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Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014versão On-line ISSN 1806-9592

Estud. av. v.8 n.22 São Paulo set./dez. 1994

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40141994000300065 

ORIGENS E ATUAIS LINHAS DE PESQUISA

HUMANIDADES

 

Lingua e Literatura alemã

 

 

Eloá Heise

 

 

Segundo informações obtidas junto ao Projeto Memória da Faculdade de Filosofia, organizado pelo Centro de Apoio à Pesquisa em História, Departamento de História da FFLCH, o Decreto 7.069, criando o curso de Línguas Estrangeiras na antiga Faculdade de Filosofia, Cencías e Letras, previa a existencia das cadeiras de Língua e Literatura Francesa, Italiana, Espanhola, Inglesa e Alemã que deveriam iniciar suas atividades no ano de 1935. Contudo, à época, apenas as duas primeiras cadeiras entraram em funcionamento. O estudo das outras línguas iniciou-se, de fato, em 1940 sendo que, especificamente, o curso de Língua e Literatura Alemã foi instituído pelo Decreto-lei 1190 de 1939.

Pela data mencionada, 1940, época da Segunda Grande Guerra, pode-se imaginar as dificuldades em organizar no Brasil um estudo de germanística, sem meios ou materiais adequados, quando as livrarias não negociavam nem importavam livros alemães. Os poucos alunos matriculados (em 1940 o Curso de Letras Anglo Germânicas, do qual fazia parte a Cadeira de Língua e Literatura Alemã, registrava um total de seis alunos) só podiam contar com a biblioteca particular do único professor que trabalhava no campo.

Abstraindo-se estes entraves, delineou-se, desde a criação da área, a questão estrutural específica que até hoje é problema de difícil solução: alemão não é uma disciplina que consta do elenco de matérias ministradas no curso secundário. Este pressuposto leva a um impasse crucial: tentar conciliar a formação universitária com a aprendizagem inicial em uma língua de dificuldades específicas como o alemão. A primeira providência empreendida foi o reforço no ensino da língua. Desde 1948, o primeiro ano do curso concentra-se no estudo da língua alemã.

Essa prerrogativa necessária, mantida até os dias atuais, abre espaço para o ensino da literatura alemã a partir do segundo ano, quando o estudo de textos literários no original é introduzido de forma direcionada e seletiva, levando-se sempre em conta o público-alvo. A partir de técnicas didáticas específicas, procura-se, então, trabalhar não apenas com textos literários lingüísticamente acessíveis aos alunos, mas, principalmente, com aqueles que são relevantes para as duas culturas — a brasileira e a alemã. Tem-se por meta motivar o aluno a se ocupar de forma crítica e ativa com a literatura, fazendo de seu objeto de estudo uma forma de conhecimento e reconhecimento de seu próprio mundo. Ao ensino da língua alemã cabe a árdua tarefa de, em quatro anos de estudo, propiciar ao aluno conhecimentos de língua que lhe possibilitem desenvolver a capacidade de leitura, expressão escrita e oral, de acordo com seus objetivos e suas necessidades. Para tanto, a disciplina de língua alemã procura constantemente inteirar-se das mais novas técnicas didáticas e metodológicas, em busca de aproximação cada vez maior de uma meta ideal. Com esse intuito, ministrou cursos baseados em métodos gramaticais, audiovisuais (conversação) e audiolinguais, utilizando também a abordagem comunicativa e intercultural do ensino de língua estrangeira. Sem deixar de reconhecer aspectos positivos em todos esses métodos que, no fundo, não se opõem, mas se somam, a busca freqüente por novas abordagens didáticas revela a tônica essencial de um ensino acadêmico: a constante pesquisa.

Dentro da perspectiva de constante pesquisa na área de língua alemã, devem ser mencionadas duas vertentes importantes. A primeira refere-se à criação, em 1978, do Curso de Especialização em Tradução, destinado, inicialmente, aos alunos egressos da graduação em alemão e com ênfase especial no aprimoramento do estudo de língua alemã. Com o desenvolvimento das pesquisas no campo específico da tradução, os estudos foram reprogramados no sentido de abordagens lingüísticas com base em tipologias textuais e problemas de interculturalidade. A oferta de vagas passou, então, a estender-se a graduados de outras áreas, sendo que, a partir de 1994, adaptando-se ao perfil do aluno destinatário, o curso está sendo oferecido sob forma de pós-graduação lato sensu. A outra vertente de pesquisa concretizou-se com a oferta, a partir de 1986, do curso de alemão instrumental para alunos de filosofia, no qual, levando em conta o jargão básico e estruturas recorrentes da linguagem filosófica, são desenvolvidas técnicas e estratégias que capacitam o aluno para a leitura e intelecção de textos filosóficos em alemão.

Com o desmembramento da Faculdade, em 1970, quando as ciências exatas se estabeleceram como Institutos autônomos dentro da Universidade, houve reorganização dos departamentos e a Cadeira de Língua e Literatura Alemã desvinculou-se do curso de anglo-germânicas, passando a constituir uma das cinco áreas (alemão, espanhol, francês, inglês e italiano) que compõem o Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

No Departamento de Letras Modernas, a área de alemão, que passou a contar, a partir da década de 70, com a média de 15 professores, caracterizou-se pelo aprimoramento da formação acadêmica de seu corpo docente. Se em 1978, por exemplo, dos 16 docentes da área havia um professor titular, um adjunto, três doutores, dois assistentes, e sete auxiliares de ensino, em 1984 o quadro compunha-se de um adjunto, um livre-docente, sete doutores, dois assistentes e quatro auxiliares de ensino. Já em 1994, com o número de docentes reduzido por medida de economia, a área conta, proporcionalmente, com mais professores com titulação acadêmica: um titular, um adjunto, seis doutores, cinco assistentes e um auxiliar de ensino; todos os professores com o título mínimo de doutor foram efetivados ao se submeterem a concurso publico de títulos e provas.

O progresso na carreira acadêmica tornou-se, em grande parte, acessível aos docentes do curso com o apoio efetivo de vários órgãos alemães de fomento à cultura como, por exemplo, o Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD), que oferece bolsas de reciclagem e atualização aos professores da área. Possibilita, também, através de convênio com a Universidade, a contratação de leitores alemães (com o título mínimo de doutor), e proporciona a vinda sistemática de docentes de universidades alemãs que, como professores visitantes, ministram disciplinas na pós-graduação. Com isso estabelece-se um vínculo constante e atualizado com a nossa cultura hegemônica, que serve de parâmetro para o desenvolvimento de nossas pesquisas.

Em 1971, criou-se o curso de pós-graduação em Língua e Literatura Alemã, ainda hoje o único no gênero em todo o país, a primeira área da Faculdade de Filosofia a credenciar-se junto ao Ministério de Educação e Cultura para ministrar cursos de pós-graduação em nível de mestrado e doutorado. Nossa pós-graduação, composta pelas sub-áreas de língua alemã e de literatura alemã, contando hoje com 55 alunos, tem por objetivo formar pesquisadores e oferecer aos professores em nível universitário a necessária formação acadêmica. Na concretização deste propósito, 32 dissertações de mestrado e 21 teses de doutorado foram defendidas na área, além da realização de sete concursos de livre-docência e quatro de cátedra ou de professor titular. Os estudos na sub-área de língua visam, precipuamente, à integração da pesquisa com o ensino e, por extensão, com a comunidade, promovendo a difusão da língua alemã no contexto brasileiro. Já as pesquisas em literatura, partindo da mesma base, ou seja, o estabelecimento de uma germanística no Brasil, procuram instituir profícua interação entre os universos culturais brasileiro e alemão.

Cada uma das sub-áreas de pós-graduação desenvolve seus trabalhos dentro de linhas de pesquisas. Os projetos na sub-área de língua alemã articulam-se nas linhas lingüística contrastiva, lingüística aplicada, análise de texto e ciência da tradução. O objetivo das duas primeiras linhas é estudar os sistemas lingüísticos alemão e português em base contrastiva, além de pesquisar a viabilidade de aplicação das teorias lingüísticas nesses idiomas, visando a uma integração da pesquisa ao ensino. As outras duas linhas mencionadas ocupam-se do estudo de tipologias textuais a partir de teorias lingüísticas e tradutológicas, avaliando as peculiaridades das línguas e culturas em contato.

A sub-área de literatura alemã, por sua vez, é organizada dentro das linhas germanística intercultural, literatura e história, tradição e modernidade e literatura alemã contemporânea. A germanística intercultural estuda a literatura alemã a partir do horizonte de expectativa do leitor brasileiro, comparando traços convergentes e divergentes entre a literatura alemã e brasileira. As outras linhas de pesquisa, mais voltadas para a literatura alemã em si, procuram estudá-la em relação de continuidade e ruptura com a tradição e a história; analisam vários aspectos do complexo fenômeno da modernidade, levando também em conta a recepção da literatura alemã no Brasil.

A trajetória do curso de Língua e Literatura Alemã representa, como um todo, a procura incessante de caminhos próprios, a partir do reconhecimento de certos limites e dificuldades e tendo por base a convicção de que o contato entre duas culturas, entre dois mundos, só se torna profícuo quando há interação entre eles. Como se pode depreender, os projetos da área, de forma geral, voltam-se para estudos inter-disciplinares, que se nos apresentam como campos de pesquisa inéditos, à medida em que os germanistas alemães teriam maior dificuldade em captar e reconhecer problemas específicos da nossa língua e do nosso contexto cultural. Fica, então, nas mãos dos estudiosos de alemão como língua estrangeira no Brasil a tarefa de reprogramar seu campo de pesquisa dentro do espaço fascinante e fértil dos estudos interdisciplinares e enfoques comparatísticos, desenvolvendo pontos comuns a partir das diferenças, estudando a cultura alemã em contraposição ao nosso mundo e como extensão daquilo que nos é próprio.

 

 

Eloá Heise é professora do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

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