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Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014

Estud. av. v.2 n.2 São Paulo maio/ago. 1988

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40141988000200004 

Apresentação

 

 

Antônio Cândido*

 

 

Quando conheci Richard M. Morse, em 1947, ele vivia aqui, preparando a tese de doutorado sobre a cidade de São Paulo, certamente o melhor livro sobre este assunto difícil, quase perigoso devido à mobilidade por vezes desnorteante do objeto. De fato, Morse surpreendeu São Paulo no momento em que estava se tornando a grande metrópole moderna, e soube discernir o ritmo meio desconexo que a trouxe do burgo dos estudantes ao monstro de hoje. Lembro isso para esclarecer através de uma obra inaugural, já remota, algumas qualidades presentes em todos os seus textos. Por exemplo, a capacidade de escolher perspectivas privilegiadas para o historiador, como são os pontos de junção, ou seja, os momentos onde a realidade parece girar no eixo e o significado dos fatos é submetido a um movimento que pode desnortear quem observa, mas pode também favorecer os golpes certeiros de vista. Na tese sobre São Paulo, Morse se situou perfeitamente nos pontos de encontro e mudança, descortinando com argúcia. No livro O Espelho de Próspero, um estudo completamente diverso, ele revela em escala muito mais ampla a mesma capacidade de sentir os pontos de transição, as viradas da história, as convergências e as divergências, difíceis de sugerir, e tão fecundas como instrumento interpretativo quando devidamente apreendidas.

Outro traço que já era notório na tese e brilha em todos os seus textos é o dom de integrar perspectivas. Richard Morse possui a rara maestria no estabelecimento de contatos entre esferas distantes do conhecimento, para obter uma síntese harmoniosa e reveladora. Para um velho amigo e admirador, como eu, isso mostra a confortante juventude que ele mantém no domínio do espírito e o leva a penetrar nos objetos de estudo com simpatia tão construtiva. Por isso é que é historiador de tão alto nível, capaz de ver a realidade do mundo com uma compreensão iluminadora, que refina até os patamares mais altos de significado a massa bem-manipulada de uma vasta informação.

 

 

* Extraído do livro O Espelho de Próspero: cultura e idéias nas Américas. Companhia das Letras, São Paulo, 1988.