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Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014versão On-line ISSN 1806-9592

Estud. av. v.8 n.22 São Paulo set./dez. 1994

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40141994000300027 

PERFIS DE MESTRES

 

Eurípedes Simões de Paula

 

 

Oswaldo Pereira Porchat

 

 

Não é difícil escrever um depoimento sobre alguém que, durante anos a fio, aprendemos a respeitar, admirar e estimar. Por isso, não me é difícil escrever este depoimento sobre Eurípedes Simões de Paula. Aliás não fui apenas seu amigo; eu tinha por ele algo como uma estima filial. E estou muito seguro de que tais sentimentos encontravam, de sua parte, acolhida e correspondência.

Eurípedes Simões de Paula tinha seus defeitos. Quem não os tem? Mas ele não os escondia nem dissimulava. Nem poderia fazê-lo, se o quisesse. Ele exibia seus sentimentos à luz do dia, revelava-se inteiro no que dizia e no que silenciava. Faltava-lhe o dom da hipocrisia... Não se trata aqui de glorificá-lo, de hiperdimensionar seus feitos ou suas qualidades. Nem de minimizar falhas. Sua memória não precisa de nossa complacência, nem de nossa generosidade. Basta-lhe a verdade daquele Eurípedes real e humano.

Foi sobretudo como administrador, todos o sabem, que Eurípedes Simões de Paula se realizou. Como diretor da Faculdade de Filosofia, durante tantas e tantas gestões. Foi no dia-a-dia de sua atividade incansável de diretor que ele nos revelou aquelas qualidades que o tornaram inesquecível: sua enorme bondade, sua generosidade inigualável, sua afetividade saudável, sua simplicidade tranqüila. Ao lado de uma operosidade invejável, um idealismo imbatível, uma paixão profunda e obsessiva pela instituição que dirigia. A Faculdade de Filosofia era, de fato, sua grande paixão. Dela falava de boca cheia. Sonhava em fazê-la ainda melhor e maior.

E trabalhava infatigavelmente para que o sonho se tornasse realidade. Sua presença inarredável conferia continuamente à Escola vida e dinamismo. Incentivava estudos, pesquisas, publicações. Animava e protegia quem se mostrasse disposto a trabalhar. Acolhia idéias com entusiasmo.

Tinha uma capacidade desconcertante para contornar situações difíceis e quase sempre se saía bem. Isso permitiu-lhe, em muitos momentos de crise, preservar melhor a Faculdade. Nos conflitos e disputas, procurava conscientemente fazer média, atender a ambos os lados. Não era homem de opções radicais. Nas situações institucionais, estava sempre atento ao lado humano dos problemas. Aborrecia-o a retórica oficial ociosa e obsoleta. Procurava ir direto ao verdadeiro âmago das questões e ver as coisas com simplicidade.

Permitia-se explosões verbais em seus rompantes, mas não guardava rancor ou ressentimento. Quando alvo de críticas que lhe pareciam injustas, opunha-lhes seu espírito de compreensão e uma tranqüila superioridade.

A porta do seu gabinete permanecia literalmente aberta a professores, estudantes e funcionários. Bom e magnânimo, era o pai comum a quem todos recorriam para resolver questões administrativas ou problemas pessoais. Detestava dizer não. Os estudantes mereciam dele um carinho todo especial. Seu paternalismo sincero e afetuoso desarmava os mais renitentes.

Jamais aplicou a ferro e fogo as disposições legais ou estatuarias. Tinha consciência de quão injusta pode ser a fria aplicação dos preceitos da lei. Ele sabia como driblar a sua rigidez. Também detestava punir. As punições inadiáveis, sabia transformá-las em conversas de amigável advertência. Muitos abusaram — e muito — de sua generosidade. E isso não lhe escapava, no mais das vezes. Mas tinha feito, desde sempre, sua opção: confiar no ser humano, até prova irrefutável em contrário. E todos sabemos que tais provas dificilmente se produzem.

Eurípedes foi a alma da velha Maria Antônia. E ele viveu nela e com ela, alegrou-se com suas alegrias, sofreu com seus sofrimentos e jamais se conformou com o seu fim. Nos fins de 68, quando os fascistas a bombardearam horas a fio com coquetéis Molotov, atiraram sobre seus estudantes, matando um deles, ferindo outro, eu vi Eurípedes percorrer desolado, pátios e corredores, confortando os alunos atemorizados, expondo-se corajosamente nos lugares abertos. Afinal ele era sempre o capitão da FEB, que combatera o fascismo nos campos de batalha da Itália e não se cansava de dizer seu orgulho por ter servido seu país como soldado.

Naquele momento duro e triste, eu vi Eurípedes desesperar-se ante a passividade escandalosa do contingente policial, que assistia à destruição da velha Escola e alegava ordens superiores para não intervir. A ditadura não mais podia tolerar que, no coração da cidade de São Paulo, permanecesse aceso um foco de pensamento livre. Atônito e impotente, o diretor assistiu à agonia de sua Escola.

A Faculdade de Filosofia foi transferida (ou desterrada?) para a Cidade Universitária. Foi desmembrada em vários Institutos, com a Reforma Universitária. De um certo modo mais identificada com a velha Maria Antônia, instalou-se a nova Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, que Eurípedes dirigiria por muitos anos. O espírito da Maria Antônia, nele encarnado, ainda sobrevivia. Com a morte trágica de Eurípedes, encerrou-se uma fase de nossa vida universitária. Foi a agonia da Maria Antônia que chegou ao fim.

Vale a pena insistir um pouco sobre esse amor apaixonado de Eurípedes por sua Faculdade. Pois era algo de muito incomum. As instituições universitárias continuam produzindo pesquisadores capazes e criativos, docentes dedicados, ainda que não constituam, por certo, a maioria. Mas são bem pouco numerosos, infelizmente, os que nutrem um amor verdadeiro pela Instituição. Os que se identificam realmente com ela e sonham em fazê-la crescer sempre mais, progredir, tornar-se forte. Que aceitam sacrificar-se por ela e buscam a ela servir, ao invés de servir-se dela. Eurípedes foi um desses poucos.

 

 

Seu exemplo foi um ensinamento constante, sua morte é um apelo a que o imitemos. Quantos o imitarão?

Maria Regina, sua companheira inconsolável e guardiã carinhosa de sua memória, perguntou-me se eu escreveria um depoimento sobre Eurípedes. É com um prazer imenso que o faço. Também com uma enorme saudade e um sentimento de profunda gratidãos. Por tudo que ele fez por todos nós. Por tudo que ele fez pela Universidade.

 

 

Osvaldo Pereira Porchat é professor do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência da Unicamp.
Texto extraído de In Memoriam, Eurípedes Simões de Paula (FFLCH-USP, 1993).

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