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Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014versão On-line ISSN 1806-9592

Estud. av. v.11 n.30 São Paulo maio/ago. 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40141997000200028 

CRIAÇÃO / POESIA

 

O último ônibus

 

 

Tradução de Alberto Alexandre Martins

 

 

Tudo escuro.
Uma leve chuva
amortece as ruas.
Nada se move

no parque de Lota.
As palmeiras pairam
sobre a grama em emaranhada,
e os densos arbustos,

trapos à deriva,
ondulam junto às calçadas.
O mundo fora de alcance.
Espectros de banhistas surgem

lentamente da arrebentação e rodam
bêbados na bruma.
Andam na praia,
seus olhos ardem

como estrelas.
E o Rio dorme:
o mar é um sonho
no qual morre, renasce.

O ônibus acelera.
Uma nuvem violeta
se desprende no seu rastro.
Minhas pernas tremem.

Meus pulmões cheios de fumaça.
O suor cobre meu rosto
e escorre pelo peito.
Dor nos ombros e no pescoço.

Não estou seguro
de estar desperto,
agarro o aro quente
do assento.

O motorista sorri.
As calças enroladas acima dos joelhos,
suas pernas brilham
no calor.

Uma mulher tenta me consolar.
Desliza a mão sob minha camisa
e escreve os nomes das flores
nas minhas costas.

Sua saia é preta.
Nos joelhos tem uma pequena caveira
e dois ossinhos em cruz.
Há um jardim em seus olhos

no qual monótonas fileiras
de brancas lápides entulham o ar
e pessoas acenam,
dando adeus.

Tenho a sensação de estar lá.
Ela sussurra por entre os dentes
e encosta os lábios
no meu rosto.

O motorista se volta.
De ohos fechados, está penteando
os cabelos para trás.
Ele me diz para ser forte.

Meu pulso – sinto – vai
caindo à medida que fala.
A mulher me beija outra vez.
Sua boca estala

e seu hálito ronda
minha nuca como névoa.
Viro-me para o vidro
roto da janela

riscado de chuva.
Onde estive?
Olho o Rio –
nada está igual.

O Cristo
numa poça de holofotes
no alto do morro
agora sumiu da vista.

E a baía está escura.
E a escura cidade
afunda em sua cova.
E eu nunca estarei de volta.

Rio de Janeiro, 1966

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