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Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014On-line version ISSN 1806-9592

Estud. av. vol.8 no.21 São Paulo May/Aug. 1994

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40141994000200011 

TEXTOS

 

Verdade e sujeito

 

 

Alain Badiou

 

 

Começarei por algumas indicações negativas. O sujeito de que aqui se trata é efetivamente uma nova categoria filosófica, que é preciso delimitar, distinguindo-a de várias outras.

  • O sujeito não é uma substância, um ser, uma alma, uma coisa pensante, como diz Descartes. Ele depende de um processo; começa e termina.

  • O sujeito não é um nada, um vazio, um intervalo. Ele tem consistência; seus componentes podem ser determinados.

  • O sujeito não é uma consciência, uma experiência. Não é a fonte do sentido. Na realidade, ele é constituído por uma verdade, e não fonte de uma verdade.

  • O sujeito não é invariante nem necessário. Não há sempre sujeito, ou sujeitos. Precisa-se para isso de condições complexas, e, particularmente, de eventos entregues ao acaso.

  • O sujeito não é uma origem. Particularmente, não é porque há sujeito que há verdade, mas pelo contrário, porque há verdade que há sujeito.

Digamos que o sujeito é raro, tão raro quanto as verdades.

Para falar do sujeito, é preciso partir de uma teoria da verdade. Pois, fundamentalmente, um sujeito é apenas um ponto de verdade; ou, a dimensão, meramente local, do processo de uma verdade.

A filosofia moderna é uma crítica da verdade como adequação. A verdade não é adequatio rei et intellectus. A verdade não se limita à forma do juízo. Hegel mostra que a verdade é percurso.

Partirei da idéia seguinte: uma verdade é primeiro uma novidade. Aquilo que transmite, aquilo que repete, nós o chamaremos um saber. Distinguir verdade de saber é essencial. Essa é uma distinção que já existe na obra de Kant: a distinção entre razão e entendimento. Para Heidegger é capital esta distinção: a que existe entre verdade, alethéia, e conhecimento, ou ciência, techné.

Se toda verdade é uma novidade, qual é o problema filosófico essencial da verdade? É o de seu aparecimento e de seu vir-a-ser. E preciso que se pense uma verdade, não como juízo, mas como um processo real.

O esquema que os senhores têm em mãos representa o vir-a-ser de uma verdade. O objetivo desta palestra é a explicação do esquema.

Para que se inicie o processo de uma verdade, é preciso que algo aconteça. Pois, o que existe, a situação do saber tal como está, dá-nos apenas a repetição. Para que uma verdade afirme sua novidade, tem de haver um suplemento, o qual está entregue ao acaso. Ele é imprevisível, incalculável. Situa-se para além daquilo que existe, chamo-o evento.

 

 

Uma verdade vem a ser, na sua novidade, porque um suplemento – evento interrompe a repetição.

Exemplos: o aparecimento, com Esquilo, da Tragédia teatral; o surgimento, com Galileu, da Física matemática; um encontro amoroso que transformou totalmente uma vida; ou a Revolução francesa de 1792.

Um evento é ligado à noção de indecidível. Tomem o enunciado: Este evento pertence à situação. Se os senhores pudessem, com as regras do saber estabelecido, decidir que tal enunciado é verdadeiro ou falso, o evento não seria um evento. Seria calculável a partir da situação. Nenhuma regra permite decidir que o evento é um evento. Nada permite dizer: aqui começa uma verdade. Vai precisar fazer uma aposta. Por isso é que uma verdade começa por um axioma de verdade. Começa por uma decisão. A decisão de dizer que o evento se deu.

O fato de que o evento é indecidível obriga a que apareça um sujeito do evento. Um sujeito é constituído por um enunciado em forma de aposta, enunciado que é o seguinte: Deu-se isto, que eu não posso calcular, nem mostrar, mas a que permanecerei fiel.

Um sujeito é primeiramente aquilo que fixa um evento indecidível, porque assume o risco de decidi-lo.

Depois do que, engaja-se o processo infinito de verificação do verdadeiro. É o exame, na situação, das conseqüências do axioma que decidiu o evento. É o exercício da fidelidade. Nada, portanto, regula seu trajeto, já que o axioma que o sustenta decidiu fora de qualquer regra do saber estabelecido. Trata-se, portanto, de um trajeto arriscado, ou sem conceito.

Mas o que vem a ser exatamente escolha pura, escolha sem conceito? Trata-se, evidentemente, de uma escolha confrontada com dois termos indiscerníveis. Dois termos são indiscerníveis se nenhum efeito de linguagem permite distingui-los; mas, se nenhuma fórmula de linguagem discerne dois termos da situação, está assegurado que a escolha de fazer com que a verificação passe antes por um que por outro não tem apoio algum na objetividade da diferença. Trata-se, então, de uma escolha totalmente pura, descomprometida com qualquer outro pressuposto que não o de ter de escolher, sem marca nos termos propostos, aquele por que vai passar em primeiro lugar a verificação das conseqüências do axioma.

É dizer que o sujeito de uma verdade exige o indiscernível. O indiscernível organiza o ponto puro do sujeito no processo de verificacão. Um sujeito é o que desaparece entre dois indiscerníveis. Um sujeito é o lance de dados que não extingue o acaso, mas o efetua como verificação do axioma que o funda. O que foi decidido, no tocante ao evento indecidível, passará por este termo, indiscernível de seu par. Esse é o ato local de uma verdade. Fragmento do acaso, o sujeito transpõe a distância nula entre dois termos que nada distingue. O sujeito de uma verdade é precisamente in-diferente.

O ato desse sujeito in-diferente é o ato locai de uma verdade. Consiste em uma pura escolha entre dois indiscerníveis. Ele é, portanto, absolutamente finito. Como veremos, uma verdade é infinita. Mas o ato local de uma verdade, um sujeito dessa verdade, é finito.

Por exemplo, a obra de Sófocles é um sujeito para esta verdade artística, em que se constitui a tragédia grega, verdade iniciada pelo evento Esquilo. Essa obra é criação: escolha pura naquilo que, antes dela, é indiscernível. E é uma obra finita. No entanto, a própria Tragédia, enquanto verdade artística, prolonga-se no infinito. A obra de Sófocles é um sujeito finito desta verdade infinita.

Da mesma forma, a verdade científica decidida por Galileu prossegue no infinito. Mas as leis físicas, sucessivamente inventadas, são sujeitos finitos desta verdade.

Continuemos acompanhando o processo de uma verdade. Começado com o evento indecidível, ele encontra seu ato num sujeito finito confrontado com o indiscernível. Esse trajeto verificante prossegue: por escolhas sucessivas, ele circunscreve a situação. Delineia-se assim, aos poucos, o contorno de um subconjunto da situação, em que o axioma, declarante do evento, verifica seus efeitos. Claro que tal subconjunto é infinito e permanece inacabável. No entanto, pode-se enunciar que, mesmo supondo-o acabado, ele será, inelutavelmente, um subconjunto que nenhum predicado unifica. Um subconjunto intotatizável. Um subconjunto que não se pode construir ou denominar na língua. Chamam-se genéricos tais subconjuntos. Digamos que uma verdade, supondo-a acabada, é genérica.

Como poderia, de fato, uma seqüência de escolhas puras gerar um subconjunto que se deixasse unificar sob uma predicacão? Seria preciso para tanto que o trajeto de uma verdade fosse secretamente governado por uma lei, ou que os indiscerníveis, em que o sujeito acha seu ato, fossem, na realidade, discernidos por algum entendimento superior. Semelhante lei, porém, não existe. A invenção, a criação, permanece incalculável. Portanto, o trajeto de uma verdade não pode coincidir no infinito com qualquer conceito que seja. E, por conseguinte, os termos verificados, supondo-se infinita sua totalização, compõem, ou melhor, terão composto um subconjunto genérico do Universo. Indiscernível em seu ato ou como Sujeito, uma verdade é genérica em seu resultado, ou em seu ser. É subtraída a toda e qualquer unificação por um predicado único.

Por exemplo, depois de Galileu, não existe um subconjunto do saber, fechado e unificado, que se pudesse chamar a Física. Há um conjunto infinito e aberto de leis e experiências; mesmo que se suponha acabado tal conjunto, ele não se deixará resumir em qualquer fórmula única da língua. Não existe uma lei das leis físicas. A Física, portanto, é um conjunto genérico. A um tempo infinito e indistinto. Esse que é o ser da verdade física.

Da mesma forma, depois da Revolução de 1792, houve políticas revolucionárias de todo tipo. Pode-se dizer que se trata de uma verdade da política. Mas não existe também uma fórmula política única capaz de totalizar tais políticas revolucionárias. O conjunto denominado política revolucionária é uma verdade genérica da política.

O que ocorre é que podemos sempre antecipar a idéia de uma verdade genérica acabada.

O ser genérico de uma verdade nunca é apresentado. Uma verdade é inacabável. Podemos, porém, saber formalmente que uma verdade haverá sempre de ter-se realizado enquanto infinidade genérica. Daí, a possibilidade de uma apreensão ficcional dos efeitos de seu ter-se realizado. O sujeito pode formular a hipótese de um Universo onde essa verdade, cujo sujeito é um ponto local, tivesse completado sua totalização genérica.

A hipótese antecipante, referente ao ser genérico de uma verdade, eu a chamo forçação. A forçação é a poderosa ficção de uma verdade acabada.

Partindo de tal ficção, posso forçar saberes novos, mesmo sem ter verificado esses saberes.

Assim, Galileu pode levantar a hipótese de que a natureza toda está escrita em linguagem matemática; o que é a hipótese de uma Física completa. Baseado nessa antecipação, ele força o adversário aristotélico a abandonar a própria posição.

Da mesma forma, um apaixonado pode dizer: Eu te amarei sempre, o que é a hipótese antecipante de uma verdade de amor integral. Apoiado nesta hipótese, ele força o outro a conhecer e praticá-lo de maneira diferente.

A construção de uma verdade faz-se pela escolha no indiscernível. Faz-se localmente no finito.

Mas o poder de uma verdade decorre da forçação hipotética. Consiste em dizer: Se realmente se supõe acabada n infinidade genérica, de uma verdade, então esse ou aquele saber deve, imperativamente, ser transformado.

O problema é o de saber se tamanho poder de antecipação é total se é possível forçar todos os saberes envolvidos. É o problema romântico do amor absoluto; o problema cientificista da ciência como verdade integral; o problema político do totalitarismo.

Tal problema diz-se simplesmente: será que, partindo do Sujeito finito de uma verdade, pode-se nomear e forçar ao saber todos os elementos respeitantes a essa verdade? Até onde vai o poder de antecipação da infinidade genérica?

Minha resposta é que sempre há, em qualquer situação, um ponto real que resiste a esse poder.

Chamo esse ponto o inominável da situação. É aquilo que, na situação, nunca tem nome para a verdade. Um termo, portanto, que permanece inforçável. Esse termo fixa seu limite ao poder de uma verdade.

O inominável é aquilo que se subtrai ao nome próprio, a que também ele é o único a se subtrair. O inominável, portanto, é o próprio do próprio. Tão singular que nem mesmo tolera ter nome próprio. Tão singular, na sua singularidade, que é o único a não ter nome próprio.

O inominável é esse ponto em que a situação é pensada em seu ser mais íntimo: na presença pura, que saber algum pode circunscrever.

O inominável é algo como o real indizível de tudo aquilo que uma verdade permite dizer.

Demos um exemplo. A matemática é dedução pura. Supõe-se sempre que não contém qualquer contradição. Ora, Godel mostrou que é impossível demonstrar, dentro de uma teoria matemática, que essa teoria é não-contraditória. Uma verdade matemática, portanto, não pode forçar a não-contradição da matemática.

Dir-se-á que a não-contradição e o inominável da matemática. De fato, nota-se que tal inominável é o real da matemática: pois, se uma teoria matemática é contraditória, ela é reduzida ao nada.

Por conseguinte, uma ética razoável da matemática consiste em não querer forçar esse ponto, em aceitar que uma verdade matemática nunca seja uma verdade completa.

Mas essa ética razoável da matemática é difícil de ser mantida. Como se verifica no cientismo e no totalitarismo, existe sempre o desejo de uma onipotência da Verdade. Aí está a raiz do Mal.

O Mal é a vontade de denominar a qualquer preço.

Habitualmente, diz-se que o Mal é mentira, ignorância, mortal tolice. Antes tem o Mal, como condição, o processo de uma verdade. Só existe o Mal porquanto há um axioma de verdade no ponto de indecidível, um trajeto de verdade no ponto do indiscernível, uma antecipação de ser quanto ao genérico e a forçação da nomeação no ponto do inominável.

Se a forçação da subtração inominável é uma catástrofe, é porque afeta a situação inteira, perseguindo nela a singularidade como tal, cujo emblema é o inominável. Neste sentido, o desejo ficcional de suprimir o inominável libera a capacidade de destruição contida em toda verdade.

A ética de uma verdade resume-se, portanto, inteiramente, numa espécie de moderação com relação a seus poderes. E preciso que o efeito do indecidível, do indiscernível e do genérico, ou ainda, o efeito do evento, do sujeito e da verdade, admita o inominável como limitação de seu trajeto.

O Mal é finalmente o desejo do tudo-dizer.

Para conter o Mal, é preciso medir o poder da Verdade.

O que nos ajuda é o estudo rigoroso das características negativas do trajeto próprio da verdade.

O evento é indecidível. O sujeito é ligado ao indiscernível. A própria verdade é genérica, intotalizável. E o ponto em que se detém o poder é o inominável.

Temos assim quatro categorias negativas ou subtrativas. Seu estudo filosófico é capital.

Indico que tal estudo pode apoiar-se na matemática moderna:

  • o teorema de Godel permite-nos pensar o indecidível;

  • a teoria de Galois permite-nos pensar o indiscernível;

  • a teoria de Cohen permite-nos pensar o genérico;

  • o teorema de Fuhrken permite-nos pensar o inominável.

Finalmente, a matemática ajuda o filósofo, para pensar a verdade, e, a um só tempo, evitar o excesso de poder desta. Diz-se freqüentemente que a ciência é uma técnica e uma alienação. Ela mostra aqui que pode ser também um pensamento, uma liberação e uma garantia ética.

 

 

Alain Badiou é professor de Filosofia da Universidade de Paris VIII. É autor de Rhapsodie pour le théatre (1990) e Conditions (1992), entre outros livros.
Palestra feita pelo autor em 27 de agosto de 1993 no IEA.
Tradução de Jean Briant. O original em francês - Verité et sujet - encontra-se à disposição do leitor no IEA para eventual consulta.

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