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Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014On-line version ISSN 1806-9592

Estud. av. vol.5 no.11 São Paulo Jan./Apr. 1991

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40141991000100002 

ARTIGOS ASSINADOS

 

Alguns pontos sobre a história da crítica genética*

 

 

Almuth Grésillon

 

 


RESUMO

O que é a "crítica genética", assim batizada em 1979 pelo crítico Louis Hay? O que se faz, quando se faz crítica genética? O artigo procura definir um novo campo interdisciplinar que tem produzido perplexidade entre teóricos e críticos literários. Os momentos principais (positivos ou negavitos) da recepção da crítica genética são postos em relevo.


ABSTRACT

What is the "genetic criticism", that was called by the critic Louis Hay in 1979?What do we do when we deal with the genetic criticism? This article defines a new interdisciplinary field, which has caused perplexity amongst the literary theorists and critics. The most importam moments (positive and negative) of the reception of the genetic criticism are stressed.


 

 

Se nos ativermos ao termo "crítica genética", constatamos que foi atestado pela primeira vez em 1979, quando constou do título de uma coletânea publicada por Louis Hay, os Essais de Critique Génétique. É, pois, de uma história muito recente que tentarei aqui delinear alguns pontos de referência – não, aliás, para negar brutalmente todos os estudos de inspiração genética que existiram, de fato, anteriormente, tanto na França quanto na Itália, na Alemanha etc., mas antes para afirmar que a "crítica genética" não é exatamente a mesma coisa que a "crítica de gênese"; com relação a esta, J. Molino lembra em um artigo recente (Molino 1988, p.9) que o termo é devido a Gustave Rudler e que a coisa é a herdeira de toda uma longa e excelente tradição filológica (1). Se a "crítica genética" reivindica também uma certa especificidade, como se define? O que é a crítica genética? Ou ainda: o que se faz quando se faz crítica genética?

Eis algumas definições tomadas ao acaso de minhas leituras:

"Analisar o documento autógrafo para compreender, no próprio movimento da escritura, os mecanismos da produção, elucidar os caminhos seguidos pelo escritor e o processo que presidiu ao nascimento da obra, elaborar os conceitos, métodos e técnicas que permitam explorar cientificamente o precioso patrimônio que os manuscritos conservados nas coleções e arquivos representam (...) (In: brochura de apresentação do Item, CNRS, 1988, p.4)

" (...) o estudo genético confronta o que [o texto] é com o que foi, ao que teria podido ser, ao que quase foi, contribuindo assim para relativizar, de acordo com o desejo de Valéry, a noção de conclusão, para confundir o demasiadamente famoso "fecho", e a dessacralizar a própria noção de Texto". (G. Genette, Seuils, 1987, p.369 e seg.)

" O que está em jogo é a variação dos estados, a confrontação de uma obra com todas as possibilidades que a compõem, tanto com relação ao que vem antes quanto ao que vem depois, é a mobilidade complexa e a estabilidade precária das formas. (...) o que importa é tentar compreender processos de invenção intelectual e estética que, através de tais atividades especiais, próprias de uma obra ou de um grupo de obras, podem caracterizar um gênero, um tempo, uma atividade cultural." (J. Neefs, "La critique génétique: histoire d'une théorie", 1988, p. 16 e 21)

Se essas poucas frases não têm a fixidez de uma definição de dicionário, informam, no entanto, sobre as orientações principais de certas pesquisas literárias que se reconhecem sob o nome de " crítica genética". Certamente, nem o termo nem a coisa podem reivindicar a clareza de um conceito teórico: o próprio termo encontra-se às vezes em nossas próprias fileiras, competindo com o termo "genética textual", e a extensão da coisa varia conforme a análise genética se limite aos documentos autógrafos de um autor ou vise a abranger o conjunto das condições de produção de uma obra. Daí a dizer, como o faz J. Molino (1988, p.7), que a crítica genética é apenas um neologismo construído " para fazer crer aos outros, e persuadir-se a si mesmo, que acabamos de descobrir um novo continente", há um passo; e eu diria, no momento, somente que é um passo em falso. A crítica genética não é, com efeito, uma disciplina independente constituída, é um campo de pesquisa e um campo que se busca, mas cujo objeto é definido – os manuscritos modernos – e cujos objetivos – descrição e exploração dos mecanismos de escritura – estão designados. Quando ao resto, uma observação léxica pode ajudar a determinar o estágio atual.

Tomemos duas séries de termos que se encontram freqüentemente em nossos trabalhos: por um lado, para identificar o local do escritor: " laboratório", "ateliê", "canteiro" e " fábrica"; por outro lado, para identificar o processo textual a descrever: "gênese", " criação", " nascimento", "geração". Metáforas, portanto, como observamos sempre nos campos novos, recentes demais para a conceptualização sistemática, " imagens que são ao mesmo tempo ilustrações e substitutos de conceitos" (Normand 1976, p.57). Esse espaço assim caracterizado como pré-teórico não é, aliás, habitado por quaisquer metáforas. As duas séries que citei são, de fato, bastante contraditórias, pois a primeira, a do " canteiro", possui um teor claramente construtivista, baseado na idéia de um " saber-fazer", enquanto a outra, a da "gênese", depende de um conceito organicista, implicando a idéia de um gênio criador. Vale dizer que a crítica genética tem muito trabalho pela frente, se quiser explicar-se sobre esse gênero de contradições e elaborar conceitos apropriados à sua atividade.

 

Em que Contexto Nasceu a Crítica Genética?

"A crítica genética, um filho do acaso e do empirismo", escreve L. Hay num recente artigo (1987, p. 17) em que lembra essa conjuntura bem singular do fim dos anos sessenta: em 1966, uma importante coleção de manuscritos de Heine foi comprada pela Biblioteca Nacional, e em 1968, o CNRS cria uma equipe de pesquisa encarregada de classificar, explorar e editar essa coleção. E também a época em que, empenhando-se nessa tarefa para a qual não tinha sido especialmente treinado, L. Hay publicava no jornal Le monde um artigo intitulado " Manuscritos, para que fazer?" Os inícios reais da crítica genética atual fizeram-se, pois, é importante frisar, fora de qualquer ambição teórica e mesmo desconectados de qualquer tradição filológica, principalmente de uma certa tradição francesa, indo de Lanson a J. Pommier, passando por Albalat, Rudler, Audiat e alguns outros. Também é absurdo declarar hoje que o ponto de partida das pesquisas atuais teria sido fornecido pela " constestação" dessa tradição (Falconer 1988, p.279). Esta tradição não foi nem contestada nem esquecida nem desprezada, muito simplesmente ela não estava na ordem do dia quando, em 1968, foi necessário realizar o mais urgente para que alguns germanistas viessem decifrar a escritura gótica, instruir-se com seus colegas dos manuscritos antigos, a fim de aprender o bê-a-bá da codicologia e inspirar-se nas grandes empresas editoriais alemãs, para saber como descrever e representar variantes. Com o passar do tempo, lamentaremos talvez que os iniciantes que fomos não tenham tomado conhecimento mais cedo desses trabalhos franceses do início do século, mas também dos dos anos cinqüenta, quando J. Pommier ocupava a cátedra de História das criações literárias no Colégio de França: a prática e a experiência incontestáveis do manuscrito e das questões da criação que demonstravam nos teriam sido úteis sem nenhuma dúvida, ao mesmo tempo em que a diferença fundamental do projeto intelectual nos teria levado a definir mais depressa nossa própria identidade. Com efeito, lá onde a psicologia da criação reinava com supremacia, lá onde o que importava era " imitar conscientemente a atividade mental que deu à luz a obra" (Audiat 1924) ou de "colocar-se no ponto de vista do autor" (J. Pommier 1966), lá enfim, onde a perfeição do texto final era o padrão-ouro para avaliar as variantes, os especialistas da crítica genética fizeram opções radicalmente diferentes. Não é o escrito final que está no centro de interesse, mas a escritura que se está fazendo, com suas infinitas dependências, com suas pertinências, bem como com suas impertinências. Não é a psicologia do autor nem a biografia da obra que importaria narrar, mas é um antetexto, com o conjunto das marcas conservadas, que se deve estabelecer. A partir de então, o geneticista, assumindo sua própria subjetividade (portanto sem procurar imitar a do escritor), construirá hipóteses sobre a trajetória escritural do processo em questão.

 

 

Mas fechemos estes parênteses demasiadamente longos para reter o essencial: a parte do acaso e, conjuntamente, a ausência de inscrição na tradição dos estudos genéticos à francesa.

Essa parte de acaso não pode, entretanto, ser dissociada de certas necessidades: as condições da vida intelectual na França no fim dos anos sessenta que, como qualquer conjuntura ideológica precisa, influenciaram a orientação e o foco da crítica genética nascente. Esta tomou seu impulso ao mesmo tempo em pleno estruturalismo e, pelo menos em parte, contra ele. Herdando dessa corrente o rigor metodológico, a crítica genética, embora fazendo romper o fechamento do texto, foi utilizada para isolar e descrever as diferentes fases dos antetextos (notas documentárias, pesquisas, menções epistolares, notas de trabalho, roteiros, planos, resumos, primeiro esboço redacional, rascunhos elaborados, passagens a limpo, cópias, provas corrigidas); e estabelecer, em função dos hábitos variáveis dos escritores, tipologias antetextuais. Com o mesmo rigor, a análise material do manuscrito, que acrescenta ao antigo exame filológico as vantagens da informática e da análise do papel, mas que é uma coisa bem diferente do " positivismo com lente" (M. Crouzet 1989, p. 12), chega a classificações genéticas de muito grande precisão.

Fora de sua força metodológica, a corrente estruturalista agiu sem dúvida também mais subterráneamente, alimentando a reflexão sobre o estatuto do texto e da textualidade: títulos como A obra aberta (U. Eco) ou L'Archéologie du Savoir (M. Foucault), ou Pour une Théorie de la Production Littéraire (P. Macherey), noções como a "produtividade" do texto (R. Barthes) ou a "disseminação" (J. Derrida) inflexionaram, inegavelmente e mesmo sem saber, a pesquisa genética quando esta se empenhou, cada vez mais, em um caminho em que a restituição arqueológica no antetexto levava a esboçar o horizonte de todos esses textos possíveis contidos na espessura das folhas manuscritas e a colocar "a terceira dimensão da literatura", a saber, a do tempo de sua escritura (Hay 1984).

Outras ciências humanas, como a psicanálise, por exemplo, contribuíram também para estimular a reflexão sobre os manuscritos. Não era mais questão de o que esse autor quis fazer, mas " procurar quais forças indomadas, indomáveis talvez, se mobilizaram sem que ele soubesse, para resultar em uma estruturação" (Bellemin Noel 1972, p. 12). Quanto ao próprio autor, assim que declarado morto, ei-lo ressuscitado sob o hábito daquele que escreve, ou mais simplesmente do "scriptor", pois era bem necessário dar um nome àquele cuja mão conduziu a escrita no papel.

No que se refere à lingüística, ciência-piloto do estruturalismo, se seu modelo no sentido estrito, com seu binarismo obrigatório, não podia em nada responder às fartas abordagens genéticas, é certo que o pós-estruturalismo lingüístico foi rico de ensinamentos, principalmente pelo poder evocador de certas noções como " transformação", "pressuposição", "não-dito", "subentendido", da mesma forma que pela aparição de pares terminológicos como "estrutura profunda/estrutura superficial" (Chomsky), ou "genotipo/fenotipo" (Saumjan e Kristeva). Todos esses termos podiam, com efeito, ilustrar a imensa riqueza do antetexto, acessível por restituições sistemáticas do dito para o não-dito ou, de preferência, do texto publicado, e portanto publico, para a escritura privada das primeiras anotações. O fim dos anos sessenta era já também o início da lingüística da enunciação, essa "colocação da língua em funcionamento por um ato individual de utilização" (Benveniste), que introduzia precisamente um modelo dinâmico da linguagem, de que a descrição da escritura movediça do manuscrito tinha tanta necessidade. Se acrescentarmos a essas retomadas a descoberta tardia dos trabalhos de Bakhtine, que mostra que todo discurso traz em si os traços de todos os discursos anteriores, que qualquer palavra é necessariamente polifônica, mediremos quanto os geneticistas lingüistas que aprenderam a profissão naquela época tiveram esses diferentes modelos como fonte de intuições.

Tomada de surpresa pela lei do acaso, que leva os manuscritos de Heine de Jerusalém para as margens do Sena, por um lado, e determinada pela ciência estruturalista da época, dentro da qual e contra a qual ela se elabora, por outro lado, a crítica genética permaneceu bastante tempo à margem das grandes correntes da crítica literária. Seu próprio objeto, esses manuscritos rabiscados freqüentemente no limite do decifrável, era usado como instrumento: seus pesquisadores, em busca de métodos e de modelos, e tragados no labirinto dos rascunhos, não pertenciam a nenhuma ordem, nenhuma irmandade. Mas a ascese desses primeiros anos tinha também uma outra causa, à qual gostaria de voltar.

 

Três Momentos na História da Crítica Genética

Percorrendo finalmente a história ainda muito recente – isto faz apenas vinte anos – da crítica genética, eu a vejo – mas é uma apreciação muito pessoal – cindida em três momentos: o momento germânico-ascético (1968-75), o momento associativo-expansivo (1975-85), e o momento justificativo-reflexivo, que marca o estado presente.

Seja qual for a justeza de tais cortes temporais, eis a grosso modo as propriedades de cada um desses três momentos.

Se eu disse de nossos primeiros anos que os vivíamos em uma certa marginalidade, o efeito dissuasivo do manuscrito tem sem dúvida alguma responsabilidade: é necessário acrescentar a excentricidade de uma pequena equipe do CNRS com relação à instituição universitária (2); mas há também uma outra excentricidade, e mesmo uma exterritorialidade, que denominei o momento germânico. Até 1974, os pesquisadores eram todos de fato germanistas de formação, e alguns mesmo de origem alemã. Os melhores dentre eles eram especialistas de Heine, mas nenhum tinha em sua bagagem nem uma teoria da escritura literária nem uma experiência prática do manuscrito. O que os reunia, era um desejo comum de aprender na prática para responder ao apelo, e apreender a materialidade dos rascunhos para classificar, datar, transcrever e editar a coleção Heine. E nesse campo que a tradição germânica se fez sentir: cada um conhecia de perto ou de longe o saber-fazer da filologia alemã e seus feitos na edição crítica; cada um se inspirava neles quando tentava transcrever manuscritos ou representar uma sucessão de variantes.

 

 

As aberturas para o exterior, pouco numerosas na época, trazem a marca dessa herança germânica, filológica e não-teórica: assim o Colóquio de 1972, com o IRHT, sobre "as técnicas de laboratório", e o Colóquio de 1974 sobre "transcrição, edição, significação". E os três Colóquios franco-alemães (1977, 1979, 1983, respectivamente sobre a edição dos inéditos, sobre o poder interpretativo dos estudos genéticos e sobre a edição dos manuscritos de prosa, publicados por Peter Lang em 1979, 1981 et 1987) se incluem na mesma esteira.

Ao mesmo tempo, o segundo momento, que denominei associativo-expansivo, se prepara: abrem-se as janelas, nos dois sentidos. Um diálogo instaura-se entre germanistas e certos partidários dos franceses que, igualmente isolados, se chocam de maneira semelhante com problemas suscitados por seus manuscritos, no caso os de Proust, Zola, Valéry e Flaubert. Uma colaboração cada vez mais estreita será institucionalmente consagrada pela criação de um laboratório próprio do CNRS cujo nome – "Instituto dos Textos e Manuscritos Modernos" - indica claramente a passagem de um projeto especificamente heineano para uma problemática geral. Paralelamente, seminários públicos e coletâneas coletivas se multiplicam – dentre estas, justamente, o volume Essais de Crítique Génétique (1979) – e certos países estrangeiros, principalmente aqueles que, como a Hungria ou o Brasil, descobrem, perplexos, seu patrimônio literário sem saber como protegê-lo ou explicá-lo, se dirigem aos especialistas franceses para pedir conselho e colaboração. Enfim, coisa pouco comum na França, os próprios escritores começam a interessar-se por esses questionamentos sobre sua própria atividade, e é suficiente lembrar o gesto prestigioso pelo qual Aragon legou seus manuscritos ao CNRS.

"A gênese está na moda", escreve então M. Espagne (1984), e a primeira frase do livro de J. Bellemin-Noël Le texte et l'avant-texte -(1972), "A literatura começa com a rasura" começa a ressoar nos cenáculos parisienses. E que, nesse meio tempo, o trabalho entusiasmado e obstinado tinha acabado por produzir resultados, principalmente, aliás, alguns que tinham tudo para abalar o que se acredita serem certezas. Assim, "as conclusões impossíveis" (Levaillant 1982, p.15), "a terceira dimensão", a do tempo da escritura, que viria acrescentar-se à bidimensionalidade da página publicada, as reescrituras não somente intratextuais, mas também intertextuais, as escrituras sob pressões, as metamorfoses sem fim, tudo isso acaba por intrigar e desestabilizar nossos próprios conhecimentos, como os da instituição literária. E quando L. Hayre tomou e afixou em 1985 a frase provocadora de J. Petit (1975) "O texto não existe" (Hay 1985, p. 147), certos membros da comunidade literária começaram a tremer.

Também o ano de 1985 foi, parece-me, um ano de mudança de tendências. Por um lado, um certo número de publicações marca a entrada da crítica genética nos circuitos oficiais da instituição literária: Leçons d 'écriture, espécie de radiografia e de balanço provisório dedicado ao pai fundador, da mesma forma que vários artigos sintéticos ou capítulos de obras, como os de P.M. de Biasi na Encyclopedia Universalis (1987), de G. Genette em sua obra Seuils (1987), e outros textos de apresentação, redigidos por A. Grésillon (1988), J. Neefs (1990), P. M. de Biasi (1990), E. Marty (Enciclopédia Quillet, no prelo). Por outro lado, a emergência de vozes críticas, vindo ao mesmo tempo do interior e do exterior, toma uma duplo significado: a crítica genética é de fato apenas uma corrente in statu nascendi, e não uma teoria constituída. Mas o próprio fato de que progride suscita ciúmes, portanto críticas, fora dela. Com relação a isso, citarei dois tipos de exemplos.

Um pesquisador do ITEM, M. Espagne, publicava desde 1984 um artigo (" Les enjeux de la genèse ") no qual começava a interrogar-se sobre o fundamento de sua própria disciplina, dizendo que era "uma moda, sem dúvida, mas sobretudo uma nebulosa cuja origem se percebe bem mas cujos contornos seria vão querer ainda delimitar (p.121). Em 1987, em uma comunicação (publicada em 1990) sobre "A referência alemã na fundação de uma filologia francesa", M. Espagne mostra que os estudos de gênese não são nada mais que um sonho camuflado das origens, promovido pela filologia alemã, revista e corrigida por ocasião de sua importação na França: ele pergunta, não sem espírito polêmico, "quais são os modos de legitimação próprios dos estudos genéticos". Prosseguindo nesse caminho em um outro texto, publicado com M. Werner (1990) sob o título significativo " O que calam os manuscritos" – eco matizado do subtítulo "o que dizem os manuscritos" da obra Leçons d'écriture, editada em 1985 por M. Werner e A. Grésillon – M. Espagne, concedendo à crítica genética uma legitimidade adquirida, atém-se desta vez ao fato de que há risco de que os manuscritos disputem aos textos o lugar de objetos culturais, pois já se ousa falar publicamente da estética dos rascunhos (p.113 e seg.).

Quaisquer que sejam os motivos dessas críticas, elas parecem levadas por uma questão real que poderíamos parafrasear falando do perigo da fetichização do rascunho.

O segundo tipo de críticas vem do exterior. Elas se resumem em dois pontos:

1. A crítica genética é apenas um neologismo sob o qual, para formar pele nova, se camufla uma velha tradição genética francesa e cujos verdadeiros fundadores foram G. Lanson, P. Audiat e G. Rudler (J. Molino 1988, G. Falconer 1988).

2. A crítica genética, com suas aparelhagens tecnológicas, é apenas uma pseudociência, vivendo de "fanfarronadas" (M. Crouet 1989, J. Molino 1988).

Creio que o alvo dessas críticas é bastante claro. Não é menos verdade que a crítica genética tem um grande número de problemas a resolver. Com efeito, após um momento francamente conquistador, veio àquele em que se deve tomar posição no campo literário e mesmo em ciências humanas, tomar o tempo necessário para responder às questões levantadas; a título de exemplo: que extensão-limite fixar para a noção de gênese? Como tratar gêneses sem rasuras? Pode-se exportar nossos métodos para as gêneses não-verbais? Que pensar da contribuição das ciências cognitivas?

E necessário decidir se deve, se pode existir uma teoria genética unificada, e saber se o geneticista é apenas um filólogo dos tempos modernos (3) ou se é também crítico, hermeneuta. Encerro aqui o pequeno elenco de perguntas que caracteriza o momento atual, feito de reflexão e maturação. O futuro mostrará se a crítica genética está cumprindo as promessas que ousou fazer no entusiasmo conquistador de seus jovens anos.

 

Notas

1 Trata-se da obra de G. Rudler intitulada Les techniques de la critique et de l'histoire littéraires, Oxford, Imprimerie de l'Université, 1923. O volume, dedicado a Gustave Lanson, traz também a marca da psicologia da criação do início do século. É o capítulo VII que é dedicado à " crítica de gênese".

2 Que sejamos bem compreendidos: um grande numero de universitários aderiram sem hesitação os trabalhos da crítica genética e, sem eles, essa nova corrente não teria jamais atingido sua força atual. Mas o grupo não tem desde a origem a chancela de uma equipe associada (GNRS/Universidade), mas sim o de uma equipe própria do CNRS.

3 Para o debate com a filologia, ver a excelente obra de Bernard Cerquiglini, L 'Eloge de la. Variante (1989).

 

Referência Bibliográfica

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Almuth Grésillon é diretora do Instituto de Textos e Manuscritos Modernos da França, vinculado ao CNRS – Conseil National de la Recherche Scientifique.
Tradução de Isabel Rupaud.
* Texto apresentado no Colóquio "Os Caminhos da Criação", realizado em setembro de 1990 em Gargano, na Itália. O original em francês encontra-se à disposição do leitor no IEA para eventual consulta.

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