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Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014

Estud. av. vol.4 no.8 São Paulo Jan./Apr. 1990

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40141990000100009 

ARTIGOS ASSINADOS

 

O "esquecimento de nomes próprios" na psicopatologia da vida cotidiana, de Sigmund Freud

 

 

Maria Edith do Amaral G. Di Giorgi; Flávio Vespasiano Di Giorgi

 

 

Neste texto, com base na análise de um caso de esquecimento de nome próprio, com ele ocorrido por volta de 1896, pretende Freud estabelecer uma tipologia desse gênero de lapso de memória. Previamente ao relato, esclarece o autor que a ocorrência típica consiste na obliteração de um nome próprio — chamemo-lo de nome A — quase sempre acompanhado, ato contínuo, de um ou mais nomes substitutos — nome ou nomes B — percebidos de imediato como errôneos; essa espécie de deslocamento do processo mnemônico regular não seria arbitrária: pelo contrário, propôe-se Freud a demonstrar que é motivada, ao exibir as conexões do nome substituto com o nome olvidado.

No caso em questão, viajava Freud de Ragusa, na Dalmácia, para uma estação da Herzegovina; travando conversa com o desconhecido que com ele compartilhava a carruagem, mencionou a certa altura passeio que fizera à Itália e, ao perguntar-lhe se ele também já estivera em Orvieto e ali vira os famosos afrescos da catedral, verificou que o nome do autor dos quadros, referentes à Morte, Juízo, Inferno e Paraíso, lhe havia fugido da memória; em lugar do nome do pintor — Signorelli — acudiam-lhe à mente dois outros nomes, recusados interiormente como errôneos: Botticelli, que a Freud era tão familiar quanto Signorelli, e Boitraffio, menos vivo em seu conhecimento. Algum tempo após, ao lhe ser indicado por um amigo o nome olvidado, o reconhecimento foi imediato.

O autor inicia sua reflexão sobre a causa desse esquecimento constrangedor opinando que o tema anterior de sua conversa pertubara o tema seguinte, nele produzindo um bloqueio: momentos antes de falar em Orvieto, reportara a seu companheiro de viagem impressões que um colega seu, médico na Bosnia e na Herzegovina, lhe transmitira sobre as atitudes de seus clientes turcos da região: demonstravam estes, segundo o colega, grande confiança na figura do médico e um singular conformismo, evidenciado por sua reação a prognóstico fatal de parente; com efeito, costumavam então dizer, diante do sombrio laudo médico: " Senhor (Herr), que se pode fazer? Se fosse possível salvá-lo, o senhor o teria feito!" Frisa Freud, neste ponto do artigo, que os nomes próprios implicados nesse passo da conversa foram "Bósnia" e "Herzegovina", além do nome de tratamento "Herr", todos eles ulteriormente envolvidos na substituição do nome A — Signorelii — pelos nomes B1, Botticelli, e B2, Boltraffio. Acrescenta o autor que teve então vontade de ajuntar àquele primeiro comentário, sobre os usos dos turcos da região, o de que estes estimam a normalidade do desempenho sexual como o mais precioso bem, pois, se advertidos de problema insoluvel a tal respeito, desesperam-se a ponto de afirmar que preferem a morte a tal crise, o que configura flagrante contraste com seu natural conformismo. Mas, continua Freud, reteve seu impulso, por vir-lhe à consciência não convir tratar, com um estranho, de assunto tão escabroso. De análise mais aprofundada depreende Freud que outro motivo, inconsciente, concorreu para que não tivesse abordado tal tema: semanas antes, na estação de Trafói (o nome Boltraffio atestaria a presença inconsciente deste fato em sua cabeça) tomara conhecimento do suicídio de um seu paciente, desesperado face à incurável impotência: a necessidade inconsciente de se poupar do desprazer da recordação desse malogro profissional teria levado Freud a evitar associações conducentes ao tema "morte e sexualidade", inerente ao mencionado suicídio.

Fixa a seguir Freud os seguintes pontos de sua análise:

a) houve perturbação do novo tema pelo anterior;

b) o esquecimento não foi casual: teve uma motivação, a saber, o bloqueio de associações que levassem ao tema "morte e sexualidade";

c) pretendia ele esquecer algo, pois, e por isso reprimira certos pensamentos; tudo se passou, porém, como se aquilo que queria esquecer (o suicídio de seu cliente) tivesse provocado o esquecimento do que não queria esquecer (Signoreili) por estar este nome associado ao tema proibido; os nomes substitutivos revelam que sua intenção de olvidar o tema "morte e sexualidade" não conseguiu nem realização plena, nem frustração completa, tendo havido um resultado de compromisso, uma espécie de compensação recíproca;

d) o nome olvidado (nome A, Signoreili) acabou por ficar dividido em dois pedaços: "-elli", presente em B1, Botticelli e "signor-", que surgiu, inaparente e resguardado por ter sido traduzido, nos dois nomes substitutos, sob a forma "Bo". A propósito, diz literalmente Freud: "A substituição do pedaço "signor-" se operou como por um deslocamento ao longo da associação com os nomes Herzegovina e Bósnia, sem levar em conta nem o sentido nem a limitação acústica das sílabas. Assim, pois, os nomes foram manejados nesse processo de modo análogo ao do manejo de imagens gráficas representativas de pedaços de uma frase com a qual se deve formar um hieróglifo". Acrescenta "que a coincidência "signor-"/" bo" nada deixa transparecer do processo que a criou; analogamente, não se percebe, além da repetição de sílabas (Bósnia, Botticelli) outro tipo de relações entre o tema no qual aparece o nome Signorelli e o tema que o precedeu (morte e sexualidade/Trafói) e que foi reprimido";

e) aventa serem as seguintes as condições do esquecimento de nomes acompanhado de lembrança errônea:
— certa predisposição para o esquecimento daquele nome;
— um processo repressivo ocorrido pouco antes do esquecimento;
— a possibilidade de uma associação externa entre o nome que se esquece e o elemento anteriormente reprimido.

A respeito desta última condição, o relevante não seria acentuar sua mera existência, que é uma constante, na maioria dos casos, mas, de preferência, investigar se a associação externa é condição suficiente para que o elemento reprimido perturbe a recordação do nome, ou se, pelo contrário, não será para tanto necessário que haja uma conexão de conteúdo entre os respectivos temas. A esse respeito afirma o autor que um aprofundamento da análise revela que na maioria dos casos tal conexão de conteúdo fica manifesta.

O capítulo se encerra com a declaração do autor de que está convencido da tipicidade do caso Signorelli e da justeza da respectiva análise proposta: tal certeza vem reforçada pelo fato de que a aplicação da mesma análise a muitos outros casos congêneres indica ser o surgimento de nomes substitutos uma invariante do fenômeno do olvido de nomes próprios, pois, mesmo quando esse surgimento não se evidencia de imediato, um esforço maior da atenção o faz emergir. A última sentença do artigo estabelece, com expressa prudência que "ao lado dos simples esquecimentos de nomes próprios, aparecem outros motivados por repressão".

 

 

Síntese do "caso aliquis": Para melhor fixação da análise freudiana do "caso Signorelli", aduzir-lhe-emos a súmula do cap. II, "Esquecimento de palavras estrangeiras":

Numa de suas férias, entretinha-.se Freud com um culto jovem judeu, que, ao discorrer sobre a privação de direitos do seu povo e a conseqüente atrofia do desempenho da nova geração, em peroração exaltada pretendeu citar famoso verso de Virgílio, sem conseguir se lembrar de sua forma completa, que Freüd, a seu pedido, lhe recordou. Tratava-se do verso "Exoriar aliquis nostris ex ossibus ultor!", que o jovem citara como "Exoriar ex nostris ossibus ultor!". Interessado em saber por que se esquecera de aliquis, submeteu-se o rapaz à recomendação de Freud de que lhe fosse relatando, com sinceridade e sem crítica, as associações espontâneas que lhe suscitava a palavra aliquis.Estas foram as associações comunicadas:

— a separação de aliquis em a + liquis,
— a associação de liquis com relíquias, liqüido, liqüefação fluido;
— a lembrança dás relíquias de São Simão de Trento (criança supostamente assassinada por judeus e posteriormente canonizada); isto lhe evocava a imputação aos judeus de assassinarem uma criança cristã, por ocasião da Páscoa, e, ainda, um texto do Pseudo-São Paulo (Kleinpaul) a respeito;
— a recordação de um artigo de Santo Agostinho sobre as mulheres;
— a evocação da conversa recente, havida com um velho, um original, chamado Benedito (Bento);
— a liqüefação anual do sangue de São Januário, em Nápoles; além disso, a lembrança de que, tendo-se atrasado certa vez o milagre, e sendo tido tal atraso como prenuncio de desgraças, um general o teria exigido, com ameaças, junto aos padres;
— neste ponto, passou a pensar numa senhora de quem poderia receber uma notícia muito desagradável... e confirmou, surpreso, a insinuação de Freud de que a notícia ameaçadora em causa seria a de que a ela poderia ter faltado, naquele mês, a menstruação.

Ficou assim elucidado o esquecimento de aliquis, descoberta cujos elos lhe expôs Freud:

a) menção dos santos do calendário (santos e padres da Igreja evocados): Simão de Trento, Pseudo-Paulo, Agostinho, Orígenes, Bento, Januário;

b) a liqüefação do sangue num dia determinado, a inquietude pela não-ocorrência do fenômeno, a ameaça de que o milagre teria de acontecer, se não ... Enfim, o milagre de São Januário como símbolo contextual das regras femininas.

Comentando o "caso aliquis", chama a atenção Freud para as diferenças e semelhanças que mantém com o "caso Signorelli"; aponta duas diferenças: a aparente inexistência de substitutos, no "caso aliquis" e, ainda neste, a ausência de um tema anterior, reprimido e independente do tema tratado. Freud, porém, minimiza a importância de tais diferenças, atribuindo, pelo contrário, grande valor apodítico às semelhanças, a saber: a criação, em ambos os casos, de uma associação externa entre o nome esquecido e um tema "proibido", o qual, precisamente, além de assim "compor" o esquecimento, constitui-se na repressão que o motiva.

Quadro comparativo das análises freudianas dos casos "Signorelli" e "aliquis":

 

 

Observações sobre alguns tópicos do quadro supra, preparatórias a um comentário orgânico da análise freudiana dos dois casos:

O elo associativo entre o Tema Anterior (os pacientes turcos, que preferem a morte à impotência) e o Tema da Repressão (paciente de Freud que preferia a morte à impotência) repousa numa Identificação: o paciente procedeu "como um turco"; além disso, ao matar-se, deu prova "de que já não confiava no médico"; com isso, reproduz-se, no interior do Tema da Repressão, o mesmo contraste de atitudes diante do médico, que foi expressamente ressaltado no Tema Anterior: "(os turcos da região) desesperam-se então a ponto de afirmar que preferem a morte a tal crise o que configura singular contraste com seu natural conformismo" . Pois bem, considerando-se que o médico é chamado de Herr (Senhor), no seu discurso textual, relatado no Tema Anterior, pode-se supor uma Identificação do próprio Freud — médico — ao médico genérico ali mencionado, e, por via desta identificação, uma outra: a identificação de Freud com o significante Senhor, pelo qual tal médico genérico é chamado; assim o paciente suicida estaria para os turcos do mesmo modo que a figura do médico (Senhor) estaria para Freud. Este médico, no entanto, com quem Freud assim se identificaria, contém em si um contraste interno, paralelo ao contraste conformismo dos turcos/não-conformismo (opção pela morte) dos turcos: esse contraste interior ao significante médico consiste em ser o médico ora Herr, Senhor, ora impotente (incapaz de ter curado, e, portanto, de ter evitado o suicídio de seu paciente).

No concernente aos nomes substitutos, Botticelli e Boltraffío, o pedaço Signor -, traduzido inconscientemente, transformou-se em Bo-. E possível supor as seguintes etapas intermediárias:

Signor = Herr > Herr = Her > Her = Bo- (dado que Her- e Bo- são como que prefixos de elementos paradigmáticos homólogos — Bosnia e Herzegovina, províncias do Império austro-húngaro — tornando-se assim Bo- uma espécie de alomorfe ad hoc de her-).

As duas dissociações, Signor-elli e a-liquis, são muito sugestivas, pelo que oferecem de similar nos seus efeitos: em ambos os casos, poder-se-ia dizer que o enunciado (Signorelli, aliquis), sofreu uma fratura sintagmática — que seria o primeiro efeito da repressão com vistas a provocar o esquecimento, pois a cadeia sintagmática é mnemonicamente estável e automatizada; sua quebra significaria a presença de uma escolha — interferência, pois, do eixo paradigmático — escolha cuja conseqüência seria equivalente a uma brusca interrupção da estereotipada familiaridade que as pessoas mantêm com os enunciados já adquiridos. A dissolução do enunciado seria como uma advertência, que o torna estranho. A dissociação provocou, em cada nome, a presença de dois termos desiguais no concernente a seu envolvimento na série associativa que os vincula ao tema repressor: um elemento "neutro", - elli, a-,e um elemento "ativo" Signor-, liquis, estes últimos são o alvo da fonte repressora, por serem os constituintes fundamentais da cadeia associativa que ameaça permitir a irrupção-à consciência de indesejáveis e caóticos desejos recalcados. Estas considerações sugerem que o processo do esquecimento consistiu em isolar os elementos ativos pela ação a distância sobre eles exercida por paradigmas homólogos (Herr e liqüefaçao), estes sim, perigosos, e, portanto, reprimidos. Mas reprimidos, em primeira instância, como intencionalidade inicial; para que mais garantidamente o fossem, a repressão foi coextensiva aos inocentes enunciados cujos termos ativos calharam figurar em associação com eles. Tudo isto, porém, diz respeito apenas à associação externa; fica em pé a questão maior, que Freud menciona (sem resolver, parece) nos seguintes termos:

"Outra questão de mais profundo alcance é a de se tal associação externa pode ser condição suficiente para que o elemento reprimido perturbe a reprodução do nome buscado ou se não 'será necessário que exista mais íntima conexão entre o temas respectivos'" (FREUD, 1973, p. 759).

Em outro passo, Freud reafirma esta idéia (retificando, ao que parece, parte de suas conclusões anteriores, que não desenvolveram essa hipótese):

"Não desejaríamos dar por aceita a falta de conexão entre os dois círculos de pensamento do caso Signorelli. Uma cuidadosa prossecução dos pensamentos reprimidos sobre morte e sexualidade nos faz, com efeito, chegar a uma idéia que se relaciona de muito perto com o tema dos afrescos de Orvieto" (id. ibid., p. 763).

O comentário que pretendemos fazer neste trabalho refere-se centralmente à tentativa de encaminhar uma resposta a esta questão, precisamente: à relação direta entre o Tema Tratado e o Tema da Repressão. Antes, porém, de abordá-la em si mesma, será conveniente uma breve nota sobre alguns elementos lingüísticos implicados neste artigo de Freud sobre o caso Signorelli.

 

A linguagem da psicanálise

"A verdadeira diferença entre uma idéia inconsciente e uma idéia pré-consciente (um pensamento) consiste em que o material da primeira permanece oculto, ao passo que a segunda se mostra envolta com representações verbais." ... "Estas representações verbais são restos mnêmicos" (id. ibid.;p. 2705).

Estas afirmações de Freud compõem sua extensa definição do ego e do id, preparando a explicitação do conceito de superego. Ego, superego e id são, para Freud, três aspectos do corpo: o núcleo do ego é o sistema das percepções, o id são as pulsões instintivas, o superego é o ideal do ego — representação do id perante o ego. Em linhas subseqüentes assegura Freud que o papel das representações verbais é converter os processos mentais interiores em percepções (id. ibid., p. 2707). A economia interna destas três diferenciações do corpo resumir-se-ia assim: as pulsões instintivas (id) convertem-se em ego quando (ou se) atingem o mundo exterior; o ideal do ego — que, na qualidade de ideal, o limita e censura, só permite ao ego exteriorizar aquela parte do id que ele, superego, por um complicado processo, seleciona previamente, segundo os interesses do ideal a manter, apresentando-a ao ego como se fosse provinda do mundo exterior.

Tal situação autoriza dizer do psiquismo humano que o que lhe é inerente é o conflito, como afirma Benveniste (1976), reportando-se à linguagem da psicanálise; neste trabalho Benveniste desenvolve e desdobra, em clara e aguda categorização lingüística, os diversos níveis e estruturações desse conflito constitutivo. Começa por mostrar como, na terapêutica analítica, o analista depreende, do discurso do sujeito (que é um discurso regido rigorosamente pelo superego), um outro discurso (o do id), por pressuposição de que o conjunto de sintomas do paciente provém de uma motivação inconsciente, que, via de regra, se transpõe para motivações conscientes, geralmente falaciosas (lembre-se, a respeito, ter Freud, no episódio Signorelli, sustado seu segundo comentário sobre os turcos por achar que era "assunto escabroso, inconveniente de relatar a estranhos" — motivação consciente que logo se demonstrou insubsistente).

A descoberta da motivação elucida a conduta do sujeito — prossegue Benveniste (exemplifica-o bem a solução dos dois casos de esquecimento); a perturbação revela-se então como Resultado e Substituto Simbólico da motivação inconsciente (ilustram-nos os nomes substitutos, que mantêm associação com o tema reprimido).

O analista ocupa-se de atentar não para a antinomia que há no sujeito, entre língua e discurso, mas para uma outra antinomia: através do conteúdo e das rupturas do discurso, percebe o conteúdo inconsciente; deduz, enfim, do simbolismo da linguagem consciente, um outro simbolismo, o da linguagem inconsciente. Na história em que o sujeito se põe, vislumbra uma outra história, que esclarece a motivação; o esquecimento é uma dessas sintomáticas rupturas do discurso. Especulando sobre as marcas típicas da linguagem inconsciente (que seria a do sonho, a do mito e, parcialmente, a da poesia), Benveniste menciona o pequeno, mas capital artigo de Freud, de 1925, sobre a negação, no qual opõe o caráter da coisa aprendida, próprio da língua natural, coextensiva que é à aquisição dos padrões da cultura, à natureza de coisa não-aprendida, e, portanto, universal, característica da linguagem do inconsciente. Excesso de significantes para um mesmo significado, sintaxe provida apenas da dimensão da sucessão, signos indecomponíveis e condensados, são outros traços que Benveniste aponta como peculiares à linguagem do inconsciente, com a qual a estilística, em sua opinião, revelaria um sugestivo paralelismo. Não há margem, para neste trabalho, que reflete um curto Seminário, se explorar o extenso filão destas preciosas sugestões; mesmo assim, é irrecusável a tentação de acentuar a extraordinária relevância da afirmação de que a linguagem do inconsciente possui uma sintaxe limitada à dimensão da Sucessão: esta idéia abre a perspectiva de se considerar a hipótese de que seria a censura (o superego) que afinal organiza a linguagem consciente no eixo paradigmático, que o inconsciente não possui. Deste modo, a censura (superego, repressão) exerceria seu papel através da tenaz vigilância do eixo paradigmático — que lhe seria típico, o que explica muito adequadamente toda a gênese e todo o processo da dissociação Signor-elli e a-liquis (BENVENISTE, 1976).

 

Comentário geral sobre o artigo a respeito do caso Signorelli

O propósito declarado deste comentário geral sobre o caso Signorelli é aduzir argumentos tendentes a fundamentar a hipótese de que o tema de repressão, isto é, a relação morte/sexualidade, mantém íntima conexão com o tema tratado, a saber, os afrescos da catedral de Orvieto, neles incluído o nome do autor. Em outras palavras, procura-se demonstrar, a seguir, que o tema anterior, "turcos que preferem a morte à impotência", ao se identificar, por associação, com o suicídio do paciente, constituiu-se num indispensável deflagrador da perturbação mnemônica, mas não foi propriamente a fonte, a origem da perturbação: o tema tratado — quadros de Signorelli — já carregaria consigo elementos potencialmente repressores, prontos a concretizar-se em perturbação na exata medida em que sobre eles incidissem associações portadoras de traços distintivos a eles identificáveis. A linha de explicação adotada por Freud estabelece que Signorelli foi esquecido por se achar relacionado com Herr ("Senhor, que se pode fazer"...); estando assim relacionado com Herr, Signorelli viu-se relacionado também com o âmbito de associações contextuais de Herr: Morte, no contexto imediato, a Morte e Sexualidade no contexto seqüente (pois o paciente de Freud ao matar-se procederá "como um turco", como um contraditório turco, gente que vai de um extremo a outro, do conformismo ao suicídio). Nesta linha explicativa, Signoreiii teria sido enredado na perturbação do olvido como mero significante, nao como significado: não encara Freud em Signorelli qualquer relação temática com o tema do elo final da cadeia associativa acima. O que se pretende demontrar a seguir é que esta conexão temática muito provavelmente existe. Freud, aliás, advertiu-se disto, mas não explorou esta idéia.

Alinhamos agora alguns argumentos dessa tentativa de demonstração: são argumentos que inevitavelmente aludem à vida do próprio Freud, como se ele fosse o sujeito de uma análise.

Preliminarmente cabe uma referência mais detida aos afrescos de Signorelli na catedral de Orvieto. O conjunto representa a Morte, o Julgamento Final, o Inferno e o Paraíso, eventos denominados na tradição cristã "Os Novíssimos (do homem)"; na versão em espanhol das obras completas de Freud, que usamos para este trabalho, traduz-se por "Las cuatro últimas cosas" o título dos quadros no original alemão do texto: "Die vier letzte Dinge". A referência erudita aos Novíssimos exprime-se pelo termo Escatologia. Eschatologia, na grafia anterior à reforma de 1943; de , último; de sentido bem diverso da palavra convergente escatologia (obscenidade, salacidade), provinda de , , fezes; curiosamente, usa Freud este termo ao narrar por que silenciaria seu segundo comentário sobre os turcos: assunto tão "escabroso". O autor dos quadros é Signorelli, como já tanto se mencionou, nome que contém o elemento Signor(e), Senhor, cujas primeiras três letras são as mesmas do prenome de Freud (Sig mund).

A tanatofobia de Freud — parece ter sido Freud afetado de um temor de morte, algo maior que o do homem comum, em geral, e a dos médicos, em particular (MAY, 1976, p. 76-77): o testemunho de Jung, a respeito, sustentaria, entre outros, a atribuição deste traço à personalidade do fundador da psicanálise (JUNG, 1977, p. 57). A tanatofobia aqui pode entender-se tanto no sentido próprio (temor da morte própria), quanto no sentido mais amplo (temor da morte, de si, e dos outros) (MAY, 1976, p. 76-77), mormente a dos seus pacientes.

A problemática religiosa pessoal de Freud — Freud declarou-se sempre um descrente convicto, desinteressado pessoalmente de qualquer religião (FREUD, 1973, p. 3001). Sua última obra, "Moisés e o Monoteísmo", não só confirma peremptoriamente esta sua posição, como contém a mais categórica rejeição a Javé; não somente Freud lhe manifesta sua sistemática recusa de crença pessoal, mas também tenta, como historiador da religião, retirar-lhe o caráter de Deus prototípico do monoteísmo, em favor de deus egípcio Áton (id. ibid., p. 3253 e segs.). Um caso de esquecimento houve com Freud, envolvendo precisamente o olvido de Javé: ao relatar um sonho seu, em que aparecia a moeda cunhada pelos ingleses em comemoração ao naufrágio da Invencível Armada, com a inscrição: " Jahveh (escrito em caracteres hebraicos) eflavit et dissipati sunt", citou a inscrição omitindo justamente a palavra Jahveh. Sugestivo, no episódio, é o fato de que Freud conta que pretendia usar tal inscrição — que cita de novo igualmente mutilada — para servir de epígrafe triunfal a um artigo seu, sobre o verbete "Terapia", caso viesse a conseguir uma teoria eficaz da histeria (id. ibid., p. 477).

Pode-se imaginar que a tal inscrição valeria como uma substituição: "Freud eflavit et dissipati sunt", em lugar de " Jahveh....".

Ora, homem culto que era, e judeu conhecedor da religião judaica, convivendo em Viena com um mundo de tradições cristãs, Freud certamente não escaparia de ver em "Senhor", "Herr", a conotação habitual que o mundo religioso (e meramente culto) de seu ambiente lhe conferia: Senhor é, neste particular, o designativo de Javé, de Deus Pai, para judeus e cristãos, o principal nome bíblico difundido de Deus. Note-se que "Herr", no caso Signorelli, refere-se ao médico; atente-se agora para a quase rivalidade que Freud manifesta em relação a Javé (Senhor), neste caso da inscrição alterada, e se terá uma base para especular quão carregado de contradições o elemento Signor- (elli) se oferece a Freud. Lembre-se, ainda, a comum associação, no discurso religioso, entre Senhor e Onipotente (El Shaddai — Deus Onipotente) — o oposto de impotente, leve-se em conta, dentro desta mesma reflexão, de que o nome Senhor suscitaria em Freud uma problemática religiosa inconscientemente muito agitada, que, nos Novíssimos, o homem está nas mãos de Deus, impotente já de exercer sua liberdade.

Se é assim, justo seria supor que na cadeia associativa do olvido de Signorelli, o termo Herr seria o deflagrador do esquecimento, pois todas estas conotações de Javé deviam vir a Freud através da palavra alemã, vocábulo de sua língua materna: psicologicamente, Signorelli é esquecido num processo em que Herr traduz Signor-.

Idiossincrasia de Freud — sua irritação ao deparar com homônimos seus.

Um curioso subsídio suplementar à argumentação em favor de que o nome Signorelli já contem uma específica disposição para ser esquecido por Freud, pode-se supor, seja o aporte de irritação que nele teria provocado, por conter as três letras iniciais de seu prenome (Sig mund); Freud confessadamente não gostava de constatar a existência de homônimos seus (id. ibid.).

 

Referências Bibliográficas

BENVENISTE, E. 1976. Problemas de lingüística geral. São Paulo, Companhia Editorial Nacional/Edusp.

FREUD, S. 1973. Obras completas. Madrid, Editorial Biblioteca Nueva.

JUNG, C. 1977. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira.

MAY, R. et al. 1976. Psicologia existencial. Porto Alegre, Editora Globo.

 

 

Maria Edith do Amaral G. Di Giorgi, professora de Língua Portuguesa (aposentada) da UNESP.
Flávio Vespasiano Di Giorgi, professor de Teoria da Comunicação da PUC/SP.
O comentário que pretendemos fazer neste trabalho refere-se centralmente à tentativa de encaminhar uma resposta a esta questão, precisamente: à relação direta entre o Tema Tratado e o Tema da Repressão.