o 10º aniversário da ACIESP e o cinqüentenário da USP).