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Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014versão On-line ISSN 1806-9592

Estud. av. v.8 n.22 São Paulo set./dez. 1994

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40141994000300066 

ORIGENS E ATUAIS LINHAS DE PESQUISA

HUMANIDADES

 

Lingua e Literatura russa

 

 

Aurora Bernardini

 

 

O Curso de Russo teve seu início como curso livre junto à antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo em 20 de setembro de 1960, tornando-se regular de graduação desta Faculdade em 1963. No começo contava apenas com um docente, o professor Boris Schnaiderman, responsável, juntamente com o professor Eurípedes Simões de Paula, pela criação do curso na Faculdade; posteriormente tornou-se possível a contratação de dois assistentes. Nos anos seguintes, apesar dos entraves de ordem política impostos à sua sobrevivência como único curso de russo de graduação até a década de 70, o curso pôde contar com o auxilio de professores voluntários, formados na FFCL/USP. A partir daí, o quadro de docentes contratados por concurso público foi sendo paulatinamente ampliado. Os professores aposentados Boris Schnaiderman, Helena Sprindys Nazario, Aurora Fornoni Bernardini, além dos credenciados do curso de Russo, são responsáveis pela pós-graduação em Literatura e Cultura Russa, credenciada para orientar alunos em nível de mestrado e doutorado.

Desde sua criação, a par de constantes lutas contra dificuldades decorrentes tanto da falta de verbas para contratação de docentes e para outras implementações no setor didático, quanto da situação política do país em passado recente, este curso, afora os regulares de bacharelado e licenciatura em Língua, Literatura e Cultura Russa, tem promovido várias outras atividades, como organização de congressos, ciclos de estudos, festivais etc.

No correr desses anos, os docentes tiveram ocasião de realizar cursos de aperfeiçoamento, especialização e atualização em língua, literatura e cultura russa e metodologias de ensino do russo para estrangeiros junto à Universidade para a Amizade dos Povos Patrice Lumumba (Moscou) e promover a associação do curso a entidades de intercâmbio e pesquisa como a Associação Internacional de Professores de Língua Russa e Literatura (Maprial) de Moscou, a Associação Latino-americana de Estudos Afro-asiáticos (Aladaa) do Colégio de México, a Sociedade Brasileira de Eslavística, a Associação Latino-americana de Estudos Afro-Asiáticos do Brasil (Aladaab) e o Centro de Estudos dos Países Socialistas em Transformação (CEPSt da USP).

Mais recentemente, esforços têm sido feitos no sentido de incrementar convênios entre o Curso de Russo da USP e o Instituto de Língua Russa A. S. Púchkin e a Universidade Lomonossov de Moscou, que prevêem o intercâmbio de estudiosos, pesquisadores e alunos para estágios e cursos nas universidades em questão. Além disso, professores visitantes têm sido freqüentemente convidados, contando com auxilio conjunto da CCInt e da Fapesp.

Desenvolvendo atividades de pesquisa de caráter interdiscipiinar, docentes do curso têm participado ativamente de grupos de estudo como Literaturas modernas em língua estrangeira, Literatura e história, Cultura oriental e cultura ocidental: projeções, Multiculturalismo brasileiro: fisionomia e presenças orientais, Culturas orientais e modernidade etc.

Por fim, a orientação de dissertações e teses de alunos provenientes do curso de Russo e de outros, por parte dos docentes do curso convidados a orientar e ministrar cursos de pós-graduação junto à área de Teoria Literária e Literatura Comparada, tem resultado em troca de idéias e verdadeiro e valioso trabalho interdiscipiinar.

 

Linhas de pesquisa

A partir de seu início, em 1960, e nos primeiros anos de sua existência, o Curso de Russo da USP teve como eixo quase que único de sustentação o professor Boris Schnaiderman, figura da maior preeminência nacional no âmbito dos estudos russos, conhecido por seus trabalhos de crítica literária e, principalmente, traduções de obras de ficção, acompanhadas de prefácios e notas, dos principais autores russos como Dostoiévski, Tolstói, Tchékhov, Gorki etc., cuja publicação contribuiu para a formação de gerações de humanistas brasileiros.

À que se tornou a primeira linha de pesquisa do curso de Russo — Tradução literária de obras russas de ficção —, levada adiante pelo professor Boris Schnaiderman e, posteriormente, por alguns de seus assistentes, individualmente ou com alunos em nível de pós-graduação, acrescentaram-se traduções de prosadores como Púchkin, Babel, Gógol, Bulgakov, Tch. Aitmatov, Paustóvski, entre outros.

A segunda linha de pesquisa — Tradução de poesia russa — estuda poetas como Blok, Biéli, Burliuk, Kamiênski, Kandínski, Khlébnikov, Krutchônikh, Akhmatova, Assiéiev, Pasternak, Mandelstam, Tzvietáieva, Maiakóvski, lessiênin, Zabolótzki, levtuchenko, Vozniessiênski, Aígui e Bródskí.

Como conseqüência da consolidação dessas duas linhas primeiras, era inevitável o surgimento de mais três, a elas intimamente ligadas: Teoria da tradução literária russa (prosa e poesia), A crítica e a teoria literária russo-soviética e A crítica sobre autores russos.

Uma série de trabalhos já foi e está sendo realizada dentro da primeira dessas últimas linhas, incluindo-se dissertações e teses como A filha do Capitão: o herói ambivalente no romance histórico de Púchkin; Indícios flutuantes em Marina Tzvetáieva; A confissão de Stavróguin e a importância do mito em " Os Demônios"; O Crepúsculo de Bábel; Antocha Tchekhonté e Anton Tchékhnov: para um estudo da evolução da poética de Tchékhov etc.

Pertencem à segunda dessas linhas os ensaios sobre a obra de Lotman (tese), Bakhtin (dissertações e teses) e Uspiênski (dissertação), bem como traduções das obras dos mesmos: A estrutura do texto literário (Lotman); A poética de Dostoiévski e A teoria do romance (Bakhtin) etc.

Da terceira, faz parte a maioria dos artigos publicados em jornais e revistas nacionais pelos professores do curso de Russo, a começar pelo professor Boris Schnaiderman, que não cabe enumerar aqui, bem como os projetos de cursos de pós-graduação em Russo já credenciados e, indiretamente, também a maioria das dissertações e teses.

Em vista do interesse manifestado por uma série de graduandos e pós-graduandos do curso de Russo, deu-se início a estudos comparativos que levaram às seguintes linhas: Literatura russa e literatura brasileira (Aspectos da natureza em Khlébnikov e Manoel de Barros; A questão do duplo nas literaturas russa e brasileira: Dostoiévski e Machado de Assis); Rússia: Literatura e Cinema (A obra literária e cinematográfica de Eisenstein); Literatura e história na Rússia (Literatura e história na Rússia do século XIV; Tradução e modernidade na literatura russa dos anos 20-30); O teatro russo e suas projeções no Ocidente (O teatro de Tchékhnov; O teatro de Gógol; O teatro russo de vanguarda; Cena soviética dos anos 60); A literatura russa entre o Oriente e o Ocidente (A construção do argumento em Tchékhov, Katherine Mansfield e Clarice Lispector; Tolstói e o hinduísmo).

Além dessas dez linhas de natureza eminentemente crítico-literária, ainda estão sendo implementadas pelos docentes do curso algumas pesquisas lingüístico-gramaticais envolvendo o estudo de Metodologias de ensino de russo para brasileiros e a elaboração de uma Gramática comparada do russo e do português, dando ênfase particular à questão das estruturas verbais russas.

Finalmente, em virtude de traduções realizadas, do credenciamento de semioticistas visitantes para ministrar cursos de pós-graduação e do desdobramento de cursos de extensão já ministrados, foi implementada uma linha de pesquisa abrangendo estudos sobre Semiótica da Cultura Russa, reunindo estudos semióticos de língua, literatura e cultura russa, tendo como modelo os estudos de Jakobson, Tinianov e demais representantes do formalismo russo, dos folcloristas russos Propp e Mielietinski e da assim chamada Escola de Tartu.

 

 

Aurora Bernardini é professora do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

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