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Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014

Estud. av. v.10 n.26 São Paulo jan./abr. 1996

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40141996000100003 

PRESENÇA DE FLORESTAN FERNANDES

 

O jovem Florestan

 

 

Antonio Candido

 

 

FALANDO NA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, acho oportuno evocar a luminosa carreira de Florestan Fernandes, licenciado em Ciências Sociais na turma de 1943 da Faculdade de Filosofia. O meu intuito é apenas lembrar a fase inicial dessa carreira, do começo dos anos de 1940 ao começo dos anos de 1950, quando fomos companheiros de trabalho na Cadeira de Sociologia n, regida por Fernando de Azevedo.

Como estudante, Florestan Fernandes já se distinguira em todas as matérias, aproveitando ao máximo e com sofreguidão o que a Faculdade lhe podia dar. Não espanta, portanto, que manifestasse uma alta qualidade mental nos trabalhos semestrais de aproveitamento, alguns dos quais verdadeiros estudos, muito acima dos requisitos correntes, que foram publicados em seguida, como As trocinhas do Bom Retiro, produto do interesse que havia então por parte de Roger Bastide pelos estudos folclóricos, para os quais encaminhava os alunos.

Tendo sido estudante notável, quando se formou mais de um professor quis tê-lo como assistente. Penso que entre eles estava Roger Bastide, que sempre o admirou e estimou, e caso tivesse vaga no momento o indicaria. Certamente estava Paul Hugon, de Economia Política, matéria na qual Florestan brilhara, inclusive analisando a obra pesada de Simiand sobre a moeda. Mas ele acabou aceitando o convite de Fernando de Azevedo, que o indicou para a vaga de 2° assistente da Cadeira de Sociologia n, pois o colega que exercia esta função, José Francisco de Camargo, depois de titular e diretor da Faculdade de Ciências Econômicas, preferira demitir-se a fim de concorrer a uma cadeira de sociologia de ensino normal, cargo que naquele tempo era não apenas melhor remunerado, mas tinha a vantagem de dar acesso a uma carreira, com aposentadoria assegurada. A propósito convém esclarecer que o assistente da Universidade era um funcionário sem qualquer garantia, nomeado por indicação do professor e demissível a qualquer momento por simples comunicação escrita dele, sem necessidade sequer de justificativa. Por isso não tínhamos carreira e éramos assistentes dos professores, mais do que da instituição (o que, seja dito, não era ruim se o professor fosse bom). A partir de 1944, portanto, Florestan Fernandes e eu fomos os dois assistentes de Fernando de Azevedo na Cadeira de Sociologia II.

Os seus primeiros trabalhos como jovem docente confirmaram a alta qualidade dos que havia elaborado como estudante, servindo de exemplo os que publicou sobre o bororó marginal Tiago Marques Aipobureu e sobre a obra folclórica de Mário de Andrade. A propósito, uma lembrança à margem.

Em fins de janeiro de 1945 realizou-se em São Paulo o I Congresso Brasileiro de Escritores, visando principalmente a arregimentar os intelectuais na luta contra a já abalada ditadura do Estado Novo. Florestan se encarregou de fazer a cobertura para um jornal, creio que a Folha da Manhã, cujo secretário era o seu amigo e correligionário Hermínio Sacchetta. Eu era o caçula dos 25 membros da delegação paulista, de modo que nos vimos bastante durante as sessões e pude verificar o afinco com que observava e anotava, o que lembro para destacar um dos traços da sua personalidade: a absoluta seriedade e dedicação com que realizava qualquer tarefa. Na sessão de encerramento, no Teatro Municipal, estávamos ele e eu conversando no corredor externo da platéia e Mário de Andrade numa roda próxima. Florestan me pediu que o apresentasse, o que fiz com prazer. Mário manifestou alegria em conhecê-lo pessoalmente e exprimiu apreço pelos seus trabalhos publicados em jornal.

Naquele tempo éramos funcionários em tempo parcial, e o integral só nos veio em 1947 graças ao enorme prestígio de Fernando de Azevedo, pois não era considerado necessário para as disciplinas humanas. Trabalhando em tempo parcial, tínhamos de completar os vencimentos com atividades extra, por isso Florestan continuou por algum tempo desenvolvendo as que exercia anteriormente, além de escrever para os jornais. Foi neles que publicou naquela altura diversos artigos seriados, verdadeira exposições sobre teoria sociológica e comentários críticos sobre autores ainda pouco divulgados aqui, como Freyer e Mannheim. Esses artigos demonstravam a sua grande e precoce capacidade de reflexão teórica.

Mas, apesar da sobrecarga de trabalho, a sua fome de saber o levou a matricular-se no curso de pós-graduação da Escola de Sociologia e Política, num esforço sobre-humano que lhe permitiu completar a formação, esgotando todos os recursos que havia em São Paulo para o conhecimento das ciências sociais. Ali foi discípulo, entre outros, de Herbert Baldus, antropólogo de grande cultura e muito conhecimento da realidade indígena sul-americana, que o orientou na dissertação de mestrado sobre os Tupinambá. Observemos a propósito duas coisas. A primeira, é que na Universidade de São Paulo não havia ainda o grau de mestre, que a Escola de Sociologia e Política introduziu por influência dos sociólogos norte-americanos que nela vieram ensinar. A segunda observação, os estudiosos achavam que a documentação existente sobre os extintos Tupinambá não bastava para conhecer de maneira sistemática a sua organização social. Por isso, um especialista do valor de Alfred Métraux os estudou de maneira parcial, publicando livros importantes sobre a sua cultura material e a sua religião. Mas Florestan Fernandes, com a ousadia intelectual e o poder de análise que sempre o caracterizaram, e o levavam a enfrentar e mesmo a preferir as tarefas difíceis, submeteu o material disponível a um tratamento metodológico e interpretativo de grande força, produzindo um clássico da antropologia moderna, A organização social dos Tupinambá, que eu vi nascer e crescer em fichas grandes cobertas de tinta roxa. Quando defendeu a dissertação em 1947 e obteve o grau, tinha 27 anos e realizara um feito científico do mais alto valor. A esse respeito, mais uma recordação, esta, indireta.

No fim da década de 40, ou começo dos aos 50, Ruy Coelho presenciou em Paris uma cena curiosa. Lévi-Strauss, Alfred Métraux e ele conversavam, quando Strauss manifestou grande admiração pelo livro de Florestan, dizendo ao colega que, ao contrário do que este dissera, o jovem brasileiro tinha mostrado que era possível conhecer a organização social dos Tupinambá. Com fair-play e bonomia modesta, Métraux concordou e disse que de fato era incapaz dessas altas cavalarias, pois o que sabia mesmo era fazer descrições empíricas, como, por exemplo, enumerar as diversas maneiras de preparar a carne de porco no Haiti, cuja sociedade estava estudando...

O material acumulado para a dissertação era tão vasto, que, como se sabe, Florestan Fernandes passou a elaborar com ele a tese de doutorado, que defendeu na Faculdade de Filosofia e foi igualmente notável A função social da guerra na sociedade Tupinambá. Mais ainda: a seguir apresentaria no concurso de livre – docente uma tese sobre a pertinência da análise funcionalista, baseado na utilização que fizera dela nos estudos sobre os Tupinambá. Nessa altura desenvolveu muito os estudos teóricos e, a pedido de Azis Simão, deu um curso famoso sobre metodologia. Foi também então que se aprofundou na obra de Max Weber, que viria a ter importância no amadurecimento das suas concepções.

Em 1952 ou 53 Roger Bastide o convidou para transferir-se para a sua cadeira, Sociologia I, pois estava preparando a volta definitiva à França e o desejava como sucessor. A transferência se fez com pleno acordo de Fernando de Azevedo, que sempre teve por ele a maior admiração e o mais profundo afeto. A partir de então, deixamos de ser companheiros na mesma disciplina, a qual, aliás, eu próprio abandonei uns poucos anos depois, para me dedicar exclusivamente aos estudos literários, que foram sempre os de minha predileção, mas a nossa amizade continuou inalterada. Antes dessa mudança, porém, ocorreu algo decisivo na sua carreira e na reorientação de suas idéias.

Em 1950 Roger Bastide aceitou o encargo de dirigir uma pesquisa sobre as relações raciais em São Paulo, a pedido da Unesco, via Métraux, mas com a condição de Florestan Fernandes partilhar a responsabilidade da direção. Como tenho dito e escrito, esse momento me parece corresponder à grande virada de sua carreira e de sua atuação sociológica. Ele tinha 30 anos e estava sendo considerado como igual por um sociólogo eminente, que fora seu professor. Ao aceitar a tarefa, pode-se dizer que assumiu simbolicamente a consagração que o destacava como o sociólogo mais completo de sua geração.

Aquele momento pode também ser considerado decisivo por outro motivo: o fato de a pesquisa sobre a condição social do negro ter sido a mola que o lançou em rumos diferentes do que seguira até então. Levado a encarar uma situação contemporânea altamente dramática, ele foi deslizando dos estudos de corte mais acadêmico para os que requerem um posicionamento político por parte do estudioso consciente. Em outras palavras, estava começando a atuação do sociólogo que conseguiria modificar a natureza da sociologia no Brasil em nosso tempo, efetuando a operação difícil de combinar rigor científico e visão política, de maneira a tornar a sociologia, não apenas instrumento de compreensão da realidade, mas contribuição teórica à transformação da sociedade. A partir da pesquisa da Unesco, o cientista e o revolucionário começaram a se fundir numa fórmula pessoal de grande alcance, que faria a originalidade singular de Florestan Fernandes.

A partir daquele momento a carreira dele foi uma ascenção constante do ponto de vista científico e uma participação crescente na militância socialista, pois passaria a privilegiar cada vez mais o marxismo nas suas concepções teóricas e se tornaria um marxista enriquecido pela experiências de outras teorias. Estava, portanto, traçado o perfil definitivo que o caracterizaria como um dos maiores intelectuais brasileiros que neste século estudaram a sociedade, da mesma importância que Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda.

Em uma sessão de homenagem, como esta, achei que valia a pena evocar a fase inicial de um extraordinário percurso, porque estou certo de que a partir de agora haverá estudos sobre o jovem Florestan, como os há sobre o jovem Hegel, o jovem Comte, o jovem Marx. Para isso, fica esta pequena contribuição de quem foi por mais de 50 anos seu admirador incondicional e seu amigo afetuoso.

 

 

Antônio Candido é professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
Palestra feita pelo autor no Ato Presença de Florestan Fernandes, organizado pelo Instituto de Estudos Avançados na Sala do Conselho Universitário da USP em 5 de outubro de 1995.