SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.8 número22Toponimia e Línguas Indígenas do BrasilLíngua e Literatura Italiana: uma crônica datável (1949-1958) índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014versão On-line ISSN 1806-9592

Estud. av. v.8 n.22 São Paulo set./dez. 1994

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40141994000300060 

ORIGENS E ATUAIS LINHAS DE PESQUISA

HUMANIDADES

 

Lingua e Literatura Francesa

 

 

Maria Sabina Kundman

 

 

O Curso de Língua e Literatura Francesa iniciou suas atividades em 1934, no mesmo ano da criação da FFCL da USP, com o nome de Cadeira de Língua e Literatura Francesa tendo, como regente o professor Robert Garric. No dizer de Pierre Hourcade, seu sucessor, muito "fez pelo prestígio e atividade desta matéria, criando ao redor dela uma atmosfera de simpático interesse, sabendo atrair e reter um auditório de escol" (1). Integrava então, pelo Decreto 7069 de 6/4/1935, a subseção de Letras Estrangeiras, que compreendia as cadeiras de Francês, Italiano, Alemão, Espanhol e Inglês.

A partir do Decreto 12511 de 21/1/42, as Cadeiras de línguas e literaturas estrangeiras então existentes passaram a compor a Seção de Letras, congregando as áreas de Letras Clássicas, Neolatinas e Anglo-Germânicas, que seriam reunidas, a partir de 1953, em um só Departamento.

Com a Reforma Universitária aplicada na USP em 1970, a Cadeira de Língua e Literatura Francesa tornou-se parte integrante do Departamento de Letras Modernas que compreende, além do curso de Francês, os de Alemão, Espanhol, Inglês e Italiano.

O curso, que nos primeiros anos de funcionamento ficaria inteiramente a cargo do professor catedrático, chegou a ter 19 docentes em 1979, mas atualmente, devido às aposentadorias, cujas vagas não foram preenchidas, conta com apenas 16 professores (um titular, dois livre-docentes, sete doutores, dois mestres e quatro auxiliares de ensino).

O Curso de Língua e Literatura Francesa apresenta, do ponto de vista acadêmico, dois momentos bem significativos: um primeiro, de 1934 a 1974, marcado pela presença dos professores franceses como regentes do Curso (2), e o segundo, a partir de 1974, caracterizado pela regência pedagógica e administrativa de professores locais.

Em 1974, Vitor de Almeida Ramos, intelectual de atitudes liberais e progressistas, assume a direção da área e imprime ao curso características que lhe mudam a configuração. Com sua morte prematura, a regência passa a ítalo Caroni (1974-1983) que, democraticamente, estabeleceu o sistema de rodízio na regência da área. Assim, em 1974, 40 anos após a criação da Cadeira de Língua e Literatura Francesa, os destinos e a orientação da área passam a ser pensados e assumidos por professores locais. A partir de então, há um incentivo à pesquisa e à titulação universitárias, estimuladas também pela Reforma Universitária. Inicia-se uma nova etapa no Curso de Francês, o ano de 1974 estabelecendo um marco de relevância.

Convém, entretanto, acrescentar que a colaboração francesa, fundamental nos anos de formação e consolidação do Curso, assim como nos períodos subseqüentes, não sofreu interrupção em 1974. Os Serviços Culturais franceses continuaram a enviar professores para a USP até os dias atuais, sendo que, a partir de 1993, o professor em missão passou a servir não apenas a USP, mas também a outras instituições e regiões do país.

Os problemas enfrentados nos primeiros anos de funcionamento da Cadeira de Francês foram inúmeros: responsabilidade confiada a um só professor, ''falta ou pelo menos extrema penúria de livros e revistas", ausência de local de trabalho, desnível do grupo, advindo da presença "de um público de ouvintes livres, já bem impregnados da cultura francesa clássica e moderna" e de "professores comissionados do ensino primário" com a "bagagem de apenas dois anos de língua francesa previstos nos programas da Escola Normal" (3).

Em julho de 1962 foi criado pelo Decreto 40346 o Centro de Estudos Franceses, anexo à Cadeira de Língua e Literatura Francesa da Faculdade, que realizou, entre outras, as seguintes atividades: cursos para outras áreas que não as de Letras, cursos de aperfeiçoamento e jornadas pedagógicas para professores da rede pública e particular, organização de um Centro de documentação pedagógica, visando a empréstimo de material para alunos e professores interessados, realizações culturais e pedagógicas, em estreita colaboração com a Associação dos Professores de Francês do Estado de São Paulo, conferências de personalidades as mais expressivas do cenário intelectual francês, prestação de serviços às autoridades educacionais do estado, elaboração de provas para exames de madureza e para concurso de ingresso ao magistério, secundário e normal do estado de São Paulo, traduções de conferências em eventos diversos, obtenção de bolsas de estudo totais ou parciais nos cursos da Aliança Francesa, organização de estágios em algumas cidades da França e no Quebec (Canadá).

As bolsas, de curta ou longa duração, obtidas junto ao governo francês e canadense possibilitaram ao corpo docente do Curso de Francês da USP, aos pós-graduandos e aos professores em geral a realização de cursos de aperfeiçoamento, assim como pesquisas visando à elaboração de dissertações de mestrado, teses de doutoramento e de livre-docência.

A atuação do Centro foi extremamente dinâmica. Contatos com diversos organismos e instituições nacionais e internacionais (Belc, Crédif, Ciep de Sèvres, FIPF, IPN e Aupelf) (4) permitiram a realização de eventos literários, lingüísticos, artísticos e pedagógicos de grande importância.

Do ponto de vista metodológico, o Curso de Língua apresenta, no nosso entender, quatro momentos bem definidos.

O primeiro, que vai da criação da Universidade até por volta de 1965, foi profundamente marcado pela presença do professor Alfred Bonzon, que permaneceu na USP 19 anos (1938-1946, 1949-1955 e 1957-1962), imprimindo ao curso uma orientação nitidamente literária, com adoção de modelos franceses e estudo de textos com abordagens estilísticas e filológicas, então em voga na França. O curso era uma reprodução do modelo psico-pedagógico utilizado na França para os alunos de língua materna francesa. A língua era ministrada indiretamente, toda ênfase sendo dada ao estudo de textos literários. Só a partir de 1951 os estudos lingüísticos começaram a ser dados de forma mais sistemática. As turmas eram pouco numerosas devido à seleção rigorosa dos estudantes e a ser o curso inteiramente voltado para a França, sem preocupação de vínculos com a realidade brasileira.

Assistiu-se (de 1966 a 1980), no ensino da língua, à introdução dos métodos audiovisuais, que privilegiaram o oral. Foi o momento do fascínio da imagem e do som. Entretanto, nessa mesma época, a presença do francês começou a diminuir nas escolas de l° e 2º graus, o que acarretou mudanças na programação do Curso. A partir de então, as metodologias do FLE (francês, língua estrangeira) exerceriam influência no ensino da USP.

Nesse período foi realizado em São Paulo (1973), na USP, o Congresso da Aupelf — Association des Universités Partiellement ou Entièrement de Langue Française —, que debateu temas de relevância, redirecionando os estudos do francês na década seguinte: o ensino da tradução, da aprendizagem do francês para fins específicos (francês instrumental), o estudo de autores pertencentes a países de expressão francesa, o objetivo do ensino-aprendizagem de línguas estrangeiras nos países da América Latina etc. Nessa fase, embora ainda predominassem a abordagem literária e o estudo de obras e autores franceses, houve valorização dos estudos lingüísticos. Esse período foi marcado pelo dinamismo e entusiasmo de Albert Audubert e empenho e dedicação de Maria de Lourdes Rodrigues.

O terceiro momento, bastante eclético (década de 80), caracterizou-se pela permanência de algumas técnicas da fase audiovisual e pela influência de tendências advindas do enfoque comunicativo e de estratégias do francês instrumental. A análise de textos e autores de outros países de expressão francesa que tinha sido introduzida nos estudos literários acabou também penetrando na área de língua.

Nesse período intensificaram-se os estudos contrastivos, tradutológicos e de análise do discurso. Começou então a haver maior equilíbrio entre os estudos lingüísticos e os literários, fase marcada pela atuação de ítalo Caroni, que alargou os horizontes do curso, introduzindo estudos no campo da francofonia e incentivando a área de tradução, que fora particularmente defendida por Vítor de Almeida Ramos.

O quarto momento (década de 90), que estamos vivendo, pode ser caracterizado pela reformulação geral no curso de francês na área de Letras, em função das conquistas das últimas décadas no campo da psico-sócio-lingüística, da análise do discurso, da enunciação, da pragmática, assim como no campo das ciências da educação, conquistas que acabaram se concretizando em uma nova prática na sala de aula, inter-relacionando ensino e pesquisa.

O curso de Literatura, na graduação, passou por três momentos bem característicos.

No primeiro, ao qual já aludimos ao apresentar a evolução do curso de Língua, a literatura era estudada em perspectiva cronológica, de acordo com os moldes tradicionais franceses.

O segundo momento optou por iniciar os estudos literários pelos autores franceses modernos ou contemporâneos, por se tratar de textos lingüísticamente mais acessíveis aos alunos. Do ponto de vista teórico, as abordagens provieram de diferentes correntes teórico-críticas.

No terceiro momento, o atual, o curso é organizado por gêneros literários. Nos dois primeiros anos é proposto um curso de leitura de textos literários com o objetivo de sensibilizar os alunos para o reconhecimento de diferentes organizações textuais. Cabe lembrar que os estudos de autores das literaturas de países de expressão francesa, ministrados de forma aleatória nos programas de Literatura, foram introduzidos em 1985, em caráter optativo para todos os cursos da USP e tornaram-se obrigatórios para os alunos do Curso de Francês a partir de 1991.

O curso de Língua e Literatura Francesa procura, atualmente, através do conhecimento lingüístico, dar acesso às culturas de expressão francesa, em seus aspectos literários, humanísticos, científicos e técnicos. O objetivo é introduzir o aluno em outros universos, numa perspectiva comparatista e intercultural. Esse diálogo significa, ao mesmo tempo, enriquecimento, confronto e conflito, tentando não perder de vista o contexto local e as necessidades do interlocutor brasileiro. As diversas modalidades de ensino desenvolvidas na área de Letras (cursos de graduação, especialização em tradução, pós-graduação) visam a formar sobretudo professores, tradutores e pesquisadores e procuram aplicar, nos cursos desenvolvidos, as pesquisas mais recentes no campo das ciências da linguagem e da educação, buscando também dar ao aluno metodologia de trabalho e autonomia de aprendizagem que o capacitem a exercer outros tipos de atividades.

Os trabalhos na área estendem-se também a outros departamentos, faculdades e instituições, com cursos de Francês Instrumental, extracurriculares e outros, de aperfeiçoamento de professores de 1°, 2° e 3° graus.

Em função da variedade dos cursos oferecidos, a pós-graduação em Língua e Literatura Francesa, credenciada em 1971, tem estimulado pesquisas bem diversificadas em nível de mestrado e doutorado.

O curso de Pós-Graduação visa à formação de pesquisadores e professores em nível superior e incentiva pesquisas, quer em caráter individual, quer em trabalhos de equipe, dos quais o Projeto Léry-Assu, já concluído é um exemplo expressivo. As pesquisas individuais têm predominado no curso, mas percebe-se atualmente, por parte dos docentes, o desejo de integrar seus projetos em grupos de pesquisa, o que tem se evidenciado em participações no Núcleo de Pesquisas Brasil-Franca do Instituto de Estudos Avançados (USP), no Grupo de Trabalho de Literaturas Estrangeiras da Anpoll e nos diversos acordos internacionais com Paris VIII, Paris X, Item (Instituto de Textos e Manuscritos) do CNRS (5) e Capes/Cofecub (6), recentemente aprovado. Evidencia-se também a preocupação em inter-relacionar ensino e pesquisa, o que não ocorria com freqüência anteriormente.

Herdeira de tradição de ensino que privilegiava os estudos literários, a área acabou produzindo grande número de teses de literatura, sobretudo na linha tradicional francesa.

A partir da década de 80, entretanto, o leque ampliou-se. Estimularam-se estudos comparatistas, o que permitiu abordagens interdisciplinares abarcando diferentes áreas do conhecimento. Privilegiou-se então a integração dos estudos franceses com uma visão intercultural da literatura brasileira, em que se destacou a orientação de Leyla Perrone-Moisés.

Por outro lado, o interesse pelas literaturas de expressão francesa suscitado pelo Congresso da Aupelf e pelos cursos de pós-graduação posteriormente realizados incentivou a pesquisa sobre autores de países de expressão francesa.

Essas pesquisas comparatistas, assim como as relativas aos autores francófonos aprofundaram a própria visão da realidade cultural brasileira. Esse estudo de obras e textos literários enriqueceu-se ainda com a aplicação de instrumentos teóricos oriundos de diferentes correntes teórico-críticas: psicanalítica, sociológica, narratológica, genética, historicista e outras.

Em função do próprio histórico da área, que privilegiou os estudos literários, só mais recentemente o curso desenvolveu o campo da pesquisa em língua. Realizaram-se inicialmente trabalhos de análise contrastiva entre fenômenos lingüísticos do francês e do português, com aplicação ao ensino de língua francesa. Atualmente o campo alargou-se com estudos de problemas lingüísticos, análise do discurso, pesquisas envolvendo concepções de linguagem e sentido, assim como conceituação crítica de novos modelos de aquisição do francês, língua estrangeira.

Finalmente, na linha tradutológica, a partir de teorias retóricas, lingüísticas, semióticas, semanalíticas, buscam-se leituras críticas do texto original e um embasamento para a sua reescritura na língua-cultura de chegada.

São cinco as linhas de pesquisa desenvolvidas pela área:

  • abordagens teórico-críticas de textos literários em língua francesa, articulando dez projetos;
  • relações entre literatura brasileira e literaturas em língua francesa, com nove projetos;
  • tradução literária francês-português, com três projetos;
  • concepções da linguagem e do sentido em língua francesa, com dois projetos;
  • metodologia do francês, língua estrangeira, com o projeto A produção da linguagem escrita em francês.

O Curso conta atualmente com 12 orientadores, cujo trabalho até agora realizado apresenta resultados bastante significativos: 94 teses defendidas, das quais 56 em nível de mestrado e 36 de doutorado. No momento, há 55 alunos: 36 inscritos em mestrado e 19 em doutorado.

Graças à contribuição de instituições brasileiras a alguns órgãos nacionais de fomento à pesquisa, a convênios diversos, o curso de pós-graduação tem podido contar com a participação de especialistas brasileiros e estrangeiros de várias áreas, o que tem possibilitado a divulgação de teorias, idéias, pesquisas nos campos literários, tradutológicos e lingüísticos e, conseqüentemente, a consolidação dos Cursos de Pós-Graduação, que formam docentes universitários para diferentes regiões do país.

 

Fontes

Projeto Memória da FFLCH do CAPH e Relatórios à CAPES.

 

Notas

1 Anuário da FFCL - 1934-1935. São Paulo, Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1937, p.200. São Paulo, maio de 1994.

2 De 1934 a 1974 a Cadeira de Língua e Literatura Francesa foi regida pelos seguintes professores franceses enviados pelos Serviços Culturais da Embaixada da França no Brasil: Robert Garric (1934), Pierre Hourcade (1935 a 1937), Alfred Bonzon, que colaborou com a faculdade vários anos (de 1937 a 1946, do 2- semestre de 1949 a 1955 e do 2º semestre de 1957 a 1962), Bernard Guinez (1948), Gilíes Gastón Granger (professor-adjunto da cadeira de Filosofia, que aceitou reger a cadeira durante o l° semestre de 1949, em virtude de Alfred Bonzon não ter podido assumir as funções previstas), Roger Bastide (professor titular da cadeira de Sociologia I, que acedeu em dar sua contribuição no ensino literário no lº semestre de 1949), Jean Santoni (1956 a julho 1957) e Albert Audubert (novembro de 1962 a janeiro 1974). A Cadeira contou ainda com a colaboração dos seguintes professores também enviados pelos Serviços Culturais Franceses: Pierre Hawelka (1951-1957), Claude-Henri Frèches (1957-1960), Jean Pellegrin (1962-1968), Hubert Sarrazin (1968-1970), Jean Fabre (1971), Michel Launay (1972-1975), Bernard Aubert (1976-1982), Alain Quenette (1982-1989) e Patrick Dahlet (1989-1993).

3 Anuario da FFCL - 1934-1935, op.cit.

4 BELC (Bureau pour l'enseignement de la langue et de la civilisation française à l'Ètranger): CRÉDIF (Centre de Recherche et d'Étude pour l Difusion du Français); CIEP de Sèvres (Centre International d'Ètudes Pédagogiques de Sèvres); FIPF (Fédération Internationale des Profèsseurs de Français); IPN (Institut Pedagogique National) e AUPELF (Association des Universités Partiellement ou Entrement de Langue Française).

5 Centre National de Recherche Scientifique.

6 Acordo entre a CAPES e a COFECUB (Commission Franfoise d'Èvaluation de Ia Coopération avec les Universités Brésiliennes).

 

 

Mana Sabina Kundman é professora do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons