SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.8 número22Lourival Gomes MachadoJoaquim Barradas de Carvalho índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014versão On-line ISSN 1806-9592

Estud. av. v.8 n.22 São Paulo set./dez. 1994

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40141994000300036 

PERFIS DE MESTRES

 

Armando Tonioli

 

 

A. A. Peterlini

 

 

Abiit, non abest.
I N. Salum

Quando o jovem professor de Ciências Físicas e Naturais compareceu, em 1941, à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo para tentar um curso superior e se matriculou em Letras Clássicas, porque só esse curso lhe permitia continuar com seu trabalho docente, estava bem longe de supor que viria a tornar-se o primeiro professor brasileiro a responder pela disciplina de Língua e Literatura Latina na USP.

Nascido em São Paulo, Armando Tonioli (1915-1970) fez aí seus estudos, trabalhou e viveu, declarando praticamente uma só profissão: professor. De Ciências, no Colégio Paulistano, de 1938 a 1943; de Latim, ainda no Paulistano, de 1943 a 1955; no Instituto Mackenzie — Colégio e Faculdade - de 1950 a 1963; e na FFLCH da USP, de 1944 até sua morte.

De suas pesquisas publicou principalmente sobre Terêncio, em especial a respeito da comédia Os Adelfos, núcleo de sua tese de doutoramento. Embora repetisse inúmeras vezes que não tinha bem como uma tese esse trabalho, é ele hoje muito mais conhecido e utilizado que sua tese de docência, A composição latina à luz da composição grega, a qual, se apresenta pesquisa e importância científica superiores às da primeira — atentas as condições atuais, entre nós, de conhecimentos na área —, tem aproveitamento bem menor na comunidade acadêmica.

Armando Tonioli, o professor, não será esquececido jamais pelos que lhe freqüentaram as aulas, quer na Maria Antonia, quer na Cidade Universitária. Rara a transparência do discurso de comunicador exímio e exato, máximo no que tange à história da língua latina, na fonética e na morfologia. Parecia talhado para as minudências dessa disciplina, na qual, como nos complexos aparelhos eletrônicos de hoje, a mínima falha ou dos componentes ou da seqüência, anula o todo. E as suas traduções?! A quem entendesse um pouco de latim admirava sobremaneira ver com que precisão o professor Tonioli era capaz de traduzir a preceito para o vernáculo certas expressões latinas. Aluno, de uma feita, ante o surpreendente da acribia com que trouxe para o português uma frase latina, não me contive e lhe perguntei como o conseguia. Confessou que, às vezes, levava nisso tempo, refletindo até que lhe acudisse à mente o termo, a forma portuguesa satisfatória.

Na mesma proporção em que era obstinado no exato e no transparente, Armando Tonioli detestava qualquer ostentação à luz do saber. Em extremo honesto, nunca teve receio de não saber, de hábito, na hora; alguma vez, depois, mas sempre respondia a contento.

Respeitoso e grave nos momentos sérios, era difícil igualá-lo na jovialidade, na lhaneza, no deixar à vontade com que entretinha os amigos em conversas, ou na maestria e quase arte em contar uma anedota.

 

 

Poucos imaginavam, então, ao ouvi-lo rindo, o lutador responsável que, com 24 anos de idade, quando da morte do pai, entrara a ajudar a mãe na criação do irmão menor de sete anos, como um segundo pai. Chefe de família dedicado, Tonioli criaria ainda os três filhos de seu casamento.

Poderíamos lembrá-lo também como membro de sociedades culturais: Sociedade de Estudos Filológicos; Association Guillaume Budé; Associação de Estudos Clássicos do Brasil, de que foi fundador e, mais de uma vez, presidente. Poderíamos relatar o sem-número de bancas examinadoras de que participou, as muitas conferências que fez... Mas nada disso sobrepassaria na memória de seus alunos o professor que, herdeiro de toda a formação filológica de seu mestre Urbano Canuto Soares, soube administrar e crescer o legado, para deixá-lo a seus discípulos em aulas inesquecíveis.

Professor Tonioli, ante esse momento de lembrança, como Catulo ao pé do túmulo do irmão, seus alunos lhe deixamos uma saudação e uma saudade: in perpetuum... aue atque uale!

 

 

A. A. Peterlini é professor do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas do Departamento de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons