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Estudos Avançados

versão impressa ISSN 0103-4014versão On-line ISSN 1806-9592

Estud. av. v.12 n.32 São Paulo jan./abr. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40141998000100002 

DOSSIÊ RÚSSIA

 

Outubro como um marco na história contemporânea

 

 

Mikhail Gorbachev

 

 

A verdadeira dimensão de qualquer acontecimento histórico pode ser realmente compreendida somente quando se acalmam as paixões por ele despertadas e se evidenciam não apenas as suas conseqüências imediatas senão também as suas conseqüências nos períodos subseqüentes. São passados 80 anos desde a Revolução de Outubro. De lá para cá mudou tudo: o país em que ela ocorreu, o mundo inteiro, toda a vida da Humanidade. As conseqüências de Outubro são ainda bastante visíveis, e em toda a sua contraditória diversidade, mas ainda ardem as paixões em torno desse grande acontecimento. Entretanto, será isso de admirar?

Duzentos anos separam-nos da Grande Revolução Francesa do século XVIII. No entanto, ela é tema de acaloradas discussões até hoje... Tanto mais justificadas são as discussões sobre Outubro. Pois, queiram alguns ou não, ela em muito determinou o caráter do trágico século XX. Contemporâneo e testemunha ocular da revolução, o famoso jornalista e escritor estadunidense John Reed intitulou o seu livro de Dez dias que abalaram o mundo. Outro contemporâneo nosso, o não menos famoso historiador e sociólogo inglês Eric Hobsbawm, chamou Outubro de "a constante mundial da história do século XX". E ambos estão certos.

Hoje, sabemos consideravelmente mais sobre a Revolução de Outubro do que os seus participantes e do que era permitido saber aos seus herdeiros no nosso país. A perestroika e a glasnost nos abriram a possibilidade de conhecer muito do que estava fechado ou falsificado sobre fatos substanciais da própria revolução e das suas décadas subseqüentes.

A propósito, um aspecto que é impossível não mencionar – o próprio fato da ocultação não simplesmente de pormenores, mas de episódios essenciais, de resoluções e do papel das maiores figuras da revolução – fala por si só. Isso significa que havia o que ocultar, o que esconder do seu próprio povo e do mundo exterior. A revelação da verdade, iniciada pela glasnost, apesar de, por razões variadas, haver causado choque a muitas pessoas e suscitado o seu protesto, tornou-se um estímulo ao restabelecimento moral da sociedade. Este é impossível sem uma atitude honesta com relação ao passado. Agora, o regime de sigilo ressurge na Rússia, a mentira e a meia verdade estão se tornando novamente parte integrante da política. E isso também constitui sinal da doença moral do regime...

No entanto, a glasnost do período da perestroika e a sua inércia irreversível permitiram que olhássemos para nós próprios de olhos abertos por trazerem novos conhecimentos sobre a multidimensionalidade de Outubro, das suas conseqüências, tornando possível refletir sobre os seus lados negativos, assim como sobre os positivos, mas na real dimensão e significado.

Que idéia então se faz da Revolução de Outubro 80 anos depois? Hoje, com mais clareza ainda do que antes, ela é vista como expressão de uma necessidade histórica. A nossa revolução não foi nem uma casualidade nem o resultado da conspiração de um grupo de bolcheviques, tampouco um produto de importação.

A Rússia estava prenhe da revolução desde o início do século XX. A necessidade de mudanças era sentida em todas as camadas da população. Empreendiam-se tentativas de reforma; mas elas malogravam, porque o sistema (o absolutismo) permanecia firme. A experiência histórica ensina: quando as transformações amadurecem e o poder se recusa a realizá-las ou não está em condições de fazê-lo, a sociedade, então, ou começa a apodrecer ou é sacudida por uma revolução.

A Primeira Guerra Mundial, na qual o czarismo criminosamente atirou o país contrariamente aos interesses nacionais, embora podendo ficar de lado, muito rapidamente provocou uma crise verdadeiramente nacional que culminou na Revolução de Fevereiro. Essa revolução durante muito tempo foi subestimada por nós e vista como mero prólogo de Outubro. Na realidade, foi precisamente ela que criou a ruptura para as grandiosas transformações, cuja necessidade já de há muito se impunha no grande império. Foi uma revolução de massa no sentido próprio da palavra. Todas as forças políticas foram apanhadas de surpresa. Ela se tornou a anunciadora de uma liberdade sem precedentes na Rússia.

A Revolução de Fevereiro, porém, logo começou a perder ímpeto. Os que substituíram o czar revelaram-se impotentes, pusilâmines e cúpidos perante as exigências históricas do momento. Em conseqüência, a guerra, abominada por todos, continuou e as pessoas não viram a paz nem se salvaram da fome e da destruição. A democracia russa, multifacética, mas cindida e desarticulada, não conseguiu começar a resolver as tarefas da revolução, tirar o país da crise e conduzi-lo ao caminho da normalidade. De uma forma ou de outra, no entanto, Fevereiro merece respeito e atenção – ele acabou com o absolutismo e deu um impulso vigoroso à libertação do país.

Nas circunstâncias da Rússia, Outubro tornou-se inevitável. Evidentemente, ele próprio, como a sua evolução subseqüente, merecem continuar a ser estudados de modo científico, sereno, não-preconcebido. Mas, até se considerarmos o que sabemos hoje, algumas conclusões serão evidentes. Uma delas, a principal, é que a Revolução de Outubro, indiscutivelmente, refletiu uma aspiração ardente do povo e das suas mais amplas camadas por transformações radicais da sociedade. As palavras de ordem dessa revolução – liberdade e paz para todos; as fábricas para os trabalhadores; a terra para os camponeses; pão para os famintos – expressavam nitidamente tal aspiração. Daí o apoio massivo inicial dado ao o golpe de Outubro.

Após Outubro, o desenvolvimento da Rússia poderia tomar vários caminhos. Na realidade, até o final dos anos 20, o país assistiu ao embate das diversas idéias sobre os seus caminhos para o futuro. Mas, no começo da década de 30, estava claro (hoje vemos isso nitidamente): na União Soviética, triunfara o stalinismo, termo evidentemente relativo, embora já se tenha tornado costumeiro. No entanto, a unicidade de sentido dada a ele nivela todo o passado soviético, pintando-o com uma única cor negra; quando, na verdade, esse passado foi muito contraditório e estratificado.

Antes de mais nada, levantemos uma questão primordial. O objetivo proclamado da Revolução de Outubro era a edificação da sociedade socialista. Portanto, foi ou não construído o socialismo na União Soviética? A pergunta tem recebido as mais diversas respostas. Sim, afirmam alguns, aquilo era socialismo, e até mesmo o próprio comunismo. Não, respondem outros, aquilo foi algo como um capitalismo feudal de Estado ou coisa parecida. Já terceiros objetam a estes e àqueles: sim, aquilo foi socialismo, mas não completo, deturpado, não-acabado. E assim por diante.

Minha opinião: na União Soviética triunfou um regime totalitário rigoroso, até cruel. Ele, naturalmente, evoluiu; após a morte de Stálin, a sua dureza enfraqueceu um pouco e se embotou; mas a sua essência continou a mesma. Neste ponto, naturalmente, surgem novas perguntas. A primeira delas é: como isso se tornou possível? Por que se volatizou o ideal socialista, por que restou apenas o invólucro demagógico, ainda que ilusório?

A resposta completa exigiria uma exposição demorada, na qual seria preciso falar do atraso sócio-político e econômico, do despreparo do povo para compreender ideais legitimamente democráticos, do arraigamento dos estereótipos do czar bondoso e do dirigente que sabe tudo e está sempre certo na consciência das massas. Seria preciso falar também da inexperiência, quando não da ignorância e do fanatismo dos próprios revolucionários, que consideravam o poder conquistado uma indulgência para o tudo é permitido. E também das qualidades dos guias, em primeiro lugar de Stálin, que o próprio Lênin propunha afastar da direção. Não poderíamos ainda esquecer o ódio de classes que cegava a inteligência em ambos os lados das barricadas, nem a intervencão militar estrangeira que identificou um dos lados com a traição nacional. E relembrar muitos outros fatos, que realmente aconteceram.

Grande papel na escolha do caminho teve, evidentemente, o modelo de socialismo adotado pelos bolcheviques. É sabido que Karl Marx e Friedrich Engels não deixaram esboços ou projetos pormenorizados do futuro socialismo. E isso não foi por acaso. Ambos eram inimigos de receitas e enfatizavam a necessidade de serem levadas em conta a especificidade das transformações neste ou naquele país e a mutabilidade das condições para a sua realização.

Lênin, alguns meses antes da revolução, em seu último período de clandestinidade, escreveu a brochura O Estado e a revolução. Ela era, em verdade, uma sistematização comentada de idéias fragmentadas dos seus mestres sobre o regime socialista. Revelou-se um esquema utópico ao qual Lênin, depois de tornar-se chefe de Estado, jamais retornou. Na primavera de 1918, ele apresentou o artigo As tarefas imediatas do Poder Soviético. Já era um programa mais ou menos realista de ação com relação às circunstâncias daquele momento. A propósito, tal trabalho continha as primeiras alusões às idéias da NEP (Nova Política Econômica) que, por causa da cruenta guerra civil, foram postas de lado em favor do comunismo de guerra.

Voltando a tais idéias e elaborando o programa da NEP, Lênin reconheceu que, no período de quatro anos, haviam sido cometidos erros graves e mencionou a necessidade de uma mudança radical das maneiras de encarar o socialismo. Ninguém sabe como Lênin faria essa revisão de conceitos e o que ela traria. A NEP, porém, foi completamente posta de lado por Stálin.

Mas o que havia de vicioso no modelo bolchevique de socialismo? Em primeiro lugar, o fato de ele ser precisamente um modelo-esquema, com princípios e normas ideológicas rígidas que deviam ser impostas de cima para baixo. Em segundo, que o princípio capital e sintetizante desse esquema era a ditadura do proletariado. Antes da revolução, Lênin escreveu que o proletariado não conseguiria conquistar o poder de outra forma que não fosse a democracia, e não conseguiria construir uma nova sociedade se não o fizesse democraticamente. Na prática, porém, desde o início, a ditadura do proletariado foi um rompimento completo com a democracia. O que ocorreu não foi uma ditadura do proletariado, de uma camada massiva da sociedade, mas uma ditadura da cúpula dirigente e suas nomenklaturas hierárquicas.

O rompimento com a democracia e a aposta na ditadura constituíram os maiores erros do partido bolchevique. Daí resultaram todos os principais defeitos do regime soviético, que se tornou totalitário.

Depois de Stálin, Khruschóv tentou unir socialismo e democracia. Ele deu à sociedade um gole de liberdade mas, em seguida, ele próprio fechou a torneira. Em suas memórias, Khruschóv conta pormenorizadamente porque, decidindo-se por "um período de degelo e seguindo por ele conscientemente" – escreve ele – "o governo da URSS, inclusive eu, ao mesmo tempo temíamos esse degelo: ele poderia terminar em uma grande cheia, a qual poderia nos engolfar e teríamos dificuldades de dominar". O medo da democracia, essa penosa herança do passado totalitário, impediu a realização das reformas de Khruschóv e das posteriores de Kossíguin e Andrópov.

Foram a compreensão desse fato e a consideração da experiência do passado que me levaram a decidir, de modo definitivo e irrevogável, pela democracia. Sim, os métodos democráticos de direção e a glasnost, tudo isso é muito mais complexo do que o comando totalitário. Os dirigentes ficam à vista de todos, tudo é transparente. Eles estão sujeitos a críticas, como qualquer cidadão do país. Mas estou convencido: caminho (e método) melhor do que a democracia não existe. Liberdade e democracia são traços inalienáveis da sociedade que aspire ao verdadeiro progresso.

Mais uma pergunta: por que a Revolução de Outubro não confirmou as esperanças por ela despertadas? Isso tem a ver com o partido.

A questão do partido, mais precisamente, do Partido Comunista da União Soviética, só pode ser entendida no seu contexto histórico. A formação do partido dos bolcheviques ocorreu em meio a circunstâncias muito especiais – clandestinidade e constante perseguição da polícia czarista. Isso determinou não somente a sua estrutura, adaptada à ilegalidade, como também as formas, os métodos da sua atividade. No período da revolução e da guerra civil, tais métodos mostraram a sua eficácia. E justamente por isso foram mantidos inalterados também para os tempos de paz. Fechamento, rejeição de qualquer discordância, intolerância, segredo, disciplina de ferro, tudo isso não somente se manteve, como foi multiplicado por Stálin, que não sem razão chamou o partido de ordem dos guerreiros.

Ao unir-se ao modelo de sociedade, do qual já se falou, conformou-se o sistema de poder totalitário, cujas características foram: a negação do pluralismo partidário, o Partido-Estado, o controle total, rigoroso e supercentralizado do país, e a propriedade estatal monopolista.

Muitas coisas mudaram no período pós-stalinista, mas o partido continuou intocável. A tentativa de Khruschóv de enfraquecer um pouco o férreo controle do partido sobre tudo e todos – por meio do aumento do papel do aparato estatal e da divisão das organizações partidárias em urbanas e rurais – custou-lhe o posto de secretário-geral.

No período da perestroika, tomou-se o curso da reorganização substancial da atividade do partido, da sua democratização interna e, posteriormente, da mudança do seu próprio papel na sociedade. No entanto, a sua estrutura, os seus métodos de trabalho e a própria composição dos seus membros estavam tão impregnados de certos hábitos, tradições e normas, que, no fim das contas, a reforma de tal partido e a sua transformação em uma organização política normal se revelou uma completa ilusão. Como força destinada ao comando do país no processo das mudanças, ele lançou a si próprio uma condenação, ao apoiar de fato – por intermédio da maioria dos membros da Comissão Central e de muitas comissões regionais – o golpe de agosto de 1991.

Tudo isso constitui uma lição trágica da nossa história. Tal lição, como outras lições negativas do nosso passado, não deve ser esquecida. Não pode haver desculpa nem justificativa para o totalitarismo, para as repressões stalinistas e os outros crimes com que está relacionado o passado soviético.

Impõe-se, porém, uma pergunta: como então as pessoas suportaram tudo isso? Temiam a repressão, estavam paralisadas pelo terror? Ou haviam sido convencidas pela propaganda de que tudo aquilo era correto?

Certamente, houve tudo isso. Mas seria errado apontar apenas esses fatores como explicação para o comportamento de dezenas de milhões de pessoas. Durante muito tempo, a estabilidade da sociedade soviética e até o seu dinamismo foram explicados também pelo fato de que as pessoas acreditavam nos elevados ideais da revolução, julgavam popular o regime então vigente, estavam sinceramente convencidas de que a sociedade soviética era melhor do que as outras e conservaram por longo tempo a esperança e a crença na exeqüibilidade das idéias socialistas na forma em que estas lhes eram apresentadas.

 

 

 

Tal esperança e tal crença eram fortalecidas por determinadas realidades. Seria futilidade pintar todos os guias e chefes soviéticos de demônios, de malfeitores e patifes acabados, de infames inescrupulosos e cúpidos, nem um pouco preocupados com os interesses e as necessidades da gente comum. Sim, houve pessoas desse tipo entre eles, e não poucas. Mas, o que é mais provável, a maioria foi ao poder para servir honesta e até abnegadamente às massas trabalhadoras. O fato de que o sistema desvalorizava o seu afã e anulava os seus esforços é outra questão. Mas, é preciso que seja dito, se não na lógica objetiva do próprio sistema, então na sua concepção estavam inseridos os interesses do povo trabalhador, dos operários e dos camponeses. Daí, a liquidação do analfabetismo, a acessibilidade do cinema e do teatro, as grandes tiragens dos livros, a construção de escolas em todas as regiões do país, o direito real à instrução e ao aprendizado de um ofício, o esporte de massa, a organização do descanso, a assistência médica e a previdência social – boas ou más, mas garantidas –, a moradia e os serviços comunitários por preços simbólicos. Foi eliminado o desemprego, cuidou-se dos menores abandonados, e estabeleceu-se uma ordem social, que deu conta satisfatoriamente da criminalidade. Isso gerou confiança no dia de amanhã etc. – enfim, tudo o que agora constitui a fonte dos ânimos nostálgicos de milhões de cidadãos russos.

Tais direitos sociais, de que gozavam os cidadãos soviéticos e, hoje, por causa das reformas de choque dos anos 1992-1996 foram praticamente extintos ou arrochados até o mínimo, constituem parte inalienável dos direitos do homem. E eles devem ser e serão restabelecidos, se a Rússia pretende ser um Estado democrático moderno.

Os objetivos contemplados no ideal do Poder Soviético inspiraram nos anos 30, nos anos da guerra e, após, nos de reconstrução nacional, o entusiasmo patriótico de milhões de pessoas e os seus feitos realmente grandiosos no trabalho e nos campos de batalha.

Tudo o que foi exposto explica o avanço da União Soviética, inesperado para o Ocidente, o alcance de índices altíssimos (para a época) de poderio industrial pelo país em prazos curtíssimos e a sua transformação em grande potência científica e cultural. Explica também a histórica vitória na Grande Guerra Patriótica sobre o fascismo hitleriano, triunfo inesperado não somente para Hitler como também para as democracias ocidentais.

Todas essas realidades estavam sujeitas à lei da entropia; as conquistas minguavam e tornavam-se estéreis, porquanto a distorção no principal – nas próprias bases do caminho sócio-econômico e político de desenvolvimento escolhido – aumentava em progressão geométrica. O erro no principal gerava erros nos pormenores, levava a decisões erradas e ao surgimento de projetos e planos notoriamente inconsistentes. Os erros e os malogros eram corrigidos com outros, ainda maiores e mais nefastos para o país, cada vez mais freqüentemente com crimes, os quais, encobertos por mentira universal e o estupefaciente ideológico chegaram a proporções monstruosas e absurdas. Tais procedimentos acabaram condenando todo o sistema à ruína.

Quando transpareceu a falsidade das repetidas declarações solenes, quando surgiram sinais indiscutíveis da decadência e da ineficácia do regime, quando não se cumpriram as promessas de uma vida melhor, as pessoas se decepcionaram e perderam a confiança no poder e no partido. Começou uma estagnação geral, prenhe de catástrofe social. Foi então que se criaram condições não somente econômicas, mas também psicológicas, para a mudança radical de todo o vetor do desenvolvimento do país: para a perestroika.

Apesar de todo o aspecto contraditório da história da União Soviética, na qual se entrelaçam a tragédia e a proeza gerando situações absolutamente incomuns, a sua existência e o seu desenvolvimento exerceram enorme influência em todo o mundo circundante.

Nos anos subseqüentes a Outubro, ondas de movimentos populares varreram muitos países – Outubro gerou possante ímpeto para a liberdade e a independência. Nasceu o movimento comunista, o maior e o mais bem organizado movimento de massas que a História conheceu. Após a Segunda Guerra Mundial, um terço da Humanidade viveu durante quase meio século em países considerados socialistas. Realmente, muito do que ocorreu foi resultado da pressão e da imposição da União Soviética, mas algo no surgimento desses países e nos seus planos foi também resultado de um levante antifascista e democrático, que refletia necessidades antigas do seu desenvolvimento. Da mesma forma, também é verdade que Outubro estimulou movimentos anticoloniais e, após a vitória sobre o fascismo, revoluções anticoloniais que transformaram o quadro da comunidade internacional.

É raro hoje alguém negar a influência de Outubro e da presença da União Soviética sobre as sociedades capitalistas no mundo. A prática social da URSS tornou-se um estímulo para a afirmação, nessas sociedades, de muitas normas sociais de vida antes inexistentes ou consideradas simplesmente inaceitáveis. Atrasar-se com relação ao comunismo era inadmissível, perigoso. Eis a demonstração por absurdo: hoje, quando o exemplo social da Rússia se exauriu, em muitos países ocidentais entra em moda a política de arrrocho dos direitos sociais das pessoas, a tendência a resolver as questões da concorrência internacional no quadro da economia globalizada por meio de cortes na esfera social. No fim de contas, tal procedimento também pode se revelar perigoso. Mas, por ora, isso tem sido feito e com muita energia. Tal é, fundamentalmente, o lugar histórico da Revolução de Outubro e da União Soviética no contexto mundial.

* * *

Abordemos agora outro tema – o mais essencial da experiência dos 80 anos e as suas lições. Analisando essa experiência, podemos dizer que no século XX, tanto o sistema sócio-econômico capitalista, ocidental, quanto o sistema considerado socialista mostraram a sua incapacidade de resolver os problemas básicos da humanidade contemporânea. Na metade do século, esses problemas já tinham adquirido proporções globais e caráter de crise cada vez maior. A sua não-solução ameaça a própria existência da civilização terrestre.

Chegando ao fim do século, já podemos ver o balanço da existência e da contraposição dos dois sistemas. Um deles saiu de cena. O outro conseguiu resultados significativos, por vezes impressionantes na economia, com alto padrão de vida para a maior parte da população (nos países desenvolvidos). Mas, ao mesmo tempo, tal eficácia, subordinada à sua lei cardinal do lucro, do lucro máximo, revelou-se inconsistente na liquidação da pobreza de bilhões de pessoas. Em conseqüência, criou-se o problema global Norte-Sul, que paira como uma ameaça terrível sobre toda a comunidade mundial. A eficácia do mercado gerou uma crise ecológica global, que também representa ameaça à vida na Terra. Nos próprios países altamente desenvolvidos, a eficácia do mercado, ao multiplicar a produtividade e impor às pessoas uma psicologia consumista predatória, criou uma situação em que aumenta inexoravelmente a crise do desemprego para milhões de pessoas, com todas as suas dramáticas conseqüências sociais e morais.

Poderíamos continuar a análise do balanço da supremacia do capitalismo no século XX. Este, porém, é outro tema. Aqui, gostaríamos de refletir brevemente sobre como sair da crise geral do desenvolvimento mundial, que deixou para a História as tentativas socialistas de impedi-la e agora colocou também o próspero capitalismo diante da necessidade de uma transformação radical – no curso geral de um novo processo civilizatório que nos salve a todos.

Quais são os instrumentos necessários à formulação desse curso? A primeira questão, para a qual quero chamar a atenção, refere-se ao papel do Estado. A experiência do século XX, tanto no Oriente quanto no Ocidente, demonstrou: um Estado forte é necessário, inclusive para a execução das tarefas econômicas, para não falar já das tarefas sociais. No que se refere aos países totalitários, ou com eles parecidos, a questão é clara. Neles, em determinada fase, o Estado provou a sua eficácia econômica, embora por meios bárbaros, anti-humanos. Mas pode-se lembrar também o New Deal de F. D. Roosevelt e a regulamentação estatal experimentada nos anos de guerra e subseqüentes em países da Europa e do Sudeste da Ásia. Não levar o Estado em consideração, como fazem agora os admiradores da mão invisível do mercado, é insensatez, principalmente face aos problemas do século XX, quando um alto grau de organização é imprescindível a qualquer sociedade. A mesma experiência do século demonstra também que o papel do Estado não pode ser hipertrofiado. A sua transformação em dono de tudo e de todos, em proprietário monopolista, até único, e regulador absoluto da vida, leva à bancarrota.

Encontrar a melhor relação entre o papel do Estado e a autogestão civil, e a combinação dos papéis do Estado e do mercado, constitui tarefa para todas as sociedades, para todos os países que levam em conta a época em que vivem.

E aqui, o principal – a questão da democracia, da democracia na economia e na política, em toda a prática social. Creio que uma das principais lições desses 80 anos que se encerram é o papel decisivo da democracia como o princípio mais substancial de garantia de uma constante vitalidade social. A União Soviética, no final das contas, chegou a um impasse justamente pela falta de democracia e pelo seu esmagamento dentro de suas fronteiras. A crise dos sistemas políticos do Ocidente é resultado da esterilização da democracia sob a aparente manutenção das regras do jogo.

As formas contemporâneas de democracia e a sua essência, adaptadas às condições dos vários países e regiões, constituem a questão política central tanto do presente quanto do futuro. Evidentemente, dada a diversidade do mundo contemporâneo e dos diversos estágios de desenvolvimento econômico e político dos quase 200 países existentes, a resposta não pode ser única e igual para todos. Mas, a julgar pela experiência desses 80 anos, em princípio, essas questões se colocam em toda parte.

Agora possuímos, à luz dessa trágica experiência, critérios suficientemente ponderáveis para avaliar o sistema econômico, os regimes sócio-políticos, as suas possibilidades e a realidade das suas perspectivas para caminharmos com mais segurança em direção ao futuro.

Por mais complexa que tenha sido a História, ela se realizou. O tempo não volta atrás, avança sempre. Mas qual será o lugar da idéia socialista no futuro? Para responder a tal pergunta, começarei por comentar o período da perestroika.

Nas primeiras etapas, nós, inclusive eu, dizíamos: a perestroika é o ressurgimento e a depuração das idéias de Outubro, a sua realização na prática. Hoje eu diria que tal afirmação continha tanto uma parcela de verdade quanto uma de ilusão. A verdade consistiu em que nós realmente queríamos devolver o poder ao povo (tirá-lo da nomenklatura burocrática), enraizar uma verdadeira democracia popular, superar o alheamento das pessoas com relação à propriedade, consolidar na prática a justiça social. Já a ilusão consistiu em que eu, como a maioria, supúnhamos: nós podemos atingir esse objetivo aperfeiçoando o sistema existente. No entanto, logo ficou claro: a crise, que atingiu o país no fim dos anos 70 e início dos 80, não tinha caráter parcial e sim caráter sistêmico. A lógica do desenvolvimento levou à necessidade não de aperfeiçoar o sistema, mas de intervir em suas próprias bases, modificando-as. O limiar foi a XIX Conferência do partido, que em 1988 tomou a resolução de promover uma reforma política democrática.

A perestroika deu os maiores passos nessa direção. Ela destruiu as bases do totalitarismo. Consolidou normas democráticas (eleições livres, pluralismo político) e liberdade de pensamento e religião no país. Deu também os primeiros passos para substituir a forma estatal única e imutável da propriedade pela diversidade das suas formas, iniciando a transição para a economia de mercado. A transição para novas relações sociais foi iniciada de forma gradual, reformista, pacífica. Somente mais tarde, após a desintegração da União Soviética, começou a prevalecer na Rússia outra estratégia, de choque. Estratégia, classificada por mim, mais de uma vez, de neobolchevismo, capaz de provocar muito derramamento de sangue, o que aconteceu também mais de uma vez.

O curso dos acontecimentos e a evolução das reformas depois de 1992 fizeram-me refletir profundamente sobre muitas das questões que, antes até do advento da perestroika, pareciam perfeitamente claras. Entre elas, o que é o socialismo? Qual é nosso objetivo? Não descreverei todas as etapas de minhas reflexões, mas a conclusão delas decorrente é a seguinte: qualquer desenvolvimento só é possível se existir diversidade interna. A consecução de um ideal, como conseqüência da vitória de uma das tendências ou correntes existentes e da eliminação das outras, conduz qualquer sistema à crise e à ruína. Assim, o esmagamento do pluralismo político na URSS, a liquidação de todos os partidos não-comunistas e, depois, a introdução da identidade de pensamento repressiva no próprio partido comunista constituíram a virada decisiva para o totalitarismo. A conseqüência foi a eliminação real da igualdade de direitos das nacionalidades, a supercentralização da administração e a unificação ideológica do modo de vida dos diversos povos, de sua espiritualidade sob a capa de um demonstrativo internacionalismo. O resultado é conhecido.

Do exposto, concluo: é equivocado e sem perspectiva buscar a criação de uma sociedade com base em princípios exclusivamente socialistas. É chegada a hora de pensarmos com categorias mais gerais a toda civilização. Estou convencido de que a nova civilização inevitavelmente assimilará alguns traços peculiares ao ideal socialista, pois esse ideal existe há séculos e reflete as recônditas aspirações e os sonhos do homem. No entanto, ao longo dos séculos, tanto na consciência social quanto na política, foram elaborados diversos pontos de vista – conservadores e radicais, liberais e socialistas. Existem individualismo e coletivismo. Tudo isso é realidade, e em toda parte. A busca da síntese desses fenômenos, opiniões e tendências, e da sua melhor interação, segundo critérios rigorosamente humanistas, eis o que assegurará o nosso avanço a uma nova civilização

Pode-se perguntar: mas e a Revolução de Outubro? Ela foi e continua a ser um dos maiores e inesquecíveis marcos de viragem da História Universal. As suas lições, bem como as lições do desenvolvimento subseqüente do meu país servirão, espero, à causa do progresso social. Elas são ensinadoras e devem ser aprendidas e pensadas (no seu sentido real, não ao sabor das conjunturas) por todos os que buscam o bem-estar das pessoas e desejam prosperidade e paz para a Humanidade.

 

 

Mikhail Gorbachev foi presidente da Rússia e articulador da perestroika e da glosnost.
Tradução de Noé Silva. Revisão de Lenina Pomeranz. O original em russo – Oktiabr, kak veka souremenoi istorii – encontra-se à disposição do leitor no IEA-USP para eventual consulta.

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